24/06/16

HORA EXTRA DE MIM MESMO


Da minha janela, os prédios, o shopping, a janela para a Blooks e o Gendai. 



Tenho feito jus ao inverno. Há umas boas semanas estou trancado aqui em casa, quase sem sair, saindo para quase nada. Da janela da sala eu vejo os fundos do Shopping Frei Caneca e entrando pelos fundos eu vou até o supermercado, no subsolo; não chego a emergir. O inverno favorece isso - tem sido um inverno atípico, pelo frio típico de inverno. (Você vê, meus oximoros encontram representação real no mundo, não são só punhetas estilísticas...)

Aconchegando-me ao clima e maneirando na cafeína até consigo evitar o tédio, embora não a melancolia. Não tenho mesmo ganas de sair. Meu plano de academia venceu há dois meses e ensaio para renovar. Lembro-me das épocas em que a necessidade de exercício físico era imperativa, agora acordo agradecendo por não haver nada que me obrigue. 

A barba vai crescendo, os fios brancos, o cabelo continua longo e farto e tenho de agradecer ao deus da genética por isso - se há algo que permanece bem é o cabelo,. Não posso dizer o mesmo do resto do corpo. Bem, ao menos a vaidade hoje está sob controle...

Gaia. 

Com Murilo fora da cidade a coelha é minha única companhia. Animal doméstico é sempre uma projeção de carência, claro, mas o que importa é que corresponde e faz toda a diferença. Eu acordo sabendo que há alguém (ou algo) esperando por mim... ou por minha comida. Eu me viro do computador para encontrá-la deitada no sofá de olho em mim. Tenho de brigar com ela quando a vejo comendo uma entrevista com o Glauco Mattoso. Assisto a um documentário dividindo com ela uma mexerica. 

Há muito que não uso telefone. Meu celular é o mesmo há cinco anos (um iPhone 4, veja só, que ainda funciona razoavelmente) e na maior parte do tempo está no silencioso, fora do alcance; quando o encontro descubro que está há alguns dias sem bateria; recarrego só para encontrar mensagens de contas atrasadas. 

Os emails também só chegam na categoria de spam, mas junto das dívidas até me oferecem dinheiro: "Ganhe R$ 5 mil por mês sem sair de casa", me diz um deles. Isso eu já consigo, o difícil é algo mais. Me interno neste apartamento porque ao menos tenho uma longa fila de textos e traduções. Só dependo de mim mesmo. Entrando pela madrugada consigo quase pagar todas as contas, mês sim, mês não. 

Ao menos não tem sido nada de imbecilizante, nada de imbecilizante. Os trabalhos deste ano têm sido densos, difíceis e importantes. Termino de traduzir as memórias de um sobrevivente do genocídio armênio, começo um clássico inglês do século XIX. Já me absolvi do dever de ler metade da minha pilha de colegas-contemporâneos. Eles não estão fazendo isso por mim. Por prazer revisito clássicos e reencontro curiosidades que baixei há tempos no Kindle - nem preciso sair de casa para ter novos livros (embora a Blooks da Frei Caneca também possa ser vista aqui da minha sala...). 

Minhas leituras são interrompidas vez ou outra pela Folha, que me paga por isso. Pedem urgência num livro de 700 páginas, entregam na minha casa, mas demoram dois meses para soltar a resenha (e o pagamento). Ainda assim compensa. Leio então para mim mesmo O Jantar, do Herman Koch, que começa melhor do que termina. (Gostei muito da impressão inicial de que o narrador era um imbecil, apesar de ele acreditar que os imbecis são os outros, mas o jogo perde um pouco a graça quando fica claro que o autor quer de fato colocá-lo como imbecil - preferia que fosse uma impressão exclusiva minha. E enquanto a narração do jantar em si - com o livro dividido em entrada, prato principal, sobremesa - é muito inteligente, as frequentes digressões diluem um pouco a força do livro. Bem, eu sempre prefiro as narrativas contidas...).

