23/04/2018

A MULHER ENTRE NÓS

Assinei resenha este fim de semana na Folha:

A MULHER ENTRE NÓS

· Preço R$ 34,90 (352 págs.)

· Autor Greer Hendricks e Sarah Pekkanen

· Editora Paralela

· Tradução Alexandre Boide

Largada pelo marido por uma mulher mais nova, alcoólatra de meia idade revê sua responsabilidade no fim do relacionamento e avalia o caráter abusivo do ex. Se a sinopse de "A Mulher Entre Nós" soa familiar, não é apenas por seu caráter genérico: é idêntica à do best-seller "A Garota no Trem", de Paula Hawkins.

Na obra de Sarah Pekkanen e Greer Hendricks, segue-se a onda do romance de sororidade, atualização com pitadas feministas de novelões à la Sidney Sheldon, nos quais mulheres pobres vencem na vida e se vingam dos homens que as maltrataram no passado.

Aqui, a mulher é Vanessa, professora da Flórida que foi casada com Richard, um príncipe do mercado financeiro de Nova York, que tem muito de controlador e manipulador.

O texto traz suas surpresas —a primeira no terço inicial, levando o leitor a rever o que tinha lido—, que seguem até o epílogo. Mas, apesar dos truques, a trama não traz nada de muito impactante, pois em seu cerne o livro trata dos dramas de uma menina rica.

Se um bom romance expande nosso universo, oferecendo um vislumbre de outras profissões e culturas, neste só deslizamos por nomes de grifes, de restaurantes e rótulos de vinho —mesmo as poucas observações sobre música clássica, para demonstrar a erudição do marido, são rasas. É um universo de dondoquice tremenda.

De positivo, o texto é bastante coeso, mesmo se escrito a quatro mãos, e oferece uma leitura instigante, principalmente pelos ganchos deixados no final de cada capítulo:  “Ela não faz ideia do que vai acontecer” ; “estou energizada pela perspectiva do que vou fazer”; “só havia um jeito de me livrar de meu marido”. 

No fim, pode ser um bom passatempo para donas de casa entediadas, mas a frase na quarta capa não ajuda: "Prepare-se para a leitura de sua vida." Menos, né? Bem menos.

19/02/2018

PÉROLAS ENTRE AS PILHAS




No final dos anos 60, quatro irmãos entre oito e treze anos visitam uma cartomante que é capaz de dar a data de sua morte. Após previsões não muito agradáveis, cada um seguirá um rumo na vida, com o fantasma da data fatídica se aproximando.

Esta é a genial premissa de “The Immortalists”, segundo romance da americana Chloe Benjamin, que acabou de ser lançado lá fora e acabei de traduzir para a Harper Collins (sai em breve). Foi minha “tradução de férias” e uma aula de literatura – como as melhores traduções são. Tem aquela estrutura de romanção americano, um excesso de atenção aos detalhes e as descrições (que eu particularmente não gosto – não me interessa saber a cor do sapato do personagem, o tipo do tecido do sofá em que ele se senta), uma pesquisa muito bem fundamentada e, acima de tudo, uma alma.

O romance de Benjamin é dividido em quatro partes, uma para o destino de cada irmão, cada uma com um universo totalmente diferente – num domínio impressionante de temas diversos. O primeiro dos irmãos, por exemplo, é homossexual e se muda para São Francisco no final dos anos 70 (então já dá para imaginar do que ele irá morrer). O retrato da época, com a liberdade sexual desenfreada, o assassinato de Harvey Milk, e o surgimento do “câncer gay” é incrível, e é apenas um quarto do livro, que ainda traz grandes surpresas.

É como eu digo, a vida fica muito mais fácil quando traduzo um bom livro. Mas é raro. Já são mais de SESSENTA livros traduzidos, muita merda, muito livro vagabundo, descartável, mal escrito. Trabalho é trabalho e aceito o que vem. (Obviamente não apontaria de quais títulos não gosto, não seria ético. Mas é a grande maioria.)

Frustrante é ver como se paga cada vez pior por traduções. Algumas editoras congelaram o mesmo valor por lauda de cinco anos atrás, algumas BAIXARAM o valor. Quem vive de frila não pode fazer greve – os boletos chegam com uma pontualidade que nunca temos nos pagamentos – então é aquele equilíbrio para tentar fazer mais em menos tempo, e ainda fazer um trabalho decente.

