5.04.2015

O VOO DA LIBÉLULA

Resenha que assinei na Folha deste sábado: 

"Esse aí deve ser uma maravilha", disse meu namorado ironicamente ao ver a edição de "O Voo da Libélula", enviada pela Folha, na minha mesa de trabalho.

O título um tanto quanto cafona não ajuda (o original francês, "Un Avion Sans Elle", se traduz literalmente por "Um Avião Sem Ela"). A chamada de capa também já afasta qualquer pretensão literária: "Duas bebês, um trágico acidente de avião, só uma sobrevive. Qual delas?"

Não se pode, no entanto, culpar a editora por vender o livro exatamente pelo que é: ficção cafona, barata e rasteira que justifica bem os "mais de 800 mil livros vendidos" (também com chamada na capa). É preciso avançar apenas algumas páginas para constatar de que tipo de romance se trata.

Fica a dúvida se a narrativa será divertida e instigante o suficiente para merecer a denominação de "page turner", daquelas que não conseguimos parar de virar as páginas até saber o final.

Infelizmente, "O Voo da Libélula" é moroso como mosca de padaria. Através de anotações de um detetive particular e ações acontecendo em tempo real durante a leitura dessas anotações, acompanha-se a história de "Lylie", a bebê sobrevivente de um acidente aéreo, que 18 anos depois ainda não têm certeza de sua identidade.

Lylie pode ser "Émilie Vitral", órfã de uma família humilde, ou "Lyse-Rose", herdeira de ricos industriais.

Sim, as 400 páginas do romance inteiro giram em torno dessa dúvida um tanto inverossímil. A partir daí pode se imaginar todos os desdobramentos novelescos: os ricos inescrupulosos tentando comprar a menina; a família humilde criando-a com dificuldades, mas com amor verdadeiro.

Uma das questões centrais do romance, inclusive, é o amor incestuoso que o possível irmão Marc Vitral nutre pela jovem. É uma colagem de estereótipos, com personagens bidimensionais que parecem ser descritos de maneira apenas a facilitar a adaptação cinematográfica.

O texto do detetive é tão policialesco que parece envergonhar até o autor, que se isenta, colocando personagens que criticam os recursos que ele mesmo se utiliza para manter o suspense.

O que pode se dizer de positivo sobre o "Voo" de Michel Bussi é que ele é bem planejado, sem turbulências, decola e pousa onde se esperava.

Afinal, acontece sempre em círculos, e a solução se torna bem previsível com uma área tão restrita para se manobrar.

O VOO DA LIBÉLULA

AUTOR Michel Bussi

TRADUÇÃO Fernanda Abreu

EDITORA Arqueiro

QUANTO R$ 24,99 (400 págs.)

AVALIAÇÃO ruim

4.27.2015

TODA LUZ QUE NÃO PODEMOS VER

Resenhei o ganhador do Pulitzer na Folha deste final de semana (capa da Ilustrada):

Não se pode dizer que um épico histórico sobre a Segunda Guerra seja uma escolha arriscada para um romance. O tema parece oferecer enfoques tão inesgotáveis quanto o interesse do público —motivo pelo qual “Toda Luz Que Não Podemos Ver” começou a vender bem antes mesmo de ser indicado ao National Book Award, em setembro, e ganhar, nesta semana, o Prêmio Pulitzer de ficção.
Entretanto, se o resultado é (quase) garantido, o processo de se escrever algo assim nunca é simples. Reconstruir aquele momento requer um mínimo de pesquisa, sabedoria e principalmente sintonia.
Como entender o que é viver aqueles cenários, naquele momento? Dizer que o norte-americano Anthony Doerr, 41, fez a lição de casa seria menosprezar o escritor e superestimar a escola.

Lançado há um ano nos EUA, o livro teve recepção que surpreendeu editora e autor, cujos quatro livros anteriores, elogiados pela crítica, tiveram alcance restrito. Ao final de 2014, tinha vendido quase 1 milhão de cópias, o que levou a Intrínseca a tratá-lo como sua grande aposta para 2015 —coroada com o anúncio do Pulitzer dias depois de a tradução sair.

