24/04/2023

BALADA FINAL



Foi um final de semana de despedidas e homenagens.


A morte do Pomba foi um baque – simbólica de várias formas. Era um amigo querido que eu via pouco, presente em outras épocas importantes na minha vida. O convite para discotecar ontem em homenagem a ele trouxe essa nostalgia. Como eu contei, não discotecava havia mais de dez anos, e quase o mesmo tempo que eu não saía de balada, topei mesmo por ele, pra ajudar na arrecadação.

Mas o clima ontem estava nostálgico e afetuoso. Muitas homenagens, vários amigos e conhecidos das antigas. Eu estava longe de ser o único “tiozão” da balada. De todo modo, cheguei cedo, toquei cedo e fui embora cedo.

A discotecagem em si... foi ok. Toquei o que eu queria tocar (Suede, Placebo, Peter Murphy, Gerard Way, Röyksopp, Blondie, Horrors). Mas já foi um esforço encontrar coisas discotecáveis, manter a pista cheia foi sofrido (felizmente toquei bem cedo e não tinha essa obrigação, mas depois de uns 50 minutos entreguei a cabine).

Também fazia uns 6 meses que eu não bebia. E virei três doses de Jack Daniel’s. Mas até que foi suave, fiquei bem, acordei bem, acordei cedo. (O problema foi só na hora de pagar – já tô mega cegueta sem óculos, imagina no escuro, depois de beber, quase bloqueei meu cartão em três tentativas erradas. Mas se me lembro de tudo é que não tava tão mal...)

Como não dava para ser só festa... teve o velório. - Entendo a coisa simbólica, dos amigos e familiares se consolarem mutuamente, mas eu mesmo não tenho nenhum desejo quanto a isso; façam o que for mais fácil, joguem meu corpo no lixo, sempre digo. Também cheguei cedo, conversei bem com o irmão do Pomba... É tão estranho ter o corpo ali... Parece uma reunião com a pessoa dormindo do seu lado.... Eu não queria que as pessoas tivessem essa última imagem de mim, não.

(Mais do que no corpo, mais do que nas lembranças, vi o Pomba vivo... no irmão dele. Os traços, um jeito de falar... Sensação bem estranha, com o corpo logo ao lado...)

Agora sinto como se tivesse se encerrado um ciclo. Valeu. Foi uma pá de cal na minha vida baladeira. Não pretendo tocar mais, nem voltar às pistas. Não digo que nunca, que NUNCA mais, mas balada agora só quando VOCÊ morrer.

(Na foto, velhos amigos tiozinhos que continuam sempre presentes na minha vida: Humberto Luminati, Fabia Sartori Fuzeti e Daniel Ambooleg.)

22/04/2023

ANDRÉ POMBA



Com o Pomba, em 2002.


Tristeza imensa de saber do falecimento do Pomba, que estava lutando contra um câncer há mais de um ano.

No lançamento de Mastigando Humanos, em 2006


É um amigo de quase TRINTA ANOS, conheci lá por 1995, nos primórdios da Loca, antes mesmo de ele criar o Grind, uma festa icônica da noite gay paulistana.

Naquela época, a noite gay ainda era muito padrão, baseada nas drags, nas divas, um cenário no qual eu não me identificava em nada. Pomba veio do rock, do metal, teve banda, criou a revista Dynamite e trouxe todo esse cenário para a noite gay paulistana.

Com o querido Ambooleg, no final dos 90. 

Seus domingos na Loca foram, de longe, a festa em que eu mais fui na vida. Toquei várias vezes como DJ, peguei meio mundo, conheci vários namorados, fiz muitos amigos, cheirei meia tonelada de pó...

O Pomba estava lá, sempre simpático, sempre centrado, comandando a festa. Sempre tocava Suede pra mim (e sempre me ouvia reclamar quando tocava pop, Madonna, Ricky Martin), era amigo de todo mundo.

No lançamento de BIOFOBIA, em 2014

E não foi amizade só de balada. Lembro que eu ia lá na revista dele, nos anos 90, quando precisava escanear fotos. A gente sempre morou perto, fosse quando ele morava em Pinheiros, fosse quando ele mudou pra Frei Caneca. A gente fazia a mesma academia. Ele foi a TODOS os lançamentos dos meus livros. A última vez que o encontrei pessoalmente foi em 2021, quando levei um Fé no Inferno na casa dele. Ele é citado no livro, inclusive.