De vez em quando, como em “The Immortalists”, o trabalho compensa.

Prefiro então lembrar dos grandes livros que traduzi. Também preciso ter auto crítica e assumir que cometi diversas barbeiragens, principalmente no início de carreira – para sobreviver, peguei coisas além da minha capacidade, mas também foi assim que fui aprendendo e me aprimorando como tradutor. Tenho medo de ler coisas que traduzi dez, quinze anos atrás...

Vamos lá então com minhas dez traduções favoritas, que já foram publicadas (não necessariamente meus dez melhores trabalhos como tradutor), em ordem cronológica:


MALDITO CORAÇÃO – J.T. LeRoy (Geração Editorial, 2006): Já contei dezenas de vezes aqui. São as memórias de um michê adolescente, um garoto andrógino total vidaloka – que depois se descobriu ser tudo ficção, escrito por uma mulher bem mais velha. Foi dos trabalhos que mais me envolvi pessoalmente – conheci o “autor” que interpretava o personagem, depois conheci a verdadeira autora; até hoje mantemos contato. Acho uma história fantástica, tanto a do livro quanto a trama por trás.

A VIDA SECRETA DOS APAIXONADOS – Simon Van Booy (Saraiva, 2009): Traduzi dois livros de contos dele para a Saraiva – não me lembro exatamente de qual gosto mais, ambos são delicados, emotivos, sem serem piegas, um equilíbrio difícil de conseguir. “Minha esposa é surda. Um dia ela me perguntou se a neve faz algum barulho quando cai e eu menti”, é uma passagem bem bonita, que destaquei na orelha e que dá bem o tom do autor. Ele merecia ser mais conhecido por aqui.

HATER – David Moody (Saraiva, 2009): Do início daquela onda de livros de zumbis. Neste a epidemia se dá por um ódio irracional que vai surgindo em indivíduos espalhados por uma cidade da Inglaterra. É bem divertido. Cheguei a traduzir a sequência – mas não sei se chegou a sair.  

A GAROTA DOS PÉS DE VIDRO – Ali Shaw (Leya, 2010): Como eu amo este livro. Outro que é muito delicado e emotivo, sem ser piegas – um romance romântico de fantasia, de um fotógrafo que se apaixona por uma garota que tem o corpo pouco a pouco se transformando em vidro. Ele vai em busca da cura para ela, numa ilha tomada de pântanos e animais fantásticos. Daria um filme foda.

O MÁGICO DE OZ – Frank L. Baum (Leya, 2010): Foi bem bacana pegar esse clássico para traduzir. É um texto bem infantil, então busquei fazer uma versão delicada, como se contasse a história para uma criança.

A NOIVA DO TIGRE – Tea Obrecht (Leya, 2011): Ao receber a notícia da morte do avô, uma jovem médica se lembra das histórias fantásticas contadas por ele – como a época durante a Segunda Guerra em que seu vilarejo ficou isolado pela neve, e assombrado por um tigre. Tem algo de "Peixe Grande", com um texto bem literário. Ganhou o Orange em 2011. E tivemos crítica positiva até do Alcir Pécora.

OLHAR MORTAL – Fergus McNeil (Nacional, 2014): Thrillerzão bem divertido. Um assassino que deixa uma pista de sua vítima anterior na próxima, ligando assim os crimes. Contado do ponto de vista do assassino e do investigador, é muito bem arquitetado.

VIDAS REINVENTADAS – Boris Fishman (Rocco, 2014): Um jovem jornalista neto de imigrantes russos usa seu talento como contador de histórias, criando passados falsos para membros da comunidade judaica, que buscam indenizações do governo alemão pelas atrocidades da Segunda Guerra. Foi uma tradução difícil, mas é outro dos que adoro.

FRANKENSTEIN – Mary Shelley (Zahar, 2017): Outro clássico bacana de fazer, não só pela tradução, mas por toda a pesquisa que me exigiu para a apresentação e notas, também minhas. Trabalho difícil, editora rigorosa – literalmente na véspera de Natal estavam pedindo para eu pesquisar territórios do império turco no inicio do século XIX - mas que pagou de acordo.

