30/04/2014

#Samutudocuelho





Há muito tempo que eu não tinha um bicho de estimação. Meu querido iguana Araki ficou cinco anos comigo, daí me mudei para Florianópolis, tive de doá-lo, e dois anos depois soube que acabou morrendo.


Eu e Araki. 

Ter um animal de estimação é um grande comprometimento, responsabilidade e custo. Acho cruel manter um animal dentro de um apartamento, e acho estafante ter de levar todo dia para passear; por isso, cachorro nem pensar. Gato também iria requerer uma estrutura que eu não tenho. Morando sozinho, viajando muito, com meu destino incerto, tinha desistido dessa possibilidade.

Mas...

 A pequena explorando aqui em casa. 

Sábado passado eu e o Murilo subíamos a Augusta quando demos com a recém-inaugurada loja da Cobasi (post não-patrocinado, ok?). Fomos dar uma olhada e, como crianças num shopping, nos apaixonamos por uma coelhinha. 

Fizemos uma bateria de perguntas. Não há vacina, a alimentação básica é uma ração barata, não precisa de muito espaço nem de muitos acessórios. Eu não tenho viajado tanto, e eu e o Murilo sempre podemos nos revezar em cuidar dela. O preço do animal em si estava R$44, compramos por impulso na mesma hora.  

 Ela, ainda no petshop.


Com ela já em casa, fui pesquisar na Internet (não faça VOCÊ isso em casa; pesquise antes). São escassas as informações sobre coelhos pet no Brasil. Pesquisando em inglês dá para achar muito mais coisa, mas as informações são sempre conflitantes.

O atendente me aconselhou a mantê-la SEMPRE em gaiola, e só soltá-la eventualmente, o que achei uma maldade. Resolvi construir a toca dela na área de serviço, que pode ser fechada, como fazia com o Araki, e soltá-la pela casa quando eu estiver. Li em tudo quanto é lugar que eles roem tudo o que encontram pela frente - principalmente fios de produtos eletrônicos - então é preciso ficar atento. Também li que era um pouco demorado, mas possível ensiná-los a fazer as necessidades no lugarzinho deles. Isso, por enquanto está tranquilo, ela já está se acostumando a fazer nos jornais da área de serviço, onde tem a comida e água dela.


Tomando sol na sala... com uns fios prontos a serem roídos. 

Li muitas matérias sobre o temperamento dos coelhos, dicas de como fazê-los perder o medo, se acostumar com o dono, essas têm sido totalmente desnecessárias. Ela é completamente dócil e desinibida. Ando pela casa com cuidado porque ela está sempre no meu pé, cheirando, lambendo. Eu me deito para ler no quarto e ela vem de mansinho, sobe em cima de mim e lambe meu rosto. Ontem ficou horas dormindo no meu colo, mas... quando saiu, soltou umas bolotinhas. Ninguém é perfeito. Pelo menos o cocô é seco.


Com o segundo pai. 


Outras informações conflitantes são quanto à alimentação. Nos sites gringos a alimentação parece se consistir de feno. Aqui tem ração - e aconselham a dar algumas verduras, frutas e legumes só uma vez por semana. Mas a questão mais dispare é quanto aos banhos e água. Os sites gringos ensinam a como dar banho, indicam o melhor pote de água - aqui o atendente me disse enfaticamente para NÃO dar banho, nem mesmo deixar ter QUALQUER contato com água, porque pode gerar fungos. Me senti comprando um Gremlin! Até o bebedouro comprado para ela impede que ela se molhe, ela bebe enfiando a língua numa linguetinha.  

 Enfim, com tanta informação desencontrada, vou ter de descobrir na raça como lidar com ela. Por enquanto tem sido fácil e uma delícia - até porque nunca tive um animal carinhoso assim, meu iguana era o capeta encarnado. E se você tiver dicas de como cuidar de um coelho, agradeço ;)

 O tamanho dela em relação à minha mão. Mas ela vai crescer... bem....

Batizamos ela de ASDA, que é o nome de uma rede de supermercados na Inglaterra... mas que deu origem a uma bela música do Suede. Estou me contendo agora para não ficar postando o tempo todo foto de Asda comendo, foto de Asda dormindo, Asda escondida, Asda fazendo cocô...

Quando estiver mais expert no comportamento de coelhos, coloco mais dicas aqui... ou então trago belas receitas para um jantar romântico...




Ela já tem música tema. 

25/04/2014

DEBATE EM DEBATE


"Nuevos Narradores Iberoamericanos", em Madrid (2010). 

Livro novo saindo, lançamento marcado em São Paulo, começam a pipocar os pedidos e perguntas de leitores de outros estados. Estou me esforçando para circular mais, fazer lançamento pelo menos nas principais capitais, mas isso é algo que depende menos de mim e da editora do que os próprios leitores.


Com Michel Melamed e Daniel Galera na Bienal Rubem Braga (Cachoeiro do Itapemirim, 2010).


