28/10/2022

OS MELHORES FILMES DE TERROR DE 2022

"The Sadness" (do final de 2021)

Já há uns bons anos, sempre a tempo do Halloween, faço minha lista de melhores filmes de terror do ano (vistos pós-halloween passado para cá). Assim, você pode maratonar...

Achei um ano especialmente bom para o gênero (pelo menos para isso...), com o streaming a todo vapor, lançando pérolas (literalmente). Acho que é um reflexo da pandemia: não só forneceu inspiração para se criar dentro do gênero, como impulsionou muito os serviços de streaming, e o terror se beneficia disso, porque é um gênero que não depende de grandes nomes, grandes verbas, pode fisgar um público só pelo tema, pelo argumento.

Nesse contexto, as grandes franquias foram as que mais decepcionaram: Halloween, Hellraiser, lançaram bombas, com roteiros estúpidos (a série do Chucky eu nem perdi tempo em continuar acompanhando). Mas novas franquias se fortaleceram.

O medo da velhice, o machismo, a misoginia são temas em alta, que geraram produções fodonas. Infelizmente, não teve NENHUM filme nacional - alguns anos atrás eu conseguia sempre colocar um ou dois. Mas isso só confirma minha triste teoria de que terror não vinga por aqui...

Então vamos à lista: 


SPEAK NO EVIL

Se eu tivesse de escolher "O" melhor do ano, seria esse, filme de terror cult, tenso do começo ao fim, sem nada de óbvio. Uma família dinamarquesa vai passar o fim de semana na casa de uma família holandesa. Eles estranham os modos dos anfitriões, sentem-se cada vez mais desconfortáveis, e as agressões vão escalando a níveis absurdos. Tem muito da passividade dos escandinavos, ecos de "Funny Games" (e até de "Bacurau"), e tem de ser lido de forma mais alegórica do que realista. INCRÍVEL.

X (e PEARL)


Em "X", um grupo de jovens aluga uma casa de fazenda para gravar um filme pornô, e é atacado pelos velhinhos proprietários. Já "Pearl" é uma prequel, conta a história de juventude da velhinha assassina (interpretada pela Mia Goth nos dois filmes), uma espécie de paródia de filmes de época (da primeira guerra), também tem muito de Coringa (do Joaquin Phoenix), na construção do personagem e da psicopatia. Os dois foram lançados este ano, produções da cultuada A24 (de "Midsommar" e "Hereditário") e gosto dos dois igualmente. Então valem como um da lista.

THE SADNESS

Trazer algo novo ao desgastado tema da epidemia zumbi não é fácil... O taiwanês "The Sadness" consegue não apenas pela ultra violência, mas também pela forte carga sexual de zumbis depravados, que querem "comer" suas vítimas de todas as formas possíveis. ("Lar dos Esquecidos", filme da Netflix, também tem um twist interessante nesse subgênero, com velhinhos de um asilo enlouquecendo; não entra no meu top 10, mas entraria num top 20). 

TERRIFIER 2











A baixíssima produção de Damien Leone conseguiu consagrar o palhaço Art como o maior ícone do terror em atividade - no nível de Freddy, Jason, Michael Myers. Esse segundo filme pesa tanto no gore que entra no terreno do absurdo, do pesadelo (para mim, a maior qualidade que um filme de terror precisa ter). Longe de ser perfeito (é longo demaaaais, tem um roteiro meio precário) é com certeza o filme que eu mais esperava, e não me decepcionou. 

BARBARIAN

Ao chegar no endereço de um Airbnb, uma mulher descobre que tem companhia para a noite... O filme mescla diversos gêneros - thriller, comédia romântica, zumbis - e tem viradas surpreendentes. Não é ótimo, mas é tenso e muito divertido. (Mini spoiler: tem uma cópia descarada da Niña Mederos, do Rec). 

THE HATCHING







Finlandês estranhíssimo (se isso não é pleonasmo), sobre uma menina que vive numa família perfeita-margarina, encontra um ovo no jardim e resolve "chocar" uma estranha criatura. Daqueles terrores de alegoria da puberdade.

MEN

Após o suicídio do namorado, uma mulher busca refúgio numa casa no interior. A premissa parece bem manjada, mas é aproveitada para discutir a passividade agressiva do machismo. Tem cenas memoráveis (como a conversa com o padre) e um ato final pra lá de bizarro.

