01/03/2013

Depois de tanto tempo sozinho sabia que estivera o tempo todo sozinho – e sempre estará. Cada amor, cada relação sexual em que participar terá a participação dele mesmo, inevitável. Impossível conseguir, e ter prazer, com a intrusão de si mesmo em suas fantasias sexuais. Ele não devia estar lá. Não foi isso que lhe fora propagandeado. Ele, nas revistas com as mulheres peladas. Ele, nos vídeos pornôs na Internet. Ele nunca fizera parte de suas próprias fantasias, mas teria de estar para que elas se concretizassem – o longo animal áspero, ácido, rançoso, em sua cama. Cada vez que se deitasse para o amor encontraria a si mesmo deitado, impotente, inevitável. E isso seria algo impossível de amar.

24/02/2013


Como se houvesse realmente uma alma a ser libertada, o corpo ascendeu à superfície da água. Gases escapando do pulmão, bolhas à boca. Veio à tona como não conseguiria se ainda vivesse, ainda se debatesse, lutasse contra as ondas buscando uma saída, buscando a luz que vinha de cima, dos lados, onde estava a luz da superfície? Se o corpo ainda vivesse, não saberia, e enquanto dava seus últimos engasgos parecia tão difícil perceber o óbvio: em que direção nadar, para que nadar, como romper aquela linha. Agora que era apenas um corpo, tudo era mais simples. Nem a gravidade a puxar para baixo, nem o desespero a desorientar. Apenas os gases seguindo seu curso, a alma seguindo o fluxo. E o corpo vinha à tona como para zombar de um homem que se afogou.
Boiando com os surfistas, num final de tarde. Acompanhava as pranchas, rabeava-lhes ondas, era despercebido e deliberadamente ignorado, na mesma proporção; não era possível que ninguém não notasse aquilo. Ninguém queria se responsabilizar por um corpo que boiava entre ondas. Marcelo e Benjamin fingindo não ver. Manoel não vendo realmente. Cristóvão espichando o pescoço e se perguntando o que era aquele corpo, que hora vinha, hora sumia, inchado, disforme e esverdeado como um animal marinho. Há de se pensar que surfistas seriam mais solidários, mas ninguém tinha nada com aquilo.
Então, como corpo sem vontades que era, ele abandonou os surfistas. Como corpo sem vontade que era, ele seguiu correntezas contra as quais lutavam homens decididos. Apenas meninos. Um corpo sem vontade se deixou ser levado, como partículas, conchas e lixo.  Enroscou-se em algas, acumulou areia. Levou mordiscadas de manjubas, nos dedos, nos olhos, nas calosidades dos pés. Então se cansou.
O mar o levou até a areia e o deixou lá. O mar recuou e o corpo agarrou-se à areia como o atrito de um surfista que não quer escorregar da prancha, agarrando-se à vida. O corpo ficou lá de bruços. As costas viradas para um sol que já não era suficiente para esquentá-lo. Nenhum sol seria suficiente para esquentá-lo. E as costas permaneceram viradas para um sol que nem esquentariam um corpo vivo. Um banhista vindo à areia, encolhido, retorcido, oferecendo as costas aos pingos esperando que o sol o rendesse e o secasse, não. O sol não esquentaria nem mesmo um verdadeiro banhista e faria com que aquele corpo permanecesse como um pecilotérmico, menos do que um pinguim. Inchando e esvaindo-se após a morte com um pulsar de vida. Pulsando por gases e líquidos e animais marinhos que escapavam e o invadiam. A vida continuava dentro dele, sobre ele, por todos os lados, apodrecendo. 
Há de se pensar que os urubus chegariam primeiro. Ou os siris, os caranguejos, beliscariam sua carne e o limpariam em restos. Mas havia tanto mais naquela praia a digerir. As partículas de vidas, animais esquecidos, aquecidos, pelo sol ressecados, decomposição em estágio avançado. Peixes, pássaros, crustáceos. Qualquer praia é um banquete para necrófagos e os urubus podiam esperar. Antes, o corpo era um autofágico, invadido por si mesmo.
De dentro, fungos e bactérias, larvas e vermes. Todos os silenciosos que sempre habitaram o homem vivente agora se alimentavam do corpo dele, de dentro para fora, de cima a baixo, consumindo o corpo numa luta vencida. Luta perdida. Os vermes que se alimentavam de um estômago que acabaria na boca de um urubu. As larvas que seriam consumidas pelos siris que ainda viriam. O coração na boca de um aquelminto, no estômago de um osteìcte, no bico de uma gaivota.... voando. O corpo em nada interferia. Permanecia com as costas viradas para o sol, como se manteria se ainda tivesse vida, com os mesmos vermes, as mesmas bactérias, a mesma luta dentro de si.
E quem era, o que pensava? O corpo não pensa. Apenas vem à tona, é levado pelas ondas, é consumido e rejeitado e aguarda um local final para atracar. O corpo estava lá. E quisera ser colocado embaixo da terra, cremado, crucificado, ressuscitado em três dias e três noites, não faria diferença. O corpo não tem vontades. Quisesse reencontrar antepassados, uma lápide para ser lembrado, tivesse comprado uma sepultura e escolhido uma música para seu velório, não lhe valeria de nada. E fosse jovem ou fosse velho, em forma ou acima do peso, com traços harmônicos ou desgraçados, não seria possível dizer. Se comeu demais nas últimas semanas. Se voltou a frequentar a academia. Se absteve-se das drogas e da bebida, do cigarro e do açúcar, não faria diferença. Poderia terminar do mesmo modo, terminaria lá.
Com as costas para o pôr-do-sol, os urubus começando a rodeá-lo, não há mais possibilidades para o corpo; ou há uma infinidade de possibilidades, todas fragmentadas. A carne que é repartida entre irmãos. Os ossos que confraternizarão com as conchas. Seus parasitas que viverão novas vidas, novas mortes, os rastejantes microscópicos que encontrarão nova morada. Do corpo resta muito pouco agora. Do corpo não resta quase nada. O corpo tem apenas isso, apenas uma história.  E essa história acabou. 

