28/05/2017

AS VIAGENS DE MAIO

Debate em Iguape com Chacal mediado por Reynaldo Damazio. 

Está chegando ao fim minha turnê com Ana Paula Maia pelo interior do Rio. Quarta agora é a última das seis datas, em Nova Friburgo.


Tem sido uma experiência intensa esses debates semanais com a mesma pessoa, mediados sempre pelo querido Marcelo Reis de Mello, sob curadoria do Ramon Mello (não, eles não são parentes, nem um casal). Poderia ser uma repetição constante dos mesmos discursos, e em parte é, mas a diferença de público faz toda a diferença. Nas primeiras datas tivemos uma plateia de adolescentes, o que fez com que a gente levasse a conversa para um tom mais didático, explicando a cena literária atual, como funciona (ou não funciona) o trabalho do escritor. Semana passada, em São Gonçalo, tivemos uma plateia mais velha, gente que já escrevia, o que possibilitou uma conversa mais aprofundada. E ontem, em Duque de Caxias, tivemos feministas na plateia, o que levou a discussão para questões de ativismo até então não tocadas.

São debates entre uma mulher negra e um homossexual, afinal. E mesmo não sendo essa a tônica da nossa escrita, não pode ser desprezada. Foi uma questão latente durante todos os nossos encontros e ontem se falou muito sobre o “lugar de fala”. Ana Paula Maia sempre tratou de um universo muito masculino, machista, e considera que o fato de ela ser uma mulher negra seja irrelevante em sua carreira. Tenho dúvidas – independentemente da inegável qualidade de sua escrita, acho que o contraste entre a figura dela e o texto é um grande chamariz. Ela, como mulher negra da baixada fluminense, hoje pode escrever sobre o que quiser. Lancei o questionamento se eu, como rapaz branco homossexual dos jardins me dispusesse a escrever sobre o universo de miseráveis, de lixeiros, açougueiros, matadores, presidiários, não seria visto com suspeitas.   

Em Iguape. 

Questões que também discuti na sexta-feira no Festival Literário em Iguape, em debate com Chacal. Ele, homem branco, de olhos azuis, heterossexual, é um dos maiores nomes da poesia marginal desde os anos 70. Eu, vinte e cinco anos mais novo, garoto branco dos jardins, dividi com ele a mesa sobre “literatura marginal”; a homossexualidade uma credencial inegável de minoria que me pertence. Discorri sobre isso, que o fato de ser homossexual não é apenas uma credencial imediata, mas leva a um percurso próprio que pode me encaixar na marginalidade. Claro que há muitos gays integrados, coxinhas, cada vez mais; porém eu credito à minha homossexualidade muito da visão maior de mundo que eu tenho. Se eu fosse hétero, talvez ficasse acomodado entre meus pares paulistanos privilegiados – o fato de eu ter de ir além para encontrar pessoas com gostos comuns (seja para acasalar, seja apenas para compartilhar) é o que me tirou de casa, me fez ser barman em Londres, surfista em Florianópolis, exilado em Helsinque; fez com que eu me aproximasse de gente das periferias, de outras origens, outros universos, porque a cota “gay branco paulistano classe média-alta” é pequena e não me basta.

A viadagi me levou a essa cidade lindinha, Iguape. 

O debate em Iguape também teve a participação especial de um morcego, que invadiu o palco montado na praça e ficou dando rasantes em nós durante a apresentação. AMEI a cidade, uma espécie de Parati pós-apocalíptica, meio desolada, totalmente vazia, mas lindinha-lindinha, com um centro histórico rodeado de montanhas e mangues. Pena que fui e voltei no mesmo dia - por causa do debate no Rio -, queria ter passado mais tempo, passeado mais pelas ruas, visto outras mesas do Festival, que também teve nomes como Ferrez, Paulo Lins e Arnaldo Antunes, sob a curadoria afiada do Eduardo Santana.  

Iguape, lá de cima. 

Preciso dizer também que, sinceramente, para mim tem sido mais interessante debater sobre questões amplas da literatura, ou mesmo sobre a escrita da Ana Paula, como ontem, do que sobre a minha própria. Não tenho mais muito a dizer sobre meus livros; pode ser por aquele velho clichê “tudo o que tinha a dizer está lá escrito”, pode ser também porque o que está escrito não tem mais a ver comigo. Em Iguape experimentei ler meu “clássico” “Piranhitas”, como uma pequena amostra do que eu faço (como já fiz tantas vezes). Tive a estranha sensação de que não me comunicava mais com o texto. Não sou mais eu lá. E agora sinto um pouco isso com todos meus livros. Mesmo Neve Negra, que é bem recente e ainda está por sair no próximo mês, me parece algo menos pessoal.

O querido Marcos Santos é leitor constante e atuante nos debates pelo Rio. 


 O que importa é que o leitor se identifique. E tem sido lindo ver na plateia as adolescentes fluminenses negras fascinadas com a Ana Paula, os jovens viados se descobrindo comigo. Devemos inclusive estender essa turnezinha para mais algumas datas em BH e São Paulo, no segundo semestre – por que você também não agenda um debate com a gente na sua cidade, no seu festival? ;) Mas antes, me encontro com Paulo Scott e Daniel Galera dia 8 de junho, em Garopaba. Agora o ano não está nada mal. 

