18/04/2016

CAVIAR CONSCIENTE



O inimigo de meu inimigo meu amigo é? 

Não votei na Dilma.

No primeiro turno, votei PV. No segundo, estava fora do país.

Como a maioria, acho o governo dela catastrófico. Há muito antevia a crise econômica; costumava prever que, se o Brasil perdesse a Copa, a crise começaria no dia seguinte. Não levei em conta as eleições, que camuflaram o estrago por mais um tempo.

Ainda assim, se eu não entendia que incompetência e impopularidade eram motivo para impeachment, a forma como tudo foi conduzido me forçou ainda mais a apoiar o governo.

Sou um belo exemplo da esquerda caviar. Branco, nascido e criado nos Jardins, em São Paulo, só fui trabalhar depois dos 18.  Nunca passei fome, nunca estudei em colégio público, sou formado em Publicidade e Propaganda pela FAAP!, veja só!

E como tive acesso à educação, li bons livros, aprendi línguas, viajei, conheci outras culturas, não tive a cabeça formada pelo pastor da esquina. Ao meu ver, não há contradição nenhuma no termo "esquerda caviar". Exatamente pelas oportunidades e experiências que tive na vida que não posso apoiar a direita fascista que aí está .

Já fui um imigrante latino, num sub-emprego como barman, em Londres, onde dependia exclusivamente do meu salário para comer e pagar o aluguel. Já vivi na Escandinávia, "o verdadeiro primeiro mundo", para saber como pode funcionar bem um governo de esquerda à beira do socialismo. Posso jantar num restaurante caro, e também me enxergar no lugar do garçom. Sou homossexual, e sei como a defesa dos direitos dessa e de outras minorias não é uma pauta da direita.

Por essas e outras que a vida foi me levando conscientemente para a esquerda, sem dogmas, sem tradicionalismos, sem uma "fé desenfreada", simplesmente experiência de vida.

Há muito a se questionar sobre o quanto o PT de fato cumpre suas promessas, porém isso não é o suficiente para eu apoiar quem promete o que eu não quero para o país.

Ontem, acompanhando a votação do impeachment pela televisão, fiquei horrorizado. Por um breve discurso já se podia ver como é baixo o nível de quem está lá. Um povo limitado, despreparado, sem noção. "Pela minha família, por Deus, por meu neto Gabriel", era o tom frequente dos discursos pró golpe. Exaltado pela vodca (faltou o caviar), eu me peguei gritando aqui na sala: "Ninguém dá a mínima pra porra da sua família!" São uns valores tortos, que dão a entender que eles não têm ideia do que estão fazendo. Estão defendendo sua religião, protegendo os seus. Salve-se quem puder.

Não votei em Dilma. Não votei em Temer. Mas principalmente não votei em Eduardo Cunha - que não só representa todo tradicionalismo e burrice que abomino, mas carrega nas costas todas as acusações de bandido sem vergonha.

Sou branco, privilegiado, até um tanto elitista. E se não apoio a direita é porque não tem condições mesmo...


01/04/2016

SOBRE A VIDA

Ontem acordei com a notícia de que a filha de oito anos de conhecidos havia morrido de gripe. O pai dela postou no Facebook, ao que se seguiu centenas de comentários solidários, de pêsames, emoticons de tristeza, alguns polegares positivos...

Não conhecia a menina, mal conheço os pais, achei melhor não mandar recado algum. Dificilmente terei filhos, nunca tive uma perda pesada dessas, não sei o que dizer, nem sei o que sentir. Ainda assim, não tinha como não me colocar no lugar do pai, do outro lado da tela. Ele abria a timeline para postar sobre a morte da filha e via a foto do café da manhã de um amigo, outro postando um meme sobre o pato da FIESP, escritores aproveitando uma viagem a Paris. Sua filha morre e o mundo continua sorrindo.

Passei o dia com uma sensação incômoda. Apenas uma sensação incômoda. Não consegui postar sobre uma estreia teatral, o lançamento do livro de um amigo, cada postagem que surgia na minha timeline parecia um desrespeito com o sofrimento daquela família.

Pessoas morrem todos os dias. E o mundo continua rindo.

Tenho cinco mil amigos no Facebook. Sabe-se lá quais estão perdendo diariamente entes queridos, quais morrem eles mesmos, enquanto escrevo este post, enquanto compartilho uma crítica ao meu livro.

 Outra conhecida compartilhou a notícia da morte. Com uma legenda que até agora não entendi o sentido:

“Quantos mais irão morrer?” ela perguntava. Não entendi. 

Sem querer ser sarcástico, tive de responder com obviedade:


“Todos.”

28/03/2016

MARVEL VS DC


Sou fã da Marvel. Na infância, Hulk era meu personagem favorito. Entrando na adolescência, comecei a ler Homem-aranha e X-Men. Para mim a DC sempre pareceu mais quadradinha e sorumbática... e agora no cinema essa impressão permanece.