16/02/2013

TERROR AO TEATRO




Eu sei, muita gente tem. Terror ao teatro. Teatro é aquela coisa chata, insuportável, igual a ler. A diferença é que um livro é fácil largar no meio. Numa peça, você tem de ficar até o fim.

Mas se você insiste um pouquinho, se é de boa família, se tem boa educação, acaba lendo em quantidade e, uma hora, encontra o (primeiro) livro da sua vida. Daí te dá esperanças. Quem não sabe não há mais um? Quem sabe você não reencontra esse prazer de novo. E aos poucos você vai se acostumando a ler - não dá sempre o mesmo prazer, claro que não, mas se torna menos um estorvo. E com o tempo você já aprende a escolher melhor, já sabe o que pode te valer a pena, o que basta simplesmente evitar.

É a mesmíssima coisa com o teatro, embora a maioria das pessoas não passe do primeiro passo. Eu vou bastante, e já aprendi a gostar. Busco sempre um meio termo delicado - não tenho paciência com pecinha alternativa-amadora, mas também não suporto peçona televisiva. O que existe entre elas é arte. E de vez em quando se encontram umas pérolas.

Como a deliciosa peça da minha querida amiga Cléo de Páris, que fui hoje, na estreia, A Nossa Gata Preta e Branca, no Parlapatões. É uma peça divertidíssima, despretensiosa, delicada, feminina e muito engraçada. Grande mérito do texto (que também é da Cléo, da atriz Maria Casadevali e do diretor Tiago Leal) é brincar com esse mundinho teatral, a vida e os valores do ator. Tem muito de auto-crítica e auto-parodia. Adorei.

Vale lembrar que no Parlapatões também voltou em cartaz The Pillowman, que entra facilmente nas dez melhores peças que vi NA VIDA. Mas já falei bem sobre ela aqui: http://www.santiagonazarian.blogspot.com.br/2012/10/o-homem-travesseiro-t-pillowman-e.html



The Pillowman agora está sábado às 20h, domingo às 19h, no Parlapatões. E gosto bem desse teatro, um tamanho razoável, confortável, bom ar-condicionado, e lá na Praça Roosevelt. 


E ainda outra grande dica é Sonata a Kreutzer, do Tolstoy, que tem meu cunhado Ernani Sanchez no elenco. O maior mérito do Ernani é ser pai da Valentina, claro, mas ele ainda é um ótimo ator. (Não aceitaríamos qualquer coisa na família, né?) E a peça é um drama passional louquíssimo, lá no Sesc Pinheiro. Vai que está acabando. 






















08/02/2013

LEMBRANÇAS DE CARNAVAIS PASSADOS


Carnaval 2011, com Renatinha Simões e Cris Lisbôa, numa escuna em Jurerê. Com certeza foi o melhor verão da minha vida. 


Nunca gostei de carnaval. Nunca soube sambar. Samba para mim, só de fossa, samba-canção, ou então aquelas marchinhas antigas. Afinal, sou mau sujeito, ruim da cabeça e doente do pé.

Mas impossível viver no Brasil e não ter lembranças psicodélicas desses feriados. Pra mim fica sempre um clima meio pesado, carregado, afinal é uma festa pagã, coisa de pecador. E revendo agora, é isso de que eu me lembro do carnaval:


- Aos sete, oito anos, eu passava o carnaval com a família em Campos do Jordão, vestido de preto, óbvio, fantasiado de vampiro. Me lembro que naquela época já me incomodava a música "Cabeleira do Zezé", porque eu tinha um cabelo mais compridinho do que o recomendado para os meninos.

- Minha primeira paixão de carnaval aconteceu aos treze anos, num navio rumo à Argentina. Conheci à bordo uma gaúchinha de Passo Fundo e ficamos juntos num namorico infantil em alto mar. Mal saberia eu que NUNCA mais teria uma história de amor à altura...

- Quando eu morava em Porto Alegre, com uns 23 anos, decidi em pleno sábado de carnaval pegar um ônibus para Florianópolis. Achei um hotelzinho muquifo no centro, segui pra Praia Mole, e lá conheci um menino que me hospedou nos próximos dias. Os pais dele tinham uma cadeia de lojas de móveis, e a gente ficou numa das lojas. (Sim, nós usamos algumas camas de mostruário.)

-  Vários carnavais da década passada eu passei em São Paulo mesmo, vários me drogando loucamente, pulando de clube em clube, então não me lembro de muita coisa.

- O de 2003 foi o único que passei no Rio, como se deve. Meu ex chefe de Londres (onde trabalhei como barman em 2002), resolveu conhecer o carnaval carioca e fez questão de que eu fosse com ele, como guia e intérprete, com tudo pago. Fomos nas festas, bloquinhos de rua e tudo mais. Não tenho vontade de voltar. Para mim, o melhor foi ficar hospedado no Hotel Glória, tomando caipirinhas na piscina.