Em 2021

Depois que ele começou o tratamento, mandei mensagem para visitá-lo com minha namorada (que também era amiga dele), mas ele tava numa fase que não podia receber visitas. Ficou só o osso, depois parecia que tava melhorando, fez uma operação... A última vez que mandei mensagem pra ele foi no aniversário, agora em 10 de abril, ele visualizou, mandou coraçãozinho, mas mal respondeu, não sei o quanto estava mal...

Eu ia tocar amanhã numa festa pra arrecadar fundos pro tratamento dele. Agora não sei se vou, se vai rolar, se vai ter clima. Tudo muito triste. Tô revendo as fotos e as lembranças que tenho dele...

Pomba era um cara super do bem. Mas a vida é assim... Abraços a todos os amigos em comum, que com certeza também tão sentindo.

12/04/2023

LEITOR CRI-CRI



Mais um parecer/leitura crítica entregue. Tenho feito bastante.
Uma época eu fazia muito para editora, mas não é mesma coisa... Na leitura crítica para a editora, em geral só se preenche uma ficha apontando pontos positivos/negativos, público alvo, se recomenda a publicação ou não.


A leitura crítica para o autor é como uma conversa direta com ele, dá para marcar dúvidas, sugestões, comentários, elogios. É uma oportunidade de que a gente muitas vezes sente falta quando lê um livro (por prazer): "Por que ele terminou assim? Isso aqui tá mal explicado. 
Não entendi essa passagem... Isso aqui me lembrou o filme tal..."

Como autor, a gente raramente tem essa conversa com o leitor. Costumo dizer que autor não tem plateia, não tem aplauso (não ouve risadas). Como cada passagem, cada parágrafo vai ser recebido pelo leitor, a gente não tem a menor ideia.


(Teve só uma vez, quando a gente tava trabalhando na adaptação do BIOFOBIA pro cinema, que a gente leu o livro INTEIRO, em voz alta - eu, Marçal Aquino, Beto Brant, Renato Ciasca e uma garrafa de Jack Daniel's. Foi uma experiência única, eles rindo numa passagem aqui, falando "isso tá estranho" ali, elogiando pontos que pra mim não eram importantes...)


(Uma vez também o Evandro Affonso Ferreira me deu um presente do sebo dele: era um exemplar do meu Olívio - minha primeira publicação - todo anotado, rabiscado e comentado pelo Bernardo Carvalho, que fez uma resenha - bem elogiosa, por sinal - para a Trip. Tinha umas passagens marcadas com: "Péssimo!")


Mesmo quando o livro volta da leitura da Editora, geralmente não vem com tantas marcações quanto eu coloco. Editora raramente coloca elogios, por exemplo, só pontos problemáticos, porque Editora não deve sentir necessidade de agradar o autor nem mostrar serviço. Tantas dúvidas que EU mesmo tenho como autor, que nunca são sanadas pela Editora, eu tenho que resolver sozinho.


Eu mesmo nunca paguei leitura crítica, porque me acho autossuficiente, mas sou mais é POBRE... (ou mão de vaca, sou armênio, afinal); algumas vezes mandei livros para amigos, camaradas, como troca de favores, para uma leitura especializada. (Como o Heitor Loureiro, que me ajudou pra caralho na parte histórica do Fé no Inferno, ou o Carlos Henrique Schroeder que fez a leitura catarinense do Neve Negra.)


Livro bom dá mais trabalho de ter o que dizer, ter o que acrescentar (você foi pago para isso, afinal), até ter o que corrigir (porque faço uma pré-preparação de texto - já que estou lendo e comentando, não custa marcar erros, reescrever trechos, torna mais fácil também de se enxergar o que estou argumentando).


Um problema que tenho encontrado é a falta de opção de deixar os comentários anônimos - há umas semanas, uma agente me pediu para fazer anonimamente um parecer, mas o Word não dá a opção de deixar os comentários anônimos (ou dá? Se alguém souber como faz...). (Aliás, como o Word está precário, pelamor, cada vez pior. Encontro tantos problemas e limitações. E AINDA é a ferramenta de texto amplamente usada.) Mas se VOCÊ me pedir uma leitura crítica do seu livro obviamente não será anonimamente, eu FALO NA CARA!
Enquanto isso, a pilha de leituras por prazer/curiosidade continua aumentando aqui... Quero muito ler o novo do (lisztiano) Rafael Gallo, do Marcelo Nunes, do meu aluno Tulio Dias, o nazista do Samir Machado de Machado, comprei a biografia da Elke pelo Chico Felliti... E ainda tem as coisas que eu preciso ler/estudar para o PRÓXIMO livro.