THE BLACK PHONE

Talvez a maior produção desta minha lista, acompanha uma cidade do final dos anos 70, atormentada por um sequestrador de meninos. É baseado num conto de Joe Hill, filho do Stephen King, e parece um suco de King ("It", "Stand by Me", "O Telefone do Sr. Harrigan"...). Tem também muito do diretor, Scott Derrickson (dos ótimos "Sinister" e "O Exorcismo de Emily Rose"), com as crianças fantasmas, a máscara do vilão, os atores... É bacana, mas temos um belo exemplo de um filme limitado por seu grande alcance - não pôde ousar na questão da violência e muito menos na questão sexual. 

PREY

Em termos de velhas franquias, a maior surpresa foi esse novo Predador, pelo qual eu não dava mais nada. Aqui a história é passada em 1719, com uma nativa comanche querendo se provar como caçadora e tendo que enfrentar o maior predador que sua tribo já viu. Lembra muito o original, tem uma fotografia linda e toca em temas muito atuais. 

FALL

Filme pequeno, minimalista, no estilo que eu amo. Para superar um trauma, duas amigas decidem escalar uma imensa torre de telefonia, mas ficam presas lá em cima, depois que as escadas desabam. O melhor filme de vertigem que já vi - despertou medos de altura que eu nem sabia que tinha. 


(Desisti de colocar os trailers. Geralmente coloco os trailers aqui, mas me deparei com vários bloqueios do Youtube e dos estúdios. Trailer não devia ser uma peça PUBLICITÁRIA, para DIVULGAÇÃO do filme? Em tese eu devia até RECEBER por colocar o trailer no meu site...)

Bom Halloween, e boa sorte a todos nós contra o palhaço genocida...


#terror2022 #besthorrormoviesof2022 #terrornacional #halloween #besthorrormovies #Lula13 


27/10/2022

NOTAS SOBRE O PRÉ-PÓS-APOCALIPSE

Minha casa está me expulsando...


Acho que muitos brasileiros tiveram essa sensação, com o resultado das eleições de 2018. A exclusão que era sentida por muitos foi oficializada, outros tiveram o primeiro choque de realidade. Não queriam gays, pretos, indígenas, esquerdistas, artistas... Votaram num presidente contra isso. Foi uma verdadeira facada – em alguns pelas costas – de famílias que até “nos aceitavam”, mas preferiam que não existíssemos...

Mas eu não ia falar disso.

Ia falar do meu apartamento, minha casa, é uma velha bolsonarista. E eu moro sozinho.

A moça do IBGE veio ontem de manhã aqui. Eu não queria recebê-la. Tava fodido tentando entregar uns trabalhos de tradução, de preparação de texto, trabalhos que exigem domínio profundo da escrita em duas línguas, e pagam “500 conto”, para estruturar textos de ricaços semianalfabetos. (A educação é uma mentira, te digo, ao menos que você estude “autoconhecimento”, “planejamento financeiro”...).

Mas enfim, veio a moça do IBGE... E depois eu li que você pode até ser multado por não receber o IBGE. Mas não foi por isso que eu a recebi.

A moça do IBGE era uma gatinha pós-púbere. Que teve de entrar sozinha no apartamento de um quarentão pós-cult, como tantos outros, talvez mais trevoso, pedir licença, pedir desculpas e perguntar quem morava aqui.

"Só eu, acho.”

Nesse momento, teve um estrondo na cozinha.

“Tem um coelho também”, eu disse, certo de que aquele barulho não viera do coelho.

Ela continuou me perguntando amenidades, fugindo do meu cabelo ensebado, se deparando com o tamanho dos meus pés descalços, e eu meio culpado por gostar de vê-la desconfortável, porque eu precisava voltar a trabalhar.

“Alguém faleceu aqui entre janeiro e julho de 2022?” (Juro que ela perguntou.)

“Se eu respondesse com honestidade, não te deixaria sair” (Juro que respondi).

Ela ainda conseguiu sorrir, constrangida: “É por causa da pandemia...” explicou. Eu me esforcei para que ela fosse embora em paz.

Depois, constatei que um vaso (meu ÚNICO vaso), havia se espatifado na área de serviço, por sorte não pegou o coelho. Daí que veio o barulho... Do vento?