- Falando em bebidas na piscina, esse também foi o tom do carnaval de 2009. Meu namorado na época trabalhava com a Cris Lisbôa na revista Simples, e eles armaram um ensaio fotográfico no Hotel Ca'doro, aqui no baixo Augusta, que estava deserto. Foi um carnaval meio surreal, tomando champagne na piscina de um hotel fantasma, aqui do lado de casa.

- Carnaval do ano passado eu ainda estava na Finlândia, e passei na Lapônia, cruzando o mar congelado e comendo carne de rena. Foi o mais gostoso da minha passagem por lá.


Carnaval passado, em Kemi. 

Este carnaval eu pulo. Ou melhor, não pulo, vou meio que ignorar. Muito trabalho, pouco dinheiro, e ainda estou meio traumatizado do reveillon em Floripa. O pulo deve ser só na casa de campo dos Nazarian, alguns desses dias. Mas levo uma playlist de marchinhas.

06/02/2013

VELHICE



Demorei para ver o (mais uma vez estupendo) filme do Haneke, Amor. Não estava com paciência para ver "filme de velho", e a definição pode ser tola mas não há definição mais precisa. Amor é um "filme de velho" cruel, lento e mais demonstrativo do que realista.

Um casal encontra-se na situação perfeita da "melhor idade". Tiveram uma vida plena, filhos, testemunham o sucesso de seus alunos de piano. Não têm problemas financeiros, são eternamente apaixonados e aproveitam a vida juntos. Daí surgem os problemas de saúde. Ela tem de realizar uma operação, e à partir disso seu quadro só piora. Ele se dedica a cuidar integralmente dela, sendo fiel à promessa de não levá-la de volta ao hospital ou colocá-la num asilo. E é isso. 

Haneke monta um quadro perfeito para discutir as questões da velhice, da saúde e, claro, do amor. O filme é lento, triste e traz mais questionamentos do que respostas, como qualquer bom filme deveria fazer. 

Me fez pensar muito na história do Walmor Chagas, e numa opinião que eu postei no Facebook há algumas semanas. Ele estava velho, doente, debilitado, preferiu acabar com a vida. Muitas pessoas lamentaram como se não fosse a melhor saída, como se não fosse uma boa saída, como se o melhor fosse ele aceitar entrar em estágios cada vez mais dementes, degradantes, vegetativos. Não foi melhor acabar com tudo antes?

É uma moral muito cristã, apegar-se tanto à vida, mesmo diante das circunstâncias. Na discussão do FB, uma amiga me colocou que "ninguém acaba com a própria vida se não estiver com um quadro grave de depressão", e eu concordo. Mas daí é questão de se pensar o quanto a depressão tem de realismo, de enxergar as coisas como as coisas são. Talvez se Walmor Chagas estivesse devidamente medicado contra a depressão, teria sido mais otimista. Mas quem pode dizer que esse otimismo induzido quimicamente não é uma ilusão, que teria sido melhor ele aceitar sua degradação física e mental?

Ecoando os pensamentos do filme, minha mãe sempre diz que prefere morrer antes que os filhos a vejam caquética, babando. Que ela não quer que os filhos fiquem com uma imagem degradada de quem ela foi. Na verdade é apenas um aprofundamento do bordão "Die Young, Stay Pretty," que também tem seu sentido. 

Em algumas culturas - como entre os esquimós - o final da velhice é visto como uma aceitação para o suicídio. Esquimós idosos são abandonados sozinhos na neve, morrendo de forma resignada. Mas acho que não é preciso ir tão longe... Bom, quando EU estava abandonado na neve, na Finlândia, tudo o que eu pensava realmente era em me matar. Recuperei certa esperança na vida, mas não a ponto de pensar "que bobagem, quem diria que há um ano eu só queria me matar." Não acho que eu teria perdido muita coisa. E teria sido um ótimo, ótimo final; imagine: "morreu aos 34 anos, afogado, jogando-se no Mar Báltico". Garantiria o futuro da minha obra - ah-há!

Acho engraçado, mas não é brincadeira. 

Se eu fosse atropelado hoje, assim, por acaso, as pessoas talvez dissessem: "Ele ainda era tão novo, tinha tanto a viver." Mas não acho que ninguém precisaria se lamentar. Eu já tive uma ótima vida, já fiz basicamente tudo o que eu queria - se terminasse hoje, eu não teria o que lamentar. Só que certamente Morrer no Mar Báltico seria melhor do que atropelado na Paulista... (Ou velho e cancerígeno numa cama de hospital). 

Essas reflexões sempre me fazem lembrar da Leila Lopes, sem zoeira - sabe a atriz que era global, tornou-se um viral na internet, depois fez filme pornô e se matou? Para mim a carta de suicídio dela faz um sentido absurdo, ainda que esteja carregada de uma fé cristã. Alguns trechos:


"Eu decidi que já fiz tudo que podia fazer nessa vida. Tive uma vida linda, conheci o mundo, vivi em cidades maravilhosas, tive uma família digna e conceituada em Esteio, brilhei na minha carreira, ganhei muito dinheiro e ajudei muita gente com ele. (...) É preciso coragem para deixar esta vida. Saibam todos que tiverem conhecimento desse documento que não estou desistindo da vida, estou em busca de Deus. Não é por falta de dinheiro, pois com o que tenho posso morar aqui, em Floripa ou no Sul. Mas acontece que eu não quero mais morar em lugar nenhum. Eu não quero envelhecer e sofrer. Eu vi minha mãe sofrer até a morte e não quero isso para mim. Eu quero paz! Estou cansada, cansada de cabeça! Não aguento mais pensar, pagar contas, resolver problemas... Vocês dirão: Todos vivem!!! Mas eu decidi que posso parar com isso, ser feliz, porque sei que Deus me perdoará e me aceitará como uma filha bondosa e generosa que sempre fui."