Quarta te esperamos para o último debate, no Sesc Nova Friburgo, 19h. 

12/05/2017

REVEILLON DE MIM MESMO

40, hoje. 


Não é o fim do mundo, mas é o começo. Hoje faço 40, e não me sinto nada jovem.




Acho meio risível. Esse povo de 40, de 50, de 60 que fala que “se sente mais jovem do que nunca”. É o que eu sempre digo: juventude está na mente; você pode ter 60 com cabeça de 20, se for um retardado mental. Apegar-se tanto à juventude me parece meio triste; você pode se achar jovem, mas os jovens ainda vão te ver como tiozinho. Eu era aquele moleque de 20 que achava ridículo os tiozões de 40 na boate. Hoje tenho 40, ainda acho ridículo, por isso não vou. 

Dandizin aos 6. 

Embora ainda me apresentem como “jovem escritor”, sou o primeiro a dizer: não, não sou mais jovem em nada, nem para ser Presidente da República. Não que eu não valorize a juventude, pelo contrário; “juventude é a única coisa que vale a pena ter”, diria Oscar Wilde; mas aproveitei a minha até o talo, então não me apego mais a isso, tenho plena consciência de que ela se foi, e não quero nem consigo mais me aproveitar dela. O corpo e a cabeça não permitem. Hoje estou em outra fase.

Premiado aos 25. 
Os mais velhos podem achar que estou exagerando – talvez com 60 eu veja como ainda era jovem aos 40. Mas sei bem que não me achava velho aos 30, então esse é o começo de sentir o peso da idade. Quando eu sentir saudade da "juventude aos 40" é que as coisas estarão terríveis realmente...

Coxinha aos 13...

Nesse aniversário emblemático, é inevitável fazer um balanço da vida. Aí que meu saldo se torna mais positivo. Se há algo que me dá conforto é pensar no que vivi, como vivi, tantas experiências que tive e tantos sonhos que realizei. Viajei muito, morei nas minhas cidades favoritas, Florianópolis, Londres, Helsinque; namorei meninos lindos; publiquei oito livros; experimentei de tudo um pouco. A vida só começa aos 40 para quem não passou por tudo isso; não tenho mais saúde e energia para tanto, não.


Gótico, trevoso aos 19...


Com tantos sonhos realizados, os sonhos deixam de ser. Ficaram para trás. Aos 40 não dá mais para pensar “no que vou ser quando crescer”, agora é só consolidar o que já foi lançado. Tenho o privilégio de fazer o que eu gosto, mas a posição que conquistei ainda está longe de ser confortável.

Comecei bem...

2017 começou terrível, terrível para mim. Dos piores anos da vida, e não por causa da “idade”. Foi sim a crise que assolou a todos, que talvez tenha um peso maior num marco como esse. Passei praticamente 4 meses sem dinheiro algum entrar, e isso mexe não só com as contas, mas também com o psicológico: “o mundo me esqueceu”, “chego aos 40 chegando ao fim”, “tudo o que fiz não serviu de nada”. Não ajudou o fato de meu namorado ter se mudado a trabalho para Maresias, e a gente mal se ver, mal se falar.

Auge?

Felizmente as coisas melhoraram bem nas últimas semanas. Chego de fato aos 40 em meio a uma turnê de debates pelo Rio, com mais uma dezena de outros eventos marcados, prestes a lançar livro novo, o primeiro pela Companhia das Letras. Se comecei o ano mendigando por frilas, agora abro a caixa de emails e aparecem pedidos espontâneos de textos. Está longe de ser a melhor fase da minha vida, mas ao menos não me sinto tão esquecido, um pouco mais valorizado, tenho mais motivos para continuar respirando.


Revirando as pastas das conquistas do passado encontro tantas e tantas matérias, páginas inteiras, tanto que conquistei, tanto que deu errado...

Alex James, do Blur, tem uma citação célebre, diz que comemorou os 20 com bebidas, os 30 com drogas e os 40 com comida. Acho que vou pela mesma linha, embora mesmo a comida hoje entre em categorias proibidas. Manter a forma hoje é um sacrifício – aos 20 eu nada fazia, tudo comia, e não engordava. Aos 30 eu tudo fazia, tudo comia, e não engordava. Aos 40 eu tudo faço, nada como e engordo só em suspiros.  “O açúcar é mais viciante e mais perigoso do que a cocaína”, vi recentemente essa afirmação por aí. Pelamor de Deus, então não nos resta nada? Fumante nunca fui; saí ileso de quase todas as drogas; exagero bem no álcool, é verdade, mas pelo menos tenho mantido um detox nos últimos dois meses; o sexo se tornou monogâmico; resta o peso da boa mesa,  que tilinta como um grilhão a que Bela Gil me impõe.


Já remoendo essa crise em BIOFOBIA

Em plena forma aos 33. 

