28/09/2018

ELE NÃO!



Já falei exaustivamente no Facebook, e acho que é óbvio para qualquer um que me segue, mas ainda não tinha colocado aqui no blog, então reforço o coro do #elenão, contra a candidatura do Capeta que não merece ser nominado.

Para mim não deveria ter nem discussão, uma pessoa dessas nem deveria poder ser presidente. Mas me surpreendo ainda com o fascismo do povo brasileiro, e a defesa que gente totalmente alienada tem feito dele.

É um cara racista, homofóbico, misógino, que vem há anos na imprensa dando declarações absurdas, pelas quais já deveria estar preso.

Alguns dizem que não é bem assim, que a imprensa (comunista!) tira as frases dele de contexto. Não é verdade. Já acompanhei várias entrevistas completas dele; não tem como relativizar. O cara defende torturador, defende extermínio em massa.

Outros dizem que ele realmente tem um pensamento "conservador", mas é um militar, que o Brasil tem questões muito mais importantes para lidar, e que ele é ficha limpa e vai acabar com a "bandidagem".

O sujeito está há quase TRINTA anos no congresso e não aprovou UMA lei que preste, não fez nada pela segurança do Rio, estado que o elegeu, só meteu a família toda em cargos público e mamou nas tetas do estado, e tem coragem de bradar contra lei Rouanet e afins.

O sujeito não tem a MENOR noção de economia, de saúde, gestão pública. Nos debates tem entregue a responsabilidade aos seus ministros, ao seu "Posto Ipiranga" Paulo Guedes, que propõe imposto de renda único de 20% para pobres e ricos.

O sujeito só não é um GÊNIO DO MAL porque de gênio não tem nada. É um JECA total, ignorante, inculto - é esperto, claro, muito esperto - mas total ignorante e despreparado. Que se aproveitou de esperto na burrice do povo.

"Ah, mas o PT..." Eu não voto no PT. Nem acho que seja saudável o PT de volta ao poder, principalmente com essa polarização, desconfio da governabilidade do partido. Até simpatizo com o  Haddad e votarei bonito nele no segundo turno (se for contra o coiso). Mas meu voto é no Ciro Gomes.

Longe de ser o ideal, e com uma vice aterradora, acho a opção mais viável, o cara mais preparado, com pensamento em sintonia com muitas coisas que acredito. De toda forma, não pago pau pra nenhum político. Não sou otário de chamar político de "mito". E a questão aqui não é em quem votar (temos doze opções), é só que ELE NÃO é uma opção.

Acho lindo sim esse movimento, porque não é questão de partido, nem de direita ou esquerda, é questão de bom senso. É para deixar claro que todo mundo tem direito a voto, mas que essa escolha específica ultrapassa todos os limites - afinal é um cara que apoia a ditadura, a censura, a tortura, que reprime a própria democracia e o direito de voto. Votar nele é no MÍNIMO um contrassenso.

"Ah, mas você prefere o comunismo?" Meus queridos, ESTAMOS EM 2018! O PT ficou uma DÉCADA no poder e tornou o Brasil mais capitalista do que nunca (com acertos e barbeiragens). Não entendo de onde surgiu essa paranoia nos dias de HOJE que "os comunistas vão tomar o poder", coisa total anos 60!

"Ah, mas a Venezuela..." Povo adora pegar exemplo de país fodido para desmerecer a esquerda. Quer exemplo de país de esquerda, com estado forte, flertando com o socialismo? Vai pro primeiro mundo. Vai pra ESCANDINÁVIA!

(Eu já fui. E já fui pra Venezuela também. Tá faltando Cuba, adoraria).

Mas novamente, não é questão de direita ou esquerda. Vota no Alckmin, vota no Amoedo... NELE NÃO.

"Ah, mas falam isso porque ele é o único que consegue derrubar a esquerda..." Meu querido, não tenho culpa que a direita não conseguiu viabilizar uma candidatura decente. Se segundo turno fosse entre ELENÃO e Alckmin votava feliz (ou quase) no Alckmin. E o vice do Amoedo é meu primo! Esse discurso parece um "prefiro explodir o país do que deixar a esquerda governar."

De todo modo... Apelar para a argumentação e bom senso me parece inútil para alguém disposto a votar numa coisa dessas. Podem até assassinar o cabra, que vai surgir outro, um filho, um discípulo, um esporo. O problema é essa mentalidade imbecilizada, formada por anos sem educação, com muita religião.

Mas por enquanto, só podemos pedir: ELENÃO

(Agora vamos deixar de lado a monomania e falar do novo álbum do Suede?)



Tentando argumentar com um "minion". 










20/09/2018

THE BLUE HOUR


Novo disco do Suede saindo nesta sexta.

"The Blue Hour" é o oitavo, o terceiro da nova fase da banda, pós-retorno em 2010. Segue a linha temática sobre relacionamentos conturbados, paternidade, crises de meia idade que não costumam gerar boa coisa em matéria de rock, mas também não dava para esperar que eles seguissem nas drogas e androginia aos cinquenta anos de idade. Fizeram escolhas dignas, com resultados discutíveis.

Nas entrevistas recentes, eles anunciaram o disco como "sombrio e perturbador", mas os primeiros singles iam para outra linha, com letras tiradas de uma cartilha de auto-ajuda: "you are not alone", "don't be afraid", "life is golden" - porém ao se ouvir o disco inteiro, as declarações fazem total sentido. "The Blue Hour" é um disco de pós-punk, o mais gótico que Suede já foi. Fica até difícil imaginar a maioria das faixas numa playlist de sucessos da banda como "Beautiful Ones".

Na verdade, "The Blue Hour" parece um novo projeto solo de Brett Anderson - mais próximo de "Black Rainbows" ("The Exiles", "Actors", "Possession") do que de qualquer outro disco da banda, mas com algumas novidades (corais, ruídos incidentais, spoken word, Brett cantando com primeira e segunda voz).

Será que isso é bom?

Vamos arriscar um faixa a faixa (apesar de, claro, eu ainda estar nas primeiras audições, ainda preciso me acostumar..):

AS ONE: Coral trevoso, guitarra pós-punk, orquestra, uma cruzamento gótico de "When We Are Young", do disco anterior, com o "Seventh Seal" do Scott Walker (uma influência confessa).  Mas a melodia não é lá grande coisa e não transcende muito além de uma introdução, que dá bem o tom do disco.

WASTELANDS: Das mais popzinhas do disco - e das mais longas - mas não traz nada de especial. Falta um melhor trabalho de guitarra, um refrão mais empolgante. Meio "meh".

MISTRESS: Baladinha gótica bem esquecível.

BEYOND THE OUTSKIRTS: Baladinha que cresce com refrão grandioso, tem lá seu solo de guitarra (remetendo levemente a "Sometimes I Feel I´ll Float Away"), mas também nada especial.

CHALK CIRCLES: Aqui a coisa começa a ficar interessante, apesar de ser mais uma ponte para a próxima música. Tem um refrão com multi-vocais (a la "Funeral Mantra") que serve como ótima abertura para a próxima.

COLD HANDS: Como é emendada na anterior, ao ouvir pela primeira vez achei que era uma música só (um progressivo que funciona bem). Outra das pops do disco, versos com guitarrinhas pós-punk e um refrão óoootimo cheio de backings glam. "Put your cold hands on meeeee - oh-oooh." Acho que é minha favorita.

