27/06/2012

O QUE ANDA LENDO?

Santiago Nazarian com Tatiana Salem Levy, escritora. (Publicado na revista Metáfora de junho.)

Nazarian: E aí, princesa, o que está lendo?

Levy: É pra dizer a verdade?

Nazarian: Se a verdade for interessante...

Levy: Tô lendo um romance chamado E a Noite Roda, mas é um livro português, ainda não saiu aqui, é de uma jornalista, Alexandra Lucas Coelho, correspondente do jornal “O Público” aqui no Rio, primeiro romance dela. Muito bom. A história se passa no oriente médio, sobretudo em Israel e Palestina, mas também na Espanha; é uma história de amor entre 2 correspondentes em Israel.

Nazarian: Hum, então tem essa coisa de correspondente jornalístico dela... E tem a questão judaica, não? Vocês sempre puxando a brasa para a sardinha de vocês!

Levy: Haha. Não, isso não... tem a questão palestina, é um livro super pró-palestina! Mas posso falar de outro, ou começar a ler outro.

Nazarian: Tá, vai lá no cantinho, te dou meia hora para começar outro e me dizer o que está achando...

Levy: Já sei, tem um que li há pouco, bonzão. Um de um cara q vai atrás de uma casa de ópio, porque diz que nasceu pra fumar ópio. A Última Casa de Ópio, Nick Toshes

Nazarian: Conheço um cara que vivia nas casas de ópio em Amsterdã.

Levy: Sério? Tem casa de ópio em Amsterdã?

Nazarian: Clandestina, mas tem. Bem, segundo ele tem.

Levy: Pô, eu queria fumar ópio, deve ser incrível...

Nazarian: Eu também. Só falta esse...

Levy: Hahaha. Pra mim faltam outros...

Nazarian: O livro alimenta essa vontade?

Levy: Tem a coisa da aura da casa de ópio. Porque ele não quer só fumar ópio, quer fumar numa casa de ópio. E sai viajando pelo Vietnã, por Hong Kong, Tailândia, atrás da tal casa; e eu estava nesses lugares agora.

Nazarian: Acho que mesmo quando esses livros trazem uma visão negativa, acabam dando uma vontade... O que tem de adolescente que resolve experimentar depois de ler "Christiane F". Eu fui meio assim...

Levy: Ah, total. Mas o dele não é nada negativa. Diz que nasceu pra fumar ópio, e depois de fumar diz que tinha toda a razão.

Nazarian: Felizmente livros não são produtos de massa, senão já caía juiz em cima querendo recolher o livro por apologia... Recolheriam Lolita por apologia à pedofilia... Acho que o Brasil está chegando nesse ponto.

Levy: Tá complicado. Se os evangélicos tomarem conta então, fodeu.

Nazarian: Melhor a gente ficar quietinho, não dar ideia, senão os livros passarão a vir com "classificação indicativa" (Ops! Já dei)

A Última Casa de Ópio, do jornalista Nick Toshes, foi publicado no Brasil pela Conrad, em 2006. 


26/06/2012

UM CONTO DE FADAS PUNK

Com Laura Albert, a criadora de JT LeRoy. 


“Nós preferimos que as crianças abusadas morram. Porque daí podemos ir para a porta de suas casas, colocar flores, ursinhos de pelúcia. Mas quando as pessoas encontram uma criança que foi abusada, ela não é uma criança fofa. Ela teve de sobreviver por muita coisa. Ela rouba nossa casa, bate nos nossos filhos. Nós a queremos morta. Queremos uma fantasia. No meu trabalho era importante mostrar uma visão mais realista.”


Saiu na revista Metáfora deste mês a entrevista exclusiva que fiz com Laura Albert, autora do personagem/autor JT LeRoy. Não vou colocar aqui, compre a revista nas bancas (também tem um bate-papo meu com a Tatiana Salem Levy). Laura foi fofíssima, contou toda a história em detalhes e ainda gravamos um videozinho para o videolog do Duilio Ferronato (que não sei quando/se vai ao ar). 

