02/11/2015

ZÉ DO CAIXÃO


Estreou neste final de semana no MIS em São Paulo a exposição À Meia Noite Levarei Sua Alma, sobre o cinema de Zé do Caixão. Trechos de filmes, objetos de cena, figurinos e roteiros são apresentados numa espécie de labirinto, que é finalizado com um pequeno trem fantasma. Eu e Murilo fomos no sábado mesmo, na abertura, receosos se conseguiríamos entrar sem convite, visto as filas absurdas que têm se formado nas exposições do MIS (Kubrick, Bowie, Castelo Ratimbum e afins). Estava completamente VAZIA, talvez pelo feriado, talvez pelo tema. Conseguimos ver tranquilamente e ainda assistir a um debate em seguida.

A exposição, na verdade, não é grande coisa. Pequena, apresenta algumas curiosidades aos fãs, mas não creio ser muito didática a quem não conhece bem o universo do personagem e de seu criador. De toda forma é uma homenagem justa a José Mojica Marins, grande cineasta que nem sempre é bem compreendido.

O debate girou um pouco em torno disso - com Liz Marins (a filha do homem), Paulo Sacramento (que produziu o último filme de Mojica, "A Encarnação do Demônio"), Virgílio Roveda (assistente de direção) e Marcelo Colaiacovo (curador da mostra), mediados por Carlos Primati, jornalista especialista em horror. Discutiu-se muito sobre o reconhecimento de Mojica no Brasil e exterior. Primati apontou bem a falácia sobre as injustiças em relação a Mojica. Apesar de estar longe de ser uma unanimidade, poucos cineastas brasileiros têm tanta repercussão, receberam tantas homenagens e prêmios e são tão conhecidos (se não "reconhecidos") e cultuados como Mojica. A exposição no MIS é um dos exemplos disso.

O debate (foto de Patty Fang) (Mojica está bastante debilitado e não foi ao debate - mas soube que fez uma rápida aparição no MIS, mais tarde, quando já havíamos ido embora). 

Discutiu-se bastante também o rótulo de trash que o personagem e o cinema de Mojica receberam. Eu concordo em termos - embora os fãs exaltem o diretor como "gênio", o caráter artesanal de seu cinema às vezes resvala no trash das atuações, dos diálogos. Isso não tira o mérito de Mojica como criador. Há antes de tudo uma personalidade muito forte em seu cinema; ele conseguiu criar um universo próprio e fazer horror nacional de verdade. O clima surrealista, de pesadelo, que Mojica confere ao seus filmes é, ao meu ver, seu grande trunfo; e clima é o principal que um filme de terror precisa ter.

Por esses motivos o meu favorito é "Esta Noite Encarnarei no Seu Cadáver", o segundo da trilogia do Zé do Caixão. É bem divertido e tem um clima de insanidade além dos padrões. Estou longe de ser um especialista na obra dele, mas todo filme novo que assisto, me surpreendo com a ousadia. Fui assistir "A Encarnação do Demônio", no cinema em 2008 com um certo cinismo, meio preparado para achar engraçado, e me deparei com uma obra pesada, em grande sintonia com o melhor cinema de horror alternativo atual. Ao meu ver, o pior do filme é Mojica como ator, que por vezes se torna risível, e traz o carimbo de trash à película.

E as homenagens a Mojica não se restringem à exposição. Agora em novembro estreia no Space a série de TV baseada na carreira dele, com Matheus Nachtergaele interpretando-o e alguns amigos queridos meus no elenco e produção. Ainda não vi, mas estou ansioso.



Também será relançada a biografia de José Mojica Marins - "Maldito" - escrita por André Barcinski e Ivan Finotti, que eu tenho, li anos atrás e amei. Mas não perderei essa nova edição "de luxo" pela Darkside Books (que tem feito tanto pela literatura de terror no Brasil) com 200 páginas a mais (provavelmente atualizando a biografia até os dias atuais).

Olha que beleza de edição. 

E quem quiser se aprofundar ainda mais na carreira de Mojica pode participar do curso sobre o cinema dele, ministrado pelo Carlos Primati, também no MIS, a partir da próxima segunda. Já fiz dois cursos com Primati (de cinema de horror em geral e de cinema de horror nacional) e sempre é fascinante; o cara é um profundo conhecedor e apaixonado pelo tema. Informações aqui:
http://www.mis-sp.org.br/icox/icox.php?mdl=mis&op=programacao_interna&id_event=1957



Espero que tudo isso contribua com o espaço para o horror nacional, na literatura, no cinema. Eu cada vez mais tenho me entregado ao gênero (o filme de BIOFOBIA que estamos fazendo é afinal terror psicológico; meu próximo romance também será) e vejo com alegria amigos e colegas criando uma nova cena para todos nós.


