21/01/2016

NIGHT THOUGHTS

Já contei incansavelmente aqui como Suede é a banda mais importante da minha vida, formadora da minha adolescência, como já troquei ideias com eles e assisti a shows pelo mundo, Inglaterra, Rússia, Brasil. etc.

Agora eles lançam o sétimo álbum de estúdio - segundo desde a reunião da banda em 2010 - e a (minha) expectativa estava grande, pelas faixas ao vivo que pipocaram, resenhas entusiasmadas dos últimos dias e a ideia do disco em si. Foi pensado para ser um álbum conceitual, com faixas interligadas, que formam a trilha de um média metragem, encartado junto em DVD, sobre um casal suburbano em crise de DR.

A ideia do álbum conceitual é sedutora, e vai na contramão da tendência de se ouvir faixas soltas, em shuffle e playlists. (Mas se vanguardistas eletrônicos como Röyksopp anunciaram o fim do formato álbum - lançando The Inevitable End como uma despedida -, Bowie se despediu do mundo em grande estilo, com um álbum absurdamente conceitual, sobre sua morte.) Ainda que o conceito de Night Thoughts em si não me pareça grande coisa - uma crise conjugal de meia idade não seria  grande combustível para um disco de rock alternativo - é empolgante ver que se tornou um projeto mais ambicioso e "artístico" para a banda

Então vamos ao disco em si.

Night Thoughts já começa chutando a porta, anunciando o tom épico com When We Are Young. O primeiro acorde remete instantaneamente à trilha do filme "Tubarão", então entra a orquestra e em seguida a banda em si, mostrando que a coisa vai ser grandiosa. Impossível não comparar com "Introducing the Band", primeira faixa do Dog Man Star, em intenção, porém musicalmente lembra mais "Unsung", do último disco solo de Brett Anderson. E é igualmente linda. Eles souberam fisgar o ouvinte desde o começo.

Daí já emenda para Outsiders, primeiro single do disco, rockzinho pós-punk divertido, que lembra bem Placebo e, se não se destaca tanto isolado, funciona para dar uma aquecida.

Segue com No Tomorrow, outra das poucas mais "movimentadas" do disco, que também já foi divulgada aí como um pseudo-single, junto a "Like Kids", que tem uma pegada semelhante e, ao meu ver, são as piores faixas do álbum, com um falsete forçado de Brett (que, na verdade, está em quase todas as faixas) e uma urgência fake de fazer um hit.

Mas ouvindo na ordem, de "No Tomorrow" segue para Pale Snow, que estranhamente também já tinha sido soltada pela banda, embora no álbum funcione mais como um belo interlúdio, suavizando o clima para a faixa seguinte. É bonita.

I Don´t Know How to Reach You já tinha sido tocada bastante ao vivo pela banda e já era das minhas favoritas. A versão do disco não se sobressai ao que eles tocam nos shows, mas também não fica atrás. Aqui temos o melhor trabalho de guitarra de Richard Oakes, com um solo fodido logo após o primeiro refrão. Certamente é a espinha do disco, a faixa mais representativa, e a mais longa (com pouco mais de seis minutos).

What I´m Trying to Tell You é outra das minhas favoritas. Para mim poderia ser o melhor single do disco - um cruzamento de "Golden Gun" (um b-side deles que só eu gosto) com "Beautiful Ones" (incluindo um final de lalalás). Eu já tinha ouvido (e baixado) uma versão ao vivo, que talvez eu goste mais, porque tem guitarras mais definidas e pesadas, porém a pegada mais "pop" no álbum é bem bacana. E adoro a letra: I never make the best impressions. And I don´t have the means of expressions to explain my obsessions. É o tema que Brett Anderson já explorou a exaustão - "we are trash" - de ser um ser zoado, sem grandes qualidades, mas isso ser legal. ("Outsiders" é um pouco disso também... e quem quiser mais antigas "Trash", "Lazy", "Cheap", "Lowlife", "Refugees"... que mais?)

Vamos à minha terceira favorita, Tightrope, com a qual confesso que me decepcionei um pouco. É outra das que eles tocam já há um tempo, quase sempre só voz e violão, mas aqui tem um arranjo meio morno com a banda. Talvez eu só precise me acostumar - talvez eu estivesse esperando demais - mas não tem o tom grandioso que as versões acústicas prometiam. Também é uma faixa curta, com menos de quatro minutos. (Essa é das coisas que não entendo no Suede de hoje. Quer ser épico, mas tem medo de fazer faixas realmente longas.) De todo modo, é uma bela música. Espero que Brett consiga manter aquelas notas lá em cima para continuar cantando ao vivo.

Learning to Be era a única de que eu não tinha ouvido nada, nem trecho, nem ao vivo, não tinham soltado no Youtube, e me surpreendeu. É meio um interlúdio, mas ainda é uma bela música... meio creepy. Termina antes do que deveria, daí recomeça com um cântico de mulher, umas crianças, abrindo para...

Like Kids, de que já falei lá em cima. E que será a faixa que ficarei tentado a pular. (Falsa como a "Hit Me" do Bloodsports). Tudo bem, é perdoável. Se esse é o novo Dog Man Star, essa é "This Hollywood Life".

Aparentemente querendo se redimir, eles vão para I Can't Give Her What She Wants, que também já tinha escapado por aí ao vivo. Uma balada total Bloodsports ("What Are You Not Telling Me" é a mais imediata), que não é o melhor que eles têm a oferecer, mas não faz feio.