Voltando ao filme do Haneke, talvez exista uma mensagem implícita de que a melhor morte possível seja por amor. É um jogo difícil, talvez utópico, porque todo mundo morre sozinho. Pensa-se nesses casais ideais (como no filme) que vão morrer juntos, velhinhos... Mas geralmente é assim, 50 anos de casados, o marido se vai antes da mulher, a mulher passa os últimos dez anos da vida só de lembranças... Não há escapatória da solidão. 

Daí me lembro de outro belo, belo filme, dirigido pelo Dominique Derudere. 



Fugindo de uma suíte de hotel, após cometer um assassinato, um michê se esconde na "Suite 16", onde mora um velho paraplégico. Inicialmente o velho é feito de refém, mas aos poucos a situação vai se invertendo. O velho se alimenta da companhia, atenção e juventude do michê, e passa a dominá-lo maquiavelicamente, gerando até uma relação de amor doentia. É um dos meus filmes favoritos, altamente wildeano, inclusive com uma citação do verso:

Yet each man kills the thing he loves,
By each let this be heard,
Some do it with a bitter look,
Some with a flattering word,
The coward does it with a kiss,
The brave man with a sword!

(de "Ballad of the Reading Gaol", Oscar Wilde).

Para terminar de uma forma um pouco mais otimista, e para demonstrar que eu ainda tenho certa esperança, coloco trecho de algo que escrevi há pouco tempo, trecho de um romance, que sabe-se lá se algum dia verá a luz do dia:

"Trinta e cinco anos é uma idade delicada; num abrir e fechar de olhos, a juventude se vai, se  esvai. Mas mantendo os olhos bem abertos, é possível prolongá-la um pouco mais, só mais um pouquinho, uma última chance. Sentia-se assim, naquele verão, o último verão, última chance, de ser jovem, surfista, saudável e em forma. O mar moldava, o sol esculpia, o sal, os mariscos, as opções de ser feliz e tão poucas alternativas. Há uns bons três verões que ele achava que não mais poderia. Mas nesse último, nesse agora, no que acabara de passar, aproveitou ao máximo as últimas possibilidades de seus trinta e cinco anos, num abrir e piscar de olhos. Uma idade delicada."


04/02/2013

O ÚLTIMO BEIJO




Não se lembra do primeiro beijo? Engraçado, eu acho. Talvez tenha acontecido há muito tempo, eu entendo, muitos outros beijos acumulados. Uma segunda experiência mais impactante, uma iniciação traumática. De repente você era tão novo, tão criança, no tanque de areia, no playground, atrás da moita, que se confundia ainda com um peito desmamado. Uma menina um pouco mais atrevida, um menino mais delicado. Só uma troca por uma bolacha recheada de morango...


Ou esse primeiro beijo não foi um beijo realmente? Um selinho de tia, brincadeira de prima, um sopro pós afogamento, na praia, para lhe devolver a vida. Eu esqueceria. Afinal, quando você se tornou consciente, capaz de se lembrar realmente, o beijo perdeu sua maciez etérea, sua imprecisão inocente. O beijo áspero dos barbados. Lixa contra lixa, rasgando sua boca. O beijo se tornou só uma desculpa. Muita coisa veio depois e o beijo se fragmentou lá atrás, lá embaixo, por todos os lados. Até onde vai apenas o beijo? Quando chega a ser transmissor, comprometedor, perigoso e irrefreável? Eu quero um beijo seu. Por que você iria me negar?


Quando será seu último beijo? Você não sabe, e não se lembrará. Ninguém se lembra, mas ele pertencerá a alguém [pertencerá a mim!]; com quem ficará seu gosto, quando você não puder mais beijar? Um salva-vidas mal-sucedido. Um namorado zeloso no hospital. Um ex-namorado piedoso, com você já velho, ressecado, lábios enrugados impossíveis de beijar. Por favor, não vá tão longe, você deveria dar esse beijo ainda hoje. Quando foi seu primeiro beijo? Eu queria tanto ter estado lá...


Você fecha os olhos, para eu lhe roubar. Você abre a boca, para eu invadir. Ainda não estou certo de que é a hora – é este o final? É assim que vai terminar? Escolheu a música, escovou os dentes, passou religiosamente o fio dental? Quero entrar em suas cavidades, sugar-lhe ouro e prata, latejar-lhe em gengivite, fazer sua mucosa sangrar. Não sei onde sua boca esteve, não sei qual foi seu primeiro beijo. Mas seu último beijo é isso, é meu, isso você não pode negar. Abra a boa. Feche os olhos. Sinta o gosto, é o último que você vai sentir. Gengivas sangrando ou bolacha de morango, que seja, toda sua história do beijo agora é minha. Seu último beijo é meu.

(Publicado na revista Júnior, de novembro de 2012). 


27/01/2013

ON THE ROAD

Leo à esquerda, eu à direita. Hum.

Leo é um menino bem bacana, que escreve bem, e não só faz um blog sobre carona como cai na estrada para alimentar o blog, ou alimenta o blog porque cai na estrada, viaja na ponta do polegar e tem muita história para contar.

Conheci em Floripa, na virada do ano, pela minha querida amiga-amada Pira. Ele que vinha saindo de Belo Horizonte, a caminho de Buenos Aires, tudo na base da carona, agregando amigos. Depois dos dias que estivemos juntos, continuei seguindo seu percurso pelo Facebook, pelo site dele, com muita admiração, e uma certa inveja.


