20/02/2015

DISCO DO ANO




Foi só eu publicar aqui o post dos cantores gays que me lembrei que uma das minhas cantoras favoritas, a norueguesa Susanne Sundfør, tinha acabado de lançar disco novo. Procurei para baixar e estou ouvindo sem parar desde quarta. "Ten Love Songs" já é forte candidato a disco do ano.



Susanne é outra das que conheci através da parecia com o Röysopp. Em 2012 ela gravou com eles o single "Running to the Sea", que é das melhores coisas da carreira deles (e dela). Está presente também em outra faixa do álbum deles do ano passado, que não impressiona tanto.


Com o Royksopp. 


No último ano baixei tudo dela. É sempre genial - nem sempre divertido. Ela tem por exemplo um álbum só instrumental de sintetizadores, que não consigo ouvir. Mas deixa claro que está num padrão bem acima das cantorinhas pop por aí. Na Noruega (e apenas lá, apesar de cantar em inglês), ela é cantora de topo das paradas - um bom reflexo do nível daquele país... Em seus primeiros discos investia mais no soul e folk, com grandes malabarismos vocais. Ultimamente adotou um tom mais etéreo e eletrônico. Mas nada se compara ao álbum lançado esta semana. 



Em 2011. 

"Ten Love Songs" é sem dúvida o álbum mais acessível de Susanne, E ainda consegue ser o mais requintado. Fica transparente na obra que é uma musicista erudita fazendo música pop, nos arranjos, nos teclados (que ela toca), nas ambições. 

Abre com "Darlings", lenta, lastimosa, como se já fosse o fim do primeiro amor. Então segue dançante com o baixo pulsante de "Accelerate", que já emenda em "Fade Away" (o primeiro single), deixando claro que é um álbum conceitual, para ser ouvido inteiro em sequência, mais do que uma coletânea de faixas. Nesse quesito ela vai na contramão dos colegas do Röysopp, que dizem que álbuns não fazem mais sentido e lançaram seu (presumidamente) último (aquele em que ela participa de duas faixas e ainda tem contribuição massiva dos Irrepressibles). 

Susanne, por sinal, deve ter ressentido que "Running to the Sea", uma das suas melhores faixas, ficou com o Röyksopp, porque no disco novo ela tenta recriá-la com "Kamikaze" e chega perto, muito perto. Ponto alto do disco (e ótima pedida para novo single), "Kamikaze" é um europop escandinavo até o osso, daqueles beirando o kitsch mais delicioso (até o título "Kamikaze" parece algo a la Lady Gaga). Aos 4 minutos a música termina e, como se pedisse desculpas, Susanne entra com um solo de cravo, ressaltando a beleza da melodia e que "o arranjo poderia ser outro se eu quisesse." É ela quem toca. 

Por sinal, ela faz isso no disco todo. Interrompe com arranjos de cordas, de cravo, de órgão gótico. Outra das grandes faixas do disco (em todo sentido), "Memorial", começa como uma balada anos 80, bonita e meio cafona, e antes dos 4 minutos vira um instrumental de piano e orquestra que chega até os dez minutos de duração. 

E o disco tem muito mais. É INTEIRO bom. Tem seus momentos líricos, momentos dançantes, termina com um eletrônico esquisitão de "Insects", para deixar claro ao que ela veio. Tem tudo para estourar, pelo menos no resto da Europa. Para mim, vai ser difícil alguém superar um disco desses, mesmo com Suede para lançar disco novo este ano. 

Enfim, para quem ama e conhece tão bem a Escandinávia, quanto eu, "Ten Love Songs" é um disco perfeito. Lindo ver que ainda consigo encontrar novas musas, em plena ativa, que ainda têm muito o que me embalar. 

18/02/2015

SONS DE CINZA



Chega de folia! Agora é hora de cinzas e tenho afundado no sons deprês das minhas playlists. A “Bibas Deprimidas” é um clássico, e está sempre sendo atualizada e reinventada. Músicas de fossa com cantores gays. Tem brasileiros inevitáveis como Ney Matogrosso, Cauby; alguns amigos queridos; clássicos como Boy George, George Michael e Elton John; até Michael Jackson arrisco pôr. Mas deixo aqui a dica dos estrangeiros mais bacanas, mais alternativos ou menos conhecidos. 