Em narrativas paralelas, o romance apresenta Werner, órfão alemão que aos poucos é cooptado pela máquina nazista, e Marie-Laure, menina francesa que perde a visão e vive sob a proteção do pai.
Werner é apaixonado por transmissões de rádio, aprende a ouvir, consertar, fazer cálculos e identificar emissores, e seu talento desperta a atenção da Alemanha. “É certo fazer algo porque todos estão fazendo?” é a pergunta da irmã que ecoa em sua mente quando se vê cada vez mais entranhado na juventude nazista, em seus ritos perversos.

Já o pai de Marie-Laure é guardião de um dos maiores tesouros da França, um diamante mítico a que se atribui poderes e maldições. Com a guerra, pai e filha fogem pelo país e acabam numa cidadezinha litorânea, protegidos por um tio misantropo, que tem uma coleção de rádios.
Essas duas linhas desconexas —menina cega e menino nazista— caminham para um encontro inevitável, do qual já se pode intuir um desfecho romântico e redentor como uma foto na revista “Life”.

A hábil estrutura segue linearmente, voltando a um ponto preestabelecido de tempos em temos, de maneira fracionada, com recortes da época em capítulos curtos e com uma quantidade limitada de personagens.

A interrupção constante da linha de cada protagonista para dar lugar ao outro mantém a expectativa que explica o sucesso de um livro de mais de 500 páginas. É o que os americanos chamam de “page turner”, um livro em que cada página obriga a virar a próxima. O texto é objetivo, narrado no presente como senso de urgência.

Com um protagonista órfão, outra cega, e tratando de guerra, é praticamente impossível fugir da pieguice, mas essa talvez esteja só na dose indispensável para que se ecoe como grande história, para um grande público.

“Toda Luz que Não Podemos Ver” é um livro delicado, em que se sente além do que é dito. Como exemplo, o personagem Frederik, “o mais fraco”, colega de Werner no internato, poderia render mais cem páginas ou se desdobrar num épico completo. Isso acaba por formar um universo muito mais tridimensional do que os protagonistas podem demarcar.

No final, a saudade por se afastar dos personagens parece reverberar tanto no leitor quanto no autor, que talvez tenha estendido o romance num sentido desnecessário, trazendo-o até os dias atuais, num resvalo de “Titanic”, de James Cameron. Não compromete, contudo, o conjunto. “Toda Luz que Não Podemos Ver” é um belo livro.

TODA LUZ QUE NÃO PODEMOS VER
AUTOR: Anthony Doerr
tradução: Maria Carmelita Dias
editora: Intrínseca
quanto: R$ 39,90 (528 págs.)
avaliação:  muito bom ★★

4.17.2015

DEFORMANDO LEITORES


Mesa de quarta. (do blog do Maurício C. Garcia: http://esquizo.com.br/)

Acabo de voltar do Salão do Livro da Serra Catarinense, organizado pelo grande Carlos Henrique Schroeder, um dos escritores que mais faz pela literatura no estado. Dividi mesa na quarta com Simone Campos, Raphael Montes (de novo nãaaaaao!) e o autor local Maurício C. Garcia. Quatro autores deixam uma mesa bastante inchada, mas a mediação de João Chiodini distribuiu muito bem as perguntas e permitiu que de fato houvesse um debate, não apenas discursos paralelos. Ainda sobrou tempo para perguntas da plateia - que foi tomada por uma juventude trevosa com camisetas de banda, talvez pelo tema da mesa (games, tiros e terror). Bem bacana.

No camarim, prontos pro debate. 


Recentemente Suzana Vargas e Afonso Borges publicaram textos em O Globo debatendo sobre a validade dos eventos literários na formação de leitores. Concordo com os dois, discordo dos dois. Acho que eventos literários formam leitores, mas sua função principal é formar autores, o que pode ser quase a mesma coisa, já que o autor é antes de tudo um leitor.

"Eu também escrevo" deve ser a frase que todo autor mais escuta de seus leitores. E os eventos literários existem para que essas frases sejam ditas. São a ponte entre leitor e autor, em mais de um sentido. É o momento do leitor ("já formado") entender como a coisa funciona, a escrita, o mercado, reformar-se como leitor e autor... ou calar-se para sempre.