26/10/2015

ADMIRÁVEL VELHO MUNDO

Tio San em Londres. 

"O mundo de que eu gosto está deixando de existir", constatou minha mãe dia desses. Ela esteve em Nova York, antes de me encontrar em Paris, e atualizou sua visão das cidades, agora com menos livrarias, livros de qualidade discutível, menos cultura. Envelhecer tem muito a ver com a incapacidade de readaptação, prender-se "ao mundo que não existe mais", assim é que saem as frases que começam com "no meu tempo…"


A cidade em que William Blake nasceu não existe mais.

E eu entendo. Tive sensação semelhante, talvez em menor grau, ao vir agora para Londres. Há mais de uma década que morei aqui, trabalhei como barman numa boate, tinha vinte e quatro anos e a cidade era outra.

Reencontrei a querida Rebecca, com quem trabalhei no Ghetto em 2002. 

Para mim Londres sempre foi muito associada à música, meus maiores ídolos, meus discos favoritos, Suede, Bowie, Morrissey, Siouxsie, Pulp, Eurythmics… Aqui comprei centenas de discos, singles, conheci pessoalmente alguns desses artistas. Então para mim é inconcebível uma Londres sem loja de discos, ainda que o disco já pertença a um mundo "que está deixando de existir".

Perguntei ao meu amigo Márcio Custódio (dono de loja e ativista do vinil em São Paulo) onde ainda podia encontrar boas lojas de disco (vinil e CD) por aqui. Das outras vezes que estive em Londres, ainda existiam mega lojas como Virgin, Tower Records, o paraíso de qualquer fã de "britpop". Agora resta um punhado de lojinhas escondidas, que parecem mais sebos do que lojas de novidades (Paris ao menos ainda tem as Fnacs com grandes seções de música - ou seja, estranhamente, é mais fácil comprar discos de artistas ingleses na França).

(Não por acaso, um dos discos que comprei foi a edição dupla de "The Inevitable End", do Roykopp, o título já anuncia o fim do formato - e eles declararam que foi o último "álbum" que lançaram, agora só faixas soltas em formato digital.)

Não que eu esteja tão desadaptado assim - todos os discos que acabei comprando eu já havia baixado há algum tempo. Mas baixar disco já está ficando ultrapassado em si. Semanas atrás, jantando na casa de minha amiga Vanessa Krongold (vocalista do Ludov), discutíamos sobre os serviços atuais de streaming. A isso eu ainda não consegui me adaptar - não entendo como essa coisa de precisar estar online para ouvir a música pode funcionar melhor do que ouvir num iPod, sem depender de sinal, conexão. Fora que quem ama a música quer ter, eu mesmo já perdi muita coisa em iPod sem backup que deu pau; se um serviço de streaming deixa de existir todas suas playlists vão embora para sempre… não?

Então já estou nesse mundo intermediário - baixo músicas, mas quando gosto quero comprar o "disco"; tiro fotos pelo celular, mas mando imprimir de tempos em tempos as favoritas. Quantos arquivos digitais vão resistir (e existir) daqui a vinte, trinta anos?

Eu sei, eu sei, sou um tiozinho...

Voltando a Londres, a cidade não tem mais loja de música (a música de Londres pode ser encontrada online, em qualquer lugar do mundo), mas ainda tem muito a oferecer. Fiquei impressionado em como a cidade está vibrante e cosmopolita. A quantidade de lojas, de gente, de ofertas. (Hoje de manhã me peguei vasculhando os 4 andares da loja dos M&M's, que além dos chocolates vende de tudo, de brinquedos a roupas, canecas e doces personalizados). Há também mais livrarias do que em Paris (por enquanto). Talvez tenha sido especialmente impressionante para mim por ter acabado de voltar da Armênia, um país ainda tão vazio, tão desprovido de turistas. (Lá ainda não tem nem MCDONALDS). Mesmo os pontos mais conhecidos da Armênia ainda são tranquilos de se visitar. Aqui é tudo tão excessivo...

Hyde Park

Apesar de tudo, Londres ainda preserva sua enorme quantidade de parques e opções de lazer ao ar livre. Ontem, passeando aqui pelo bairro (King's Cross) encontrei um "parque natural", com um foco todo na preservação da "vida animal urbana" (basicamente insetos, morcegos, alguns pássaros e anfíbios). Também encontrei o Regent's Channel, que leva até Camden Town, com patos, gente correndo, andando de bicicleta.

O canal

É deprimente pensar que São Paulo briga para ter opções como "abertura da Paulista", "fechamento do Minhocão". Alguns domingos atrás passeei com o Murilo no minhocão fechado e achei das coisas mais deprês da vida - talvez seja até melhor passar o domingo no shopping - um viaduto horrível, cinza, cercado de uns prédios pixados e detonados, parecia que eu estava num pós-apocalipse zumbi e o povo todo andando sem carro no asfalto tentando encontrar abrigo. Pobre paulista, pobre São Paulo.