THE IRREPRESSIBLES 



My friend Jo / was a crazy bitch / Wore her heart on sleeve / with an ounce of kitsch. Assim começa a primeira faixa do primeiro álbum dessa banda semi-sinfônica gay da Inglaterra, com dois álbuns e alguns EPs lançados. O vocalista já gravou várias faixas com o Röyksopp, e foi aí que conheci. O trabalho do grupo é orquestral, barroco, kitsch, dramático e bem bonito. Lembra muito Antony and the Johnsons e um pouco James Blake. Certeza de que ainda vão ser mais cultuados, quando tiverem um som mais acessível. Mas já tem faixas de chorar. É o que mais tenho ouvido ultimamente. 




ANTONY AND THE JOHNSONS 



Não podia faltar. Já é mais conhecido, mas é essencial. Uma banda de “pop de câmara” de Nova York com um vocalista gordo, transgênero e genial, que soa como uma mistura de Nina Simone com Brian Ferry. Cantam a vida e morte de travestis, sexo, sadomasoquismo e amor com uma poesia e melancolia sem igual. 




KLAUS NOMI



Pode ser considerado um precursor desses todos. Cantor alemão que misturava cabaré, ópera e pop kitsch, com um vocal em falsete e um visual bem absurdo. Morreu em 1983, uma vítima dos primeiros tempos da AIDS. 



JOHN GRANT



Cantor quarentão americano, radicado na Islândia. Conheci pela Sinéad O’Connor, que regravou “Queen of Denmark”, faixa que dá nome a seu primeiro disco solo e começa com I wanted to change the world / But I could not even change my underwear. Faz um som entre o folk, country e eletrônico, com um humor depressivo muito peculiar. Remember walking hand in hand side by side / We walked the dogs and took long strolls to the park / Except we never had dogs / And never went to the park, ele canta em outra faixa. Seu primeiro disco é inteiro maravilhoso. O segundo já é mais ou menos, mas se salva com faixas foda como GMF (de “Greatest Mother Fucker”). 




MARC ALMOND



Cantor britânico clássico dos anos 80, que com o Soft Cell teve o grande hit “Tainted Love”. Mas o trabalho solo dele tem uma pegada cabaré dramática deliciosa. Não há drama maior do que ele cantando “Yesterday When I Was Young”. 



DAVID MCALMONT



Cantor negro de soul que fez algum sucesso nos anos 90, na Inglaterra, em parceria com Bernard Butler, do Suede. Juntos lançaram dois álbuns - o primeiro está no meu top 10 da VIDA. Já o trabalho solo é bem irregular; regravou vários Standards, mas também narra belas crônicas da vida gay em algumas de suas músicas. 



PATRICK WOLF



Não dava muito por ele até assistir a um show no gelado inverno de Helsinque, em dezembro de 2011. Seu álbum “Lupercalia” se tornou dos meus favoritos da VIDA. Ele tem outros bacanas e um bom flerte do pop com o barroco. É um jovem músico gay britânico bem consistente, toca viola, violão, piano, harpa – inclusive tem excursionado como músico de apoio da Patti Smith. 








Cantor americano que teve UM hit nos anos 90 ("Strange World", recentemente regravado pelo Him) e só. De toda forma foi o suficiente para eu comprar o álbum na época, baixar os dois seguintes e escutar com frequência desde aquela época. Tem uma voz andrógina e um som difícil de classificar, entre o Indie rock, pop, com traços de R&B. Está meio desaparecido desde o começo dos 2000, mas troquei ideias com ele pelo FB esses dias. 



PERFUME GENIOUS



Na verdade esse entrou aqui pelo drama e viadagem, mas ainda não consegui gostar muito. Perfume Genious é pseudônimo de Mike Hadreas, um artista solo de Seattle. Fica aqui para fechar dez artistas sem ter de recorrer a outros mais óbvios.

RUFUS WAINWRIGHT



Ok, esse é bem óbvio, mas não deixa de ser alternativo. Criado no Canadá, Rufus veio de uma família de músicos e tem uma erudição sem igual. Já compôs ópera, gravou standards, e seus álbuns sempre têm elementos de música erudita. Gay assumido, canta sobre amores perdidos, amores casuais e até sobre a paternidade entre homossexuais. Assisti nas duas vezes que veio ao Brasil. Obrigatório.







13/02/2015

BIOFOLIA


Mantendo a tradição... Minha marchinha deste ano...

BIOFOLIA, A FOLIA DA BIOFOBIA!

