
Criando meus próprios memes. Mais tarde eu volto.
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Estou nos meus últimos dias de Finlândia, me preparando para voltar ao Brasil, a São Paulo, pelo menos por um tempo...
Finlândia é um sonho realizado, um antigo sonho. Estive pela primeira vez aqui há dez anos, no início de 2002 e me apaixonei pela delicadeza do país, pela melancolia... Voltei no mesmo ano, em agosto, quando eu estava morando em Londres, trabalhando como barman. Então só oito anos depois, em 2010, a caminho do Japão, por dez dias.
Quando fui convidado para apresentar minha obra na Alemanha, em outubro do ano passado, planejei fazer a quarta visita ao país. Aconteceu que fiquei sabendo de uma amiga que estava alugando o apartamento dela em Helsinque – eu estava com uma graninha, em crise existencial, sem saber para onde ir – e decidi passar quase cinco meses na Finlândia, no inverno...
Eu nunca achei que seria fácil. Não foi. Foi tão difícil quanto eu imaginava, pela solidão, a escuridão, meu estado já pré-depressivo; o frio em si foi a parte mais gostosa, mais peculiar.
Os finlandeses são muito educados, simpáticos e gostam de brasileiros. O problema é que é um povo extremamente individualista, fechado e... receoso. Quer dizer, eles recebem bem, tratam bem, mas não dão muita abertura, é difícil fazer amigos de verdade, e eles não são muito solidários e prestativos. Cada um cuida da sua vida.
O inverno realmente muda a personalidade das pessoas, elas saem menos de casa, ficam menos dispostas a se divertir e, talvez pareça estranho, mas o finlandês ODEIA o inverno. Eles não gostam de frio. E perdi a conta de quantas vezes eu ouvi: “O que você veio fazer aqui no inverno? Você tinha de curtir o VERÃO da Finlândia, blábláblá.”
Bem, já estive aqui no verão uma vez, realmente é uma época mais festiva. Mas eu venho do Brasil, para mim é muito mais interessante ver essa realidade glacial. Fora que o clima glacial é muito mais parte da realidade do finlandês do que o verão, que dura pouco, pouco tempo.
Então o problema maior do inverno para mim foi como as pessoas recebem o inverno aqui, como o povo se tranca em casa, como a vida fica em stand-by. Dezembro foi o pior mês; já é um mês deprê em si, pelo final de ano e tal, e nesse último quase não nevou em Helsinque. Ficou só uma escuridão, um nublado, eu estava de rolo com um loiro idiota que só me colocava para baixo; quase me suicidei. Sério, quase me suicidei.
Quando a neve chegou ficou tudo mais lindo, mais típico, eu mandei o loiro passear e passei a me servir de loirinhos por quilo. Tive minha cota. Entre o final de janeiro e começo de fevereiro a temperatura fixou abaixo de -20C em Helsinque, e teve um ou outro dia que eu realmente penei. Mas vim para cá para isso. E pode acreditar, viver a -10C é tranquilo – eu nunca deixei de sair de bicicleta, ir para a academia. Todos os lugares têm aquecimento, a cidade é preparada. Usando as roupas certas, você não sente nada de frio.
Agora o inverno já está acabando, está fazendo -1C, +1C, que no Brasil seria um inverno polar mas, veja só, a gente se acostuma rápido. Hoje eu saí de casa a +2C, com a neve derretendo, céu azul, pensando: “Ai, tá quente hoje...”

Tive muita sorte de arrumar um belo apartamento em Helsinque, numa zona central, todo equipadinho com microondas, lavalouça, máquina de lavar, TV, talheres, móveis, etc. Vou sentir falta daqui. Meu cotidiano, como sempre, era trabalhar em casa, sair para malhar e os programas culturais/sexuais/noitadas, além das viagens.

