3.27.2015

VIVER PARA VENDER

Assim se faz a nova literatura brasileira (Adriana Lisboa, João Paulo Cuenca, Veronica Stigger e eu, representando o Brasil em Bogotá, 2007)

Vira e mexe vejo algum "jovem autor" razoavelmente bem sucedido apontar o dedo para o meio literário (que geralmente o despreza) e dizer que "escritor no Brasil não vende porque não se comunica com os leitores, só quer escrever difícil, blablablá". Realmente, não estou falando de um autor específico, esse é o argumento em diversas entrevistas, colunas e antologias de literatura comercial.

É a lógica de se nivelar a um discurso mais raso, mais fácil, em vez de tentar encontrar e formar leitores mais sofisticados, pensantes. Guardadas as devidas proporções, é a lógica da TV que só exibe bunda e lepo-lepo porque é isso que o brasileiro quer.

Não tenho nada cont... Ok, tenho algumas coisas contra a literatura comercial, mas procuro afastar o preconceito. (É só dar uma olhada mais atenta nas pilhas de bestsellers internacionais e se encontra quase meia dúzia que eu mesmo traduzi.) Acima de tudo, acho que o mercado brasileiro precisa de diversidade. E os bestsellers nacionais permitem que as editoras continuem apostando em novos autores, talvez mais difíceis, talvez melhores...



Para o"jovem autor bem sucedido", as vendas são a medida do sucesso, e realmente é uma boa medida. Não é a única. Há um recalque constante do autor (que vende) em ficar fora das listas, dos prêmios, não ser resenhado e nem participar das mesas literárias. Acho mesmo que poderia haver uma mistura maior. Mas é compreensível que, na hora de "representar o Brasil", (Paris, Frankfurt) escolha-se o que o país tem de mais sofisticado.

"Todo autor quer vender" alguns argumentam. Pode ser, mas não a qualquer preço. Tenho formação de publicitário - e larguei a carreira para poder fazer o que acredito. Se for para dar à massa  só o que ela quer, eu ficaria em agência. Não estou aqui para dar o que o público quer, mas o que EU quero que o público saiba. Minha intenção é provocar, contestar, e isso nunca vai ser recebido tão facilmente quanto a onda da vez.

Falando especificamente do meu caso, fui enquadrado no restrito espaço dos alternativos: pop para os literatos, difícil para o grande público. De certa forma concordo, não vou tornar meu discurso mais raso nem adotar um tom intelectualoide, então continuo brigando para conquistar o maior espaço que posso, dentro da minha proposta - até porque tenho uma coelha para sustentar. Quero mais espaço para os alternativos, quero mais existencialistas bizarros. (Acho que teria uma forte crise existencial se me tornasse bestseller). Não quero me resignar, mas também não tenho tanto a me queixar, talvez hoje eu seja o "alternativo oficial", que tem seu público, seu espaço, e é escolhido para representar um lado B do Brasil (na Colômbia, Argentina, Peru, México, Venezuela, Alemanha, Espanha.)

Em primeiro plano, Lisias, Del Fuego e eu, em Guadalajara (2013)

Sem modéstia, é preciso reconhecer a importância que a minha geração como um todo teve em abrir espaço para o boom de "jovens autores". Claro, não foi só mérito de nós autores, como muito o momento da época (com a Internet, o barateamento das formas de publicação). Nos anos 90, não era comum se ver tantos moleques de vinte e pouco publicando, como se tornou nos 2000 com Simone Campos, Daniel Galera, Clara Averbuck, João Paulo Cuenca, Andrea del Fuego, Ana Paula Maia. Nossa geração teve enorme visibilidade (de mídia) e mudou muito a visão que se tinha do autor nacional. (E em casos pontuais se refletiu em vendas expressivas de algumas dezenas de milhares como o caso do "Barba Ensopada de Sangue", do Galera, o juvenil da Del Fuego e o meu "Mastigando Humanos".)

Com Mauro Ventura, Galera e Cuenca, em Bogotá (2012) 

A matéria que publiquei na capa da Ilustrada em dezembro, sobre a fonte de renda dos autores, ao meu ver, mostra um cenário muito positivo. Que é possível o autor sobreviver hoje no Brasil sem se curvar ao mercado. Afinal, se pode dizer que Raphael Draccon faz mais sucesso do que Daniel Galera? Que Thalita Rebouças é mais bem sucedida do que Veronica Stigger? Rascunhando meu livro de auto-ajuda eu diria: sucesso é fazer o que se acredita.





3.25.2015

QUANTO CUSTA UM CONTO?



Nazarian: Que eu faço com um conto inédito?

Jonatan: Publica?

Nazarian: Onde? Como? Quem paga hoje em dia?

Lucas: Junte a outros e faça um livro de contos.

Nazarian: Livro de contos é um tiro no pé...

