08/12/2018

BIOFOBIA (2014)


Minha melhor capa. (Meu melhor livro?)


Aos pés da casa, ela se ajoelhava. De botas, luvas,
chapéu, arrancava trevos do solo e brotos de samambaias.
Pragas. Infestavam o terreno e tomavam conta
de tudo, se ela não tomasse conta. Ela nunca pensou
que o mato precisasse ser disciplinado, mas precisava.
Era como tudo selvagem, afinal: animais, crianças,
cabelo. Para parecer apenas natural, tinha de ser contido
— ou pareceria histérico, doloroso, moribundo.
Se o deixasse livre e solto, se tornava desordenado,
agressivo, cruel. A natureza é madrasta. A verdade da
mata é impenetrável, intransponível, inabitável, não
se pode pôr os pés lá. Não há trilhas, não há frutos,
não há para onde avançar nem para onde fugir. Tudo
se torna um emaranhado de ramos, picões, cipós.
O mato impede o avanço. A mata impede o recuo.
Sementes duelam com sementes que duelam com
o solo que duelam com formigas que querem levar
as sementes para longe. Mamíferos subindo pelas
Pássaros saltando de galho em galho. Frutas
mordidas, madeira corroída, nada é harmônico
e nada ornamental. Para se ter um belo bosque em
seu terreno é preciso uma equipe de paisagistas que
vença a guerra. Ou muito esforço, suor e sangue
derramado.

Próximo aos 40, com 7 livros lançados, o sucesso anos atrás, pensava se o melhor já tinha mesmo passado, se minha carreira agora seguiria morna, sem brilho.

Foto de orelha, do Murilo - entalhando a referência para a capa. 

BIOFOBIA foi escrito muito nesse espírito, me sentindo esquecido pelo meio literário e pelo mundo, solteiro havia quatro anos, solitário, depois de ter me mudado para duas cidades em que eu não conhecia ninguém (Florianópolis e Helsinque), começando a sentir o peso da idade, o corpo que não era o mesmo, a cabeça lesada...

Conhecer o Murilo em 2013 foi colocando minha cabeça no lugar. E voltei ao romance adulto (em todos os sentidos).


Boa orelha. (Tinha pedido uma orelha assinada pelo Michel Laub, que provavelmente não gostou do livro e fez um texto que era praticamente uma crítica - a editora ficou puta e novamente fui eu fazer o texto.)

Canalizei todas essas frustrações num personagem, o protótipo de um loser, um quarentão alcoólatra, cocainômaco, um artista sem arte, que vive de um sucesso do passado, que nem foi tão bem sucedido assim.

A escolha pelo roqueiro foi para fugir do clichê do “escritor em crise”, e também para reforçar a dor da juventude perdida – no meio musical, o sucesso têm de acontecer cedo.  A ambientação (o grande personagem da história) é basicamente a casa da minha mãe, em São Roque.

Escrevendo no próprio cenário. 

Foi meu quinto lançamento pela Record. E a primeira vez que tive um (ótimo) trabalho de edição – o Lucas Bandeira de Melo deu ótimas sugestões; uma delas era ir revelando aos poucos a decadência do personagem, de início acharíamos que ele de fato podia ser um rockstar; boa ideia, mas que não se encaixava na minha necessidade de revolver todo o fracasso de uma vida; de todo modo, incorporei essa ideia no roteiro para o cinema.

A equipe do filme que (ainda) não foi.

Sim, há um roteiro para cinema. Com tantos livros lançados e nenhum devidamente adaptado para as telas, abordei o Beto Brant ao encontrá-lo numa festa na casa da Márcia Tiburi. “Quando é que você vai adaptar um livro meu?” Entreguei o livro para ele em seguida e um mês depois ele sugeria que inscrevêssemos o projeto de longa num edital de roteiro. Ganhamos o edital, veio mais uma boa grana, e escrevi o roteiro em parceria com Renato Ciasca, sócio dele, com coordenação do Marçal Aquino.




O livro na verdade já foi escrito pensando nas possibilidades de adaptação – tanto para o cinema quanto para o teatro; não é à toa que é passado todo numa única locação e nunca tem mais de três personagens em cena (pensava em fazer a peça com apenas três atores – dois homens e uma mulher).

Escrevi o roteiro, escrevi a peça – Laerte Késsimos e Eric Lenate se empolgaram em levar ao teatro – mas, como sempre, até hoje não deu em nada. Não conseguiram captar para a produção e se encontra num limbo incerto. 

Gravando o booktrailer. 

Isso remete a uma reflexão importante embutida no livro: até que ponto posso sobreviver nesse “lado B”, nesse universo “alternativo”, sendo sempre considerado “diferente”, “original”, "underground", mas nunca entre os “melhores”. Até que ponto isso é resultado da busca da diferença em si – “quem é diferente não faz diferença” – ou até que ponto eu simplesmente não sou bom o suficiente? Não consigo avaliar. Me acostumei tanto com gente dizendo: “você escreve bem, mas não me identifico com seus temas.”


Ele até conquistara um público fiel, uma aura cult,
mas nunca prêmio algum, nunca fora além. Nunca
fora cantor do ano, sua banda nunca a mais pedida
no rádio. Talvez não merecesse — quem poderia dizer?
Ele próprio não tinha capacidade de avaliar. Só
queria acreditar, precisava acreditar; é muito duro ter
de se contentar com a própria mediocridade. Nem
todo mundo pode ser grande, é verdade. Mas mesmo
um vendedor de concessionária pode ser rei dentro de
casa, pode ser exemplo dentro de casa, pode ser chefe
de família. Ele era exemplo-rei-chefe de quê, de uma
quitinete vazia no baixo augusta? Era esse o ponto.
Via tantos outros artistas supervalorizados. Talvez
não quisesse realmente — a sua era uma música mais
alternativa, menos comercial. Nunca esperou unanimidade,
nunca quis ser mainstream. Não podia esperar
conquistar as massas. Porém, quem faz diferente não
faz a menor diferença. Quem não diz o que já se sabe
não é ouvido. Agora já fazia quase uma década que
não gravava e continuava enganando em shows com
covers e sucessos do passado. Semissucessos do passado.
Grandes fracassos.