Em quantidade de meses, já fiquei mais tempo na Inglaterra, mas acho que a Finlândia é o país que pude conhecer melhor (fora o Brasil, obviamente). E posso discorrer sobre algumas questões...
A CULTURA: Há quem diga que o finlandês é tímido. Eu não colocaria assim, eu diria que é um povo... cauteloso... para não dizer medroso. Isso se reflete desde as relações pessoais, até a preocupação com segurança – mesmo sendo um dos países mais seguros do mundo, as pessoas trancam suas portas, os hotéis, a academia, têm medo quando são abordadas na rua. É um povo que faz tudo segundo as regras, o que tem seu lado positivo, mas que tem muito medo de experimentar algo novo, de tentar fazer de maneira diferente. Enfim, é um povo cagão, sinto dizer.
ECONOMIA: A Europa em geral é muito menos capitalista do que a América. E a Finlândia está no limite de um país socialista. É uma sociedade extremamente igualitária, onde todos têm um nível financeiro próximo e o estado cuida para que ninguém tenha demais ou de menos. O povo não é nada consumista, e mesmo no Natal não se sente a pressão para o consumo. Essa igualdade também se reflete nas relações pessoais. Idosos não têm preferencia nas filas. Homens não abrem portas para as mulheres. As mulheres não se produzem tanto. E elogiar o outro não é um costume finlandês.
A LÍNGUA: O finlandês não tem correspondência com nenhuma outra língua. É muito, muito difícil. Estudei finlandês durante dois anos em São Paulo, numa porcaria de escola. Aqui, fiz mais algumas aulas, em outra porcaria de escola. Não falo, e entendo muito superficialmente. Mas todo, todo mundo fala inglês, ao menos o básico, nos restaurantes, supermercados, lojas, táxi, até o eletricista que veio aqui em casa outro dia (e que era mega gatinho, preciso dizer...). Enfim, com o básico que eu tenho consegui sobreviver muito bem.

A COMIDA: É uma merda. Haha. Nah, tá, a comida é interessante. Acho melhor que a comida inglesa, na verdade, porque não é apenas “ruim”, é diferente. Muita coisa em conserva, seca, azeda, obviamente pelo inverno rigoroso. Mas é engraçado como o finlandês não é chegado em doces – o “doce” finlandês é o salmiakki, que é uma coisa amarga, próxima do alcaçuz, feita de sal de amônia. Também não há essa cultura de salgados gordos com queijo derretendo e presunto. Os sanduiches são de pão preto com salmão. Poderia se pensar que isso faria o povo daqui mais magro, mas não é não. O finlandês é um povo chubbyzinho. Ou seja, eles engordam de pão preto, sem o prazer de engordar.
Das coisas mais bizarras que comi aqui foi a carne de urso. Carne de rena é típica, cara, e uma delícia. Carne de alce é ainda mais rara e cara, com um gosto parecido. Das comidas do dia-a-dia... acho que não sentirei muito falta de nada. E tenho horrores de carne de urso para queimar...
TURISMO: Recomendo muito, muito, muito a Finlândia para o turismo. É um país extremamente seguro, civilizado, onde tudo funciona. Eles recebem muito bem o turista. E é um país diferente, pitoresco, cheio de paisagens lindas, coisas interessantes a fazer. É uma delícia para visitar, mesmo no inverno (ou “principalmente no inverno?”). Eu poderia dar (mais) dicas de turismo aqui, hotéis, restaurantes, bares, etc, mas estou propondo isso para algumas revistas e vamos ver se alguém me PAGA por isso.

A VIDA GAY: A homossexualidade é muito bem aceita aqui. É um país pouco religioso, isso ajuda. Na recente eleição presidencial, há algumas semanas, um dos favoritos era um homossexual assumido que tem um namorado equatoriano vinte anos mais novo (ele não foi eleito, mas ficou com 30% dos votos). A bissexualidade é mais normal ou menos tabu do que no Brasil. E isso também quer dizer que a “cena gay” é pequena e os “gays exclusivos” ou os “homoafetivos” são uma minoria passiva... Aliás, é disso que eles se queixam, que os gays (com quem eles podem namorar – porque os bissexuais namoram mulheres, vejam só- todo mundo precisa de alguém para lavar e passar.) são todos passivos. Isso está longe de ser um problema para mim... Mas eu descobri que aqui passivo é PASSIVO, que deita na cama e não faz nada, nada. Juro. Eles esperam que o ativo cuide de tudo. Cheguei a pensar em sair para a noite com uma camiseta: “Sou ativo. Não sou necrófilo.” Ainda assim, deu para eu me divertir bem, me servindo de loiros a granel. De volta ao Brasil, só me alimentarei de cafuçus.