Fui assistir ao inflado Batman vs Superman. Foi pior do que eu pensava. Consigo curtir cinema comercial numa boa, mas aqui pareceu que eu estava vendo um trailer por duas horas e meia. Uma sucessão de cenas de efeito, clipadas, diálogos construídos como bordões, efeitos especiais toscos entre o Playstation 3 e o 4...

A crítica de cinema detonou. Os fãs gostaram. Muitos dizem que é a adaptação mais fiel dos quadrinhos para as telas. Pode ser, e pode funcionar mais como quadrinhos, para fãs, porque como cinema é um desastre. As motivações dos personagens (para lutarem entre si, entre outras) são risíveis, as soluções encontradas são apressadas e didáticas.

Assumo a alcunha de marvelete, porque fica impossível não comparar os dois universos. A Marvel gastou anos apresentando personagens, construindo um cenário para chegar aos Vingadores (e ainda assim, não gosto tanto, porque acho que são muitos personagens mal aproveitados). A DC parece que agora quer recuperar o tempo perdido da noite para o dia. Num único filme joga meia dúzias de personagens para formar a Liga da Justiça. E isso está longe de ser o maior problema do filme.

Por mais que os filmes da Marvel sejam leves e descartáveis, sempre são divertidos. Há bons diálogos, humor, são personagens muito bem construídos. Eu mesmo nunca liguei para o Homem de Ferro nos quadrinhos, mas o personagem de Robert Downey Jr. nos cinemas, para mim, é o melhor super herói de todos os tempos. Se a Marvel não exige demais de seus expectadores, também não insulta sua inteligência.

(Posso ter perdido essa informação; mas uma perguntinha básica para os fãs da DC: o fato de o Superman ser IDÊNTICO ao Clark Kent sem óculos nunca é questionado? Vão fazer o mesmo com a Mulher Maravilha? No filme isso não fica claro. e é um dos menores exemplos de como a DC exige um coração de fã para se acreditar nos filmes...)

Para concluir, o maior defeito de Batman vs Superman é que é um filme chato, cansativo. Murilo (que não gosta nada de quadrinhos) foi comigo e queria sair no meio. Aguentamos até o fim.



Coloco então meu ranking dos dez favoritos de super herói. (Sei que o Batman do Tim Burton tem pouco a ver com o dos quadrinhos. Talvez por isso que eu goste tanto).

Homem de Ferro
Homem Aranha
Batman Returns
Homem Aranha 2
O Incrível Hulk
Dead Pool
Homem de Ferro 2
Batman
Batman o Cavaleiro das Trevas
Vingadores: A Era de Ultron





15/03/2016

VESTINDO A CAMISA


"O Brasil não é um país sério"

“Estou farto de tanta corrupção” (obviedades de um comentarista de timeline: 400 curtidas)

Há dias que não falo nada. Só observo. Quietinho acompanho (de casa) as manifestações, cobertura sobre as manifestações, comentários sobre a cobertura. Faço a Glória e não me considero apto a opinar.

Política não é meu campo. As minhas opiniões são óbvias. Não fazem diferença e não tenho nada a acrescentar. Mas permanecer calado observando, em tempos de manifestação política, é mostrar-se alienado.

Nunca torci para time nenhum. Nunca entendi a razão para se ter um time. É pelo hino? É pelas cores? Gosto da camisa preta, gosto da camisa azul. O time tem uma personalidade em si? O jogador para quem você torce hoje não pode amanhã estar no time adversário ? Essa questão segue atualmente comigo em relação aos partidos políticos.

Me parece uma escolha aleatória e irracional. Me parece óbvio. Gosto da estrelinha. Sou do clube dos tucaninhos. Minha prefeita petista é do PMDB. “O cachorro é um lobo mais manso.”

Num cenário de corrupção institucionalizada, culpar o PT, defender o PT me parece tão ingênuo, tão fantasioso, tão óbvio, que tenho medo de estar fazendo papel de idiota. Não fui à manifestação porque me pareceu dirigida a um bode expiatório. Escolhe-se o governo como personificação da corrupção, lavam-se as mãos, e com um golpe o resto do bando assume. (Quem sabe Dilma não volta numa próxima como ministra do Aécio?)

Mas isso não é dizer o óbvio?

Domingo saí para almoçar e vi o povo de amarelo, camisa da CBF, grife de corrupção, ir protestar contra sei lá o quê, passear na Paulista, levar o cachorrinho, babá empurrando o carrinho das crianças...

O que importa é a mensagem. 

A imagem emblemática inflamou as discussões dos últimos dias. É apenas uma imagem, mas são apenas discussões. Pessoalmente acho estranho alguém precisar de babá quando os dois pais estão presentes. Acho estranho precisar de uma babá para empurrar o carro dos filhos num domingo à tarde. Acho mais estranho levar a babá uniformizada de branco numa manifestação política. Mas cada um faz o que quer; estão gerando emprego, pagando impostos, não estão fazendo nada de ilegal...