TERÇAS À NOITE EM 1980 – Molly Prentiss (Rocco, 2017): Um belo retrato da cena de artes plásticas de Nova York, no começo dos anos 80, mostrado através de um crítico de arte, um artista plástico argentino e uma jovem caipira. Tem algo a ver com "The Immortalists", talvez a tendência literária atual de jovens escritoras norte-americanas. Mas é uma boa tendência. 

Segue a lista completa das traduções
(tem uma meia dúzia ainda a ser publicada ou que nunca saiu, que não coloquei aí):

- Metrossexual, Guia de estilo - Michael Flocker (Planeta)
- Quando Eu Era o Tal - Sam Kashner (Planeta)
- Fan Tan - Marlon Brandon, Donald Cammel (Nova Fronteira)
- Maldito Coração - J.T. Leroy (Geração Editorial)
- Alguma Coisa Invisível - Siobhan Parkinson (Nova Fronteira)
- O Violino Voador - Siobhan Parkinson (Nova Fronteira)
- Este Livro Vai Salvar Sua vida - A. M. Homes (Nova Fronteira)
- Os Filhos do Imperador - Claire Messud (Nova Fronteira)
- Pão de Mel - Rachel Cohn (Record)
- Siri - Rachel Cohn (Record)
- O Sonâmbulo - Jonathan Barnes (Mercuryo)
-Moby Dick/Oliver Twist/ Raptado/ O Corcunda de Notre Dame/ Viagem ao Centro da Terra (série de quadrinhos para a Ibep)
- Dizem que Sou Louco - George Haar (Ática)
- Cacos de Vida - Sally Grindley (Ática)
- A Vida Secreta dos Apaixonados - Simon Van Booy (Saraiva/Arx)
- Príncipe de Histórias, Os Vários Mundos de Neil Gaiman - (Geração Editorial)
- Você Sabe Onde me Achar - Rachel Cohn (Record)
- O Amor Começa no Inverno - Simon Van Booy (Saraiva/Arx)
- Hater - David Moody (Saraiva/Arx)
- Noturno de Havana - T. J. English (Cultrix)
- Emily, a Estranha - (anônimo) (Record)
- Bowie - Uma Biografia (Saraiva/Arx)
- A Garota dos Pés de Vidro - Ali Shaw (Leya)
- O Mágico de Oz - Frank L. Baum (Leya)
- A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça - Washington Irving (Leya)
- O Ladrão de Crianças - Brom (Saraiva/Arx)
- A Noiva do Tigre - Tea Obrecht  (Leya)
- Ladrão de Almas - Jana Oliver (Farol)
- A Filha do Caçador de Demônios - Jana Oliver (Farol)
- Quentin Tarantino - Paul A. Woods (Leya)
- Aurora - Julie Bertagna (Farol)
- Condenada - Chuck Palahniuk (Leya)
- Academia Knightley - Violet Haberdasher (ID)
- Guia de Estilo Squire (Ibep)
- O Príncipe Desencantado - Tony Ross (Record)
- Magra Para Sempre - Jilliam Michaels (Nacional)
- Guia para Dona de Casas Desesperadas - Caroline Jones (Nacional)
- O Teste - Joelle Charboneau (Gente)
- Emily the Strange - Os Dias Perdidos (Record)
- Olhar Mortal - Fergus McNeil (Nacional)
- Os Escolhidos de Gaia - Marcela Mariz (Autêntica)
- O Universo Contra Alex Woods - Gavin Extence (Rocco)
- Dark House - Karina Halle (Gente)
- O Amor em Jogo - Simone Elkeles (Globo)
- Maldita - Chuck Palahniuk (Leya)
- O Misterioso Lar Cavendish - Claire Legrand (Autêntica)
- Para Onde Ela Foi - Gayle Forman (Globo)
- Os Filhos de Odin - Padraic Colum (Gente)
- A Torre - Daniel O Malley (Leya)
- Meu Romeu - Leisa Rayven (Globo)
- Os Dois Mundos de Astrid Jones - A.S. King (Autentica)
- Vidas Reinventadas - Boris Fishman (Rocco)
- Otto, Etta, Russel e James - Emma Hooper (Rocco)
- Os Marvels - Brian Selznick (SM)
- A Busca Sofrida de Martha Perdida - Caroline Wallace (Rocco)
- Frankenstein – Mary Shelley (Zahar)
- Noites de Terça em 1980 – (Rocco)

06/02/2018

MEIO DESLIGADO

Trilhas

Há dois meses morando (novamente) na praia, desligado de tudo, reflito sobre meu lugar no mundo...




