07/02/2017

MINHA MÚSICA






A banda Sasha Grey as Wife acaba de lançar disco novo, com o pomposo nome de “Ashtar Sherran I: Terra”. A banda é projeto de um homem só, Júlio Victor, de Volta Redonda, com participação de mais de trinta músicos e artistas, eu entre eles.

Júlio. 

Não conhecia o som dele, mas ano passado ele aparece na minha caixa de mensagens do Facebook me pedindo uns versos e uma locução para uma das faixas do disco a ser lançado, baseada em BIOFOBIA. Me mandou uma demo, gostei bem do que ouvi e sofri para escrever e gravar algo com minha voz sofrida.

Das cinzas ao pó
Do pó se brota
Sementes irrompendo da terra
Cogumelo rompendo da bosta
Se a natureza é mãe, é má
A natureza é madrasta
Para se adestrar a mata
É preciso poder, é preciso podar
Derramar sangue, suor e ter fé
Fé no Inferno

 “Biofobia – Freak Fiction” é apenas uma das onze faixas que fazem parte desse novo trabalho, que mistura pós-punk, shoegazer e metal com spoken Word. E o álbum é ÓTIMO.

Além de grande guitarrista e compositor, Júlio Victor é um poeta. Se pouco se pode compreender do que ele canta em inglês, as declamações em português são incríveis, como em “Iphone Simulator 97” em que ele despeja rajadas sobre uma ex-pretendente ou em "Trans Crux" em que ele faz uma crítica mordaz à religião em crônicas cotidianas. 

Fiquei orgulhoso de fazer parte do disco. Mais do que ser reconhecido pelos consagrados, é lindo ver que estou ecoando em novos talentos. Significa que a coisa permanece e pode ir além...

O disco pode ser ouvido na íntegra aqui: Sasha Grey


Não é a primeira vez que participo de uma dessas. Minhas parcerias com amigos queridos da MPB (Arthur Nogueira, Thiago Pethit, Filipe Catto), nunca saíram do papel, mas já tive boas experiências no meio alternativo, como letra e locução no disco da extinta banda de metal Last Pain (“Drama Queen”) e, claro, a letra de “Mastigando Humanos”, para o primeiro disco solo do pós-emo Daniel Peixoto, que acabou sendo batizado por mim.

Engolindo o underground
de Artur Alvim a Ana Rosa
se a morte é inevitável
que então seja saborosa

Lipídios, glicídios, suicídios na minha janta
Mendigos, meninos, bem-vindos à garganta.

Mastigando Humanos
Mastigando, hermanos
Mastigando, manos
Mastigando

Se o crime é arriscado,
mesmo pra forrar despensa
Abra a boca e feche os olhos
no fim, o creme compensa

Já dizia titio Freud,
tudo é sexo, tudo é oral
Para um réptil como eu
rastejar não é tão mal

Lipídios, glicídios, suicídios na lancheira
Carpaccio, cachaça, canudos na carreira.

Mastigando Humanos
Mastigando, hermanos
Mastigando, manos
Mastigando




Minha relação com a música é mais profunda do que meu talento musical, infelizmente. Estudei piano na adolescência, e cheguei a tocar teclado numa banda de glam rock no final dos 90, entre os 19 e os 21 anos. Lá eu só compunha melodias – mas a banda estava longe de ser boa, é claro. Depois segui num projeto solo, uma espécie de proto-Tetine, que era pior ainda. Mas me orgulho das gambiarras que fazia na época. Com um teclado Yamaha, vários cabos e um gravador analógico em K7, eu conseguia gravar músicas com vários canais vocais... bem, se é que se podia chamar aquilo de “músicas”.

Eu, pianinho. 

Minha experiência mais profissional na música foi como compositor de jingles. Ao menos, fui pago por isso e as músicas foram ao ar nas maiores rádios do Rio Grande do Sul. Quando trabalhava como redator publicitário em Porto Alegre (entre 2000 e 2002) criei algumas dezenas de letras de jingles para Zero Hora, Telefônica Celular, Leite Elegê. Era o que me dava mais prazer naquele trabalho, apesar de todas as limitações do formato. Ainda tenho os jingles em MP3.  Eles entram como merchans no shuffle do meu iPod.

O mundo não para quando você está de férias
Cultura, economia, diversão e coisas sérias
No carro, na praia ou na beira da piscina
No litoral gaúcho ou de Santa Catarina

O mundo gira, não dá pra ficar de fora
O mundo viaja com a sua Zero Hora
O mundo gira, não dá pra ficar de fora
O mundo viaja coma sua Zero Hora

Locução: Neste verão, receba Zero Hora também no Litoral.
Ligue XXXXXXXX e assine.

