29/06/2023

5 conselhos para o escritor iniciante


(Não é indireta/shade pra ninguém específico, é um monte de coisas que observo há tempos, lembretes para mim mesmo, muita coisa que eu mesmo já fiz nesses 20 anos de carreira, que às vezes ainda não resisto, mas de que não me orgulho...)
 
1. As redes sociais estão aí para você divulgar seu livro e seus leitores saberem do que você está fazendo. Quem quiser saber que te siga. Então não é preciso mandar mensagens privadas ou emails contando tudo o que você está fazendo, o que disseram sobre seu livro, pedindo para as pessoas comprarem. Reserve isso a uma mensagem pessoal ou outra, para convidar para um lançamento ou algo assim. Da mesma forma, JAMAIS marque outros escritores numa publicação sobre seu livro, a não ser que eles tenham trabalhado ativamente nele.
 
2. Mensagens privadas de leitores deveriam permanecer privadas. Se o leitor te manda uma DM elogiando o seu livro, ele quer que só você saiba. Se ele quisesse tornar isso público, ele postaria nas redes dele (e ele DEVERIA postar nas redes dele, se ele quer ajudar o autor).
 
3. Direitos vendidos para cinema/TV não significam que “MEU LIVRO VAI VIRAR FILME!” (Sempre que leio alguém postar isso abro um sorrisinho melancólico: “Não sabe de nada, inocente”. Já vendi tantos livros, tantas vezes, já vi tantos amigos vendendo – às vezes por uma boa grana, às vezes só com promessas -, mas para o filme ser produzido mesmo é ooooutra batalha.)
 
4. Seu livro nunca vai ser tão importante para NINGUÉM quanto é para você, nem para a editora. Então é VOCÊ que tem que fazer o máximo e esperar o mínimo (é difícil, eu sei, sei bem...).
 
5. SORRIA nas fotos de divulgação, ou vai acabar igual a mim... (agora é tarde demais para mim, mas você ainda pode sorrir, meu jovem...)

12/06/2023

LIVRO NOVO



Meu Veado está saindo do forno...

Recebi aqui os primeiros exemplares de Veado Assassino, meu novo livro pela Companhia das Letras. É uma novela especulativa, de um adolescente não binário que mata um presidente fascista...

Sempre é emocionante receber o livro físico, parece que minhas ideias ocupam um lugar no mundo. E bem ou mal eu sempre consegui viabilizar as ideias mais esdrúxulas, pelas maiores editoras do país. O Veado segue nessa linha -  depois de lançar um livro "maduro", finalista de prêmios, como o Fé no Inferno, acho que era importante mostrar que ainda posso ser transgressor, fazer algo diferente e ousado.

É um livro muito minimalista, escrevi rápido, mostrei para pouca gente, mas não posso deixar de agradecer a quem ajudou. Começando pela Taliyah Dias, que foi muito da inspiração e fez a primeira leitura comigo. O Taiya Löcherbach, amigo catarinense que fez a revisão do "sotaque" do protagonista (e também foi fotógrafo da capa fodona do BIOFOBIA, anos atrás). A Luara França, que começou a edição do livro na Editora e o Antonio Xerxenesky, que assumiu o processo na reta final. A Andrea del Fuego, que deu toda a força e um "blurb" bacana para a quarta capa. E o Renato Parada, que fez a foto de orelha. 

Vou começar a vender autografado pelas minhas redes (me segue lá, para saber mais. No instagram: @nazarians). O livro já está em pré venda há um mês, já está impresso, mas só sai em 27 de julho - confesso que não entendo muito essa estratégia da editora, mas espero que faça sentido. Eu publico regularmente, sempre a cada 2, 3 anos, mas cada vez encontro um cenário novo, uma lógica de divulgaçao nova. 

Mando de novo a sinopse: 

Um presidente de extrema direita é morto por um adolescente não binário. Por meio de uma longa entrevista, conhecemos a história do jovem e as decisões que o levaram a cometer o ato. Seria ele uma vítima, um terrorista ou um violento incel — um celibatário involuntário? Numa narrativa estruturada apenas em diálogos, Santiago Nazarian apresenta o retrato de uma geração tão engajada quanto individualista, que sabe o que precisa combater, mas não o que defender. Questões raciais, sexuais e de gênero são colocadas numa balança sempre desequilibrada, e a visão parcial de um personagem pode revelar mais do que suas palavras. Com o cinismo e o sarcasmo típicos de Nazarian, Veado assassino é uma louca novela especulativa, divertida e reflexiva.

