19/08/2023

COMO FAZER UM LANÇAMENTO DE SUCESSO!


Segundo semestre é um Inferno de lançamentos.

Eu tento, sempre tento fazer no primeiro. Insisto com a editora. Mas mesmo com o livro entregue um ano e meio antes, parece que fica sempre pro segundo tempo...

(Daí a gente faz lançamento no começo de agosto e ninguém da Editora consegue ir porque tem Flipelobrasiltodo.)

Eu mesmo tenho tentado acompanhar, prestigiar, divulgar e comparecer aos lançamentos de amigos-colegas, gente de quem eu gosto. Tá difícil.

Mas tenho um ódio mortal quando vejo aquela fila imensa com gente dizendo: “Ai, não consegui ir no seu, mas vou ler...”

Tenho intimado: “Então compra!” Estamos numa livraria afinal, meu livro exposto. “Vai lá comprar que guardo seu lugar aqui na fila.” O povo nunca compra.. (“Não posso estalar os dedos e fazer as pessoas gostarem de mim.” – digo parafraseando meu Veado, que tava parafraseando o Thanos dos Vingadores, para quem não pegou).

Hoje encontrei o Mansur Bassit no supermercado. Ele veio com aquela: “Ai, não consegui ir... Mas vou ler.”

“Então compra! Tá vendendo aqui!” (Não resisti.)

“Teu livro tá vendendo no supermercado?”

“Não... Mas me compra um quilo de arroz, pra compensar...”

Ele riu constrangido, tentando fugir. A classe média paulistana pressionando a fila para comprar sua linguiça Seara Gourmet...

Deixo então aqui as dicas para quem está lançando livro. Tenho experiência. Tenho experiência em fracassos. Aprendam com o tio:

- Lancem no PRIMEIRO SEMESTRE. Segundo semestre é um Inferno de lançamentos, eventos. Pós-carnaval geralmente não tem NADA (mas parece que as editoras ainda não entenderam isso).

- PAREM COM ESSA HISTÓRIA DE LEITURA, bate-papo em lançamento. Eu sei, eu mesmo QUASE fiz, mas me toquei depois que fui no lançamento badalado, lotado, divertido do Joca Reiners Terron. Todo mundo bebendo, conversando, uma fila enorme para ele autografar. Daí: “Vamos desfazer a fila, fazer silêncio, ficar bonzinho que o autor vai ler por uma hora.” Em lançamento o povo quer passar, pegar o livro e ir embora. Ou então conversar com os amigos-colegas-pares. O livro a gente lê em casa.

- Se querem que o povo fique, ofereçam bebida.

- Tentem fazer dedicatórias personalizadas, que digam respeito à pessoa que está levando o livro, não a você ou ao seu livro. (Nem sempre eu consigo...) Assim a pessoa se sente mais valorizada por ter ido.

- E COMPAREÇAM aos lançamentos dos colegas-amigos-queridos, para depois poderem reclamar se não forem no seu.

(O meu foi bacaninha, sim, os amigos fizeram a diferença, mas poderia ter sido melhor; sempre poderia ser melhor...)

13/08/2023

HOJE EU TÔ FELIZ, MATEI O PRESIDENTE

Foto por Ambooleg

Valeu meeeeesmo a todo mundo que foi no lançamento ontem, no Hitch. Acho que a ideia deu super certo, fazer num bar gostosinho, que o pessoal pudesse ficar, beber, sentar, conversar (e comprar o livro).  João e todo o pessoal do Hitch (e da Dois Pontos) foram super acolhedores; acho que o povo se sentiu em casa. 

Ambooleg é amigo de décadas e fez minhas primeiras fotos de orelha/divulgação, lá em 2003
Casalzinho lindo. 

Leila foi minha querida editora na Melhoramentos (fizemos o infantil do Dragão juntos)

O grande Scott. 

Outro casalzinho lindo. 
Staut, Mário e André estavam em casa. 

Familinha. 