De noite, enquanto eu assistia a “Barbarians”, acabou a luz. Fui dormir. Acordei de madrugada, do nada, com uma prateleira de livros chumbada à parede literalmente despencando no meu quarto.

Minha casa não quer meus livros. Minha casa não me quer aqui. Minha casa é uma velha bolsonarista e precisamos exorcizá-la. 

20/10/2022

NOTAS SOBRE O APOCALIPSE SILENCIOSO

Eu sou uma pessoa sem sonhos...

Há uns dez anos, na verdade, não tenho mais nenhum sonho na vida.

É errado viver assim? Seria eu mimado-spoilt por meus privilégios ou apenas #gratiluz pelo que já conquistei?

Ainda tenho vontades, ainda tenho prazer nas pequenas coisas, como escrever, cozinhar, ouvir música, estar em contato com a natureza, e assim sigo. Mas às vezes acho que estou “quietly quitting”, para usar uma expressão do momento. Apenas tentando sobreviver... ou morrendo aos pouquinhos.

Ou talvez as pessoas vendam uma imagem errada do que deve ser o sonho, né? Ser famoso. Ficar rico. Morar fora... Esse era um sonho, mas nos lugares em que eu sonhava morar, eu já morei. Agora talvez haja o sonho de um lugar para morrer.
 
Pode ser um sonho, sim, ter uma casinha num lugar tranquilo e viver só do que eu escrevo, das coisas que a terra adubada dá... Mas esse sonho não parece uma aposentadoria? Aposentadoria pode ser um sonho? (Bem, no país em que vivemos, parece uma utopia.) Aos 45 do primeiro tempo eu deveria ter sonhos mais grandiosos, ou tudo bem?

(Às vezes vejo aqueles programas de casas lindas no GNT, e fico pensando como eu daria conta, como cuidaria do gramado, como tiraria o pó de todas as superfícies... Ser feliz é muito trabalhoso e caro.)

Eu não tenho como sobreviver à velhice...
 
(Nem motivos.)

Às vezes tenho a impressão de que você precisa desejar muito mais do que vai obter, porque se não deseja muito, não obtém o mínimo. Para conseguir pagar as contas, você precisa querer ser rico. As coisas mínimas nunca acontecem pra mim por acaso, de surpresa; muito menos as coisas máximas...

Mas eu vivo sob uma maldição...

Quem já usou muita droga sabe que o mundo real não basta, mas geralmente quem usou drogas demais conhece um Inferno que eu não conheço. Eu desisti do paraíso, de mansinho.
 
Admiro os amigos convalescentes na luta, admiro a força e a vontade que eu não sei se teria. Se eu acordo de madrugada com dores no peito, se vejo uma pinta estranha no queixo, eu fecho os olhos e espero que me leve rápido; não precisa ser totalmente indolor, posto que é morte, mas que eu não tenha de gastar o dinheiro público.

(Também não tenho nenhum, nenhum desejo para meu velório-enterro-funeral, sempre digo. Façam o que for mais fácil e barato. Joguem meu corpo no lixo. Joguem aos cachorros.)

#quietqutting #gratiluz

30/09/2022

ELEIÇÕES 2022



Deputado Federal: Augusto De Arruda Botelho 4004
Deputada Estadual: Chirley Pankará 50522
Senador: Márcio França 400
Governador: Fernando Haddad 13
Presidente: Lula 13


(Em 2018 votei no Ciro, no primeiro turno. Não me arrependo, pelo contrário - acho que deve ter se arrependido quem votou no PT. Não tinha o menor ambiente pro PT. Se Hadad ganhasse, com o fervor bolsonarista, seria um caos...)

(Agora o ambiente é bem diferente.)

(Não tem essa de "Ai, prefiro o Ciro", Ciro não vai pro segundo turno.)

(Então é concentrar pro Lula ganhar no primeiro, pra não deixar o Coiso se armar, pra não dar chance pro golpe, pra deixar claro o recado.)

(INOCENTE ninguém é. Mas o nível de canalhice, desonestidade, maldade, analfabetismo de quem está no poder é OUTRO.)

20/09/2022

AUTOFICTION

 


No fim de semana saiu o novo (nono) álbum do Suede, minha banda favorita de todos os tempos, que acompanho desde a adolescência, já vi vários shows, conheci os integrantes, etc, etc.