Sim, ainda insisto...

(O romance novo - sobre incels e não binários - tá prontinho, com capa e tudo; parece que atrasou um pouco, mas não muito; espero ansioso; qualquer dia desses descubro que entrou em pré-venda pelo Daniel Dago.)

04/04/2023

INSPIRAÇÃO HOSPITALAR

 Após uma semana de internação, quatro dias de UTI, dona Elisa Nazarian enfim teve alta do hospital.

Nada resolvido. Ela está com o pulmão bem comprometido e ainda não sabem o que é. Eu resolvi que são os livros, é possível, é o mais interessante, mas os médicos cogitam de tudo – de travesseiro de penas de ganso a fezes de morcego e a nova formação do Saia Justa. Ela vai continuar fazendo exames, agora em casa.

Esses dias no hospital valeram pela Páscoa, Dia das Mães, Natal... Nunca vejo minha mãe tanto assim. Ela mora no interior, eu moro no interior de mim mesmo... (Ai, que cafona, eu sei, mas é verdade...) Agora, enquanto ela tinha overdose de antibióticos, eu tinha overdose de família. Encontrei todo mundo, minha mãe encontrou todo mundo, recebeu visita dos irmãos, amigas, editores; os filhos se revezaram dormindo lá. Eu pouco dormi, naquele sofá estranho, ar insalubre, equipamentos apitando e enfermeiros verificando minha ereção. Quando eu era criança e ia dormir fora de casa, sempre ligava tarde da noite, de madrugada, para minha mãe me buscar, coitada. Agora, dormindo com ela no hospital, não havia quem me salvasse...

Hospital faz a gente pensar em vida, em morte. Sempre achei que as pessoas têm um apego excessivo, acho que eu não tenho, mas sabe-se lá como seria se algo de fato acontecesse comigo. Minha mãe sempre disse que não queria viver muito – eu também não – mas ela está sempre querendo mais um pouco, só mais um pouquinho, só mais uma lauda...

Deve ser duro ver os filhos envelhecerem, a diferença de idade diminuindo... ela se tornando velhinha e eu perdendo meu viço. Minha mãe já viu um filho morrer. Dos seus maiores orgulhos é ter um filho escritor, mas eu já fui um escritor melhor.... ou mais amado. Agora, sua grande motivação para continuar é a neta Valentina: Só mais um pouquinho, só até ela entrar na adolescência, se formar na escola, na faculdade, ter alta do hospital...

Eu não tenho essa motivação. Se deixarei um legado é minha obra – e há muito que eu acho que mais atrapalho do que ajudo; meus livros não precisam de mim. Vocês vão me amar mais depois de morto. Como esqueleto estarei sempre sorrindo.

Como ainda insisto, ainda tenho que continuar respirando, pagar boletos, saldar dívidas, ajudar os amigos... Muita gente me ajudou nos últimos meses, de várias formas possíveis, e agora felizmente o trabalho melhorou bem. Vamos ver até quando.

(Resolvemos um problema, aparece outro. Deus não dá cobertor à cobra...)

Seguimos. Às vezes vale a pena continuar insistindo (na vida, na escrita). Às vezes a literatura (se) paga. A vida também. Pelo menos dei esse orgulho à minha mãe; pelo menos ainda não a envergonhei prestando concurso...

30/03/2023

O NOME DA ROSA



A literatura liberta, a literatura transforma, a literatura faz um mundo melhor...

Sempre combati esses chavões. Primeiro, porque acho que é esse o dever de um escritor. Segundo, porque sou malcriado. Cresci numa casa cheia de livros, e sei o quanto minha mãe abriu mão do conforto de seu berço por amor à arte. Eu também. Não pude escapar. E sempre me referi à literatura mais como uma maldição, uma maldição hereditária.

Costumo brincar que, se alguém tem toc e rinite, MORRE ao entrar no meu apartamento, por causa dos livros, da desordem, da "carga". E não é tão exagero. Quem não tem literatura desde o berço, não criou os anticorpos necessários, e muitos meninos frágeis sofreram ao dormir aqui... (Falava sobre isso na segunda-feira mesmo, numa entrevista para o Galeno Amorim.)
 