Muita gente bacana, muita gente bonita, gente que fazia tempo que eu não via, gente que eu nunca tinha visto, gente que eu só conhecia das redes sociais. Não consegui tirar muitas fotos, porque tava na função de autografar e receber o pessoal (e geralmente quem faz as fotos nos meus lançamentos são meus namorades, mas como agora não tem...). Mas peguei muita foto de gente que tirou, compartilhou, me mandou. Fiz um reels bacana no Insta. 

Lindo ter a Márcia Tiburi de volta. 


Só gente fina: Daniela Pinotti, Marcelo Maluf, Andrea del Fuego, Natália Timerman e Hanaide Kalaigian. 


Grandes cineastas

O querido Clayton
Julián Fuks e Natália

Valentina Nazarian foi a sensação da festa. 

Tati é amiga há quase 30 anos e tá cada vez mais linda.

Agora não tem mais NADA marcado, evento nenhum. Mas tem saído muita matéria, entrevista e a divulgação continua. Quem não foi e quiser comprar o livro autografado comigo, é só me mandar mensagem, que eu envio para todo o Brasil. (Posso vender os três mais recentes, da Companhia: Veado Assassino, Fé no Inferno e Neve Negra). 

(Só que não vai com drinque... O drinque exclusivo era só ontem. O povo disse que gostou: era vodca, Coca Cola sabor café e limão - basicamente o que o personagem bebe no livro antes de matar o presidente - não é lá grande spoiler.) 

O querido Moacyr comprou os três ontem. 

As queridas da Dois Pontos chegaram antes das 4 e ficamos até depois das 8 autografando. 
Drinques com o grande Marçal. 


E terminei a noite num boteco com o Marcelino e amigos. 

       



07/08/2023

TARDE DE AUTÓGRAFOS




No próximo sábado faço minha tarde de autógrafos do Veado Assassino. É a primeira sessão de autógrafo que faço em... SEIS ANOS e, por enquanto, meu único evento presencial este ano (vai ser difícil rolar algo, com um livro com esse título/tema). Escolhi um bar bacana, de um amigo, para o pessoal poder sentar, conversar, beber, ter mais tempo – começa às 16h e vai até umas 20h. É na Cardeal quase com a Fradique. Espero todos lá.

O livro tem tido uma ótima repercussão - vantagem de ter feito um livro curto, rápido de ler, além do tema-título de impacto. A Folha deu uma matéria meio maldosinha, mas que vende bem o livro. Também gravei entrevistas com o Metrópoles, Entrelinhas, Revista Fórum, Podcast Histórias Diversas e o Globo. Mas o mais bacana tem sido como o livro está ecoando bem com os colegas escritores. Já temos aspas bem boas de gente que admiro: 

"Santiago Nazarian coloca em colisão duas vozes, a de um adolescente que fetichiza o ódio e a de uma instância que perscruta os seus atos, ambas as vozes tão trepidantes e incertas quanto a história recente do país." – Andrea del Fuego

“Um livro selvagem. Não dá para imaginar para onde está indo até os segundos finais.” – Antonio Xerxenesky

 

“Hilário, engraçadíssimo, mas me pegou de um jeito...” – Chico Felitti

 

“Sempre gostei da sua prosa ácida e sem concessões. Mas o que ele faz nesse novíssimo Veado Assassino vai além, é um absurdo, um atrevimento, até pra ele. Santiago escreve nosso tempo como poucos.” - Marcela Dantés.

 

“A literatura de Santiago sempre teve um pé na anarquia, mas também nos mostrou um autor capaz de tecer uma narrativa nos moldes clássicos com grande domínio, como em Fé no Inferno. Com Veado Assassino, ele apenas cimenta a sua posição como um dos mais originais escritores brasileiros.” – Marcelo Nunes

 

“Nazarian atirou pedras para todos os lados e foi certeiro em todos os arremessos, de modo a que não há aqui nenhuma vítima que não seja também um algoz. O mais legal é a leitura precisa e assustadora que o livro traz sobre como a realidade não assistida de toda uma nação afeta exatamente aqueles que são a base dessa mesma nação no futuro. Para ler num tiro só. E na testa.” – Alessandro Thomé