Emenda com When You Were Young que é outro interlúdio e uma breve reprise do tema de abertura. Funciona para reforçar essa unidade, que talvez precisasse de mais reforço. Night Thoughts é um disco conceitual, mas Bloodsports também tinha um conceito bem forte de "relações amorosas como uma questão bélica", desde o título até as letras, com "barreiras", "fronteiras", "sabotagens", "aviões caídos", "guerra fria" (essa última tirada de uma música que eles nunca lançaram, e que consegui gravar naquele show da Rússia- aliás, sintomático que eles tenham debutado muitas faixas que nunca viram a luz do dia naquele show da Rússia - e que por sorte, na época, eu estivesse morando ao lado, na Finlândia. Enfim, você encontra fácil online [Cold War] [Glavclub] ficam as dicas ;)

O álbum termina com The Furs and the Feathers.. que foi outra semi-decepção. Ouvi uma versão acústica dias atrás. Esperava algo tão glamuroso com esse título... Se esse é o novo Dog Man Star esperava ao menos uma nova "Still Life". Não é. É uma baladinha Bloodsports com orquestra, mas não muito grandiosa. Mas é bonitinha.


VEREDITO: É bem bom. Não é "o melhor disco do Suede" como alguns tem dito por aí. Não tem a consistência do Dog Man Star, me desculpe, não tem uma letra que chegue aos pés de "The Asphalt World", "New Generation". Não consegue ter o apelo pop de Coming Up. Mas se encaixa lindamente na discografia da banda. Não assisti ao DVD/filme ainda, nem estou ansioso, mas isso me pareceu mais uma ideia posterior, pela qual não me empolgo muito. O álbum funciona como álbum tão bem como (quase) qualquer álbum deles. As emendas são "emendas", as faixas não estão interligadas, só foram editadas/mixadas de uma forma que mais ou menos fluíssem, vamos ser honestos. Na verdade são um bando de canções que Brett fez sobre suas questões de pai de família e eles editaram de forma a parecer um "conceito".

Mas é um belo, um belo disco.

O que me faz repensar o que eu mais gostaria de ouvir do Suede no futuro... Seria algo mais experimental, menos lalalá, menos pseudo-hits, deixe as faixas fluirem, seis, sete, doze minutos... "When We Are Young" poderia ter se beneficiado disso, ter sido uma faixa longa. Aproveitando: podiam ter feito várias outras faixas longas, agora que não há mais limitação de espaço (ou se já iam lançar um vinil duplo)...

Enfim, expectativas demais...

Se for para colocar meu ranking deles:

DOG MAN STAR
SUEDE 
COMING UP
NIGHT THOUGHTS
BLOODSPORTS
A NEW MORNING
HEAD MUSIC

O show de novembro, na Roundhouse, em Londres, dez dias depois que voltei...

19/01/2016

QUANTAS VEZES UM ANJO CAI

(Conto que escrevi de encomenda para a Ilustríssima, inspirado por David Bowie, publicado na Folha de domingo.)