Falando em JT, há uns dez dias fui na estreia da peça baseada na história dele, JT Um Conto de Fadas Punk. Gostei bem, bem. Conta muito bem a história, é divertida e os atores estão ótimos. Olha o serviço aí: 





Falando em peça. Feriado de Mim Mesmo, da Cia Teatro de Extremos, baseado no meu livro, reestreia agora rapidinho no Rio (flyer abaixo). Em agosto, passa por SP. Assim que tiver os detalhes, eu aviso. Espero que a peça circule mais e fique mais tempo em cartaz, porque assisti ano passado e fiquei bem feliz com o resultado. 




E além da Metáfora, onde tenho escrito mensalmente, este mês estou com Mário Prata e Barbara Gancia na revista Glamour, cada um com um continho "de amor" (por causa do dia dos namorados). O meu é um conto de amor platônico, meio bittersweet, mas mais sweet do que tenho sido ultimamente. 

Tem também uma crítica que fiz para a Bravo!, sobre o novo filme do Tim Burton, mas essa não sei ainda se saiu, então não vou dizer o que achei...


Eu e Laura, unidos por um romance bizarro. 



20/06/2012

O QUE ANDA LENDO?


Nina Lemos, jornalista.


Nazarian: Enton, Nina, o que anda lendo?

Lemos: Eu amei o último Paul Auster, Sunset Park. Sobre a crise americana. Tem até uns squatters. Você leu?


Nazarian: Não, li pouca coisa dele, e confesso que não gosto muito. Li Cidade de Vidro e um que chama Mr. Vertigo...


Lemos: Mas esse é foda porque é pop. Pensa, crise, falta de casa...


Nazarian: Será que ele sabe o que é crise? Hoje em dia?

Lemos: Ele romantiza, mas fala dos jovens. Tipo, o personagem principal recolhe entulho de casa abandonada. E tira foto das coisas. É bem legal, viu? Mas eu acho que é uma crise maior do que a crise deve ser.


Nazarian: Como assim?

Lemos: Vou falar loucuras, mas não sei se a crise do mercado imobiliário nos EUA é tão grande assim. Haha. O livro coloca como uma coisa beeem grande. Tipo América devastada, ocupação no Brooklin, jovens sem grana.


Nazarian: Uma coisa apocalíptica?


Lemos: Éeee, meio Berlim demais pros EUA, eu acho. Como se os jovens americanos estivessem mais alternativos do que eles são.


Nazarian: Mas ficção é isso, né? A gente não precisa ver os EUA reais... Talvez esse EUA seja mais interessante...

Lemos: Como se alguém escrevesse sobre a especulação imobiliária em SP. Por sinal, alguém podia escrever. E pensando, é legal um livro americano sobre... como é a palavra mesmo? Gentrificação.


Nazarian: Bem, acho que a crise no Brasil tem data certa para acontecer, e vai ser muito mais grave do que a europeia, porque a gente não tem séculos de estrutura em educação, saúde, transporte... A crise aqui começa quando o Brasil perder a copa.


Lemos: A gente já tá na crise!!! Pinheirinho. Ocupação Mauá.


Nazarian: Mas tem essa euforia do consumo...

Lemos: ...mas assim, essa coisa da moradia, especialmente tá foda, não é à toa que o Mano Brown foi lá e gravou o clipe na ocupação Mauá. O Emicida deu uma entrevista incrível sobre isso. A gente reclamados aluguéis e dos prédios neoclássicos, mas pobre NÃO TEM ONDE MORAR e em SP é pior, Kassab, cracolândia, incorporadoras... A gente tá muito fodido e infeliz.

Sunset Park, do Paul Auster, foi publicado no Brasil pela Cia. das Letras.




15/06/2012

PÍLULAS MALDITAS




– Uau! Ludovique, né? Ou Lu-do?
– Ludo, pode ser.
– Uau! Bonitão você. Vai fazer sucesso com as gatcheeeenhas daqui, hahaha. Peraí...
A diretora pegou meu histórico e deu uma olhada. Fiquei olhando para ela, não querendo olhar, meio assustado. “Uau”? “Gatcheenhas”? Não que o jeito de animadora de palco dela me impressionasse tanto, me impressionava mais o decote, e os peitos que pareciam ter cinco litros de silicone em cada. Aquele cabelo descolorido, escorrido, chapinhado. Cara de plástica, botox e uma vida na indústria pornográfica. Essa era minha diretora no Colégio Pentagrama? Dona... Samanta... Era isso, dona Samanta?
– Samantha, só, não precisa de “dona”, mas com agá, hein? – cacarejou minha diretora.
– Certo. – Segurei o riso.