Assim parecem estar todos os meus amigos, sambando para manter o equilíbrio. Muitos bebem todos os dias, outros na tarja preta, no sexo sem compromisso, muitos com tudo ao mesmo tempo. Aos 40, nada mais pode ser aproveitado em excesso, e para quem tanto exagerou, como eu, a parcimônia permitida está longe de satisfazer. Assim, os 40 são os novos 60, os velhos 60, nada de uma vida que começa, mas a vida que nos resta.


No topo do mundo aos 34. 


Comemoro hoje aqui em Maresias, com coelha e Murilo. Semana que vem volto para a estrada com Ana Paula no Rio. E que o ano siga com mais trabalho que me carregue do que tédio que me derrube.

Ainda na pista...

04/05/2017

ASSIM NA ESTRADA COM ANA PAULA



Não havia placas de sinalização que direcionassem a um caminho. O asfalto estava cheio de rachaduras e depressões. Nenhum animal rastejava no acostamento. Nenhum pássaro no céu ou mesmo pousado em uma árvore. Nenhum arrulhar. Nenhum ninho. Nem mesmo o vento era possível ser sentido. Ao olhar para trás, não podia ter certeza de seguir para o início ou para o fim, pois ambas as direções se assemelhavam. 



Na estrada, com 'Namaia. 

A pistoleira Ana Paula Maia acaba de voltar com livro novo: "Assim na Terra como Embaixo da Terra" (Record). Já falei exaustivamente dela aqui - está no topo entre minhas escritoras/escritores favoritos da vida. Para mim, ela tem o que é mais importante num autor: um universo próprio. Isso significa não apenas um estilo - que nela se reafirma numa prosa objetiva, com um lirismo cru pintando cenários desolados -, mas uma realidade própria, suburbana, habitada por homens brutos, personagens que ela revisita em diferentes contextos.

Assim também é sua "Assim na Terra", novela ambientada numa colônia penal fictícia, no meio do nada, onde os poucos sobreviventes caçam javalis e são caçados. Talvez seja o texto mais alegórico de Ana Paula - o cenário está mais próximo de um purgatório surrealista do que de uma representação realista de presídio, assim como ela já havia feito com os abatedouros no (excelente) "De Gados e Homens" (Record, 2013).

Para quem já a acompanha, é sempre uma delícia reencontrar seus personagens, saber mais sobre seus passados, como o índio Bronco Gil, que transforma o novo livro numa espécie de "prequel" do anterior. Para quem está chegando agora, "Assim na Terra" é uma boa introdução ao universo de Ana Paula Maia, que pode (ou deve) ser lido numa sentada, com seu fôlego trôpego, no melhor sentido. 

Nossos livros em Campos dos Goytacazes. 

Recebi o livro em primeiríssima mão, semana passada, no Rio. Eu e Ana estamos fazendo uma turnê de debates pelo interior do RJ, a convite do Sesc, mediados pelo poeta Marcelo Reis de Mello. Ontem estive em Teresópolis (única data em que Ana não participa, porque está num evento na Colômbia). Com um debate às 15h de um dia de semana, não dava para esperar muita gente - e na hora de começar, com o imenso teatro vazio, achei que não haveria ninguém. Mas uma turma de vinte alunos que vieram com a professora garantiu o ótimo papo, numa mesa redonda que fizemos informalmente, falando não só da minha obra mas da profissão do escritor de modo geral. 

Petizada de ontem em Teresópolis. 

Semana passada foi em Campos dos Goytacazes, também para um público de estudantes. Bem lindinho ver as meninas adolescentes negras fascinadas com uma escritora negra, da baixada fluminense, no palco. Eu mesmo sempre levantei essa bandeira, da diversidade, de mostrar outras caras e outros temas na literatura brasileira. Ontem, uma das estudantes me confessou: "Quando vi você chegando, achei que ia ser a palestra de um roqueiro." (Bem, você não estava errada, mocinha.)

E a turnê continua até o fim do mês - semana que vem será no Sesc Três Rios, às 19h, então acho que haverá um público mais adulto. Felizmente estou com uma agenda lotada de debates nos próximos meses, porque (também) vivo disso. E os diferentes públicos e horários garantem que as discussões não fiquem requentadas. Há quinze dias, por exemplo, tive um debate com André Fischer, na Fnac em Pinheiros, aqui em SP, para um público quase que exclusivamente LGBT; então pude falar da representatividade não apenas minha (porque afinal escrevo pouco sobre o tema), mas de novos autores que têm feito mais pela "causa", como  Gabriel Spits,Vinícius Grossos, Augusto Alvarenga e Danilo Leonardi. 

Debate na Fnac com André Fischer e os queridos do Põe na Roda. 
Estou mantendo a aba "agenda" aqui do blog atualizada, com todos os eventos que vão sendo confirmados. Confira lá, veja quando aparecerei perto de ti, e não me deixe só. 


Sorvendo o sol de Teresópolis. 


18/04/2017

ESTRADA


Não sei porque colocaram só meu sobrenome, mas achei chique. 