Tem gente (como a Ivana Arruda Leite) que acha que reclamo demais – ganhei aí um prêmio ou outro; publiquei sempre por grandes editoras, tenho boa entrada na mídia – mas geralmente é gente que não gosta do que eu escrevo, que acha que tenho mais do que mereço.

Bem, ao menos tenho mais do que o André, meu personagem - criá-lo fez parte disso, de colocar um ser em baixa para eu me sentir melhor nas minhas conquistas...


O livro foi bem resenhado. Adorei um texto do Galera sobre o livro no Globo. Só no Estadão que teve uma crítica demolidora – André de Leones já tinha feito uma avaliação péssima no Goodreads e PEDIU para escrever no jornal (segundo me disse o pessoal do próprio Estado); se tivessem encomendado para ele a resenha e ele não tivesse gostado, entendo, tá no direito de meter o pau, mas que filho da puta PEDE para publicar uma resenha metendo pau num colega? Se eu não gosto de um livro, eu não sugiro. Não tenho (não tinha) nenhuma treta pessoal com esse ser, nunca o encontrei pessoalmente, mas se tornou inimigo mortal para o resto da vida.



O mais bacana foi a entrevista no Metrópoles, com Manuel da Costa Pinto, que adorou o livro.


Com Nicole. 
O livro é dedicado a Nicole (Witt), que foi minha agente por mais de dez anos, que eu sentia que era a única que esperava mais um livro meu. A capa foi feita pelo Taiya Locherbach, amigo de Florianópolis. Eu entalhei o título numa árvore, como referência, e mandei para ele, que entalhou sua própria árvore e tirou a foto. Também gravei um booktrailer - pela primeira e última vez -, gostei bem do resultado, mas é um puta trabalho, a gente mobiliza um monte de gente e só tem meia dúzia de visualizações; acho que não agrega em nada ao livro.


Irmãozinho Taiya me deu minha melhor capa. 

(a versão estendida do trailer)


Continua em catálogo na Record – foi outro livro que não vendeu nada. Com certeza é dos melhores meus, embora o povo em geral prefira o romantismo gótico dos primeiros.

03/12/2018

AS COISAS



Dia desses estive no Mix Literário - braço literário do Festival Mix Brasil - para ouvir o que os novos autores gays têm a dizer. Gosto de acompanhar a cena, mas o filtro é sempre difícil, com tanta gente ruim escrevendo, o que desmotiva muito o garimpo. Aqui pelo menos eu teria a (ótima) curadoria do Alexandre Rabelo, e alguns nomes que eu já conhecia e já dei força, como o Hugo Guimarães e Danilo Leonardi.

Nessa época de crise editorial, falência de livrarias, levanta-se a bandeira de "leia autores independentes", "editoras pequenas", "autores não-cis", "fora do eixo Rio-São Paulo", a cota parece não ter fim.

Enquanto que é verdade que algumas editoras menores arriscam em publicações menos comerciais (ou não conseguem os autorzões de peso), muitas delas estão simplesmente cobrando para publicar novos autores que não conseguem entrar nas maiores casas. Isso não é necessariamente demérito, vários grandes começaram pagando para serem publicados ou investiram na auto-publicação (como Daniel Galera e Ana Paula Maia). Mas isso também dá entrada a gente que jamais conseguiria publicar de outra forma, porque não tem talento o suficiente.

É preciso conhecer as casas editoriais para entender as que têm um critério de qualidade, mesmo quando cobram parte dos custos do autor.

Dito isso, estava pessoalmente curioso em conhecer Tobias Carvalho, que venceu o Prêmio Sesc de Literatura, na categoria contos, aos vinte e três anos de idade. Como resultado do prêmio, seu livro saiu pela Record, uma das maiores editoras do país. E foi só começar a ouvi-lo ler que ficou evidente que havia algo lá - que ganhar um prêmio desses não foi à toa. Se moleques como esse fazem por merecer estar nas grandes, por que insistir nessa de "só as pequenas (se) salvam"?

Assim, escrevi sobre o livro de estreia de Carvalho, este fim de semana na Folha. Curioso que na mesma página Ricardo Domeneck analisa a obra de Mailson Furtado, poeta que ganhou o Jabuti de livro do ano com uma auto-publicação. A pertinente análise de Domeneck levanta luzes sobre critérios atuais.

Segue o meu texto na Folha:


É preciso muita autoconfiança ou total desprendimento para se batizar um livro de estreia com um genérico “As Coisas”. Entretanto, publicada como vencedora do Prêmio Sesc de Literatura, na categoria contos, a primeira obra do gaúcho Tobias Carvalho já sai com o devido destaque que se sobressai ao título. Com um histórico de quinze anos, o prêmio se firmou na cena literária nacional, não só pela qualidade de seus autores (como Luisa Geisler, Rafael Gallo e Marcos Peres), mas por todo o suporte que o próprio Sesc oferece aos vencedores, fazendo-os circularem pelas unidades do país. 
 “As Coisas” de Tobias Carvalho são os órgãos sexuais masculinos. Ou ao menos é a nona definição que ele apresenta da palavra ao abrir o livro. Em vinte e três contos curtos, o livro foca a vida amorosa-sexual de jovens porto-alegrenses que se confundem com o próprio autor, numa narrativa entre a confessional e a auto-ficção. Se parece tão biográfico (sendo ou não) é pela verdade que Carvalho consegue exprimir e a identificação que consegue causar. Os aplicativos de pegação, o sexo descompromissado, as conversas desajeitadas antes e depois do sexo, criam um universo melancólico atemporal, ainda que muito atual. A escrita é limpa, com um caráter orgânico que remete ao escritor gaúcho Caio Fernando Abreu – uma comparação aparentemente inescapável para jovens autores gays – porém com um sentimentalismo mais sutil, menos derramado.