Ontem, minha mãe foi internada às pressas na UTI. Está com insuficiência pulmonar, não é covid, mas ainda não sabem o que é. Ela nunca fumou, nunca usou drogas, mora no meio do mato...

Comentei brincando no hospital que deveria ser os livros... O médico respondeu a sério que era possível. E listou as bactérias e fungos bibliófilos que poderiam provocar isso.
 
Saberemos depois da broncoscopia. Mas para mim já está decidido. São os livros, são os livros. É a maldição. Eu sempre digo.
 
(Dona Elisa passa bem, ainda está na UTI, mas não está entubada. Quer só ir embora logo pra casa, porque precisa entregar uma tradução...)

23/03/2023

AMOR EM TEMPOS DE GUERRA



Esta semana reli O Diário de Anne Frank para um trabalhinho.

Impressionante como é mais relevante do que nunca – não só pelo relato de guerra, mas principalmente pelo enclausuramento, em tempos de pandemia, BBB... (Aquilo é BBB puro... er, imagino, não sei, nunca assisti a BBB, não estou dizendo que BBB tenha algo de literário...) (Curioso que o nome do programa tenha vindo de outro livro...)

Como obra literária, o diário também é uma maravilha, até pela própria consciência da Anne da importância histórica daquele registro, e suas ambições literárias. Mas é de se pensar o quanto foi editado, o quanto é cortado...

Ainda assim, é bastante ousado na questão sexual, contendo até fantasias lésbicas; natural para uma menina enclausurada em plena puberdade. Senti muito falta disso nos incontáveis relatos de sobreviventes do genocídio armênio, que li para a pesquisa do meu Fé no Inferno – a sexualidade parecia que podia ser freada pelos horrores da guerra. Talvez isso se dê principalmente por os livros serem escritos posteriormente, com intuito objetivo de publicação, não como um diário íntimo, como o de Anne; e talvez também pelo dogma religioso pesado dos armênios.

(Só encontrei um memoir do genocídio armênio que trata do despertar sexual em tempos de guerra de maneira deliciosa: Four Years in the Mountains of the Kurdistan, do Aram Haigaz – com um moleque-protagonista tarado que se apaixona por toda mulher que vê. Não tem tradução para o português, e eu adoraria fazer. Mas parece que o tema não interessa muito por aqui, vide o alcance do meu romance pela Companhia... Traduzi outro memoir sobre o genocídio – “A Um Fio da Morte”, do Hampartzoum Chitjian, que também não teve muita repercussão.)

Voltando à Anne, é lindo e triste. Ela consegue namorar e se apaixonar pelo único menino com quem tem contato, Peter van Daan, que inicialmente ela considera “um rapazinho molenga, tímido e desajeitado.” Fiquei pensando se Peter não seria gay, tão fascinado por estrelas de cinema, driblando as investidas de Anne...

Homossexualidade em tempos de guerra é ainda mais tabu. Mas no caso armênio há dezenas de relatos de transexualidade... ou ao menos cross-dressing, meninas que se passam por meninos para poder sobreviver, trabalhar, evitar estupros. “Durante a noite, seu ronco alto me acordou. Enquanto eu me esticava para mudar sua posição, fiquei espantado de notar que o menino era menina!” – narrou Chitjian no seu memoir (sem entrar em detalhes de como descobriu isso). Remete a histórias clássicas, de Zulvísia a Mulan, passando por Grande Sertão. (E obviamente também incorporei no meu Inferno.)

Terminando com Anne Frank, me lembrei de que visitei o museu-esconderijo dela, na primeira vez que fui a Amsterdam, há mais de 20 anos. Eu tinha comprado uns cogumelos... Achei que não tinha batido... Fui visitar o museu...
 
O que me lembro mistura o que li no Diário. Olhares atravessados de turistas. E gnomos.


21/03/2023

HOMEM TAMBÉM MENSTRUA?

Trevosa e barbuda na academia...


Há uns dias, tava vendo um filme em que uma menina adolescente reclamava das primeiras cólicas menstruais. Me bateu uma sensação estranha, porque eu sabia (ou achava que sabia) exatamente o que ela sentia, mesmo nunca tendo menstruado...

Cólica é algo exclusivamente menstrual? Homem também pode sentir? Mesmo homem que não menstrua? É uma lembrança de vida passada? Um apêndice como os mamilos? Mamilos são polêmicos para o ornitorrinco?