E cada um comenta o que quer. Se estão numa manifestação política, estão lá para passar uma mensagem, mostrar publicamente o que pensam. Estão sujeitos à crítica dos que não concordam.  

Eu acho que a primeira mensagem que eles me passam é: “Precisamos dos pobres para empurrar o carrinho dos nossos filhos.” E o casal ir dessa forma numa manifestação e nem compreender o que a imagem poderia transmitir me parece mais um agravante de alienação, como o casal que vestiu o filho de macaco no carnaval.

Você também pode dizer: “A patrulha da esquerda está demais. Não se pode nem sair de casa com a babá.”

Pode. E quem acha essas manifestações incongruentes também pode se expressar. Essa é a beleza da democracia que ainda temos...

A mim parece óbvio.

Por isso fico quietinho.

Ops...

01/03/2016

PEDAÇOS DE VIDA

Resenha que publiquei na Folha do último final de semana: 

O formato de observação do cotidiano da crônica requer não só um olhar atento do autor, mas um pertencimento a uma realidade comum. O talento de um cronista, mais do que causar estranheza ou incômodo, está em gerar identificação. Assim, o grande escritor do gênero é o que consegue dizer o que todos já sabem, de uma maneira absolutamente própria.
Fabrício Carpinejar cumpre esses requisitos em parte. Os volumes que trazem suas memórias como filho e como pai são fragmentos imediatamente identificáveis de infância, com um lirismo suave que gera um sorriso de canto de boca. São oito títulos divididos em duas coleções. Na “Vida em Pedaços”, com ilustrações de Eloar Guazzelli, Carpinejar narra uma infância praticamente arquetípica: futebol na rua, avó no fogão, maçãs para professora, fruta comida do pé. Mesmo a estranheza do personagem parece obedecer à rígida cartilha de infância. Não há nada de original no menino Fabrício. Já na coleção “Pedaços de Vida”, ilustrada por Ana Pez, Carpinejar conta sobre as inseguranças e certezas da paternidade, e sua relação com os dois filhos, um menino retraído e uma adolescente típica.
São relatos coloridos pelo talento de Carpinejar como poeta. Excelente frasista, consegue sintetizar verdades e senso comum de maneira precisa: “Amar é não ter paz.” “O caçula é dos filhos o que não se acostumou a nascer.”Quando criança, errar é poesia. Quando adulto, errar é malandragem.” “As olheiras são sonhos que se repetiram”. “Praça é quando duas ruas se casam.” “Uma mãe acabou de ser mãe. Frase engraçada. Mãe é nunca acabar de ser.” Porém em oito volumes (ainda que curtos e que possam ser comprados separadamente), alguns relatos mais tocantes acabam se perdendo numa coleção inchada. (Talvez funcione melhor numa leitura mais preguiçosa e despretensiosa do que a exigida para uma resenha de jornal).
O projeto gráfico em si, e a tradição da editora no segmento infanto-juvenil, geram certa confusão sobre a que público os livros se destinam. Apesar de se tratar da infância, não são de forma alguma livros para crianças; é literatura infantil para adultos, que pode também seduzir adolescentes mais sensíveis. Acertando em cheio nesse tom, as ilustrações da espanhola Ana Pez se sobressaem.
Como um todo, os oito volumes de memórias de Fabrício Carpinejar formam uma leitura prazerosa e inofensiva. E se o texto nunca chega a alcançar a genialidade, tem o mérito de jamais resvalar na pieguice.

Avaliação: Bom

19/02/2016

LEITORES BETA

Click do Felipe Helmeister


O escritor é um caçador solitário, mas este livro não estaria aqui se não fosse por um bando de gente tão louca (ou obcecada) quanto eu. Por isso agradeço primeiramente à minha agente, Siobhan Mitchell e sua assistente Sarah O'Connor pelas incontáveis leituras, correções e apontamentos nas dúzias de versões pelas quais o texto passou. Agradeço também à meu editor Robert Sullivan e todos na Evergreen Press - especialmente a Margareth Talbot, Clare Davis e Susan Montague (te devo aquele crumble) -  pelo cuidado, paciência e carinho com que trabalharam este livro desde sua primeira ideia, há cinco anos. Não poderia esquecer de minhas talentosas amigas, a escritora Viola Corman, Deborah Sanders e Lupita Ramirez pelos valiosos conselhos durante a leitura - vocês detonam! Por fim não poderia deixar de agradecer ao meu marido, Bob Burns, que me deu todo apoio estrutura (e ouviu atentamente incontáveis leituras deste livro madrugada adentro) para que eu pudesse realizar este sonho. Você é o protagonista masculino da minha vida. 
Estes são agradecimentos fictícios (de uma mulherzinha...), uma versão condensada que criei, baseadas em tantos e tantos "acknowledgements" reais que encontro por aí.



Estou terminando a primeira versão de meu novo romance. Mandando para alguns "leitores beta", me perguntando quem poderia me auxiliar em questões específicas.