Nunca tive esse desprendimento. Nunca poderia viajar assim. Já viajei muito, e me hospedei em casa de muitas pessoas, mas essa nunca foi a prerrogativa. Na verdade, se eu posso escolher, prefiro ficar num bom hotel... com banheira. Eu sou fresco, admito, mas admiro quem não é. E admiro um menino bonito como o Leo, que está vivendo o auge da vida, viajando e documentando em grande estilo.

Então este é o post para passar o site dele, que se tornará um link fixo (detalhe que grande parte dos meus  links fixos são de escritores que só citam nomes de livros e restaurantes e falam que estão de férias até março. Vocês deveriam se envergonhar. Rá!)

http://leocarona.com.br



24/01/2013

Eu não moro em São Paulo

Um caminhão de leite capotou na marginal Pinheiros. O tráfego foi interrompido. O trabalho de resgate foi lento. E um longo congestionamento se espalhou pela pista expressa, pela pista local e pelas cercanias...


Mas eu não passo por essa via. Não tenho carro nem uso o transporte público. Quando saio de casa, é com meus próprios pés. Eu não me preocupo com o trânsito nem com a greve do metrô. Trabalho em casa. Moro sozinho. Todos os meus principais destinos estão restritos a esse bairro, essas ruas, dando a volta no quarteirão...


Acordo tarde e vou dormir de manhã bem cedo. Não faço fila na hora do almoço, nem volto para casa na hora do jantar. Eu não tenho medo da chuva ou do alagamento; moro no décimo andar, acima, alienado, alheio.

Essa cidade que você reclama não é a minha. Esse drama que você vive não me foi escrito. Espio tudo de longe, de leve, não me arrisco. Se não enfrento os perigos da cidade, como poderia conhecer suas delícias?

Nós freqüentamos a mesma livraria, mas chego quando está vazia. Fazemos compra no mesmo supermercado, mas eu vou tarde, de noite, de madrugada. Nós temos os mesmos gostos e procuramos um pelo outro, mas a gente nunca se cruza na mesma hora, nas mesmas rodas, nessa sua cidade, eu não moro aqui.

Ainda assim, eu conheço você. Imagino seu rosto, ouço sua voz em meus sonhos. Estamos sempre à beira um do outro e do abismo. Basta um acaso, um esbarro, que a gente se encontra ao mesmo tempo, no mesmo destino.

Preciso de um acidente, de uma armadilha. Prender você aonde eu possa chegar. Minhas palavras como mensagem na garrafa, jogada de uma ilha. Como um bumerangue, uma isca, um cão farejador para te resgatar.

Você mora em outra cidade. Você vive outra vida. Você vive em outros tempos, paralelos. Quero que venha morar comigo.

Eu não moro na sua São Paulo. Eu moro aqui, eu vivo sozinho. Vivo quase à beira, à margem, em outra cidade. Quero que venha morar comigo.

Um caminhão de leite capotou na marginal Pinheiros. Não houve feridos.


(Minha homenagem ao aniversário da cidade. Publicado originalmente na revista da Folha, em 08/06/2008. O mais bizarro foi que, dias depois, uma menina desconhecida me ligou às seis da manhã, conseguiu achar meu telefone, e acreditava que o texto era para ela. Preciso ter mais cuidado com o que meu bumerangue traz.)



16/01/2013

RASTEJANDO


Garoto maldito ou menino cego? (foto Rafa Rocha/Noize)

"Você deveria escrever outro tipo de coisa, mudar totalmente o estilo," dizem senhoras que gostam de mim, mas não gostam exatamente da minha literatura. Ou "parou de escrever aquelas coisas com zumbis?" me disse certa vez Marçal Aquino (sorry, Marçal, nunca vou me esquecer...). É gente que até acha que tenho talento, mas estou desperdiçando com bobagem. Eu acho o contrário, que falta "bobagem" escrita com talento. É meio por aí que eu vou. É meu "existencialismo bizarro."

Os conselhos mais valiosos, que me dão mais força e me fazem continuar, vão na direção contrária, de gente que acredita no que eu faço, como o Marcelino, minha mãe, ou a minha agente. Certa vez ela disse: "Você não é mainstream. O que você faz não é o que interessa ao meio literário agora, mas você tem de fixar sua personalidade, que as coisas mudam e o que você faz pode ser a grande coisa daqui a dez, vinte anos."

Pois é, a carreira literária é longa e o difícil é viver o dia-a-dia.

Lembrei disso porque a mesma coisa me disse uma produtora hoje, depois de uma reunião de roteiro. "Você tem de seguir fazendo o que você já faz, porque é isso que vai marcar sua personalidade e as pessoas vão te procurar por causa disso." Eles me procuraram por causa disso, um roteiro de uma série (de que ainda não posso falar), me procuraram por causa da pegada trevosa, o humor negro, kitsch.

Nos últimos anos, tem sido melhor escrever por encomenda. Garotos Malditos foi meio escrito sob encomenda, por mais que o projeto tenha sido criado por mim, fui pago para escrever, tinha um prazo para entregar, etc. A questão não é só a grana, a questão é sentir que o texto é esperado, solicitado, desejado.