Por isso é essencial que o evento tenha participação do público (que tenha público, para começar), em perguntas, conversas. As oficinas literárias oferecidas em muitos festivais contribuem com isso, mas sempre acho mais importante o leitor conhecer as experiências individuais de cada autor do que "fórmulas" para escrever.

E nesse ambiente, nessas tendas, sempre há um transeunte curioso, um acompanhante alienado, alguém que pode ouvir a palavra do autor pela primeira vez e perceber que também se fala (e se lê) sobre "games, tiros e terror". Assim também pode se formar novos leitores.

Na pesquisa que publiquei na Folha ano passado, sobre a renda de escritores, ficou claro a importância dos eventos literários na sobrevivência dos escritores. Eventos pagam as contas, formam autores na plateia, reformam autores nos palcos. Autores formam leitores, não tenho dúvidas disso.

Sobre os textos do Globo, para me deter a questões pontuais:

Eventos não levam ninguém a ler mais ou a comprar mais livros. Eventos literários sejam eles festas, feiras, bienais com maior ou menor projeção nacional, são fenômenos de marketing. Ou seja: eventualmente ouve-se falar num produto chamado livro, em seus autores, como quem anuncia uma nova marca de refrigerante. - de Suzana Vargas

Discordo veementemente. Uma limitação que encontro em muitas mesas literárias é exatamente que cada autor quer apenas falar de seu livro, dar seu serviço, não debater temas propostos e expandir a discussão para a literatura de forma mais ampla. Também não se pode esquecer de eventos que adotam e trabalham o livro previamente (como a Jornada Literária de Passo Fundo, o Festival Literário de Extrema), para depois oferecer a conversa com o autor.

O escritor quer, claro, ser reconhecido. Mas o reconhecimento se dá de uma só forma: em vendas. Ou existe escritor que vendeu 10 exemplares e é um sucesso? -
 Afonso Borges. 

Discordo e tenho discutido isso exaustivamente aqui. O reconhecimento não se dá só em vendas. O autor quer vender mas não quer vender a qualquer preço, pode ter muitas ambições antes disso. Aliás, o bom autor deve ter muitas ambições antes disso. Autores mais sofisticados, com uma literatura mais densa, arriscada ou controversa sabem que não estão publicando sucessos de vendas, e já consideram sucesso conquistar seu público (seja ele de dez leitores especializados). João Gilberto Noll, João Silvério Trevisan e Evandro Affonso Ferreira, entre outros, são senhores autores que não vendem, e sem dúvida são reconhecidos. Para mim, são heróis.


Você pode ler os textos originais da Suzana e Afonso aqui: http://editoras.com/discussao-debate-dialogo/

E assim se abre a (minha) temporada de eventos literários de 2015. Também ajudam a formar a mim como autor, não só pelos debates oficiais, mais pelas conversas que se estendem nos bares, nos translados. Sempre aprendo muito. Semana que vem vou estar na Flipoços, ao lado da querida Luisa Geisler, falando sobre o êxodo urbano na literatura brasileira atual (tema de um texto que publiquei na Ilustríssima ano passado). Você pode ver toda a programação aqui: http://www.flipocos.com/


Na estrada. 

4.13.2015

A FORMA DA SOMBRA



Resenha que publiquei na Folha deste final de semana:


O boom que o cinema de horror teve mundialmente nos anos 70 e 80 encontrou eco no Brasil da época em público, mas não em produções. A censura do regime militar e a falta de tradição na produção fantástica e de gênero (seja cinematográfica, televisiva ou literária) restringiram o horror nacional a produções underground ou, no caso da literatura, a obras mais voltadas ao público juvenil.

Isso começa a dar sinais de mudança com uma nova geração (de escritores, roteiristas e cineastas) que cresceu assistindo aos "slashers" --subgênero do horror, com muito sangue-- dos anos 80 e agora dá os primeiros passos escrevendo livros.