Eles descrevem "Autofiction" como o disco "punk" da banda, com canções curtas, diretas e barulhentas. Na verdade, soa mais como pós-punk, um baixo em primeiro plano, guitarras sombrias e vocais esganiçados - Suede sempre teve um pé no gótico.

Eu gosto. Achei o álbum melhor do que eu esperava, porque os primeiros singles ("She Still Leads Me On" e "15 Again") são bem fracos. Mas ouvindo o disco inteiro, dá para entender algumas escolhas questionáveis, como os falsetes desafinados de Brett Anderson no meio de uma palavra e as guitarras em segundo plano, sem grandes solos. O destaque fica para o baixo de Matt Osman, que soa bem diferente e mais proeminente do que nunca. É um disco para ouvir alto... e acabar rápido. 

Achei corajoso, diferente do que eles vinham fazendo, e traz um frescor em plena meia idade da banda. Minhas favoritas são "The Only Way I Can Love You", "What Am I Without You" e "Personality Disorder". Algumas começam muito bem (como "Black Ice" e "Turn Your Brain and Yell"), mas ficam uma zona no refrão, com essa mescla de falsetes. 

Enfim, 2022 tem sido um bom ano pros meus artistas favoritos (e Röyksopp continua lançando). 

Vai aí meu ranking atual (do melhor pro pior), de todos os discos do Suede: 

- Suede

- Dog Man Star

- Coming Up

- Night Thoughts

- A New Morning 

- Head Music

- Autofiction

- Bloodsports

- The Blue Hour





18/09/2022

NA ESTRADA


Acabo de voltar de uma turnezinha do Sesc, por 3 cidades do Paraná. 

Apucarana. 

Sesc é o nosso Ministério da Cultura restante; o do Paraná tem uma tradição literária forte, e sempre me prestigia. Já estive algumas vezes rodando por lá. Mas agora teve um sabor especial, depois de tanto tempo com os eventos parados, os debates online tomando conta. Sempre digo que é fundamental para o escritor circular, não só pelos encontros, as conversas oficiais e de bastidores, mas o próprio ato de arejar, ver novas paisagens, passar alguns perrengues...

Apucarana

A escrita é uma atividade solitária e muito masturbatória.  

Em Londrina

Agora estive em Jacarezinho na quinta (15), Apucarana na sexta (16) e Londrina no sábado e domingo. Os diferentes públicos e mediações geraram papos totalmente diferentes, o que é mais estimulante. O pessoal de Jacarezinho era um público mais cru, de EJA - Ensino de Jovens e Adultos; em Apucarana eu conversei com uma sala lotada de alunos de Letras, o que gerou a melhor mesa, divertida e com ótimas perguntas. Em Londrina eu dividi a mesa com o Oscar Nakasato, mediados pelo Ricardo Dalai. A conversa entre nós foi ótima, mas era um público bem disperso, com uma feira de livros acontecendo, crianças correndo, gente gritando, carros passando...


Os alunos de Apucarana. 


Deu também para fazer um turismo básico, encontrar leitores queridos como a Mariene Boldiere, sair para beber com os colegas e caminhadas bucólicas pelas manhãs. Não teve jacarés, mas deu para ver capivaras. 

Com Ricardo Dalai, Luigi Ricciardi e o Rafael Silvaro, em Londrina. 

E agora, por enquanto, neste ano não há mais nada. Estou nas prés do livro novo, sigo nas traduções, mas sempre receoso do que o amanhã me reserva - receoso de que não reservará mais nada. 

Em Jacarezinho.


07/09/2022

CONTEMPORANÍSSIMOS



Acabei há pouco uma avalanche de leituras como jurado do Prêmio Oceanos. Nessa primeira fase, cada jurado recebeu uma seleção aleatória de obras e tinha que dar nota. Tinha pouquíssima coisa que eu já tinha lido, pouca gente que eu conhecia, muita coisa ruim, mas algumas pérolas e boas surpresas. Fiquei feliz em ver que minhas maiores notas entraram na lista dos semifinalistas. Agora um outro júri escolhe os dez finalistas do ano. A lista completa está aqui: 

https://oceanos.icnetworks.org/oceanos/2022/semifinalistas

Pude então voltar para as leituras por prazer... que nem sempre... ou quase nunca são tão prazerosas... nem são tão por lazer assim... amigos, colegas, gente que me deu força, gente que prometi dar força...