Às cinco da manhã de segunda ele aterrissa do paraíso de seus sonhos no colchão de uma cama. Sua cama; um colchão insuficiente. Um céu rachado de estrelas adesivas fosforescentes é a primeira coisa que vê. O alarme de seu celular toca a nova do Bowie.
Na frente do espelho, lava o rosto, escova os dentes, buscando restos de maquiagem da noite de ontem. Quanto mais fabuloso é seu fim de semana, mais necessário se certificar de ficar invisível na segunda seguinte. Camiseta larga sobre o corpo esguio. Boné escondendo o cabelo platina. Óculos escuros para não denunciar o olhar. Rosto fechado de menino negro, agressivo, masculino, que ele deveria ser.
A semana sempre chega socando-lhe o sorriso, se ele sorrir.
Fones no ouvido. Rápido e cabisbaixo a caminho do ponto de ônibus. Cruza com os noias que restaram de um domingo infinito. Balbuciam rindo algo que ele escuta como o "você confunde até a mãe, ela não sabe se você é homem ou mulher" ressoando em inglês de sua playlist. Tenta acreditar que aquilo poderia ser, quem sabe, atravessado, um elogio. Que a beleza pode ser indefinição. Que o que tenta esconder é o melhor que tem a mostrar. Aqui não é América, não é Londres nem Berlim, mas ele passa pelo mesmo que passam tantos outros meninos, pelo que passaram tantos ídolos. Um dia melhora. Itaim Paulista, afinal, não é tão diferente de Brixton.
No fundão do ônibus ele segue em sua odisseia espacial. O caminho para a firma às vezes é mais longo do que o para a Lua. Um grupo de pivetes batuca outro compasso, fora do compasso, ele aumenta o volume e silencia os pivetes. Pela janela tenta imaginar a Terra como azul, vendo o cinza que há de concreto. Deve ser mais bonita vista de longe. De longe, deve ser mais bonita. Não há nada que ele possa fazer, a não ser esperar.
Dois ônibus e um metrô. Quatro estações até a Paulista. Um labirinto que ele já faz no automático, deixando a voz do rei dos duendes guiá-lo. Seu dia será de filas e recepções. Decepções e poucas conquistas. E ele agradecerá pela música. São mais sete dias para viver sua vida, ou sete formas de morrer.
"Quando vi a notícia lembrei na hora de ti", recebe uma mensagem do amigo Everton aos cinco para meio-dia. Não tem créditos para perguntar de volta qual é a notícia. Dá uma espiada no jornal do dia. O jornal do dia não lhe diz nada. Tem uma Lua em Júpiter, repara no horóscopo, um sol em São Paulo. São Paulo nublado.
Espera encontrar o Cassiano, da Criação, na hora do almoço, para perguntar o que ele achou do clipe novo. Cassiano não veio hoje. Há dias em que ele consegue trocar boas ideias no almoxarifado. Mas nessa segunda estão todos fechados. Ele também se fecha em si, num mundo de cães de diamante, onde ele pode ser o herói, e garotos amam garotos insanos.
"Ei, tá no mundo da lua?", a recepcionista lhe pergunta.
"Não, já passei por lá. Agora estava pensando se há vida em Marte."
"Ai, menino, só você... Viu que a Lady Gaga ganhou um prêmio ontem?"
"Não!"
"Um Grammy, ou Emmy, um desses prêmios por atuação."
"Globo de Ouro?"
"Pode ser. Trouxe o recibo?"
Da firma seguirá para o supletivo. Só tem tempo de passar na padaria para comprar uma coxinha, de jantar. É frango e catupiry. Na televisão ligada vê o rosto do "camaleão" no noticiário. Uau, ele voltou mesmo para ficar. Quase sente certo ciúme, certo despeito pelo mundo compartilhar do ídolo que toca só em seus ouvidos, alienígena que habita seu mundo. Achou que ele fosse só seu. Tome jeito, diferentona, #everybody- loveshim.
Estuda ainda não sabe para quê. Não sabe ainda se presta. Pensa se um dia fará diferença. Termina o ensino médio. Aprende inglês com as músicas. Quem sabe se pode mudar de vida com uma faculdade. Por enquanto, para afastar a miséria basta um pouco de maquiagem.
Volta para casa tarde da noite, o mesmo metrô, os mesmos ônibus, na direção contrária. No caminho percebe que seu starman está de fato pop demais, está muito popular. Três meninos com camiseta dele no mesmo vagão. Uma mochila cheia de bottons. Uma menina até ostenta um raio na cara. Seu shuffle passa para uma faixa obscura, um B-side exclusivo, "é difícil ser um santo na cidade", o astronauta que é só seu.
É ainda o que ele escuta subindo a rua, passando em frente ao bar. O convite à dança ganha por instantes batuques de pagode, de uma mesa regada a cerveja. Ele cumprimenta o tio, acena para o padrinho, chega em casa em seu próprio ritmo. "Oi, filho. Tem um prato de comida no forno."
Come em frente ao PC do irmão, que ainda não voltou da batalha. Entra no Facebook e checa as mensagens, sua timeline: todos trazem a mesma notícia. Márcio, da loja de discos; Nicolas, produtor de TV; Alisson, performer em Oakland; Matheus, moleque do Sul. Amigos, conhecidos, desconhecidos, interessados, todos contam a mesma história de um ídolo que se foi. Todos tão diferentes e tão distantes, seguindo a mesma trilha, no ônibus para o trabalho, malhando na academia, dirigindo para buscar o filho na escola, recuperando-se de uma cirurgia.
"Escutando aquela música que você me mandou. Fiquei triste por você. Todo mundo só falando nisso."
"Pois é, fiquei sabendo há pouco."
"Sério? Bom, ele já estava velho..."
"Porra, Davidson."
"Desculpa. Gostei do som. Depois você me mostra mais. Vai lá domingo que vem?"
"Acho que sim."
"Então tá, te espero, que preciso dormir. Fique bem."
"Você também."
E ele desconecta pela nova terça que está por vir. Árida, áspera, ríspida, mas ainda poética em playlists, em fones de ouvido, para quem quiser ouvir. Ele fará sua jornada para a firma e sabe que não estará sozinho. Quebrando vidro, beirando o suicídio, o dia a dia é só um ensaio para uma tragédia maior, um futuro melhor, no que de mais grandioso reserva sua vida.
Ele tira a roupa. Deita na cama. Avista as estrelas de um horóscopo improvisado de starfix. É, não é fácil. Nem sempre é bonito. Mas, se ele não é especial e exclusivo, ao menos hoje ele sabe. Ele não é o único. Ele não está sozinho.

11/01/2016

O ADEUS DE BOWIE



E meu post anterior acabou sendo uma despedida. Bowie morre hoje de câncer; seu último álbum mais do que uma volta foi um adeus.

Poucos têm a oportunidade de planejar a morte dessa forma, encerrar uma carreira de forma tão gloriosa e pertinente. Ele sabendo que estava nas últimas e colocando isso em músicas e clipes, sem o público ter noção de nada. Foi foda até o final.

Fará falta. Mas a obra permanece. Posso ao menos dizer que o vi ao vivo em grande forma, na turnê Earthling, de 1998, aqui em São Paulo.

Revendo a discografia dele, vejo que tenho 18 dos 25 álbuns de estúdio (mais alguns ao vivo). A maioria do que não tenho é da fase anos 80, ao meu ver a menos inspirada. Mas ainda há muito a descobrir...

Blackstar já permanece como um dos meus favoritos. No post abaixo coloquei algumas das faixas menos óbvias de que mais gosto.