Camley Natural Park

As vespas interditando o parque (!)
E é para lá que volto. A viagem agora está acabando. Amanhã de tarde pego o trem para Paris e de noite o vôo de volta ao Brasil. Embora eu ache que viagens profissionais, como autor, tenham mais sentido, foi bom ter sido turista. Caminhei muito em Londres, fiz ótimas refeições em Paris, Armênia foi o ponto alto. Volto com a conta bancária arrasada, mas a mala cheia de compras e presentes. Saudades do meu lôro e da coelha… (É, da coelha não tem jeito…)

A cidade, agora há pouco


22/10/2015

MAMA ARMÊNIA

Pagando meus pecados em grande estilo.
Como típico brasileiro, minhas origens são uma mistura incerta (que não deu lá muito certo), mas que, no caso da minha família podem ser rastreadas principalmente na Armênia. Meu lado materno vem de lá, de meus dois avós, filhos de imigrantes que vieram ao Brasil em diferentes momentos do genocídio causado pelos turcos (com auge em 1915).

O Monte Ararat é símbolo do país, pode ser visto da capital, mas atualmente está em território turco. 

Talvez tenha sido um trauma que atravessou gerações, mas estranhamente ninguém da família próxima, tios, primos, nem mesmo minha avó (que já nasceu no Brasil) nunca visitou o país, ainda que nossas origens armênias sempre tenham sido exaltadas.

Ararat da janela do meu quarto de hotel. 

Eu também demorei. Armênia se torna agora o 27o país que visito. E confesso que esperava menos - talvez um país mais pobre, talvez menos bonito ou menos interessante de se visitar. Mas vim a tempo.
A paisagem compensa. 

Apesar da crise, este foi um bom ano profissionalmente para mim. E me orgulho que minha literatura tenha me proporcionado isso, possibilitado que planejasse a viagem e convidasse minha mãe. Estamos muito bem instalados num hotel quatro estrelas no centro de Erevan, com uma bela vista do Monte Ararat. Aproveitamos esta semana para conhecer não só a capital como fazer uma série de excursões turísticas pelo interior - Lago Sevan, Tatev, Noravank, mosteiros e mais mosteiros…

Mosteiros e estradinhas...

No campo. 

Pegamos uma agência de turismo local e planejamos o que poderíamos fazer com o tempo que tínhamos; o passeio de ontem durou treze horas, num ônibus lotado de russos. As paisagens são magníficas, de florestas a montanhas nevadas, regiões semi-desérticas e vilas. O turismo aqui é muito baseado na religião (a Armênia foi a primeira nação cristã e resiste bravamente cercada pelo mundo muçulmano) e cansa um pouco ouvir os guias contando (monocordicamente) sobre as construções das igrejas, mas o visual compensa. É curioso conhecer a história daqui e, de certa forma, identificar como minha própria história, faz com que me sinta, em certo grau, menos turista. Eu passaria um tempo aqui.

Dona Elisa Nazarian perdida na neblina.

O povo tem aquele tipo caucasiano - as mulheres bem mais bonitas do que os homens. Como estou numa viagem familiar, e passei grande parte do tempo na estrada, não conheci o "fervo", mas também, pelo que sei, Erevan está longe de ser uma cidade boêmia. O clima está ok, um friozinho de outono. Só ontem que demos azar no teleférico de Tatev, que estava coberto com uma neblina absurda e praticamente não vimos nada.

Os carneiros parando o trânsito. 

Em termos culturais, a marca da união soviética (da qual a Armênia fez parte) ainda é muito forte. O russo é a segunda língua do país, a comida tem muito a ver com a de lá, e um pouco do temperamento. O povo não é muito simpático, ninguém fala inglês e eles não se esforçam para ajudar. Mesmo minha mãe, que é exemplo de simpatia e sociabilidade, fica constantemente no vácuo ao dizer bom dia ou tentar engatar uma conversa com alguém. Há aquela tentativa constante de enganar e tentar tirar mais dinheiro do turista, mas também me pareceu um país seguro.


Recorrendo ao cardápio turístico em inglês. 

Essas bagaças com nozes que vendem nas vilinhas são uma delícia. 

A capital é bem cuidada, ruas, canteiros, limpa, tranquila, bonita, ainda que longe de cosmopolita. Tem um clima europeu, talvez de cidade menor. Os supermercados têm uma ótima oferta - bem integrada ao resto da Europa - e as gôndolas enormes de vodca (armênia, russa e escandinava) me impressionam; acho que descobri de onde vem minha predileção. E, para se visitar, é um país barato.