O lançamento a seco, numa livraria, é algo que geralmente não compensa financeiramente. Aqui em São Paulo tenho amigos, família, uma maior quantidade de leitores por essa proximidade e pelo próprio tamanho da cidade. Dá para se esperar uma venda razoável numa noite de autógrafos. Fora de São Paulo, é preciso contar com a disponibilidade dos leitores (termo que sempre prefiro no lugar de "fãs"); se consigo vender 30, 40 livros já é uma conquista, mas que não chega a justificar o investimento com passagens, hospedagem, os próprios gastos e perda de um dia de trabalho por estar fora de SP.

(Você, que já me viu em algum evento fora de SP, em Porto Alegre, Recife, Cachoeiro do Itapemirim, pôde ter uma ideia efetiva de quantos lá realmente compraram o livro.)

Os eventos maiores, dentro da programação de algum festival ou bienal, são mais vantajosos, porque geralmente já têm uma cobertura de imprensa maior, atraem não só seus leitores prévios como uma pá de curiosos, geram pelo menos uma boa divulgação. O público que não me conhece pode ir lá ver o que tenho a dizer - às vezes não tem dinheiro para comprar o livro na hora, mas sai com um interesse e conhecimento maior da minha obra... ou perde a vontade de vez.


Festival Facyl em Salamanca (Espanha, 2013). 

O mínimo que um evento desses deve oferecer ao autor é passagem e hospedagem. Alguns oferecem auxílio alimentação. Muitos não oferecem cachê. Pode se discutir a questão do cachê pois afinal "o autor já está lá divulgando seu livro", mas gosto sempre de comparar com a situação do músico. Se um músico não costuma fazer show de graça para divulgar seu CD, o escritor também não deveria participar de debates ou palestras de graça para divulgar seu livro.

Ainda assim, compreendo que muitos festivais literários são feitos na raça, sem patrocínio algum, com os organizadores lutando para conseguir apoio, passagens, um hotel; já participei e participo de muitos eventos sem cachê, é um investimento que faço do meu bolso (um dia de trabalho que perco; o táxi que pago para o aeroporto...) para divulgar o livro, encontrar leitores ou mesmo conhecer uma cidade nova.


Feira do Livro de Guadalajara, 2013. 

O valor do cachê pode ser discutido, geralmente não é alto. A coisa pega quando o festival ostenta grandes patrocinadores, tem dinheiro público envolvido, mas os autores não estão ganhando porra nenhuma, ou só uma ajuda de custo. Pior ainda quando se descobre que alguns autores estão ganhando, outros não.

Pode se argumentar que o investimento deveria ser feito pela editora - e muitas vezes é. Já participei de eventos em que a editora pagava passagem, a organização arcava com a hospedagem. Mas novamente pode se comparar com a música - não se espera que uma gravadora pague para o músico tocar na sua cidade, isso é responsabilidade de quem organiza o evento.

E quem organiza o evento? Os leitores cobram que eu esteja em Brasília, no Recife, em Palmas, mas eles mesmos estão mais próximos da organização do evento, sabem melhor o que vai acontecer na sua cidade, são alunos ou amigos dos curadores, podem indicar os autores que querem ver, ou podem eles mesmos arregaçar as mangas e lutar para criar um evento na sua cidade. Não se pode esperar sempre por um "poder maior" que crie uma Flip na sua cidade; os eventos mais bacanas de que participei foram organizados por leitores, por escritores, que geralmente começam no tranco, e vão crescendo, ganhando prestígio, verba e cachês.


Em Campo Grande.

Acho absurdo, por exemplo, meu livro ter sido leitura de vestibular na Paraíba e NINGUÉM de lá ter organizado um evento para me levar. Sei que este ano Mastigando Humanos é leitura obrigatória em colégios de Salvador, que é uma cidade que não conheço. Também tenho livros lançados na Itália e Portugal, mas nunca me convidaram para nada por lá (Portugal conheço como turista). Na Espanha a editora se empenhou e conseguiu apoio para uma mini-turnê minha, ano passado.




"Ave Palavra" com Anderson Pires, em Juiz de Fora (2012)

Sei que sou um autor controverso. Minha literatura é provocativa, flerta com o sórdido e o obscuro. Sou visto com desconfiança no meio acadêmico; não sou queridinho dos prêmios literários; não tenho um discurso padrão nem dentro do meio literário - o que já me faz ser visto como "polêmico" por alguns, sendo apenas verdadeiro. Sei bem o quanto isso me abriu portas, mas também fecha portas importantes (e cada vez mais acho que o saldo é negativo). Nessa cruzada só posso contar mesmo com meus leitores, que estão crescendo, estão se fortalecendo - já trabalho hoje com editores que foram meus leitores na adolescência, veja só. E os leitores que querem me encontrar são os que devem tentar me levar mais longe. Assim continuo rastejando, penetrando entre as frestas, sonhando com o dia em que os répteis voltarão a dominar a terra.



ALGUNS DOS EVENTOS LITERÁRIOS MAIS BACANAS DE QUE PARTICIPEI: 



Com Chico Mattoso e João Paulo Cuenca mediados por Paulo Roberto Pires. 