Com Alex Hacke (e Fábia e Ambooleg), no começo do milênio. 

A trilha do momento tem sido Einstürzende Neubauten, banda industrial alemã que conheci pessoalmente em 2000. Não só vi um show inesquecível como saí para beber com os caras, por essas relações com a cena gótica. Recentemente resolvi me reatualizar sobre o que andam fazendo, e encontrei essa aqui, que nem é tão nova mas fez efeito:  


Da minha escrita vivo o momento de pai cujos filhos saíram de casa. Entreguei romance novo há algumas semanas e espero a programação, as considerações (e o pagamento) para só fazer os ajustes finais. Há muito já não tenho a ilusão de que minha escrita mudará o mundo, há pouco não acredito nem que mudará a minha vida. Com oito livros publicados minha vida já está intrinsicamente ligada à minha escrita - não acho que seja a melhor vida que eu poderia ter, mas certamente é a vida que mais pertence a mim. Se há algo de que posso me orgulhar nesta carreira e de ter feito sempre somente o que acredito. 

Apesar de tudo, mantenho minha meta de conhecer um país novo por ano. Este ano está apertado, e não vejo muito sentido como turista se o Murilo não puder ir comigo. Mas ainda há boas chances de uma pequena turnê de lançamento de um livro na Europa, boas traduções saindo por aí. Isso é lindo, mas nem chega a ser uma mudança. Chegando aos quarenta não vejo muito o que ainda há para mudar, além de degradar...



Eu, hoje. 

09/06/16

LITERATURA EM FUGA

Novos narradores iberoamericanos (Madri, 2010): Nazarian (Brasil), Hasbún (Bolívia), Azpeitia (Espanha), Lahoz (Espanha), Schweblin (Argentina). 



Ler um livro uma única vez, para mim, é como não ler nenhuma. Na maioria das vezes fica a sensação, mas pouquíssimo do texto. Frequentemente me pego conversando com alguém que fala com entusiasmo sobre um livro, comenta passagens e frases e eu não consigo de me lembrar de nada específico para deixar claro que li. Memória zoada que eu tenho para essas coisas...

Crime e Castigo, de Dostoievski, eu havia lido na faculdade, e me dei conta que isso já deveria ter uns vinte anos. Reli agora, buscando uma fuga da contemporaneidade. E fez tanto efeito quanto na época.

É um romanção no melhor sentido da palavra, denso, detalhista, ainda que estruturado sobre uma ideia simples, brilhantemente resumida no título. Para mim é daquelas obras obrigatórias, (ainda que todos considerem obrigatórias), e que fluem facilmente, longe de ser uma leitura maçante. Acima de tudo, é um livro divertido. Bem, eu sempre tive um fraco pelos russos...

Ler um romance desses não é apenas uma aula para o escritor, como também um parâmetro... talvez inatingível. Daquelas leituras que faço com inveja, sabendo que nunca conseguirei chegar a esse requinte de estrutura.



Então em seguida emendo com Distância de Resgate, da querida autora argentina Samanta Schweblin, lançada aqui pela Record. O livro de Schweblin é uma daqueles antídotos para Dostoievski, oferece uma outra possibilidade de escrita, mais minimalista e hermética, que reafirma para mim como há infinitas formas de construção, e todas são válidas quanto têm consistência. Sensação parecida só tive recentemente ao ler o livro do Edyr Augusto, Pssica, no final do ano passado.  E sempre tenho quando leio Ana Paula Maia (que a meu ver tem um parentesco forte com a Samanta e, embora esteja conquistando belas traduções lá fora, ainda precisa ser melhor reconhecida no Brasil).

Distância de Resgate beira o romance de horror, com duas mães a um toque de perderem os filhos num povoado fictício assolado por contaminações químicas. O tema da paranoia da maternidade me foi imediatamente identificável, e é bem próximo do que eu mesmo estou tratando no meu próximo romance.