Dos publicados este ano, alguns me chamaram especial atenção, começando com um romance que discute muito a própria situação da literatura brasileira atual.

O Homem que Escrevia para Ganhar Prêmios

Em "O Homem que Escrevia para Ganhar Prêmios", do brasiliense Lourenço Dutra (Arribaçã Editora) um escritor frustrado, homem-branco-cis-hétero-de-classe-média, tenta formatar o livro perfeito para ganhar um prêmio e mudar sua carreira. Poderia ser só autoficção ressentida, mas o romance estruturado quase só em diálogos se firma no humor para pintar a cena literária atual e dizer tudo aquilo que nós (escritores) já sabemos, mas que só poderíamos  dizer mesmo na ficção. Tem cenas hilárias, outras um pouco tolas (como criar uma espécie de Paulo Coelho chamado Pedro Lebre), mas a prosa ligeira é bem divertida de se ler e se identificar. Uma prova de que só o humor salva. 


Cristhiano

Discorrendo um pouco sobre essa história do exílio atual do escritor branco-hétero-cis-etc, me lembrei do badalado lançamento do Cristhiano Aguiar pela Alfaguara, "Gótico Nordestino". Ele alcançou o que muitos considerariam impossível: sucesso com um livro de contos de terror (de um autor branco-hétero-etc). O título em si é um achado, remete a um regionalismo contraditório, também com certo humor, mas que ilustra muito bem a proposta do livro, com narrativas calcadas no folclore nordestino. Talvez o que mais me incomode no livro seja um de seus maiores méritos: essa escrita limpa, "profissional", de quem estudou muito construção narrativa (e que se encaixou num molde respeitável). Falta um pouco de ousadia e espontaneidade, mas não deixa de sobrar talento. 


Uirapuru

Espontaneidade é o que não falta no primeiro romance do Febraro de Oliveira, de 23 anos, do Mato Grosso do Sul. Conheci ele na minha passagem pelo Pantanal, e fiquei curioso com seu "Uirapuru". 


Febraro

O livro é dos melhores exemplos do poder da juventude na literatura - algo que só poderia ser escrito muito jovem, por toda sua força lírica. Em prosa poética, o personagem discorre sobre suas relações familiares, com uma narrativa não tão traçável. (Me lembrou um pouco do meu "A Morte Sem Nome", que também escrevi aos 22, e não conseguiria escrever hoje). Eu sempre falo isso, da hipervalorização da "maturidade" na literatura, e como a juventude pode trazer um ímpeto tão necessário para ventilar nossas páginas. Febraro faz isso lindamente; um autor a se acompanhar (mas, vendo pela orelha que ele também é cria de oficinas literárias e se forma como professor, tenho medo do que o futuro pode fazer dele como "escritor profissional"). (RESISTA, FEBRARO!)


João Maria Matilde

E enfim consegui ler também o novo da Marcela Dantés, mineira finalista dos Prêmios Jabuti e São Paulo ano passado. "João Maria Matilde" (Autêntica) também é um romance sobre a busca da identidade através da família - no caso, a descoberta de um pai desconhecido em Portugal, que acaba de falecer. Dantés é muito delicada, e mordaz quando necessário, uma escritora talvez no equilíbrio ideal entre potência lírica e estrutura profissional. Fez o dever de casa, mas não deixa de sair da casinha. 

Marcela

27/08/2022

O SALDO DA OFICINA

 


 Acabou hoje a oficina que dei todos os sábados de agosto, por Zoom.

Foi uma ótima experiência – melhor do que eu esperava, na real; os alunos eram uns queridos, inteligentes, interessados, e parece que gostaram bem.

Eu sempre tenho resistência com oficinas, sempre falo; acho que tem muito truque, muita cagação de regra, e não acho que é a melhor coisa para aprender a escrever – por isso mesmo não me disponho a ensinar. A oficina que eu formatei é mais uma real do meio literário, com dados reais, valores, histórias de bastidores e tudo mais.

Foi mais ou menos assim:


AULA 1 - ESCREVER

Um livro não é feito de ideias, é feito de palavras – Lobo Antunes

- Não se vende ideia

- O que você quer dizer é mais importante do que a história que quer contar.