Tiago: Faz um quebra-cabeça com as frases...

Jonatan: E um conto avulso pela E-Galáxia?

Juão: Pixa.

Helena: Entre em concursos.

Nazarian: E começo tudo de novo?

Jonatan: E-Galáxia é fria?

Mariana: Por que livro de contos é um tiro no pé.

Anucha: Publica no blog :)

Nazarian: Não vale nem uma cenoura pra minha coelha?

Gastão: Leiloa

Nazarian: Ou rasgo em pedacinhos, jogo para o alto, cada um cata uma palavra...

Mariana: Zine. Kkkkk

Bianca: Posta para nós de presente de Páscoa.

Nazarian: É meio indigesto, Bianca.

Nobile: Control C, Control V aqui.

Nazarian: Você quer é um microconto...

Penna: Conta!

Nazarian: É sobre um escritor, que tem um bloqueio criati... Mentira.

Ricardo: Dá para mim que eu enceno.

Nazarian: E tudo o que derramei todos esses anos? Você não encenou nem a ejaculação precoce do Thomas Schimidt...

Nobile: Larga esse negócio de literatura e bora fazer novela.

Nazarian: Como não tinha pensado nisso? Una novela psicodélica...

Nobile: Começaria com algo inusitado. Tipo uma trans mulher e um trans homem em Bangkok.

Nazarian: Bem o tipo de coisa que eu escrevo. Acertou na mosca...

Nobile: Eles teriam um gato que falaria das misérias humanas. No núcleo pobre teria um escritor de contos...

Luciano: Imprime e vende na porta da Unib.

Nazarian: Vocês estão me lembrando do meu passado...

Filipe: Me manda que eu transformo em música.

Nazarian: Ninguém me ofereceu ainda para virar perfume da Jequiti....

Ricardo: Transforme em "O" perfume da Jequiti.

Nazarian: Meu sonho é virar mensagem subliminar na entrevista da Mulher Pera.

Tonico: Publica de presente no próximo livro.

Nazarian: Que "próximo livro"?

Henry: Eis o dilema da contemporaneidade...


3.16.2015

TRABALHOS BIZARROS


Barman no Ghetto, em Londres. 
Recordar é viver. E se tem uma coisa de que me orgulho na vida é das minhas histórias, criadas, vividas. Assim vivo num clima permanente de nostalgia. Minha escola foi essa; embora eu seja formado em comunicação social pela FAAP, aprendi muito mais com as viagens, a mão na massa, mais prática do que teoria. No Brasil o perfil do escritor ainda é muito atrelado ao intelectual doutorado, acadêmico; eu sempre busquei mais a experiência de vida como experiência artística. Então fiquei pensando, me lembrando de quantos trabalhos e empregos inusitados já tive:

BARMAN EM LONDRES
Em 2002 fiz um longo mochilão pela Europa e parei em Londres, onde tinha amigos brasileiros. Com o dinheiro no fim, ou eu arrumava um trabalho ou voltava ao Brasil. No primeiro final de semana lá, passei por um club, pedi emprego e na segunda semana já estava empregado como barman. O Ghetto era um club alternativo, que abria de segunda a segunda, cada dia com um tipo de música/público. As quartas tinham o Nag Nag Nag, noite de elektro que se tornou lendária. Eu fiquei lá desde o começo até quando começou a bombar. Kate Moss, Boy George, Brian Molko foram alguns dos clientes que servi (Bjork foi exatamente numa noite em que eu estava de folga). Trabalhava quase toda noite lá, porque ganhava pouco e tinha de me manter, comer, ajudar no aluguel. Meus chefes e colegas eram todos muito bacanas - fizeram uma festa e me deram um discman quando fui embora - mas eu já era formado no Brasil, já escrevia, e não queria trabalhar de barman para sempre, ainda mais na informalidade.

Com Dusty O, drag-dj da casa. 
BARMAN DE INFERNINHO
Voltando da Europa, no final de 2002, o primeiro emprego que arrumei em São Paulo foi de Barman na Sogo, basicamente um "clube de sexo" nos Jardins. Os primeiros andares tinha bares e pista como uma boate (gay) normal. O terceiro andar era chamado de "Dungeon", com cabines, camas, dark room, vídeos pornô. Foi exatamente aí que me colocaram para trabalhar, como barman novato. Apesar do pitoresco da situação, é mais divertido contar e lembrar do que viver. Tinha um clima muito pesado e deprê. Com um mês trabalhando lá, pedi demissão. O chefe de bar era muito bacana, me transferiu para o bar da entrada e me pediu para continuar. Fiquei só mais um mês, até voltar aos trabalhos como redator.

Na Sogo, Natal de 2002. 