Quando você já está morto, e pode atravessar paredes, possuir corpos e assombrar a galera em geral, por que vai querer uma mãe por perto te atazanando? Por que um fantasma seria carente a esse ponto?
Era o que eu me perguntava, assistindo ao final de um filme de terror japonês no meu celular, enquanto esperava com a minha mãe na sala da diretora.
– Detesto esses filmes de terror emque o fantasma é bonzinho, que o fantasma só é mal compreendido e precisa de amor. Fantasma tem de ser mau! Fantasma tem de ser mau! – deixei escapar.
Minha mãe puxou o fone do meu ouvido.
– Desligue isso, Ludo. Não precisa ficar assistindo essas coisas até aqui, a essa hora da manhã.
Ah, “essa hora da manhã.” Muito cedo para ver filmes de terror, né? Mas o horário perfeito para aprender sobre equações exponenciais. Bem, eu não estava aprendendo muita coisa naquele colégio, isso é certo, e também por isso minha mãe estava do meu lado, esperando para falar com a diretora, que estava demorando horrores.






– Sonhei com você ontem – me disse ela.
– É? – Fiquei meio sem graça. E acabei dizendo o que não devia. – Também sonhei com você outro dia...
– Sério? O que você sonhou?
Ai, pamonha. E agora o que eu ia dizer a ela, que tive um sonho bizarro dela e do Lupe querendo me levar para o Inferno?
– Diz você primeiro: o que sonhou?
Camila riu.
– Não, diz você, perguntei primeiro...
– Mas você já começou contando...
– Está com vergonha de me dizer o que sonhou, Ludo?
Fiquei todo vermelho.
– Ah... não, tipo, não foi nada demais... A gente estava numa floresta...
Ela ficou me encarando, assentindo com a cabeça, encorajando:
– E..?
– E nada, tinha um... lobisomem atrás de você, e eu te salvava. Só isso.
Camila riu.
– Que fofo, Ludo!
Er... hum, “fofo”. Me saí bem?
– E você, o que sonhou?
Ela então ficou mais séria.
– Ah, nada demais também, foi só um sonho erótico.




– Então, você é virgem?
Pffffff, o mesmo papo de sempre. Agora eu até acreditava que era realmente aquela caveira quem falava comigo, aquela caveira era meu psicólogo, o dr. Yorick. Mas que papo era aquele? Por que ela ou ele estava tão interessado na minha vida sexual?
– Olha, eu vim aqui para falar sobre minha transformação em lobisomem, se sou virgem não é problema seu.
– Hum, estou achando então que é sim, é virgem sim, não quer admitir.
Afe, agora essa, a caveira tirando onda com a minha cara.
– Você não me escutou? Eu não quero falar da minha vida sexual.
– Virgem-em-em, virgem, lalalá – cantarolou ela. Que coisa infantil. Era de se esperar que uma caveira, ainda mais de um psicólogo, fosse mais madura.
– Eu não sou virgem, já falei!
– Sexo oral não conta.
– Mas não sou virgem de jeito nenhum! – Oops! Não, não era bem assim. – Quero dizer, já transei com mulher sim, eu tinha namorada no colégio anterior.
– Acho que está é querendo contar vantagem... – A caveira continuava aloprando comigo. Que raiva.
– Que contar vantagem, cabeça oca? Que contar vantagem? Tinha namorada sim.
– Virgem-em-em, lalalá.

[Trechinhos de Garotos Malditos, meu primeiro romance juvenil, contemplado no programa Petrobrás Cultural. Lançamento em agosto, pela Record. Ilustrações de Lestrange.]

13/06/2012

O QUE ANDA LENDO?

Jairo Bouer, médico psiquiatra e comunicador.


Nazarian: Jairo, bora fazer minha entrevistinha?

Bouer: Beleza. De quanto tempo precisa?

Nazarian: Ah, uns quinze minutinhos...

Bouer: Onde estás?

Nazarian: Tô em casa, SP. Mas eu faço por aqui mesmo. A ideia é ser esse chat.

Bouer: Ok, manda bala Santi.

Nazarian: Então, como eu falei, o que está lendo, ou um último livro que leu. Se for ficção, melhor.