Uma pequena amostra do paraíso das vodcas. 
Dona Elisa Nazarian também está positivamente impressionada, gostando bastante. É o que sempre digo para ela: bom que ela pode vir a tempo, enquanto ainda está andando, comendo com os talheres, raciocinando razoavelmente…

Elisa Nazarian reencontrando as origens.

Amanhã já volto para Paris, no final do dia pego o trem para Londres, onde fico sozinho por quatro dias, daí de volta para o Brasil. Não sei qual será o próximo país novo que vou conhecer - na lista de desejos estão Islândia, Tailândia, Austrália e Itália (onde até já publiquei livro mas, infelizmente, nunca fui convidado). Minha lista atualizada de países fica assim, em ordem alfabética:

ALEMANHA
ARGENTINA
ARMENIA
BELGICA
BRASIL
CHILE
COLOMBIA
DINAMARCA
ESCOCIA
ESPANHA
EUA
ESTONIA
FINLANDIA
FRANÇA
HOLANDA
HUNGRIA
INGLATERRA
JAPAO
MEXICO
NORUEGA
PERU
PORTUGAL
REPUBLICA TCHECA
RUSSIA
SUECIA
URUGUAI
VENEZUELA

Dona Elisa solta a franga, digo a pomba, no Lago Sevan.

16/10/2015

FELIZ EM FRANCÊS

Com minha mãe, em Paris.
Há algo de melancólico em Paris. Para além do charme, da beleza, da comida divina, há um clima cinza que não vem só do frio (e da chuva) que estamos passando esses dias. Talvez seja exatamente isso, o cinza. Esse concreto envelhecido de cidade histórica, que pede por mais vida.

Estou aqui há três dias. Minha mãe chegou há dois. Estamos a caminho de Erevan, na Armênia, nossa primeira vez e meu 27o país. Foi minha ideia e meu convite. Aproveitei que foi um bom ano de projetos e encomendas para mim e decidi que era hora de conhecermos a terra de nossos antepassados, uma das nações mais antigas do Cáucaso, ex república socialista soviética.

Quis começar por Paris porque, apesar de diversas passagens pela Europa, há treze anos que não vinha aqui. Na primeira tinha vinte e quatro, começando um mochilão pela Europa que iria me levar a Londres, onde acabei trabalhando alguns meses como barman. Em Paris, foi quase um mês, basicamente sendo um "club kid"- os dois primeiros dias de Louvre e turismo, depois só vi e vivi a cidade de noite, nos clubs, nos afters, pastilhando-me em delírios. Eu era jovem e tudo era lindo.

Reencontrando o Gary, amigo de 2002, de quando éramos "club kids".

 Agora reencontrei a mesma cidade e adorei ter vindo. Mas serviu também para reafirmar a mim mesmo como essas cidades "cosmopolitas" me estressam. Como lugares tranquilos, de praia, de natureza, onde eu possa praticar atividades físicas intensas, e ao mesmo tempo manter um ritmo mais tranquilo é bem mais meu ideal de férias. "Paris é a sua cara", diz muita gente que me conhece, mas não me conhece tão bem assim (basicamente, todos os meus amigos); agradeço porque creio ser um elogio, mas eu sou paulistano, vivi quase toda a vida em São Paulo, não consigo me seduzir por ruas movimentadas, transporte lotado e filas para o caixa.

Assim, Paris ainda perde feio para Florianópolis como minha cidade favorita no mundo.

Partimos para Erevan amanhã cedo. Vamos ver o que (me) identifico na Armênia. Ainda terei mais um dia em Paris na volta, e quatro dias em Londres.

Prometo passar por aqui.


E renovando meu culto por Wilde, no Père Lachaise.

12/10/2015

ARMAÇÃO ILIMITADA


A mesa com Tiago de Melo Andrade e Raphael Montes


Acabo de voltar de Búzios, primeira vez na cidade, a convite da Armação Literária, um evento ainda pequeno, mas feito com todo o cuidado pela prefeitura.

Com o "gigante juvenil", Tiago de Melo Andrade, autor e curador do evento. 

Tiago de Melo Andrade, que já havia me convidado para a Festa Literária de Uberaba, ano passado, foi o curador, e como sempre se desdobrou para fazer com que os autores se sentissem em casa. Faz toda a diferença.

A mesa encabeçada pelo "bêbado de palestra" na frente. 

Minha mesa foi com o Raphael Montes, mediados pelo Tiago, dessa vez mais focada nos roteiros e adaptações para TV e cinema. Acho sempre interessante esses debates abertos em praça pública, sujeitos a todo tipo de louco de palestra, bêbados de ocasião, curiosos em geral. Já garante um fluxo razoável. O nosso ainda aconteceu na noite de sábado, logo após a apresentação do Ziraldo, e tivemos de fato gente bem interessada.

Ziraldo domina: chegou, ficou sozinho no palco, soltando devaneios que eram aplaudidos por um público de crianças, professoras e perdidos em geral. 