Essa coisa de o escritor criar sozinho, ter total independência e materializar seu universo interno é lindo, no começo, mas para mim tem só trazido frustração - quando se vê que não muda realmente o mundo, que não muda nem a literatura, que vende pouco, que as pessoas tratam com o descaso de "mais um livro". Os próprios editores, na maioria das vezes, tratam o autor com tanto desdém, como se fosse um favor publicar seu livro. E, no começo, é tudo tão bonito, cada micro-resenha em jornal, cada GRANDE resenha. A gente imagina que será diferente...

A crise é da escrita, mas não se restringe aos livros. "Já pensou em escrever peça?" sempre me perguntam. "Você deveria escrever letra de música", até já me disse Antônio Cícero, e eu escrevo. Tem também os roteiros. Mas o escritor antes de tudo escreve livros - é sempre mais gostoso fazer livros. E a crise não está no formato, está na autoria.

Eu tenho achado que as pessoas estão cada vez menos interessadas no que eu mesmo tenho a dizer, então é melhor que me encomendem - seja o que for. Se tiver uma intersecção com o que eu faço, se eu conseguir trazer para o meu mundo, eu escrevo. Gosto desses desafios. É lindo os emails que recebo quase diariamente de leitores, mas como um bom negativista, digo que "o peso das derrotas é maior do que o das conquistas", e tenho um bom número de derrotas para me afundar. Principalmente porque já tive mais leitores, já tive mais vendagem, até já me encomendaram muito mais textos. Sei bem que não dá para se estar sempre no auge, mas entre saber e querer há uma diferença. E é triste chegar a dez anos de carreira numa curva decrescente.

Sinto que fazer diferente não faz diferença. As pessoas querem é se identificar, e eu não me identifico com quase nada.  O que eu tenho a dizer vai continuar causando estranheza - ou resistência - seja em livro, música, teatro ou roteiro. Melhor contar a história dos outros; ao menos paga minhas contas.

É nessa crise existencial-literária que cheguei aos 35 anos, 7 livros publicados. Achando que não conquistei muito além da aura de "Garoto Maldito", e já não sou mais garoto.

A pergunta agora é: "Aonde quero chegar?" [Instalação: Santiago Nazarian/Alexandre Matos, Sesc Pinheiros]

10/01/2013


PARA QUE SERVE UM BLOG


Parece que o povo esqueceu. Eu sei que não é mais o formato da moda. Mas para que manter um blog? Para o que o povo anda usando atualmente?

O blog lá no final dos 90 começo dos 2000 era um diário, desabafo, mural de jovens em crise existencial. Bacana. Legal que jovens em crise existencial tivessem um mural. Isso depois foi diluído nas redes sociais e essa função perdeu muito de sua função. Mas para mim, o blog ainda arquiva melhor os momentos importantes, as datas significativas.

O blog sempre foi um mural democrático para o usuário registrar sua opinião – sobre a vida, um filme, um livro, um evento. Servia aos críticos amadores e aos protestantes de ocasião. Um espaço para se expressar uma opinião às massas sem precisar passar pela edição de um jornal, de uma revista. Neste ponto é que eu acho que os blogs continuam mais vivos.

Os blogs continuam vivos atrelados a jornais, como colunas opinativas. Perdem um pouco do seu caráter independente. Mas ninguém quer mesmo estar sempre independente, sozinho, alheio...
Eu tenho este blog ultra independente há NOVE anos, veja só. A Raquel Cozer  (Folha) já tirou sarro por ser um blog 2.0. “ultrapassado” – hohoho – mas não é essa a graça? Para mim, a maior graça é essa de ser o mesmo blog há tanto tempo, por eu mesmo poder revirar o arquivo e achar tantos registros antigos, tantas impressões estranhas. A graça é eu poder fazer tudo sozinho (bem, com a ajuda de poucos amigos, como Alê, que deu um tapa no layout há 4 anos) . CONTINUAR é que me dá mais força, como um registro pessoal mesmo.

O blog não tem comentários porque eu não quero. Já teve. Na época, eu era um autor emergente e o anonimato fazia com que o povo aloprasse. Eu ficava mega, mega deprimido. Era muito trabalho filtrar os comentários. E hoje já há tantas outras opções para comentar. Não é necessário.

Já pensei em terminar várias vezes, é claro. E muito pelas pessoas que escrevem: “Adoro o que você escreve. Nunca li nenhum livro seu. Mas amo seu blog.” As pessoas se contentam com isso. Nâo que sejam coisas concorrentes, mas eu vejo meu blog como... como se eu fosse um massagista. E tivesse um blog. Daí escrevo sobre meu dia-a-dia de massagista no blog, sobre minha vida, daí o povo vem falar que é meu fã sem nunca ter sido massageado? Eu não entendo.

Não, o que eu escrevo aqui não é o que eu escrevo nos meus livros. Eu escrevo ficção. Não tem nada a ver com isso. É outra coisa, é outra linguagem, completamente diferente. Aqui não é trabalho, eu não tenho tanto cuidado, não estou criando personagens, não estou criando histórias, não estou fazendo literatura. Às vezes escrevo bêbado, não me preocupo tanto com o resultado final.

É esse povo que se diz “fã do meu blog” que me faz querer acabar com tudo de vez, admito. Posso estar sendo injusto. De repente minha ficção é insignificante, como vou saber?  De repente sempre sofri de um mau marketing/distribuição dos meus livros.  Mas sempre esperei que o blog fosse um veículo de leva-e-traz com minha obra impressa.

Porém... Porém o que me deixa mais frustrado é ver como hoje estou numa cruzada solitária entre os blogs de autores. ONDE ESTÃO? PARA ONDE FORAM? É claro que ainda há escritores com blogs por aí, mas fazendo o quê?