Nessas horas, sempre me lembro de "agradecimentos" como os acima, que encontro no fim das traduções de livros, com dezenas e dezenas de nomes de leitores, editores, agentes, gente envolvida na produção do livro. Talvez lá fora a coisa seja mais profissional. Talvez os livros que cheguem aqui para eu traduzir sejam o que tenham passado por um processo maior, mas sempre me impressiona a QUANTIDADE de gente que se dispõe a ler (mais de uma vez) os originais antes de o livro ser publicado.

Eu sempre tenho a sensação de que estou esmolando - "eu... queria pedir uma coisa... se não fosse incômodo... poderia... poderia dar uma lida no meu livro novo... por favor... me dizer o que acha...?" Mesmo quando me encomendam o livro, sinto um incômodo de pedir uma leitura de quem encomendou. Talvez seja um caso particular, porque o que eu escrevo não presta.

Ou talvez seja por conhecer o outro lado. Diariamente chegam na minha caixa postal, no meu Facebook mensagens de leitores-autores pedindo uma leitura, uma opinião, uma orelha. Não tem como dar conta. Além dos livros que leio para resenha na Folha, que faço leitura crítica para editoras, há o fluxo interminável de lançamentos de amigos, colegas, conhecidos. Eu procuro ler, tenho prazer e acho importante, mas se não me policio acabo só lendo literatura brasileira contemporânea. E quase só literatura brasileira contemporânea RUIM.

Esta semana me dei ao luxo de virar uma noite lendo Tolstoy ("Polikuchka", delicioso, e apenas 140 páginas). Depois me peguei culpado porque emendei num Chuck Palahniuk maiorzinho ("Haunted" - "Por que você perde tempo lendo mais um Palahniuk, Santiago? Tem uma dúzia de amigos que você ainda não leu. Tem aquele menino que te pediu uma frase pra contracapa. Que seja então Graciliano! Se é para ler estrangeiros que sejam os clássicos!")

(Isso quando não viro a madrugada jogando videogame...)

Verdade que muita gente que pede leitura/opinião quer na verdade elogio/editora. Suspeito que a maioria nunca tenha de fato lido um livro meu - "Adorei o Biofobia", vem na mensagem como para dizer "li o seu, agora leia o meu" - que acredite que eu possa ter algum tipo de influência em editora. Ano passado mesmo, escrevi para o material de trabalho de um jovem autor, dono de um conhecido blog de literatura, e depois que me dei conta: o blog dele nunca deu uma linha sobre meu trabalho.

Mas tudo bem. Às vezes compensa.

No final do ano recebi de um amigo (autor inédito) os originais de um romance, e quando me preparava para me retorcer em arrependimento por ter me oferecido, tive a surpresa de encontrar um grande texto. É raro.

Quando o texto não é lá grande coisa, a amizade fica comprometida. Dois bons amigos se tornaram amigos mais distantes depois que critiquei (em particular) seus originais. Ou acharam que falei merda ou se convenceram de "quem é ele para me criticar?"

Nunca é fácil. "Dar uma lida" para opinar exige dar duas ou três lidas, sublinhar passagens, anotar, depois escrever opiniões e sugestões (nesse meu último caso, deu três páginas de texto). E eu próprio não me considero apto a ensinar ninguém a escrever - não dou oficinas, não serei picareta de faturar com a ilusão alheia.

Esse talento de leitor - de parecerista, de orientador - deveria ser mais valorizado. Por aqui raramente se encontra isso, mesmo dentro da editora - raramente tive um trabalho de edição nos meus livros; alguns não tenho nem certeza se alguém lá leu, além do revisor/diagramador. Talvez seja essa a diferença lá de fora. Leitores beta são valorizados porque são pagos. As editoras pagam por as editoras ganham. Ou o autor mesmo tenha condições de bancar. É o autor quem mais ganha com isso.  O autor e seus leitores gama, que pegam um livro mais bem cozido.

Esta foto ilustrará eternamente nosso ofício. 

10/02/2016

GAIA



A nova moradora daqui de casa. 


Seis meses depois da morte da Asdinha, arrumamos um novo coelho. Eu queria há um tempo, e estava só esperando passar minha viagem para a Armênia e o final de ano. Como ouvi tanto as campanhas desestimulando o comércio de animais, incentivando a adoção, fiquei de olho em quem teria um filhote saudável para doar. Semana passada recebi o contato de uma menina que estava com uma ninhada, e trouxe esse filhotinho para casa. 



Batizei de Gaia, tirei do sobrenome da menina que me doou. Como ainda não tem três meses de idade, ainda não sabemos o sexo. Eu preferiria uma fêmea e por enquanto estou tratando assim. Mas também pode ser "O" Gaia, que tá beleza. 

Por enquanto tem um temperamento bem diferente da Asda, que já chegou aqui em casa lambendo a gente, subindo no colo. Nos primeiros dias, Gaia ficou bem arredia, com medo, agora já está se acostumando. Já subiu no colo e pediu carinho, mas em vez de dar lambidas ela dá mordidas na minha mão, quando eu paro de fazer carinho. E já conseguiu entrar atrás do meu PC e roer o cabo do modem.