                Nem tudo funciona. Nos poucos contos em que o protagonista muda de perfil, a voz se torna menos pessoal e menos verdadeira - o talento para criar personagens ainda não se flagra de forma evidente. Ainda assim, “As Coisas” é uma belíssima estreia, de um autor que já chega com o mais importante: veia. Não é pouca coisa.


Avaliação: Ótimo.   



01/12/2018

GAROTOS MALDITOS (2012)



Eu até gosto da capa. Mas acho que sou só eu. 


Pô, orelha bacana para um juvenil, vai? Não sei por que não funcionou...



Eu já tinha lançado 5 romances e 1 livro de contos. Então parti pro juvenil.

Ludo-pai: foi essa foto que mandei pro ilustrador, como referência da pose que queria o personagem na capa. Ele fez basicamente uma versão teen minha, para eu não ter como reprovar. 

Apesar de ter livros que tratassem da adolescência e tivessem certo universo jovem-pop (“Mastigando Humanos” e “O Prédio, o Tédio e o Menino Cego”), nunca tinha escrito algo voltado diretamente para o público juvenil.


Do meio das árvores secas da floresta escura emergiu o
maníaco com a máscara de pele humana. Motosserra em
mãos, desceu-a entre as pernas do pobre paraplégico, cortando-
o ao meio, assim como a sua cadeira de rodas. Não
teve nem chance. A menina que estava com ele se pôs a correr
pela floresta, gritando feito bocó, como se alguém pudesse
ajudá-la naquele fi m de mundo escuro. Eu fiquei lá,
vendo tudo, paralisado. Só quando ouvi um pigarro vindo
do canto é que reparei que minha mãe estava na porta
do quarto.
– Ludo, não tinha nada um pouco mais saudável para
você assistir?
Peguei o controle remoto e desliguei o DVD. Não porque
queria satisfazer minha mãe, mas porque sabia que não
ia conseguir assistir ao filme direito com ela lá.
– É um clássico, mãe, um clássico do horror.
Ela fez uma careta.
– Clássico do horror, pffff, nem preciso ouvir mais
nada. Vai dormir logo, que amanhã é seu primeiro dia de
aula, não esquece. - Fodão começar um livro juvenil com uma descrição de "O Massacre da Serra Elétrica", vai? (Se bem que já ficou datado - que moleque hoje que assiste DVD?)




Um dos estudos de capa. 

Uma grande editora do segmento aqui de São Paulo me fez o convite, perguntou se eu não tinha nada direcionado a adolescentes para lançar por eles. Apresentei a sinopse de “Garotos Malditos”, o editor curtiu, e me veio com proposta das mais indecorosas. Não só ofereceu um adiantamento baixo, como a ser pago “quando a primeira versão do livro fosse aprovada pela editora.” Coisa estranha – se eles estavam me encomendando um juvenil, que pagassem para escrever. Se o livro só seria pago depois de pronto, eu preferia vender para a editora que pagasse melhor e que o aceitasse como eu escreveria, como a Record, para quem eu já escrevia. 


Ilustração de miolo.
Foi mais um editor que ficou puto comigo. Eles se acostumam com autor esmolando para ser publicado, quando vêem que a gente não precisa deles, baixa a mágoa. Eles desistiram do livro, mas eu tive uma ideia melhor.

Fiz um projeto e inscrevi no Prêmio Petrobras Cultural, que dava uma bolsa de 50 mil para o autor escrever o livro. Ganhei o prêmio e o livro saiu em 2012, pela Record, muito bem patrocinado.


Quarta capa com os logos todos. 

 
Aqui vale discorrer sobre a lei Rouanet: Foi meu único livro que teve esse benefício. Para tal, não só tive de concorrer com outros milhares de proponentes, como atender a toda a burocracia, contrapartidas e prestação de contas. O dinheiro vem como um prêmio, mas não é bem assim. Na prática, recebi uma boa grana para escrever (em isenção da Petrobras), mas fiz propaganda com o logo da empresa e do governo em todos os livros, todo material de divulgação (incluindo banners e anúncios de metrô) e tive de doar 10% da tiragem para bibliotecas públicas. Então na prática o programa te credencia a receber para fazer publicidade da Petrobrás e do governo federal. Claro, isso em literatura é raro e muito bem vindo, ainda que o processo todo seja mega burocrático  - passei aaaanos com uma contadora específica para isso - mas o governo e as empresas gastariam bem mais com publicidade em outros veículos. 

O livro teve anúncios de metrô e busdoor. 

Porém arrisco dizer que talvez tenha sido meu livro que menos repercutiu. A imprensa em geral não divulga muito literatura juvenil, mas ao menos teve uma matéria bacana da Maria Fernanda Rodrigues no Estadão (um jornal que não costuma me prestigiar). A Record não tinha um trabalho em escolas, o livro ficou meio perdido, mas foi adotado em uma turma ou outra (acho que hoje seria impossível).

O "lançamento" foi na Bienal de SP, depois de um debate inchado pra caralho, com Giulia Moon, André Vianco, a Garota da Capa Vermelha e mais uma caralhada. Tinha mais gente na mesa que para autografar o livro depois. 



Foi todo ilustrador pelo João Lestrange - menino bacana, que não sei por onde anda. Ele era leitor dos meus livros e sempre me mandava ilustrações - resolvi testar ele nesse. Conversamos basicamente por email, porque na época das prévias eu estava morando na Finlândia (entre 2011 e 2012), vivendo um inverno profundo, do qual quase não sobrevivi. A escrita foi bem difícil para mim - não sei exatamente o motivo -, mas foi meu livro mais difícil de escrever.  A Record, como de costume, foi bem tranquila com todo o texto - não é qualquer editora que deixaria sair um juvenil com esse teor de sexo e violência. Sou bem grato a eles por isso. 