LIFE IS GOLDEN: Outro ponto alto do disco (e um dos singles), uma balada bem bonitinha (não chega a ser linda), com um tom meio kitsch de auto-ajuda ("you are not alone, look up to the sky and be calm. Your life is golden."). Bacana.

ROADKILL: É uma vinheta, em spoken word, com Brett Anderson recitando sobre um pássaro morto que encontrou. Parece as coisas solo do Andi Sex Gang... (E, bem, gosto de Sex Gang).

TIDES: Outra baladinha gótica, na mesma pegada de "As One" e "Beyond the Outskirts", que cresce e ganha percussão no refrão. Nessa altura do disco, já soa meio genérica.

DON'T BE AFRAID IF NOBODY LOVES YOU: Amo o título. A música é outro dos popzinhos meio meh, do álbum, com uma pegada meio "Snowblind", não tão boa quanto. Mas é ok.

DEAD BIRD: Outra vinheta. Aqui com um diálogo curtinho entre Brett e seu filho.

ALL THE WILD PLACES: Baladinha sinfônica, meio balé, meio "meh". Cadê a banda?

THE INVISIBLES: Na mesma vibe do que a anterior, mas com uma melodia mais bacana (porque talvez eu já tenha me acostumado, já que foi das primeiras a sair). Podia ter um arranjo melhor, podia crescer com a banda. Cadê bateria? Cadê a banda?

FLYTIPPING: Outra das baladas que crescem no refrão (como "As One", "Outskirts"). Nos 45 do segundo parece que ao menos Simon Gilbert (o baterista), acordou, com viradas interessantes (que não são muito marca dele). Mas nenhuma grande surpresa fechando o disco.


Concluindo: talvez eu precise me acostumar. Achei meio decepcionante, mas nada vergonhoso. Sinto falta de melodias mais líricas, guitarras mais definidas, um solo poderoso de guitarra (naaaada), muita orquestra, pouca banda. Funciona mais como "álbum conceitual" do que os anteriores, o que também o deixa um pouco repetitivo, muitas faixas parecidas. Tem o grande mérito de ser BEM diferente dos anteriores. Mas está longe de ser dos melhores.

Se você não é grande conhecedor da banda, recomendo mais ver dois posts meus atrás ("The Beautiful Ones"), que coloco uma playlist de 10 das minhas favoritas.

Arriscando meu novo ranking da banda, eu colocaria os álbuns mais ou menos nessa ordem:

DOG MAN STAR
SUEDE
COMING UP
NIGHT THOUGHTS
BLOODSPORTS
THE BLUE HOUR
A NEW MORNING
HEAD MUSIC


16/09/2018

LITERATURA GAY



Semana passada João Silvério Trevisan relançou seu histórico “Devassos no Paraíso”, um tratado sobre a homossexualidade no Brasil “da colônia à atualidade”. Tenho orgulho de fazer parte dessa nova edição (citado com “Feriado de Mim Mesmo”), embora eu reconheça que, "literariamente", poderia ter feito mais pela “causa”- dos meus nove livros, poucos trazem o tema em primeiro plano, talvez porque nenhum trate especificamente de relações amorosas-afetivas....

Entre Trevisan e Noll, em 2009

É sempre uma escolha delicada, até que ponto contar uma história, até que ponto levar uma causa. Eu adoro os personagens tortos, de caráter duvidoso, tentar entender o outro lado. Outra alternativa é ser panfletário, político, que talvez não renda boas histórias. Mas estou trabalhando nisso, estou buscando um equilíbrio...

De todo modo, também estou numa curiosa lista que a SP Review fez recentemente sobre literatura homoerótica brasileira dos últimos tempos (com “Pornofantasma”). Então acho que estou fazendo minha parte... (Aqui:24-livros-homoeroticos-para-voce-ler-agora/)

Estimulado por isso, resolvi fazer minha própria lista, meus 24 livros gays favoritos de todos os tempos, de várias línguas, romances, contos e biografias (só dois coincidem com a lista da SP Review). Muitos são escolhas afetivas, muitos não foram traduzidos, muitos li em inglês, alguns em espanhol. Vários li há tanto tempo, na adolescência, que pouco me lembro (além da sensação positiva, e uma ou outra cena marcante); tenho uma memória terríiiiiiivel para leitura, então às vezes tive de recorrer ao que eu mesmo já escrevi sobre o livro (aqui no blog ou na imprensa).

É uma lista absolutamente pessoal. Não pretende mesmo ser “os melhores” e sim meus favoritos, entre os que li. E não, não tem nenhuma autora mulher. Cogitei colocar o “Cartas de um Sedutor”, da Hilda, mas como seria só ela, preferi manter o clube do Bolinha, só homossexualidade masculina. Acho que não tem nenhum autor hétero também... só enrustidos. Mas tem clássicos, contemporâneos, branco, preto, rico, pobre, jovem, velho, magro, gordo, manco, cego. Tem muitos amigos. E, por incrível que pareça, só UM que já peguei...

Vamos lá, em ordem aleatória:


O Retrato de Dorian Gray – Oscar Wilde


O romance que me fez querer ser escritor na adolescência. Uma versão do mito do narciso, um menino tão belo que se apaixona por si mesmo e vende a alma em troca da beleza eterna. A escrita dândi e sarcástica de Wilde é uma das bases da minha. (E como ainda quero traduzir esse livro...)

Visitando o túmulo dele em Paris pela segunda vez (em 2015). 

Frisk – Dennis Cooper

Das coisas mais pesadas que se pode ler: romance gay pedófilo-necrófilo SM hardcore. Cooper é dos meus autores favoritos exatamente por essa ousadia – leva a ficção literária aos limites (e nunca foi publicado no Brasil). “God Jr.” talvez seja seu melhor romance, mas não é exatamente gay. “Frisk” é uma excelente amostra do que ele faz de melhor, de pior, apenas para os fortes. (Ah, gerou um filme - que não presta.)


Morangos Mofados – Caio Fernando Abreu

Outra das leituras da adolescência, da época de descobrimento da minha (homo) sexualidade e da minha própria literatura. Confesso que hoje acho um quanto tanto datado e... sentimentaloide. Mas a força de contos como “Sargento Garcia” e “Aqueles Dois” se mantém.

Maldito Coração – J.T. LeRoy 

Essa edição é uma beleza. Minha tradução já não sei...
A falsa biografia de um michê mirim, num universo de sexo, drogas e androginia. Acompanhei de perto essa história, conheci a autora (OPS! Temos aqui uma autora mulher, ainda que tenha escrito se passando por homem) e é o único livro da lista com tradução minha (uma das minhas primeiras traduções aliás; tenho medo de reler hoje em dia...).

Com Laura Albert, a verdadeira autora. 

Pai, Pai – João Silvério Trevisan

Trevisan tem uma vasta obra dedicada à homossexualidade, mas “Pai, Pai”, seu romance autobiográfico lançado ano passado é o que está mais fresco em minha mente, e dos que mais gosto (junto a “Ana em Veneza”). A partir da turbulenta relação com o pai, ele narra sua história, a descoberta de sua homossexualidade no seminário e sua trajetória como autor. Tem que ganhar algum prêmio este ano.