A natureza é a igreja de Satã,
A Igreja de Satã,
A igreja de Satã

Se hoje é de folia
É de ressaca amanhã,
Ressaca amanha,
Ressaca amanhã

A natureza é a igreja de Satã,
A Igreja de Satã,
A igreja de Satã

Se hoje você pula
Se arrasta amanhã,
Se arrasta amanhã
Se arrasta amanhã

Se tudo é permitido,
Nada tá liberado,
Aborto é proibido
Viadice é pecado

Hereges e ateus
Terminam tudo em treta
O bloco não é de Deus
E o cigarro é do capeta

A natureza é a igreja de Satã,
A Igreja de Satã,
A igreja de Satã

Se hoje é de folia
É de ressaca amanhã,
Ressaca amanha,
Ressaca amanhã

A natureza é a igreja de Satã,
A Igreja de Satã,
A igreja de Satã

Se hoje você pula
Se arrasta amanhã,
Se arrasta amanhã
Se arrasta amanhã

Não adianta beber
para afogar as mágoas
Vai dar DST
Cachaça não é água.

Enquanto um comemora
o outro tá de luto
Quem não mama e chora
É vítima de estupro 

E para continuar em ritmo de festa, a clássica Marchinha do Zé do Caixão, aqui apresentada pelo grande Eduardo Dussek, citando inclusive um "escritor cult paulista" que mandou para ele. Já posso morrer realizado. 


10/02/2015

A VELHA ANNIE



Domingo teve Grammy e muita gente está comentando a apresentação da Annie Lennox com o Hozier, descobrindo a velha escocesa pela primeira vez.


No Grammy de 1995


Annie Lennox sempre foi minha Madonna. Minha rainha desde a adolescência quando, convenhamos, ela era muito mais interessante e inovadora. Tenho TODOS os álbuns, os singles, li duas biografias. Então vamos a uma rápida apresentação dela, que posso fazer de cabeça.  


Tá bom pra você?


Annie Lennox tem 60 anos, é de Aberdeen, na Escócia, e começou a carreira nos anos 70 com uma banda meia boca chamada The Tourists. O maior hit deles foi um cover da Dusty Springfield, aqui:



A banda durou pouco e ela saiu com o guitarrista Dave Stewart (que era seu namorado) para formar uma dupla, os Eurythmics. O primeiro disco deles In the Garden (1981) tinha um som mais etéreo e experimental que eu adoro, mas não fez muito sucesso. Aqui eles no começo de carreira:


No segundo disco eles investiram no technopop, que estava em alta na Inglaterra e acertaram bonito. O maior hit da dupla (e talvez da carreira de Lennox) é dessa época: Sweet Dreams, que com certeza você já ouviu:


Foi inclusive com essa música que ela se apresentou no Grammy pela primeira vez, vestida de homem. Na época, ela flertava com a androginia e tinha uma proposta realmente ousada de imagem e som, embora não exatamente inovadora. Annie Lennox era basicamente uma mistura de David Bowie com Grace Jones. Coolíssima, musicalmente riquíssima, provocadora e divertida.



Os Eurythmics seguiram fazendo álbuns bem diferentes uns dos outros, flertando com o R&B, rock, country e eletrônica. Tiveram vários outros hits, como o pop deliciosamente kitsch “There Must Be An Angel” (1985).



Em 1987 voltaram ao experimentalismo com “Savage”, um dos melhores discos da dupla.


Eles se separaram no início dos 90 - se apresentaram pela primeira (e única) vez no Brasil pouco antes disso. Dave Stewart seguiu com uma carreira de sucesso como produtor, ocasionalmente lançando discos solo. Annie Lennox lançou seu primeiro solo em 1992, “Diva”, já com um som mais “adulto”, que foi um mega sucesso. É mega mainstream, mas é ótimo.



E, para mim, depois disso, ela nunca mais fez grande coisa. Lançou outros discos solo, discos de covers, até discos de músicas de Natal. No final dos anos 90, ressuscitou o Eurythmics com Stewart e lançaram um álbum medíocre. Também ganhou um (desmerecido) Oscar em 2004 com “Into the West”, trilha sonora de “O Senhor dos Anéis” (alguém se lembra dessa música?).



O último álbum de inéditas dela é de 2007, “Songs of Mass Destruction”, que é bem mais ou menos. Ela também se dedicou a campanhas humanitárias, ao combate da AIDS na África, a salvar os golfinhos, mas a música...



Sempre foi uma grande cantora, uma grande voz. Uma “loira com alma negra”, para usar um termo bem politicamente incorreto, apaixonada pelo som negro americano. Mas, ao meu ver, há tempos que ela desvaloriza seu grave poderoso com piruetas vocais, adotando os piores maneirismos do R&B americano. No Grammy não foi diferente.