Finalmente o ano está começando para mim. Já voltei para São Paulo e semana que vem começo essa turnê por seis idades do Rio, a convite do Sesc, na companhia da querida Ana Paula Maia. No meio disso também haverá um debate em Iguape, e terminando Rio sigo para Santa Catarina. Por enquanto já são 14 debates marcados até agosto. Conforme as informações forem sendo confirmadas, atualizo na aba "agenda", aqui no blog.

Mas antes, neste final de semana mesmo, estarei numa mesa na FNAC de Pinheiros, a convite do André Fischer e promovida pelo Hornet, devo ler trechos do livro novo, de repente apresentar outros autores bacanas de literatura LGBT, e responder perguntas do público. Logo depois de mim tem mesa com os meninos do Põe na Roda e depois deles a Banda Uó, então vai estar bem divertido. Cola lá.

Aqui:


TARDE DE DESCOBERTAS

Sábado, 22 de abril de 2017, das 13h às 18h

Fnac Pinheiros

Pça dos Omaguás, 34, Pinheiros, São Paulo

Entrada franca

§ 13h - Encontro Literário - Com Santiago Nazarian. O escritor apresenta em primeira-mão, com leitura de trechos, seu mais novo livro, Neve Negra, a ser lançado em julho.

§ 14h - Descobertas em Aplicativos - Estreia de vídeo + bate papo com integrantes do Põe na Roda. O canal do YouTube Põe na Roda tem mais de 500 mil seguidores e a cada semana apresenta novos vídeos, sempre com muito humor, sobre algum aspecto da vida LGBT. Os criadores do canal Nelson Sheep e Pedro HMC estarão presentes para lançar e comentar um novo vídeo sobre descobertas em aplicativos.

§ 15h - Banda Uó - Lançamento do novo clipe. A cantora Candy Mel vai bater papo com fãs e comentar bastidores e cenas do novo clipeSauna, que será lançado em breve. Haverá sessão de autógrafos do DVD Turnê Motel – Ao Vivo no Cine Jóia.

§ 16h – Contação de Histórias para crianças sobre o respeito às diferenças. A Cia do Liquidificador, com as atrizes Fernanda Mariano e Letícia Calvosa, apresenta a história de uma linda princesa baixinha e sua visita a um reino onde só existiam pessoas altas.

§ 17h - Waiting for B. - Première do documentário sobre fãs de Beyoncé, vencedor do Coelho de Ouro no 24º Festival MixBrasil, que será lançado no Now no dia 27 de abril. Os diretores Paulo César Toledo e Abigail Spindel acompanharam os fãs de Beyoncé que acamparam por dois meses no estádio do Morumbi aguardando o show da diva. O resultado é um registro carinhoso e divertido sobre a nem sempre saudável relação entre fãs e seus ídolos e apresenta um retrato da vida de jovens gays da periferia. Diretor e personagens estarão presentes para apresentação e bate papo sobre o filme.


16/04/2017

PÁSCOA TRADICIONAL

Familinha unida no local de trabalho do tio. 

Feriado de Páscoa e quatro anos de namoro/casamento. Aproveitei para vir a Maresias, onde Murilo está comandando a cozinha do Guató, e convidei minha irmã, cunhado, sobrinha.

Devido à minha inclinação sorumbática, sou conhecido por minha sobrinha como o “Tio Vampiro”; Murilo é apenas o “Tio Murilo”. Ainda que conservadores contestem, somos um casal, pelo menos é nisso o que minha sobrinha acredita.

O casal e a coelha aos olhos da menina... SQN. (Gente, vocês são muito ingênuos. Isso é apenas uma fanfic ilustrada. Desenho meu, fingindo que é desenho dela, retratando nós três e o capeta que nos abençoa.)

Assim como nunca precisamos da aprovação do estado, nunca precisei enfrentar a sociedade. Nasci numa família de artistas e intelectuais, bairro nobre de São Paulo, religião nunca foi argumento, o padrão nunca foi  desejado. Não posso dizer que nunca sofri preconceito porque a escola existe para isso, o bullying básico do ensino fundamental. Seria ingenuidade também pensar que a homossexualidade assumida nunca foi uma questão na minha carreira literária, ainda que nunca tenha sido o tema central dos meus livros – mas talvez tenha aberto portas quase tanto quanto tenha fechado; de certa forma você se torna um representante. Nos tempos atuais de patrulha ideológica, ser gay é o que me salva. Branco, paulistano, bem nascido, a homossexualidade me dignifica em minoria.

Ainda assim algumas batalhas da militância parecem tão alienígenas para mim; ter de argumentar sobre nossas orientações pessoais com gente que se apoia na Bíblia, que diz “não tenho nada contra, mas não gostaria que meu filho visse na TV” - porque, pra esse povo, o filho ver traição, assassinato, mulher apanhando na novela tá de boas, isso nunca é uma questão. A gente tem de descer muito o patamar do discurso, expor o que deveria ser básico para tentar se comunicar com esses seres primitivos. (Na minha família nem se vê novela, para começar...)