No de Schweblin:

“Minha mãe disse que alguma coisa ruim aconteceria. Minha mãe estava certa de que, cedo ou tarde, aconteceria, e agora podia ver isso com toda a clareza, podia sentir que aquilo avançava para nós com uma fatalidade tangível, irreversível. Já não há distância de resgate, o fio está tão curto que mal consigo me mover no quarto, mal posso me afastar de Nina para chegar até o armário e buscar as últimas coisas.”

E no meu próximo:

Há algo de errado com meu filho. E não posso dizer que me surpreendo. Esperei a vida toda por isso. Desde o primeiro dia, desde antes, espero algum sinal de anomalia. A mancha vermelha na testa desapareceu, então esperamos os primeiros passos. Alvinho engatinhou e se levantou, então esperamos as primeiras palavras. Alvinho falou – acho que foi algo previsível como mamá – e esperamos as convulsões. A cada frango servido, esperava o osso da sorte a travar-lhe a garganta. Sempre que eu voltava de uma viagem, sempre que, de longe, perguntava sobre ele, esperava, temia, ansiava pela má notícia que acreditava ser inevitável recair sobre meu filho.

Coincidência ou simplesmente um tema de nossa geração que se aproxima dos quarenta, e contempla o começo e o fim das possibilidades de ter um filho. Tive a honra de dividir mesas com a Samanta, Alejandro Zambra, Daniel Alarcón em encontros de “jovens escritores latino americanos” em Madri, Bogotá, Lima, Buenos Aires... Tenho orgulho de fazer parte dessa geração.

Com Samanta na casa dela em Buenos Aires (2011). 


Revolvendo assim influências literárias, semana passada pipocou no Facebook aquela lista de “15 autores que me influenciaram”, vários autores colocando os seus, muito Machado, muito Lobato, muitos obrigatórios previsíveis. Também tenho minhas previsibilidades, então aproveito aqui para estender os 20 que mais me influenciaram, com uma breve defesa de cada. Vale para eu mesmo reafirmar o que quero fazer, aonde quero chegar...

20 autores que mais me influenciaram:

1. Oscar Wilde: Ler O Retrato de Dorian Gray na adolescência foi meu mal. Pela primeira vez num livro tive a nítida convicção: “é isso que quero fazer.” O estilo dândi e o humor sarcástico de Wilde até hoje são referências fortes para mim.

2. Franz Kafka: Não só o absurdo da narrativa, mas o minimalismo de A Metamorfose foram uma influência forte para mim. Como é possível fazer um romance fantástico, em todos os sentidos, com tão pouco.

3. Thomas Mann: Embora seja o filme “Morte em Veneza”, de Luchino Visconti, que me levou à obra de Mann, está longe de ser meu texto favorito dele (acho que prefiro o filme, na verdade). Porém serviu para me apresentar coisas brilhantes do começo de carreira dele, como Tônio Kroeger e o livro de contos Os Famintos, que norteou muito meus temas. A Montanha Mágica, apesar de ser de uma fase posterior, e de ser daqueles “romanções obrigatórios” (em alguns trechos maçante), também ecoou em mim nas passagens melancólicas e platônicas típicas do autor.


Honra dividir mesas de debate (e de restaurante) com o gênio Noll. 

4. João Gilberto Noll: Falando em melancolia, poucas coisas me tocam tanto quanto os livros do Noll, sempre recheados também de uma ambiguidade sexual e nostalgia. Fácil aqui colocar vários dos meus favoritos: “Rastros do Verão”, “Hotel Atlântico”, “Acenos e Afagos”; “O Cego e a Dançarina” é facilmente meu livro de contos favorito, e “O Meu Amigo”, meu conto favorito da VIDA.


5. Dennis Cooper: Pouco conhecido (e nunca traduzido no Brasil; eu bem que tentei...) Cooper é um autor gay ultrahardcore, que mistura pornografia, pedofilia, tortura e necrofilia com um lirismo bem incomum nesses temas. É das coisas mais pesadas que se pode ler – ao meu ver muito mais eficiente que Sade. Mas ele também tem um livro menos gráfico, menos gay, com uma violência mais psicológica: God Jr. (talvez meu favorito). Meu Pornofantasma é filhote direto dele.