Essa era minha realidade - 6 meses de inverno escandinavo - durante a finalização do livro. 

Ainda gosto bem do livro. Acho um juvenil bem ousado e bem engraçado/divertido, algo que eu adoraria ter lido na adolescência. Tem a mensagem de que “sexo salva”, contra o moralismo e na contramão dos filmes de terror clássicos – aqui, a única forma de escapar das possessões demoníacas é perdendo a virgindade.


– Posso me sentar aqui com você? – me perguntava a
menina que vomitou em mim no primeiro dia de aula,
já se sentando ao meu lado na hora do recreio. Camila?

Era isso, Camila. Lambia um sorvete de menta – ou pistache,
ou um limão bem verde-ordinário – e me fazia recuar
com medo de que aquela pasta verde fosse ser despejada
de novo sobre mim. – Me desculpe pelo vômito de ontem
– ela voltou a dizer.

Eu franzi a testa e balancei a cabeça como uma introdução
para dizer “não foi nada”, mas não consegui completar
o sentido. Eu mesmo estava comendo um saquinho
de ovos de amendoim e a visão daquele sorvete com a
memória do vômito me deixou meio enjoado.

– São os demônios... – disse ela.

Eu assenti, querendo mudar de assunto. Mas foi isso
mesmo que ela disse? “Demônios”?

– Ou os hormônios – explicou ela. – Dá na mesma.
Sabe, a adolescência...

Eu engoli uma concordância, com a mão cheia de ovinhos.
Observava o estranho movimento do intervalo naquela
escola. Na verdade, nada estranho. De fato, tão estranho
como qualquer intervalo, mas ainda assim, certamente
esquisito. Havia um grupo de alunos na quadra à frente jogando
futebol... mas a bola parecia uma cabeça humana.
Algumas meninas brincavam de roda e entoavam cantigas
– sem problemas, se elas já não tivessem a minha idade e
as cantigas não fossem em latim. E mais da metade dos
alunos dormia pelos corredores, como mendigos, jogados
em farrapos. Aquilo era absolutamente natural, ou o que
poderia se chamar de peculiarmente estranho.

– O pessoal daqui é esquisito mesmo – dizia Camila,
como se adivinhasse meu pensamento.
Eu assenti, de boca cheia.

– É que o colégio tem esse enfoque alternativo, e procura
respeitar as diferenças individuais, as crises pelas quais
cada adolescente passa. Então a gente acha mais estranho
porque cada um está apenas vivendo seu momento
pessoal... ou pelo menos é isso o que a diretora disse à
minha mãe.

Assenti novamente. Achei mais esquisito aquela menina
ficar falando sobre a “proposta pedagógica” do colégio
no intervalo. Não deveríamos estar falando sobre outras
coisas?

– Você é diferente dos meninos daqui...

OK, isso não era espanto para mim. Ela me achava
diferente, como todos os meus colegas sempre acharam.
Só que, naquele colégio, minha diferença não era lá tão
diferente, fala?

Eu torci a boca e resolvi participar ativamente do diálogo:
– Minha mãe acha que este colégio é a minha cara.

Nessa hora, Camila soltou uma risada que me fez virar
a cabeça e olhar para ela. Era uma risada divertida, meio
esganiçada, mas doce, gostosa; gostei daquela risada.
– Como é que um colégio pode ter a cara de alguém? –
perguntou ela.

Eu ri. Pois é. Como é que um colégio pode ter a cara de
alguém? (E eu continuava observando a cara dela. Camila
até que não era feia, não, era interessante. Uma cara de
menina meio desengonçada, é verdade, não era nenhuma
modelo de passarela; mas, na verdade, essas modelos de
passarela não são todas umas catarinas desengonçadas?
E catarina desengonçada era o que me parecia Camila,
talvez. Eu podia ver uma graça. Aquela vomitófora adolescente
ao meu lado não era assim tão má; ao menos
agora abria a boca para despejar coisas que eu mesmo
digerira individualmente.)

Ela continuou:

– Os meninos daqui são muito problemáticos, individualistas,
você é todo animado, cheio de amigos.

Ahn? Animado? Cheio de amigos?

– De onde tirou que sou cheio de amigos? Acabei de
entrar aqui.

– Exato – ela retrucou –, e já é todo popular, conversando
com aquele Dominique com quem ninguém fala,
atraindo a atenção de todo mundo, conquistando as gatinhas.

Hahá. Aquilo era piada ou o quê?

– Conquistando as gatinhas?

– Bem, você não está aqui no intervalo conversando
comigo?

Hahahahahahahá. Menina convencida. Hahahahaha
hahá. Confesso que fiquei sem graça. Hahahahahá.
Fiquei meio sem ter o que dizer. Hahahahahahahahá.
Balançando a cabeça, tentando não olhar para ela, encontrei
Lupe, o menino com a camiseta dos Toxic Avengers,
de pé na minha frente.

– Opa – aproveitei a oportunidade –, bacana sua camiseta. - 

(Ohhhh, relendo agora é meu MELHOR LIVRO. Hahaha. Ou nem tanto. Mas é bem fofo, vai? Fiquei com saudades do Ludo. Queria que tivesse pego mais os adolescentes do que "Mastigando Humanos". - Por sinal, é meu único livro com travessões, uma mínima concessão a um padrão escolar pau no cu.)


Eu tinha inclusive ideia para uma sequência: “Garotos Malditos – Tocando o Terror”, que focaria na banda de rock que Ludo forma no final do livro. Mas como não vendeu nada, não foi o caso.

De toda forma, o livro continua em catálogo na Record/Galera.