Da mesma forma que achei absurdo o casal gay que está enfrentando protestos de moradores de uma rua em Curitiba, que não querem que eles construam uma casa lá, achei desproporcional, por exemplo, o depoimento do Fernando Grostein de Andrade (diretor de “Quebrando o Tabu” e irmão de Luciano Huck), que aos 35 anos de idade assume publicamente a homossexualidade no Youtube, para inspirar outros (como se não houvesse já milhares de canais de gays assumidos com metade da idade dele). Quando leio os comentários de matérias sobre esse assunto na internet parece que estou em outra época, em outro mundo. 

Jesus não ressuscitou, coelho não bota ovo e órgão excretor não reproduz!

“Nenhuma mãe gostaria de ter um filho gay” – esse povo toma a (parca) experiência pessoal como verdade absoluta. Não, muitas mães não se importam se o filho é gay ou não; há até aquelas que PREFEREM permanecer como a grande mulher na vida do filho. “Órgão excretor não reproduz” – verdade, assim como um casal de idade também não; e casais héteros não fazem sexo anal? E todo gay é obrigado a fazer?

Eu não vivo mesmo no mesmo universo que essas pessoas – alienação minha?

Voltando à família, e à família tradicional, que família que não tem um tio veado, uma tia sapa, uma ovelha negra, um urso pardo? Isso é o tradicional.


Há uns dois anos me ocorreu e perguntei pra minha irmã: a Valentina acha que o Murilo é o que, meu amigo?

“Claro que não, é o namorado do Tio Vampiro.”

“E ela não estranha?”

“Ela já nasceu nessa realidade. Para ela é o normal. Ela ainda vai aprender que isso é estranho para alguns.”

Tio Murilo
Parece que ainda não aprendeu. Prestes a completar 5 anos, Tio Murilo já estava presente no aniversário de 1 ano dela, e nós não somos os únicos. Com pais artistas, os amigos da família formam casais de todos os tipos: malabaristas, mulheres barbadas, engolidores de espada, cuspidores de fogo. A escolinha particular em Pinheiros segue o mesmo enfoque.

Nesses dias aqui em Maresias, ela teve sim, um primeiro estranhamento. Com Murilo ainda em São Paulo, comprando produtos para o restaurante, minha irmã explicou que ele não tinha chegado, que estava no meu apartamento. Aquilo já foi uma família moderna demais para ela:

“Mas por que eles moram separados?!”


(E não, isso não é fanfic gayzista.)


Enquanto isso, Tio Murilo recebe visita ilustre na cozinha do Guató. 


29/03/2017

GANHAMOS NOLL


(João Gilberto Noll, 1946-2017)

Perdemos Noll. Acordei nesta quarta com mensagens me contando, Rodrigo Casarin do Uol me pedindo um depoimento. Ele foi encontrado morto em sua casa noite passada - sem maiores detalhes.

Com João Silvério Trevisan

Ele era o maior de todos. Vivi a obra dele. Conheci da melhor maneira, acho, quando me mudava para Porto Alegre, em 2000, lendo "Rastros do Verão", novela sua de 1986, encontrando a cidade muito como o personagem do livro. Andava pelas ruas com meu namorado da época, procurando os cenários descritos no livro, o prédio amarelo de três andares na rua Riachuelo...

Anos depois percebi que eu estava chegando a algum lugar quando dividi a primeira mesa com ele. Nos conhecemos num jantar em São Paulo, na casa da agente dele, Marisa Moura, em 2005. Não pude deixar de me assumir como fã, contei que "Meu Amigo" era meu conto favorito de todos. Ele me olhou com aquele olhar perdido e disse: "Sabe quem nem me lembrava desse conto? Mas você falando agora, acho que é o meu também..."

Com Moreno Veloso, em Buenos Aires. 
Nos encontramos mais meia dúzia de vezes depois disso; mediei uma mesa com ele na Balada Literária em 2009, dividimos outra com Moreno Veloso no Malba em Buenos Aires, em 2011; entrevistei-o para a revista Simples; e ainda tivemos uma noitada bebendo nas sarjetas em Ouro Preto, em 2013. 

Ouro Preto. 

Quando me mudei para Florianópolis, em 2010, passei antes em Porto Alegre, e o encontrei por acaso caminhando pelas ruas do centro, lá perto da rua Riachuelo, achei um bom presságio...

Acho que nosso último encontro foi aqui em São Paulo, em 2015, almoçamos eu, ele e Marcelino no Ritz (onde tiramos a foto que abre este post). 

De longe é o autor brasileiro que mais me influenciou. Por ser o primeiro que li, "Rastros do Verão" é seu livro que mais me marcou, mas tem ainda "Hotel Atlântico", "Lorde", "Acenos e Afagos", difícil escolher; tenho as obras completas, quase todas autografadas. 

Com nossa editora na Record, Lívia Vianna. 

"O Meu Amigo" é um conto de seu primeiro livro, "O Cego e a Dançarina", que também é meu livro de contos favorito da vida (seguido por "Paraísos Artificiais", do Paulo Henriques Britto). Qualquer um que conhece razoavelmente minha obra pode identificar a influência desse conto (e do Noll de maneira geral); a ambiguidade sexual, o tom falsamente juvenil; a maneira de falar do amor transbordando de ódio. 