Fora o festival, pude aproveitar um pouco a cidade, Murilo foi comigo, ficamos dois dias, muito bem hospedados no Hotel Pérola, e conseguimos fazer bons passeios de barco, um mergulho no sábado, piscina e refeições deliciosas. Achei a cidade lindinha, no nível certo entre o aconchegante e o "posh".

O mergulho de sábado. 

Só teria sido melhor não fosse a intoxicação alimentar que tivemos na madrugada de sábado, provavelmente de um sushi. Comemos todos o mesmo prato, mas só eu e o Murilo passamos mal, muito mal, vomitamos a madrugada inteira. Durante a crise, fiquei pensando que Ziraldo já estava morto, porque jantou com a gente. Mas fomos só nós dois mesmo. Assim perdemos a manhã de domingo, que ainda pretendíamos pegar praia.

Começamos assim. (Não foi esse que nos matou.)

O hotel. 


Carol, do marketing da Melhoramentos. Amiga frequente dos eventos literários. 

Mas as viagens de outubro estão só começando. Amanhã sigo para PARIS, de lá para a Armênia, com minha mãe. Posto tudo por aqui.





06/10/2015

O POP MALDITO



Joca Reiners Terron Santiago, existe algo em comum entre nós que é o fato de sermos identificados como escritores "pop". Em meu caso percebo desde o início que essa etiqueta sempre é usada de modo pejorativo, porém tenho a impressão que você enxerga isso de outra maneira, talvez benéfica (posso estar enganado). O que pensa disso?
Santiago Nazarian Curioso, Joca, eu tenho a mesma impressão a respeito de você. Digo, ao meu ver seu flerte com o pop é mais bem visto, você passa uma imagem de escritor de respeito, não só pela escrita como talvez pela questão da imagem em si, o visual, a idade, heterossexualidade, sua cara de mau. Eu percebo uma certa resistência à minha escrita não só pelos temas e pelo apelo pop assumido, como também pelo meu discurso, minhas tatuagens, humor, etc. De todo modo, isso talvez tenha me beneficiado de uma forma distinta da sua, formando um público leitor mais jovem. O complicado é estar sempre nessa fronteira, ser literário demais para ser comercial, e ser pop demais para ser levado a sério. É essa a minha veia, e minha esperança (ou utopia) é que aos poucos as barreiras, resistências e fronteiras venham caindo, até pelo tempo de carreira, os cabelos brancos que vão se acumulando, a decadência física que me leva a ser levado mais a sério.
Então, aproveitando a pergunta: o que espera, deseja e sonha para sua carreira de escritor a longo prazo?
Joca Reiners Terron Santiago, espero que você não esteja afirmando que sou levado a sério apenas por causa de minha decadência física. Já ouvi de um agente literário que não haveria maneira de meus livros interessarem a editoras estrangeiras, porque 1. sou feio; 2. não sou jovem. 3. meus livros são incompreensíveis. Nunca cheguei a entender se a afirmação foi essa mesma ou se tudo não passou de um equívoco linguístico ou erro de interpretação meu, afinal o agente estava interessado em me ajudar. Quanto à questão do pop literário, sempre o compreendi como uma etiqueta apressada. O mero uso de elementos da cultura popular de uma época determinada numa obra literária não torna essa obra pop, e poucos críticos se dedicaram a arrancar o tema da superfície. Por exemplo, dá pra inventar uma história de zumbi onde os mortos-vivos sejam escritores de terror como Machen e Lovecraft que voltaram para devorar cérebros de críticos literários. O resultado, acho, não seria muito pop, ou popular (pensando bem, talvez fosse). Das profundezas de minha decadência posso lhe assegurar, porém, que o teu futuro não será nada fácil. Primeiro, porque novos escritores surgem aos bandos todos os dias, e são todos bonitos e jovens e escrevem livros totalmente compreensíveis. Segundo, porque os livros, assim como seus autores, são considerados produtos, e nem sempre esses produtos devem ter a qualidade que nós, os velhos, gostaríamos que tivessem: que escrevam e contenham narrativas provocantes e um pouco loucas, que não tenham nenhum senso de responsabilidade ou de profissionalismo, que procurem ser originais, que transformem quem lê em algo diferente do que era antes de ler. Por esses e outros motivos não posso responder sua pergunta, pois só me considero escritor no tempo presente, enquanto estou escrevendo e onde o futuro não passa de ficção científica. É nestes momentos em que me sinto feliz.
Assim começou (por escrito) meu papo com Joca Reiners Terron, na série de encontros promovidos pelo Centro Maria Antônia, aqui em SP. Não estava entendendo o tom amargo de sarcasmo dele, até porque no mundo (literário) em que eu habito, os velhos ainda têm preferência e os jovens autores com ingresso permitido ainda têm de se adequar aos valores (e a decadência física) dos senhores. Felizmente, eu diria, porque acredito que, ao menos na literatura, o tempo age a meu favor.