Bouer: Ok. Vamos lá.

Nazarian: Me fala o livro! Hahah.

Bouer: Então, pode ser mais de um... Ou eu escolho? É que sempre leio 3-4 ao mesmo tempo.

Nazarian: Me fala um livro bacana que dê para a gente conversar, ou que renda conversas paralelas interesantes.

Bouer: Ok. Manda. Escolhi.


Nazarian: É para eu adivinhar?!

Bouer: Claro... Haha.

Nazarian: Pornofantasma, de Santiago Nazarian.

Bouer: Haha... Não... Pois então, tô lendo o último livro que encontrei do Armistead Maupin... Já ouviu falar dele?

Nazarian: Ahhh, ótimo. Gosto bem do Night Listener. Qual está lendo?

Bouer: Night Listener é incrível, Maybe the Moon também. Mas agora ele voltou à série Tales of the City. O novo livro se chama Mary Ann in Autumn; a protagonista da série volta a São Francisco vinte anos depois para reencontrar os amigos...

Nazarian: Você já leu a série toda? São oito, não? É meio obrigatório seguir ou dá para ser lido independentemente?

Bouer: Sim, sim, comecei há uns vinte anos quando morava em Londres. Dá para ler sem ter lido os outros. Mas acho que há muito mais signficados e desdobramentos se você tem pelo menos uma ideia do que já se passou.

Nazarian: Acho que eu só segui assim com a série infantil O Pequeno Vampiro, haha, e os livros do João Carlos Marinho. Sou pré-Harry Potter. Os livros do Maupin foram inicialmente publicados em jornal, é isso? Uma espécie de folhetim...

Bouer: Ele começou no San Francisco Chronicle, se não me engano, como um folhetim mesmo. Daí foi publicando alguns livros. É a vida de um grupo de amigos em SF na passagem dos 70 para os 80... Ex-hippies, yuppies, AIDS, as diversas possibilidades de se viver a sexualidade humana, drogas, media power...

Nazarian: É muito gostoso quando você pega um romance, convive com o personagem, depois sente falta dele. É bacana trazer essa sensação que as pessoas hoje só têm com novelas, com seriados... A série vai se atualizando ou fica naquela época?

Bouer: Pois é... É muito legal isso que você disse. É como se você deixasse os personagens na geladeira por vinte anos. Daí sente saudades e resolve "ver" como eles estão hoje. Nesse livro, a Mary Ann tá com 57, e volta a SF para entender/resolver uma série de crises e nós que deixou amarrados no passado. A Mary Ann e sua turma passaram por muita coisa nesses 20 anos... Daí você faz uma ponte e os joga no futuro. Incrível, não? E para o leitor é tão bom reencontrá-los... Sentia uma puta falta deles, sabe? Tipo sete livros é foda, muita intimidade, hehehe.

Nazarian: Putz, adoraria fazer isso. Mas eu mato todos os meus personagem. Só se deixasse na geladeira literalmente, como criogenia. Estava comentando inclusive que se eu tivesse filho, não teria mais nome para dar, porque já gastei todos que eu gosto nos meus personagens... que tiveram destinos trágicos.

Bouer: Você vê novela, Santi?

Nazarian: Não vejo. A última que segui foi Senhora do Destino. Mas acho que uma série de livros assim pode ser uma boa pedida. Fiquei com vontade... Morre muita gente?

(A série Histórias de Uma Cidade foi publicada no Brasil pela Record.)

09/06/2012

WHEN I'M AN OLD MAN

When I'm an old lady, I'm gonna be his baby. I'm gonna wrap myself around him. And then I'm gonna kiss him. But that's a way down the line. You see for now he isn't mine. But I don't mind waiting. And the long is not aching. ("Old Lady", Sinéad O'Connor)


Quando eu for velhinho... eu não vou ser velhinho. Ao menos, não no diminutivo. Quero ser daqueles velhos de quem as crianças têm medo. Um velho mau. Quando a bola cair no meu quintal.

(Já poderia ser assim, se eu tivesse um quintal...)

Imagino o que pensam os vizinhos...