Atualmente, prefiro bem mais a carreira solo do Dave Stewart , que tem lançado discos country poderosos. Dá uma olhada:


Li uma declaração recente dela falando algo como “as mulheres de 60 não devem ser desprezadas, têm muito mais o que dizer”, mas então por que ela não escreve, não lança um disco de inéditas há OITO anos? Disco de música de Natal? Ano passado ela lançou “Nostalgia” (que concorreu ao Grammy), que é previsivelmente um disco de standards americanos, disco para tocar em restaurante, em elevador, em consultório de dentista. É gostosinho até, mas nada de novo. Mesmo a versão dela para “I Put a Spell on You”, que ela reproduziu no Grammy, é bacana, afinada, mas é uma versão padrão, não tem reinvenção nenhuma, nada de novo.
  

Continuo fã da Annie dos 80, dos 90. Mas se é para falar de quem envelheceu bem, com criatividade e relevância musical, vamos de Debbie Harry (outra diva pessoal), que chega aos 70 e talvez seja mais cultuada, mas não tem a mesma potência vocal e a máquina por trás. 

09/02/2015

OBJETOS CORTANTES

Resenha que assinei na Folha deste final de semana:


O estranho assassinato de uma criança na cidadezinha de Wind Gap, no Missouri, desperta o faro do editor de um jornal em Chicago, que manda sua repórter investigar o caso, esperando novos desdobramentos (e vítimas). Escolhida a dedo por ser nativa de Wind Gap, Camille Preaker tem de voltar a cenários de sua infância, à relação conflituosa com a mãe dominadora e estabelecer laços com sua irmã adolescente, que ela mal conhece.
Primeiro romance da autora de Garota Exemplar, Objetos Cortantes é um thriller clássico de investigação jornalística. Chega a ser genérico no primeiro quarto do livro, até que começam a ser revelados traços bizarros dos personagens, como a tendência de Camille de se mutilar e a prática precoce das meninas da cidade no sexo e drogas. Não é uma transição sutil, e deixa a impressão de que a autora decidiu “vitaminar” a trama no meio do processo, para fugir da banalidade. E não é o único problema do romance, que tem diálogos bastante artificiais e um tom geral que beira o surrealista, mas resvala no kitsch.
Ainda assim, Objetos Cortantes não deixa de trazer surpresas. A identidade do criminoso oscila durante todo o livro entre três ou quatro personagens e a autora joga bem com isso. Há também um erotismo latente, todos os personagens têm moral dúbia e flertam uns com os outros. A própria protagonista é uma alcoólatra depressiva e jornalista medíocre, que mais se envolve com o caso como vítima do que como heroína.
É uma boa história, escrita de forma pouco convincente. Bem adaptada, pode gerar um filme melhor do que o livro. A impressão final da obra é que Gillian Flynn é aquela “garota exemplar”, que faz o dever de casa, mas que não convence querendo posar de drogadinha.

OBJETOS CORTANTES, de Gillian Flynn
Intrínseca
Avaliação: Regular. 

05/02/2015

HORROR ALTERNATIVO

"Found"

Estou mergulhado no roteiro de BIOFOBIA, comecei um novo curso de História do Cinema de Horror Brasileiro no MIS e, como sempre, vejo um punhado de filmes de terror toda a semana, que o Murilo consegue arrumar. É sempre o que mais me inspira – e acho a produção independente atual riquíssima. Sou fã especialmente do torture porn, que acho que é onde reside o horror de verdade, físico, sem sobrenaturalismo, provocado pela loucura do ser humano.

Pensando nisso, comecei a lembrar de tantos filmes alternativos, obscuros, que vi nos últimos anos. A maioria tem direção precária ou atuações sofríveis, são invariavelmente filmes baratos, minimalistas, com um conceito poderoso por trás. E tristemente sempre constato que isso – esses filmes mais obscuros, menos prestigiados – é o tipo de coisa que eu gostaria de escrever. 

Monto então uma listinha, sem ordem específica, de doze dos meus favoritos. Filmes de terror obscuros, recentes, que vi recentemente. Nenhum brasileiro, infelizmente; as melhores produções atuais que chegam perto ficam mais no thriller e suspense. Aqui estou falando de terror extremo. 

Certeza de que estou esquecendo de vários, pela quantidade de coisas que assistimos. Mas esses são o que continuam ressoando agora:

FOUND (2012, EUA) de Scott Chirmer:

Assisti nesse final de semana. É um filme quase amador, com escolhas e atuações bem questionáveis, mas um roteiro estranhíssimo. Um pré-adolescente descobre que seu irmão mais velho é um serial killer e, entre assustado e fascinado, mantém segredo e espia regularmente os souvenires que ele traz. Tem um dos finais mais insanos dos últimos tempos. É baseado numa novela, que imagino que seja melhor do que o filme, e que não vou deixar de ler.


