9.16.2014

CICLOVIDA


Em plena forma, sobre duas rodas, na ilha da magia. 


Até os doze anos, andei sobre quatro patas, dois pés, rodinhas acessórias na minha bicicleta. Foi tarde eu sei, pois ainda lembro do meu amigo Frederico, aos doze anos, me empurrando num ruazinha do Jardim América - sou garoto dos jardins, o que fazer - para eu aprender a andar sobre duas rodas. Aprendi, peguei gosto e já pedalei por várias ciclovias do mundo. Por isso fiquei pensando sobre a polêmica atual das ciclovias na cidade de São Paulo.


Atacama.

Já era hora, claro. São Paulo já devia ter investido em propostas alternativas, como a ciclovia, há tempos. Mas a palavra investido continua martelando na minha cabeça. É inegável a necessidade e louvável a proposta, mas não dá para ser maniqueísta e encarnar o demônio condenando as ciclovias nem o anjo a abençoá-las. A verdade é que essas faixas em vermelho parecem mesmo terem sido riscadas às presas, de maneira cenográfica, sem um devido estudo de onde deveriam ter sido feitas para melhor proveito da população.

Helsinque. 

Se perguntassem a minha opinião, se eu fosse dizer mesmo o que eu penso, diria que São Paulo não tem solução, então não adianta ciclovia, aerotrem ou bomba atômica. Mas tento ser um pouco menos niilista, tento acreditar em opções que deixem a cidade mais transitável.


Floripa. 

Li o post da Lucia Santaella, li as respostas a ela. O povo gosta de demonizar quem contradiz ou quem diz uma coisa ou outra equivocada. Não é pra tanto. Acho que ela tem um ponto e talvez tenha sido um pouco irônica, não sei. A forma apressada como as ciclovias foram feitas, talvez tenham buscado mais visibilidade do que real necessidade, talvez não tenha sido feito um estudo sério das melhores rotas para ciclistas. Só posso especular.


Em Jyväskylä - bicicleta do Scandic; os hotéis daqui poderiam/precisariam incentivar e deixar bicicletas à disposição dos hóspedes. 

Como ciclista, já rodei por diversas cidades do mundo. No tempo que passei em Helsinque, Finlândia, fazia tudo de bike, mesmo nos três meses de neve que peguei por lá. A ciclovia lá é pela calçada, que acaba sendo usada para amontoar a neve nos períodos mais frios. Em Copenhague há uma ciclofaixa por toda a cidade, que também é usada para motos, funciona (embora seja um pouco tenso para o turista que quer pedalar despreocupadamente). Em Tóquio, não há muita organização, mas há toda uma organização, o ciclista tem de se embrenhar no meio da multidão de carros e pessoas. Tudo funciona em Tóquio, mesmo em meio a multidão de carros e pessoas. Puxando agora, lembro que rodei pelo Chile, Japão, Finlândia, Alemanha. Dinamarca, Noruega, Suécia, Estônia...


Tallin, Estônia. 


Acho que em São Paulo ainda falta muito, muito além de uma faixa vermelha. Falta dar conta do resto do trânsito, regulamentar os ciclistas, a própria arquitetura da cidade não foi feita pensando em... em nada. Mas talvez seja um bom começo. Talvez só essa discussão já seja benéfica para pensar em alternativas para uma cidade em ruínas. As iniciativas de bikes de aluguel (do banco que me extorque, por exemplo), são bem louváveis.



Também não dá para ficar só culpando os políticos, o PT, Haddad e Jesus pelos problemas. A verdade é que o povo é preguiçoso, e coió, e não está disposto nem a ir até a padaria sem o carro. Eu faço tudo o que posso a pé; sei guiar e já tive carro, mas desisti há mais de uma década. Ônibus eu não pego, que sou fresco. Metrô e táxi quando inevitável. Esta semana tive uma reunião na Vila Madalena, fui a pé aqui da Frei Caneca - demora, mas às vezes pode demorar menos do que ficar no trânsito. E é menos estressante. E queima calorias. Tem gente diz que "não é seguro"; bem, acho que os assaltantes miram mais em quem está parado no trânsito. Outros dizem que "vou chegar todo suado"; bem... isso é verdade.