- A importância da leitura

- O peso da influência

- Dia-a-dia da escrita

- O personagem como personificação daquilo que se quer dizer

- A descrição a serviço da trama

- A linearidade narrativa

 

AULA 2 – PUBLICAR

- Formatação do livro

- Registro

- Leitura crítica

- Encontrar uma editora

- Autopublicação

- Valores pagos e valores recebidos

 

AULA 3 – DIVULGAR

- Capa e orelha

- Trabalho com a editora

- Trabalho do agente

- Resenha e publicidade

- Venda de direitos para o exterior

- Venda de direitos pra audiovisual

- Prêmios

 

AULA 4 – SOBREVIVER

- Do que vive um escritor?

- Eventos literários

- Antologias

- A carreira solo do autor

 

Na última aula também ouvi os projetos dos alunos, o que estavam escrevendo/publicando e adorei que só tinha coisa boa. Foi mesmo uma turma especial.

Todas as aulas se estenderam vinte, trinta minutos além das duas horas programadas (até porque eu falo demais, conto causos do meio literário, e os alunos sempre tinham ótimas perguntas). Pela ressalva que tenho com oficinas, se eu me disponho a dar, me preparo para dar o melhor possível. Quando preparava os tópicos de cada aula, se algo eu não sabia ou tinha dúvidas, ia atrás de quem sabia. E, bem ou mal, são 20 anos neste meio, tenho bastante experiência, bastante história e conheço muita gente.

Aproveito pra agradecer ao Alexandre Staut, à Cassia Carrenho, à Andrea del Fuego e ao Samir Machado de Machado, que me deram help em alguns tópicos; minha irmã, Rhena de Faria, que me ajudou nos macetes do Zoom, o Marcelino Freire e o Jorge Filholini que me ajudaram na formatação do curso e o Klauz, que fez os banners. Não se faz nada sozinho... nem na literatura... infelizmente... (e isso foi uma das discussões do curso).

Como a experiência foi tão boa, estou abrindo OUTRA TURMA AGORA EM SETEM(mentira). Foi uma boa experiência e estou com um curso formatadinho, mas foi tanto trabalho, divulguei tanto, PATROCINEI anúncio no Insta, paguei Zoom, enchi o saco de divulgar, e tive só 8 alunos (a 300 reais cada); financeiramente não é dos melhores investimentos; e  se com todo esforço consegui reunir 8, se fizesse outra agora não teria mais ninguém.

Não vai ter mais. Nunca mais. Acabou!

Mentira, claro. Em outubro devo dar uma... de um só dia, que uma livraria do Rio me pediu, nesses mesmos moldes. Mas ficou claro pra mim que oficina não é solução (nem pro autor, nem pro aluno). (No começo do ano, quando eu tava fodido, fodido, fodido de grana e trabalho, o que me mais me sugeriam era dar oficinas.)

A solução gente... é só LULA 13!

(mentira, também, é só um paliativo. Mas vamos nessa. Vamos de Lula, claro.)


19/08/2022

PROFOUND MYSTERIES II



Tô chocado...

Dos artistas-grupos-bandas em atividade no momento, a dupla norueguesa Röyksopp tá no meu Top 3. Talvez em segundo (depois de Suede, claro). 

Só que não tavam lá muito em atividade, com o último disco lançado em 2014 - com o fatídico título de "The Inevitable End", como uma despedida do formato disco-álbum, que é bacaninha (e tem singles fodásticos como "Running to the Sea" e "This Sordid Affair"). 

Daí, há poucos meses, eles lançaram "Profound Mysteries", um álbum bem mais ou menos, que agora me parece uma coleção de B-sides.

Só que poucas semanas depois começaram a soltar uma faixa nova atrás da outra e anunciaram o "Profound Mysteries II", uma segunda parte, ou um novo disco, o que me parece mais o caso, lançado menos de quatro meses depois. 

Não tava entendendo nada. E ainda não entendi direito. Lançaram uma faixa atrás da outra - fizeram uns vídeos esquisitos com trechos de músicas e clipes inteiros que chamaram de "visualizers" (que, pesquisando agora, me parece uma nova tendência em música eletrônica). O "visualizer" é como se fosse uma instalação visual pra música; no caso do Röyksopp, é a filmagem de uma peça, como uma escultura, que representa a música. Coisa trippy mesmo - (no site do Kondzilla eles definem como se fossem "ondas sonoras"). 

(isso é um "visualizer")


(isso era um "teaser", com um trecho da música, que não entendi muito o sentido.)