ARMISTICE (2013, EUA) de Luke Massey

Um thriller de um único personagem preso numa casa (não tinha como eu não me identificar). É um soldado que acorda todo dia para viver o mesmo dia, matar o mesmo zumbi, e tentar escapar de lá. Também tem seus problemas, mas uma ideia poderosa por trás. É quase teatro, e mais acessível aos impressionáveis da violência gráfica. 



SEPTIC MAN (2013, EUA) de Jesse Thomas Cook

Um funcionário da limpeza é trancado numa galeria dos esgotos. Pouco a pouco vai apodrecendo enquanto se alimenta de dejetos e restos humanos. Minimalista, trash, menos engraçado do que parece, tem seu valor no absurdo com contornos surrealistas.



EXCISION (2012, EUA) de Richard Bates Jr.

Com um tom meio lésbico, o filme retrata uma adolescente freak que sonha estudar medicina e tem desejos doentios com sangue e morte. O filme inclui um elenco de astros do gênero que vão de Malcolm McDowell e John Waters a Traci Lords, como a mãe controladora.



BIG BAD WOLVES (2013, Israel) de Aharon Keshales e Navot Papushado

Suspeito de pedofilia e assassinato, um professor é sequestrado e torturado pelo pai de uma das vítimas, numa mistura de torture porn e humor negro. Filme bem inteligente e divertido, em que você sempre fica na dúvida sobre quem é o culpado. Mais cinema que os demais. Obrigatório. 



EDEN LAKE (2008, UK) de James Watkins

Esse não é tão obscuro. Tem até Michael Fassbender no elenco e uma história um tanto quanto genérica: um casal vai acampar no mato e entra em conflito com adolescentes locais. Violento, chocante, daquelas histórias que poderiam de fato acontecer, com um final dos mais deprês dos últimos tempos.



THE WOMAN (2011, EUA) de Lucky Mckee

Pode tanto ser considerado misógino quanto feminista. Uma mulher “selvagem” é encontrada por um pai de família e mantida presa no porão, para ser “civilizada”. De viés altamente alegórico, o filme explora a dominação masculina sobre as mulheres, chegando aos extremos mais bizarros. Apesar disso, vejo com frequência nas madrugadas do Space.


CHAINED (2012, EUA) de Jennifer Lynch

Mais um filme-fetiche de Jennifer Lynch (de “Encaixotando Helena” e filha de David Lynch) esse é um torture porn com síndrome de Estocolmo. Um menino que é mantido acorrentado por um psicopata e vai se tornando seu pupilo. Vincent D’Onofrio é o psycho e o menino é um pitéu.



AFTERSHOCK (2012, Chile) de Nicolás Lopez

Esse poderia facilmente ter sido um filme maior. Não sei por que nunca ouvi falar por aí. É uma mistura de filme catástrofe e torture porn, escrita e estrelada por Eli Roth (“O Albergue”) e ambientada no Chile. Um grupo de americanos vai passar férias por lá – curtindo a vida adoidado – quando há um violento terremoto, que acaba destruindo uma penitenciária e todos os presos saem para cometer atrocidades. Bem divertido.


BENEATH (2013, EUA) de Larry Fessenden

Esse é mais tolo do que todos os demais. Mas adoro esses filmes de animais assassinos (e assisti até “Zombeavers” recentemente). Aqui o monstro é uma espécie de bagre gigante, meio mal feito, que ataca jovens num barco. É surpreendentemente divertido e o herói é um Johnny Depp genérico. É minimalista, pequeno, do jeito que eu gosto. (Obs: Tem um outro "Beneath" recente também, de caverna, mas não é tão legal). 



DEADGIRL (2008, EUA) de Marcel Sarmiento, Gadi Harel

Outro dos misóginos. Dois adolescentes encontram uma espécie de menina zumbi num hospital abandonado, e a exploram de todas as maneiras, com participação dos coleguinhas. Também tem seu Johnny Depp genérico. 



HATCHET (2006-2013, EUA) de Adam Green

Uma homenagem aos slashers clássicos, não entendo como essa série não é mais popular. São três filmes, feitos entre 2006 e 2013, bem na pegada de “Sexta-Feira 13”; e cada filme começa exatamente de onde o anterior terminou. A história... não tem muita história, é um assassino matando gente num pântano. E é cheio de estrelas do gênero, como Kane Hodder (que interpretou o Jason em vários filmes) como o assassino, Danielle Harris (de “Halloween”) como a heroína, e Robert Englund (o Freddy Krueger) numa ponta. Talvez funcionasse melhor como série de TV – a continuidade é bem de série de TV, em três episódios.