6. Clive Barker: Tem certo parentesco com Cooper (talvez pela influência dos beats), porém mais calcado num horror mais convencional. O universo dele, recheado de fetiches sadomasoquistas, é uma grande influência para mim, especialmente seus “Books of Blood” (volumes de contos).

7. Stephen King: Daqueles que li com maior prazer na adolescência, especialmente It e o livro de contos Night Shift, que foram dos primeiros livros que li em inglês. Como contador de histórias, poucos o superam.

8. Alberto Morávia: Autor italiano que herdei da biblioteca da minha mãe, que rejeitou a escatologia dele, presente principalmente em Desidéria. Mas além desse ele me encantou pelo retrato da adolescência nas duas novelas “Luca” e “Agostino”, (que apesar do original em italiano eu li em inglês, acho que nunca foram publicadas em português). O “Homem que Olha” foi outro romance dele que me fisgou, anos atrás... e do qual não me lembro quase nada.

9. Irmãos Grimm: Básico, né? Tenho belas versões ilustradas da minha infância, em especial uma edição portuguesa. E recentemente comprei as obras completas. Ainda me pego lendo de vez em quando.

10. Lúcio Cardoso: Tem certo parentesco com Noll e Caio, não só pela homossexualidade, mas talvez pelo universo ambíguo derivado dela. Crônica da Casa Assassinada é a obra mais exaltada (e conhecida) dele, apesar de uma leitura difícil. Fui fisgado particularmente pelo clima soturno de O Desconhecido (republicado há alguns anos num volume com a novela “Mãos Vazias”, pela Civilização Brasileira). Há alguns anos soube também que ele foi grande amigo do meu pai.  

11. Álvares de Azevedo: Acho que a única leitura obrigatória da escola que me cativou, pelo universo romântico (e gótico), principalmente em Noite na Taverna e Macário.

Não sei se algo da minha obra ficará, mas um lugarzinho para mim já está assegurado só por tantos grandes desta época que tenho o prazer de conhecer, conversar e ser amigo. 



12. Marcelino Freire: Aqui só estou puxando o saco... Haha. Nah, além de amigo (e grande influência como amigo), foi o primeiro autor dessa nova geração que eu li, e fique fascinado pela prosa poética, musical dele. Foi o autor que me deu licença para usar as rimas – e faz isso tão bem. Com certeza tem uma escrita inconfundível. Eu tive o prazer de escrever a apresentação de Rasif, mas meu favorito dele ainda é Balé Ralé.

13. Caio Fernando Abreu: Autor obrigatório da minha adolescência. A hiper-afetividade gay dele me encantou muito na época, hoje confesso que me cansa um pouco, muito “amorzinho”, falta uma maldade aí. Ainda assim, fica o carinho por Morangos Mofados, Os Dragões Não Conhecem o Paraíso e as cartas dele.

14. Herman Hesse: Demian e O Lobo da Estepe foram obras importantes na minha adolescência, pelos discursos filosóficos e também (como sempre) a ambiguidade. Hoje, pouco me lembro das tramas em si.

15. Lionel Shriver: Das poucas autoras mulheres aqui, e a mais recente da lista. Li “Precisamos Falar Sobre Kevin” naquele meu inverno tenebroso na Finlândia, em que quase me matei. Tenho várias ressalvas sobre esse livro, mas a forma como ela apresenta o lado mais sórdido das relações familiares me inspira muito, principalmente em Grande Irmão, que resenhei para a Folha há alguns anos.

16: Yan Martel: Canadense famoso por A Vida de Pi (que gerou o filme, polêmica com Scliar... além do meu conto “As Vidas de Max), constrói alegorias fantásticas para tratar de temas filosóficos. Outro dos meus favoritos dele é Beatriz e Virgílio, que mistura ensaio e romance com um clima bizarríssimo que beira o terror. Tive o prazer de ler em primeira mão, antes da publicação, como parecerista de uma editora. Parecer obviamente positivo.