FLIP: É inegável a projeção que uma Flip tem. E tive a sorte de participar da primeira, em 2003, bem no início da carreira. Foi uma ótima inserção no meio literário - onde caí de paraquedas - com discussões que se estenderam nas mesas dos bares, nas grandes festas, almoços e jantares. Como minha turma é outra, nunca mais voltei. (Virou um desses casos em que aguardo a era dos répteis...)




JORNADA LITERÁRIA DE PASSO FUNDO: Evento fantástico em que se fala para milhares, milhares de estudantes que de fato leram os livros. Os autores selecionados têm seus livros previamente adotados em universidades ou colégios da região, então você vai lá de fato encontrar seus leitores. Nunca me esqueço da sensação de chegar à cidade e encontrar no quarto de hotel um livro didático com questões sobre Mastigando Humanos.



Com João Silvério Trevisan e João Gilberto Noll. 

BALADA LITERÁRIA: Essa é das boas panelinhas de se fazer parte. Organizada pelo meu brother Marcelino Freire, já participei diversas vezes, como mediador e debatedor. Mas como o nome próprio diz, vai além dos debates e se espalha por festas, shows, exposições. O ano em que mediei um bate-papo com João Gilberto Noll (meu maior ídolo na literatura) sempre será especial para mim.



Com Cristhiano Aguiar.  

FREEPORTO: Um ótimo exemplo daqueles eventos organizados na raça, por um grupo de leitores-escritores do Recife. Tinha uma programação "psicodélica" bem divertida que também ia além dos debates.




Com Ivana Arruda Leite, mediados por Carlos Henrique Schroeder. 

FESTIVAL NACIONAL DO CONTO: Outro evento de militância, organizado pelo querido Carlos Henrique Schroeder em Santa Catarina, que valoriza o conto e contistas, que geralmente são vistos abaixo do romance no meio literário. O ano em que participei teve uma programação recheada de amigos e colegas queridos, como o Galera, Ivana, Joca e Marcelino.



Com Bernardo Azjemberg e Fernando Molica. 


FÓRUM DAS LETRAS DE OURO PRETO: A cidade em si já é maravilhosa. Mas o evento organizado pela Guiomar de Grammont não fica atrás. Discussões temáticas das mais diversas com autores, editores e tradutores, que só poderiam ser organizadas por quem realmente entende da coisa.


Com Ana Paula Maia. 

SEMPRE UM PAPO: Já participei duas vezes, devo participar novamente em breve, e sem dúvida é dos eventos com melhor estrutura. Organização impecável, sempre gera ótima imprensa e longos bate-papos que ficam disponíveis no YouTube. Acontece durante o ano todo (o que é ótimo por um lado, mas também faz com que os bate-papos fiquem isolados e os escritores não se cruzem, o que é uma perda).




BOGOTÁ 39: Não acho justo colocar os eventos internacionais aqui, porque só a viagem e a experiência são sempre imbatíveis, mas se tivesse de eleger só um, obviamente seria o Bogotá 39, evento em que participei em 2007, com os "39 escritores com menos de 39 anos mais importantes da América Latina". Não foi muito noticiado no Brasil, mas ecoou fortemente na América Latina (e isso me rendeu diversas viagens pelo continente e Europa). Além do intercâmbios com outros escritores jovens, tivemos festas, jantares e publicações inesquecíveis. Espero que os três anos que me restam como "jovem autor" me rendam outras dessas...

22/04/2014

LANÇAMENTO



O livro começa a ser vendido em breve. Além do lançamento em SP, dia 10 de maio, já estamos marcando datas em BH e no Rio (o resto dependendo sempre dos convites, eventos literários...).

Fique ligado na página "Agenda", que atualizarei por lá.

E semana passada já saiu uma entrevista bem bacana sobre o livro no jornal "O Fluminense", do Rio.

Leia aqui.

17/04/2014

PERIPÉCIAS DE PÁSCOA


Fui mal acostumado desde a infância e procuro respeitar as datas, trocar presentes; daí todo mês tem aniversários, Natal, Páscoa, dia das mães e o caralho.

Então nessa Páscoa eu e Murilo decidimos inovar e confeccionarmos nossos próprios ovos de Páscoa exóticos.




O primeiro foi o tradicional de chocolate ao leite, mas acrescido de cachaça e amêndoas e traços de chocolate branco.


Fizemos um ganache meio branco, meio ao leite para cobrir.


Depois veio a grande invenção. Ovo branco recheado com ganache de... Wasabi!

A ideia veio de um Kit Kat de wasabi que comi no Japão. Ano passado fiz brigadeiros de wasabi para meu aniversário e deu muito certo. Agora resolvemos testar no ovo de Páscoa. Foi só misturar chocolate branco derretido, creme de leite e wasabi para rechear o ovo.


Depois de recheado, foi tapado com chocolate ao leite e amêndoas.

Ficou bonito. Se ficou bom, minha mãe e minha irmã que poderão dizer - hihihi - porque só provamos da panela.  Não íamos morder o ovo pronto, já durinho.

E aqui já embalamos. Não tive coragem de usar minha sobrinha de cobaia (ainda mais com wasabi...), então comprei um coelhinho e ovinhos da Kopenhagen para ela.