[Ah, o livro não tem foto na orelha - porque queria que os leitores ficassem com a imagem do Ludo, não de um tiozão de meia idade.]

24/11/2018

PORNOFANTASMA (2011)


Capa bacaninha - arte minha com foto de banco de imagem. 


Depois de lançar um romance mal sucedido, você faz o quê? Lança um livro de contos, que ninguém dá a mínima...

“Catorze histórias de sexo e morte.” É assim que Santiago Nazarian define seu primeiro volume de contos, após ter lançado cinco prestigiados romances. Os relacionamentos esquizofrênicos, a juventude perdida, o tom de fábula e a violência romântica presentes em seus trabalhos anteriores reforçam aqui a marca do autor, mas com doses extras de fantasia. Terrores cotidianos, apocalípticos e sobrenaturais surgem a cargo de uma sexualidade latente e ambígua. É uma fusão de referências que formam o existencialismo bizarro, quebrando barreiras de gênero e tratando de valores tão universais, tão atemporais. Antes de tudo, PORNOFANTASMA é um livro de histórias, para se ler na cama, antes de dormir, na rede, em frente ao mar; ou numa fogueira de acampamento, ouvindo o pio das corujas e deixando o marshmallow queimar.  – Ok, não é das melhores orelhas também.


Já tinham sido cinco romances, estava na hora. Fui preparando meu volume de contos juntando algumas das melhores coisas que eu tinha publicado e escrevendo outras tantas especificamente para o livro.

Em Osaka, Japão, 2010. 


Na época eu estava morando em Florianópolis, exilado de São Paulo, decepcionado com a vida literária, tentando recarregar com a natureza. Foi a melhor fase de minha vida, 2010 e 2011. Eu continuava fazendo traduções para São Paulo, mas num cenário bucólico, e ainda viajava muito. (Só em 2010 eu fui para Espanha, Alemanha, Finlândia, Dinamarca, República Tcheca, e Japão). Também praticava horrores de esportes, mergulho, kite surf, academia, estava com o melhor corpo que já tive, aos trinta e três anos de idade.


Em Florianópolis (2011). (Usei bem essa foto no Grindr...)

O livro tem muito dessa pegada da natureza, nos cenários. A intenção era o que coloquei na orelha, um livro de histórias – que fizessem sentido contadas, não apenas literariamente. Tem muito de contos de fada, mas também foi meu primeiro flerte mais direto com o terror. Ainda que subvertendo o gênero, temos aí histórias de vampiro, lobisomem, zumbis, navio fantasma, naufrágio, dragão, jacaré assassino, duendes, criança maligna e fantasma. Vamos a cada uma:


Catorze Anos de Fome: Fiz originalmente para uma coletânea do Luiz Roberto Guedes; mexi levemente para esse livro. Tem o vampirismo clássico – se alimentando da juventude – mas com uma nova estética e uma pegada meio "Clive Barker". Podia ter gerado um bom curta.
Conto de Lobisomem:  É meio que um conto sobre “a idade do lobo”, minha virada para os trinta, que passei no Deserto de Atacama. É o conto mais pessoal, e talvez o pior do livro.
Apocalipse Silencioso:  A mistura de drama romântico com zumbis me parecia original na época – um casal que discute a relação trancado no apartamento, porque o mundo lá fora está acabando. A ideia era transformar numa peça de teatro – e cheguei a conversar para virar uma série de TV. Mas acho que acabou se perdendo na saturação de zumbis que veio nos anos seguintes.
Eu Sou a Menina Deste Navio: Um conto clássico de navio fantasma. Tem muito de Shakespeare -  "A Tempestade" - e era um dos meus favoritos... Mas agora não sei mais. 
As Vidas de Max: Inspirado por “A Vida de Pi”, do Yan Martel, que se inspirou em “Max e os Felinos”, do Moacyr Scliar, resolvi fazer minha própria versão da história de um menino que fica à deriva num bote salva-vidas com um grande felino (aqui, um guepardo). Para mim era uma alegoria do despertar sexual – que não foi abordada pelos outros autores. Mandei o conto para o Scliar na época, que generosamente me deu sua benção.
Natrix natrix:  É uma fábula cínica, que me veio num sonho. Recentemente adaptei como livro juvenil, e está para sair pela Melhoramentos.
Marshmallow Queimado: Aqui temos diversos contos dentro de um conto, e resgatei algumas das minhas histórias mais antigas (como a “Garotos Podres”), que escrevi ainda na adolescência.
Piranhitas: O conto mais curto do livro, também é uma alegoria de despertar sexual. Foi lançado também em antologias em espanhol e alemão, e ainda é dos meus favoritos.
O Velho e o Mato: Conto bem fruto da minha vida em Florianópolis, com o fantasma da velhice se aproximando. Pode ser lido como um prelúdio para meu “trevoso”.
Trepadeira: Inspirado por  “Os Desastres de Sofia” (da Condessa de Segur, que inspirou Clarice), é o conto lésbico do livro, naquela pegada “órfã do mal”. Não sei se ainda gosto.
Você É Meu Cristo Redentor: Outro dos meus favoritos. A ideia do “serial killer turista”, que precisa matar uma pessoa em cada cidade que visita, tem muito a ver com o turismo sexual que eu fazia por aqueles tempos.
Pornô Fantasma: Total filhote de Dennis Cooper, é um conto longo, quase uma novela queer, com estrutura muito de videogame, muito de "Silent Hill". Também não sei se anda gosto...
A Mulher Barbada: O conto que fiz para a coletânea da FLIP, em 2003. Tem muito de “A Morte Sem Nome”.
“Todas as Cabeças no Chão, Menos a Minha!”: Outro conto de fadas cínico, também tratando do despertar sexual da adolescência. É outro que adaptei como infanto-juvenil e deve sair em breve.

Ilustração lindinha que o leitor Fabiano Rodrigues me mandou, baseado em "As Vidas de Max."