Eu sou o perfeito psicopata. Eu sou o estereótipo. Sempre de preto, calado, sozinho, não sei o nome de um morador deste prédio (e, ainda que com idas e vindas, estou neste apartamento há 9 anos). Raramente trago gente para cá. Não gosto de receber amigos. Não dou festas. Não gosto de gente na minha casa. Tarde da madrugada, assisto a coisas como Wolf Creek, Rec, 30 Dias de Noite, Morte Súbita, O Massacre Da Serra Elétrica. Imagino o que pensam os vizinhos. Tarde da madrugada, sempre mulheres berrando. Se houvesse uma votação para o psicopata perfeito do bairro, seria eu o vencedor. Só estragou um pouco minhas idas ao Jô. Agora os porteiros sabem quem eu sou. Legitimou a coisa do excêntrico, escritor. Não sou psicótico porque sou famoso.

Passei os últimos 4 dias trancados aqui. Deixando o cabelo crescer, a barba crescer, uma garrafa de Jack Daniels, muito trabalho a fazer. Uma pequena crise.

Os últimos dias também foram matadores no clima, no cinza. Dá para ter uma pequena, pequena, pequena ideia do que foi meu mês inteiro de dezembro em Helsinque. Mas estava esses dias relendo meus posts de lá; parecia uma melancolia tão feliz...

Para não ter de sair, pedi delivery do Sushi Express, Almanara, Ritz. Hoje percebi que não tinha mais papel higiênico em casa, água, coloquei minha capa, chapéu e fui ao mercado (foi quando fiz essa foto). Queria ter também uma bengala. Meu joelho está fodido e estou mancando. Fodi há mais de um ano, no kite... Nah, na verdade caí de um palco, quando estava discotecando numa festa do Fabiano Karvax. E quando já tinha melhorado, fodi de vez no kite surf. Esta semana voltou a piorar. Agora sou um velho maldito completo. Não! Falta a bengala.

Pode ser um personagem. Mas é o personagem que eu de fato sou. É sustentável. E assim me sustento, ainda que manco. Posso estar mancando, mas posso chamar o delivery, será meu mote da vez.

Acho que o tempo está a meu favor, apesar de gay. O tempo é sempre aliado (a pressa inimiga) de um escritor. Me sinto muito mais velho do que eu sou . Ou talvez não, talvez me sinta mais velho do que meus amigos gays de 40 que, como gays, se sentem mais jovens do que são. Velho e cansado. Mas numa boa vibe. Eu sempre pensei que o mais importante era aproveitar ao máximo cada idade, e eu já aproveitei demais. Aproveitei ao ponto de basicamente não ter mais sonhos a realizar. Isso diminui um pouco o ânimo, as vontades...

Isso tudo não é só para dizer que estou apaixonado. Veja só, ainda é possível, na terceira idade. Estou apaixonado, mas estou só.

E isso não é tudo.




05/06/2012

O QUE ANDA LENDO?

Bianca Tadini, uma diva nacional dos musicais. [Foto: Otávio Dias]



Nazarian: Princesa, o que está lendo, ou um último livro bacana que leu?

Tadini: Acabei de ler Patti LuPone: A Memoir. É uma espécie de auto-biografia de uma das maiores divas de teatro musical americano. Ela é uma figura bem interessante, conta vários podres do meio, alfineta muita gente e ri dela mesma.

Nazarian: É mais porra louca ou mais velha dama?

Tadini: Ela é as duas coisas, por isso ela é tão interessante. Ela fez parte da primeira turma de Julliard de teatro, então viveu essa coisa de trupe de teatro, a loucura dos anos 60, 70 e 80; ela é de família italiana. A avó dela fazia bebida e vendia álcool escondido durante a Lei Seca e diz que assassinou o próprio marido.

Nazarian: Mas ator de musical precisa ter uma disciplina extra, não? Não só pela voz, mas pela coisa ser mais marcada, coreografada...

Tadini: Precisa. Então, ela foi quem fez a Evita na Broadway, e era um papel muito difícil de cantar, ela teve muita dificuldade, mas ganhou o Tony, e estudou muito mesmo durante a temporada; só que eram os anos 80, então saindo do teatro ela fazia uma vez por semana um show num clube gay, o Les Mouches. Ela é uma mulher intensa, e doida. Genial.

Nazarian: Um show meio drag?

Tadini: Não, era ela cantando grandes sucesso. E as bichas piravam. O show foi um hit, ficou um tempão em cartaz, lotado, e ela ao mesmo tempo fazendo Evita. Ela é um dos nomes mais respeitados no meio, mas é conhecida por ter uma personalidade forte e ser meio explosiva.