Floripa. 

Confesso que de bicicleta em São Paulo eu não ando. Não me sinto seguro com o trânsito, nem com as ciclovias. Fora que o ar daqui não é dos mais favoráveis à prática de atividades aeróbicas - delícia pedalar com o ar acre da Rebouças no rosto. Mas ainda é uma alternativa... Agora, já que estão fazendo, poderiam fazer mais direitinho.



Tóquio, em pleno cruzamento de Sibuya


9.15.2014

EXTREMA


Acabo de voltar do Primeiro Festival Literário de Extrema, uma cidadezinha linda na divisa de Minas com São Paulo. Foram mesas sobre literatura, shows, oficinas e conversas com estudantes numa programação bem variada, que contemplou vários tipos de literatura, como não se costuma ver.


Sempre de biquinho 


Cheguei na manhã de sábado já direto para um bate-papo com estudantes adolescentes que haviam lido Garotos Malditos, meu romance juvenil. Foi das melhores mesas que já tive; conversar com quem de fato já leu seu livro faz toda a diferença - e para mim esse foi o ponto alto do Festival, não apenas levar os autores, mas conseguir que seus livros fossem adotados previamente nos colégios locais. A plateia estava lotada e a molecada (de 12 a 16) bem interessada. Pareciam mesmo empolgados com o livro - lindo que o Garotos Malditos continue encontrando seu público. Fizeram perguntas bem pontuais sobre a trama do livro, algumas até que eu não lembrava mais e foram respondidas por outros alunos presentes. Cobraram uma continuação e discuti com eles possíveis desdobramentos da trama, então eles puderam entender um pouco como funciona o processo de um autor. Terminamos lendo um trecho escolhido por eles, com diferentes alunos fazendo a voz dos personagens. Inesquecível.

Garotada lindinha... fazendo chifrinho.

Giulia e Cadão.

Também tive uma mesa sobre literatura de terror no domingo, com a querida Giulia Moon, mediados por Cadão Volpato. Essa foi um pouco decepcionante. A praça estava vazia no domingo e deixaram de avisar o público nos altofalantes, então estava bem vazia. Foi mais uma conversa informal entre nós e o pouco público presente.


Andrea Del Fuego também teve uma mesa com estudantes que leram o seu As Miniaturas.

Fora as mesas literárias, tivemos as costumeiras mesas de almoço, de cachaça. Encontrei amigos queridos como a Del Fuego, e pude conhecer gente muito bacana como a Anna Claudia Ramos, reencontrar o Carrascoza. Murilo foi comigo e aproveitamos um pouco da piscina do hotel e comemos petiscos típicos que estavam numa competição de "comida de boteco" nas barraquinhas da praça principal. Valeu bem, pena ter sido tudo bem corrido, sem chances de cachoeiras, trilhas, asa-delta...


Piscininha...


Murilo, eu, Leo Cunha, Giulia, Anna Claudia Ramos, Luis Fernando Emediato, Carrascoza e esposa. 

É que sempre falo, nesses eventos é que a gente vê que todo autor tem seus dilemas, suas crises, todos enfrentam algum tipo de preconceito ou resistência, cada um busca ampliar um espaço que é sempre muito restrito. Me deixa mais seguro de que o único jeito é fazer o que eu sei, o que eu acredito, seguir na minha própria onda e batalhar para que ela se espalhe o mais longe possível. A cada mesa que assisto, com cada escritor que converso, tenho mais vontade de voltar para casa e escrever meu próprio grande romance do século...


 Com Marcelo Spomberg, organizador do evento, e a Giulia Moon. 



E lá estavam pilhas de meus livros, em destaque na livraria da praça. 