"A Forma da Sombra", romance de estreia do carioca Fernando Abreu Barreto, 38, é um grato exemplo disso. Ainda que firmemente inspirado pelos filmes estrangeiros de assassinos seriais e de vampiros, busca não só uma identidade nacional, como tem um trabalho cuidadoso de linguagem, tão raro em literatura de gênero.

"Encontro o sol aos domingos, quando não chove. Durante a semana, ao chegar ou sair do trabalho, ele não está lá. Sinceramente, não me faz falta", anuncia o parágrafo de abertura.

O protagonista anônimo é um condutor de trens do metrô no Rio. Passa os dias nos subterrâneos, sem ver a luz do sol, volta para casa de noite. Antissocial, não se identifica com o mundo "iluminado" à sua volta e questiona a própria identidade e humanidade. É uma visão mais profunda e sombria, que outros poderiam transformar facilmente numa paródia: "Um Vampiro em Copacabana".

Não é exatamente novo --a crise existencial do protagonista tem ares pesados de déjà vu (a série "Dexter" vem imediatamente à cabeça)-- e mesmo a ambientação de thriller nos túneis do metrô já é algo visto (o filme britânico "Plataforma do Medo", de Christopher Smith, é uma das influências citadas).

Entretanto, o autor acerta ao combinar esses elementos e ambientá-los no Rio dos dias de hoje. Principalmente, o lirismo do texto dá pistas de um novo autor nacional que pode acrescentar muito ao gênero e à literatura.

A FORMA DA SOMBRA
AUTOR Fernando de Abreu Barreto
EDITORA Caligo
QUANTO R$ 25 (116 págs.)
AVALIAÇÃO muito bom

3.31.2015

ATUALIZANDO A COELHA



A Páscoa está chegando, trazendo dollynhos a todos. E também é a época em que muita gente compra coelhos de estimação para os filhos, e depois não sabe o que fazer com eles.

Minha coelha Asda é a paixão da minha vida. Foi a primeira vez que tive um coelho, e tive de aprender a criar por experiência própria e muita pesquisa na net. Agora que já estou com ela há um ano, resolvi fazer este post atualizado, sobre como criar um coelho, aproveitando muitas das perguntas que me fazem.

Querendo carinho. 

ONDE COMPRO?

Geralmente é fácil de se encontrar nos petshops maiores e não é nada caro (entre R$50 e 100), mas é mais recomendado procurar criadouros especializados, que garantem a saúde e o bem estar do animal. Como coelho se reproduz muito facilmente, também é fácil encontrar quem queira doar filhotes. Uma busca básica no Google resolve. A minha confesso que foi comprada em pet shop, por impulso, nada recomendado. Ela veio com alguns problemas de pele (fungo) que levaram alguns meses para sarar.


POSSO DEIXAR SOLTO?

Deve, mas com cautela. Na compra, o petshop me recomendou manter minha coelha numa gaiola, o que nunca cogitei. Mas deixar coelho solto sozinho dentro de casa é dor de cabeça - eles roem tudo o que vem pela frente, você não vai conseguir tirar esse instinto e vai ter prejuízo. Então o ideal é você ter um bom espaço em que ele possa ficar solto quando você não estiver em casa (a minha fica na área de serviço) e ficar de olho quando estiver com ele solto pela casa.

Esse pelo macio é fruto de feno e da ração milionária. 

O QUE COME?

Livros, revistas, móveis, fios, parede... Coelho precisa roer constantemente para gastar os dentes, e não adianta apenas arrumar uns pedaços de madeira (como faço com a minha), ele vai roer a madeira e o que mais encontrar pela frente. Então o ideal é não deixar nada importante é "roível" ao alcance, principalmente fios de eletrodomésticos (já perdi quatro teclados de PC por causa disso). Não tive problemas com móveis - por algum motivo ela nunca roeu. Mas vira e mexe a vejo enfiando os dentes até na PAREDE.