Eu quero saber suas opiniões, como escrevem, o que estão lendo. Quem está escrevendo isso?

Especialmente:

 Michel Laub:  devia tomar uma surra por postar aquelas coisas: “Um livro. Um restaurante, Um filme.” Isso interesse a quem, Michel? Que informação mão-de-vaca é essa? Você não é capaz de escrever uma linha sobre um livro, um restaurante, um filme que você gostou?

Ivana Arruda Leite: tomou meio a linha do Michel, só diz o que leu e gostou, mas sem dar resenha nenhuma, e posta dúzias de fotos de almoços (que também não são muito atualizados). Se vai indicar um livro: ESCREVA sobre o livro.

Marcelino Freire: já teve um blog que era uma agenda dos lançamentos literários da cidade. Agora fica no discurso “eu te amo periferia” que não comunica nada além de uma voz consciente pessoal. 

Ana Paula Maia: Optou pelo silêncio e só posta seus novos lançamentos. Se eu fosse esperto, aprenderia com você, Ana Paula, como não sou, estou aqui reclamando.

Nelson de Oliveira: fingiu que morreu e adotou um pseudônimo.

Sério, isso é um protesto. Onde estão os blogs de escritores? Nenhum escritor hoje pensa? Lê? Resenha? ESCREVE?! (Provavelmente vão me mandar os que ninguém conhecem... mas ok).  Me ajudem.  Sei que há um punhado de jovens seguindo com a bandeira, mas é só um punhado. 

E não me venham dizer que é férias - "que os blogs voltam em março?". Vão tomar no seu cu. Quem precisa tomar férias de blog é quem não merece os dedos que tem para escrever.

04/01/2013

NOVO ANO VELHO

Amigos em Floripa. 


O tempo não ajudou. A semana que passamos em Floripa, para a virada do ano, foi chuvosa, nublada, com até algumas noites frias. Mas o clima dos amigos com certeza foi a melhor coisa desse novo ano e do que passou.


Friozinho na Praia Mole. 

Não estou acostumado a viajar em grupo. Estou acostumado a viajar sozinho. E tinha combinado apenas com três amigos mais próximos, que foram agregando gente, agregando gente, e terminamos em nove, com mais um punhado de visitantes que vieram e foram. 

Meu 2012 foi muito tenso, eu ando muito tenso, e não posso dizer que o clima de praia tenha servido para eu relaxar. Isso porque praia nessa época é uma muvuca só; a ilha não é a mesma que eu reconheço, onde morei e venho sempre, não dá para fazer os mesmos programas, no mesmo ritmo, com a mesma tranquilidade. Além disso, houve alguns incidentes de fato pesados.  

Nem precisaria. Eu já embarquei tenso porque achei que tinha perdido a chave de casa (e do cadeado da mala). Depois que encontrei a chave, fiquei tenso por ter esquecido parte das roupas. E o tempo todo fiquei tenso pensando se o dinheiro ia dar. E me achando acabado. E lamentando o fantasma do Natal passado. Hoje em dia é assim, das pequenas às maiores coisas me deixam numa tensão obsessiva de que não consigo me desligar. 



Mas detesto ser uma má companhia e me esforcei para não transparecer e me lamentar para os amigos. Em grande parte do tempo, preferi ficar sozinho. Pude andar de bicleta, caminhar, nadar, isso valeu. Ter  um pneu da bicicleta furado - e empurrar durante uma hora até achar um bicicleteiro - foi das menores ansiedades, mesmo. Essas coisas de esforço físico acabam me dando um saldo positivo. O problema é sempre o tédio, o tédio...

Na prainha do Leste. 

No fim de semana, me encontrei com um menino que não via há tempos. E tivemos uma boa noite juntos. Mas no dia seguinte ele começou a passar mal, vomitar e nem conseguia mais andar com dores no corpo. Médicos na pousada cogitaram leptospirose, dengue, hepatite, e eu passei um dia inteiro cuidando dele, esperando alguma melhora, já que o trânsito da temporada dificultava qualquer viagem de emergência. Terminei às 5h da manhã do dia 31 com ele no hospital. Aparentemente, era só uma desidratação severa. Às oito da manhã saímos do hospital e ele foi embora para a casa da avó, que era o melhor lugar que ele tinha para ficar, apesar de ela ter alzheimer e não reconhecê-lo mais. E assim foi. 

Boys magia. 

Depois tive alguns dias de mormaço. A virada do 31 para primeiro foi bacana. Os meninos improvisaram uma ceia bem gostosa. Todos compraram champagne e espumantes. Eu fiz uma playlist de músicas tentando agradar a todo mundo (apesar de eu não conhecer a maioria) e fui recompensado com todo mundo cantando uma música ou outra, todo mundo satisfeito, ninguém pediu para pular nenhuma música (mesmo em algumas coisas de gosto duvidoso onde reconheço que segui o padrão "festa de firma"). 


Nosso show da virada. 