(Tenho mais peito do que muita mulher... Mas menos cólica.)

Daí hoje, na academia, no auge da testosteronice, bati com um peso nas partes íntimas... Senti a dor de ser mulher.

Para os homens que nunca sentiram (cólica), para as mulheres que nunca sentiram (as bolas): cólica menstrual é exatamente como a dor de acertar as bolas, só que em menor grau e duração contínua. Talvez como a dor que persiste alguns minutos depois.

O que significa que a mulher é um homem com o saco comprometido? É só uma teoria. Mas faz sentido...

(É o masculino que cresce sobre o feminino? Ou o ovo? Ou a galinha?)

Hoje pisamos em ovos para dizer o que é masculino, o que é feminino... Acho curioso que a nova geração adote tanto o termo “não-binário”, termos dos mais contraditórios, porque pressupõe que tem de haver uma caixinha específica para o masculino, para o feminino – que só pode se definir como homem ou mulher quem se enquadra em estereótipos.
 
Na minha juventude, na virada do milênio, no século passado, éramos “andróginos” – essa coisa de pintar as unhas, pintar os olhos, se montar. Um dos meus melhores amigos, um menino lindo e hétero, era mais mulher do que eu. Cogitava até fazer laser para acabar com a barba. Hoje é um tiozinho barbado (como eu), casado, pai de família, comedor de torresmo. Se tivéssemos 20 anos hoje, provavelmente seríamos não-binários... Como não tenho, estou longe de ser – mesmo com os cabelos compridos, mesmo com os olhos pintados...

(Sou só um emo, um emo velho. Mas infelizmente isso não contemplado em editais...)

Será que não-binário é só uma fase? Uma transição até se assumir mulher? Até desistir e se assumir homem? Ser homem é uma fraqueza de caráter? Ser mulher e ter o saco na lua? Existe velho não-binário? Existe não-binário há vinte anos?
 
Sempre me debati com essas questões, dos limites do masculino, do feminino, mesmo me reconhecendo como homem-cis-gay (Ou talvez por me reconhecer como homem-cis-gay). Meus namoros recentes, com meninas trans, me fizeram aprofundar... e levei a discussão para meu novo romance (quase em pré-venda). Acho um horror que a comunidade gay busque tanto essa hipermasculinidade. E acho triste que os meninos que se enxerguem minimamente femininos hoje tenham de se enquadrar como trans. A binaridade anda mais forte do que nunca. Mas onde há debate há esperança...

Neste final de semana, no MASP, fui ao banheiro. Só as cabines eram separadas para homens, para mulheres (e o melhor de ser homem é mijar de pé). Lavando as mãos, checando a maquiagem, comentei com a menina ao meu lado: “Que horror. Foi só o PT assumir que pintaram o museu de vermelho e fizeram um banheiro unissex...”

Infelizmente, essa nova geração ainda não descobriu o sarcasmo.


18/03/2023

SEJA UM AUTOR FRACASSADO SEM SAIR DE CASA!



Terminou hoje mais uma oficina, de cinco aulas, que dei por Zoom – “Como se Escreve o Romance Contemporâneo”, com participação da Andrea del Fuego, Raphael Montes e Alexandre Staut.
 
Adoro, mas detesto. É sempre bom conversar sobre literatura, saber o que os outros estão escrevendo, estão lendo, receber as dúvidas deles sobre escrita, sobre o meio, muita coisa que a gente, já avançado na carreira, toma como natural.
 
O saco é vender o curso em si, promover – e não só por ter de ficar enchendo o saco nas postagens, chamando aluno, patrocinando post, mas por “vender o sonho” em si, a promessa; tenho sério conflitos com isso.
 
Cada vez mais vejo gente aí vendendo curso, seja de literatura ou do que for, e sempre com essas promessas: Seja um autor de sucesso! Conquiste mais leitores! Você já pensou em viver de escrita? Acho uma picaretagem, me dá um mal-estar, que é difícil precisar...
 
Talvez seja um pouco por minhas frustrações pessoais com a literatura. Talvez seja muito por eu ter literalmente abandonado a publicidade para me tornar escritor (e agora o trabalho de escritor me obriga a voltar). Mas tem sido agonizante ver como a Internet tem cada vez mais obrigado TODOS a se tornarem publicitários, vendendo o tempo todo a si mesmos.
 