Hoje minha timeline do Facebook está monotemática, todos lamentando, todos melhores amigos, todos maiores fãs, compartilhando histórias e influências. E é lindo de ver. Lindo saber que temos sim algo em comum com tanta gente distante, diferente, desconhecida.


08/01/2016

BOWIE DA CAPA PRETA

A biografia dele que traduzi tempos atrás.

Hoje é aniversário de David Bowie e lançamento de seu novo disco. Depois de uma década afastado, ele voltou em 2013 com um disco medíocre, "The Next Day", com uma pegada igual ao que ele fazia no começo dos anos 2000, não justificando muito o afastamento e a "reciclagem".

Mas agora ele fez bonito com "Black Star", lançamento com apenas sete faixas (extensas), que mistura eletrônica, ambient e experimentalismos jazzísticos. Gostei bem. Fico tentado a esquecer o "The Next Day" e aceitar essa como a verdadeira volta do Bowie.

E como está todo mundo nas homenagens - esquecendo que também é aniversário de nosso grande pagodeiro Alexandre Pires - coloco aqui dez das minhas faixas favoritas do Bowie, de todos os tempos. Peguei algumas das menos óbvias, é claro.

MOTEL

"Outside", disco de 95, é dos meus favoritos. Muito influenciado pela sonoridade gótica-industrial de bandas como Nine Inch Nails, Bowie contou também com Mike Garson, pianista fantástico e parceiro musical de anos. Para mim, essa faixa representa o melhor do disco.

MY DEATH

Cover de Jacques Brel que já havia sido feita em inglês por Scott Walker (grande influência de Bowie). Ficou famosa na turnê de Ziggy Stardust.

THURSDAY'S CHILD

Gosto muito do álbum "Hours", apesar de ser um pouco sem tempero mesmo. De toda forma, esse clipe é um ótimo exemplo de que Bowie só precisa mostrar o carão para impressionar (bem, o pitéu no espelho também ajuda…)

CYGNET COMMITTEE

Da fase mais riponga dele, esse é um épico de quase dez minutos com diversas mudanças de andamento. Adoro.

WORD ON A WING

Do álbum "Station to Station". Nessa versão ao vivo ele conta como a música foi composta num momento pesado de vício. E a música é linda.

SLIP AWAY

Do disco "Heathen", de 2002, que saiu quando eu morava na Inglaterra. Prova de que ele ainda estava fazendo grandes músicas antes do "exílio".

ASHES TO ASHES

Essa é das mais conhecidas. Mas essa versão ao vivo é impagável, principalmente pelo molequinho no telefone no começo.

BRING ME THE DISCO KING

Outra das parcerias com Mike Garson. A melhor coisa do disco "Reality", o último que ele lançou antes do longo hiato.

LAZARUS

E esse é o clipe novo e, para mim, a melhor faixa do "Blackstar".

THE LAUGHING GNOME

E claro que eu não poderia esquecer do primeiro "sucesso" dele…


03/01/2016

2016



"Pohan..."

Sobrevivemos a 2015. Embora pessoalmente, para mim, tenha sido um ano bem proveitoso, a carga negativa toda do país e dos amigos não me deixou esperançoso. Muitos dizem que o que aproveitamos do ano passado foi o resto de otimismo (ou euforia) dos anos de crescimento, e que a perspectiva para 2016 é ainda mais negra. De toda forma, entrei o ano ainda com bastante trabalho, o carnaval acontecerá cedo, o ano seguirá cedo, ainda não me vejo em clima de desespero.

Murilo leu Evie Wyld, eu li Lionel Shriver. 

Passamos a virada no "Solar Biofobia" (ou casa de minha mãe), a 60km de São Paulo, numa área de preservação. Ela foi para a Bahia e Murilo e eu ficamos cinco dias sozinhos com os cães, lendo, cozinhando, bebendo, assistindo a torture porns. A chuva poderia ter atrapalhado - e não ajudou, praticamente só tivemos o primeiro de janeiro com algum sol - mas contribuiu com o clima aconchegante, preguiçoso.


Murilo na estrada. 


Como a casa fica afastada de qualquer centro (oficialmente está na cidade de São Roque), mandamos antes as comidas e as bebidas, de carro, e fomos de ônibus, descendo na estrada e subindo dois quilomômetros a pé (na chuva). Dia 31 ainda tivemos de refazer o percurso até um posto de gasolina para comprar mais uns mantimentos. Essa é a vida selvagem que podemos ter...


Masterchef Murilo (e Murdido) na cozinha. 

Eu fiz pão e um tender de reveillon, Murilo cozinhou nos outros dias e gravou seus programas de Youtube (com seu pássaro psicodélico). Tomamos drinques na jacuzzi ao ar livre e caminhamos pelas trilhas. E a volta no sábado ainda foi tranquila.

Arthur, a varanda e Jurema (ao fundo). 

Assim já começamos 2016. Já estou de volta com as traduções, meu novo romance, sem grandes resoluções de ano novo, mas uma esperança renovada.


Em 2016 ainda se pode usar a legenda "e houve boatos de que eu estava na pior"?

18/12/2015

ENTÃO É NATAL...

Na vila do Papai Noel, na Lapônia. (Não me pergunte por quê, mas já fui três vezes pra essa bagaça)


A menina senta no colo do papai Noel: 

"Papai Noel, você rói unha?"