Livro juvenil dele ilustrado pelo Alexandre Matos. 

Gosto de pensar que eu tê-lo lembrado desse conto possa ter gerado "Sou Eu", novela juvenil dele de 2009, ilustrada pelo meu irmãozinho Alexandre Matos (que já tinha ilustrado meu "O Prédio, o Tédio e o Menino Cego"), e que tem muito do clima do conto...

Com Alê. 

Mas melhor do que falar sobre o conto, melhor do que qualquer lembrança que eu possa ter do Noll é dividir um pouco da literatura dele, para quem não conhece. Transcrevi na íntegra esta manhã o melhor conto, do maior de todos, "Meu Amigo", do João Gilberto Noll.






O MEU AMIGO

O meu amigo tinha os olhos omissos, olhava tudo mas não via nada. Eu lhe perguntei: você conhece a piada do Adamastor? Ele respondeu que não, que não queria saber de piada nenhuma, muito menos a do Adamastor. Ele me irritava. Eu faria onze anos no dia seguinte e não quis convidá-lo. Você é mau, eu disse. Ele não se inquietou com essa afirmação, continuou como sempre tinha sido: mau. Até que gritei, reage, diz alguma coisa, faz alguma coisa, não fica aí plantado feito uma coisa sem sangue. Eu não gostava dele, eu odiava ele. No entanto não ficava um dia sem vê-lo, ia pra beira do lago onde ele costumava ficar as tardes inteiras ruminando um silêncio nojento. Eu ficava falando sozinho porque ele fazia tudo pra não me ouvir. Filho da puta. Ele não ouvia, ele não ouvia nada. Nem sequer me olhava. Permanecia horas inteiras olhando pra água do lago, mudo, cedo, surdo. Imbecil. Ele era um pouquinho mais velho do que eu mas já tinha uns fiapos em cima do lábio, coisa que me irritava a ponto de eu sonhar com esses fiozinhos. No sonho eles apareciam sobre o nariz dele – imagem tão grotesca que eu me finava de rir e me acordava mijando de rir na calça do pijama.
                Uma tarde choveu muito forte e mesmo assim nós dois não arredamos pé da margem do lago, encharcados e lambuzados de barro, de folhas de plantas, de um tédio pastoso. E ali ficamos até as sete horas da tarde. Final do verão e das férias, as bicicletas deitadas sobre a grama. Eu tinha um horror dele, desejava a sua morte repentina, sem lhe dar chance de recuperar um único suspiro. Mas na época eu não sabia que desejava isso, eu achava apenas que não queria mais vê-lo nunca mais. Ele me desprezava. Eu nunca entendi por quê. Eu gostava de entrar no lago, fingir que nadava, mas ele não encostava na água. Ele ficava na margem e quando eu ficava de costas eu tenho certeza de que ele me olhava, a minha nuca se arrepiando, o sol indo embora. Quando eu virava pra ele ele estava olhando para o céu escurecendo. Canalha, eu dizia em silêncio. Não havia mais ninguém no mundo, só a indiferença dele, aquele desprezo vindo de uma região escura do seu caráter, coisa de gente ruim, perversa. Acho que a marca mais visível de sua superioridade era a cicatriz que ele mantinha na face esquerda em segredo, sem jamais revelar sua origem. Uma luta de punhais? E de que adiantaria perguntar? A minha mãe achava ele muito esquisito, isso não é amizade pra você, um menino que não fala, não dirige os olhos a ninguém.
                De concreto eu sabia apenas que ele vivia sozinho com a mãe, que o pai tinha fugido com uma mulher de maus costumes. A mãe não saía de casa, diziam que louca. Algumas línguas mais afoitas comentavam que ele era um bastardo, filho apenas do pai desaparecido e que mantinha relações inomináveis de tão escusas com a mulher com quem vivia. Mas a verdade é que nunca ninguém entrou no quarto em que os dois viviam fazia treze anos, na Pensão Paraíso. Para alguns, essa mulher jamais poderia ser sua mãe porque era uma japonesa, eu não sei, eu nunca a vi, mas sei que esse negócio de chamar qualquer pessoa com traços orientais de japonesa é coisa de quem não sabe distinguir um japonês de um chinês, ou de um coreano, ou de um vietnamita. Dizem que ela era linda, pele lisa como porcelana, dizem os mais poéticos que ninguém poderia dar a sua idade, uma mulher irreal. O que chamavam de loucura seria essa sua beleza? E por causa dessa mulher tão misteriosa eu o invejava do mais fundo de mim e desejava a sua morte cada dia com mais convicção. E mais o invejaria se descobrisse que essa mulher não passava de imaginação da cidade, que essa mulher nunca tinha existido, que essa mulher tinha nascido do mistério dele. Se ele fosse um menino sem mãe ou sem nenhuma mulher e vivesse na mais miserável das solidões eu mais o odiaria. Se ele fosse um ser que tivesse vindo do nada e que vivesse para nada eu era capaz de afogá-lo no lago para sempre, e tenho certeza de que a cidade inteira ficaria satisfeita e fingiria ver no afogamento apenas um acidente e eu seria o agraciado com uma eterna gratidão por ter sido o transmissor da notícia, diria para o padre Eusébio, para o prefeito, para o delegado, e ninguém iria procurar o corpo argumentando que o lago é muito perigoso, arriscado alguém descer nas profundezas daquelas águas, e alguns dias depois o corpo apareceria nas margens todo comido por peixes vorazes e a cidade dramatizaria um olhar de luto e acorreria ao enterro para chorar o que no fundo era um festejo.
                Mas eu não o matei. E aconteceu o imprevisto. Eu chorava na beira do lago por me sentir um covarde, por não conseguir a coragem. Eu o esperava ali havia três horas. Até que apareceu um negro alto e corpulento, completamente desconhecido, caminhando displicente pela margem do lago. Perguntei as horas para ele e ele respondeu que tinha fugido do hospício de Lagoassim, uma cidade vizinha, e que agora iria caminhar pelo mundo até morrer. Até morrer? – perguntei. Até morrer – respondeu. E ficou um silêncio turvo. E como ele tinha um olhar de louco, para quem a gente poderia contar qualquer segredo comprometedor porque se ele o revelasse ninguém acreditaria, contei para ele toda a história do meu plano de assassinato, contei tintim por tintim do meu ódio daquela pessoa que estava custando a aparecer naquela tarde. Eu falava cuspindo na areia e nas pedras, eu cuspi tanto que cheguei a escarrar uma gosma de sangue, e o olhar do homem arregalava-se a cada palavra minha, e sua boca abria-se lentamente de um prazer insuportável e a sua expressão era de um homem em vias de encontrar sua missão, e o céu arroxeava-se, moía nuvens, pesava como prestes a desabar. E o homem disse eu tenho uma corda aqui no bolso, com essa corda é mais fácil de matar ele do que dentro do lago, e o homem tirou a corda do bolso e me mostrou e me deu ela e minha mão segurou ela como quem segura um negócio precioso, e ele tirou a corda da minha mão e disse é assim ó, é assim que se estrangula, quer ver? e foi enrolando a corda em volta do meu pescoço e eu disse eu quero ver, me mostra, me ensina pra quando aquele monstro chegar eu estar preparado, me ajuda eu gritei. E ele apertou com uma força brutal as duas pontas da corda e eu senti o primeiro pingo d’água cair do céu e entrar na minha boca. 