Estou com acesso restrito à internet, sem wifi aqui na casa, sem celular – no fim da bateria, carrega no máximo 10% e morre - é um IPhone já com mais de seis anos, afinal, nunca deu problema, talvez porque eu use tão pouco... (Se tiver um leitor-amigo rico, aceito um novo.)

Ainda assim, por enquanto tenho conseguido fazer tudo por aqui, mas devo ir para São Paulo depois do carnaval. Dependendo do trabalho fico por lá, dependendo, volto para a praia...

Minha rotina tem sido traduzir, escrever, ler, jogar o PSP, mais ou menos nessa ordem cronológica do dia, nem sempre nessa ordem de importância. Sento-me numa mesa de frente para o jardim onde consigo ver a coelha correr, os passarinhos se alimentarem, e faço o trabalho do dia. Dia desses vi uma cobra. Pequena, filhote, não-peçonhenta, permanece em algum lugar do jardim. Ainda não interagiu com a coelha. Mais preocupado fiquei uma manhã que acordei com barulhos na churrasqueira e havia uma ÁGUIA de tamanho suficiente para levar a coelha embora. Os gambás também fazem visitas frequentes.

Minhas leituras têm rodado quase que exclusivamente em torno da pesquisa do livro novo, então não vou comentar por enquanto. Encaixei no meio o Nutshell, do Ian McEwan, que estava na prateleiras há tempos – uma besteira muito bem escrita.  E um par de romances de amigos, que deixaram a desejar, então também não comentarei...

Sobre os games, sou oldschool.  Superei meu vício no Monster Hunter, agora sigo com a série “Ghosts n’ Goblins” – com emuladores, dá para jogar praticamente todos no PSP. Têm aquela dificuldade insana, e fico com remorso de pensar quanto devo ter gasto na infância, jogando “Ghosts n’ Goblins” no “fliperama”. (Aliás, me fez pensar também em como fliperamas eram – ou são – jogos de azar. Não sei porque escapam da proibição dos caça-níqueis.)

Murilo chega toda noite-madrugada com filmes que baixou do hotel. Assim temos visto os comentados da temporada – e eu tenho visto mais A-list de Hollywood do que de costume. Comento ligeiramente sobre os filmes no Facebook, que acabou assumindo essa função que tinha o blog, o blog perdeu a maior parte de suas funções (quem me visita exclusivamente aqui além de minha mãe?)

Curioso um post da Tatiana Salem Levy há algumas semanas, sobre isso de filmes, que ela não sabia/ não queria baixar, e perguntava quais eram as opções além de Netflix, para filmes mais antigos e tais. Bem, os filmes foram feitos para não se ter opção, né? Você via no cinema e depois nunca mais, de repente só numa mostra ou outra. O VHS inaugurou o conceito de rever seguidamente e o DVD criou o conceito de TER os filmes – agora com o streaming está tudo mais volátil. Seria curioso entender como isso alterou a maneira de se FAZER cinema, os roteiros, a estrutura em si. Sou daqueles que gosta de rever, de ter – o primeiro contato com o filme pode ser o mais prazeroso, mas é revendo que se entende como a história foi contada, a estrutura, que se aprende mais sobre cinema e storitelling em geralBem, mas talvez os filmes devessem apenas passar e sumir, como as peças de teatro, os livros...

Eu ainda estou vivo. Estou produzindo. Publico regularmente. Me interessa mais que leiam meus novos livros. Mas sempre me perguntam onde encontram aqueles que estão esgotados, que ficaram anos encalhados. Daí só resta os sebos. Penso se não deveria ser assim mesmo. Será que o livro, como os filmes, como as peças, não deveria ter seu tempo e depois só para os colecionadores? Embora a (boa) literatura devesse ser eterna, não é possível manter todos os livros de todos os autores em catálogo. De repente o livro digital é um meio termo. De repente a impressão por demanda...

Por sinal, o novo romance está se encaminhando, agora já peguei aquele ritmo de ao menos uma página por dia, já estou fazendo com prazer; deve levar ainda alguns anos, mas os últimos meses têm sido ótimos para isso.