Ou

Não se sinta só se está sozinho
Se estou longe estou a caminho
Perto, estou bem acompanhado
Sempre caminhando ao seu lado

Nunca é tarde se há um segundo
Temos todo o tempo e todo o mundo
Conversando mesmo sem assunto
Divertindo ou trabalhando juntos

Olha pra mim, se não me vê
Estou a um alô de estar com você
Olha pra mim, se não me vê
Estou a um alô de estar com você

Locução: Telefônica Celular, a sua melhor companhia.

E tem o melhor de todos... que acho que encerrou minha carreira:

O bezerro pasta, mas é o pardal que voa triste
Por não poder mamar e viver comendo alpiste
O caranguejo tem desejo de viver como um cão
Pra tomar leite contente mas não é cachorro não

O peixinho dourado não quer ser só enfeite
Quer ser livre como um gato e poder tomar seu leite
Quem não chora não mama, quem não mama quer beber
Um copo, dois copos, três copos de leite Elegê.


Locução: Leite Elegê, até quem não é mamífero gosta. 


Tenho vontade de trabalhar mais com música. Comprar um teclado novo só para brincar. Escrever algumas letras. Mas nos tempos atuais a gente se concentra mais no que vai pagar o almoço de amanhã...

Sim, isso é real. Sim, isso foi publicado. 

02/02/2017

MINHA VIDA COM SAMARA


Em 2002, logo após assistir ao primeiro “O Chamado” no cinema, fui pesquisar mais pela internet. Os tempos eram outros, e muitas das informações sobre o filme vinham de blogs falsos, que diziam que a trama era baseada numa história real (ou numa lenda urbana). Um dos blogs dizia ter as imagens originais da fita que inspirou o filme – e alertava para o risco de assistir.

Eu naturalmente assisti. Era um vídeo parecido, mas diferente do que tinha visto no cinema, mais curto, com uma pegada mais oriental. E quando o vídeo acabou, o telefone tocou.

Eram três horas da madrugada.



Eu estava na casa da minha mãe, ela atendeu no quarto dela. No dia seguinte, perguntei se o telefone tinha mesmo tocado. Ela confirmou, e disse que ninguém falou nada do outro lado.

Mais do que uma crença na maldição, na época fiquei me perguntando se haveria possibilidade de o próprio site fazer uma coisa dessas, hackear o número de quem havia dado play. Por via das dúvidas, passei o vídeo para frente, claro.

Sete dias depois, ninguém morreu.



Não só por isso, “O Chamado” permaneceu para sempre como um dos meus filmes de terror favoritos. Cheguei a comprar a versão original japonesa, mas, talvez por ter assistido depois, não teve o mesmo impacto (ao menos descobri que dela é que havia sido tirado o estranho vídeo que assisti naquela madrugada). A versão americana tem suas falhas, claro; acho a maior delas mostrar o rosto infantil da Samara, que deveria ter sido guardado apenas para a cena demoníaca final. Mas o clima, a fotografia, a fita e a investigação são imbatíveis.

Comprei também o romance que deu origem a tudo (traduzido para o inglês), de Koji Suzuki. É mais uma ficção científica metafísica do que terror; tem toda uma explicação sobre as ondas de vídeo, os males que causam. Além disso Sadako (a Samara japonesa) é uma ADOLESCENTE HERMAFRODITA, não uma criança demoníaca. É ler para crer. 
Minha edição americana de "Ring", de Koji Suzuki.

A continuação de 2005 não me empolgou em nada. Detestei que abandonaram a premissa da fita e a ideia de que “Samara só precisa de uma mãe”. As sequências orientais eu nunca assisti.



Agora chegamos ao terceiro filme americano, que está sendo adiado há quase dois anos. “Rings” (que foi anunciado aqui como “Chamados” e depois virou “O Chamado 3”) é uma bagunça. Faz jus ao seu título brasileiro final, porque parece três filmes em um. Começa com uma espécie de culto cyber de seguidores de Samara (que vão passando a maldição de um para o outro) – uma ideia interessante, que derivou de um curta lançado entre o primeiro e o segundo filme, chamado justamente de “Rings”. (Ele pode ser encontrado com o nome “Círculos” no box em DVD com os dois primeiros filmes, lançado no Brasil.)