 

“Este Veado Assassino é um Nazarian completo, ainda mais por ser escrito somente como um diálogo, do começo ao fim. É algo difícil, que fazem bem somente grandes escritores. Um romance muito atual, de leitura rápida, contundente como um golpe de esquerda e com um certo sabor de vingança - ou uma cusparada na cara da história recente do Brasil.” – Thales Guaracy

 

“Veado Assassino é muito mais do que apenas a história de um adolescente revoltado. É sobre o Brasil de agora, totalmente corroído, machucado e com as cicatrizes totalmente expostas.” – Ney Anderson

 

“Esse romance-diálogo do Santiago já pede pra subir no palco, com uma dramaturgia irada.” – Reynaldo Damazio

Se você está interessado por esse livro, tenho duas coisas iniciais a dizer: 1) fuja das resenhas, dos textos preliminares, dos posts nas redes sociais, quaisquer textos sobre ele; 2) não perca tempo, comece logo.” – Luiz Biajoni. 



26/07/2023

SINÉAD



Podem me chamar de colonizado. Mas pra mim, antes de Gal, de Bethânia, antes mesmo de Rita, tinha a Sinéad...

Comecei a ouvir Sinéad O'Connor na adolescência. Eu já era fã de Annie Lennox, Debbie Harry e conhecia aquela "careca maluca" pelo hit meloso, Nothing Compares 2U. É um bom hit, mas ela tinha tantas, tantas coisas melhores, escritas por ela mesma. Uma voz absurda. Um talento imenso como compositora. Uma mulher linda, com um visual único. Tornou-se uma das minhas. Parte do que eu sou.
 
Abusou da minha paciência, é verdade. Declarou-se lésbica, depois voltou atrás. Sacerdote, Rastafari, Muçulmana. Ameaçou se matar dezenas de vezes, tantas vezes quanto disse que ia se aposentar dos palcos. Não dava para levar a sério. Mas ela NUNCA se queimou no que interessava: sua música.

Tem coisas absurdas de boas, outras nem tanto, mas ela nunca lançou um disco realmente ruim. Mesmo o último de estúdio - "I´m Not Bossy, I´m the Boss", de 2015, compensa a voz comprometida com várias camadas vocais e ótimas composições.
 
Nunca consegui ver ao vivo. Comprei ingresso pra show dela em 2016 já sabendo que ela ia cancelar. Há muitos anos já esperava por uma notícias dessas. Era uma mulher surtada - mas parte da genialidade dela estava nisso aí.
 
Tristeza. Mas que sirva para ela ser mais ouvida. Infelizmente algumas das melhores dela não estão no Spotify, mas deixo o link de uma playlist das minhas favoritas: 



11/07/2023

MINHAS FÉRIAS


De volta de uma viagenzinha delícia de 5 dias em Ubatuba. Um amigo me convidou, coincidiu de minha mãe e minha sobrinha estarem numa praia ao lado, então me dividi entre duas casas, duas praias e duas piscinas...
Com o anfitrião, Abílio. 


Ando viajado bem pouco. Mas felizmente o trabalho melhorou bem nos últimos meses e tá dando para dar umas breves fugas (ainda que eu tenha tido de trabalhar um pouco, mesmo na praia). Antigamente, quando entrava uma bolada de dinheiro eu ia pra RÚSSIA! ARMÊNIA! JAPÃO! Literalmente... Agora não tenho mais essa coragem, depois do sufoco financeiro dos últimos anos.

A que pena seria.


 
Mas é bom que também não tenho mais tantas vontades... (“No tengo ganas.”) Tem gente que trabalha a vida toda, constrói uma carreira, para enfim poder viajar. Mas daí não tem mais tanta graça. Melhor aproveitar enquanto se é jovem... (e COMO eu aproveitei... quando eu podia trepar-beber-comer sem remorso...)