Rastros do Verão – João Gilberto Noll

Não é dos romances-novelas mais conhecidos de Noll, mas foi o primeiro dele que li, me mudando para Porto Alegre, aos 22 anos, por isso foi tão importante para mim. Narra a história de um homem... chegando a Porto Alegre, aquele viajante típico do Noll, com sexualidade e objetivos ambíguos. Visitei os cenários descritos no livro com meu namorado na época (que hoje é professor em Harvard) e Noll se tornou um dos meus maiores heróis – que por privilégio depois virou amigo. Saudades. 

Eu na sarjeta com Noll nas estrelas. Nunca me esquecerei. 


Morte em Veneza – Thomas Mann

Como tantos, a obra de Thomas Mann me foi aberta na adolescência pelo filme de Luchino Visconti, que talvez seja melhor do que essa novela (que é um tanto quanto cerebral, enquanto o filme é tão contemplativo). Aqui temos uma espécie de revisão de Dorian Gray, um homem já na meia idade que contempla a beleza perdida, através de um jovem tão idealizado, que acaba sendo sua morte. Convém apontar que toda a obra de Mann traz essa visão idealizada da beleza masculina. E ele é dos meus autores favoritos.

O imortal Tadzio. 

Balé Ralé – Marcelino Freire

Marcelino Freire tem uma voz única. E de todos seus livros “Balé Ralé” continua sendo meu favorito. Livro de contos que trata da sexualidade de forma tão lírica, tão musical e tão divertida.

O Desconhecido – Lúcio Cardoso


“A Crônica da Casa Assassinada” é seu maior clássico, mas confesso que esse “Desconhecido” (de 1940),  me tocou mais profundamente. É uma novela minimalista, sombria, quase um livro de terror, com uma homossexualidade latente, escrita em fluxo de consciência. Ele tinha de ser mais lido.

Homens Elegantes – Samir Machado de Machado

Dos contemporaníssimos, o gaúcho Samir tem trabalhado o romance histórico com criatividade, pertinência e “elegância”. Seu “Homens Elegantes”, lançado em 2016, é uma mistura de romance gay com capa e espada e sátira política (incluindo um vilão chamado “Conde Bolsonaro”).

Bela capa (e espada). 

O Estranho Mundo de Hugo Guimarães 

Dos mais interessantes entre os jovens (agora já não tão jovem) escritores gays contemporâneos, Hugo faz “literatura snuff”, uma prosa gay hardcore, herdeira de Glauco Mattoso com Dennis Cooper, punk e provocadora. Não à toa, quem assina a orelha desse seu livro de contos sou eu. 

Hugo-gato-autor-capa.

Giovanni’s Room – James Baldwin

Um clássico gay (dos camelôs de livros) escrito por um autor negro, representa a homossexualidade através da fascinação americana pelo universo europeu. Outro daqueles que li na adolescência e que, ainda que publicado nos anos 50, me parece incrivelmente atual e provocador. Também quero reler. 

Allan Stein – Matthew Stadler 

Pouco conhecido, Stadler é um autor americano dos anos 90, obcecado pela sexualidade juvenil (eu mesmo o conheci pessoalmente quando eu era pouco mais de um menino...). Aqui, um professor estuda Allan Stein, sobrinho de Gertrude Stein (que não fez nada de grandioso além de ter pousado para uma rara obra homoerótica de Picasso). A obra mistura ensaio e auto-ficção, com alta carga queer. Literatura serve pra isso. 

Puta capa "Dog Man Star."


A Confissão de Lúcio – Mário de Sá Carneiro

Autor português contemporâneo (e amigo) de Fernando Pessoa, Sá-Carneiro era um homossexual obeso que se matou aos vinte cinco anos. Entre as obras que deixou, a novela “A Confissão de Lúcio” é das mais famosas – um triângulo amoroso com algo de um “duplo feminino”, uma homossexualidade latente e simbolista, que termina em crime. Também me foi trazida por um namorado da juventude.

Temporada de Caza para el León Negro – Tryno Maldonado

Maldonado é um escritor mexicano gente finíssima, que conheci na Espanha, em 2010. Esta sua novela (a única que li) é uma declaração de amor a um personagem, um jovem artista plástico cocainômaco, anárquico e autista – numa narrativa que equilibra poesia com uma futilidade estúpida. Mais do que a figura de um excêntrico, é um retrato (abstrato) de nossa geração (a "Geração Atari", como Maldonado coloca no livro), então o livro se torna uma visão afetiva de nossos valores e ideais.... (ou foi isso que escrevi ao ler o livro na época). 

Maldonado e eu, mano a mano. 

The Man Who Fell in Love with the Moon – Tom Spanbauer

Uma espécie de faroeste gay narrado por índio michê adolescente... Precisa dizer mais? (Ai, li esse lá nos anos 90...). Foi um dos livros que me impactou pelo personagem,“Shed”, e pela abertura de possibilidades de narrativa no universo gay, com folclore norte-americano. Também quero reler. 


The Night Listener – Armistead Maupin

Baseado numa história real. Aqui temos um locutor de rádio (espécie de alter-ego de Maupin) que estabelece um relacionamento entre o platônico e o paternal com um ouvinte adolescente, que pode não existir. Tem muito em comum com a verdadeira história do J.T. LeRoy. E gerou um filme com o Robbie Williams no papel principal (que presta também, acredite.). Acho que tem uma tradução publicada no Brasil.


O Inferno É Logo Ali – Mike Sullivan

Outro dos contemporaníssimos brasileiros, Sullivan traz um lirismo invejável ao cenário homoerótico, com textos que ficam entre o conto e poema, sobre sexo, drogas, michês e bebedeiras. E este não é o único livro dele que presta. Um autor que ainda será grande (se o fascismo, o MBL e a estupidez não dominarem o país...)

Bela capa. 

O Templo – Stephen Spender


A história de um jovem inglês que vai para a Alemanha e se deslumbra com a beleza, com os corpos, com "o templo" dos alemães. Anos depois, ele volta ao país e descobre que todo aquele culto à beleza assumiu uma conotação política perigosa, com o emergente partido nazista. Os jovens arianos que ele conheceu embruteceram e se voltaram contra ele, que era judeu. Ao mesmo tempo em que os jovens judeus e miscigenados se voltaram contra os arianos que antes amavam. "O templo" se tornou um fronte de batalha. Outro livro que eu adoraria reler, e que ganhei de presente do (falecido) poeta Donizete Galvão, lá no início do século.

Solo te Quiero como Amigo – Dani Umpi

O escritor, cantor e artista performático uruguaio Dani Umpi é um amigo querido. Este seu romance foi o primeiro que li, de férias em Florianópolis, entre a cena gay da Praia Mole, e fez todo sentido, porque narra a vida gay no Uruguai (tão próxima daqui), através de um relacionamento falido. É bem engraçado e divertido. 

Com Dani Umpi (ao centro) e Michel Melamed.

Lucas e Nicolas – Gabriel Spits

O romance mais adolescente desta lista, de outro contemporaníssimo brasileiro, é um tanto quanto adocicado e tem aquela história clichê de “nerd se apaixona por fodão do colégio”. Mas funciona. Porque é muito atual, inteligente, fofo, e contado do ponto de vista dos dois meninos, o que dá uma dimensão literária maior. Eu gostaria de ter lido na escola. Devia ser leitura obrigatória.