 

10/06/2023

ORGULHO



Estamos no mês, na semana, na véspera da Parada do Orgulho LGBTQIAPN+, e sempre me perguntei de onde vem essa palavra orgulho? Toda sexualidade em si não é uma fraqueza? Um determinismo biológico? Mais forte não é aquele que não tem vontades?

Sempre penso o quanto a homossexualidade me condenou, o quanto me salvou...

Tenho uma origem privilegiada. Sou filho e irmão de artistas. Nasci e cresci numa bolha paulistana em que a homossexualidade é (ou deveria ser) tida como natural. A vida toda sofri muito menos preconceito do que quase qualquer outro homossexual da minha geração. Mas não deixei de sofrer. Mesmo em colégios alternativos, particulares, havia o bullying. Mesmo com uma mãe compreensiva, escutei o “pode ser gay, só não pode ser afetado.” E o maior choque de realidade que tive na vida, quanto a minha não-aceitação no mundo, foi a eleição de um presidente declaradamente homofóbico.

Sempre penso o quanto a homossexualidade prejudicou, o quanto beneficiou minha carreira. O meio literário não é especialmente homofóbico – você pode ser gay... só não pode ser afetado. Vi recentemente uma mesa com o João Silvério Trevisan e pensei muito sobre isso. Meu discurso, os olhos pintados (os chifrinhos de veado), toda minha postura mais performática com certeza fecharam algumas portas, abriram outras. Considero o saldo mais positivo em momentos mais positivos, mais negativo em momentos mais negativos da minha carreira.

Mas hoje sendo um homem branco, cis, dos Jardins, vejo também o quanto a homossexualidade me salvou... O rótulo que tenho de “maldito” vem muito disso, não só da homossexualidade em si, mas de todas as escolhas e caminhos a que a homossexualidade me levou. Eu poderia ter crescido como um playboyzinho, mas foi a homossexualidade que me levou a experimentar coisas diferentes, me relacionar com pessoas diferentes, ampliar muito meus horizontes.

A sigla LGBTQIAPN+ já está virando meio piada (e acho que deve ser resolvida em breve), mas compreendo a intenção. Cada sexualidade é única, é difícil se colocar numa caixinha. Eu mesmo vivi um tempo como bissexual, porque não conseguia me encaixar na “homossexualidade oficial”; a hiper masculinidade não me atrai em nada (não consigo entender, por exemplo, qual é o apelo de um Henry Cavill, tenho até certo asco). Minha atração sempre foi por meninos mais femininos, andróginos; nos últimos 4 anos, só me relacionei com meninas trans – não tanto por um fetiche, mas por um traço geracional: os andróginos estão todos transicionando.

Então acho que, mais do que orgulho, estamos num momento de renovar as esperanças. O pior já passou (espero), as novas gerações já estão vindo desbloqueadas de fábrica. Minha sobrinha de onze anos é fã de Heartstopper, teve uma professora trans e aceita isso como natural.

Sempre gosto de lembrar de um episódio que aconteceu quando ela tinha uns seis anos, eu estava casado há 5 com um homem, era o tio provedor, com casa na praia, e me ocorreu perguntar à minha irmã se minha sobrinha não estranhava. “Não, porque ela já nasceu num mundo onde isso é natural, tem os amigos dos pais casais de homens, de mulheres. Ela ainda vai descobrir que isso é uma questão.”

Os 4 anos de governo bolsonaro devem ter ensinado isso a ela. Mas também devem tê-la tornado uma aliada mais forte.

16/05/2023

FESTA LITERÁRIA DE MIM MESMO




Fazia tempo que não tinha dias tão gostosos.

Tirei 5 dias em Paraty, para comemorar meu aniversário. Fazia dois anos que não ia para praia, que não viajava a lazer. Por indicação da querida Adriane Hagedorn fiquei na Pousada do Príncipe, uma delicinha, perto de tudo, não exatamente barata, mas valeu de presente pra mim mesmo.