O rótulo de "literatura pop" que Joca rejeita já me incomodou mais, no começo de carreira. Com o tempo eu decidi usar isso conscientemente para criar uma literatura com novas referências, novos universos, ainda que tratam de questões atemporais do existencialismo (o que rotulei de "existencialismo bizarro"). 

Ontem discutimos um pouco isso e além, com boa mediação de João Bandeira (o mediador marcado, André Conti, não pode vir por problemas familiares). Lemos trechos de nossos próximos romances e podemos responder perguntas de um público reduzido, mas interessado. Valeu.

Os debates seguem esta semana, em grande estilo. No fim de semana estarei em Búzios, na Armação Literária, numa mesa com Raphael Montes, mediado por Tiago de Melo Andrade. 

De lá, sigo quase direto para... Paris! De onde embarcarei para a Armênia com minha mãe (e Londres no final). 

Conto tudo por aqui.





03/10/2015

A VISITA



O filme de ontem foi "A Visita", terror bem divertido do Shyamalan. Um casal pré-adolescente vai visitar pela primeira vez os avós - que romperam com a filha anos atrás. Inicialmente o desconforto se dá pelos horrores típicos da velhice: conservadorismo, senilidade, fraldas geriátricas. Aos poucos os dois irmãos começam a suspeitar que possa haver algo de mais sinistro com seus avós...

Os protagonistas mirins me irritaram deveras. O terror muitas vezes resvala no trash. E o recurso de "found footage" em que o filme é apresentado é falso e desnecessário. Ainda assim tem uma história inventiva com diferentes camadas de interpretação. Bacaninha.

25/09/2015

ESTATUTO



Família é papai e mamãe. Papai e mamãe já têm direitos garantidos. É bom separar para garantir o que é dos solteiros, abandonados, dos viúvos. Tire as famílias e olhe para os idosos, homossexuais, moradores de rua. Você nunca foi de família, então busque ser respeitado como indivíduo. Quem precisa de proteção especial é quem está sozinho. A família não precisa ser reconhecida.

18/09/2015

QUE HORAS EVA VOLTA?



Há poucas semanas, publiquei aqui no blog a microcrônica (argh!), Eu Não Bato Panela, que retrata uma realidade que poderia ter visto no filme de Anna Muylaert, mas que conheço a vida toda, então descrevi mesmo antes de ver o filme.

Cresci em casa com empregada - na maior parte do tempo, duas empregadas que moravam no quartinho dos fundos. Não usavam uniforme, eram "praticamente da família", uma delas, a Eva, era minha "mãe preta", assim se chamava. Grande, gorda e negra, cuidava de mim e de minha irmã enquanto minha mãe trabalhava fora.

Apesar do tratamento humano, era uma típica relação patrão-empregada, a qual hoje se vê cada vez menos. Para mim, na infância e adolescência, era normal. Para as empregadas, devia ser ainda mais.

Anos depois, morando sozinho, trouxe uma antiga faxineira de casa, a Antônia, para fazer limpezas semanais. Era de confiança, ela limpava e eu cozinhava, ela comia na mesa comigo, mas estava longe de ser "da família". Tentei manter com ela uma relação profissional, e fracassei miseravelmente. Antônia "não sabia o seu lugar."

Quando me mudei para Florianópolis, descobri que Antônia, cearense com mais de 60 anos, nunca tinha visto o mar. Convidei-a para passar um final de semana comigo, passagem paga, hospedagem na minha casa. Antônia relutou em "viajar com o patrão". Aceitou sem entender muito bem o que deveria fazer, se deveria trabalhar. (Contei tudo aqui)

Antônia voltou a trabalhar na minha casa quando voltei a morar em São Paulo. E já não funcionava mais. Começou a vir quando eu dizia para não vir. Passou a pegar escondido roupas minhas e levar para sua casa, para lavar. Um dia, voltando de uma viagem, encontrei-a limpando meu apartamento num dia não combinado, sem receber seu salário. Discuti que não era para ela vir assim. Ela nunca mais veio. Liguei na semana seguinte e ela não atendeu. Depois deixou recado que não viria mais.

A verdade é que a relação com empregada doméstica é algo difícil de administrar. Mora na sua casa, mas não é da família. Busca-se uma relação estritamente profissional, mas é impossível não ter uma relação pessoal com quem vive com você. Não acho um relacionamento saudável e desde então desisti de ter faxineira em casa - até porque não trabalho fora. Estou longe de dar conta da limpeza da casa, mas também não dou conta de alguém passando aspirador enquanto escrevo.