Fora o que ela rói, o que ela precisa comer é ração, feno e vegetais. Na compra, o petshop indicou dar apenas ração, R$10 por 5kg. Logo percebi que era ração de engorda, para coelho de abate, ou seja não era nada saudável. Hoje dou uma ração de R$40 por 1,5kg (Nutrópica) que dura em média um mês. Complemento com vegetais (escarola, rúcula, almeirão, etc) e fruta e legumes uma vez ou outra, como  petisco. O que é muito importante (e complicado) é deixar feno disponível para o coelho - porque ajuda no processo de digestão e desgaste dos dentes. Isso em São Paulo é um saco de achar (ainda mais para quem não tem carro, como eu), mas não é caro. Geralmente eu compro fardos de 15kg (R$20) em loja de produtos para fazenda, e isso dura uns quatro meses. Então é uma missão para se fazer três vezes por ano. E você precisa ter um lugarzinho para deixar um fardo de feno.

Bebedouro para água e o monte de feno atrás. 

FAZ SUJEIRA?

Não. Coelho é como gato, um bicho muito limpo, que está constantemente se limpando com a língua. Inclusive não é recomendado dar banho, porque pode ter problemas de pele. Também igual ao gato pode facilmente aprender a usar a bandejinha para as necessidades. A minha deu trabalho por uns meses, vez ou outra mijando no sofá, mas agora já está totalmente acostumada a usar só a bandeja (que é forrada com feno também, não com areia de gato). Cocozinho ela faz vez ou outra pela casa, mas é uma bolotinha seca, sem cheiro, que se joga fora com facilidade. Solta um pouco de pelo também, mas nada dramático - só uma vez por ano tem uma troca maior, por umas duas semanas.


PRECISA VACINAR?

Não. Não existe vacina para coelho doméstico. Você pode literalmente ter um coelho e nunca levá-lo ao veterinário (mas se tiver algum problema, vai ter de procurar um veterinário de silvestres, que geralmente é bem mais caro). Recomendam muito que se castre o coelho, não apenas para não procriar, mas também por prevenção de doenças, para que ele fique mais tranquilo, etc. Eu não castrei a minha - a própria castração sempre envolve riscos, e não quero uma coelha gorda e apática.


INTERAGE COM O DONO?

Muito. Se tiver convivência diária com ele, não ficar trancado numa gaiola ou no quintal, o coelho se apega muito ao dono, sobe no colo, lambe. Digo que é mais afetivo do que um gato, menos do que um cachorro. Também aprende o nome e alguns comandos básicos. Quando peço para ela sair, geralmente ela teima, mas acaba obedecendo. Quando estou na sala e chamo, ela vem quando quer. Quando estou na cozinha e chamo, ela sempre vem, porque acha que vai ganhar comida.


Ainda bebê, já apegada. 


POSSO LEVAR PARA PASSEAR?

Não. Tem gente que leva, existe até coleira, mas não é recomendado. Primeiro porque, como um gato, o coelho não vai andar direitinho seguindo você na rua; depois, porque é um bicho que se assusta facilmente com barulho. Vez ou outra eu levo minha coelha na casa do Murilo ou na minha irmã (numa caixa de transporte), mas ela sempre fica muito acuada com o passeio e estranha novos ambientes. Então se ele puder ficar solto num apartamento quarto-e-sala já está ok.




É BOM PARA CRIANÇAS?

Para crianças muito pequenas, não. É um bicho que se assusta facilmente, não gosta de ser carregado, e não é tão dócil quanto um cachorro. Obviamente não oferece risco à criança, mas não é bom para o coelho. Para uma criança um pouco maior, é tranquilo.


QUAL É A VANTAGEM AFINAL DE SE TER UM COELHO?

Em relação ao cachorro: não suja a casa, não precisa levar para passear, faz zero de barulho. Em relação ao gato: é mais carinhoso (depende do animal), precisa de menos espaço, não escala (não vai comer a comida em cima de sua mesa, nem precisa de tela de proteção na janela). Desvantagens: rói tudo pela frente, então você precisa adaptar sua casa e ficar sempre de olho.









3.27.2015

VIVER PARA VENDER

Assim se faz a nova literatura brasileira (Adriana Lisboa, João Paulo Cuenca, Veronica Stigger e eu, representando o Brasil em Bogotá, 2007)

Vira e mexe vejo algum "jovem autor" razoavelmente bem sucedido apontar o dedo para o meio literário (que geralmente o despreza) e dizer que "escritor no Brasil não vende porque não se comunica com os leitores, só quer escrever difícil, blablablá". Realmente, não estou falando de um autor específico, esse é o argumento em diversas entrevistas, colunas e antologias de literatura comercial.