No meu aniversário de catorze anos, ganhei um buquê de lírios.
Achei lindo. Primeira vez que eu ganhava flores. Presente
do meu primo Paulo — primeira vez também que ele comprava
um presente com o próprio dinheiro. Mas minha mãe disse
que eram flores fúnebres, flores de enterro. Não me importei.
Aos catorze anos a ideia de morte me era tão abstrata quanto
a fotossíntese, e certamente quando eu morresse não faria diferença
para mim quais flores estariam sobre meu caixão. Os
lírios mereciam minha gratidão. Coloquei-os num vaso antigo
que nunca servira para nada, e dentro do meu quarto, sob a
janela, ao lado da minha cama.

De noite, minha mãe veio colocá-los para fora.
“Durante a noite, as plantas respiram, Sofia; não é saudável dormir
com uma planta ao lado da cama. Ela acaba lhe roubando
o ar, empestando o ambiente de perfume, sufocando-a; vou
colocar o vaso no jardim.”

Mas o jardim não precisava dos meus lírios. Estava vivo.
Com plantas enraizadas, árvores e rosas de todas as cores. Não é
esse o charme de ganhar um buquê? Levar para dentro de casa
um pouco da vida e da natureza que há lá fora? Colocar um vaso
no jardim, para mim, era como levar sanduíches a uma festa. - Trecho de "Trepadeira."


Foi lançado pela Record em 2011, sem grande alarde. Livro de contos já tem menos repercussão naturalmente, e meu auge já tinha passado; foi meio que ignorado. Reynaldo Damazio fez uma crítica negativa na Folha (e hoje é um amigo querido), mas o Globo deu uma matéria bacaninha, e teve minha quarta entrevista no Programa do Jô.  Acho que foi ok...


Eu estou sempre viajando. Eu nunca conheço um lugar a fundo.
Eu olho para você, vestindo as meias, e sinto em seu olhar
fugidio a decepção. Você não pode se apaixonar. Por isso veio
para cá. Por isso se entregou na primeira noite. Você sabe que
sou um turista, que nosso amor é condenado, por isso fez sexo
comigo. E agora que seus hormônios foram decantados, seu
colo do útero preenchido, sobra apenas a decepção de não poder
e nem querer nada mais. Uma mulher como você não foi
feita para isso. Você veste as meias sentindo a decepção daquele
vazio. Eu nunca vou poder te preencher.

Mas eu também não me satisfiz. Sou apenas um turista.
Visito as cidades e passo por você. Passo por cima. Você é meu
ponto turístico. Mas não te conheço a fundo, nem depois de
pernas abertas, nem depois de ânimos e hormônios decantados.
A gente pode visitar uma cidade e se hospedar num hotel.
A gente pode visitar museus e comprar souvenires. A gente
pode até penetrar numa moradora local. Mas só se sente realmente
em casa quando experimenta uma vida inteira, e uma
morte por lá.

Por isso eu mato.

Você é minha Torre de Pisa.. - de "Você É Meu Cristo Redentor."


A quarta entrevista no Jô. 


A foto de orelha eu mesmo fiz, com timer da câmera, num navio chegando em Helsinque (2010). 

 O livro continua em catálogo na Record. Tenho vontade de fazer um novo volume de contos, mais ou menos na mesma pegada, mas guardarei para um momento de crise criativa, porque já tem romance novo para sair.

O rascunho original de capa - pena que não conseguimos comprar essa foto. 

17/11/2018

O PRÉDIO, O TÉDIO E O MENINO CEGO (2009)


Eu gosto da capa... a ideia dos meninos formando o prédio... mas concordo que deu uma falsa ideia de livro juvenil....

O menino emergiu do quarto como um inseto envenenado. Segurando-se nos móveis, nas paredes, apoiando-se no batente, chegou até a sala tentando reconhecer o tempo e o espaço em que caminhava, desequilibrava. O prédio estava inclinado. Mas a isso ele já estava acostumado. O problema era o horário em que dormira, o horário em que acordara, com uma luz indecisa alaranjando a janela. Final da tarde ou começo do dia? Sempre era difícil se situar, quando dormia fora do horário... 

O prédio estava inclinado. Mas a isso ele já estava acostumado. O problema era o horário em que dormira, o horário em que acordara, fora de hora. Isso acontecia cada vez com mais frequência, agora que ele não tinha aulas. O menino ficava em casa, jogado pelos cantos, escorando-se na cama, deixando o cabelo crescer. Crescia além de sua masculinidade, cada vez mais branca, cada vez mais magra. Com uma compleição tão delicada que — aliada a seu longo cabelo escuro — os amigos não podiam evitar chamá-lo de andrógino. Ele não se importava.          


No que eu estava pensando quando escrevi esse livro, meu deus?



Oh! Céus! Em foto de Felipe Helmeister. (o problema foi ter cortado o cabelo, gente. Cortei o cabelo, perdi o talento.)


Hum, sei bem o que estava pensando. Depois do sucesso de um livro esdrúxulo como “Mastigando Humanos”, achei que eu podia escrever qualquer coisa, que sairia ileso. Não saí.

Sete meninos moram num prédio de frente para o m ar, um prédio inclinado, prestes a desabar, assim como suas vidas, na dura passagem para a adolescência. Os pais estão sempre longe. A escola está sempre em greve. O ócio e o tédio começam a propor perigosas possibilidades de mudança. Quando uma jovem professora se muda para a vizinhança, os meninos têm de enfrentar suas próprias masculinidades, descobrindo que, para nascer o homem, muitas vezes é preciso matar o menino. Em seu quinto romance, Santiago Nazarian aborda juventude e maturidade como dois sintomas da mesma doença. Assassinato, prostituição, inseticida e cocaína são os medicamentos, ainda que contraindicados, numa narrativa de lirismo, sadismo e humor corrosivo. O Prédio, o Tédio e o Menino Cego é um livro de descobertas nefastas. É literatura que quebra vidraças, destrói famílias e despertas zumbis. - Hum... acho que pesei tanto na orelha quanto no livro.