9.12.2014

HOJE NÃO PODEMOS VOLTAR SOZINHOS


Estes dias meu mural do FB foi tomado por fotos de um menino morto, jogado no mato, pescoço virado, uma bola de papel na boca. "Vamos acabar com essa praga", alguns veículos noticiaram ser literalmente a mensagem escrita no bilhete. Outros desmentiram que a bola de papel contivesse qualquer texto. Não importa, a mensagem é a mesma. Morreu por ser homossexual, desprotegido, estar sozinho.

A imagem me causou impacto, até repulsa, e contesto se deveria ser exposta assim. Talvez tenha seu valor de chacoalhão. Eu prefiro mostrar como João Antonio, 18 anos, era um menino bonito, que podia ser seu filho, amigo, irmão, namorado.

Acompanho com curiosidade e receio as redes sociais. Acho que a diminuição da miséria, a "ascensão da classe C" no Brasil tem o lado miserável de ter se dado apenas pelo consumo, sem o mínimo investimento em educação. Basta ler os comentários de qualquer grande matéria, qualquer vídeo popular do Youtube que se constata o nível baixíssimo, tanto da gramática quanto das ideias, que foram formadas (ou "incutidas") pelo único livro conhecido (não exatamente lido) pelo brasileiro médio: a Bíblia.

Nas matérias sobre João Antonio e no próprio perfil dele no FB, os comentários têm sido de solidariedade, tristeza, compaixão. "Você agora é um anjo no céu", muitos dizem. Bem, sentimos muito, mas não será. Se tivermos de acreditar piamente na Bíblia, João Antonio está queimando no fogo do Inferno, assim como quase todos nós estaremos.

A solidariedade surge agora que João Antonio está morto. Se tivesse "apenas" apanhado e postado uma foto, um vídeo dele mesmo contando a agressão, a situação seria bem diferente, acredite. Aconteceu com o estudante André Baliera, vítima de um ataque homofóbico na Henrique Schaumann (SP) há dois anos. O vídeo dele contando o caso no YouTube recebeu centenas de ataques, no tom de "viadinho tem mesmo de apanhar para virar homem".

Antes esses ataques ficassem só na palavra, só na rede, só em homofóbicos isolados que se sentem protegidos pelo anonimato.

Esses ataques acontecem todo, todo dia. Outro jovem sobrevivente vítima de homofobia, Dawan Bueno, que foi atacado recentemente no Paraná, deu uma declaração que sintetiza tudo: "Todos os dias, eu acordo já sabendo que vou ter que enfrentar algum tipo de preconceito. Já faz parte da minha rotina. Para mim, é tão certo quanto acordar, lavar o rosto e escovar os dentes."

Qualquer menino um pouco mais diferente, um pouco mais delicado, tem de crescer com apelidos, agressão e segregação na escola. Um pai que abraça o filho pode ter a orelha decepada por ser confundido com um homossexual. Há dois anos, em Florianópolis, um amigo teve uma crise forte de dor (que acabou se revelando leptospirose) e eu o ajudei a caminhar de volta até a pousada. Durante todo o trajeto ouvimos gritos e xingamentos por estarmos de braço dado; se ele não morresse de dor, poderia morrer por intolerância.

Por essas e outras que a lei que criminaliza a homofobia precisa ser aprovada. Por essa e outras é que é uma lei que beneficia a todos, héteros que abraçam os filhos, gays que andam de mãos dadas, meninos que tentam voltar sozinhos para casa... O problema não é "do outro". Os homossexuais não são "os outros". O problema será seu quando você for confundido com um gay, quando seu filho for gay (ou confundido), seu neto, quando você perder o emprego por seu chefe ser confundido com um gay e ser assassinado, que seja.

"Ah, mas lei contra agressões e assassinatos já existem, não é preciso se categorizar como homofobia", é um bom argumento levantado por muitos. Mas a lei contra a homofobia transmite um exemplo de que é errado discriminar, e esse exemplo pode diminuir o número de assassinatos, certamente diminuirá o número de agressões, humilhações, demissões, suicídios...