Mas e a música?

Tava boa. E só melhorou. Ouvindo agora o álbum inteiro - que acabou de sair - faz todo sentido e é absolutamente maravilhoso. Simplesmente o MELHOR disco de um dos meus artistas favoritos. 

É inteiro foda, começando com o suingue da instrumental "Denimclad Baboons" - o Röyksopp é uma dupla de produtores, afinal, raramente cantam, e sempre convidam artistas (a maioria escandinava) para colocar os vocais. Nesse disco temos alguns de seus parceiros favoritos (deles e meu): Susanne Sundfor (que arregaça em duas faixas), Jamie Irrepressible, Astrid S, Pixx e Karen Harding. 

Cinco das dez faixas já tinham sido lançadas - são todas ótimas, mas não tava entendendo o clima "retrô" do disco. A faixa da Karen Harding, por exemplo, "Unity", parecia um pastiche de dance dos anos 90 e achei que eles iam investir nisso, um disco propositadamente datado, com cara de eletrônica do século passado. 

Mas não é isso. Ouvindo o disco inteiro, tem outra pegada e faz todo sentido. É absurdo de bom. Tava ouvindo agora de madrugada e na metade já tava maravilhado; quando chegou na última faixa (só instrumental, e a melhor do disco) tive a certeza de que eles fizeram o melhor disco da carreira. 

Vai ser difícil alguém superar esse ano pra mim. Suede - que é minha banda favorita - lança álbum novo mês que vem, mas os dois singles lançados até agora foram bem mais ou menos... 

Enfim, há tempos não me empolgava assim com um disco. Até mandei mensagem pra eles agradecendo (porque já vi eles visualizando meus stories). E até gerou um post neste blog, veja só. Só tenho um pouco de medo de daqui a duas semanas eles começarem a lançar faixas novas e anunciarem "Profound Mysteries III"... ou não. 

"Profound Mysteries II" saiu nesta sexta e já dá pra ouvir nas plataformas de áudio (mas ouve direito o II; o I é muito, muito inferior). Eu, que hoje raramente compro disco, com certeza vou encomendar. 


Casalzinho lindo. 


ATUALIZANDO: (Sim, hoje anunciaram um TERCEIRO para novembro. Um motivo para ficar vivo até lá.)

05/08/2022


Beijo no Gordo (1938-2022)

Acordei hoje com a notícia da morte do Jô, uma tristeza. Ontem mesmo falei tanto dele. Das pessoas que mais deram força pra minha carreira – fui ao programa dele 4 vezes e sempre era um acontecimento. Ninguém mais no Brasil poderia fazer um programa desses, que abrangesse tantos assuntos, trouxesse tanta gente diferente, escritores dos mais variados. Por mais que falassem da soberba dele, sem ele os talk shows ficaram bem mais burros. Era um artista de um nível que não se faz mais. Ficam as boas lembranças e o privilégio de ele ter passado por minha vida.

06/07/2022

OFICINA


Vira e mexe leitores/seguidores me pedem oficinas literárias. E SEMPRE colegas autores me sugerem dar oficinas - como se fosse a única salvação do escritor hoje em dia. 

Acho esses cursos sempre duvidosos - muita gente que mal consegue escrever um livro tá aí, ensinando os outros a escrever. Mas faz certo sentido - o professor de piano não é exatamente o maior pianista, só é preciso ter didática, saber ensinar. 

Eu não sei. Não me considero apto a ensinar ninguém a escrever. Por isso, quando formato oficinas, penso em outros formatos, dar mais um panorama/real do meio literário, e discutir as ideias dos alunos.


É isso que vou fazer numa nova oficina, todos os sábados de agosto, das 10h às 12h, por zoom. 

São vinte anos de carreira nessa indústria vital, doze livros e muitas histórias para compartilhar. 

Vão ser inscrições limitadas, para poder discutir também as ideias dos alunos, responder dúvidas, etc, mas também não acho que vai lotaaaar. Já tenho um punhado de inscrições, e quando eu achar que deu eu fecho. 

As informações estão nos flyers. Para se inscrever e tirar qualquer dúvida, só me inscrever no email da foto principal. 


FLIRECÊ

Mais que colegas, friends.  Ainda tô chapado. A luz da Bahia é ofuscante – cegou meus olhos, queimou minha pele, transformou minha paulistan...