Running with Scissors – Augusten Burroughs 

Romance biográfico (que gerou um filme mais ou menos), de um garoto homossexual que é entregue a uma família “alternativa”, beirando a insana. É divertido, engraçado, às vezes perturbador e bastante literário. Fiquei de olho no autor, que prometia, mas até agora ele não repetiu o feito... (Tenho um livro dele de crônicas natalinas que é péeeeessimo). Tem tradução no Brasil.

O Tripé do Tripúdio e Outros Contos Hediondos – Glauco Mattoso 

Mestre brasileiro, Glauco Mattoso é nossa voz queer mais importante, com narrativas que passam pela dominação, SM e podolatria. Difícil para mim escolher um livro dele, até porque tenho muuuuita coisa dele aqui (grande parte que ele mesmo generosamente me enviou) e nem lembro ao certo qual conto é de qual livro. Mas este volume e um belo exemplo, com uma belíssima edição da Tordesilhas.

Pornofantasma – Santiago Nazarian


O melhor da lista! Mentira... Mas posso colocar um meu? Afinal, não posso me deixar de fora para o povo que cair aqui de para-quedas... Meu único livro de contos tem essa pegada forte queer, alternativa, entre o terror e o erótico. O texto mais longo, quase uma novela, que dá o título, é sobre um pai que perde o filho adolescente, vítima de overdose, e passa a enxergá-lo num ator pornô, que ele tenta salvar. Sim, tem muito de Cooper, de Noll, Stadler, LeRoy e tantos outros autores desta lista, que, afinal, são minha influência.

Este é o antigo rascunho de capa que mandei para a editora, mas não conseguimos os direitos da foto. Pena. Amo essa foto. 


E a história continua...

13/09/2018

CULTURA EM CHAMAS


Eu e Mutarelli brindando a tempos melhores (México, 2013). 

Você ganha bem com a literatura?

"Estou absolutamente falido. Vivo de aulas que dou no Sesc, o que não paga todas as contas. O que eu ganho com livro é ridículo. Recebo 10% do preço de capa, e ainda pago 27% de imposto de renda. Não tenho dinheiro para chegar até o final do ano. Vai ter uma exposição no Sesc, em novembro, com algumas coisas minhas, estou terminando umas pinturas, sem escrever neste momento. Quando começo a pintar, paro de escrever. Estou com 54 anos e tudo só piora, a cada ano está mais difícil. E acho que nem posso reclamar, estou numa grande editora, publico. Sou um dos que deram certo, mas dar certo com livro no Brasil é apenas isso. É muito triste." - Lourenço Mutarelli em entrevista a Thales Menezes, na Folha.

(entrevista completa aqui:  Entrevista com Mutarelli


Ecoou muito por aqui a declaração recente do querido Lourenço Mutarelli, em ocasião do lançamento de seu novo romance O Filho Mais Velho de Deus (que ainda não li, mas o título é foda). Tem sido um ano muito, muito difícil para mim, e saber que o meio como um todo está na mesma é ao mesmo tempo reconfortante e desesperador.



Reconfortante porque a gente se sente menos merda, né? Saber que o fracasso não é tão pessoal, que gente melhor do que a gente tá na mesma, ou pior. Desesperador porque a gente sabe que não tem muito como escapar; gente melhor do que a gente está na pior...

O meio literário-editoral está numa situação muito complicada. As livrarias não vendem e não repassam às editoras. As editoras cortam custos, publicações, traduções. Os autores não recebem. Mutarelli expôs sua situação pessoal na Folha, mas todos os colegas que encontro estão na mesma, perdidos. 


Primeira mesa da primeira Flip (2003) foi comigo (e Cuenca e Chico Matoso, mediados por Paulo Roberto Pires)


Eu tive a sorte de começar a carreira no comecinho dos 2000, num período próspero para a cena literária (e para a economia como um todo). Nunca antes na história deste país houve tanto mercado para os "novos autores": eram as feiras literárias que se proliferavam (com cachês); a multiplicação de canais a cabo e o ressurgimento do cinema brasileiro, que precisavam de novos roteiristas; e todo um público para aulas de escrita, de oficinas criativas. O escritor tinha trabalho. 


Lá por 2007 dava para ganhar um (bom) dinheiro até escrevendo pro São Paulo Fashion Week. 

Em 2014, fiz aquela matéria grande na Folha (aqui) sobre do que vivem ("do que se alimentam") os escritores no Brasil. Apesar de alguns escritores mais "comerciais" me chamarem de negativo, eu avaliava aquele cenário como muito positivo. Se os escritores não conseguiam viver da venda de livros, estavam se mantendo com as aulas, as traduções, roteiros, jornalismo.

De lá para cá, a situação deteriorou muito, com a crise econômica, ideológica e o incêndio total da cultura. Os autores que, como eu, como Mutarelli, começaram nesse novo século, encontram o pior cenário literário que já viveram. 

Espanha, 2010.

É desesperador para um mestre como ele, aos 54; é desesperador para mim, aos 41. A gente começa uma carreira, alcança certo nome, e acha que com o tempo terá certa estabilidade (se não riqueza!). Mas é tudo cada vez mais incerto. No meu caso, penso se o melhor já não passou, se meu melhor já passou (bem, foi muito a crise que expus em BIOFOBIA). Já vendi bem, já viajei o mundo (da Argentina ao Japão), será que devo apenas me contentar de já ter sido feliz?

De BIOFOBIA


Penso nos cachês dos eventos literários. São praticamente os MESMOS desde que comecei, sem reajustes de inflação - isso quando HÁ cachês...


Quando fui "bestseller" num jornal Alemâ... Ah, me perdoem, estou tentando elevar meu moral. 

Debatendo sobre isso no Facebook (sempre), o jovem autor Danilo Potens fez uma provocação pertinente: 

É triste, mas cabe citar que ele [Mutarelli] ganha mais de 4.664,68 por mês, tendo em vista os 27% de imposto de renda. É bem acima da média salarial dos pobres. Tenho medo da palavra "falido", pois já conheci diversos homens que ganhavam 15 mil por mês e ficavam lamentando sobre a "vida precária" que levavam. "Mal dava pra comer no Paris 6". Enquanto o povo come no bom prato.

É verdade. Mas para o tetraplégico o amputado teve sorte. E Mutarelli ressalta bem que "não pode reclamar" pois é um dos que têm sorte, que deu certo. É triste pensar que o exemplo de "sucesso" no mundo literário não te salva do "Bom Prato". Nos últimos tempos, já passei por meses em que tive de esperar pagamentos atrasados para trocar chuveiro queimado (isso, uns 70 reais, né?). Tomar banho gelado por uma semana é lição de humildade. 

(E Danilo, como marido de chef, te digo que Paris 6 e Bom Prato tão pau a pau...)

O escritor não é um vagabundo que teve sorte, creio eu - ou nem sempre. Para ser um escritor publicado, lido, premiado, vai um investimento pesado. Tem muito estudo, leitura, COMPRA de livros, isso é o básico. Muitos investem na formação, cursos de escrita, graduação, mestrado, doutorado. Então, em tese, estamos falando de gente com especialização que não consegue pagar as contas - é um investimento que não se paga. No meu caso, além de um diplominha universitário básico (comunicação na FAAP), e todo o repertório, teve as línguas, aulas de francês, de finlandês, o tempo que morei fora (na raça, sem bolsa). Com isso tento viver basicamente da tradução. 