À L´INTÉRIEUR (2007, França) de Alexandre Bustillo, Julien Maury


Esse já vi há um tempinho, mas decidi colocar aqui como o melhor representante francês dessa nova safra, que tem coisas bem extremas como “Mártires”, “Alta Tensão” e “Frontiers”. Esse eu gosto mais, por ser (novamente) um filme mais minimalista, passado todo numa casa, e ter um drama mais real. Uma mulher grávida é ameaçada por uma invasora, que comete as violências mais absurdas. Indispensável. 




02/02/2015

LEITOR AO ACASO






Um projeto bem bacana do João Chiodini em que o autor escolhe o perfil ideal de leitor para seu livro. No caso de BIOFOBIA, sugeri um leitor masculino, de meia idade. E acho que acertei o alvo.



12/01/2015

MINHAS FÉRIAS

Com Murilo em Guaratuba, Paraná. 

Andei distante, mas por perto. Ando bastante ocupado passando fome. As resoluções de ano novo foram as mais previsíveis para um homem de meia idade: dieta, beber menos, ser mais empreendedor, menos internet e mais literatura. Quero voltar a nadar também; ano passado só fiz musculação e fui inchando, inchando. Nunca quis ser barbie, mas meu biotipo ajuda, com os suplementos de Nhá Benta e gin tônica. Já não dá mais para ser um garoto franzino (porque não dá mesmo para ser garoto), mas dá para fugir do bonde da stronda. 

 As férias em si foram só quatro dias em Itapoá e Guaratuba, fronteira de Santa Catarina com o Paraná, na virada do ano. Um horror, o sopão da classe C, praia suja, lotada, espumante quente... Bem, no reveillon qualquer praia está longe de seu auge bucólico. Fui muito bem recebido pela família do Murilo, que tem casa por lá, mas o movimento das festas também impediu que fosse um ambiente dos mais confortáveis. Provavelmente o mais divertido da viagem tenha sido a volta, o caminho surreal para Joinville, por uma balsa que fica no meio do nada, passando por vilinhas pesqueiras e estradas de terra. 

Falando em viagens, começo a planejar agora uma viagem para a Armênia, com a minha mãe, para conhecer mais sobre a terra de nossos antepassados. Quem tiver dicas, agradeço. 

No mais, traduções, roteiros, projetos de séries. Um ano como os outros, no qual espero que os frutos sejam mais recompensadores. 

29/12/2014

DO QUE MORREM OS ESCRITORES



Aqui: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2014/12/1567614-pesquisa-informal-mostra-que-poucos-escritores-se-sustentam-pela-venda-de-livros-no-brasil.shtml


A capa da Ilustrada da Folha este sábado foi uma pesquisa que fiz com 50 autores brasileiros sobre venda de livros e renda mensal. Foi aquela velha pergunta: "Do que você vive?", que confirmou a impressão que eu tinha de que os autores estão vivendo de literatura, mas não exatamente da venda de livros. Atividades correlatas, como oficinas literárias, debates, prêmios, venda de direitos etc rendem mais do que a venda de livros em si, a exceção fica para os autores de literatura juvenil, ou de entretenimento.

 A ideia da pauta foi minha - depois de ler sobre a questão da lei de preço fixo para os livros - imaginei que o preço de livro fosse mais uma discussão de livreiros e editora do que de autores. Criei um questionário com perguntas como "de onde vem sua renda principal", "o que acha do preço dos seus livros", "qual está a situação do autor hoje em relação há vinte anos", "qual é a sua ambição como autor". Mandei para 60 autores, 50 me responderam - procurei distribuir em diversos gêneros e me concentrar no autor de público médio (ou seja, que vende a média brasileira); não teria sentido encher de bestsellers/exceções, tampouco lotar de autores desconhecidos.

Os questionários renderam dados sintomáticos e consegui tirar aspas interessantes para as discussão. A queridíssima Raquel Cozer editou. Infelizmente, mesmo sendo capa, é um espaço bem limitado para aprofundar a discussão; pelo menos se estendeu pelas redes sociais e rodas de bar, com os chatos de plantão - que não devem ser nomeados - dizendo que não é bem assim, ou querendo apenas polemizar por terem sido deixados de fora.