Os fundamentalistas que "não têm nada contra os homossexuais, mas..." nunca levam isso em conta. Acham que é uma questão que se restringe aos gays "que dão pinta" e que "se quer dar o cu, seja discreto e faça isso entre quatro paredes". Acreditam que homossexualidade é "opção" e "sem-vergonhice", como se os homossexuais mais afeminados (ou os héteros afeminados, que seja) quisessem é causar escândalo. Esse pensamento é tão forte que ecoa em grande parte dos homossexuais, que não conseguem entender as diferenças inerentes - gay tem de ser másculo, malhado, no armário.

Racismo é crime. A sociedade toda se choca com um jogador chamado de macaco. Você pode concordar com o xingamento, mas tem de ficar quietinho, na sua; essa foi uma conquista que os negros tiveram após anos de luta. Ninguém pode esconder sua cor (bem, talvez só o Michael Jackson...), mas o menino negro não está sozinho. Ele tem a família. Ele cresce entre iguais.

Ninguém pode nem deveria esconder sua sexualidade. E é preciso comprar essa briga, mostrar a cara, mostrar que esse menino gay não está voltando para casa sozinho.



Termino com o ótimo vídeo do Põe Na roda, que fala muito do que acredito. 



9.08.2014

VILAS E FESTAS


Com João Silvério Trevisan, em Paranapiacaba

Participei neste final de semana da 1a Fliparapiacaba, uma festa literária na lindíssima vila inglesa da serra do mar. Minha mesa com João Silvério Trevisan e Fabiano Calixto, mediados pelo Eduardo Sterzi, tratou de tradução literária, as realizadas por nós mesmos, o trabalho do tradutor como um todo e as traduções feitas de nossas obras. Bacana que éramos três autores-tradutores com perfis bem diferentes. Calixto é tradutor de poesia, Trevisan tem traduções literárias pontuais e eu tenho um trabalho de dia-a-dia com a tradução mais comercial. Apesar de ser numa manhã de domingo, teve um público bem razoável. 

Nossa mesa. 

Também consegui ver a mesa de crítica literária com o Manuel da Costa Pinto e Ricardo Lísias, mediados por Reynaldo Damazio. Foi uma conversa mais quente e interativa com o público (até por terem espertamente descido do enorme palco do Clube Lira e se aproximado fisicamente da plateia). 

A mesa deles. 

Passamos (eu e Murilo) o domingo todo na cidade e conseguimos dar uma volta pela estação de trem abandonada, a igreja, o museu. Deu vontade de passar mais tempo, dormir ao menos uma noite, fazer trilhas...









Murilo menino sapeca.  


E o fim de semana ainda teve a grande festa do Cidade Matarazzo, na sexta. O antigo hospital abandonado aqui do lado de casa foi invadido por artistas, performances, shows e instalações. Estava cheio demais - teve tumulto na entrada, vários "VIPs" não conseguiram entrar (porque basicamente todo mundo era "VIP"), mas nós que chegamos cedo não tivemos grandes problemas. Encontrei muitos amigos, toquei piano vi muita coisa e tudo ficou mais insano com o open bar de Absolut. Lembro que lá pelas tantas da madrugada estávamos num tour pelo labirinto do necrotério - que foi transformado numa instalação a lá "noites do terror" pelo Zé do Caixão e que ficou mais assustador com o bando de gente bêbada perdida por lá, umas meninas apavoradas, uns atores de saco cheio...

Eu de pianista. 




Murilo de anjo. 

E no próximo fim de semana estarei em EXTREMA, outra cidade lindinha, fronteira de São Paulo com Minas, também no primeiro Festival Literário de lá. Tenho uma mesa no sábado - apresentando Garotos Malditos para estudantes e uma no domingo, sobre literatura de terror com a Giulia Moon. Del Fuego, Carrascoza, Cadão Volpato e outros também estarão na cidade, o que deixará tudo mais gostoso.

Programação completa aqui: http://extrema.mg.gov.br/destaques-capa/festival_literario_de_extrema/


 A festa continua...