17. William Shakespeare: Ok, daqueles obrigatórios obrigatórios, que acabam sendo influência mesmo que a gente não queira. Eu ainda tive o privilégio de trabalhar na tradução/legenda de duas montagens de peças dele por companhias estrangeiras aqui em São Paulo: Cimbeline e Hamlet, então não tinha como não ter uma relação pessoal com as obras dele. Como texto teatral, nunca houve nada melhor.

18. Vladimir Nabokov: Lolita é obra obrigatória e mergulho profundo no universo masculino, mas o volume de contos Perfeição estende esse universo em histórias bem divertidas e talvez mais acessíveis. Sempre gosto de ler as obras da juventude desses “autorzões”, que tratam dos temas que os tornaram celebres, mas com uma certa ingenuidade e romantismo que se perde com o tempo.  

19. Angela Sommer Bodenburg: Harry Potter chegou tarde para mim, já era marmanjo lendo Wilde e Caio, então na minha infância a série de livros que acompanhei com mais entusiasmo foi “O Pequeno Vampiro”, dessa autora alemã. É a história de um menino nerd solitário, fã de filmes de terror, que fica amigo de um vampirinho. Não tinha como não conquistar uma criança gótica como eu.


20. João Carlos Marinho: Esse está na lista de vários amigos e me lembrei de quanto acompanhei também a série de O Gênio do Crime, em vários livros. É daqueles de que hoje pouco lembro, mas que na infância acompanhava com ansiedade. O que mais ficou para mim é o humor absurdo de O Caneco de Prata, que parecia uma obra mais surrealista, dentro da série. “O professor Giovani tinha sete filhos e comeu um macarrão” é uma das frases de que ainda me lembro... Ok, a única de que me lembro.  

27/05/16

ODE À REDE DO ÓDIO

Num dia monotemático como o de ontem é que vejo como as coisas estão: bem.

Li dezenas de posts sobre o estupro coletivo da menina. Dezenas de pontos de vistas coincidentes. Um ou outro que tinha algo a acrescentar. Alguns que deveriam ter ficado calados.
A violência não é maior do que já foi. Mas a capacidade de discuti-la, condená-la, flagrá-la é. Antes não saberíamos desse caso. Antes não poderíamos debater. Teríamos de aceitar a versão oficial, jornal impresso, Jornal Nacional.

Não estamos mais na bolha em que a violência não existe. Nem na selva onde é cada um por si.

Hoje convivemos, ainda que virtualmente, com moleques que postam vídeos de estupro. Estamos sentados com os evangélicos vendo um vídeo do Porta dos Fundos, do Põe na Roda, da Ana Paula Valadão.

Se temos poucas razões para acreditar na raça humana, tenhamos esperança na sociedade que podemos criar. E, ao meu ver, as redes sociais são uma das ferramentas mais valiosas para isso.

Lembro de um post de um amigo, há algum tempo, que dizia: “triste dessa geração que se informa pelo Facebook.” Eu não acho. Triste era a geração que tinha de esperar todo sábado pela Veja. Hoje temos o link da matéria da Veja na timeline ao mesmo tempo que temos a visão do Pragmatismo Político ou podemos seguir Olavo de Carvalho, Eliane Brum, Leonardo Sakamoto ou deixá-los convivendo em nossa página de abertura. É isso que eu faço. Minha leitura diária dos jornais pela manhã se tornou a leitura da página inicial, links postados, diferentes pontos de vista, muitos deles independentes. E se suas redes não rendem nada, o problema são seus amigos.

Claro que a falta de filtro também tem seus dilemas. Cada um posta o que quer, então se posta muita merda – mas isso também faz parte da descoberta do que se pensa realmente. Compartilha-se muita notícia falsa. E muita gente reproduz o senso comum apenas para entrar na onda: “A cultura do estupro precisa acabar” – que pensamento original! (300 polegares positivos). Se a rede não tem filtro, precisamos criar nossos próprios. Quando não tenho nada a acrescentar, prefiro me manter em silêncio, só lendo, ainda que o silêncio passe muitas vezes por alienação.