Impressionante como qualquer lista envolvendo escritores no Brasil gera birras e inimizades - mesmo uma dessas, em que os autores não ganham objetivamente nada. Eu mesmo não deixo de assumir meu desapontamento em ser deixado de fora de tantas essas, mas não deixo de reconhecer boas seleções que me excluem (como a de Frankfurt e de Paris, ambas que considero bem equilibradas).

É por isso que não fiz minha lista de "melhores do ano" na literatura. Trabalho com isso, li grandes autores que divulguei este ano aqui ou no Facebook, mas ainda estou em dívida com tantos outros que lançaram livros; seria uma lista muito relativa se eu colocasse apenas os que li, prefiro não fazer. (Dia desses vi uma lista vergonhosa de algo como "homossexualidade na literatura contemporânea" que tinha um punhado de autores jovens e excluía gente como Glauco Mattoso, João Silvério Trevisan, João Gilberto Noll, Hugo Guimarães, acho que até o Marcelino Freire entrou no segundo tempo. Se é pra fazer, pesquisa direito, porra.)

Enfim, criar listas e criar inimizades...

Tenho visto BIOFOBIA em algumas seleções de melhores do ano, fico honrado em ser lembrado, mas também são visões muito parciais. Melhor esperar os júris me excluírem ano que vem...


No mais, sigo hoje para a praia, encontrar meu loirin em Santa Catarina. Boas viradas por aí.


26/12/2014

ENTÃO É NATAL


Eu, como um dandizin no fantasma de um Natal Passado. 

Deixei o Natal passar para não ejacular na sua cidra, mas fiquei remoendo aqui as dores e delícias desse feriado tão pouco brasileiro.

A menina se senta no colo do Papai Noel e pergunta: "Papai Noel, você rói unha?" ao que ele responde: "Hohoho." Vamos ao post. 

Eu odeio e amo o Natal... acho que mais odeio do que amo, penso depois de criar esta lista - a segunda foi bem mais difícil - é um segundo inferno astral no ano


Com a rena, em 2012, na Lapônia. 

Não querendo dar uma de Grinch, mas... Bem, vamos lá: 


DEZ COISAS QUE ODEIO NO NATAL:


- Se você vive de frilas, como eu, é um mês perdido... ou um mês e meio. Tudo para. Os trabalhos param. O financeiro entra de férias e só te paga em meados de janeiro. E a esperança do ritmo voltar ao normal é só depois do carnaval.

- É um período de festas, então você já está comendo e bebendo há vários dias e não pode ou não deveria se jogar em mais uma.

- É um período de festas, então você já está gastando com as festas e tem de pensar nos presentes, tem de pensar nos presentes, mas gasta nas festas, e viagens e etc; tudo acontece ao mesmo tempo.

- É um período de festas, mas no Brasil é verão, então você não pode se vestir decentemente para as festas.

- É um período de festas, mas a maioria das festas você passa com gente que não vê o ano inteiro, com quem não tem intimidade, então não pode ou não deve afundar o pé na jaca. Tem de sorrir e ser civilizado.

- Você vê gente que não vê o ano inteiro - que vai então dizer que você engordou, ou está magro demais, que está abatido; só com muito esforço vão te achar melhor, porque sem dúvida você estará um ano mais velho.

- É a conclusão do ano. Você tem de dar sorte de esse ser seu melhor mês, porque ficará como um saldo do últimos doze. Se for um mês apertado ou de acontecimentos infelizes deixará a impressão de que foi assim o ano todo.

- Você também precisa ter grandes perspectivas para os próximos meses, o próximo ano, do contrário parecerá o fim do mundo.

- Não importa quão bom seja, não haverá Papai Noel, não haverá a completa satisfação com um simples brinquedo da Estrela. Seu Natal de hoje nunca será como o de ontem.

- E por melhor que seja, mesmo que você seja criança, sempre parecerá uma versão pirata e requentada do “Verdadeiro Natal” com neve. 



Quandos os presentes eram maiores do que eu. 


DEZ COISAS QUE ADORO NO NATAL:


- Os presentes.

- As comidas.

- Você tem desculpa e convites para farrear todas as noites.

- É horário de verão. Então você pode ter passado o dia de ressaca, mas ainda vive com alguma luz.

- Pratos, ingredientes e combinações que são estranhas ao brasileiro o ano inteiro são obrigatórios, tipo peru com fios de ovos, nozes e romã.

- E os Panetones.

- Você pode se permitir relaxar um pouco no trabalho, porque nada acontece (ou é OBRIGADO a relaxar um pouco).