Coloquei a bandeja de higiene dela na área de serviço, onde fica água e comida, e até agora, em uma semana que ela está aqui, não fez cocô e xixi NENHUMA vez fora do lugar. Sei que isso pode mudar quando o coelho atinge a maturidade sexual. Asda aprendeu bem a usar a bandeja também, mas vez ou outra insistia num xixi no sofá.

No geral ela fica tranquila, mais na dela, menos carente. Vamos ver conforme ela for crescendo, se acostumando com a gente, a gente se acostumando com ela...

Para quem pensa em ter um coelho, dá uma espiada num post antigo que eu fiz. Acho que eu não mudaria muita coisa.
http://www.santiagonazarian.blogspot.com.br/2015/03/atualizando-coelha.html

Já conquistou o Murilo. 




04/02/2016

SAMBINHAS BIZARROS



"A verdade é que nem quando eu gostava de carnaval eu gostava de carnaval", disse bem Tati Bernardi. Concordo totalmente. Quando eu era mais novo, solteiro, eu me esforçava (porque afinal no carnaval as coisas acontecem), mas é sempre um alívio não ter de fazer parte.

Também acabamos de receber uma nova filha aqui em casa - GAIA, uma coelhinha filhote que veio para ficar (embora ainda não tenhamos certeza se é Gaia fêmea mesmo, porque ela é muito pequena. Talvez seja um Gaia MACHO… ou quase). Então nada de viagens este ano. E passaremos longe de bloquinhos. Mas pretendemos aproveitar um pouco a cidade vazia e a casa dos amigos.

Embora eu não goste do espírito excessivo do carnaval, ainda consigo curtir um sambinha ou outro, principalmente as coisas mais pra baixo, de fossa, samba canção, e as marchinhas são sempre divertidas.

Então para não passar em branco, fiz uma seleção de sambinhas bizarros, fantásticos e divertidos, para você ir se aquecendo antes de sair de casa.




Já começamos quebrando tudo com esse grupo de pagode japonês, que tem alguns clipes no Youtube. As letras parecem ter sido feitas no Google Translator, e não dá para entender o que eles pretendiam dizer com a mensagem original… "Que cor é seu sangue, porra?!"



Continuando no Japão temos Cornelius, um artista tropicalista que fez uma versão lounge divertidíssima do clássico de Ary Barroso.


Outro hit brasileiro lá fora é o Tico Tico no Fubá, que foi eternizado por Carmen Miranda e eu já vi em show de drag até na Rússia. A versão do Three Caballeros, da Disney é antológica.


Para quem é literato, vale conferir a marchinha de Mário Lago - "Caluda Tamborins" - numa grande interpretação do Eduardo Dussek. (Na dúvida, consulte o Aurélio).



Falando em Dussek, fui eu que apresentei a ele essa marchinha do Zé do Caixão (que ele tocou no programa do Mojica e me citou inclusive). É um clássico aqui de casa.


Para o povo hipster, temos a marchinha psicótica do saudoso Júpiter Maçã, indispensável.


Entrando em terrenos (ainda) mais bizarros, um sambinha branco de gay...


E para quem exagerou no lança (e no ácido, na bala, na birita), tem o samba do Felipe Smith Seu Cu!



Não poderia esquecer do clássico...



E para encerrar, um dos meus favoritos, realmente. Letra de chorar. E a interpretação do Cauby (com Paulinho da Viola) é matadora. "Canteeeeei, canteeeei… essa felicidade ainda".

Juízo, criançada!

03/02/2016

MURDIDAS



Tem acompanhado o canal do Murilo?

Desde que acabou o Masterchef ele tem feito eventos de gastronomia por aí e mantém seu canal no Youtube.



Os últimos vídeos, da série de verão, foram gravados no famoso Solar Biofobia. Infelizmente o cabeção esqueceu todos os equipamentos em São Paulo e teve de gravar com o celular (com uma qualidade bem mais ou menos), mas as receitas eu provei e aprovei.




Não posso deixar de falar que desde novembro ele conta com a participação especialíssima do MURDIDO, seu mascote (uma mistura de Louro José + Huguinho com ácido), que eu trouxe especialmente de Londres.



Coloco alguns dos meus episódios favoritos dos dois. (Inscreva, compartilhe, dê joinha.)












21/01/2016

NIGHT THOUGHTS

Já contei incansavelmente aqui como Suede é a banda mais importante da minha vida, formadora da minha adolescência, como já troquei ideias com eles e assisti a shows pelo mundo, Inglaterra, Rússia, Brasil. etc.