"Roo-roo-roo"

Então é Natal! E como é para falar de coisas bonitas e alegres, resolvi compartilhar com vocês minha playlist de clássicos natalinos. Pensei em fazer no Soundcloud, mas dá um trabalho desgraçado editar as músicas e depois só a Ivana Arruda Leite e mais meia dúzia de pessoas escutam. Mais fácil disponibilizar algumas dicas aqui via Youtube e vocês que corram atrás. 

Vamos lá: 


Acabei de baixar o CD de Natal da Kylie Minogue. E é ÓTIMO. Sério, melhor CD dela em muito tempo, dos melhores álbuns natalinos de TODOS OS TEMPOS. São 16 faixas na edição de luxo, incluindo muitos standards em arranjos clássicos, um ou outro som mais dance, músicas natalinas inéditas e alguns covers interessantes como de "Only You" (da Alison Moyet, que não é bem uma música natalina). Tem até um cover dela com o Iggy Pop. Geralmente quando um artista grava álbum de Natal é porque não sabe mais o que fazer para vender disco no final de ano, mas Kylie fez bonito. Uma delícia. 



Esse é provavelmente o álbum natalino mais clássico que existe (e o vídeo tem o álbum inteiro; disponha). Lançado originalmente em 1963, apresenta os maiores sucessos interpretados por girl groups como as Ronettes, com a produção do lendário Phil Spector. Para um bom Natal das antigas. 


A dupla norueguesa Röyksopp - das minhas favoritas de todos os tempos - há alguns anos disponibilizou essa faixa natalina para download gratuito. Cover de uma música não tão conhecida por aqui, que apesar da roupagem eletrônica não deixa de ver uma vibe bem natalina, etérea; dá para tocar no jantar de família sem medo. 


A versão de Santa Claus is Coming to Town da Cyndi Lauper com o Frank Sinatra é das mais clássicas (e foi bem copiada pela Kylie no disco novo). 


Falando em clássicos, Bing Crosby gravou vários. O tema da "rena do nariz vermelho" é dos meus favoritos. Clássico com uma pegada kitsch. 


Os Jackson 5 também gravaram um álbum de Natal em 1970, com diversos clássicos. Minha favorita é essa, Frosty the Snowman. 


Simplesmente outra das mais clássicas que se pode ter. 


Annie Lennox lançou um CD solo de Natal em 2010, provavelmente quando não sabia o que gravar, e é um disco bem fraquinho. Mas essa versão de Winter Wonderland que ela gravou com os Eurythmics para uma coletânea de 1987 é bem bacana. 


Entrando num terreno trash, Jordy, aquele francesinho fofinho, também gravou um álbum de Natal em 1993 (basicamente para tentar capitalizar seu sucesso no ano). Tem músicas inéditas e versões dance para clássicos franceses de Natal. 


O Brasil tem poucos temas natalinos, sendo a maioria versões em português de músicas de fora. Mas Assis Valente, compositor de Carmen Miranda, escreveu essa que, pelo menos na minha casa, é um clássico. Tem uma letra bem deprê (especialmente sabendo que ele se suicidou por dívidas): "já faz tempo que eu pedi, mas o meu Papai Noel não vem. Com certeza já morreu, ou então felicidade é brinquedo que não tem." Continua atualíssima no Natal 2015. 


E para ter vários temas natalinos revisitados nos tempos politicamente corretos, fique com Jon Cozart, gatcheeenho norte-americano que grava tudo sozinho, a capela, em arranjos geniais. 



Silent Night (a versão original de Noite Feliz) já foi gravada trocentas vezes, mas continuo achando a versão da Sinéad a melhor. Tristíssima, dá para você colocar no fim da festa, quando quiser que a família vá embora. 


Se o povo não for embora, apele para essa versão da MARLI!



E essa fica de bônus. Para mim, não deixa de ser um clássico. E não creio que ainda tenha menos de dez mil visualizações. (Só eu partilhei essa porra umas dez mil vezes...)


AH! Quase esquecendo. Fique com essa também, da melhor boy band de todos os tempos. É um tema de ano novo, pois na Rússia a comemoração e a troca de presentes se dão principalmente na virada. É para entrar em 2016 com o pé direito. 



15/12/2015

BURIED ALIVE BY LOVE

HIM, sexta passada, no Carioca Club. 

Não sou lá muito fã de show. Nunca fui. Prefiro ouvir música em alta qualidade, em casa ou nos fones de ouvido, acabo indo só nos shows de artista de que gosto muito.

Este ano não assisti a quase ninguém. Esperava ansiosamente o show da Sinéad O'Connor em agosto - que já suspeitava que não fosse acontecer. Ela anda louca de pedra e cancelou semanas antes do evento. Morrissey também eu nunca vi; fiquei sabendo dos shows dele bem em cima e desisti. Semana passada fiquei sabendo do show do HIM, vi que tinha uma promoção da Kiss FM no Facebook sorteando ingressos, participei e ganhei horas depois, fácil assim.

Já tinha visto um show do Peter Murphy no Carioca Club, e tinha achado o som ok. Mas sexta agora estava muito, muito ruim, tudo uma maçaroca grave só. A banda também não ajudou - pau mole, tocando no piloto automático, sem grandes performances. O vocalista Ville Valo está em boa forma física e vocal, mas parecia sem saco nenhum de estar lá, tanto que nem deu bis. Blasé, mal falou com a plateia, conversava com a banda de costas para o público, mal se movimentou. Pau no cu.