Tem sido ótimo também para os churrascos. Sei que é um clichê de tiozão, mas já vivi lindamente a fase gatinho de praia aos 32-33 em Floripa, agora a fase é outra. Até tenho experimentado diversas carnes e técnicas, mas o principal é esse processo primitivo. Sentado aqui no jardim, escrevendo, acendo a churrasqueira nem que seja para grelhar um hambúrguer. E me decepciona o quanto agora o carvão acende rápido, quão rápido a comida fica pronta. O melhor de tudo é o ritual, o fogo acendendo, a brasa queimando....

Meu talento para churrasqueiro é tal que dia desses consegui convencer uma vaca que pastava aqui do lado a me acompanhar. Acendi a churrasqueira e a fui conduzindo: “Agora a pata direita. Agora a pata esquerda. Agora os glúteos...” (Que Marcelo Maluf não leia isso.)

Para queimar (de leve) os churrascos, temos um instrutor de funcional três vezes por semana. No painel de horários dele estão marcados os grupos: “highlanders”, “ladies”, “monsters”, freaks” – não precisa perguntar em que grupo estamos. Completamos os treinos semanalmente com trilhas para praias próximas ou cachoeiras. E dia desses fizemos uma aula de crossfit, que talvez seja uma nova opção. De toda forma, não espero mais um corpo perfeito, só não quero morrer antes dos 46.  Mas se não der também, tô de boas...

De boa. 

08/01/2018

DONA DE CASA LITERÁRIA

Virada: ele de doma, eu de trevoso. 

 Há meses tenho pesquisado um tema importante, histórico, para meu próximo romance. Tenho lido pilhas de livros, rascunhado capítulos, mas ainda não encontrei uma trama redonda, o personagem perfeito, uma voz viva.

Para que, né? Deveria apenas assumir minhas incapacidades, escrever sobre essa busca em si e minha relação com o tema, que o romance contemporâneo de respeito não é feito assim?

Ironias à parte, acho essa uma discussão bem válida, que eu gostaria de estender para as mesas, para as entrevistas, mas as perguntas que chegam a mim acabam sendo sempre as mesmas: uma longa apresentação de currículo e de influências. 

Julián Fuks, por exemplo, é um autor que respeito, estimo e admiro, com quem vira e mexe discuto (e discordo) sobre essa questão, em posts ou mesas de restaurante, e com quem gostaria de me aprofundar publicamente. Recentemente, comentando um post meu, ele defendeu a necessidade do romance se aproximar o máximo possível do real; para ele, isso faz parte do engajamento da boa literatura. Já eu, sou eterno defensor da diferença, que ainda vê a literatura como uma resistência a qualquer tendência ou corrente vigentes, mesmo tendências ou correntes literárias. Bem, deve ser por isso que ele tem um Prêmio Saramago e eu nunca apareço em nenhuma seleção de respeito, hum? Ou é simples falta de talento?

“Não tenho talento, mas tenho marido” - tem sido meu mote. Estou aqui em Maresias há mais de um mês, morando na bela casa que Murilo alugou. Nesse período de entressafra literária, final-começo de ano, quando não acontece evento nenhum, onde não aparece muito trabalho, ele está em alta temporada comandando o restaurante, num ritmo de trabalho que nenhum escritor jamais terá. Não tem como eu ajuda-lo – até porque ele é chef  do restaurante, mas funcionário do hotel, não é dono. Eu cuido da casa, da coelha, leio e escrevo, e felizmente também estou com a tradução de um romance foda para a Harper Collins. Coisa rara. A vida fica muito mais fácil quando traduzo um livro bom. (Valeu por mais essa, Mariana Rolier)

Família. 

Meu talento para dona de casa se estende à cozinha (ok, talvez eu devesse dizer que meu talento se restringe à cozinha). Então aqui em casa basicamente quem cozinha sou eu. Natal mesmo, cozinhei peru, farofa de miúdos, cuscuz marroquino, esperando sozinho Murilo para a ceia, que aconteceu depois da uma da manhã, quando ele chegou cansado do restaurante. Sem modéstia digo que minha comida favorita é a minha e a dele (embora não façamos meu prato favorito: sushi). Também nunca tive comida de família. Na minha casa de infância quem cozinhava eram as empregadas. Minha mãe dia desses disse uma frase sensacional: “Sua avó não sabe nem tirar uma maçã da geladeira.”