Agora eles lançam o sétimo álbum de estúdio - segundo desde a reunião da banda em 2010 - e a (minha) expectativa estava grande, pelas faixas ao vivo que pipocaram, resenhas entusiasmadas dos últimos dias e a ideia do disco em si. Foi pensado para ser um álbum conceitual, com faixas interligadas, que formam a trilha de um média metragem, encartado junto em DVD, sobre um casal suburbano em crise de DR.

A ideia do álbum conceitual é sedutora, e vai na contramão da tendência de se ouvir faixas soltas, em shuffle e playlists. (Mas se vanguardistas eletrônicos como Röyksopp anunciaram o fim do formato álbum - lançando The Inevitable End como uma despedida -, Bowie se despediu do mundo em grande estilo, com um álbum absurdamente conceitual, sobre sua morte.) Ainda que o conceito de Night Thoughts em si não me pareça grande coisa - uma crise conjugal de meia idade não seria  grande combustível para um disco de rock alternativo - é empolgante ver que se tornou um projeto mais ambicioso e "artístico" para a banda

Então vamos ao disco em si.

Night Thoughts já começa chutando a porta, anunciando o tom épico com When We Are Young. O primeiro acorde remete instantaneamente à trilha do filme "Tubarão", então entra a orquestra e em seguida a banda em si, mostrando que a coisa vai ser grandiosa. Impossível não comparar com "Introducing the Band", primeira faixa do Dog Man Star, em intenção, porém musicalmente lembra mais "Unsung", do último disco solo de Brett Anderson. E é igualmente linda. Eles souberam fisgar o ouvinte desde o começo.

Daí já emenda para Outsiders, primeiro single do disco, rockzinho pós-punk divertido, que lembra bem Placebo e, se não se destaca tanto isolado, funciona para dar uma aquecida.

Segue com No Tomorrow, outra das poucas mais "movimentadas" do disco, que também já foi divulgada aí como um pseudo-single, junto a "Like Kids", que tem uma pegada semelhante e, ao meu ver, são as piores faixas do álbum, com um falsete forçado de Brett (que, na verdade, está em quase todas as faixas) e uma urgência fake de fazer um hit.

Mas ouvindo na ordem, de "No Tomorrow" segue para Pale Snow, que estranhamente também já tinha sido soltada pela banda, embora no álbum funcione mais como um belo interlúdio, suavizando o clima para a faixa seguinte. É bonita.

I Don´t Know How to Reach You já tinha sido tocada bastante ao vivo pela banda e já era das minhas favoritas. A versão do disco não se sobressai ao que eles tocam nos shows, mas também não fica atrás. Aqui temos o melhor trabalho de guitarra de Richard Oakes, com um solo fodido logo após o primeiro refrão. Certamente é a espinha do disco, a faixa mais representativa, e a mais longa (com pouco mais de seis minutos).

What I´m Trying to Tell You é outra das minhas favoritas. Para mim poderia ser o melhor single do disco - um cruzamento de "Golden Gun" (um b-side deles que só eu gosto) com "Beautiful Ones" (incluindo um final de lalalás). Eu já tinha ouvido (e baixado) uma versão ao vivo, que talvez eu goste mais, porque tem guitarras mais definidas e pesadas, porém a pegada mais "pop" no álbum é bem bacana. E adoro a letra: I never make the best impressions. And I don´t have the means of expressions to explain my obsessions. É o tema que Brett Anderson já explorou a exaustão - "we are trash" - de ser um ser zoado, sem grandes qualidades, mas isso ser legal. ("Outsiders" é um pouco disso também... e quem quiser mais antigas "Trash", "Lazy", "Cheap", "Lowlife", "Refugees"... que mais?)

Vamos à minha terceira favorita, Tightrope, com a qual confesso que me decepcionei um pouco. É outra das que eles tocam já há um tempo, quase sempre só voz e violão, mas aqui tem um arranjo meio morno com a banda. Talvez eu só precise me acostumar - talvez eu estivesse esperando demais - mas não tem o tom grandioso que as versões acústicas prometiam. Também é uma faixa curta, com menos de quatro minutos. (Essa é das coisas que não entendo no Suede de hoje. Quer ser épico, mas tem medo de fazer faixas realmente longas.) De todo modo, é uma bela música. Espero que Brett consiga manter aquelas notas lá em cima para continuar cantando ao vivo.

Learning to Be era a única de que eu não tinha ouvido nada, nem trecho, nem ao vivo, não tinham soltado no Youtube, e me surpreendeu. É meio um interlúdio, mas ainda é uma bela música... meio creepy. Termina antes do que deveria, daí recomeça com um cântico de mulher, umas crianças, abrindo para...

Like Kids, de que já falei lá em cima. E que será a faixa que ficarei tentado a pular. (Falsa como a "Hit Me" do Bloodsports). Tudo bem, é perdoável. Se esse é o novo Dog Man Star, essa é "This Hollywood Life".

Aparentemente querendo se redimir, eles vão para I Can't Give Her What She Wants, que também já tinha escapado por aí ao vivo. Uma balada total Bloodsports ("What Are You Not Telling Me" é a mais imediata), que não é o melhor que eles têm a oferecer, mas não faz feio.