Biscoitando na piscina. 

Paraty continua linda (apesar da energia pesada). Escolhi lá porque tinha lido sobre o tempo, frente fria e chuva, e achei que se não rolasse praia ao menos tinha a cidade para aproveitar, a vida cultural e gastronômica. Rolou de tudo (ou quase...).

A cidade continua linda. 

Fiz as coisas que eu mais gostava. Deu praia, piscina, fui ao teatro, fiz longas caminhadas, comi bem, bebi pouco. No dia do meu aniversário, peguei uma escuna que parava em praias desertas e numa ilha cheia de peixes, para mergulhar. (Já fiz até curso de mergulho com cilindro, e os peixes do meu aniversário tavam uma beleza.)


O barco. 

(O que irrita muito em Paraty é a necessidade de colocarem música constante, alta, de mau gosto, nas praias, nos barcos, não dá para curtir um momento bucólico de silêncio. No barco, achei que podiam ao menos cantar um “parabéns a você”; avisei bem aos guias que era meu aniversário – queria saber o que daria na hora do “é-pique-é-pique-é-pique é-big-é-big-é-big” com paulistas, fluminenses e estrangeiros misturados; queria passar pelo constrangimento de estranhos me desejando felicidades, mas só ganhei um drinque.)

Praia deserta. 

Toda a viagem-feriado-aniversário foi absolutamente sozinha, feriado de mim mesmo. Poderia ter sido melhor com uma companhia, mas também poderia ter sido BEM pior, então melhor assim.

Turismo gótico-bucólico

Já tinha ficado quase um mês em Paraty, exatamente vinte anos atrás, nas preparações da primeira FLIP, onde fui um dos autores convidados. Depois, voltei uma vez num feriado com o amigo Marcelino, em 2010, e outra na Flip de 2014, a convite do Sesc. Acho FLIP sempre muito lotada, cara, carão, uma festa para a qual não fui (mais) convidado, então evito. 

Sem FLIP, convidei meus próprios autores, que estavam esperando há tempos aqui em casa. Tem sido difícil ler por prazer, porque felizmente tenho feito muita leitura crítica, participado do júri de alguns prêmios, daí tem os amigos que quero ler, os que não quero mas devo, os que quero, mas não são amigos...

Consegui matar dois. O excelente Mike Sullivan lançou “Atire a Primeira Pedra”, sintomático para ler no dia das mães. A novela analisa um matricídio brutal através de dois personagens: o assassino e um psiquiatra forense que examina o caso. Tem muito a ver com meu próximo livro, e a escrita do Mike é sempre linda, poética e melancólica. Um dos meus autores preferidos em atividade.

Mike e eu na piscina. 

Outra boa surpresa que consegui ler foi meu aluno Túlio Dias – que participou de duas oficinas minhas e lançou seu primeiro romance: “O Almoço de Natal”. Com uma observação sagaz e ácida dos tempos atuais, Túlio faz um romance-crônica sobre os fatídicos encontros de família no Natal, em tempos bolsonaristas. Bem divertido.

Levei outras coisas que não consegui ler, e já tenho uma caralhada na fila, muito trabalho. (Cheguei em casa e tava me esperando na portaria o novo do grande Fabrício Corsaletti.) Também tenho trabalhado muito como ghost, o que tem me salvado as contas.

Adoro café da manhã de hotel. 


As coisas melhoraram bem – e alguns podem dizer: “Viu, e você só reclama, não adianta reclamar” – mas as coisas só melhoraram PORQUE eu reclamei. Trabalho sozinho, em casa, as redes são meu único contato de trabalho. A exposição de tempos difíceis foi o que fez amigos e colegas queridos me indicarem para Jobs que salvaram meus dias. Que continue assim...

11/05/2023

VEADO ASSASSINO




Um presidente de extrema direita é morto por um adolescente não binário. Por meio de uma longa entrevista, conhecemos a história do jovem e as decisões que o levaram a cometer o ato. Seria ele uma vítima, um terrorista ou um violento incel — um celibatário involuntário? Numa narrativa estruturada apenas em diálogos, Santiago Nazarian apresenta o retrato de uma geração tão engajada quanto individualista, que sabe o que precisa combater, mas não o que defender. Questões raciais, sexuais e de gênero são colocadas numa balança sempre desequilibrada, e a visão parcial de um personagem pode revelar mais do que suas palavras. Com o cinismo e o sarcasmo típicos de Nazarian, Veado assassino é uma louca novela especulativa, divertida e reflexiva na mesma medida.