O projeto foi bem ambicioso. Um livro com sete protagonistas, sete arquétipos-estereótipos da adolescência masculina, meio uma declaração de amor à juventude (e um pouco resíduo do "It", do Stephen King). Foi bem planejado: um romance dividido em três partes, de sete capítulos cada. Nos primeiros sete, eu apresentava os meninos; nos sete seguintes, eles conheciam e se apaixonavam por uma nova professora; nos sete últimos a professora ia matando um por um.

Eu acreditava no ensino. Achava realmente que o estudo era a única saída pra uma vida melhor. E foi essa a minha busca. Pode não parecer, mas vim de uma família humilde. Tive um irmão que se envolveu com o tráfico, e foi morto pela polícia. Eu vivia com medo, nas ruas da periferia. Mas minha mãe — que Deus a tenha — sempre se empenhou muito para que eu não largasse os estudos. E assim eu consegui me formar, consegui ir pra uma faculdade, me tornar professora.

E assim como o estudo me salvou, eu achei que poderia salvar outras pessoas. Comecei a dar aulas voluntárias, numa favela perto de casa. Tinha de fazer aquilo nas horas vagas, porque eu também precisava de um emprego para me sustentar. Para sobreviver, comecei a dar aulas num rico colégio particular, só para meninos. Acho que minha beleza ajudou muito a conquistar a vaga. Fiquei tão feliz quando fui selecionada, era minha primeira turma, meu primeiro ano, a consagração de que eu era professora de fato, num colégio de renome. Me sentia muito orgulhosa, e achava que os alunos me tratariam, ao menos, com um certo respeito... Mas não foi assim que aconteceu. 


Logo no começo já tive graves problemas de disciplina. Por trás da maquiagem e da beleza, por trás dos bons modos aprendidos, os meninos podiam ver que eu vinha da periferia. E tiravam sarro de mim. Havia uma turma de sete que eram especialmente agressivos, indisciplinados, não havia nada que eu pudesse fazer. Eu tentava impor respeito, deixava-os de castigo, mandava-os para a diretoria. Mas com o tempo até o diretor foi se cansando disso, se cansando de mim, dizia que eu estava exagerando. O colégio era particular e era feito pra agradar aos pais, feito pra agradar aos alunos. Nós, professores, éramos meros funcionários das famílias, como seus motoristas, suas babás, suas cozinheiras. Os meninos é que mandavam por lá, não podíamos fazer nada, não podíamos impor respeito. E eu continuava tentando, mandando bilhetes para os pais, trancando os alunos depois da aula... Aquilo foi meu erro. Meu erro foi trancar-me numa sala com os sete, os sete piores meninos, depois do horário regular. Meu único intuito era fazê-los ler os livros didáticos, fazer a lição de casa, já que em casa eles não faziam de forma alguma. Queria que aproveitassem aquele tempo de detenção para que tirassem o atraso, mas não foi isso o que aconteceu... Meu erro foi deixar os sete meninos juntos, os sete piores meninos contra mim. Trancados na classe, começaram a zombar da minha cara, desafiar minha autoridade: ‘Você é uma mera professorinha, sabe quem é meu pai? Sabe quanto ele ganha? Sabe o que eu vou herdar? De onde tirou que podemos tomar você como exemplo? Acha que queremos estudar e terminar como você?’ Isso eram algumas das coisas que eles diziam, das coisas mais leves, e eu comecei a entrar em desespero. Eles foram se tornando ameaçadores, eu não entendia como meninos podiam dizer tudo aquilo. Ameacei ligar para os pais deles, avisar o diretor, a polícia... Mas eles estavam acima de tudo, acima de mim, além de qualquer autoridade. Sabiam que, como meninos ricos e mimados, não estavam subordinados a ninguém, e eu percebi que estava encurralada.

Naquele dia, naquela detenção, eles se levantaram das carteiras e se espalharam pela sala. Fumavam, bebiam, um deles acendeu um cigarro de maconha. Eu tentei sair da sala, pedir ajuda, mas um dos meninos bloqueou a porta. ‘Relaxa, professora. A aula já acabou. Não precisa ser tão profissional. Curte um pouco com a gente...’ Não sei se eles estavam planejando isso, mas quando notei o que poderia significar, os outros meninos já tinham no rosto o olhar de cumplicidade. ‘Vigia a porta’, disse um deles. O outro sacou da mochila um canivete. Outro já foi me apalpando, me empurrando pra cima da mesa: ‘Eu sei que você quer, putinha. Eu sei que tudo o que você quer é dar pra gente.’ Eu tentei correr, gritar, mas já encostavam o canivete no meu pescoço, me jogavam na mesa e começavam a rasgar minhas roupas. Antes que eu percebesse que seria inevitável, já era. Eles estavam dentro de mim, um, outro, e outro. O canivete sempre no pescoço. O estilete raspando no bico dos meus seios, o compasso... Quem me achou lá, horas mais tarde, foi uma funcionária da limpeza. Eu fiquei jogada, incapaz de me mexer. Sumi uma semana da escola. Não telefonei. Não atendi o telefone. Não dei satisfações. 

Uma semana depois, achei que deveria tomar providências. Conversei com o diretor, mas ele provavelmente estava com medo. Dizia que não seria bom pra ninguém aquele escândalo, que aqueles meninos eram de famílias influentes, se eu não poderia repensar o que tinha acontecido, de repente eu tinha certa responsabilidade... Fui afastada, eufemismo pra demitida. Demitida por ter sido estuprada. Fui à polícia, riram de mim pelas costas. Um dos pais ficou sabendo que eu tentava incriminar os meninos, e disse que se eu fizesse aquilo seria acusada de pedofilia. Eu estava num beco sem saída... Não tinha solução... Não tinha solução... A NÃO SER MATAR TODOS OS MENINOS QUE EU ENCONTRASSE DAQUELE DIA EM DIANTE! de maneira criativa e bem-humorada, claro, para não prolongar o melodrama.” - Cinismo nível hard no livro. 