Emenda com When You Were Young que é outro interlúdio e uma breve reprise do tema de abertura. Funciona para reforçar essa unidade, que talvez precisasse de mais reforço. Night Thoughts é um disco conceitual, mas Bloodsports também tinha um conceito bem forte de "relações amorosas como uma questão bélica", desde o título até as letras, com "barreiras", "fronteiras", "sabotagens", "aviões caídos", "guerra fria" (essa última tirada de uma música que eles nunca lançaram, e que consegui gravar naquele show da Rússia- aliás, sintomático que eles tenham debutado muitas faixas que nunca viram a luz do dia naquele show da Rússia - e que por sorte, na época, eu estivesse morando ao lado, na Finlândia. Enfim, você encontra fácil online [Cold War] [Glavclub] ficam as dicas ;)

O álbum termina com The Furs and the Feathers.. que foi outra semi-decepção. Ouvi uma versão acústica dias atrás. Esperava algo tão glamuroso com esse título... Se esse é o novo Dog Man Star esperava ao menos uma nova "Still Life". Não é. É uma baladinha Bloodsports com orquestra, mas não muito grandiosa. Mas é bonitinha.


VEREDITO: É bem bom. Não é "o melhor disco do Suede" como alguns tem dito por aí. Não tem a consistência do Dog Man Star, me desculpe, não tem uma letra que chegue aos pés de "The Asphalt World", "New Generation". Não consegue ter o apelo pop de Coming Up. Mas se encaixa lindamente na discografia da banda. Não assisti ao DVD/filme ainda, nem estou ansioso, mas isso me pareceu mais uma ideia posterior, pela qual não me empolgo muito. O álbum funciona como álbum tão bem como (quase) qualquer álbum deles. As emendas são "emendas", as faixas não estão interligadas, só foram editadas/mixadas de uma forma que mais ou menos fluíssem, vamos ser honestos. Na verdade são um bando de canções que Brett fez sobre suas questões de pai de família e eles editaram de forma a parecer um "conceito".

Mas é um belo, um belo disco.

O que me faz repensar o que eu mais gostaria de ouvir do Suede no futuro... Seria algo mais experimental, menos lalalá, menos pseudo-hits, deixe as faixas fluirem, seis, sete, doze minutos... "When We Are Young" poderia ter se beneficiado disso, ter sido uma faixa longa. Aproveitando: podiam ter feito várias outras faixas longas, agora que não há mais limitação de espaço (ou se já iam lançar um vinil duplo)...

Enfim, expectativas demais...

Se for para colocar meu ranking deles:

DOG MAN STAR
SUEDE 
COMING UP
NIGHT THOUGHTS
BLOODSPORTS
A NEW MORNING
HEAD MUSIC

O show de novembro, na Roundhouse, em Londres, dez dias depois que voltei...

19/01/2016

QUANTAS VEZES UM ANJO CAI

(Conto que escrevi de encomenda para a Ilustríssima, inspirado por David Bowie, publicado na Folha de domingo.)