Entretanto essa seita é apenas um ponto inicial; dela o filme migra para mais uma investigação sobre o passado de Samara, com um casalzinho totalmente sem carisma, que não descobre nada de interessante, com um roteiro tosco de doer. No terceiro ato, o filme desanda de vez com um novo vilão. Sem dar muitos spoilers, parece cópia de outro filme de terror recente e perde totalmente o rumo.

Enfim, só não é uma grande decepção porque eu já esperava algo assim... Mas acho que esse consegue ser pior do que o segundo.

Alguns até eu me recuso...

Falta agora uma nova grande franquia para o terror americano. Nunca consegui me entusiasmar por “Atividade Paranormal” e menos ainda por “The Conjuring” e seus derivados. “A Entidade” era um que prometia, mas que também desandou na sequência. Quanto à Samara, parece que as sucessivas cópias desgastaram de vez sua imagem. 

Volta pro fundo do poço, menina...

22/01/2017

DE VOLTA AO SECO



Na piscina da minha nova casinha.

Estou de volta a São Paulo depois de um mês de praia, casa com piscina, almoços e jantares sofisticados num restaurante de primeira linha. Até parece que não há crise. 

Recebidos pelo chef Murilo de Oliveira no Guató. 

Mas não é bem assim... Este ano não pude esquiar em Aspen e tivemos de vender um dos barcos de papai...

Meu lindo namorado. 

Delírios à parte, a temporada de praia passou longe de um período de opulência. Murilo foi para lá a trabalho e eu segui simplesmente por não ter mais nada a fazer. Surfei na crise e aproveitei a falta de trabalho como férias estendidas, sabendo que uma hora teria de voltar à dura realidade. 

Camarões a dorê do Murilo, os melhores do litoral norte. 

Com a crise editorial, crise nacional, diminuíram muito as traduções, os frilas, e nesse mês inteiro só revisei os comentários da editora sobre meu livro novo e fiz algumas notas de rodapé a mais para minha tradução de Frankenstein (que sai nos próximos meses na coleção de clássicos da Zahar). 


Gaia também aproveitou a casa nova. 

O resto do tempo oscilei entre o tédio, a tranquilidade e a diversão. Melhorou muito depois que saímos do puxadinho ordinário em que estávamos e Murilo conseguiu alugar uma casa incrível num condomínio no meio da mata. Pude enfim convidar amigos de férias (que deram o cano) e receber a família. Veio minha mãe, minha irmã e sobrinha. 

Café da manhã na varanda de casa. 

Nos últimos dias foi só chuva, o que foi bom para aplacar o calor, mas passou um pouco da conta. Com quase uma semana seguida de chuva, numa casa no meio da mata, estava tudo permanentemente úmido, roupas mofadas, chão molhado. Minha sobrinha só conseguiu aproveitar um pouco a praia porque é garota destemida, foi com minha irmã no temporal mesmo, e passaram horas lá. Para mim já incomodava dormir em lençóis permanentemente pegajosos. 

Aqui em São Paulo, a realidade já é mais árida. 

Voltei para cuidar das coisas (e das contas) do apartamento, resgatar contatos, tentar iniciar 2017. As perspectivas não são nada animadoras para quem trabalha com cultura. Fico pensando o que mais eu poderia fazer, agora que prostituição não é mais uma opção. (E prostituição também é cultura) Poderia ficar cuidando de casa, se meu namorado bancasse. O problema é que ele gosta de ler...

Tenho talentos para o crime, que também não são lucrativos.

Seguimos num novo ano onde ao menos (para mim) haverá livro novo. Seguremos o fôlego. Em 2020 voltaremos a sorrir. 

Fechando livro novo com grande vista.

01/01/2017

VIRADAS



2016 já deu faz tempo...

Então vim há dez dias para Maresias, litoral norte de São Paulo, onde Murilo está trabalhando.

Trilhas. 

Ele veio há um mês comandar o Guató, restaurante do recém inaugurado hotel-butique Maui. Os donos há tempos o estavam sondando e o convidaram para o desafio. Murilo teve carta branca para criar o cardápio, contratar o pessoal; é um restaurante contemporâneo sofisticado, também com serviço de bar e de praia.

O cardápio dele de reveillon. 
(Mais do hotel e do restaurante aqui: http://www.mauimaresias.com.br/)


Apesar de todo o glamur, na prática ele está ralando todos os dias, de manhã até de madrugada, não só comandando os cozinheiros, mas na maioria das vezes pondo a mão na massa. Para ele tem sido uma grande experiência.