É a lógica de se nivelar a um discurso mais raso, mais fácil, em vez de tentar encontrar e formar leitores mais sofisticados, pensantes. Guardadas as devidas proporções, é a lógica da TV que só exibe bunda e lepo-lepo porque é isso que o brasileiro quer.

Não tenho nada cont... Ok, tenho algumas coisas contra a literatura comercial, mas procuro afastar o preconceito. (É só dar uma olhada mais atenta nas pilhas de bestsellers internacionais e se encontra quase meia dúzia que eu mesmo traduzi.) Acima de tudo, acho que o mercado brasileiro precisa de diversidade. E os bestsellers nacionais permitem que as editoras continuem apostando em novos autores, talvez mais difíceis, talvez melhores...



Para o"jovem autor bem sucedido", as vendas são a medida do sucesso, e realmente é uma boa medida. Não é a única. Há um recalque constante do autor (que vende) em ficar fora das listas, dos prêmios, não ser resenhado e nem participar das mesas literárias. Acho mesmo que poderia haver uma mistura maior. Mas é compreensível que, na hora de "representar o Brasil", (Paris, Frankfurt) escolha-se o que o país tem de mais sofisticado.

"Todo autor quer vender" alguns argumentam. Pode ser, mas não a qualquer preço. Tenho formação de publicitário - e larguei a carreira para poder fazer o que acredito. Se for para dar à massa  só o que ela quer, eu ficaria em agência. Não estou aqui para dar o que o público quer, mas o que EU quero que o público saiba. Minha intenção é provocar, contestar, e isso nunca vai ser recebido tão facilmente quanto a onda da vez.

Falando especificamente do meu caso, fui enquadrado no restrito espaço dos alternativos: pop para os literatos, difícil para o grande público. De certa forma concordo, não vou tornar meu discurso mais raso nem adotar um tom intelectualoide, então continuo brigando para conquistar o maior espaço que posso, dentro da minha proposta - até porque tenho uma coelha para sustentar. Quero mais espaço para os alternativos, quero mais existencialistas bizarros. (Acho que teria uma forte crise existencial se me tornasse bestseller). Não quero me resignar, mas também não tenho tanto a me queixar, talvez hoje eu seja o "alternativo oficial", que tem seu público, seu espaço, e é escolhido para representar um lado B do Brasil (na Colômbia, Argentina, Peru, México, Venezuela, Alemanha, Espanha.)

Em primeiro plano, Lisias, Del Fuego e eu, em Guadalajara (2013)

Sem modéstia, é preciso reconhecer a importância que a minha geração como um todo teve em abrir espaço para o boom de "jovens autores". Claro, não foi só mérito de nós autores, como muito o momento da época (com a Internet, o barateamento das formas de publicação). Nos anos 90, não era comum se ver tantos moleques de vinte e pouco publicando, como se tornou nos 2000 com Simone Campos, Daniel Galera, Clara Averbuck, João Paulo Cuenca, Andrea del Fuego, Ana Paula Maia. Nossa geração teve enorme visibilidade (de mídia) e mudou muito a visão que se tinha do autor nacional. (E em casos pontuais se refletiu em vendas expressivas de algumas dezenas de milhares como o caso do "Barba Ensopada de Sangue", do Galera, o juvenil da Del Fuego e o meu "Mastigando Humanos".)

Com Mauro Ventura, Galera e Cuenca, em Bogotá (2012) 

A matéria que publiquei na capa da Ilustrada em dezembro, sobre a fonte de renda dos autores, ao meu ver, mostra um cenário muito positivo. Que é possível o autor sobreviver hoje no Brasil sem se curvar ao mercado. Afinal, se pode dizer que Raphael Draccon faz mais sucesso do que Daniel Galera? Que Thalita Rebouças é mais bem sucedida do que Veronica Stigger? Rascunhando meu livro de auto-ajuda eu diria: sucesso é fazer o que se acredita.