21/03/2017

NOVO BLOG VELHO



"Na minha opinião, teu blog merece uma nova cara, mais clean. Acho meio brega. Não combina com tua idade e tua maturidade profissional." Quando a gente ouve isso de um antigo dealer, é hora de mudar. I trust my dealer, mas não tenho o menor talento para mexer nessas coisas. Então aproveitei uma passagem do Murilo por São Paulo para explorá-lo. Os jovens já aprendem isso no berço.

Também já ouvi muito: "Quem usa blogspot hoje em dia?" Ou mesmo "quem ainda tem blog?" Bem, sou escritor, não preciso ter compromisso com as tendências, nem mesmo com a atualidade. O blog já tem treze anos! Só por isso gosto de mantê-lo; sinto-me no direito de ser vintage. Serve antes de tudo como um registro da minha trajetória, para mim mesmo... ainda que eu sempre me constranja ao ler meus textos de uma década atrás. Comecei quando publicava meu segundo livro, como uma forma de me aproximar dos leitores, divulgar melhor o que eu estava fazendo. Chegou a ter um belo acesso lá por 2005, quando começou meu hype; chegou a atrair centenas de haters, quando eu permitia comentários...

Hoje em dia Facebook e Insta já cumprem muito das funções imediatas que o blog tinha antigamente: comentários ligeiros sobre livros e filmes, frases de efeito e fotos de ocasião. E as discussões mais acaloradas sobre literatura prefiro levar a veículos pagantes, como a Folha. Mas ainda valorizo esse espaço como um mural extremamente pessoal, de temas que talvez só interessem a mim.

Assim, aproveitando a recauchutada no visual, atualizei também as abas de "Obras", com o livro novo, e "Agenda", com os primeiros eventos que já estão marcados para este ano.  Em breve posto mais novidades, que também não são lá grande coisa.

12/03/2017

IT'S ALIVE!


Sai no próximo mês, pela coleção de clássicos da Zahar, uma edição de Frankenstein, de Mary Shelley, com tradução minha. O volume traz não apenas o texto integral (da edição final do livro, de 1831), mas dezenas de notas sobre a história e uma apresentação, também escrita por mim, analisando a influência do livro e suas adaptações na cultura pop.

Foi um trabalho difícil - na véspera de Natal ainda estava pesquisando sobre territórios turcos no século XIX -, mas gostei muito de fazer. Traduzo muita coisa ruim, muita coisa boa porém fácil, então sempre é bom encontrar novos desafios, que exigem mais de mim como tradutor.