Com o restaurante fechado, fez nossa ceia de Natal. 

No Natal,  o movimento estava tranquilo então ficamos dois dias com o hotel literalmente só para nós, hospedados numa suíte master(chef). Com Murilo de plantão para os funcionários tirarem folga, ficamos na piscina tomando bons drinques e (o melhor de tudo) ouvindo minhas próprias playlists. Acho que nunca mais terei a experiência de ter uma piscina de hotel só para mim, tomando gin tônica e ouvindo Scott Walker.

"Se isso é estar na pior..."

Na última sexta, a querida gerente, filha do dono, também deu folga para o Murilo e nos convidou para passear de barco com alguns hóspedes, por ilhas próximas. Deu até para mergulhar e ver tartarugas (bem, uma tartaruga).


Reveillon Murilo passou trabalhando e eu participei da ceia do hotel como convidado, com os donos. Prestes a dar meia noite conseguimos todos sair para a praia.

Virada. 
O resto dos dias foram menos felizes. A praia é linda, a água é transparente, mas está quente demais e não tem muito o que fazer sozinho, enquanto ele trabalha. Murilo alugou temporariamente um puxadinho num lugar um pouco afastado, que parece a vila do Chaves, mas menos divertida. É lá onde estou ficando; é só um quarto e sala/cozinha, então não dá para convidar os amigos, infelizmente. E quando os vizinhos não estão ouvindo um eletrônico bagaceiro no último volume, o proprietário está martelando, serrando, lixando, seja 7h da manhã, seja 11h da noite. Não tem internet, ar-condicionado, televisão, nem dignidade. Murilo não está dormindo muito, pobrecito, mas acho que quem mais está sofrendo é nossa coelha, com o calor e o barulho.

Eu aproveitei para ler – quase um livro por dia, de Julián Fuks e Elvira Vigna às biografias da Rita Lee e João Gordo – e terminar de revisar meu livro novo.


Se conseguirmos um lugar mais tranquilo, fico mais umas semaninhas. Senão, volto para São Paulo na próxima semana. Não sei o que me espera por lá,  não sei o que me espera em 2017, mas temo. Temo que nada espere por mim.

Encarando 2017. 


16/12/2016

BEIJOS DO GORDO





Termina hoje o já "lendário" Programa do Jô, um talk show que estabeleceu um novo formato aqui no Brasil. Desde o final dos anos 80, quando estreou no SBT, mudou pouco, mas despertou todo tipo de reação, de cultuado a ridicularizado, de entretenimento cabeça a besteirol descartável. Apesar da produção requintada, os méritos todos sempre estiveram com Jô Soares. O programa era dele e era ele. Ele que conduziu milhares de conversas. Levantou centenas de carreiras, e também foi muito criticado por sua vaidade; constantemente parecia querer usar o entrevistado de escada para suas (requentadas) piadas. Porém não se pode negar o mérito de alguém que fazia três entrevistas por dia, trazendo desde personagens do povão até a alta intelectualidade.

Se a soberba intelectual do Jô por vezes gritava, hoje os talk shows são entregues à celebração da ignorância. Não temos ninguém com a gama de repertório para substitui-lo (nem parece mais haver espaço para isso). Bem ou mal, era o espaço mais democrático para a literatura (e as artes em geral) na TV aberta.

Hoje pipocaram entre meus amigos do Facebook fotos, lembranças e histórias de suas entrevistas no Programa do Jô. Foi um divisor na carreira de muitos e não posso negar que tenha sido na minha. Estive lá quatro vezes, além de uma reprise. E agora me pego lembrando de tantas histórias de bastidores…

VAMOS AOS PODRES!!!


- Quando estreou, no final dos anos 80, minha mãe era uma grande fã. Chegou a comprar uma televisãozinha PB de dial (eternizada em BIOFOBIA) para assistir as entrevistas na cama. Lá por 2011, 2012, quando ela tinha publicado seus primeiros livros, ela foi convidada, mas recusou. Dona Elisa é uma escritora reservada.

- A primeira vez que eu estive lá, na verdade, foi provavelmente 96 ou 97, como plateia, assistindo com minha faculdade.

- Fui gongado duas vezes antes de participar. A primeira vez foi em 2003, logo após lançar meu primeiro livro, a segunda foi em 2005, lançando Feriado de Mim Mesmo. Funcionava assim: a produção ligava e fazia uma pré-entrevista para ver se rendia para o programa. Duas vezes disseram sem rodeios: não rende, não tem graça - a produção nunca foi das mais simpáticas comigo. Uma semana depois dessa segunda dispensa, em 2005, ligaram de volta dizendo que o Jô havia insistido para fazer. Foi assim que rolou da primeira vez.