No reveillon, recebemos meu querido amigo Luis Fernando Scutari com o namorado, e o sol se abriu um pouco para eu torrar. Não recebemos muita gente aqui. Primeiro porque temos pouquíssimos amigos íntimos, então quem mais vem é minha irmã com marido e filha. Depois porque Murilo está sempre trabalhando demais e eu nunca estou inteiramente de férias, então é preciso que os hóspedes sejam independentes, vão para a praia sozinhos, sintam-se em casa e não encham o saco. Eu trabalho em casa e preciso de horas diárias de silêncio e sossego para ler e escrever (bem, silêncio relativo, o som está sempre ligado...).

Com LF. 
Por sinal, a casa é especialmente prodigiosa por isso. Estamos do lado da praia e ainda não tivemos UM vizinho invasivo, barulhento, som alto. O jardim cheio de bromélias traz passarinhos de cores psicodélicas (e pererecas de todos os calibres). O ar condicionado potente garante noites bem dormidas.

Ficarei aqui até... sei lá quando. Março, abril, até ter motivo para voltar para São Paulo ou sair de lá. A falta de wifi tem sido muito produtiva – menos tempo no Facebook , mais tempo em páginas de papel – embora eu relativize o caráter imbecilizante das redes sociais. Sempre me alimento bem disso, do que estão dizendo, do que está acontecendo, das notícias que estão compartilhando. Bem ou mal, é uma fonte de informação importante, de contato com as opiniões vigentes, em meio a vídeos de coelhinhos fofos e boy bands russas.



            

01/12/2017

UM ANO TREVOSO

Saindo do poço...

Não foi fácil para ninguém, não se engane. Não foi fácil para mim. Estava revendo há pouco minhas retrospectivas de anos anteriores, e se a do ano passado também foi negativa, já fui feliz em 2015, 2014, 2010, 2007...

Este ano não foi dos piores. Mas foi pesado.  Se 2017 me trouxe conquistas importantes, os quatro primeiros meses, primeiro terço, em que NÃO RECEBI UM TOSTÃO, me deixaram um gosto amargo na boca que ainda não passou. Eu, prestes a fazer 40 anos, questionando minhas escolhas, desconfiando de que meu tempo já havia passado; foi um começo do ano do cão, dos piores da vida, em que não pude contar com quase ninguém, os amigos pareciam mergulhados em crises pessoais, nem meu namorado estava por perto, uma solidão intangível. Foi horrível-horrível...

Ok, acho que foi dos piores.

Primeira mesa do ano foi em abril, com André Fischer e os queridos do Põe na Roda. 

Mas, como resultado do meu desespero, ou pura sorte-acaso, a partir de abril comecei uma série de viagens e debates que mantiveram a cabeça em movimento e as contas sob controle. Foram 25 mesas, talvez um recorde em minha carreira, que trouxeram não só os cachês, mas aprendizados e experiência.
Na estrada com Namaia e Marcelo Reis de Mello. 

Começou com a turnê de debates do Sesc pelo interior do Rio, com Ana Paula Maia - uma forma de me aprofundar num estado vizinho, que me era tão estranho. 'Namaia é das autoras de que mais gosto, e temos visões bem conflitantes de mundo; então deu para ter debates densos, sem perder o respeito, não só nos palcos, como nas vans, nos aeroportos, nos jantares em que ela me arrastava por Copacabana quase de madrugada...

Adamantina. 

No segundo semestre tive a turnê pelo interior de SP, com o Viagem Literária, que também me levou a novos públicos e novos cenários. Encontrei desde adolescentes a idosos que estavam sendo alfabetizados, uma aula para mim mesmo. E ainda tive uma turnezinha de duas cidades do Paraná, com a Caravana Literária, onde encontrei leitores lindinhos-lindinhos.

Em Apucarana. 

No meio de tudo isso, tive mesas pontuais em BH, Salvador, Votuporanga, Iguape, Garopaba, São Paulo e a Bienal do Rio. Também fiz minha terceira passagem pela Colômbia, desta vez em Medellin, para um festival literário. Foi bacana reencontrar colegas queridos de lá e do Brasil, como o Julián Fuks e o Juan Cárdenas, mas a viagem em si não foi grande coisa, e não deu mesmo para vôos maiores.