E se eu fosse escrever sobre estupro... (como já escrevi sobre estupro), eu preferiria me colocar no lugar do outro tentar entender porque ocorre, como se pode praticá-lo. Porque condená-lo para mim é o mais senso comum, não vejo o que se pode discutir.


De BIOFOBIA


Mas talvez não seja a melhor tática... Porque as pessoas só querem ler o que elas já sabem. E meus livros mesmo (talvez por isso) sempre tiveram alcance limitado...


Voltando. Usamos exaustivamente as redes sociais e ainda assim só somos capazes de repercutir o lado negativo delas. Eu como “minoria”- homossexual começando a vida no final dos 90 - e como “diferentão”, que sempre teve gostos alternativos para literatura, música, cinema, não posso me esquecer do quanto a rede deu possibilidades de eu encontrar a mim mesmo.


16/05/16

CAUBY! CAUBY!


1931-2016
Perdemos Cauby Peixoto. Para quem é fã do kistch, sempre foi um prato cheio. Se sua voz era indiscutível, o repertório e a interpretação passaram por todo tipo de coisa, a carreira teve seus altos e baixos. Mas não se pode esquecer de que, quando ele queria, também sabia ser delicado e sutil, inclusive em gravações mais recentes.

Assisti ao Cauby pela primeira vez em 2001, em Porto Alegre. Debilitado por uma ponte de safena, cantou o show todo sentado, e eu agradeci poder conhecer essa lenda que, imaginei, estava com os dias contados.

Eu e ele em 2007. 
Foi-se mais de uma década depois. E nesse tempo o assisti mais algumas vezes no Bar Brahma, sempre cantando sentado, com a voz grave afinadíssima - já não mais tão potente -; tive ainda o privilégio de entrevistá-lo para a Joyce Pascowitch em 2007 (de onde guardo essa foto).

A entrevista não rendeu tanto quanto eu esperava. Cauby soltava frases feitas, fugia das questões mais pessoais, com décadas de prática, parecia um personagem pré-programado. Tudo bem. Completei a matéria com depoimentos de amigos (entre eles o biógrafo Rodrigo Faour e meu querido amigo Arlindo Lopes, que fazia o musical dele no teatro).

Hoje acordei com a notícia de sua morte. Aos 85 anos e com tanta história, não se poderia pedir muito mais. Compartilho assim algumas de suas melhores (e piores) músicas, algumas das mais curiosas.



No começo dos 2000, debilitado, Cauby gravou um disco de canções suaves: "Cauby Canta as Mulheres", só com faixas com nomes femininos (incluindo Lígia, Carolina, Dindi e uma versão soft de Conceição). Tenho aqui em casa e, para mim, é uma prova de que ele não dependia dos excessos para brilhar.


"Meu Coração É um Pandeiro" é um álbum lançado mais ou menos na mesma época, onde ele revisitava grandes clássicos do samba. Os arranjos são de muito bom gosto. E tem a interpretação definitiva de "Retalhos de Cetim", na voz dele.



Indo aos antigos sucessos, a tarantela "Canção do Rouxinol" é das representações mais kitsch (e divertidas) da obra dele.


Dos álbuns mais recentes, o disco de sucessos de Roberto Carlos também é bem delicado. Ganhei de presente do querido Marcelino Freire, há um par de anos.


Cauby ressurgiu nos anos 80 puxado por esse sucesso que gravou com Ellis Regina, "Bolero de Satã". Ele entra apenas no final da música, mas arregaça com tudo.


Uma das parcerias mais bizonhas (e toscas) foi com a banda Tokyo, do Supla, nos anos 80.



Já a versão dele de "Cheek to Cheek", com Caetano, é deliciosa.



Sua parceira mais frequente era Angela Maria. O disco deles de 1982 é um clássico.