UPDATE: Experimentei nesta sexta o ovo que fiz para minha irmã. Super aprovado.Ficou com o recheio macio e com um leve gosto de cachaça (a metade negra) e wasabi (a metade branca).






E fica aqui minha mensagem de Páscoa para vocês.




06/04/2014

GRANDES SHOWS



Suede em São Petersburgo (2011)

Não me empolguei em ir ao Lollapalooza. Não tinha nenhuma banda que eu realmente gostasse, e não sou um entusiasta de festivais em si. Mas vendo tantos amigos postando, fiquei pensando nos melhores shows que fui, nos que me decepcionei, nos que ainda queria ir. Daí fiz minhas listinhas. Vários ficaram de fora (Rufus, Peter Murphy, McAlmont and Butler), porque tinham de ser lista de dez. Mas vamos lá.

Os melhores shows da minha vida: 

Suede em São Petersburgo (2011)
Claro, é minha banda favorita, e ver de pertinho, na Rússia, com sete músicas inéditas (das quais apenas duas acabaram sendo gravadas) foi muito especial. 

David Bowie em São Paulo (1998)
Apesar de a turnê (e o disco) Earthling estarem longe de ser o ponto alto da carreira de Bowie... é sempre Bowie. E ver em São Paulo, com os amigos, foi especial. 

Sex Gang Children em Londres (2002)
Daquelas bandas obscuras que eu nunca achei que fosse ver ao vivo, de pertinho. Chapado de ecstasy deixou tudo mais divertido. 

Michael Jackson em São Paulo (1993)
Daquelas mega produções. Eu era adolescente, fão do Michael (ainda sou), e foi um show histórico. 

Marina Lima em São Paulo (2007)
Aquele show absurdo da Marina, trevoso e teatral, que foi gravado para virar DVD e nunca veio, no Auditório Ibirapuera. 

Patrick Wolf em Helsinque (2011)
Foi um raio de luz no meu inverno profundo na Finlândia. Além de cantar, ele tocou piano, violino, harpa, violão. Foda. Depois disso que virei fã. 

Siouxsie and the Banshees em São Paulo (1995)
O repertório do "The Rapture", último álbum de estúdio da banda, é imbatível. E ver no auge da adolescência foi lindo. 

Pulp em São Paulo (2012)
Há muitos anos que não ouvia mais Pulp. Mas esse show com Jarvis em grande forma me reconquistou. 

Einsturzende Neubauten em São Paulo (2000)
Não era grande fã da banda. Mas tinha amigos em comum e acabamos saindo com eles antes do show, assistimos em esquema privilegiado e foi sensacional. 

Kylie Minogue na Parada Gay de Madrid (2010)
Show curtinho, mas GRATUITO, para encerrar a parada gay de Madrid. Preciso dizer mais?


E as maiores decepções...

Prodigy em São Paulo (1999)
Foi um show gratuito (não lembro por quê). Som baixo. E convenhamos, Prodigy não é banda, ao vivo, na luz do sol, em esquema de show fica uma discotecagem meia boca. 

Placebo em Florianópolis (2005)
Coloquei Florianópolis mas fui em TODOS os shows dessa turnê (porque basicamente eu estava lançando livro nas mesmas cidades). Os shows foram todos IGUAIS, em piloto automático, sem tesão nenhum. 

Bjork em São Paulo (1997)
O primeiro show dela, no Freejazz, não tinha banda, era um programador e alguns músicos convidados. Uma coisa live P.A. meio tosca...

La Toya Jackson em São Paulo (1994)
Esse só não foi uma decepção tão grande porque eu não esperava mesmo grande coisa. O show da irmâ maldita de Michael tinha ela, dois bailarinos e só. Não tinha UM músico no palco e era INTEIRO em playback. Tosco até o osso. Não vou nem contar que acabei batendo uns papos com a boneca, porque não merece... Provavelmente é o show mais bagaceiro que vi. 

Madonna em São Paulo (1993)
Tá, sei que vou receber pedradas. Mas Madonna é tosca, era tosca, sempre foi tosca. Não canta, não dança, faz aqueles shows cafona com bailarinos... Imagina isso nos anos 90, num show 90% playback. Não me convenceu nem como adolescente. 

Lady Gaga em Helsinque (2010)
Eu não conhecia Lady Gaga direito. Tantos amigos falavam, que fui conferir quando estava em Helsinque - era mais fácil, mais barato, fiquei mais perto do palco (isso porque comprei minutos antes do show). Esperava uma cantora mais alternativa, achei cafona como Madonna. Esses shows de dançarinos. Ela canta, ok, mas voz chata para caralho. Chato. 

Siouxsie and the Banshees em Londres (2002)
Além do lindo show de 95, fui nesse em 2002, em que Siouxsie estava mega desafinada. Para piorar, assisti sentado, de longe, não combinava com o setlist punk. Broxante. Saiu em DVD, BTW.

Antti Tuisku em Helsinque (2010)
Também não foi grande decepção porque não sabia o que esperar. Antti Tuisku é uma espécie de Rick Martin finlandês. Eu estava passando na frente de uma boate, vi uma fila de adolescentes, perguntei o que era e resolvi conferir. É tosco, mas até que divertido. 