Às cinco da manhã de segunda ele aterrissa do paraíso de seus sonhos no colchão de uma cama. Sua cama; um colchão insuficiente. Um céu rachado de estrelas adesivas fosforescentes é a primeira coisa que vê. O alarme de seu celular toca a nova do Bowie.
Na frente do espelho, lava o rosto, escova os dentes, buscando restos de maquiagem da noite de ontem. Quanto mais fabuloso é seu fim de semana, mais necessário se certificar de ficar invisível na segunda seguinte. Camiseta larga sobre o corpo esguio. Boné escondendo o cabelo platina. Óculos escuros para não denunciar o olhar. Rosto fechado de menino negro, agressivo, masculino, que ele deveria ser.
A semana sempre chega socando-lhe o sorriso, se ele sorrir.
Fones no ouvido. Rápido e cabisbaixo a caminho do ponto de ônibus. Cruza com os noias que restaram de um domingo infinito. Balbuciam rindo algo que ele escuta como o "você confunde até a mãe, ela não sabe se você é homem ou mulher" ressoando em inglês de sua playlist. Tenta acreditar que aquilo poderia ser, quem sabe, atravessado, um elogio. Que a beleza pode ser indefinição. Que o que tenta esconder é o melhor que tem a mostrar. Aqui não é América, não é Londres nem Berlim, mas ele passa pelo mesmo que passam tantos outros meninos, pelo que passaram tantos ídolos. Um dia melhora. Itaim Paulista, afinal, não é tão diferente de Brixton.
No fundão do ônibus ele segue em sua odisseia espacial. O caminho para a firma às vezes é mais longo do que o para a Lua. Um grupo de pivetes batuca outro compasso, fora do compasso, ele aumenta o volume e silencia os pivetes. Pela janela tenta imaginar a Terra como azul, vendo o cinza que há de concreto. Deve ser mais bonita vista de longe. De longe, deve ser mais bonita. Não há nada que ele possa fazer, a não ser esperar.
Dois ônibus e um metrô. Quatro estações até a Paulista. Um labirinto que ele já faz no automático, deixando a voz do rei dos duendes guiá-lo. Seu dia será de filas e recepções. Decepções e poucas conquistas. E ele agradecerá pela música. São mais sete dias para viver sua vida, ou sete formas de morrer.
"Quando vi a notícia lembrei na hora de ti", recebe uma mensagem do amigo Everton aos cinco para meio-dia. Não tem créditos para perguntar de volta qual é a notícia. Dá uma espiada no jornal do dia. O jornal do dia não lhe diz nada. Tem uma Lua em Júpiter, repara no horóscopo, um sol em São Paulo. São Paulo nublado.
Espera encontrar o Cassiano, da Criação, na hora do almoço, para perguntar o que ele achou do clipe novo. Cassiano não veio hoje. Há dias em que ele consegue trocar boas ideias no almoxarifado. Mas nessa segunda estão todos fechados. Ele também se fecha em si, num mundo de cães de diamante, onde ele pode ser o herói, e garotos amam garotos insanos.
"Ei, tá no mundo da lua?", a recepcionista lhe pergunta.
"Não, já passei por lá. Agora estava pensando se há vida em Marte."
"Ai, menino, só você... Viu que a Lady Gaga ganhou um prêmio ontem?"
"Não!"
"Um Grammy, ou Emmy, um desses prêmios por atuação."
"Globo de Ouro?"
"Pode ser. Trouxe o recibo?"
Da firma seguirá para o supletivo. Só tem tempo de passar na padaria para comprar uma coxinha, de jantar. É frango e catupiry. Na televisão ligada vê o rosto do "camaleão" no noticiário. Uau, ele voltou mesmo para ficar. Quase sente certo ciúme, certo despeito pelo mundo compartilhar do ídolo que toca só em seus ouvidos, alienígena que habita seu mundo. Achou que ele fosse só seu. Tome jeito, diferentona, #everybody- loveshim.
Estuda ainda não sabe para quê. Não sabe ainda se presta. Pensa se um dia fará diferença. Termina o ensino médio. Aprende inglês com as músicas. Quem sabe se pode mudar de vida com uma faculdade. Por enquanto, para afastar a miséria basta um pouco de maquiagem.
Volta para casa tarde da noite, o mesmo metrô, os mesmos ônibus, na direção contrária. No caminho percebe que seu starman está de fato pop demais, está muito popular. Três meninos com camiseta dele no mesmo vagão. Uma mochila cheia de bottons. Uma menina até ostenta um raio na cara. Seu shuffle passa para uma faixa obscura, um B-side exclusivo, "é difícil ser um santo na cidade", o astronauta que é só seu.
É ainda o que ele escuta subindo a rua, passando em frente ao bar. O convite à dança ganha por instantes batuques de pagode, de uma mesa regada a cerveja. Ele cumprimenta o tio, acena para o padrinho, chega em casa em seu próprio ritmo. "Oi, filho. Tem um prato de comida no forno."
Come em frente ao PC do irmão, que ainda não voltou da batalha. Entra no Facebook e checa as mensagens, sua timeline: todos trazem a mesma notícia. Márcio, da loja de discos; Nicolas, produtor de TV; Alisson, performer em Oakland; Matheus, moleque do Sul. Amigos, conhecidos, desconhecidos, interessados, todos contam a mesma história de um ídolo que se foi. Todos tão diferentes e tão distantes, seguindo a mesma trilha, no ônibus para o trabalho, malhando na academia, dirigindo para buscar o filho na escola, recuperando-se de uma cirurgia.
"Escutando aquela música que você me mandou. Fiquei triste por você. Todo mundo só falando nisso."
"Pois é, fiquei sabendo há pouco."
"Sério? Bom, ele já estava velho..."
"Porra, Davidson."
"Desculpa. Gostei do som. Depois você me mostra mais. Vai lá domingo que vem?"
"Acho que sim."
"Então tá, te espero, que preciso dormir. Fique bem."
"Você também."
E ele desconecta pela nova terça que está por vir. Árida, áspera, ríspida, mas ainda poética em playlists, em fones de ouvido, para quem quiser ouvir. Ele fará sua jornada para a firma e sabe que não estará sozinho. Quebrando vidro, beirando o suicídio, o dia a dia é só um ensaio para uma tragédia maior, um futuro melhor, no que de mais grandioso reserva sua vida.
Ele tira a roupa. Deita na cama. Avista as estrelas de um horóscopo improvisado de starfix. É, não é fácil. Nem sempre é bonito. Mas, se ele não é especial e exclusivo, ao menos hoje ele sabe. Ele não é o único. Ele não está sozinho.

VIAGENS DE AGOSTO

Eu e meu jerimum. Depois de BH, Flip, Bahia, teve Minas de novo: FLIF, um festival do Instituto Federal do Sul de Minas em que EU fui o auto...