PROFESSOR DE INGLÊS
Esse também arrumei logo que voltei da Europa, mais ou menos na mesma época em que trabalhava de noite como barman. Como jovem inconsequente, achei que só por ser fluente no inglês poderia dar aula, e uma dessas grandes redes teve a inconsequência de me contratar. O método era completamente absurdo, baseado na repetição e tradução. Eu era um péssimo professor, creio, sem a menor didática e embasamento teórico. Ganhava muito mal também. E depois de seis meses desisti de vez.

LEGENDISTA 
Outro emprego que pagava mal, mas até que era gostoso e instrutivo. Trabalhei com uma produtora que fazia tradução e legendas de filmes e peças para festivais. (Em filme geralmente acontece quando vem uma película de fora, que vai ser devolvida, então não se pode queimar as legendas. O operador tem de lançar as falas - previamente traduzidas e diagramadas em formato de legenda - conforme vão sendo ditas na tela). Traduzi diversos filmes e legendei ao vivo várias mostras em São Paulo, Brasília, Porto Alegre. Minha mãe também traduziu alguns filmes em francês, e eu legendei (meu francês é bem mais ou menos, não me arriscaria a traduzir). Tenho carinho especial por uma peça de uma companhia inglesa que legendei no Sesi da Paulista, "Cymbeline" (Shakespeare), fiquei em cartaz com eles a temporada inteira. A montagem era foda. Hoje em dia não sei se há muita demanda para esse tipo de trabalho - talvez já existam programas que façam isso automaticamente. Ano passado até me pediram para orçar legendas para um evento da Copa, mas eu estava viajando para lançar o livro e declinei.

Testando as legendas...

VENDEDOR DE LIVRARIA
Meu primeiro emprego, na Livraria da Vila da Fradique Coutinho. Entrei como temporário, depois o dono (na época o Aldo Bocchini) me chamou para trabalhar no projeto de uma nova livraria, voltada ao público gay. A Livraria do Meio durou pouco, logo foi vendida e se tornou a "Futuro Infinito", mas eu já não estava mais lá, trabalhando em agência de publicidade.


REDATOR PUBLICITÁRIO
Esse foi o emprego que fiquei mais tempo, seguindo minha formação universitária, quatro anos no total. Estagiei na Young & Rubicam e trabalhei na Futura, em São Paulo, e na Escala, de Porto Alegre. Conheci muita gente bacana, tenho grandes amigos até hoje, mas o trabalho mesmo era muito imbecilizante e vazio. Muita punheta para vender sabão em pó. O que mais me divertia era criar jingles - fiz mais de vinte nos dois anos em Porto Alegre, que ainda tenho no iPod. Saí de agência para mochilar na Europa, e o resto você sabe...
Na Escala, em Porto Alegre (lá por 2001) com a Letícia, que até hoje é amiga das mais queridas. 

REDATOR DE DISK SEXO
Esse foi outro trabalho pitoresco que arrumei pouco depois de voltar de Londres, que me fez largar o trabalho de barman e professor de inglês. "Precisa-se de redator para textos eróticos e exotéricos", dizia o classificado de um jornal. Publicaram o email de contato errado, eu consegui adivinhar o certo e fui o único que mandou currículo. Dia seguinte fiz entrevista e fui contratado. Basicamente eu criava histórias eróticas que eram gravadas e ficavam disponíveis como conteúdo de voz para celular (que na época, em 2003, ainda não tinha toda tecnologia de vídeo/imagem). Eu também criava os horóscopos. Inventava TUDO. Eu trabalhava em casa e pagava razoavelmente... quando pagava. Meu chefe era o estereótipo do que se pode imaginar nesse tipo de trabalho - um velho safado às vias de se tornar cafetão virtual. Foi nesse período que ganhei o concurso que publicou meu primeiro livro, daí comecei os trabalhos de tradução, os textos para revistas e jornais e pude largar a putaria. De todo modo, essa foi a história que fez grande sucesso nas vezes em que fui ao Programa do Jô.


REDATOR DE MARKETING DIRETO
Esse foi um emprego sem a menor graça. Já era autor publicado, e trabalhei alguns meses na Abril, cobrindo férias e licença maternidade de redatores do marketing. Quem me conseguiu a vaga foi o finado poeta Donizete Galvão; pagava razoavelmente bem e o trabalho era tranquilo... demaaaaais... Eu tinha de criar aquelas cartas para assinantes: "Oportunidade incrível para você assinante de Veja", e coisas assim. Na prática, eu passava às vezes DIAS sem fazer NADA. Era uma agonia tremenda, porque trabalhava lá, tinha hora para entrar, hora para sair... Acho que grande parte do Mastigando Humanos foi escrita lá.