Tudo bem que nunca fui grande fã de HIM. Acompanhava mais no começo dos anos 2000, quando estudava finlandês; tenho três álbuns e um DVD; cheguei a ver o Ville Valo uma vez na rua em Helsinque, rapidinho. Para mim eles foram uma espécie de precursores do emo - com o que eles chamam de "Love Metal", um som pesado com letras melosas e títulos como "Join in me in Death", "Your Sweet Six Six Six" e "Buried Alive by Love" (das minhas favoritas). Daquelas coisas divertidas, mas que a gente sabe que é de gosto discutível.

Infelizmente o show só piorou minha imagem em relação ao som dos caras. Eles tocaram todas minhas favoritas que eu esperava ouvir, sem o menor tesão. E para o Murilo, que não conhecia, foi decepção total.

Ainda assim, como fomos de graça, valeu. Me fez ficar com vontade de ir mais em shows, na verdade. Melhor do que o som deles foi ver a animação da plateia cantando junto, essa energia que só se tem ao vivo. E, apesar do som do Carioca Club estar muito ruim, ainda é um lugar tranquilo para chegar, sair, beber, ir ao banheiro.

Observando os fãs, Murilo comentou: "É um povo bem nerd." Ao que tive de responder: "Góticos são apenas nerds vestidos de preto."

Setlist:

Buried Alive By Love
Poison Girl
The Kiss of Dawn
Pretending
Killing Loneliness
Your Sweet Six Six Six
Join Me in Death
Bleed Well
In Joy and Sorrow
The Sacrament
Rip Out the Wings of a Butterfly
Wicked Game
Heartache Every Moment
Right Here in My Arms
The Funeral of Hearts
Razorblade Kiss
Soul on Fire
When Love and Death Embrace
Rebel Yell


11/12/2015

O TERROR DE 2015



É Natal. Época de falar só coisas bonitas e alegres. Eu pouco a pouco vou me tornando um autor/roteirista de horror. Além do Biofobia e do livro novo, estou envolvido em outros projetos do gênero, que dependem sempre do resultado de editais. É o universo que mais me interessa, principalmente as coisas mais obscuras e psicológicas (menos "fantásticas") e eu e Murilo assistimos a uma quantidade absurda de filmes de terror todos os finais de semana.

A imensa maioria é tosca, descartável, embora alguns sejam divertidos. De muitos eu mal me lembro, tendo assistido em avançado estado alcoólico, em muitos nem chegamos até o fim. Mas puxando pela memória, dando uma olhada pelos sites, lembro os melhores (ou mais interessantes) filmes de terror que vimos este ano, mesmo com ressalvas e defeitos. 

Infelizmente, apesar de ser um gênero crescente no país, não consegui colocar nenhum título nacional entre os dez melhores. Bem que eu queria. (“A Bruxa” quase chega lá - a ser brasileiro, digo - tendo entre os produtores o Rodrigo Teixeira). Os exemplos abaixo mostram que nós ainda temos um longo caminho a percorrer...


FOUND



Ok, já falei desse aqui, é um filme que beira o amador, nas atuações, no roteiro, mas tem um argumento estranhíssimo e um desfecho ultra hardcore. Sobre um pré-adolescente que descobre que seu irmão mais velho é um serial-killer. Já gerou um spin-off – o filme que o personagem assiste neste filme foi transformado num longa próprio, “Headless”, graças a uma campanha do Kickstarter. (Esse acho que é exploitation total – daqueles filmes dirigidos por maquiador de efeitos especiais - mas ainda quero ver.)


THE WITCH


No século XVII, uma família isolada numa fazenda à beira da floresta começa a sentir a presença do mal rondando. Filme de arte que está sendo bem aclamado, com ótima atuações e um clima de tensão permanente. É um pouco "etéreo" pro meu gosto, mas não deixa de ser um filmaço. 


APOCALYPTIC



Um found footage bem convincente, sobre uma seita que vive isolada no meio da floresta. Uma dupla de repórteres fazendo um documentário descobre que só restam mulheres por lá, e um patriarca. “The Witch” me lembrou bem dele, mas esse é menos sobrenatural, mais sobre os horrores do fanatismo. Tem um clima bem creepy, e final excelente.

THE VISIT 


A volta do Shyamalan (“Sexto Sentido”) ao terror. Tem um argumento brilhante: um casal de irmãos pré-adolescentes vai visitar os avós maternos, que eles nunca conheceram, e se deparam com o “pesadelo da velhice”: demência, incontinência, caretice. Aos poucos vão percebendo que o terror não termina aí... É bem divertido, apesar de os dois atores mirins serem péssimos e o filme ser feito em found footage (whyyyyyy?!!).


THE BOY


Esse já é um filme de arte - lento, psicológico - sobre um garoto que mora num motel de beira de estrada, coleta restos de animais atropelados e começa a desenvolver instintos psicóticos. O final é meio pau-no-cu, muito didático, mas é um filme bem bonito e impactante.

HOWL


Filme de lobisomem. Bem descartável. Mas tem uma ambientação ótima e um belo clima. Um trem sofre um acidente, para no meio de uma floresta, no interior da Inglaterra, e os passageiros são encurralados por criaturas...