Alceu Valença em São Paulo (1983?)
Provavelmente este é o primeiro show a que fui. Eu adorava (sei lá por que) os discos do Alceu Valença quando era bem pequeno. Minha mãe me levou a um show no Ginásio do Ibirapuera, eu devia ter uns seis anos, mas ele não cantou direitinho como estava no disco, e ainda tinha uma coisa (precursora) de stand up. Sei lá. Não deu certo para o pequeno Santiaguinho. 

Marilyn Manson em São Paulo (1997)
Eu era bem fã de Marilyn Manson. O show não foi péssimo, mas tenho a impressão de que eles são melhores em estúdio mesmo. Compensou que acabei conhecendo a banda mais tarde, no próprio quarto de hotel. Mas isso é outra história...

E as bandas que mais queria ver ainda... Algumas impossíveis: 

Blondie
Eles ainda fazem shows. Mas Debbie está tipo com... 70 anos (sério). 
Eurythmics
Fazem shows raramente. Annie solo também servia, mas também não tem feito turnê. E tá meio velha chata engajada. 
Catherine Ringer
Essa ainda tá em forma e daria para rolar num esquema de Sesc. Ou então numa viagem à França. 
Sinéad O’Connor
Também não está no auge. Mas acho que daria para rolar. 
Royksopp
Apesar de ser dos meus grupos favoritos, não são exatamente uma banda, o show é meio uma discotecagem, então não me empolgo tanto. Mas iria, claro. 
Marion
Eles vêm e vão. No Brasil certamente seria impossível. 
Grace Jones
Ela também tem sei lá quantos anos... mas é negra, então não conta. Acho que daria para rolar. Em 2002, fui num festival em Londres em que ela iria cantar, mas tive de ir embora antes, para ir trabalhar. 
Kwan
Das minhas favoritas. Mas visto que é uma banda finlandesa que não existe mais, vai ser difícil...
Lori Carson
Nem nos Estados Unidos ela é conhecida e faz show direito. Mas queria...

Rocio Jurado
Visto que ela está morta....


03/04/2014

TRAILER




Trailer de BIOFOBIA! Espalhe ;)

Talento, voz, rosto, tudo murcha com o tempo. A natureza é madrasta e, para um roqueiro de meia-idade que já viveu todos os excessos de sua geração, a natureza só existe como ameaça, inimiga, perversa. Isolado numa casa de campo, após o suicídio da mãe, André enfrentará suas frustrações e medos internos, enquanto o mato cresce lá fora e o solo espera por seu sangue.


A crise existencial do protagonista, sua relação com a irmã, com a ex-namorada e com a mãe morta desenrolam uma série de questões sobre arte, mercado e permanência, com um humor negro provocativo típico do autor. BIOFOBIA é a volta de Santiago Nazarian ao thriller, seu primeiro romance adulto em cinco anos, flertando com o terror numa narrativa tão literária quanto cinematográfica.

TRAILER 1
Ficha Técnica:
Direção: Nicolas Graves
Roteiro: Santiago Nazarian e Murilo de Oliveira
Com: Andrea del Fuego 

Thiago Pethit 
Lourenço Mutarelli
Valentina Nazarian
Marcelino Freire 
Murilo de Oliveira 
e Cléo De Páris
Trilha Sonora: Felappi
Edição: Nicolas Graves
Produção: Santiago Nazarian
Produção Executiva: Editora Record



Gravações. 


O trailer teve pré-estreia exclusiva ontem, no Vírgula, com uma entrevista bem bacana que você pode ver aqui: 

http://virgula.uol.com.br/diversao/literatura/nao-ha-espaco-para-literatura-pop-no-brasil-diz-santiago-nazarian-que-lanca-novo-livro


O jornal literário Rascunho publicou um bom trecho. Já dá para ter uma boa ideia do tom do livro, de como começa. Aqui:  

http://rascunho.gazetadopovo.com.br/biofobia/


O livro está indo para o forno, deve sair final do mês. Lançamento em São Paulo dia 10 de maio. Esta semana recebi a prova, reli o livro inteiro. Estou bem satisfeito. Ficou com 240 páginas. 


Agora é controlar minha própria ansiedade, porque em literatura nada muda da noite para o dia. É essa batalha incansável de continuar fazendo por prazer e depois tentar colher o que merece. Os frutos podem ser amargos, mas o amargo também tem seu sabor.



O livro (falso) que foi usado nas gravações. Só falta o recheio. 