Nazarian: Você, como cantora de músical [Bianca Tadini já participou de várias montagens no Brasil, como O Mágico de Oz, O Fantasma da Ópera e Evita], lendo uma coisa dessas te impulsiona ou te deixa meio brochada?

Tadini: Olha, me impulsiona, porque ela é um gênio. Ela é tão entregue ao que ela faz, e apesar das explosões, vale a pena. Ela teve uma vida tão rica, tanta coisa para contar, tantos papéis incríveis...

Nazarian: Mas o mercado aqui deve ser muito diferente, não?

Tadini: É diferente sim. Acho que aqui ainda não temos nomes com tanto peso e importância como ela, por uma questão de tempo. O teatro musical aqui é jovem comparado com o dos Estados Unidos, que existe há mais de cem anos. Temos as grandes damas do teatro, a Bibi, a Marília Pera, que fazem musicais. Mas esse mercado cresceu há pouco aqui. Fora que ela, por morar lá, entra em contato direto com pessoas como o Sondheim, o Andrew Lloyd Webber...

Nazarian: Será que as grandes damas daqui contariam tudo num livro de memórias? Tenho a impressão de que a classe artística daqui é bem mais pudica, ou hipócrita. Ninguém usa drogas, ninguém comete homossexualidades...

Tadini: Eu acho que aqui nós somos mais comedidos. E no caso da Patti, a loucura faz parte da persona, né? Acho que em geral o brasileiro, como povo, gosta de ser legal, de ser unanimidade, sabe? O brasil precisa de mais gente que bota a boca no trombone; todo mundo muito politicamente correto, se levando muito à sério, não era assim, hahaha...


Patti LuPone: a Memoir ainda não tem tradução no Brasil.

29/05/2012

O QUE ANDA LENDO?
Santiago Nazarian com Guilherme Weber, ator e diretor.

Nazarian: Me diz, o que anda lendo?

Weber: Role Models, do John Waters.

Nazarian: Opa, o que é?

Weber: Um livro dele falando sobre suas histórias e preferências. Sensacional. Tem desde um capítulo onde ele conta sua relação com a Leslie, uma das Manson Girls, que está presa há anos por assassinato e se tornou uma de suas melhores amigas, até um capítulo sobre alguns de seus livros favoritos. Fala de encontro com ídolos e dos heróis de Baltimore, sua cidade natal.

Nazarian: É uma espécie de autobiografia?

Weber: Acaba sendo, involuntariamente, porque ele fala do que constitui o universo dele. E as conexões e sinapses que ele faz no gigantesco e originalíssimo universo que forma a cultura dele são interessantíssimas. Ele começa um capítulo falando do encontro e fixação dele pelo Johnny Mattis, passando pela biografia da Margaret Hamilton, a atriz que fez a Bruxa Má do Oeste em O Mágico de Oz, e termina revelando que matou um homem em um atropelamento.

Nazarian: (Tá dando uns paus aqui.)

Weber: Ok, essa frase tem tudo a ver com o Waters, hahaha.

Nazarian: Haha. Eu acho a filmografia dele bem irregular. Quais filmes dele você mais gosta?

Weber: Acho, na minha opinião, claro, que ele está não acima, mas à margem do bom e do ruim. Talvez seus filmes não sejam agradáveis de assistir, e não são, mas ele é um artista que inventou um mundo, uma estética, um universo, então realmente acho que o lugar dele é outro. A mesma coisa com os filmes do Andy Warhol, é um universo de experimentação que felizmente não cabe em classificações. Não existiria nem a rua augusta de hoje sem ele... Eu gosto do universo todo... Pink Flamingos, Problemas Femininos, Cecil B. Demente...

Nazarian: Ah, o Cecil B. Demente, por exemplo, acho uma bobagem. Eu gosto bem do Serial Mom, que é uma bobagem, mas é um filme bem realizado, divertido. Tem um chamado Pecker de que eu lembro que gostei também...

Weber: É bobagem total, mas acho sedutor [o filme Cecil B. Demente]. A Melannie Griffith explodindo de botox, o Stephen Dorff pós Michael Stipe, só o cartaz já é incrível...