Já em pré-venda aqui: https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9786559215669/veado-assassino

05/05/2023

CALADA NOITE PRETA

 

Ontem foi dia de homenagear mais uma amiga querida que faleceu.

Vange Leonel morreu em 2014, outra vítima de câncer, ontem teria feito 60 anos, e os queridos Rodrigo de Araujo e Pedro Alexandre Sanches organizaram um ato solene em homenagem a ela na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Vange sempre foi uma militante política, ativista LGBTQIA+, natural que sua homenagem também passasse por isso.

Eu a conheci como a maioria, no início dos anos 90, início da minha adolescência, com a “Calada Noite Preta” trilha de novela da Globo. Era uma gótica que chegava ao poder, embora ela rejeitasse esse rótulo. (E até hoje, não houve nenhum hit gótico brasileiro maior do que esse). Depois a conheci pessoalmente como fã, nos tornamos amigos, colegas, quando eu comecei a publicar. Ela sempre foi uma querida.

Me chamaram para fazer um dos discursos de ontem, representando os escritores (acho que representei mais os góticos, mas tudo certo). Discorri um pouco sobre o papel dela, o papel de nós, artistas à margem – não por condições sociais, raciais, mas por escolhas estéticas, ideológicas próprias, talvez muito fruto da homossexualidade, sim, mas não só isso (porque o que não falta é artista-escritor-cantor gay integrado ao mainstream). Acho que é mais uma visão Lado B da vida, que nos amaldiçoa.

Comentei ontem como essa visão particular, alternativa, às vezes encontra confluência no mainstream – como foi a fase “Noite Preta” da Vange (como talvez tenha sido minha fase “Mastigando Humanos”, em que os emos estavam no poder) – mas que na maior parte do tempo estamos em paralelo, comendo pelas beiradas. E às vezes parece que tem que ser assim mesmo, e está tudo certo.

Como ontem, em que ficou claro o papel que a Vange teve e tem (não só como cantora, mas como ativista, escritora) e a porrada de gente bacana que ela tocou e influenciou. Estavam lá também os queridos Ivam Cabral, a Cilmara Bedaque, Bel Kowarick, Zé Pedro, Fernando Bonassi, Marisa Orth, Andre FischerCris Naumovs e mais uma caralhada... Ou “bucetada”, como bem disse a Marisa.

Essas coisas é que me inspiram e me fazem continuar. Meus heróis tão particulares. Talvez os ventos mudem e a gente volte a estar na onda, talvez não. Mas o importante é continuar fazendo o que a gente acredita, continuar produzindo e continuar sendo uma alternativa. 

24/04/2023

BALADA FINAL



Foi um final de semana de despedidas e homenagens.


A morte do Pomba foi um baque – simbólica de várias formas. Era um amigo querido que eu via pouco, presente em outras épocas importantes na minha vida. O convite para discotecar ontem em homenagem a ele trouxe essa nostalgia. Como eu contei, não discotecava havia mais de dez anos, e quase o mesmo tempo que eu não saía de balada, topei mesmo por ele, pra ajudar na arrecadação.

Mas o clima ontem estava nostálgico e afetuoso. Muitas homenagens, vários amigos e conhecidos das antigas. Eu estava longe de ser o único “tiozão” da balada. De todo modo, cheguei cedo, toquei cedo e fui embora cedo.

A discotecagem em si... foi ok. Toquei o que eu queria tocar (Suede, Placebo, Peter Murphy, Gerard Way, Röyksopp, Blondie, Horrors). Mas já foi um esforço encontrar coisas discotecáveis, manter a pista cheia foi sofrido (felizmente toquei bem cedo e não tinha essa obrigação, mas depois de uns 50 minutos entreguei a cabine).

Também fazia uns 6 meses que eu não bebia. E virei três doses de Jack Daniel’s. Mas até que foi suave, fiquei bem, acordei bem, acordei cedo. (O problema foi só na hora de pagar – já tô mega cegueta sem óculos, imagina no escuro, depois de beber, quase bloqueei meu cartão em três tentativas erradas. Mas se me lembro de tudo é que não tava tão mal...)