- Apesar do clima sufocante você pode se refrescar um pouco com toda a ideia de neve e renas e bonecos de neve.

- O clima mais tranquilo que a cidade fica entre Natal e ano novo (no caso de São Paulo, claro).

- Por pior que tenha sido, você sente que está chegando ao fim.


Em 2011 fizeram um autêntico gingerbread com meu nome, na Finlândia.
 
No mais, feliz ano novo para vocês. Passei esta semana aqui com minha coelha e passarei a próxima semana de reveillon em Santa Catarina com meu loiro. Bjs 

18/12/2014

PASSIONAIS


A série que escrevi para o +Globosat, Passionais, agora está disponível inteira "on demand" no site, aqui: http://globosatplay.globo.com/globosat/passionais/

Apesar de não ter sido exatamente autoral - foi uma encomenda - gostei bem do resultado. A produtora Pródigo me procurou em meados de 2012, depois de terem lido meu Pornofantasma, e me convidou para desenvolver esse projeto de histórias de crimes passionais, livremente inspiradas em casos reais. Eu já havia trabalhado em alguns projetos de longa, colaborado em alguns roteiros, mas nada que tivesse dado muito resultado, então tinha pouca experiência. Me colocaram em dupla com a Paula Szutan, uma roteirista experiente que eu não conhecia, mas que acabou se revelando a melhor parceira. Criamos todas as tramas juntos. Ela deu muito da estrutura, do andamento, eu contribuí com o universo trevoso e o humor negro dos diálogos. No meio do processo entrou também a queridíssima Mirna Nogueira, que arredondou as versões finais dos roteiros. Os episódios foram dirigidos por Henrique Goldman (de "Jean Charles") e Marcela Lordy.


Com a Paula, no set do episódio da Betty Faria (2). 

A série tem núcleo central com uma história que segue em paralelo (o bar), mas os episódios podem ser vistos de forma independente. (Meus favoritos são o 4, 5 e o 10.) É muito louco você ver frases da sua vida, personagens imaginados por você ganharem vida na tela, às vezes de forma surpreendentemente positiva.


Micro-resenha na coluna da Patricia Kogut no Globo - "roteiros inteligentes", sabe como é.
Destaco algumas curiosidades.

- O título original da série era "Amor Mata", mas o produtor achava que criava um cacófago com "a marmota". Após várias discussões ("Entre Quatro Paredes", "Amor e Morte", "Cale-se Para Sempre"), eu sugeri o básico por se tratar de uma série de crimes passionais: "Passionais"; ganhou meu título.

- Procuramos variar o máximo no perfil de casais, novos, velhos, lésbicas, e nas formas de se matar. Havia também um roteiro centrado num casal gay masculino, mas ficou um pouco pesado para o canal e tivemos de adaptá-lo. Acabou se tornando um casal sadomasoquista (episódio 5, dos que mais gosto).

- Aliás, as obras de arte da dominatrix desse episódio (lindamente interpretada pela Rachel Ripani Rachi) são do meu irmãozinho Alexandre Matos, por indicação minha.

- Com uma judia no roteiro (a Paula) e outro na direção (o Henrique), tínhamos de ter um episódio da "colônia". Acabou sendo o do casal de lésbicas, que tem até uma rápida aparição do rabino Henry Sobel.

- Apesar de carregado no humor negro e no tom kitsch do roteiro, muito disso veio da direção, como as máscaras de bicho do primeiro episódio.

- Outro dos episódios de que mais gosto é o da lua de mel no navio (4). Por questões de produção, foi complicado definir o cenário, que passou de navio para resort, de resort para hotelzinho na serra e voltou para navio quando se saiu do realismo e se apostou num ar mais onírico e minimalista.

- Uma das histórias que criamos girava em torno de um casal incestuoso de pai e filha; mas também exageramos um pouco na dose e foi vetado.

- Eu só não participei efetivamente dos últimos dois roteiros, porque já tinha viagem marcada para Espanha para a turnê de lançamento de Masticando Humanos por lá.

Agora já comecei o trabalho no roteiro de BIOFOBIA (que será escrito por mim com supervisão do Marçal Aquino) e tenho outros dois projetos de série aguardando aprovação. Assim vai se abrindo uma carreira paralela que só me acrescenta como escritor.


 Assistindo a um episódio com parte da equipe. 




VIAGENS DE AGOSTO

Eu e meu jerimum. Depois de BH, Flip, Bahia, teve Minas de novo: FLIF, um festival do Instituto Federal do Sul de Minas em que EU fui o auto...