Nazarian: E eu discordo um pouco de você. Acho que ele pode ter criado sim esse universo, mas não teve uma influência lá tão marcante. Pouca gente assiste.

Weber: Não existiria nem Almodóvar sem ele. Quando a influência é grande, como a dele, as pessoas nem sabem que estão sendo influenciadas. Isso é o verdadeiro universo pop!

Nazarian: Não sei se é uma influência, direta. Às vezes há um parentesco, mas não há uma influência real...

Weber: É periférica, sim.

Nazarian: As pessoas não assistem os filmes dele, Gui. No Brasil, quase nenhum passou, é difícil de achar...

Weber: Então, por isso acho incrível. O universo dele já ultrapassou a própria cinematografia. Sabe que lendo esse livro dá para perceber o quanto o universo dele é extenso? Acho inclusive que ele abriu muitas portas para que os artistas misturassem o erudito com o popular, não necessariamente nas suas obras, mas no seu universo de referências. Bom, dá pra ver que estou adorando o livro!

Nazarian: Com certeza [a peça dirigida por Guilherme Weber] Os Altruístas tem muito dele, né?

Weber: Totalmente!!! E do Warhol. Eu falava para os atores: pensem nas heroínas deles, na Candy, Jackie, Holly, no Divine, na Pia Zadora...

Nazarian: Conhece o Alisson Gothz?

Weber: O artista plástico... Que parece o Boy George...

Nazarian: Isso, performático. Ele tem bem de John Waters. Esses dias inclusive postou uma foto do Waters com a Elvira.

Weber: É filho direto. Postei uma estes dias bem rara, do Divine com a Jackie Curtis. As divas do Village.


[Role Models, de John Waters, ainda não foi publico em português, no Brasil.]

27/05/2012

RESENHANDO SÃO PAULO

Fafá de SP.



Estou nessa fase de redescobrir São Paulo, e tem sido bastante produtiva... ou ao menos divertida. Este final de semana fui visitar minha sobrinha, emendei numa festinha no Mis, emendei no show da Fafá de Belém, emendei numa festa na casa de amigos, emendei na Yacht, fui dormir, trabalhei domingo de manhã, fui almoçar no Apfel, emendei no show do Franz Ferdinand, emendei na Voodoohop, agora estou em casa esperando um sushi.

Minha sobrinha: esperneou, gritou, e não aceitou meu amor. Mas eu a perdôo porque ela ainda não tem nem um mês.

Festinha no Mis: É uma coisa chamada Green Sunset, e faz jus ao nome. Um povinho publicitário que não se importa de ficar na fila para beber, mijar e dançar. Nunca mais.

Fafá de Belém: Eu a entrevistei ano passado, mas nunca tinha visto o show. Uma coisa chachachá Pará Profundo muito, muito boa musicalmente, apesar de bem longe do meu universo. Gostei bem, foi algo diferente que me acrescentou muito.

De lá saí para festinha de amigos, que é sempre bom pelos amigos, mas que... sei lá. Essa coisa "buatchy" realmente não faz muito sentido para quem tem mais de trinta. E... Yacht? Um lugar bem cafona genérico, diz aí? Que são aqueles cavalos marinhos? Me lembra aquela "buatchy" chamada NAJA, dos anos 90, nos jardins, alguém lembra?

Pulo para o show do Franz Ferdinand, que eu não fui realmente. Queria ver a abertura, do The Horrors, mas cheguei no final da tarde e tinha uma fila, uma fila, uma coisa assustadora. Na verdade, semi-assustadora, porque era uma fila imensa, mas um povo bem bonitinho. Sabe como é, esses indie rockers magrelos, tatuados e cabeludos que eu gosto de chamar de "meu povo" (Porque no mundinho gay é tudo bombadinho, cabelo raspadinho e topetudo, camiseta polo, barba por fazer. Me dá certo asco.). Fiquei na fila, vendo aquele povo bonitinho, pensando se eu encarava, se pegava um táxi e ia embora... passa Gilberto Custódio de carro (amigo ancestral dos meus tempos de indie rocker, com quem eu ia ver showzinho de banda de garagem em Osasco, no final dos 90.). Daí peguei carona direto pra Voodoohop, que confesso que eu nunca tinha ido, e achei interessante. Um povo, assim, mais.... orgânico, uns cabelos (ruins) mais compridinhos, uns beques rolando pra cá e pra lá. Ok, bacaninha.