Como não dava para ser só festa... teve o velório. - Entendo a coisa simbólica, dos amigos e familiares se consolarem mutuamente, mas eu mesmo não tenho nenhum desejo quanto a isso; façam o que for mais fácil, joguem meu corpo no lixo, sempre digo. Também cheguei cedo, conversei bem com o irmão do Pomba... É tão estranho ter o corpo ali... Parece uma reunião com a pessoa dormindo do seu lado.... Eu não queria que as pessoas tivessem essa última imagem de mim, não.

(Mais do que no corpo, mais do que nas lembranças, vi o Pomba vivo... no irmão dele. Os traços, um jeito de falar... Sensação bem estranha, com o corpo logo ao lado...)

Agora sinto como se tivesse se encerrado um ciclo. Valeu. Foi uma pá de cal na minha vida baladeira. Não pretendo tocar mais, nem voltar às pistas. Não digo que nunca, que NUNCA mais, mas balada agora só quando VOCÊ morrer.

(Na foto, velhos amigos tiozinhos que continuam sempre presentes na minha vida: Humberto Luminati, Fabia Sartori Fuzeti e Daniel Ambooleg.)

22/04/2023

ANDRÉ POMBA



Com o Pomba, em 2002.


Tristeza imensa de saber do falecimento do Pomba, que estava lutando contra um câncer há mais de um ano.

No lançamento de Mastigando Humanos, em 2006


É um amigo de quase TRINTA ANOS, conheci lá por 1995, nos primórdios da Loca, antes mesmo de ele criar o Grind, uma festa icônica da noite gay paulistana.

Naquela época, a noite gay ainda era muito padrão, baseada nas drags, nas divas, um cenário no qual eu não me identificava em nada. Pomba veio do rock, do metal, teve banda, criou a revista Dynamite e trouxe todo esse cenário para a noite gay paulistana.

Com o querido Ambooleg, no final dos 90. 

Seus domingos na Loca foram, de longe, a festa em que eu mais fui na vida. Toquei várias vezes como DJ, peguei meio mundo, conheci vários namorados, fiz muitos amigos, cheirei meia tonelada de pó...

O Pomba estava lá, sempre simpático, sempre centrado, comandando a festa. Sempre tocava Suede pra mim (e sempre me ouvia reclamar quando tocava pop, Madonna, Ricky Martin), era amigo de todo mundo.

No lançamento de BIOFOBIA, em 2014

E não foi amizade só de balada. Lembro que eu ia lá na revista dele, nos anos 90, quando precisava escanear fotos. A gente sempre morou perto, fosse quando ele morava em Pinheiros, fosse quando ele mudou pra Frei Caneca. A gente fazia a mesma academia. Ele foi a TODOS os lançamentos dos meus livros. A última vez que o encontrei pessoalmente foi em 2021, quando levei um Fé no Inferno na casa dele. Ele é citado no livro, inclusive.

Em 2021

Depois que ele começou o tratamento, mandei mensagem para visitá-lo com minha namorada (que também era amiga dele), mas ele tava numa fase que não podia receber visitas. Ficou só o osso, depois parecia que tava melhorando, fez uma operação... A última vez que mandei mensagem pra ele foi no aniversário, agora em 10 de abril, ele visualizou, mandou coraçãozinho, mas mal respondeu, não sei o quanto estava mal...

Eu ia tocar amanhã numa festa pra arrecadar fundos pro tratamento dele. Agora não sei se vou, se vai rolar, se vai ter clima. Tudo muito triste. Tô revendo as fotos e as lembranças que tenho dele...

Pomba era um cara super do bem. Mas a vida é assim... Abraços a todos os amigos em comum, que com certeza também tão sentindo.

12/04/2023

LEITOR CRI-CRI



Mais um parecer/leitura crítica entregue. Tenho feito bastante.
Uma época eu fazia muito para editora, mas não é mesma coisa... Na leitura crítica para a editora, em geral só se preenche uma ficha apontando pontos positivos/negativos, público alvo, se recomenda a publicação ou não.