Essa foi minha "Assis Brasil". 


Mas afinal, que diferença faz, que diferença fazemos, para que serve um escritor?


Com Veronica Stigger, Cuenca, Adriana Lisboa, em foto de Daniel Mordzinski (Botogá, 2007). Adoro essa foto

Ano passado, conversando com alunos do Paraná, uma adolescente afiadíssima me perguntou: Se você parasse de escrever, ia fazer diferença para quem? 


(Parem de reclamar! Parem de viver de Rouanet! Vão cortar cana, carregar lenha, aprender a dirigir caminhão e bloquear as estradas!)


O incêndio no Museu Nacional do RJ me fez pensar. Todos nós que trabalhamos com cultura somos acometidos da sensação de que nosso trabalho não importa, de que não somos prioridade, não estamos apagando incêndios. Mas com o teste do tempo, tudo fica para trás: saúde, segurança, economia, tudo é transitório, perecível e passageiro. O que fica é a história de um povo, o que foi criado, como foi registrado. No fim, só resta a cultura.



01/09/2018

THE BEAUTIFUL ONES


Final do mês tem disco novo do Suede, a melhor banda de todos os tempos da minha vida. Já estou na contagem regressiva, então decidi fazer meu top 10 para tentar arrebanhar novos fãs. Como fã desde 1993, com uma coleção de praticamente tudo o que eles lançaram, fica quase impossível escolher só dez faixas, e a lista sempre vai mudar. Mas vai aí uma seleção bem representativa do que eles fazem de melhor, com hits, b-sides e clássicos:


BEAUTIFUL ONES (1996):
Talvez o maior hit da banda (junto de “Trash”), é a versão mais pop-acessível de Suede, e não é nada mal. Estavam todos lindos, vendiam o sonho do Britpop, e eu comprava cada single.

SOMETIMES I FEEL I´LL FLOAT AWAY (2013):
Balada da nova fase da banda, pós retorno, tem a pegada etérea de uma sci-fi lullaby (para usar o léxico da banda), um solo de guitarra bacaninha e uma letra inspiradora, comparando a solidão a um balão de hélio: “Às vezes acho que vou sair flutuando, sem você para me segurar.”


GOLDEN GUN (2003):
Mesmo um B-side da fase mais decadente do Suede pode trazer uma pérola. Para mim Golden Gun é isso. Lançada quando a banda estava prestes a terminar, mistura punk, eletrônico e glam, com uma letra pouco inspirada. Já toquei nas pistas (quando tocava nas pistas) e super funciona.

ANIMAL NITRATE (1993):
Recuamos mais dez anos e chegamos ao auge do Suede. Das músicas mais representativas (inclusive pelo clipe). Foi assim que os conheci, que me apaixonei, ainda na adolescência, com Brett Anderson andrógino, afetado, agressivo, rebolando entre porcos, cães e cobras, cantando: “Oh, it turns you on, now your animal´s gone...”

LOST IN TV (2002):
Outra da fase decadente, com que tenho uma relação especial, talvez por ser a fase em que os conheci pessoalmente, assisti aos shows em Londres e esperava muito mais do disco (“A New Morning”). Mas é uma excelente amostra de balada do Suede, e ainda das minhas favoritas.


SHE (1996):
A melhor amostra do lado glam da banda, poderia ser um (puta) tema de filme do 007, completo com orquestra e tudo.

THE LIVING DEAD (1994):
B-side da fase áurea, inspirado num casal de homossexuais junkies, amigos do Brett, que estavam morrendo de AIDS. “But, oh, what wil you do alone? Cause I have to go...” Linda de chorar.

I DON´T KNOW HOW TO REACH YOU (2016):
Ponto alto do último álbum da banda, prova que eles ainda podem muito. Tem um dos meus solos de guitarra favoritos, outra sci-fi lullaby inspirada de Richard Oakes.

THE ASPHALT WORLD (1994):
“Dog Man Star”, o segundo álbum, é considerado o melhor da banda (e o melhor da HISTÓRIA, segundo alguns, como eu). “The Asphalt World” é o melhor exemplo disso: lenta, longa, progressiva, alternativa, com uma letra foda, e Brett em sua melhor forma vocal. Provavelmente a melhor música do Suede, não exatamente minha favorita...

SO YOUNG (1993):
A música que abre o primeiro disco será sempre minha favorita. She can... start... to walk out... when she wants. Brett canta sobre drogas, juventude e inconsequência acompanhado da guitarra em solo de Bernard Butler, duas melodias num casamento perfeito. Foi a trilha da minha adolescência, tudo o que eu queria para mim, e muito do que me tornei.


(Playlist inteira no Spotfy, aqui: TopSuedeSpotify

22/08/2018

FIM DOS TEMPOS

Mediando Fernanda Young. 

Voltei para São Paulo depois de 4 dias em Extrema, MG, mediando mesas no Flex. Sinceramente, gosto mais de mediar do que de participar como debatedor, porque posso perguntar a outros autores o que me inquieta, o que me instiga:

"Até que ponto o escritor tem compromisso político com o momento atual, até que ponto pode tratar de questões íntimas, atemporais?"

"Como manter uma identidade literária passeando por diversos gêneros, diversos públicos?"


"Como falar das minorias e atingir um público mais amplo?"


Foram algumas das questões que pude discutir com Antônio Xexenesky, Débora Garcia, Flávio Carneiro, Luiz Ruffato, Carola Saavedra e Fernanda Young.


Com Sérvio Biscaldi e Antônio Xerxenesky. 

Fora as mesas de debate, sempre é ótimo estender a conversa com os colegas pelas mesas dos bares, do café da manhã e dos translados. Assim também pude conhecer o queridíssimo imortal Antônio Torres e a inesquecível Giovana Madalosso.

O público foi ok, alguns estudantes, escritores locais, autores das outras mesas. Tinha muitas atividades simultâneas, o que dispersava um pouco o pessoal. Acho que se os debates fossem colocados literalmente em praça pública, no palco, com os passantes - em vez de num clube fechado ao lado - integraria melhor a cidade. Mas valeu. 

Então voltei para São Paulo para entrar na polêmica literária da vez: Ronaldo Bressane, escritor e jornalista, expôs a prática dos booktubers de cobrar por "resenha" (um termo que eles mesmo usam) - ou seja, os autores pagariam para seus livros serem lidos e resenhados por booktubers "famosos". 

Os valores vão de 2 mil a 5 mil reais, dependendo de em quais mídias o livro é divulgado, e se é apresentado sozinho ou com outras obras, para "impressões pessoais, sem interferência do autor/editora."

Isso não é resenha, nunca será, e é uma prática perigosa, mesmo que se deixe claro que se trata de "publi". Expus os motivos no Facebook: 

Para mim, essa prática é a pá de cal na crítica tradicional, isenta, e uma ameaça à literatura como um todo.

Sabemos do espaço cada vez mais restrito para a crítica literária que, com a abertura desse espaço para divulgação paga, ameaça acabar de vez.

Quem se dispõe a pagar por isso está interessado apenas em divulgação, não entende o papel da crítica, e não está interessado que seu livro seja de fato discutido e analisado, apenas comercializado.