Volto agora pra SP, trabalhando nas prés do Veado (sim, AINDA tá em pré. O livro sai oficialmente em 27 de julho), tem ainda umas traduçõezinhas, o júri de um prêmio e as leituras críticas, que andam bem frequentes. Que não falte mais trabalho.

Abrindo as comemorações...
  

(Lembrando, a noite de autógrafos em SP será dia 12 de agosto, sábado, no Bar Hitch, na Cardeal).



Com a velha na praia. 






29/06/2023

5 conselhos para o escritor iniciante


(Não é indireta/shade pra ninguém específico, é um monte de coisas que observo há tempos, lembretes para mim mesmo, muita coisa que eu mesmo já fiz nesses 20 anos de carreira, que às vezes ainda não resisto, mas de que não me orgulho...)
 
1. As redes sociais estão aí para você divulgar seu livro e seus leitores saberem do que você está fazendo. Quem quiser saber que te siga. Então não é preciso mandar mensagens privadas ou emails contando tudo o que você está fazendo, o que disseram sobre seu livro, pedindo para as pessoas comprarem. Reserve isso a uma mensagem pessoal ou outra, para convidar para um lançamento ou algo assim. Da mesma forma, JAMAIS marque outros escritores numa publicação sobre seu livro, a não ser que eles tenham trabalhado ativamente nele.
 
2. Mensagens privadas de leitores deveriam permanecer privadas. Se o leitor te manda uma DM elogiando o seu livro, ele quer que só você saiba. Se ele quisesse tornar isso público, ele postaria nas redes dele (e ele DEVERIA postar nas redes dele, se ele quer ajudar o autor).
 
3. Direitos vendidos para cinema/TV não significam que “MEU LIVRO VAI VIRAR FILME!” (Sempre que leio alguém postar isso abro um sorrisinho melancólico: “Não sabe de nada, inocente”. Já vendi tantos livros, tantas vezes, já vi tantos amigos vendendo – às vezes por uma boa grana, às vezes só com promessas -, mas para o filme ser produzido mesmo é ooooutra batalha.)
 
4. Seu livro nunca vai ser tão importante para NINGUÉM quanto é para você, nem para a editora. Então é VOCÊ que tem que fazer o máximo e esperar o mínimo (é difícil, eu sei, sei bem...).
 
5. SORRIA nas fotos de divulgação, ou vai acabar igual a mim... (agora é tarde demais para mim, mas você ainda pode sorrir, meu jovem...)

12/06/2023

LIVRO NOVO



Meu Veado está saindo do forno...

Recebi aqui os primeiros exemplares de Veado Assassino, meu novo livro pela Companhia das Letras. É uma novela especulativa, de um adolescente não binário que mata um presidente fascista...

Sempre é emocionante receber o livro físico, parece que minhas ideias ocupam um lugar no mundo. E bem ou mal eu sempre consegui viabilizar as ideias mais esdrúxulas, pelas maiores editoras do país. O Veado segue nessa linha -  depois de lançar um livro "maduro", finalista de prêmios, como o Fé no Inferno, acho que era importante mostrar que ainda posso ser transgressor, fazer algo diferente e ousado.

É um livro muito minimalista, escrevi rápido, mostrei para pouca gente, mas não posso deixar de agradecer a quem ajudou. Começando pela Taliyah Dias, que foi muito da inspiração e fez a primeira leitura comigo. O Taiya Löcherbach, amigo catarinense que fez a revisão do "sotaque" do protagonista (e também foi fotógrafo da capa fodona do BIOFOBIA, anos atrás). A Luara França, que começou a edição do livro na Editora e o Antonio Xerxenesky, que assumiu o processo na reta final. A Andrea del Fuego, que deu toda a força e um "blurb" bacana para a quarta capa. E o Renato Parada, que fez a foto de orelha. 

Vou começar a vender autografado pelas minhas redes (me segue lá, para saber mais. No instagram: @nazarians). O livro já está em pré venda há um mês, já está impresso, mas só sai em 27 de julho - confesso que não entendo muito essa estratégia da editora, mas espero que faça sentido. Eu publico regularmente, sempre a cada 2, 3 anos, mas cada vez encontro um cenário novo, uma lógica de divulgaçao nova. 