Instagram hoje só aparece conteúdo pago, “post patrocinado” e, além da venda de cursos, para mim o que mais aparece é rapazinhos sem camisa. O cara patrocina post dele na piscina. O cara paga pra você vê-lo sem camisa. É o povo pagando para ser famoso, ser amado, ser seguido.

Já tô velho demais para este mundo.

Nesses 20 anos de carreira (como escritor), me sinto cada vez mais perdido. Parece que no começo eu sabia mais o que fazer, como fazer e acontecer (e acontecia). Agora, a cada livro, encontro um terreno desconhecido (no anterior, foi a pandemia) em que tenho de repensar totalmente a maneira de promover um livro, de tentar chegar às pessoas.
 
Não tem chegado. (E não é nem o livro em si, é a “mensagem”, o número de seguidores que vai se tornando proporcionalmente cada vez menor, minha presença no meio literário, o alcance cada vez limitado...)

(Você já conhece a palavra de Santiago?)

Nunca dá pra confiar só na editora. Mesmo numa editora fodona, como a em que estou. O livro sempre depende do autor. A carreira é dele. É ele quem tem que fazer (escrever, divulgar, acontecer). Eu, em editora grande, tenho muito menos alcance do que muito autor da Patuá, da Nós, da Autêntica; gente mais bonita, malemolente e integrada. (O existencialismo bizarro é um projeto fracassado...)

Mas a gente segue, como sempre falo, porque antes de tudo (ainda) tenho muito prazer na prática, na escrita, na discussão sobre literatura. Um “coach literário” pode falar que estou fazendo errado. “O marketing não pode ser pensado só a posteriori, para vender o livro, Santiago. O marketing tem que estar na escrita em si, no texto vendedor...”

(Daí fodeu de vez. O existencialismo bizarro é, na verdade, literatura de autodestruição disfarçada.)

O que ferra é sempre o marketing. O que sempre ferrou e salvou minha vida foi mesmo a publicidade.
 
Por enquanto, não vai ter curso novo. Estou pensando em novos formatos, novas possibilidades, de repente presenciais, em outros lugares.. Vamos ver o que acontece.

Talvez estar em crise com a atualidade seja um sinal de que faço parte dela. Integrado ou não, estou pensando, agindo, e buscando alternativas para sobreviver nesse cenário. Talvez seja mais válido e consistente do que a bolha em que vivem os integrados, especialmente para quem quer criar algo consistente, que dure, que fique. A voz da literatura não deveria ser a voz dos outsiders?
 
Mas o que ficará daqui a cem anos, meus livros ou um canudo de plástico?

13/03/2023

MEDINDO MEUS PASSOS



A última atualização do meu iOS trouxe um aplicativo chamado "Fitness". Resolvi testar. Para ele me dar uma meta de calorias/movimento por dia, coloquei minha altura e peso.

"Tem certeza de que é isso mesmo, Santiago?"

"Claro que tenho!"

"Não é isso o que identificamos pelo nosso dispositivo... Você não vai chegar a lugar nenhum enganando a si mesmo."

"Ah, é?! Então coloca aí o que você identifica no dispositivo..."

"Bem, se você tiver até 80kg, pode PISAR no aparelho, que calculamos pra você..."

"Er, deixa como está..."

Agora o app está me deixando neurótico, literalmente calculando cada passo que eu dou, do banheiro para a sala, da sala para o quarto. "Você não está cumprindo sua meta, Santiago." Tenho que viver com o celular no bolso e ele nem é justo de fato; calcula o que eu gasto andando até a academia, mas não o tempo que fico na esteira! "Assim você não vai chegar a lugar nenhum, Santiago."

Ontem fui dormir cedo. Tive sonhos intranquilos. Acordei mais cansado do que dormi. Abri o aplicativo e já estava cumprida a meta do dia.

Estava lá registrado: Pico de movimento - entre 4:15 e 5:38 da manhã.
 
"Noite agitada, hein, Santiago?"

"Como assim? Eu tava dormindo...."

"Aham, sei."

"Sério. Fui dormir cedo. O que aconteceu? O que tu registrou aí?"

"Está de ressaca? Lembre-se de que a bebida prejudica sua meta..."

"Me conta! O que foi que eu fiz?!"

"Usou camisinha, ao menos?"