Anunciar um "publi" como "resenha" é um equívoco grotesco. Uma "resenha paga" pelo próprio autor/editora ou "publi" não tem como ser isenta. É óbvio que críticos de jornal/revista recebem, mas o pagamento vem pelo jornal (através dos anunciantes/assinantes). Isso faz TODA a diferença.

Aconteceu a mesma coisa anos atrás, com as rodas/vitrines de livraria, que eram feitas por indicações de livreiros e se tornaram pagas. Por isso hoje só se encontra merda exposta. Por isso literatura vende cada vez menos.

E acredito que esses booktubers alcancem apenas um público mais jovem, de literatura mais comercial, que acabará sendo a única que terá espaço.



Na postagem do Bressane, e em menor intensidade na minha, uma leva de bookminions, fãs de booktubers vieram defender a prática, com alegações que iam do você trabalha de graça? distribui seu livro então ou isso é papo de velho reclamando dos novos tempos. Mas não tem como se argumentar, explicar que "resenha" não funciona assim, que isso é "jabá", que, quando se mistura opinião-resenha-indicação com valores pagos diretamente pelos autores e editoras, se coloca em risco toda a crítica. 

"Ah, mas a crítica nunca é 100% isenta" - colocam alguns. Beleza, não é 100%, então vamos investir no 0%?

"Se você quiser anunciar seu livro na televisão, na revista, também vai ter de pagar." Mas livro nunca (ou raramente) foi "anunciado" em revista e TV. Como qualquer produto artístico podiam sair matérias, entrevistas, críticas (!), que não eram pagas. Eu nunca paguei por matéria alguma, entrevista alguma (e na TV estive por exemplo no Metrópolis, Saia Justa, Galisteu, Monique Evans, Arte 1, e Jô Soares - nesse 4 vezes). A discussão antigamente era se a gente devia receber cachê nas entrevistas.  

"Você quer ser divulgado, então que invista!" Queridos, o autor já investiu meses ou ANOS escrevendo o livro, sem receber. É um total desconhecimento de como funciona (ou não funciona) o meio literário brasileiro. 

Os valores em si, são totalmente inviáveis - as editoras muitas vezes não tem essa grana para pagar pela capa, muitas vezes não pagam nem 2000 reais de adiantamento pro AUTOR. É um total desconhecimento...

Mas isso nem deveria ser discutido, porque a prática em si de se pagar por "resenha", dez reais que seja, é totalmente anti-ética.

De todo modo...

Depois de muito discutir, refletir, passar por velho babão, acho que talvez seja mesmo uma alternativa. Se a crítica está morrendo, se há tão pouco espaço para a leitura isenta, não podemos lutar contra um espaço que se abre... Por mais que seja um espaço de gente canalha e oportunista. 

Terei saudades de quando meu livro saía e era discutido - às vezes massacrado - as estrelinhas que ganhava ou perdia. Que eu tinha um termômetro se ele era aceito ou rejeitado. Terei de me contentar se a editora achar que vale a pena investir nele, com as "resenhas pagas", para ao menos ele ser divulgado, comercializado, lido. 

A crítica literária séria já acabou. 

A crítica espontânea dos jovens apaixonados pelo visto também. 

Mas o Apocalipse está logo aí. 

Pagando os pecados e pedindo perdão em Extrema.

15/08/2018

ACONTECIMENTOS

Ilustração de Rogério Coelho. 

Neste final de semana estarei em Extrema, MG, no Flex, um festival literário sempre com muita gente bacana.

Grande time em 2016. 

Já estive lá duas vezes, com a curadoria original do querido Marcelo Spomberg, e agora volto para mediar mesas nos três dias, com Antônio Xerxenesky, Flávio Carneiro, Débora Garcia, Márcio Borges e Fernanda Young. O festival ainda terá Carola Saavedra, Luiz Ruffato e Antonio Torres, entre outros. Murilo também estará lá, coordenando a parte de gastronomia, com barraquinhas das escolas locais.

Programação completa aqui: https://www.flex2018.com.br

Conversando com leitores em 2015. 

Por enquanto é o ÚNICO evento que farei este ano fora de São Paulo. Talvez eu tenha esgotado com duas dúzias que fiz ano passado, talvez seja a crise pegando pesado, talvez já tenha passado minha época, eu tenha sido esquecido, desprezado, odiado, talvez tudo isso junto. Mas ao menos já tenho mais duas datas marcadas aqui mesmo na cidade, uma com Ivana Arruda Leite, em novembro, e outra com Marcos DeBrito, em outubro, (confira na aba "agenda", aqui do blog, que sempre atualizo por lá).

Há quinze dias, na Bienal.


Falando em DeBrito, estive com ele e Gabriel Tenyson há quinze dias, na Bienal, discutindo sobre literatura e cinema de horror e pós-horror, mediados por Antonio Sartini. Sempre é bom debater sobre o gênero - mesmo porque, eu consigo ser um outsider até nesse campo (meu destino é não pertencer); e se meu texto é reflexivo demais (ou "lento demais", "chato demais") para o terror convencional-comercial, agora tenho o pós-terror para chamar de meu.

No dia-a-dia, sigo com as traduções e na reta final de um novo romance, que seguirá uma linha mais histórica, e que ainda levará um tempo até a publicação.

Para os próximos meses tem meu primeiro livro infantil, um projetinho antigo com a Melhoramentos, que agora destravou. Deve sair ainda este ano. Será uma nova experiência, um novo público e uma nova parceria.

E que sobrevivamos a este ano funesto...Porque o próximo será pior.

25/07/2018

CINEMA NOVO

Do baixo augusta para o mundo. 


Ontem fui na pré-estreia do novo longa do Esmir Filho (do fantástico "Os Famosos e os Duendes da Morte") com Mariana Bastos. Temia que fosse uma comedia romântica indie, e começa um pouco nesse tom, mas o filme envereda por outros caminhos, encerra-se brilhantemente, e me despertou várias lembranças e reflexões.




A história segue um casal de amigos - ele (André Antunes), um garoto gay, e ela (Caroline Abras), a amiga louquinha - que começa no baixo augusta e se estende para Berlim. O longa foi filmado ao longo de doze anos (a la "Boyhood"), iniciando com um curta, que eu já tinha visto lá por 2006.

É um filme que diz muito sobre essa geração, a minha geração, e sobre essa camada paulistana, nossos percursos e nossa fase da vida.

Não por acaso, lá no começo dos 2000, conheci tantos, tantos desses novos cineastas - incluindo o Esmir, Daniel Ribeiro, Marco Dutra, Sergio Silva, Charly Braun, Juliana Rojas, Rafael Primot, Gustavo Vinagre, Felipe Sholl, Ismael Caneppele - literalmente nos cenários do filme, no baixo augusta. Nos botecos de esquina, no Vegas, n´Aloca, eu comemorava meus primeiros passos como autor e conferia os primeiros curtas deles, no Festival Mix Brasil, no Espaço Unibanco da Augusta.

Muitos de nós também seguiram para a Europa, para Berlim, e agora nos deparamos com a demolição da antiga vida de baladas, com novas responsabilidades, a vida ao redor dos 40, novas configurações de famílias e filhos.

Sintomático que, pouco antes de a sessão começar, encontrei o DJ Tutu Moraes (que na minha época era apenas Arthur), que trocou aquele "sumido, nunca mais te vi na noite, achei que estava morando na Europa", com o meu "já fui, já voltei, agora estou casado, não saio nunca." Daí o filme se desenrolou com essa história.