Mando de novo a sinopse: 

Um presidente de extrema direita é morto por um adolescente não binário. Por meio de uma longa entrevista, conhecemos a história do jovem e as decisões que o levaram a cometer o ato. Seria ele uma vítima, um terrorista ou um violento incel — um celibatário involuntário? Numa narrativa estruturada apenas em diálogos, Santiago Nazarian apresenta o retrato de uma geração tão engajada quanto individualista, que sabe o que precisa combater, mas não o que defender. Questões raciais, sexuais e de gênero são colocadas numa balança sempre desequilibrada, e a visão parcial de um personagem pode revelar mais do que suas palavras. Com o cinismo e o sarcasmo típicos de Nazarian, Veado assassino é uma louca novela especulativa, divertida e reflexiva.

 

10/06/2023

ORGULHO



Estamos no mês, na semana, na véspera da Parada do Orgulho LGBTQIAPN+, e sempre me perguntei de onde vem essa palavra orgulho? Toda sexualidade em si não é uma fraqueza? Um determinismo biológico? Mais forte não é aquele que não tem vontades?

Sempre penso o quanto a homossexualidade me condenou, o quanto me salvou...

Tenho uma origem privilegiada. Sou filho e irmão de artistas. Nasci e cresci numa bolha paulistana em que a homossexualidade é (ou deveria ser) tida como natural. A vida toda sofri muito menos preconceito do que quase qualquer outro homossexual da minha geração. Mas não deixei de sofrer. Mesmo em colégios alternativos, particulares, havia o bullying. Mesmo com uma mãe compreensiva, escutei o “pode ser gay, só não pode ser afetado.” E o maior choque de realidade que tive na vida, quanto a minha não-aceitação no mundo, foi a eleição de um presidente declaradamente homofóbico.

Sempre penso o quanto a homossexualidade prejudicou, o quanto beneficiou minha carreira. O meio literário não é especialmente homofóbico – você pode ser gay... só não pode ser afetado. Vi recentemente uma mesa com o João Silvério Trevisan e pensei muito sobre isso. Meu discurso, os olhos pintados (os chifrinhos de veado), toda minha postura mais performática com certeza fecharam algumas portas, abriram outras. Considero o saldo mais positivo em momentos mais positivos, mais negativo em momentos mais negativos da minha carreira.

Mas hoje sendo um homem branco, cis, dos Jardins, vejo também o quanto a homossexualidade me salvou... O rótulo que tenho de “maldito” vem muito disso, não só da homossexualidade em si, mas de todas as escolhas e caminhos a que a homossexualidade me levou. Eu poderia ter crescido como um playboyzinho, mas foi a homossexualidade que me levou a experimentar coisas diferentes, me relacionar com pessoas diferentes, ampliar muito meus horizontes.

A sigla LGBTQIAPN+ já está virando meio piada (e acho que deve ser resolvida em breve), mas compreendo a intenção. Cada sexualidade é única, é difícil se colocar numa caixinha. Eu mesmo vivi um tempo como bissexual, porque não conseguia me encaixar na “homossexualidade oficial”; a hiper masculinidade não me atrai em nada (não consigo entender, por exemplo, qual é o apelo de um Henry Cavill, tenho até certo asco). Minha atração sempre foi por meninos mais femininos, andróginos; nos últimos 4 anos, só me relacionei com meninas trans – não tanto por um fetiche, mas por um traço geracional: os andróginos estão todos transicionando.

Então acho que, mais do que orgulho, estamos num momento de renovar as esperanças. O pior já passou (espero), as novas gerações já estão vindo desbloqueadas de fábrica. Minha sobrinha de onze anos é fã de Heartstopper, teve uma professora trans e aceita isso como natural.

Sempre gosto de lembrar de um episódio que aconteceu quando ela tinha uns seis anos, eu estava casado há 5 com um homem, era o tio provedor, com casa na praia, e me ocorreu perguntar à minha irmã se minha sobrinha não estranhava. “Não, porque ela já nasceu num mundo onde isso é natural, tem os amigos dos pais casais de homens, de mulheres. Ela ainda vai descobrir que isso é uma questão.”