A leitura crítica para o autor é como uma conversa direta com ele, dá para marcar dúvidas, sugestões, comentários, elogios. É uma oportunidade de que a gente muitas vezes sente falta quando lê um livro (por prazer): "Por que ele terminou assim? Isso aqui tá mal explicado. 
Não entendi essa passagem... Isso aqui me lembrou o filme tal..."

Como autor, a gente raramente tem essa conversa com o leitor. Costumo dizer que autor não tem plateia, não tem aplauso (não ouve risadas). Como cada passagem, cada parágrafo vai ser recebido pelo leitor, a gente não tem a menor ideia.


(Teve só uma vez, quando a gente tava trabalhando na adaptação do BIOFOBIA pro cinema, que a gente leu o livro INTEIRO, em voz alta - eu, Marçal Aquino, Beto Brant, Renato Ciasca e uma garrafa de Jack Daniel's. Foi uma experiência única, eles rindo numa passagem aqui, falando "isso tá estranho" ali, elogiando pontos que pra mim não eram importantes...)


(Uma vez também o Evandro Affonso Ferreira me deu um presente do sebo dele: era um exemplar do meu Olívio - minha primeira publicação - todo anotado, rabiscado e comentado pelo Bernardo Carvalho, que fez uma resenha - bem elogiosa, por sinal - para a Trip. Tinha umas passagens marcadas com: "Péssimo!")


Mesmo quando o livro volta da leitura da Editora, geralmente não vem com tantas marcações quanto eu coloco. Editora raramente coloca elogios, por exemplo, só pontos problemáticos, porque Editora não deve sentir necessidade de agradar o autor nem mostrar serviço. Tantas dúvidas que EU mesmo tenho como autor, que nunca são sanadas pela Editora, eu tenho que resolver sozinho.


Eu mesmo nunca paguei leitura crítica, porque me acho autossuficiente, mas sou mais é POBRE... (ou mão de vaca, sou armênio, afinal); algumas vezes mandei livros para amigos, camaradas, como troca de favores, para uma leitura especializada. (Como o Heitor Loureiro, que me ajudou pra caralho na parte histórica do Fé no Inferno, ou o Carlos Henrique Schroeder que fez a leitura catarinense do Neve Negra.)


Livro bom dá mais trabalho de ter o que dizer, ter o que acrescentar (você foi pago para isso, afinal), até ter o que corrigir (porque faço uma pré-preparação de texto - já que estou lendo e comentando, não custa marcar erros, reescrever trechos, torna mais fácil também de se enxergar o que estou argumentando).


Um problema que tenho encontrado é a falta de opção de deixar os comentários anônimos - há umas semanas, uma agente me pediu para fazer anonimamente um parecer, mas o Word não dá a opção de deixar os comentários anônimos (ou dá? Se alguém souber como faz...). (Aliás, como o Word está precário, pelamor, cada vez pior. Encontro tantos problemas e limitações. E AINDA é a ferramenta de texto amplamente usada.) Mas se VOCÊ me pedir uma leitura crítica do seu livro obviamente não será anonimamente, eu FALO NA CARA!
Enquanto isso, a pilha de leituras por prazer/curiosidade continua aumentando aqui... Quero muito ler o novo do (lisztiano) Rafael Gallo, do Marcelo Nunes, do meu aluno Tulio Dias, o nazista do Samir Machado de Machado, comprei a biografia da Elke pelo Chico Felliti... E ainda tem as coisas que eu preciso ler/estudar para o PRÓXIMO livro.

Sim, ainda insisto...

(O romance novo - sobre incels e não binários - tá prontinho, com capa e tudo; parece que atrasou um pouco, mas não muito; espero ansioso; qualquer dia desses descubro que entrou em pré-venda pelo Daniel Dago.)

04/04/2023

INSPIRAÇÃO HOSPITALAR

 Após uma semana de internação, quatro dias de UTI, dona Elisa Nazarian enfim teve alta do hospital.

Nada resolvido. Ela está com o pulmão bem comprometido e ainda não sabem o que é. Eu resolvi que são os livros, é possível, é o mais interessante, mas os médicos cogitam de tudo – de travesseiro de penas de ganso a fezes de morcego e a nova formação do Saia Justa. Ela vai continuar fazendo exames, agora em casa.