26/03/2014

RUFANDO TAMBORES


Minha querida agente Nicole Witt é uma das três finalistas a melhor agente literária internacional na Feira de Londres. Os indicados aqui:

http://www.londonbookfair.co.uk/en/news-and-media/press/Press-Releases/INTERNATIONAL-BOOK-INDUSTRY-EXCELLENCE-AWARDS-2014-SHORTLISTS-ANNOUNCED-US-AND-INDIA-LEAD-THE-SHORTLISTS-/

Ela estará na feira com meu livro novo, que inclusive é dedicado a ela, e já tem sua apresentação em inglês no catálogo para a feira:

In Santiago Nazarian’s new novel Biofobia (“Biophobia”), a man is confronted with rampant nature, both within and outside of himself. André was once a rock star, but has lost everything: fame, money, love. When his mother dies, he returns to her house in the wilderness where family and friends take their pick of her earthly goods, leaving André alone in an empty house. André can hardly stand the increasingly weird situation. In the house, a thick branch crashes against the window, as if invading the place. Tap water begins to taste strange. Reality and imagination become indistinguishable, and when André’s nice, boring sister returns, André has disappeared. Or has he become one with the jungle? Using very intense language and much suspense and black humour, Nazarian takes the reader deep into the mind of his protagonist, asking what a man’s existence is made of.

Aqui no Brasil, o livro começa a ser vendido no final de abril. O lançamento sera dia 10 de maio (sábado). Em breve coloco os detalhes aqui.






"Prepare-se para o pior."


Já gravamos o book trailer, que deve ir ao ar semana que vem. Aguarde.


E na edição deste mês da revista Joyce Pascowitch tem uma entrevista bem bacana comigo na última página, aqui:




21/03/2014

DIAS PERFEITOS


Já estava na hora de a Geração Dez mostrar seu valor. 


O começo do século foi um período especialmente renovador para a literatura brasileira. Impulsionada pela internet e o facilitamento da autopublicação, uma nova geração de escritores conquistou um espaço (de mídia, de publicação) inédito no cenário literário brasileiro. As grandes editoras começaram a investir nos novos de uma maneira nunca antes vista. Proliferam-se os eventos literários e muitos alcançaram grande estirpe e projeção (vide Flip, Fliporto, Forum das Letras de Ouro Preto).

Uma década depois, muitos desses autores permaneceram, mas o furor esfriou consideravelmente. As grandes editoras perceberam que os "jovenzinhos" não vendiam tanto assim e muitas retornaram as atenções aos estrangeiros (caso, por exemplo, da Planeta, que no começo dos 2000 investiu pesadamente em novos autores, como eu, Cuenca, Terron, Clarah, Plosk e tantos outros). O "hype" sobre os novos escritores também diminuiu, ser escritor não é a bola da vez - eu diria que a "bola" acompanha o desenvolvimento da internet, que naquela época era eminentemente escrita e agora se baseia nos vídeos, fazendo o passe para os novos cineastas (vide essa geração de Esmir Filho, Daniel Ribeiro, Marco Dutra, Charlie Braun, Rafael Primot e tantos outros que gratamente renovam o cenário cinematográfico do país). 

 Por tudo isso, tem sido difícil identificar um volume considerável de nomes de peso na novíssima literatura brasileira. Sempre há gente publicando seu primeiro livro mas, sem sarcasmos, mantenho um olhar especial para os jovens autores, acreditando que tenham um ímpeto transformador maior. Os senhores escritores, mesmo aqueles que estão estreando hoje, tendem a reproduzir uma literatura já consolidada, para o bem ou para o mal. 

Nesse contexto surgiu Raphael Montes, um jovenzinho de 23 anos que já está lançando seu segundo romance pela Companhia das Letras, com elogios entusiasmados do (autor policial americano) Scott Turow na própria capa. 

Finalista do prêmio Benvirá, publicou "Suicidas"em 2012, um romanção de trama policial que impressionou pelo fôlego. Ele já me escrevia como leitor e fui conferir a publicação. Escrevi sobre, aqui: http://santiagonazarian.blogspot.com.br/2012/09/romance-matador-nove-universitarios-se.html
Ficamos amigos e há alguns meses ele me mandou os originais de Dias Perfeitos, que acaba de ser lançado. 

Raphael reafirma seu talento para a trama policial, com enredo muito bem estruturado. O romance narra o relacionamento doentio de Téo - um estudante de medicina - por Clarice, uma aspirante a roteirista. A paixão inicialmente platônica se desenrola em sequestro e uma consequente síndrome de estocolmo esquizofrênica entre os dois. Em essência um road book fluminense, o "casal" passa por pousadas, praias e cenários diversos do estado do Rio, que carimbam a brasilidade do romance policial. 

O grande feito de Raphael é tão mercadológico quanto literário. Dias Perfeitos se encaixa num vácuo essencial da literatura brasileira: é ao mesmo tempo comercial e consistente; está longe ser alta literatura acadêmica, mas também não resvala nos clichês e na descartabilidade da mera literatura de entretenimento. Não é à toa que Companhia das Letras comprou o passe do rapaz e está investindo numa tiragem inicial de dez mil cópias (bem acima da média). E apesar do tema e da história, que flerta com a insanidade, o texto parece se colocar ao lado do leitor, jamais soando agressivo ou ofensivo. Talvez seja essa minha maior ressalva pessoal com o romance; eu torcia para que a coisa descambasse para o torture porn (o que certamente limitaria seu alcance); longe disso, Dias Perfeitos é até bem comedido sexualmente (considerando a premissa) e não deve incomodar o leitor médio.