Os 4 anos de governo bolsonaro devem ter ensinado isso a ela. Mas também devem tê-la tornado uma aliada mais forte.

16/05/2023

FESTA LITERÁRIA DE MIM MESMO




Fazia tempo que não tinha dias tão gostosos.

Tirei 5 dias em Paraty, para comemorar meu aniversário. Fazia dois anos que não ia para praia, que não viajava a lazer. Por indicação da querida Adriane Hagedorn fiquei na Pousada do Príncipe, uma delicinha, perto de tudo, não exatamente barata, mas valeu de presente pra mim mesmo.

Biscoitando na piscina. 

Paraty continua linda (apesar da energia pesada). Escolhi lá porque tinha lido sobre o tempo, frente fria e chuva, e achei que se não rolasse praia ao menos tinha a cidade para aproveitar, a vida cultural e gastronômica. Rolou de tudo (ou quase...).

A cidade continua linda. 

Fiz as coisas que eu mais gostava. Deu praia, piscina, fui ao teatro, fiz longas caminhadas, comi bem, bebi pouco. No dia do meu aniversário, peguei uma escuna que parava em praias desertas e numa ilha cheia de peixes, para mergulhar. (Já fiz até curso de mergulho com cilindro, e os peixes do meu aniversário tavam uma beleza.)


O barco. 

(O que irrita muito em Paraty é a necessidade de colocarem música constante, alta, de mau gosto, nas praias, nos barcos, não dá para curtir um momento bucólico de silêncio. No barco, achei que podiam ao menos cantar um “parabéns a você”; avisei bem aos guias que era meu aniversário – queria saber o que daria na hora do “é-pique-é-pique-é-pique é-big-é-big-é-big” com paulistas, fluminenses e estrangeiros misturados; queria passar pelo constrangimento de estranhos me desejando felicidades, mas só ganhei um drinque.)

Praia deserta. 

Toda a viagem-feriado-aniversário foi absolutamente sozinha, feriado de mim mesmo. Poderia ter sido melhor com uma companhia, mas também poderia ter sido BEM pior, então melhor assim.

Turismo gótico-bucólico

Já tinha ficado quase um mês em Paraty, exatamente vinte anos atrás, nas preparações da primeira FLIP, onde fui um dos autores convidados. Depois, voltei uma vez num feriado com o amigo Marcelino, em 2010, e outra na Flip de 2014, a convite do Sesc. Acho FLIP sempre muito lotada, cara, carão, uma festa para a qual não fui (mais) convidado, então evito. 

Sem FLIP, convidei meus próprios autores, que estavam esperando há tempos aqui em casa. Tem sido difícil ler por prazer, porque felizmente tenho feito muita leitura crítica, participado do júri de alguns prêmios, daí tem os amigos que quero ler, os que não quero mas devo, os que quero, mas não são amigos...

Consegui matar dois. O excelente Mike Sullivan lançou “Atire a Primeira Pedra”, sintomático para ler no dia das mães. A novela analisa um matricídio brutal através de dois personagens: o assassino e um psiquiatra forense que examina o caso. Tem muito a ver com meu próximo livro, e a escrita do Mike é sempre linda, poética e melancólica. Um dos meus autores preferidos em atividade.

Mike e eu na piscina. 

Outra boa surpresa que consegui ler foi meu aluno Túlio Dias – que participou de duas oficinas minhas e lançou seu primeiro romance: “O Almoço de Natal”. Com uma observação sagaz e ácida dos tempos atuais, Túlio faz um romance-crônica sobre os fatídicos encontros de família no Natal, em tempos bolsonaristas. Bem divertido.

Levei outras coisas que não consegui ler, e já tenho uma caralhada na fila, muito trabalho. (Cheguei em casa e tava me esperando na portaria o novo do grande Fabrício Corsaletti.) Também tenho trabalhado muito como ghost, o que tem me salvado as contas.