Olha a playlist completa da nossa ceia de reveillon: 

Dance, Dance, Dance - Lykke Li
Polite Dance Song - The Bird and the Bee
Beautiful Ones - Suede
This Love - Maroon 5
Cant Take my Eyes Out of You - Zard
Garoto Maroto - Alcione
Festa do Interior - Gal Costa
Descobridor dos Sete Mares - Tim Maia
Taj Mahal - Salomé da Bahia
Sorte Grande - Ivete Sangalo
Fugidinha - Michel Teló
Tudo Pode Mudar - Metrô
In My Arms - Kylie Minogue
A Alegria Voltou- Cachorro Grande
Iê Iê Iê - Arnaldo Antunes
Tomorrow Never Knows - The Beatles
Let Forever Be - Chemical Brothers
Ready for the Floor - Hot Chip
Circuit Breaker - Royksopp
Phoenix - The Prodigy
Voyage Voyage - Dessireless
Don't You Want Me - Human League
Silent Morning - Noel
The Promisse - When in Rome
Girls Just Wanna Have Fun - Cyndi Lauper
Boys Don't Cry - The Cure
Maria - Blondie
Modern Love - David Bowie
Fullgas - Marina Lima
Ovelha Negra - Rita Lee
Oito Anos - Adriana Calcanhotto
Ding Ding Dong - Les Rita Mitsouko
Oh Yeah - Yello
I Go to the Doctor - Tetine
Ragatanga - Rouge
He-man - Trem da Alegria
She Bangs - Rick Martin
Americano - Lady Gaga
Maria Sapatão - Chacrinha
A Pipa do Vovô - Silvio Santos

Virei o ano de charuto na boca, para ver se me traz... dinheiro, ao menos. 

Fora isso, foram caipirinhas e caipirinhas na praia. Camarões. Deu para pegar uma cor. Ficamos todos na Pousada Marujo (http://www.guesthousemarujo.net/), hospedados pela Ida, que é literalmente uma mãe para mim nesta ilha, e sempre é meio mãe de todo mundo. 

Uma mãe. 

Foi uma boa experiência viajar com tanta gente, depois de tantas viagens sozinho. Constatei o óbvio: que não dá para esperar por companhia para as coisas a que me acostumei a fazer sozinho. Tipo, ninguém estaria disposto a pedalar 4 horas seguidas, ou caminhar 12 quilômetros. Se eu tivesse amigos com essa disposição física, certamente não seriam pessoas com quem eu conseguiria conversar, rir, beber. Por mais que eu queira, não dá para esperar que o outro queira fazer as coisas do meu jeito. É preciso encontrar um equilíbrio comum, ou simplesmente continuar fazendo sozinho, coisa que fiz muito esses dias. Mas já é lindo ter amigos que respeitam isso, que me entendem e me dão esse espaço. Como eu disse: os amigos foram a melhor parte. 

Amigo gatão que lê Kerouac na praia. 

Foi cada um no seu quadrado. Ou cada um no seu retângulo, se consideramos o IPhone. O atual estado dos gays é assim: perpetuamente plugado no Grindr, Scruff e outras redes sociais/aplicativos de pegação. Eu tenho, claro, já escrevi sobre isso aqui. Mas não consigo me divertir muito. Não tenho vontade de encontrar ninguém, não encontro ninguém, então acessar não se torna um hábito obsessivo. ISSO, ao menos, não se torna um hábito obsessivo. Mas a galera toda estava sempre assim, sempre com o IPhone na mão, chegando as mensagens, na praia, na pousada, no restaurante. Acho apenas curioso; não me incomoda. 

Mas houve ainda outro incidente, meio cômico, um pouco assustador, em que quase fui linchado. 


Amigos à beira de uma reserva florestal...

Hoje de noite, saindo da pousada, vejo crianças gritando. Me aproximo e vejo que é um filhote de cobra coral. Pego um pedaço de pau e tento verificar se é uma coral verdadeira (era), então tento espantar a cobra para longe.

"Dá na cabeça dela."

"Joga no terreno dessa vizinha chata."

"Mata! Mata!"

Tento mostrar a eles que não é um bicho agressivo (que não avança de volta dando o bote, apenas se afasta). Argumento que ela come insetos e faz parte do equilíbrio ambiental. Chego até a dizer que é um bicho de Deus.

"Se isso é um bicho de Deus, que bicho é do Diabo?" questiona um.

"Pôneis," afirmo.

Sigo empurrando a cobra por vários metros, com as crianças ao meu redor segurando pedras, querendo atacar o bichinho, e eu dizendo para não matar. Finalmente ela encontra um buraco no solo e se esconde. Eu me afasto, achando ter cumprido minha missão. Caminho até uma lanchonete. Um negão 4X4 vem atrás de mim.

"Que história é essa que você jogou uma cobra no terreno onde tem um bebê?"

Digo que só espantei a cobra, que faz parte do equilíbrio, que é um animal de Deus e por fim que matar animais silvestres é crime. O negão (era um negro grande, não estou sendo politicamente incorreto) diz que vai chamar a polícia. Sorte minha, eu já estava pronto para uma surra. Entro na lanchonete, faço meu pedido e vejo um povo se juntando, se juntando. Homens, mulheres e crianças com enchadas, foices, tochas acesas... (Ok, aí já é um pouco de exagero, mas you got the point, foram se juntando mesmo os pais das crianças). 

Acabei saindo por portinha lateral, dando a volta no quarteirão para voltar à pousada. Agora tenho medo de voltar aqui e ser linchado. Se alguma criança for picada por uma cobra nesta ilha eu estou fodido. 

Ainda consegui registrar a belezinha. Também vi um teiu enorme hoje, mas esse fugiu com as próprias patas. 

Assim começou meu lindo ano de 2013 - ano da serpente, veja só. Já pode acabar? Amanhã volto a São Paulo e não sei o que me espera por lá. O pior é que acho que NADA me espera por lá. 


Franzindo pelo sol, não de infelicidade. 


VIAGENS DE AGOSTO

Eu e meu jerimum. Depois de BH, Flip, Bahia, teve Minas de novo: FLIF, um festival do Instituto Federal do Sul de Minas em que EU fui o auto...