Acho lindo a rédea que os amigos estão tomando do cinema nacional. Tem muita coisa boa, novos temas, novos gêneros. Mereciam ser mais vistos, mas já é incrível que estejam conseguindo produzir tanto e tão bem. Dou aqui alguns dos meus favoritos:

O terror do Marco Dutra e da Juliana Rojas: 



O suspense polanskiano do Primot: 




O romance amoral do Sholl: 




Agora... se tenho uma crítica veemente a fazer para essa geração de cineastas é quanto a escolha dos "títulos. "Gata Velha Ainda Mia", "Trabalhar Cansa", "Os Famosos e os Duendes da Morte" e mesmo "Alguma Coisa Assim" são títulos de doer, que não condizem com o material e afastam o grande público.

Se não fossem meus amigos, eu não iria.


("Alguma Coisa Assim" estreia amanhã)

22/07/2018

LEIA QUEM QUISER

“Pode me dar uma opinião sobre um texto meu? É curto.”

Que pavor, que tensão, que responsabilidade terrível... Será que todo escritor passa por isso? Ler três, ou oitenta, ou duzentas páginas nunca é fácil . Sempre leva tempo. Sempre é um compromisso. Ao menos para mim. 

Não tenho fórmulas, não tenho respostas, mas preciso encontrá-las. É diferente de ler por lazer, por estudo, até por trabalho. Numa leitura crítica ou resenha para jornal, eu dou minhas impressões – numa leitura para um colega eu preciso dar soluções. Ou ao menos sugestões, isso nunca é fácil.

Acabo de ler um desses. Um belo livro de apenas 80 páginas. E foram dias para ler, reler, tentar entender a estrutura, pensar em alternativas, colocar isso em palavras. (E claro, sem receber nada). Quando o livro é bom, é uma responsabilidade – será que estou à altura de sugerir algo? Ajuda simplesmente elogiar? Quando o livro é ruim, coloca-se em jogo o respeito e amizade – “Quem ele é afinal para criticar?” Bem, sou a pessoa para quem você enviou o livro.

Já tive amizades abaladas por isso. Falei o que o autor não queria ouvir. Talvez ele só quisesse elogios. Provavelmente só queria que eu indicasse uma editora. Desconfio que muitos que me pedem leitura nem tem mesmo porque me respeitar, nunca nem leram nada que publiquei. Só sei que quando recebo aquela típica mensagem de “Primeiramente, gostaria de te parabenizar pelo seu livro...” já estremeço, “também escrevo”, suo frio, “gostaria de saber se poderia ler um conto /capítulo /romance que escrevi,” eu sangro...

(Geralmente já paro no "primeiramente". Pavor. Fica a dica: nunca comece com "primeiramente...")

Quando aceito, fico com aquele arquivo latejando no HD. Enquanto jogo videogame, vejo um filme bagaceiro, enquanto me masturbo, sinto que há um escritor iniciante sentado na minha sala de espera.

Como autor, eu mesmo nunca sei para quem mandar, nunca quero pedir, incomodar. Sempre me admiro com os "acknowledgements" dos autores que traduzo - com dúzias e dúzias de nomes de amigos, colegas, editores, agentes, que leram "incontáveis versões" dos manuscritos. Talvez seja porque lá fora tenha alguma grana para as publicações, para as leituras críticas. Por aqui, muitos dos meus livros nem tenho certeza se o EDITOR leu; não gosto de pedir nem para meu marido, para minha agente, para quem ENCOMENDOU o livro. Imagina se posso me dar ao luxo de ter várias leituras, de diversas versões em processo. Sempre sinto que estou incomodando. Quem afinal se importa com o que tenho a dizer?


03/07/2018

LEMBRANÇAS DA RÚSSIA


Rússia no filtro de 2011. 

O mundo só fala de futebol. E ainda me surpreendo que tantos escritores engrossem o coro. Na busca por uma voz, um universo, uma identidade literária, não deveríamos ter nossos temas exclusivos? Não. O escritor bem sucedido é aquele que fala o que todo mundo está falando, que escreve o que todo mundo quer ler, que gosta de futebol, de samba, de MPB; venera Machado, lê Chico Buarque, não tem nada de novo a dizer...

Quem faz diferente não faz diferença, já dizia eu em BIOFOBIA.

Então aqui estou eu, falando de futebol. Ou quase. Não assisti a jogo nenhum, não por protesto, apenas desinteresse. Na infância, adolescência, a gente ainda se obriga, assiste ao jogo para pertencer. Para mim, sempre foi um tédio. Hoje, sozinho aqui em casa, não tem mais por quê, não tem ninguém para deixar a TV ligada.

Mas ainda pego as rebarbas no jornal da noite, no feed dos amigos...

O que essa Copa despertou em mim foi saudades da bela Rússia, onde estive duas vezes, em outubro e dezembro de 2011, durante minha temporada na Finlândia.

O inverno de 2011 foi atípico na Rússia - demorou para começar. (nesta foto, em dezembro, estava cerca de 5 graus positivos, mas tirei o casaco para impressionar). 

São Petersburgo fica a apenas 3 horas de trem de Helsinque e é uma viagem bem curiosa. Segue-se por cenários bucólicos, nevados, casinhas no bosque, até sair da Finlândia. Daí o cenário muda completamente e parece que cruzamos vilas bombardeadas, casas em ruínas, anunciando que a vida por lá é mais dura.

O controle de passaporte é feito no próprio trem em movimento. Oficiais passam, verificam os documentos (uma vez reviraram minha mala) e carimbam. Se eu fosse recusado, não sei se me mandariam descer ou me colocariam num trem de volta...




A cidade é linda, com aquele ar imponente, cheia de monumentos, cortada por rios. Mais lindo ainda são os meninos  - o povo mais lindo que já vi no mundo! Todos com aqueles rostos angulosos, talhados, meio freaks... e eles te encaram. O povo anda na rua olhando feio; não se sabe se querem te matar ou te comer...



Em 2011, quando estive lá, ainda não tinha passado a lei "antipropaganda gay", que proibe qualquer manifestação LGBT em público. Então ainda havia boates gays bem divertidas. Uma delas era o Cabaré, que fazia jus ao nome: tinha pista de dança, karaokê, e shows de drag a noite toda; assisti inclusive a uma performance de "Tico-tico no Fubá" em Russo.

Na boate gay. 

Outra boate em que fui era a Central Station, com garçons (incríiiiiiiiveis) só de sunguinha e gravata borboleta, e também tinha shows e karaokê. Isso era uma coisa bem bacana das boates de lá, tinha muita coisa para fazer... Por sinal fiquei horas só vendo os meninos no karaokê, todos cantando hits locais, com aquele vozeirão típico, nenhuma música em inglês.

Na época eu estava solteiro, e fui feliz por lá... Não deixei de conferir por exemplo o Grindr - ainda no início dos aplicativos gays, ele chegava aos meninos da Rússia mesmo de Helsinque, em horários de pouco movimento. Em São Petersburgo, marquei de encontrar um menino que parecia bem simpático, embora não me apetecesse, trabalhava na ópera e se ofereceu a me mostrar um pouco da cidade.

A única foto que tenho do menino. 