Adoro café da manhã de hotel. 


As coisas melhoraram bem – e alguns podem dizer: “Viu, e você só reclama, não adianta reclamar” – mas as coisas só melhoraram PORQUE eu reclamei. Trabalho sozinho, em casa, as redes são meu único contato de trabalho. A exposição de tempos difíceis foi o que fez amigos e colegas queridos me indicarem para Jobs que salvaram meus dias. Que continue assim...

11/05/2023

VEADO ASSASSINO




Um presidente de extrema direita é morto por um adolescente não binário. Por meio de uma longa entrevista, conhecemos a história do jovem e as decisões que o levaram a cometer o ato. Seria ele uma vítima, um terrorista ou um violento incel — um celibatário involuntário? Numa narrativa estruturada apenas em diálogos, Santiago Nazarian apresenta o retrato de uma geração tão engajada quanto individualista, que sabe o que precisa combater, mas não o que defender. Questões raciais, sexuais e de gênero são colocadas numa balança sempre desequilibrada, e a visão parcial de um personagem pode revelar mais do que suas palavras. Com o cinismo e o sarcasmo típicos de Nazarian, Veado assassino é uma louca novela especulativa, divertida e reflexiva na mesma medida.

Já em pré-venda aqui: https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9786559215669/veado-assassino

05/05/2023

CALADA NOITE PRETA

 

Ontem foi dia de homenagear mais uma amiga querida que faleceu.

Vange Leonel morreu em 2014, outra vítima de câncer, ontem teria feito 60 anos, e os queridos Rodrigo de Araujo e Pedro Alexandre Sanches organizaram um ato solene em homenagem a ela na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Vange sempre foi uma militante política, ativista LGBTQIA+, natural que sua homenagem também passasse por isso.

Eu a conheci como a maioria, no início dos anos 90, início da minha adolescência, com a “Calada Noite Preta” trilha de novela da Globo. Era uma gótica que chegava ao poder, embora ela rejeitasse esse rótulo. (E até hoje, não houve nenhum hit gótico brasileiro maior do que esse). Depois a conheci pessoalmente como fã, nos tornamos amigos, colegas, quando eu comecei a publicar. Ela sempre foi uma querida.

Me chamaram para fazer um dos discursos de ontem, representando os escritores (acho que representei mais os góticos, mas tudo certo). Discorri um pouco sobre o papel dela, o papel de nós, artistas à margem – não por condições sociais, raciais, mas por escolhas estéticas, ideológicas próprias, talvez muito fruto da homossexualidade, sim, mas não só isso (porque o que não falta é artista-escritor-cantor gay integrado ao mainstream). Acho que é mais uma visão Lado B da vida, que nos amaldiçoa.

Comentei ontem como essa visão particular, alternativa, às vezes encontra confluência no mainstream – como foi a fase “Noite Preta” da Vange (como talvez tenha sido minha fase “Mastigando Humanos”, em que os emos estavam no poder) – mas que na maior parte do tempo estamos em paralelo, comendo pelas beiradas. E às vezes parece que tem que ser assim mesmo, e está tudo certo.

Como ontem, em que ficou claro o papel que a Vange teve e tem (não só como cantora, mas como ativista, escritora) e a porrada de gente bacana que ela tocou e influenciou. Estavam lá também os queridos Ivam Cabral, a Cilmara Bedaque, Bel Kowarick, Zé Pedro, Fernando Bonassi, Marisa Orth, Andre FischerCris Naumovs e mais uma caralhada... Ou “bucetada”, como bem disse a Marisa.

Essas coisas é que me inspiram e me fazem continuar. Meus heróis tão particulares. Talvez os ventos mudem e a gente volte a estar na onda, talvez não. Mas o importante é continuar fazendo o que a gente acredita, continuar produzindo e continuar sendo uma alternativa. 

FLIRECÊ

Mais que colegas, friends.  Ainda tô chapado. A luz da Bahia é ofuscante – cegou meus olhos, queimou minha pele, transformou minha paulistan...