Na Europa ninguém tem empregada em casa, isso é exaustivamente repetido, e é verdade. Verdade também que em geral as casas não são tão limpas, tão arrumadas. Lembro de meu apartamento em Helsinque, que eu até conseguia manter mais limpo do que aqui, mas lá as janelas não abriam, não entrava poeira, eu não tinha tantos livros, tantas coisas, a cozinha tinha uma lava-louças, o frio escandinavo tem menos germes...

Penso em tudo isso semanas depois de assistir a "Que Horas Ela Volta?" de Anna Muylart, belíssimo filme que ainda ecoa por aqui. Tudo é muito identificável - tanto que no começo fiquei na dúvida se a casa usada de locação era a antiga casa de um tio, no Morumbi. As atuações estão todas estupendas, incluindo a do meu querido amigo Lourenço Mutarelli, embora eu ache que a ótima atuação de Regina Cazé destoe um pouco (no registro cômico) do resto do elenco.

Minha avó foi dessas também que viveu a vida toda com empregadas, que usavam uniforme, vinham quando ela tocava um sininho (!); "ninguém pode dizer que sou racista porque todos meus criados são de cor", é uma frase clássica real dela. Meses atrás, teve de ir morar numa casa de repouso. As empregadas foram dispensadas. Clarice, que trabalhava há mais de quarenta anos com ela, foi diagnosticada com câncer e morreu em poucas semanas, depois de sair da casa. Para mim foi o símbolo de uma estranha simbiose, que já estava com os dias contados.


16/09/2015

AGREGADOS DO REALITY

Ontem, na "cozinha mais famosa do Brasil" (em foto da querida Masterchef Larissa)

Estive ontem na final do Masterchef Brasil, na Band. Depois de meses de expectativas, torcidas e festas, o evento foi bem mais miado do que eu esperava, mas valeu.

Já era fã da temporada anterior, assistia sempre com o Murilo, por isso ele decidiu se inscrever. Depois de selecionado, me tornei marido de mis(ter), e é um equilíbrio delicado para mostrar apoio e parceria, sem se tornar parasita do sucesso do outro. Entrei nos bastidores do mundo dos realities e das subcelebridades como acompanhante, não é meu mundo e não tenho mérito (ou culpa) nisso. Ser esse "mais um" é desgastante - Murilo já está acostumado a ser o meu "mais um" no meio literário - então compareço quando acho que ele precisa de mim, prefiro não ir quando ele está fazendo sua função.

O Ibis promoveu uma competição paralela com alguns dos participantes. E nessa Murilo foi o vencedor!

Murilo já engrenou nos eventos, jantares, trabalhos publicitários e está tirando uma graninha com isso. Fez seu canal no Youtube (o "Murdidas", segue lá). Domingo participou de uma feira de rua com Jiang, Fernando e Aritana - fui dar uma força para carregar todas as coisas e acabei ficando um tempo cobrindo o caixa (foi divertido até, lembrei dos meus tempos de barman). Segunda ele fez um jantar fino para convidados pagantes, daí não vi sentido em ir.

Domingo, trabalhando com eles e meu pequeno ajudante (filho da Aritana). 

Os participantes se tornaram amigos de fato - nós, os maridos e mulheres, também; por mais que venhamos de meios completamente diferentes temos em comum essas experiência de "agregados do reality." Temos de lidar com uma exposição muito intensa, repentina e passageira - o assédio de nossos parceiros nas ruas é grande, nas mídias sociais é cruel, e gera toda uma nova euforia e frustração, essa corrida por "números de seguidores". Mexe com o ego de formas irracionais. Por mais que sejam grandes cozinheiros, conquistaram "fãs" por terem exposição suficiente na televisão - e alguns se encantam com seus defeitos, alguns se encantam com seus carismas. O público se considera íntimo ou mesmo dono deles. Murilo recebeu de pedidos de casamento a xingamentos e gente sugerindo com quem ele deveria namorar. Dia desses, na Augusta, um cara bêbado o agarrou por trás: "Você é do Masterchef!" Eu o afastei, falando para não encostar, ao que o cara respondeu: "Quem é você? Você não é ninguém!" É um mundo louco, mas é a real dos realities...

(Fico pensando em quem é cozinheiro há anos e não tem esse reconhecimento - como o pessoal da feirinha de domingo, que trabalha dia a dia com isso; as barracas deles estavam às moscas, a fila da barraca do Murilo com a Jiang dava voltas...)

Os "anônimos" (esquerda para direita): Namorada do Fernando, marido da Jiang, namorado da Izabel, namorado do Murilo, mulher do Rodrigo, namorada do Gustavo, marido da Aritana, namorada do Raul. "Por trás de grandes cozinheiros há sempre grandes comedores."