E esse é meu saldo de Finlândia. Destruiu muita da minha idealização sobre o país, mas tive uma vivencia mais real e intensa, que vai deixar saudades. Espero voltar, sim, em breve. Até porque, depois de 5 meses, as coisas começam a ficar mais fáceis, eu vou me integrando mais ao país e formando amigos de fato.
Talvez o desafio agora seja eu me reintegrar a São Paulo...
No Kiasma, museu de arte contemporânea de Helsinque, ontem mesmo.
Assisti esses dias por aqui e não gostei nada-nada de “A Dama de Ferro.” Achei um telefilmezinho chinfrim, não consegui entender direito a história da Margaret Thatcher, como ela chegou ao poder, achei tudo muito rápido e nem a interpretação da Meryl Streep se salvou. Achei caricata, forçando o britanismo. Fora que a história dela em si não é lá tão espetacular. Tirando as questões políticas, não há grandes dramas ou surpresas; e o filme procura se apoiar no estado dela atual, de senilidade, para poder dizer algo mais sobre o lado humano do personagem.MELANCOLIA (Lars Von Trier): Uma obra-prima do niilismo, a anti-ficção científica, e com imagens tão lindas, interpretações tão perfeitas que me fez sair maravilhado e relaxado do cinema.
PALINDROMOS (Todd Solondz): Uma comédia absurda politicamente-incorreta que eu não canso de assistir em DVD.
O BURACO (Tsai Ming-Liang): Um filme lento, em que não acontece muito nada, mas que tem o ritmo e o clima drasticamente alterados com números musicais.
AUDITION (Takashi Miike): Um exercício extremo de cinema. Basicamente uma hora de comédia romântica fofinha e quarenta minutos finais de terror surrealista hardcore.
ED WOOD (Tim Burton): O triunfo dos trevosos, bizarros, segregados e outsiders.
AMORES EXPRESSOS (Wong Kar Wai): Lindo-lindo e fofo-fofo.
WHATEVER HAPPENED TO BABY JANE (Robert Aldrich): Um thriller bizarro com uma Bette Davis perfeita.
SERIAL MOM (John Waters): Comédia de humor negro com uma Kathleen Turner impagável.
O CHAMADO (Gore Verbinski): Ok, ok, ninguém vai concordar comigo, mas acho esse remake de "Ringu" o filme de terror mais perfeito já feito.
SNAKES ON A PLANE (David R. Ellis): O perfeito filme B, assumidamente trash, que entrega exatamente o que o espectador quer, e um pouco mais.
Perdidos em alto... mar?
É carnaval! (Era...) E enquanto vocês se caramelizavam ao ritmo dos batuques tribais, eu voltava à era do gelo nesta Suomi da qual já estou me despedindo.
Vim para a Lapônia, norte da Finlândia, me despedir do país, do inverno e do gelo (que começa a derreter por aqui – sim, até na Finlândia o gelo tem um fim). Das viagens turísticas que fiz nesta temporada aqui, esta sem dúvida foi a melhor. Primeiro porque resolvi aceitar meu próprio conselho e afundar de vez no turismo – fazendo os programas típicos. Segundo porque o inverno está acabando e o país fica mais iluminado, as pessoas mais festivas, eu mesmo menos depressivo. Foi lindo.
Discurso! Discurso!
De lá segui para a Lapônia – Oulu, Rovaniemi e Kemi. Oulu eu ainda não conhecia, foi ok, cidade bonita, mas sem muito o que fazer. Em Rovaniemi foi minha terceira vez, e foi uma sensação ótima descer na estação de trem da cidade e seguir direto para o hotel, sem ter de pegar mapa ou indicação alguma, porque eu já conhecia tão bem a cidade (que afinal é uma cidade de apenas 60 mil habitantes).