Fomos jantar num restaurante típico, pedimos vodca e veio uma GARRAFA de vodca, que tomamos pura, gelada, em shots.

No final da noite ele já não estava tão gentil e tive literalmente de fugir para ele não abusar de minha pureza...


Mas comi bem em São Petersburgo, as delícias típicas como blinis e ovas, pato com sorvete de trufas, e o straganoff que, apesar do que falam, achei idêntico ao nosso estrogonofe, só que servido com purê de batatas em vez de arroz e palha.

Caminhei muito pelas ruas, as longas avenidas, fui ao Hermitage, um museu absurdo de grande, que mistura arte, história e antropologia; fui também num museu meio freakshow, com fetos de sereia, bezerros de duas cabeças... E na segunda vez que estive lá foi para assistir ao show do Suede, numa casa de shows que me deixou bem próximo do palco.

Suede no Glavclub, 16 de dezembro de 2011. 

As lembranças que ficaram são as melhores - embora o povo não seja exatamente simpático e ninguém fale inglês. Nunca vou me esquecer da segunda vez que cheguei na cidade, que atravessei uma ponte a pé, a caminho do hotel, e dei com um pelotão de dezenas e dezenas de soldadinhos russos, nos seus 18, 19 anos, todos maravilhosos, todos me encarando feio...

A Armênia e sua herança soviética, na vista do meu hotel (2015). 

Desde 2011, não voltei mais, embora tenha passado perto na viagem para a Armênia (em 2015), terra dos meus antepassados, que também tem muito da cultura russa-soviética. Acho que hoje a experiência não seria tão divertida, com a homofobia cada vez mais institucionalizada por lá.

De toda forma, agora que todo mundo está indo, também não tem mais graça...




13/06/2018

AS LIVRARIAS DA VIDA

Na Biblioteca de Adamantina, ano passado. 


Nos últimos anos rodei por um circuito de bibliotecas públicas de São Paulo, do interior e do Paraná, em programas de aproximar escritores e comunidade (principalmente estudantes), estimular o hábito da leitura e desmitificar a literatura como algo aburrido e distante.

Espero que eu tenha cumprido minha parte.

Esse encontro com as bibliotecas não foi um “reencontro”, foi uma experiência nova, em cenários novos, onde passei algumas horas conversando com bibliotecárias nos bastidores, passeando por acervos muitas vezes constrangedores, vez ou outra surpreendentes, entendendo como funcionavam aqueles espaços.

Nunca frequentei bibliotecas. Nascido e criado na capital, filho de pais leitores, os livros para mim sempre estiveram ao alcance, da livraria para a casa. Na infância, visitar livrarias era um programa rotineiro, para escolher livros – de contos dos irmãos Grimm a Ruth Rocha, Eva Funari e livros de ciências sobre animais (principalmente répteis, eu era um geek nesse sentido). São Paulo era bem melhor em livrarias – livrarias pequenas, de bairro, que faziam toda a diferença pelos livreiros.

As livrarias dividiam essa função com as bibliotecas - incentivar o hábito de leitura, para quem podia pagar - assim como eram um ponto de encontro de escritores e intelectuais. O ponto de encontro talvez se mantenha em menor medida, em algumas, como a Vila da Fradique ou em sebos para um público específico. (O Clepsidra, por exemplo, na Cesário Mota Júnior é imbatível em literatura gótica. Também me lembro com saudades dos longos papos que eu tinha com o Evandro Affonso Ferreira em seu Sebo Avalovara - em que ele só vendia literatura e mandava embora quem vinha pedir Dan Brown).


O ótimo papo que tive ano passado, com o amigo de longa data, Cid Vale, no Sebo Clepsidra. 

Minha mãe trabalhou muito tempo em livraria. Desde a Argumento (que era de meu tio-avô, Fernando Gasparian, também editor da Paz e Terra), passando pela Vila e a “lendária” Antes do Baile Verde, na Gabriel Monteiro da Silva. Ela ocupou cargos diversos de vendedora, compradora, gerente, mas nunca foi dona. Semana passada me falava como esse era um grande sonho não-realizado:

“Sempre sonho com a possibilidade de a gente pegar um nicho de pessoas que gostam mesmo de ler, que odeiam as grandes redes, que não se sentem bem com a falta de livreiros. Uma coisa pequena, sem livros de arte, só literatura e infantil. Talvez cozinha, porque hoje cozinha vende. Menor que a Blooks. Eu acredito que as livrarias grandes estão quebrando porque todo mundo se perde lá dentro, não existem livreiros, e livro muitas vezes inibe. Além de não ser barato. "

Eu mesmo já trabalhei em livraria. Aos dezenove anos fui vendedor por um curto período na Vila (da Fradique), depois o dono me convidou para trabalhar no projeto e lançamento da primeira livraria gay do Brasil – a Livraria do Meio, na Oscar Freire, que durou pouco tempo e se transformou na Futuro Infinito.

Hoje tenho uma visão menos esperançosa do que minha mãe. Se as grandes quebram porque o povo se perde, as pequenas não conseguem concorrer nos descontos, no volume, com as vendas online. Sugeri a ela que talvez pudesse funcionar sendo mais um café com livros – mais café do que livraria – um lugar bacana para ser esse ponto de encontro, fazer lançamentos todas as noites, porque São Paulo não tem um lugar gostoso para fazer lançamentos, onde as pessoas possam se sentar, conversar, tomar algo. Em livraria é aquela coisa fria e transitória, ou então o povo faz em bar, em muquifo no centro...

“Não quero um café que funcione mais do que uma livraria. Além disso, lançamento todo dia é ceder para lançar porcarias, o que não seria a minha ideia”, disse dona Elisa.

Com André Fischer e os queridos do Põe na Roda, na Fnac, ainda ano passado. 

Esses dias a Livraria Cultura, que agora comanda as operações da Fnac no Brasil, anunciou o fechamento da Fnac de Pinheiro, a primeira loja da rede do país, ocupando o lugar do antigo Shopping Ática (que era quase todo só de livros, e no qual minha mãe foi gerente de literatura). Há muito que aquela loja andava capenga – mas curiosamente, foi a única livraria em que fiz uma mesa ano passado (com André Fischer), ainda recebendo cachê, talvez numa tentativa da rede de conseguir uma sobrevida.

Acho que ajudei a enterrar o lugar...


Responda rápido: Cultura ou Mercado?

O que resta de livrarias em São Paulo é deprimente – biboquinhas vendendo papelaria ou grandes redes com brinquedos, eletrodomésticos, rodas tomadas por livros de youtubbers e de minecraft. E infelizmente é uma realidade mundial. Se ainda podemos nos impressionar visitando as livrarias de Buenos Aires, Paris, Londres e Nova York, não se pode comparar com o que essas cidades tinham no passado.

Mas, se as livrarias, se os os livros estão ameaçados, tento manter o otimismo em relação aos escritores. Como produtores de conteúdo, talvez consigamos sobreviver com as palestras, os roteiros. O mercado das séries só cresce – o de games também. De uma forma ou de outra, se não nos prendermos a um único formato, um formato falido, o livro, talvez sobrevivamos como contadores de histórias. Mas tá difícil. Tá bem difícil.

ELE NÃO!

Já falei exaustivamente no Facebook, e acho que é óbvio para qualquer um que me segue, mas ainda não tinha colocado aqui no blog, então ...