Era uma alegoria bizarra dessa passagem da infância para a adolescência e cheguei a fazer um laboratório assistindo aulas por dez dias, com alunos de sétima e oitavas séries, para reavivar um pouco o espírito.

O resultado não foi dos melhores...


O livro também tem 24 ilustrações - uma para cada capítulo e uma para cada divisão das partes do livro, todas pelo Alexandre Matos. 

O Mestiço Cego, o Andrógino Apático, o Gordo Histérico, o Negro Ejetado, o Narciso Vesgo, o Junkie Iluminado e o Atleta Desprendido. Eram esses os codinomes irônicos dos meninos (que confesso que tive de consultar agora no livro, porque não me lembrava mais), vivendo num prédio inclinado, num futuro distópico, numa cidade litorânea em que neva, a escola está sempre em greve, e é assolada por zumbis – basicamente uma salada de tudo o que compõe meu universo. Passei três anos escrevendo, reescrevendo, entre 2006 e 2009, e tive muitos problemas com a editora.

Os meninos na versão do Lestrange, que era leitor na época e iria se tornar o ilustrador de "Garotos Malditos". 

A Nova Fronteira, que havia lançado “Mastigando Humanos”, comprou o livro, pagou um bom adiantamento, mas entrou em crise no meio processo, sendo vendida para a Ediouro. O livro ficou mais de um ano engavetado, a editora parou de responder meus emails e eu, com a falta de noção que me é peculiar, postei neste blog literalmente isso:

“Minha editora foi comprar cigarros e nunca mais voltou. Eu torço com perversidade em vê-la voltando nas últimas, careca, em quimio, com câncer de pulmão. Então eu tiraria meus originais das mãos dela e apagaria uma bituca em sua testa. Assim seria feliz para sempre, no prédio, no tédio, com meus sete meninos cegos (que atualmente andam surdos e mudos também.)”

Pesado, eu sei. Hoje eu faria diferente. De todo modo, funcionou. No dia seguinte a editora rompia contrato comigo, fiquei com a grana, e migrei na mesma hora para a Record, para onde eu já traduzia. Recebi de novo um bom adiantamento, o Alê recebeu novamente pelas ilustrações e fomos felizes para sempre.

Nem tanto.

Eu e Alê no lançamento, com minha mãe ao fundo (do Glamurama: https://glamurama.uol.com.br/galeria/santiago-nazarian-28509/ )

O livro foi lançado com pompa – a noite de autógrafo no Bar Volt, aqui em São Paulo, foi um acontecimento, lotou, saiu em TODAS as colunas sociais (Folha, Estado, Vogue RG e Glamurama) e o livro foi um fracaaaasso. Ou quase. 

De Luis Augusto Fischer. 

“Nazarian erra a mão em romance”, foi a manchete da primeira crítica, na Folha. Em geral, o povo não gostou nada do livro. Acho que foi uma mistura indigesta de universo juvenil, com escrita queer, que poderia funcionar em outros territórios (vide Chuck Palahniuk), mas que não caiu bem por aqui. Ninguém entendeu direito para que público era o livro. Talvez nem eu.

(Na versão online amenizaram o título, mas o texto é o mesmo:  https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0509200911.htm) 

O mercado também havia mudado nesses três anos que fiquei sem publicar e a Record não teve o trabalho de divulgação direcionado que eu tive nos primeiros livros. Acabou sendo frustração atrás de frustração, principalmente porque eu estava muito mal-acostumado (e metidinho) pela minha trajetória.

 Com a Mary Moon, pra MTV. 
Mas também não foi um fracaaaasso. Teve uma ou outra resenha boa, fui pela terceira vez no programa do Jô e continuei a catar leitores lindos (afinal, o livro foi literalmente dedicado a eles).

Prova de que até teve crítica boa: https://www.terra.com.br/istoegente/edicoes/522/artigo151340-1.htm

Eu com Alê Matos nos bastidores da minha terceira entrevista no Jô. Foi bacaninha. 

Hoje... Não sei. Fiquei muito tempo com um olhar atravessado para esse livro. Mas pegando agora para fazer esse texto, tenho certo orgulho – de ter conseguido publicar por uma grande editora algo tão alternativo; de manter a integridade da minha visão. Ainda acho que o livro tem belas passagens, como o capítulo em que começa a chover e basicamente temos de esperar a chuva acabar para avançar a história, para o próximo capítulo; é de longe meu livro mais bem estruturado. Acho que teria se beneficiado de uma boa edição (a culpa é dos editores, não é minha!), acho que tem muita punheta, muita piada interna, muito humor poser, mas não me arrependo de ter publicado não. (E continua em catálogo na Record.)


Essa dupla foi impressa propositadamente meio torta - acho que cada livro tem um ângulo diferente. 

É também meu livro com o projeto gráfico mais lindo, todo do Alexandre Matos, amigo querido que era praticamente o oitavo menino do livro (o Artista Espírita?). Chegou a ser finalista... (chegou a ganhar?) de um prêmio de projeto gráfico.







As ilustrações que abrem os capítulos têm também essas releituras.


No fim, bem ou mal, tenho a pretensão de dizer que é o MAIOR ROMANCE EMO QUE ESTE PAÍS NUNCA LEU!

E eu teria fracassos maiores/piores...


A foto de orelha foi uma foto turística, tirada em Bogotá pela (escritora) Verônica Stigger. 


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 Tem sido difícil atualizar o blog com a concorrência de todas as outras redes sociais. Eu acabo usando como um apanhado de momentos especia...