Dias Perfeitos é uma leitura prazerosa, inteligente e com identidade muito própria. Abrindo portas para a "Geração Dez" (e para todos que estão aí escrevendo), Raphael Montes carrega a promessa de uma literatura brasileira de qualidade que pode finalmente ser comercialmente competitiva. Ganhamos todos com isso.  


 O jovem prodígio e o tio trevoso. 


18/03/2014

ALTOS VÔOS E QUEDAS LIVRES

Resenha minha, na Folha do último final de semana, para o livro de Julian Barnes. 

É fácil para um autor mundialmente consagrado, com mais de 30 anos de carreira e uma dezena de prêmios, tornar-se autoindulgente.
As pouco mais de 120 páginas de "Altos Voos e Quedas Livres" passam inicialmente essa impressão; uma prosa preguiçosa sobre balonismo, de um autor com fôlego de final de carreira.
Entretanto, o leitor que não for dominado pela própria preguiça pode logo notar que há algo além na obra mais recente de Julian Barnes, uma curiosa mistura de ensaios, crônicas e memórias, que ao final gera algo próximo de um pequeno grande romance.
"Você junta duas coisas que nunca foram juntadas antes. E o mundo se transforma", coloca ele no parágrafo inicial. E o livro se desenrola sobre isso: balões e paixões, um como alegoria do outro.
Dividido em três partes, começa com relatos sobre balonistas do século 19 na Inglaterra e na França; a paixão romântica por voar ao sopro do vento, já ameaçada pelas iminentes máquinas tripuladas "mais pesadas do que o ar."
Essa alegoria ganha mais fôlego na segunda parte, que se concentra no (fictício) romance da atriz francesa Sarah Bernhardt com o coronel inglês Fred Burnaby, dois balonistas que pareciam ser levados por ventos distintos.
"Animais rasteiros, às vezes chegamos tão longe quanto os deuses. Alguns voam por meio da arte, outros da religião; a maioria do amor. Mas, quando voamos, podemos cair. Existem poucos pousos suaves. Podemos nos ver batendo no chão com violência, arrastados na direção de uma estrada de ferro estrangeira. Toda história de amor é uma história de sofrimento em potencial."
Isso leva à terceira parte do livro, em que Barnes assume o tom confessional e discorre sobre o luto pela morte da mulher, com quem foi casado por 30 anos.
Então, os dois terços iniciais se justificam como uma delicada introdução ao cenário interno do autor. Triste, densa, mas sem nunca perder a leveza, a obra se revela um voo ligeiro e inesquecível.

13/03/2014

PASSADO NEGRO

Eu, um adolescente exemplar. 


Terminei a madrugada ontem assistindo a Bastard Art, um documentário de uma hora e meia sobre a obscura banda gótica (se é que isso não é pleonasmo) Sex Gang Children, uma das pioneiras do movimento na Inglaterra. Tive lindos flashbacks de um período negro na minha vida, que em parte foi um período de ouro. 

Ser gótico no Brasil não faz muito sentido, mas faz mais sentido. As roupas pretas, maquiagem pesada, pessimismo e melancolia parecem sublinhar melhor por aqui o enfoque de contestação, sociopatia. No final da minha adolescência, no final dos anos 90, eu me aproximei bem do movimento, frequentando os clubes do centro e da periferia, fugindo dos carecas, raspando zero a sobrancelha e adotando todo tipo de visual discutível. 


Sobrancelha zero, com Fabbie, minha namorada na época, que hoje é uma linda, rica e poderosa empresária do meio musical. 

Eu era tecladista de uma banda de glam rock - Viva Violet - chegamos a fazer show no Retrô (na Santa Cecília), mas era todo mundo muito, muito ruim. Eu escrevia poemas, contos e fazia fanzines (que espero que estejam perdidos para sempre).Nessa época também fiz curtas na faculdade de comunicação. Foi o período que pratiquei "body art", mais como experimentação estética do que qualquer coisa. Um trabalho de fotos de auto-mutilação que fiz no centro de São Paulo atraiu atenção e gravaram um documentário comigo. Fiquei meio conhecido como "o menino que se corta". Escrevi/dirigi e atuei no curta Ame o Garoto que Segura a Faca, uma tosqueira tremenda, mas com uma fotografia e edição bacanas (de colegas de faculdade). É um passado negro, mas não renego. Ficaram boas lembranças, algumas cicatrizes... os vídeos em si eu espero que tenham sido perdidos para sempre também. 

  
Still de Ame o Garoto que Segura a Faca. É - eu sou essa espécie de Drag Marilyn Manson genérica - e isso é tudo o que vocês vão ver. 

Nessa época a internet ainda engatinhava, então para conhecer gente com gosto parecido, para ouvir as bandas era preciso recorrer às lojas de disco no centro, na Galeria, na Indie (loja na Pedroso de Moraes). Ainda tenho aqui uma porrada daquelas coletâneas terríveis da Cleopatra (gravadora gótica independente americana), através das quais conheci o Sex Gang Children (e acho que só isso. Não lembro de mais nenhuma banda desse selo que eu ainda escute). Também ouvia muito Bauhaus, Siouxsie and the Banshees, London After Midnight, Silverblood, Tetine (que era gótico), Einsturzende Neubauten, Marilyn Manson, muitas das quais pude ver ao vivo com o passar dos anos. 