- Essa primeira entrevista, talvez por eu ser novidade, talvez por ser um belo jovem varão, talvez pelo programa estar mais em alta na época, foi um verdadeiro divisor de águas para mim. No dia seguinte eu estava recebendo ligações, convites e xingamentos. Na série de reprises do programa que a Globo exibia no ano seguinte, fui a primeira entrevista reprisada.



- Voltei em 2006, com o lançamento de Mastigando Humanos. Foi minha pior entrevista lá. Entrei depois de dois blocos loooooooongos da Suzana Vieira apresentando seu novo marido, que na época era aquele policial cafajeste que já morreu. Entrei tarde pra caralho, a conversa foi curta e o Jô basicamente queria repetir a entrevista que havia feito comigo no ano anterior. Por sorte, essa é a única das minhas participações no programa que não pode ser encontrada no Youtube. (Eu mesmo também não tenho nenhum registro).

Isso é tudo o que tenho de registro dessa segunda entrevista. 

- Falando em Suzana Vieira, os 5 minutos que estive nos bastidores com ela, destratando toda a produção, foram suficientes para considerá-la a pior pessoa do mundo.

Com Ale Matos, esperando para entrar. 

- Minha terceira entrevista foi para o lançamento de O Prédio, o Tédio e o Menino Cego , em 2009. Foi uma entrevista suave, sem grandes percalços, mas sem grandes repercussões.

Mas eu tava bonitinho, né?

- A última vez que estive lá foi em 2011, no lançamento de Pornofantasma. A entrevista estava marcada para semanas na frente, mas anteciparam num dia de tempestade e alagamento em São Paulo, com aeroporto fechado e muitos convidados não conseguindo chegar ao estúdio. Me ligaram em cima da hora, não pude nem me depilar... Talvez por isso senti o Jô meio despreparado, talvez um pouco velhinho, meio pescando. Mas quando terminou a entrevista ele disse: "Você sabe que gosto muito de você, né?" Fiquei enternecido.



- Sem dúvida o programa lançou meu nome para um grande público, mas não sei se refletiu muito na venda dos livros. As entrevistas também me venderam mais como um personagem bizarro - ex-escritor de disk sexo, performer de auto-mutilação, barman de "prostíbulo gay"- do que como escritor. Ainda assim, tenho de reconhecer que sempre deram espaço para eu falar dos livros, ainda que não tenha sido o que mais atraiu a audiência...


- Nunca houve nenhum corte em nenhuma das entrevistas. O que eu falei foi integralmente no ar, como se fosse ao vivo (embora as entrevistas todas fossem gravadas durantes as tardes de segunda, terça, quarta e quinta).



- Meu contato com o Jô também foi quase integralmente só o que foi ao ar, tirando alguns segundos pós-entrevista de "obrigado, volte sempre". Ele não costumava receber convidados no camarim, você só o vê quando vai ao estúdio. Fora isso, eu o encontrei uma vez numa galeria de arte e uma vez no show do Rufus, mas foram só rápidos cumprimentos.

- Os acompanhantes que foram comigo nessas quatro entrevistas foram: 1a) Daniel Luciancencov, meu namorado na época e fotógrafo da capa do Feriado de Mim Mesmo. 2a) Marco Túlio, ilustrador do Mastigando Humanos, e minha amiga escritora Cris Lisbôa. 3a) Alexandre Matos, ilustrador de vários dos meus livros. Na 4a vez fui sozinho.


- Participei de  vários outros programas (Galisteu, Monique Evans, Peréio, Metrópolis, Edney Silvestre, Dr. Kurtzman), mas nunca foi um EVENTO como esses e nunca teve um décimo da repercussão.

- E não, nunca paguei nada para participar do programa, obviamente. Muito menos as editoras, que mal investem nos convites das noites de autógrafo.

- Claro que não consigo assistir aos vídeos das entrevistas. Não me arrependo de nada, mas é outro eu lá, fico constrangido.

Termino orgulhoso de ter feito parte, agradecido ao querido Jô, melancólico por saber que ficou no passado... O que será hoje dos belos jovens novos existencialistas bizarros?

Bem, provavelmente é a vez do Youtube.

Beijo no gordo. 



01/12/2016

QUE MERDA DE ANO...


Essa foi minha grande viagem de 2016.

Não deu para ser feliz em 2016...