11/03/2023

OS FILMES DO OSCAR (que eu vi)



- FABELMAN: Filmão de Oscar mesmo. Exatamente o que eu esperava e não me provocou naaaada.
- AVATAR 2: Lindo de ver em 3D no cinema. E só. (Me deu uma dor de cabeça de dois dias...)
- CLOSE: Dos mais lindos e mais tristes de todos os tempos. Só acho muito rápido e desproporcional tudo o que acontece... Não dá para entender como as coisas chegam naquele ponto. 
- OS BANSHEES: Bacaninha. Um pouco enfadonho, mas bacaninha. 
- ELVIS: Outro filmão de prêmio, mas divertido. (Nunca fui fã de Elvis, mas o filme levanta bem o personagem, talvez até demais - ele é muito idealizado; fico pensando que na vida real o Elvis não devia ser aquele santo todo.)
- TRIÂNGULO DA TRISTEZA: Divertidíssimo, provocativo, mas o final decepcionou.
- TUDO EM TODO LUGAR: Chato, histérico, neurótico. Não aguentei nem metade.
- A BALEIA: Meio teatro demais, falta um pouco em cinema, mas bacaninha.
- TÁR: Meu favorito. Amei.

22/02/2023

MINHAS CINZAS


Perdido no povo. 


“Tem que aproveitar o carnaval, mas com Jesus no coração.”

Foi o que ouvi de transeuntes assim que saí de casa no sábado.
Segui o conselho. Aproveitei o carnaval com essa limitação.

Prometi ao nosso senhor que não beberia mais, não treparia mais, não seria mais feliz até resolver minha situação financeira/profissional. Já faz três meses. Tem sido curioso passar por todas as festas (Natal, réveillon, carnaval) sem beber, a gente percebe mais a embriaguez do outro. Mais complicado é festa em que NINGUÉM está bebendo, a conversa não flui legal. Melhor que eles bebam, e eu não.

A bebida não é um problema, por isso resolvi parar antes que se tornasse. “As pessoas só param de beber quando já é tarde demais”, li não lembro onde. Então parei antes. No meio literário, beber é meio obrigatório (por sinal, traduzi um livro bem bacana da Leslie Jamison sobre alcoolismo/abstemia entre escritores, “A Reabilitação”, para a Globo Livros). Beber ajuda no trabalho. Ajuda nos contratos. O problema é quando NÃO beber prejudica (na criatividade, na sociabilidade...). Sinceramente, não tenho sentido diferença. Só sigo na seca porque é mais barato. E a saúde agradece.

Voltando ao carnaval, é uma época difícil de controlar as vontades... Até fiquei bonzinho em casa. Até trabalhei na segunda. Até tentei maratonar filmes. Mas os trios na Augusta latejam até aqui: “Venha, venha, dê só um pulinho...”

É bom para o moral. 


Dei só um pulinho mesmo.

Lucas. 
         

Bastou ir até a esquina pra ver o trio de Bollywood, o trio da Salete Campari, a Rita Cadillac (de novo), e todo aquele povo... Aqueles jovens descamisados... Aqueles velhos também... Muito mijo e purpurina (isso não é um nome de um conto do Caio Fernando Abreu?). Não tive ousadia nem pra pintar o olho, sambei no máximo levantando os dedinhos. Nem beijei. Mas até que foi divertido.

Encontrando ex...
   

“Eu vou no trio pelas músicas”, me disse uma amiga. Não consigo pensar num motivo pior. Som horrível, com músicas que eu não gosto. (E se eu gostasse seria ainda pior, não tenho coragem de ir num bloco que assassina as músicas do Bowie). Também não fui pela bebida. Nem pelo sexo. Te digo, tenho um crucificado no coração.

Thi é amigo das amigas, de quando éramos clubkids...
 

Mas fui por boas companhias, no domingo, no “Explode Coração”. O Lucas De Assis Rossato o Marcelo Maluf, a Daniela Pinotti Maluf (que é a vereadora do carnaval). Acho que fui mesmo para ver o povo – não só os amigos, o povo mesmo, os corpos, as fantasias. É motivo suficiente e excessivo.

Marcelo e Daniela Maluf, casal 20 do carnaval.
 

Abri mão da felicidade para não enfrentar a decepção. Mas agora já passou. Passou o carnaval e o ano começou – queira nosso senhor. Que este ano não morro. No Halloween serei feliz.   

FLIRECÊ

Mais que colegas, friends.  Ainda tô chapado. A luz da Bahia é ofuscante – cegou meus olhos, queimou minha pele, transformou minha paulistan...