Um dos maiores sucessos da carreira dele é "Bastidores", escrita por Chico Buarque, que ele cantava mais contido nos últimos anos. Para você mesmo ver como não é fácil, experimente aí essa versão karaokê.



E não poderia encerrar sem… CONCEIÇAAAAAAAO… aqui no auge de sua potência vocal, com o mestre Sílvio.


 Ficam assim suas gravações, já que um substituto não será possível.

13/05/16

OS 39


Enquanto o país desabava lá fora, passeávamos no zoológico.

Ontem fiz 39 anos e, como não fui viajar, decidi passar um dia de turista na minha própria cidade. Murilo estava livre e me acompanhou ao zoológico, que eu não visitava há quase trinta anos.

É um passeio um pouco triste, os bichos presos, um espaço absurdamente pequeno para jacarés, para grandes felinos. Só não chega a ser melancólico pelo grito incessante das excursões escolares. E as crianças ainda pararam o Murilo para fotos.

Na volta, fomos almoçar na Casa Garabed, lendário restaurante armênio em Santana, que devido à localização eu nunca tinha ido. É longe. E, para quem não mora na região, não sei se vale a viagem.

Brindando com arak. 

O carro chefe da casa são as esfihas, assadas na hora em forno à lenha, a preços salgados entre R$9 e R$13 (isso, a UNIDADE), que achei apenas ok. Pessoalmente eu prefiro as de massa macia às crocantes de lá. E os recheios de cordeiro e de bastrmá não se diferenciam muito das de carne convencional.

Já o homus e o kibe cru foram dos melhores que comi na vida, acompanhados de pães quentinhos também assados na  hora.

O ambiente é aquela coisa, basicamente um salão de espera de uma pizzaria. Já esperava algo "rústico", mas como o restaurante armênio mais conhecido de São Paulo não dava para ao menos colocar um retratinho do monte Ararat na parede? Tocar músicas típicas? Colocar um retrato das KARDASHIAN que fosse? É uma parede de azulejos sem referência alguma ao país dos meus antepassados.

(Vale lembrar que o que se come hoje na Armênia tem pouco a ver com essa culinária libanesa - que remete mais à antiga Armênia Ocidental. A culinária que encontrei ano passado em Erevan remete mais à herança soviética e do Cáucaso.)

O serviço também. Eu ainda esperava algo romântico com um velho proprietário armênio nos recebendo, perguntando de quem eu era neto, mas nada. Fomos atendidos pelos funcionários jovenzinhos-nordestinos num serviço eficiente e nada intimista.

Enfim, valeu pelo passeio, a comida, mas, pela distância, o ambiente e o preço, não compensa. E preciso dizer que Murilo… vomitou ao chegar em casa. Não sei do que foi, porque eu comi as mesmas coisas e não tive nada. De repente foi uma virose.

(Murilo voltou antes para casa, enquanto eu estava no mercado. Quando cheguei, toquei, toquei campainha e ele pedindo para eu esperar. Estava crente que ele estava decorando a casa, preparando a festa, mas era vômito mesmo.)

Meu aniversário terminou aqui em casa, só eu a coelha e o Murilo. Ele mesmo preparou um bolo lindo para mim, fizemos drinques de Stolichnaya e vimos filmes de terror de gosto discutível.


O bolo do Murilo. 


Daí acordei na sexta-feira 13 com os horrores desse novo país...






05/05/16

CHRISTIAN

A vida se vai mesmo num sopro. Esta semana se foi o querido Christian Petermann, que estava internado há alguns dias por complicações de uma séria crise de asma. Grande crítico de cinema, fui a algumas sessões com ele, nos encontrávamos com frequência pelas ruas, eu o interrogava sobre lançamentos, sobre apostas para o Oscar. A última vez que nos falamos foi há poucas semanas; ele me entrevistou para uma matéria que ainda está por sair. Era um cara muito inteligente e carinhoso. Pensei muito nele esses dias. Força à família e amigos. Assim é a vida.