FLOWERS


Esse é outro que beira o amador, mais um projeto artístico do que um filme convencional, sobre mulheres aprisionadas num purgatório. Não tem diálogos e é bem asqueroso. Mas é uma “experiência” e tanto.


IT FOLLOWS


Outro dos mais festejados do ano, numa boa medida entre o indie e o comercial. Após uma transa com um desconhecido, uma garota passa a ser perseguida por uma “entidade” que caminha lentamente, mas nunca a deixa. Uma alegoria esperta de DST, que poderia ter um “monstro” de visual mais marcante.

A GIRLS WALKS HOME ALONE AT NIGHT


Filme iraniano que mistura máfia e vampiros.  Tem um roteiro meio sem sal, mas um visual lindo, preto e branco. Vale ver no cinema, se estrear.


GOODNIGHT MOMMY



É dos meus favoritos. Filme austríaco minimalista de dois irmãos gêmeos que desconfiam que a mãe – que voltou para casa com o rosto enfaixado, depois de um acidente – não é quem realmente diz ser. Tem uma “sacadinha” extremamente previsível no final, mas é um filme bonito, lento e com cenas bem corajosas. 



E para terminar o terror de 2015, vamos hoje ao show do HIM, banda de metal farofa finlandesa que eu ouvia bastante no começo dos 2000. Participei meio por acaso de uma promoção da Kiss FM e GANHEI dois ingressos para o show de hoje. Viu, quem precisa de Jabuti, Oceanos, Prêmio São Paulo quando ganha um prêmio da Kiss FM?



04/12/2015

MINHA RETROSPECTIVA


Pedindo ajuda divina para 2016, na Armênia. 

2015 foi um ano siniiiiistro. Mar de lama de todas as formas, crise econômica, crise ideológica, muitos absurdos. Mas talvez, vendo de forma positiva, tudo fique mais aparente porque estamos mais conectados, menos alheios. O absurdo parece maior porque agora nos damos conta dele, podemos nos indignar, e cobrar...

A virada foi em Itapoá, Santa Catarina.
Pessoalmente, para mim, foi até um belo ano. Teve meses melhores, meses piores, esse final parece que deu uma puxada de freio, mas apesar da crise nacional, não me faltou trabalho, consegui emplacar alguns bons projetos e recebi algumas encomendas que estão movimentando minha carreira como autor e roteirista. 

Uma das primeiras mesas do ano, em Lajes, SC. 

Não foi tão movimentado de eventos como ano passado – porque também eu não estava lançando livro novo – mas tive algumas boas mesas; curiosamente foi dos anos que mais tive eventos literários em São Paulo – só em novembro foram três (talvez a crise tenha feito com que se investisse menos em passagens e hotel e se investisse mais no autor local – pelo menos uma vez na vida vejo algum valor em ser autor paulistano).

Fliaraxá

Das viagens para outros estados, destaco a mesa na Festa Literária de Lajes (SC), em abril; a Fliaxará (MG), de que participei novamente em agosto, e a Armação Literária em Búzios, em outubro.


Em Búzios. 

O meu aniversário passei em Florianópolis com o Murilo, fazendo meus programas favoritos de longas pedaladas, ótimas refeições com frutos do mar e a linda acolhida na Pousada do Marujo. Este ano também voltei a nadar e malhar, e chego em dezembro seis quilos mais magro do que entrei em janeiro. 


Trishyia, Ida e Murilo, no meu aniversário em Floripa. 

Logo depois, Murilo estreou no Masterchef Brasil, o que mudou totalmente a vida dele e, por tabela, um pouco da minha. Pude conferir de perto esse louco mundo dos realities – divertido, mas bem esquizofrênico. Disso ficaram frutos que Murilo segue colhendo e bons amigos, como a Jiang, Aritana, Cecília, Carla...

No dia que ele entrou. 
Com os amigos "famosos". 

Em meio ao Masterchef tivemos também o momento mais triste do ano, um dos mais tristes da vida... Asda, nossa amada coelhinha morreu de complicações de uma cirurgia. Ficou um vazio enorme aqui em casa, roído por ela, que não conseguiremos preencher. Mas ainda quero compensar um pouco com uma nova coelha aqui em casa, logo no começo do ano.

Saudades. 

Um grande momento foi a viagem com minha mãe para a Armênia, em outubro. País de nossos antepassados, foi lindo, emocionante e surpreendente. Consegui cumprir a meta de “um país novo por ano” (foi o 27º) e ainda pude esticar para dois outros que há muito não visitava: França e Inglaterra. Londres foi especialmente agradável, com boas compras, longas caminhadas por parques e canais, revisitando cenários do meu passado. Ano que vem quero ver se consigo fazer uma viagem dessas com o Murilo.

Armênia. 


As perspectivas para 2016... são as piores. Nah, pessimismos à parte, as perspectivas para o MUNDO não parecem boas; não parecem boas também para mim. Não deve haver livro novo, já adianto. Estou com um livro encomendado, pago, muito bem encaminhado, mas devo entregar até julho, o que muito provavelmente significava que sairá no começo de 2017 (pois é, os processos são lentos), vamos ver.


Desembarcando em Paris. 

Estou com outra meia dúzia de projetos de filmes, séries, o longa de BIOFOBIA já inscrito em vários editais, mas nada disso será lançado em 2016. Se eu conseguir viabilizar algumas dessas coisas para serem produzidas (filmadas) no próximo ano, eu já fico feliz.