Esses dias no hospital valeram pela Páscoa, Dia das Mães, Natal... Nunca vejo minha mãe tanto assim. Ela mora no interior, eu moro no interior de mim mesmo... (Ai, que cafona, eu sei, mas é verdade...) Agora, enquanto ela tinha overdose de antibióticos, eu tinha overdose de família. Encontrei todo mundo, minha mãe encontrou todo mundo, recebeu visita dos irmãos, amigas, editores; os filhos se revezaram dormindo lá. Eu pouco dormi, naquele sofá estranho, ar insalubre, equipamentos apitando e enfermeiros verificando minha ereção. Quando eu era criança e ia dormir fora de casa, sempre ligava tarde da noite, de madrugada, para minha mãe me buscar, coitada. Agora, dormindo com ela no hospital, não havia quem me salvasse...

Hospital faz a gente pensar em vida, em morte. Sempre achei que as pessoas têm um apego excessivo, acho que eu não tenho, mas sabe-se lá como seria se algo de fato acontecesse comigo. Minha mãe sempre disse que não queria viver muito – eu também não – mas ela está sempre querendo mais um pouco, só mais um pouquinho, só mais uma lauda...

Deve ser duro ver os filhos envelhecerem, a diferença de idade diminuindo... ela se tornando velhinha e eu perdendo meu viço. Minha mãe já viu um filho morrer. Dos seus maiores orgulhos é ter um filho escritor, mas eu já fui um escritor melhor.... ou mais amado. Agora, sua grande motivação para continuar é a neta Valentina: Só mais um pouquinho, só até ela entrar na adolescência, se formar na escola, na faculdade, ter alta do hospital...

Eu não tenho essa motivação. Se deixarei um legado é minha obra – e há muito que eu acho que mais atrapalho do que ajudo; meus livros não precisam de mim. Vocês vão me amar mais depois de morto. Como esqueleto estarei sempre sorrindo.

Como ainda insisto, ainda tenho que continuar respirando, pagar boletos, saldar dívidas, ajudar os amigos... Muita gente me ajudou nos últimos meses, de várias formas possíveis, e agora felizmente o trabalho melhorou bem. Vamos ver até quando.

(Resolvemos um problema, aparece outro. Deus não dá cobertor à cobra...)

Seguimos. Às vezes vale a pena continuar insistindo (na vida, na escrita). Às vezes a literatura (se) paga. A vida também. Pelo menos dei esse orgulho à minha mãe; pelo menos ainda não a envergonhei prestando concurso...

30/03/2023

O NOME DA ROSA



A literatura liberta, a literatura transforma, a literatura faz um mundo melhor...

Sempre combati esses chavões. Primeiro, porque acho que é esse o dever de um escritor. Segundo, porque sou malcriado. Cresci numa casa cheia de livros, e sei o quanto minha mãe abriu mão do conforto de seu berço por amor à arte. Eu também. Não pude escapar. E sempre me referi à literatura mais como uma maldição, uma maldição hereditária.

Costumo brincar que, se alguém tem toc e rinite, MORRE ao entrar no meu apartamento, por causa dos livros, da desordem, da "carga". E não é tão exagero. Quem não tem literatura desde o berço, não criou os anticorpos necessários, e muitos meninos frágeis sofreram ao dormir aqui... (Falava sobre isso na segunda-feira mesmo, numa entrevista para o Galeno Amorim.)
 
Ontem, minha mãe foi internada às pressas na UTI. Está com insuficiência pulmonar, não é covid, mas ainda não sabem o que é. Ela nunca fumou, nunca usou drogas, mora no meio do mato...

Comentei brincando no hospital que deveria ser os livros... O médico respondeu a sério que era possível. E listou as bactérias e fungos bibliófilos que poderiam provocar isso.
 
Saberemos depois da broncoscopia. Mas para mim já está decidido. São os livros, são os livros. É a maldição. Eu sempre digo.
 
(Dona Elisa passa bem, ainda está na UTI, mas não está entubada. Quer só ir embora logo pra casa, porque precisa entregar uma tradução...)

FLIRECÊ

Mais que colegas, friends.  Ainda tô chapado. A luz da Bahia é ofuscante – cegou meus olhos, queimou minha pele, transformou minha paulistan...