Setembro em Medellin. 

A viagem mais exótica do ano foi até uma aldeia guarani.

Além das viagens de trabalho, fiquei com um pé em Maresias, onde Murilo comanda o restaurante Guató. Foi inesperado e bacana arranjar uma casa na praia nessa fase da vida, mas a distância não é tão fácil de administrar - eu não posso estar sempre lá e ele raramente consegue vir para São Paulo. Ao menos pude usar as casas (porque ele se mudou três vezes desde o fim do ano passado) para receber amigos e a família. Minha sobrinha de cinco anos já tem Maresias como destino certo de férias e feriados.

Gaia e Valentina.

A casa alugada atual é do lado da praia, tem um belo jardim e uma suíte para hóspedes (para os amigos próximos, bem próximos, que não sou uma people´s person, e Murilo menos ainda), mas minha favorita foi a casa do primeiro semestre, que ficava afastada, no meio da mata, cheia de pragas e umidade e uma piscina incrível - meu cunhado a chamava de "Solar Lars Von Trier."


Foto tosca de um dia raro.. ou foto rara de um dia qualquer: Eu e Murilo fomos até Ilhabela, almoçamos por lá e encontramos um raro arcade, ou "fliperama", um lugar para "jogos eletrônicos", algo tâo presente na minha infância, presente lá mesmo em Ilhabela, onde eu ia na pré-adolescência... Nesse só passamos para as fotos, mas estava funcionando. Me deu uma nostalgia terrível...

Com essa nova vida de praia, na meia idade, se não posso pagar de gatchenho surfista, ao menos desenvolvi talentos de mestre churrasqueiro. Já passei muito do básico e agora faço carvão com os gravetos do jardim. (Rodrigo Hilbert, se eu cozinho, você faz doce?)


Com Xerxenesky e Tati Bernardi no lançamento da neve. 

Voltando ao trabalho, o marco do meu ano foi o lançamento de Neve Negra, é claro, meu primeiro romance pela Companhia das Letras. Foi bem recebido, gerou muitas entrevistas e boas resenhas - nenhuma negativa até agora - com destaque para o texto do Cristóvão Tezza na Folha. Talvez por ter sido fruto de uma encomenda, encaixou-se perfeitamente nesse novo momento do "pós-terror", que foi o mote da maioria das matérias.

"O pós-terror."

Aliás, essa foi uma discussão interessante... e interessante que tenha gerado discussão. Lembro logo que meu livro e do Xerxenesky estavam saindo, que nos encontramos na Companhia das Letras e ele disse como nossos livros saíam totalmente alienados às discussões do momento - para mim isso era o padrão. Então praticamente no dia seguinte os livros estavam inseridos na discussão, não só do pós terror, como, no meu caso, em toda a questão da função da arte e da relação com a pedofilia. Ao meu ver, isso é o resultado de um bom olhar da encomenda, quando a RT Features nos pediu os livros, já intuindo as discussões sendo gestadas, porque eu mesmo sempre passo longe de tendências, e se não tivessem me pedido esse livro eu teria feito algo bem diferente.

Discutindo literatura de horror com uma grande turma, em novembro.


Bom que pude debater sobre isso como autor, porque não exercitei muito o lado resenhista e jornalista... que não sou de fato. Publiquei um punhado de contos em revistas e jornais - que coloquei no post anterior aqui do blog. Na Folha de S. Paulo, onde escrevo esporadicamente desde 2005, só publiquei uma matéria no começo do ano, um perfil de leitores de literatura brasileira contemporânea, na Ilustríssima (aqui). Como estava lançando livro, preferi me concentrar na divulgação.

Bahia com Mário Rodrigues e Milena Britto. 

Não tive outros grandes projetos e promessas no ano, nem para o próximo. Talvez eu devesse ser mais pró-ativo, mas minha experiência com cinema-TV-teatro é sempre tão frustrante... Perdi a conta de quantos argumentos, roteiros, projetos fiz, que não deram em nada. Em livro, bem ou mal, eu sei que depende só de mim. Eu sento para escrever e o livro sai. Não é à toa que já tenho nove.


Colômbia. 