Nesse caminho também acabou de sair "Eu Estou Pensando em Acabar com Tudo", primeiro romance de Iain Reid, canadense que já havia publicado livros de memórias e colabora na New Yorker.

É um thriller estranhíssimo de um jovem casal de namorados viajando por estradas do interior, para conhecer os pais do rapaz. Durante todo o caminho a menina "pensa em acabar com tudo" e o texto é recheado de imagens estranhas, arrepiantes, que deixam o leitor desconfortável, mas sem descambar de vez no horror. Tive de reler inteiro depois de terminar, para ver se havia entendido direito o plot twist. Recomendo bem.


A edição é da Fábrica 231, selo de entretenimento da Rocco (não sei exatamente por que, na verdade, é literatura e poderia ter saído pelo selo principal). A capa dura e o acabamento me fazem pensar que a Darkside está elevando o padrão nesse segmento - literatura de gênero, especialmente terror -; os livros deles são lindos (embora muitas vezes as traduções sejam sofríveis). Ainda quero trabalhar com eles, seja como tradutor, seja como autor.

E se ano passado as traduções foram poucas e boas, este ano está uma merda. Editoras todas falidas, ainda estou esperando meu ano começar...

E não se esqueçam, amiguinhos, em julho tem meu terror "Neve Negra", pela Companhia das Letras. Será que o ano não começa antes disso?







06/03/2017

NEVE NEGRA



Deu este final de semana na Folha, então finalmente posso divulgar: “Neve Negra” é meu novo romance, que sai no inverno pela Companhia das Letras, já com direitos para cinema vendidos para a RT Features - produtora fodástica que tem no currículo, entre outros, “A Bruxa” e “Love”, de Gaspar Noé.

No livro, após uma longa viagem, um renomado artista plástico volta para a casa, na noite mais fria do ano, na cidade mais fria do Brasil, na Serra Catarinense. Ao despertar de um sonho, seu filho de sete anos também desperta suas dúvidas sobre a paternidade, que se estenderão numa longa madrugada de pesadelos.

Há algo de errado com meu filho. E não posso dizer que me surpreendo. Esperei a vida toda por isso. Desde o primeiro dia, desde antes, espero algum sinal de anomalia. A mancha vermelha na testa desapareceu, então esperamos os primeiros passos. Ele engatinhou e se levantou, então esperamos as primeiras palavras. Alvinho falou – acho que foi algo previsível como mamá– e esperamos as convulsões. A cada frango servido, esperava o osso da sorte a travar-lhe a garganta. Sempre que eu voltava de uma viagem, sempre que, de longe, perguntava sobre ele, esperava, temia, ansiava pela má notícia que acreditava ser inevitável recair sobre meu filho.

Já flertei bem com o thriller e o suspense em livros como "BIOFOBIA" e "Feriado de Mim Mesmo" (os dois também vendidos para o cinema), e “Neve Negra” é um parente próximo desses, na estrutura minimalista de um cenário contido, com poucos personagens. Mas esse é assumidamente um livro de TERROR, ainda que um terror psicológico, mais onírico do que fantástico. Foi um convite do Joca Terron, de escrever um terror literário para ser lançado pelo selo principal da Companhia das Letras. E se há algo que entendo é de terror (bem, de terror e de coelhos... e há sim coelhos no livro novo).

A migração da Record, onde publiquei os últimos cinco livros, para a Companhia, se deu naturalmente, sem rusgas, por esse convite. O texto já está escrito, entregue, discutido; agora está sendo ilustrado – há um livro infantil dentro do romance, que o protagonista lê para o filho. O tema central é a paternidade e as paranoias que a rondam (estou perdendo a infância do meu filho. Há algo de errado com ele? O filho é mesmo meu?). Também foi a oportunidade de retratar o raro cenário de neve brasileira.

“Está caindo neve...”, meu filho diz de costas para mim, com a cara encostada no vidro.
“Viu que legal?” Tento me lembrar se ele já viu neve antes, se tivemos neve por aqui nos últimos anos, se eu estive aqui enquanto a neve estava. Mesmo na capital da neve no Brasil, é preciso foco; uma piscada e ela pode derreter. Capaz de ele ter perdido enquanto dormia. Perdeu a neve enquanto assistia TV. Perdeu a neve enquanto tomava banho, lia um livro, colava bolas de algodão numa cartolina da aula de artes da escolinha, reproduzindo um cenário imaginário de inverno.
[...]

Se a neve nunca derretesse, os passos de meu filho permaneceriam assim, congelados, infantis. Mas a neve derreterá e não sobrará nem rastro de por onde aquele menino passou. Piso exatamente sobre, alargando seus passos até minha maturidade. Será que um dia seus passos serão indistinguíveis dos meus? Será que sobreviveremos para não distinguir?

A Neve Negra deve cair por aqui em julho. 

VIAGENS DE AGOSTO

Eu e meu jerimum. Depois de BH, Flip, Bahia, teve Minas de novo: FLIF, um festival do Instituto Federal do Sul de Minas em que EU fui o auto...