Apesar de tudo, na maior parte do tempo, acho divertido, principalmente por gostar do programa. E para mim é uma nova experiência a que posso assistir com mais conforto do que ele. Certamente não gostaria de estar na posição inversa.

Tive meus 5 segundos no programa de estreia, e foi o suficiente. 

Então ontem fui com ele assistir ao último programa. Foi um esquema bem esquisito - três estúdios com três arquibancadas: a cozinha onde só rolava a apresentação e o resultado ao vivo; um estúdio com a Preta Gil, que ficava isolada só com twitteiros, e basicamente não servia para nada; e a arquibancada onde ficava geral, amigos e torcida dos finalistas, nós os parentes dos participantes, gente sorteada para assistir ao vivo, que entrava de vez em quando só para mostrar a torcida. Os participantes eliminados não ficaram em nenhum estúdio, assistiram dos camarins (?). Só no final foram liberados, daí fomos com eles para a cozinha.

Então não teve muito sentido ir até lá, chegar horas antes com os participantes, para ver por um telão (até porque o programa foi quase todo gravado). Mais sensato seria eles terem feito uma arquibancada com todo mundo, Preta Gil animando a galera, anunciar o vencedor ali, diante da torcida.

O resultado foi ao vivo e bastante inesperado. Posso assegurar que ninguém lá - desde os participantes até a maior parte da produção - sabia o vencedor. Jornalistas de fofoca até vazaram a informação, mas ninguém tinha certeza se era verdade. Um pequeno núcleo do programa foi quem decidiu, então de lá é que deve ter vazado. 

Encerramos a noite com o pé na lama. 
Encerramos a festa... sem festa. Para um programa que teve a repercussão do Masterchef (passando em alguns momentos a Globo na audiência) a Band foi bem pobrinha - não ofereceu nada no final. Saímos de lá para um BOTECO na Vila Madalena, inclusive Raul, Izabel e Fogaça. Cada um pagou sua conta.

A próxima temporada assistirei mais confortável.
Agora para tudo!



06/09/2015

CANADÁ

Resenha que assino na Folha deste final de semana: 

A princípio pode soar irônico que um romance tão "estadunidense" (para usar o termo odioso mais preciso) como esse de Richard Ford se intitule "Canadá", principalmente porque as primeiras 215 páginas se passam inclusive no norte dos Estados Unidos, retratando muito do "american way of life". Porém, ao se analisar a obra como um todo, identifica-se uma hábil estrutura dividida em duas partes –Estados Unidos de um lado, Canadá do outro, como o Estado de Montana e a província de Saskatchewan, respectivamente, que se espelham revelando suas diferenças– além de um curto epílogo.

O romance reflete sobre as identidades desses dois países por meio do olhar de um menino de 15 anos. Nos anos 1960, Dell vive com sua família: um pai sedutor e aventureiro, uma mãe fraca e resignada, e a impulsiva irmã gêmea. Sobrevivendo de negócios escusos, o pai arma um assalto a banco para saldar dívidas e acaba desestruturando toda a família. Dell tem de fugir para o Canadá, onde é empregado num hotel de veraneio por Arthur Remlinger, um refugiado americano que parece esconder um passado sombrio.

O que poderia ser um romance de formação mais se encaminha a um romance de deformação, com perdão do trocadilho. Sem uma identidade bem definida, o protagonista adolescente, ainda bastante infantil, procura entender a história das figuras paternas que o rodeiam, que parecem sempre entregues à atração americana por "armas e violência".

O fascínio pela hipermasculinidade e a exaltação da beleza física dos homens adultos no romance (em detrimento da personalidade esmaecida e assexuada de Dell) geram uma latência homossexual constante, que vai além do meu olhar viciado. Há inclusive um personagem indígena que coloca isso em cheque, contrastando práticas "viris", como a caça e morte de animais, com maneirismos afeminados.

A forma muitas vezes indireta como são narrados os acontecimentos do romance (principalmente na primeira metade) o aproximam bastante da leitura de uma biografia –talvez a razão pela qual Ford procurou deixar claro na primeira parte que "'Canadá' é uma obra de imaginação".

Isso torna o começo do romance um tanto quanto cansativo, porém seu desenvolvimento é recompensador. Canadá daria um belo filme de Clint Eastwood.

Único escritor a ter ganho o Prêmio Pulitzer e o Pen/ Faulkner pelo mesmo livro, o americano Richard Ford trouxe uma visão crítica, porém profundamente humana, sobre seu país.

CANADÁ
AUTOR Richard Ford
TRADUÇÃO Mauro Pinheiro
EDITORA Estação Liberdade
QUANTO R$59 (456 págs.)
AVALIAÇÃO bom

PRÓXIMAS PARADAS

Semana que vem, em BH. Seguem os lançamentos. Semana que vem estarei em BH, para mediar um bate-papo com o querido Marcelo Nery, que está la...