Londres. 

Reveillon deve ser aqui do ladinho, com o Murilo, no “Solar Biofobia”, a minha casa de campo, em que minha mãe não vai estar. Poderemos passar só nós dois tranquilos, com boa comida, boa bebida, mato, cachorros, uma jacuzzi ao ar livre. Não dá para reclamar. 


Floripa ainda é a melhor do mundo. 


01/12/2015

A ENTREGA

Íntegra da resenha que assinei na Folha, semana passada. 


“A Entrega” é um filme dirigido por Michäel R. Roskam, com roteiro de

Dennis Lehane, baseado num conto seu. Com o lançamento do filme em 2014,

Lehane decidiu romancear o roteiro e o resultado é uma novela noir recheada de

clichês.


Bob é um “bartender solitário” que trabalha servindo bebuns e mafiosos,

tentando deixar para trás um passado obscuro. Uma noite, encontra numa lata de

lixo um filhote de cachorro vítima de maus tratos e resolve adotá-lo. O cachorro

redirecionará seu rumo na vida, ao mesmo tempo que o aproxima de Nadia, uma

mulher problemática também vítima de agressões.


Se o enredo está longe de ser brilhante e original, funciona como

representante de um gênero cinematográfico. Infelizmente, se como romancista

Lehane se tornou um bom roteirista, como roteirista não conseguiu dar vida ao

romance. “A Entrega” é um dos raros casos em que o filme é melhor do que o

livro, ainda que o filme nem seja lá grande coisa.


Além de clichê, o texto é raso e mal estruturado. Bob aparentemente é o

protagonista da história, mas o foco narrativo oscila constantemente, de forma

desequilibrada, migrando para personagens secundários que ganham uma

importância parcial sem nunca justificar o discurso indireto livre. A ideia de

“homem durão amolecido por cachorrinho” já é de gosto discutível, mas nem na

pieguice o livro consegue se apoiar. A relação de Bob com o cachorro não se

materializa e não justifica as ações do bartender no terço final do livro. O autor

não consegue dar uma personalidade ao cão, tornando-o o personagem mais

apagado da história.  As metáforas são pobres, colocadas como comparações:

“começou a sacudir[...] como se fosse a cordinha de um motor de popa [...] Era

um som horrível como se ele estivesse inalando cacos de vidro [...] o rosto

esticado como uma espécie de  máscara mortuária” – isso tudo apenas como

exemplos tirado de um único parágrafo.


No final, A Entrega se mostra um romance pulp dos mais baratos,

moderadamente divertido. Faz mais feio pelo nome do autor – que escreveu

“Entre Meninos e Lobos”, entre outros - e da editora que o publica aqui.

Avaliação: Ruim.

27/11/2015

FIM DE PAPO

Com Manuel, ano passado, no Metrópolis. 

Esse sábado estarei com Manuel da Costa Pinto debatendo minha produção literária na Biblioteca São Paulo (Avenida Cruzeiro do Sul 2630 – Metrô Carandiru), às 11h. Vamos?!

Fico especialmente feliz com o convite – porque por muito tempo achei que o Manuel menosprezava minha obra. Mas ano passado já tive um feliz encontro com ele no programa Metrópolis (foto acima), onde ele elogiou bastante meu BIOFOBIA.

E esses encontros são bons para isso, tirar cismas, birras, ver que nossa grama não é tão marrom ou que nenhum gramado é tão verde assim. (Lembro de uma frase ótima que o Nelson de Oliveira me disse na mesa que tive com ele no Emil: "Tem autor que a gente acha que está em todas, mas é só a gente parar de seguir no Facebook que nunca mais ouve falar". Hahaha. È bem verdade. Estamos todos alimentando ideias equivocadas...)

Enfim, o debate desse sábado deve ser meu último evento literário de 2015, que até foi bem movimentado.

Na Balada, semana passada. 
Minha mesa semana passada na Balada Literária, por exemplo, foi ótima de público, e deu para discutir em profundidade sobre adaptações literárias para o cinema com Hermano Penna, Marçal Aquino e Paulo Lins. Depois, esticamos para o almoço e fiquei para ver a mesa com a Del Fuego, Guiomar e Edyr Augusto, autor paraense do romance Pssica.


Estava há alguns meses com o livro dele na minha pilha. E a mesa dele na Balada teve participação de uma fã entusiasmadíssima, que vendeu muito bem o livro e me fez tirá-lo da pilha. As primeira linhas já deixaram claro que era um grande autor. O primeiro capítulo me deixou em dúvida se eu conseguiria embarcar no estilo telegráfico dele, que me parecia exigir uma atenção que eu não tenho. Mas avançando na leitura me deixou claro que mesmo os grandes fatos se tornam detalhes dentro de uma narrativa enlouquecida e a força do livro está no universo fascinante e assustador que consegue criar, sobre o tráfico de meninas no norte do Brasil. Estará certamente na lista dos finalistas de grandes prêmios do próximo ano. E daria um grande filme na mão do diretor certo. Fica a dica.

VIAGENS DE AGOSTO

Eu e meu jerimum. Depois de BH, Flip, Bahia, teve Minas de novo: FLIF, um festival do Instituto Federal do Sul de Minas em que EU fui o auto...