Mas....

Nada faz sentido. Se você não está aqui :)




Com minha herdeira e sobrinha, Valentina.

23/05/2012

O QUE ANDA LENDO?

Santiago Nazarian com Edney Silvestre, escritor e repórter.

[Publicado na minha coluna mensal da revista Metáfora, de maio]

Nazarian: Edney, tem uns minutinhos?

Silvestre: Deixa eu interromper o texto que estou a escrever. Meu personagem teve um filho.

Nazarian: Virou vovô! Então, o que está lendo?

Silvestre: Hehe. Estou relendo Tonio Kroeger. Vou falar do romance doThomas Mann durante uma viagem ("Navegar é preciso") com um grupopelo rio Negro. Vamos: Walter Hugo Mãe, Nilton Bonder, Clarice Niskier, Ignacio de Loyola Brandão e eu. É um projeto que está no segundo ano, organizado pelo Samuel Seibel, das Livrarias da Vila. No final cada um falará de seu livro preferido.

Nazarian: Nossa, que incrível. Amo esse livro. É muito cruel, e verdadeiro Eu tinha naquela ediçãozinha vermelha da Abril, capa dura com o Morte em Veneza... É seu preferido?

Silvestre: Não tenho um "preferido", mas foi esse que me salvou a vida na adolescência. É portanto o livro mais importante pra mim. Foi um dos quatro que carreguei para NY quando me mudei pra lá. Os outros foram um roteiro detalhado de "Himmel Über Berlin", aliás, "Les ailes dudésir", do Wim Wenders; uma edição velhíssima de "O encontro marcado" [Fernando Sabino] e uma edição da história da Yeda Leite Linhares.

Nazarian: Adoro aquela coisa de ele [Tônio Kroeger] chegar ao ponto máximo que poderia, como escritor, mas ainda assim ser sempre um excluído, não conseguir tocar o "mundo dos belos"...

Silvestre: Sim, o artista como excluído, sempre. Lembra do capítulo em que ele vê o baile por trás das janelas, do lado de fora? O mundo dos ajustados não é o nosso. Não te parece?

Nazarian: Mas talvez todo mundo se sinta meio assim, talvez apenas os escritores tenham mais oportunidade de narrar, até porque narram sozinhos...

Edney: Talvez.

Nazarian: O que eu já encontrei de ex-colega que eu achava popular, integrado no colégio, que hoje é metido à artista. E eu digo: Você não pode ser artista, você era integrado! Haha. Mas ninguém se vê como integrado...

Silvestre: Hum... Não sei se concordo. Aliás, sei: não concordo. Sei de gente que se acha ajustada. Não é, mas se acha. Os escritores americanos, tantos, profissionais da escrita, trabalham das nove as cinco, com intervalo de almoço, nos seus romances, contos e peças. Conheci alguns perfeitamente, digamos, ajustados ao sistema.

Nazarian: Esses não me apetecem... Mas me diz, na hora de escolher esses livros, seus livros de cabeceira e tal, não se sente meio pressionado a apontar "autores brasileiros"?

Silvestre: Não, Santiago. Até porque, na minha juventude, os arrasa-quarteirões da crítica e dos leitores eram Jorge Amado etc. Not my cup of tea. Sou mais introspectivo. Dos brasileiros, gosto mesmo é do Graciliano Ramos.

Nazarian: Ufa, enfim um autor brasileiro que não paga pau pra Machado!

Silvestre: Nem Machado, nem Lobato.

Tonio Kroeger é uma novela escrita por Thomas Mann em 1901, quando ele ainda tinha 25 anos. Foi publicada em português no Brasil, além da Editora Abril, pela Nova Fronteira.

22/05/2012

SOBRE O CASO XUXA...




Ai, tô pouco me lixando para o que a Xuxa disse, não tenho nada a dizer e nada a pensar sobre a entrevista com ela. Minha pergunta é quando o FOFÃO irá contar tudo sobre seu passado. 

VIAGENS DE AGOSTO

Eu e meu jerimum. Depois de BH, Flip, Bahia, teve Minas de novo: FLIF, um festival do Instituto Federal do Sul de Minas em que EU fui o auto...