Siouxsie assisti no Brasil em 95 (Olympia) e em Londres em 2002. O show do Brasil foi bem mais legal.

Vi o Peter Murphy, do Bauhaus, duas vezes aqui em São Paulo. O show do ano passado, só com sucessos da banda, foi inesquecível. 

Cheguei a sair para beber com amigos e o Einsturzende Neubauten antes do show que eles fizeram aqui no Sesc. O baixista da banda chegou (atrasado) com a gente ao show. 

E tem a história clássica da noite que passei num quarto de hotel com Marilyn Manson, banda, alguns amigos e um punhado de prostitutas, em 97. 

Sex Gang Children eu consegui assistir em 2002, em Londres. Lembro que cheguei bem cedinho (porque achei que estaria lotado; não havia ninguém) e encontrei o próprio vocalista, Andi, no banheiro. Me apresentei como fã brasileiro e ele começou a falar de futebol. Consegui um disco autografado e o empresário ainda perguntou se eu queria trabalhar de roadie para a banda (assim, meio na brodagem, com uma ajudinha de custo...). Eu já tinha um emprego razoável de barman. 

O show foi absurdo - principalmente porque assisti pastilhado; na época fazia tudo pastilhado (ecstasy, isso). A banda só tocou músicas novas (do excelente disco que lançaram em 2002, Bastard Art), depois voltaram para o bis com Andi anunciando: "Vocês foram muito pacientes. Este não é o bis, é a segunda parte do show!" Daí tocaram todos os "sucessos", com direito a Andi cantando "Sebastiane" no meio da plateia (de meia dúzia de pessoas). 

Esse show foi lançado oficialmente pela banda, num DVD de filmagem bem amadora. Para mim, vale como lembrança afetiva. E eu até posso ser avistado rapidinho. 

(Recentemente eles lançaram um novo álbum de estúdio, Viva Vigilante, que estou escutando agora e está me parecendo bem divertido.) 

Essas bandas, essas histórias é que me dão força para acreditar que o importante é fazer o que se acredita, que o sucesso é discutível, que você pode ser um artista obscuro de porão, mas ainda fazer parte da história, mudar a história... ao menos de um adolescente perdido do outro lado do oceano. 

Para quem está chegando agora, o som do Sex Gang é uma mistura de punk, gótico e cabaré, com vocais esganiçados e letras sofisticadas. Escuta só uma das músicas mais lindas deles: 

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E para quem se interessou, o documentário inteiro sobre a banda está aqui:

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 19, com corpinho de defunto. 



05/03/2014

OLHE PARA MIM

Resenha minha publicada na Folha desse final de semana. 

Linda, loira, influente e premiada, Jennifer Egan parece ser a encarnação perfeita da escritora norte-americana contemporânea de sucesso. Suas obras refletem isso, invariavelmente trazendo uma visão crítica do mundo dos ricos e famosos, como em "A Visita Cruel do Tempo", ganhador do Pulitzer.

"Olhe para Mim" é um romance anterior, de 2001, mas que já habitava esse universo e trazia uma estrutura semelhante, alternando o foco narrativo entre diversos personagens.

O foco principal (e mais interessante) desse está em Charlotte, uma modelo decadente que sofre um acidente de carro e tem seu rosto reconstituído. Ainda bela, mas irreconhecível, tem de recomeçar na carreira aos 35 anos de idade, passando por toda uma sordidez que ela já não suporta mais.

A premissa é apetitosa e gera momentos cruéis, que carregam a maior bandeira do livro, de crítica ao mundo das aparências.

A outra metade do livro é dividida entre uma série de personagens relacionados ao passado de Charlotte, que nem sempre se desenvolvem e só pretendem cumprir a função de trazer "pessoas comuns" ao leitor, formando uma prosa virtuosa e esquizofrênica. Liberta dessa tendência macro-narrativa, Egan poderia gerar uma série de contos e novelas de impacto mais certeiro.

A escolha do que se critica já revela ao que se dá importância. E Egan parece estar se firmando como uma crítica do banal. Habilidosa, inteligente e eficiente, segue uma sólida tradição americana, com um texto estruturado com a maestria de quem fez o dever de casa, mas que pessoalmente não tem muito o que dizer.
Uma espécie de Brett Easton Ellis sem lasers, seu olhar é antenado e por vezes visionário —o livro é de 2001 e já antecipava várias correntes atuais dos reality shows. Ela vê o que está aparente, mas não traz um universo novo.

Se a intenção é ter uma ótima previsão crítica sobre os tempos atuais, ponto para ela. Se a intenção é mergulhar no universo próprio de um autor, olhe para outro lado. "Olhe para Mim" é alta literatura artificial a serviço da superficialidade.

Avaliação: Ruim. 

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 Tem sido difícil atualizar o blog com a concorrência de todas as outras redes sociais. Eu acabo usando como um apanhado de momentos especia...