Então me concentrarei nisso neste final/começo do ano. Estou em Maresias com uma pilha de livros para pesquisa, o computador, e escrevo no jardim com a coelha cavando trincheiras. Natal e reveillon serão por aqui... provavelmente até o carnaval. Volto assim que o trabalho chamar.

No fim de ano passado, em Maresias. 

23/11/2017

PRÓXIMOS, PÓS E PARALELOS


Já à venda.

Saiu esta semana o Perdidas - Histórias para Crianças que Não Têm Vez - uma antologia de contos e poemas de grandes autores, sobre crianças vítimas da violência no Rio de Janeiro, com os direitos autorais revertidos em ações beneficentes na cidade.

Aceitei participar não só pela boa ação - porque boas ações raramente geram boa literatura - mas pelo que o tema me instigava. Gostei bem do resultado. Meu conto "Domingo Maior" é praticamente uma história de fantasma, um conto de pós-terror, como uma prova de que esse novo subgênero está aí de fato para tratar de questões mais densas.

A mãe tirou o prato do forno, levou até ele. “Cuidado que está quente”, mas não estava muito. O dia havia acabado, já estava escuro, mas ela não se preocupou mais em acender a luz; sentou-se ao lado dele e ficou observando o filho comer com apetite. Lembrava um pouco o marido, lembrava um pouco ela mesma, era um menino que ela havia amado por toda a vida, que quase lamentava amar para sempre, porque para sempre ela iria sofrer...

Escrever contos sempre é um bom exercício, uma maneira de testar novos formatos, temas, tratar de questões mais imediatas (como essa), e fico feliz que este ano tenham me encomendado um punhado deles.

Ilustração de Marcos Garuti para meu conto na revista do Sesc.

A morte de João Gilberto Noll, por exemplo, também me inspirou um pós-terror: "A Coelha Vampira", que publiquei na revista do Sesc (e depois em versão estendida aqui no blog).

Um bicho de estimação é um exercício de síndrome de Estocolmo. Ela não precisava de mim, eu não gerava empatia, e sentia que fracassava miseravelmente como sequestrador. Perguntava-me se para a síndrome se estabelecer era preciso um mínimo de charme por parte do perpetrador, um mínimo de ameaça, transgressão, juventude, coisas que eu não tinha, e a coelha sentia. A coelha sentia falta.


Mês passado também publiquei um conto no jornal Cândido, da Biblioteca Pública do Paraná, uma resposta aos neo-consevadores que querem limitar os temas da arte e da literatura, uma visão de violência pelos olhos do agressor: "Maldita Primavera", aqui.

Marcelo levanta-se e olha para baixo. Fecha o zíper. A menina como um personagem de desenho animado, esmagado por um rolo compressor. Não, seu pulmão ainda infla. Palpita. Marcelo pega o tijolo ao lado e é um golpe rápido na lateral esquerda da cabeça. Pronto, nada mais a palpitar. Geleia orgânica. Ele sente o ombro. Um gosto azedo na boca. O cheiro pungente de seus próprios líquidos e os mosquitos o devorando vivo.
Pré-Trevoso ilustrado por Wagner William.
E no começo do ano publiquei na Superinteressante uma "prequel" do meu Trevoso - "Galhos Frescos"- também com uma cutucada nos evangélicos:

Então o velho o viu, com pés leves, pernas longas, passos largos, como Jesus caminhando como um lagarto sobre as águas. O menino. Ocre como a lama. Vasta cabeleira desgrenhada. Com um balde em mãos. Saltava catando os caranguejos.

O texto integral só saiu na revista impressa. Quero reunir esses e outros para um novo volume de contos, contos de "pós-terror" ou apenas um pós-Pornofantasma. Sei que livro de contos é visto como algo menor no mercado, então estou me concentrando em publicar antes um novo romance (que ainda levará um bom tempo para eu terminar - vai numa direção totalmente diferente dos meus romances mais recentes), mas ano que vem devo experimentar uma pequena publicação para outro público... E antes disso tenho de fazer o conto para a antologia de terror com os novos autores que encontramos no fim de semana. Felizmente, a criatividade continua pululando por aqui.


A MULHER ENTRE NÓS

Assinei resenha este fim de semana na Folha: A MULHER ENTRE NÓS · Preço R$ 34,90 (352 págs.) · Autor Greer Hendricks e Sarah...