Em Florianópolis, em maio. 

Ano passado muita gente já reclamava da crise, mas consegui surfar razoavelmente, viajei para a Armênia, Europa, fechei alguns projetos bacanas, realizei uma dúzia de eventos que mantiveram as contas sob controle.

A virada até que foi tranquila, só eu e Murilo na casa de campo da minha mãe.
Bowie morreu logo no começo, e escrevi um conto na Ilustríssima inspirado nele. Mas foram poucas colaborações na Folha este ano. 

Este ano começou com muito trabalho e pouco dinheiro, terminou com pouco trabalho e nada de dinheiro. Pouquíssimas viagens; não deu para conhecer nenhum país novo, nenhum país velho. Passei meses, meses, literalmente trancado em casa. Enquanto isso, recebia as piores notícias lá de fora: Golpe, Dória, Trump, uma crise e um conservadorismo crescentes que tornam as perspectivas futuras nada animadoras.

Carnaval em SP mesmo, em companhia de grandes autores: Joca Terron, Rodrigo Lacerda, Ivam Marques, Lourenço e Lucimar Mutarelli, Ivana Arruda Leite, Xico Sá, Ronaldo Bresane, Tati Bernardi, Marcelino Freire, Andrea Del Fuego, Adilson Miguel e Noemi Jaffe. 

Meu aniversário este ano foi low-profile. Demos de turistas por São Paulo, fomos ao zoológico e ao (restaurante armênio) Casa Garabed. 

O namoro foi tranquilo, suave como sempre; no segundo semestre Murilo se mudou para cá; agora se prepara para abrir um restaurante no litoral, então está com um pé em cada lugar. Acho que nosso companheirismo que me fez suportar, ainda que os dois estivessem na merda, cada pequena conquista de um servia para ajudar o casal. Por sorte não somos daqueles, tão típicos, que afundam um ao outro... Ao menos, não ainda.

A nova família brasileira. 

E teve também a Gaia, minha nova coelha. Desde a morte da Asda, queria adotar. Consegui no começo do ano. Gaia veio arisca, distante, educada; tornou-se das coelhas mais carinhosas... e abusada. Destruiu metade da casa, mas impediu que eu me destruísse. Carente ao extremo, não larga um segundo do meu pé, e se não dou atenção vai destruir o sofá, vai comer os fios do computador. Não tem jeito, já é a dona da casa.



Fora o coelho, fora o amor... só o Playstation salva. Devo muito da minha sanidade ao Monster Hunter Freedom Unite, jogo antiguinho para o PSP. Baixei sabendo que era das coisas mais viciantes, pensando em preencher o tempo enquanto esperava as editoras ressuscitarem, ventos moverem moinhos; consegui queimar dias e dias em que eu poderia estar lendo, poderia estar trabalhando, poderia estar ajudando crianças carentes, mas preferia estar em coma.

Tigrex.
(O jogo é um RPG de ação, em que você é um caçador de monstros e tem que criar todo o equipamento, planejar a caçada e sair atrás de criaturas que vão de unicórnios a gorilas e dragões gigantes. Com alto grau de detalhismo, você tem até uma fazenda para cultivar ingredientes, tem de se preocupar com o que vai comer antes das expedições; cada monstro em si tem uma personalidade própria, você precisa aprender seus movimentos, suas reações; enfim, é um jogo que exige centenas e centenas de horas de dedicação... Aproveitei bem, tornou-se certamente meu game favorito de todos os tempos; e ainda não terminei.)

(Você vê, essa foi a grande viagem do meu ano...)

Teve também um pulo rápido em Campinas, em debate com Marcelo Maluf, Andrea del Fuego e Luiz Brás



E Campo Grande, com Douglas Diegues e Anelia Pietrani.

As perspectivas para 2017... são as piores. Tem livro novo sim, romance, já entregue, nas prés, ainda sem data para o lançamento. Mas há muito que os livros não mudam nem minha vida, quanto mais o país, a crise, o aquecimento global...


Debate com Raphael Montes e Rogerio Pereira, na Bienal, em agosto. 


Reveillon será em Maresias, onde Murilo agora trabalha. Mas talvez volte antes por aqui. 

Balada Literária, semana passada, com Ricardo Dalai Lima, Jeanne Callegari, Patrício Júnior e Ramon Mello. 

FLIRECÊ

Mais que colegas, friends.  Ainda tô chapado. A luz da Bahia é ofuscante – cegou meus olhos, queimou minha pele, transformou minha paulistan...