TECLADISTA DE BANDA DE GLAM ROCK
Ok, esse não foi exatamente um "trabalho", mas no final dos anos 90 eu tocava teclado numa banda "indie" daqui de São Paulo, o "Viva Violet". Tocava mal - estudei três anos de piano na adolescência - a banda era terrível, mas era divertido. Nunca chegamos a gravar nada, tocamos poucos shows em lugares como o extinto Retrô, e eu logo larguei para me dedicar à faculdade e ao trabalho em agência. Compus também algumas coisas solo, experimentais, só com teclado, que tenho gravado até hoje em K7 bizarríssimos. Tenho saudades de brincar disso; qualquer hora que tiver um dinheiro sobrando quero comprar um teclado novo só por lazer.

PERFORMER DE BODY ART
Outro que não foi exatamente um "trabalho", mas teve uma certa repercussão. Como adolescente gótico, aos dezenove anos fiz uma performance de auto-mutilação na faculdade, para um trabalho de História da Arte. As fotos acabaram atraindo um diretor, que fez um curta metragem sobre mim como se esse fosse de fato meu trabalho. O curta ganhou alguns festivais, passou na TV Cultura, e no ano seguinte eu mesmo resolvi dirigir um curta irônico sobre body art (uma espécie de "torture porn"), que foi o "Ame o Garoto que Segura a Faca", do qual já falei aqui. Passou em alguns festivais, não ganhou prêmio algum, e assim se encerrou minha carreira de artista performático. (Embora eu ainda tenha feito pequenas mutilações para as fotos de divulgação dos meus três primeiros livros).


Clássica foto que fiz  para a divulgação de Olívio, meu primeiro romance. A foto é do Ambooleg, o sangue é meu mesmo. 

COLUNISTA DE MODA
Não entendo nada de moda... e acho que por isso que me chamaram. Em 2007, a Erika Palomino tinha um jornal diário no São Paulo Fashion Week e me chamou para ter uma coluna, uma página diária no evento. "O Caminho de Santiago" trazia o que eu quisesse, minha visão do evento. Assisti a muitos desfiles, aloprei bem, conheci algumas pessoas bacanas e muita gente escrota. Foi uma experiência ter de escrever diariamente sobre... nada, ou sobre qualquer coisa. Fiz quatro temporadas, Erika pagava direitinho, sempre foi muito querida e me deu carta branca para eu fazer o que quisesse. A mais divertida foi a que cobri a "última fila", o povo que se sentava no fundão dos desfiles - ou gente que nem conseguia entrar. Era uma coluna social dos excluídos, onde pude contestar um pouco a futilidade desse universo.

Com a querida Jana rosa, no SPFW. 

MAROTO (PAQUITO DA MARA)
Nah, nah... esse é lenda urbana... Ou não?




3.06.2015

IMORTAL DA ACADEMIA

Aos 33, na minha melhor forma...


Se ele quisesse voltar a fazer sucesso era bom cuidar do peso. Os quilos a mais eram a imagem flagrante para os fãs de que ele não era o mesmo – havia fracassado no teste do tempo, cometera o pecado de envelhecer. Mas, porra, não podia nem comer? Então deveria voltar a fumar. Tinha de ficar longe das drogas, evitar a bebida, o cigarro, maneirar na comida – a vida só lhe exigia privação, prender a respiração, para que pudesse continuar respirando. (de BIOFOBIA).


Sempre tentei equilibrar a vida de atleta, junkie, intelectual... Não é uma tarefa fácil. Trabalho em casa, gosto de comer, meu namorado cozinha muito bem, então a academia é uma necessidade diária, para gastar energia, queimar combustível, ventilar a cabeça, conseguir dormir... Apesar de já estar bem distante das drogas, adoro beber, mas aos 37 anos cada gota tem seu preço, e ainda que o álcool ajude a soltar um pouco a escrita, inviabiliza (para mim) a leitura, embaralha as ideias...

Voltei a nadar esta semana. Ano passado inteiro só fiz musculação e fui inchando, inchando... Decidi parar com tudo. Achei que sentiria falta. Não senti. Na verdade, foi um alívio acabar com essa obrigação diária, ter de sair de casa, ver aquele povo de academia, ficar nos mesmos exercícios que faço há mais de uma década...

Mas o corpo exige. Nessa idade não tem jeito...



Mesmo no longo inverno que passei na Finlândia, era assim que ia pedalar todos os dias, a -10C. 


Treinei caratê a adolescência toda, parei na faixa marrom. Malho desde os 25. Com tal dedicação que mesmo em viagens eu procurava uma academia local - já treinei no Japão, Colômbia, Dinamarca, Alemanha, Argentina.... Aos 33 anos, morava na praia, em Florianópolis, fazia academia, kite surfe, scuba dive, corria na praia, pedalava, caminhava horrores todos os dias. Toda minha rotina e meu lazer exigiam intensa atividade física. Era impossível não ficar com meu melhor corpo.

Com minha roupa fetiche de surfista X-man. Queria poder andar assim pelo baixo augusta. 



Em São Paulo é exatamente o contrário. Parece que todas as possibilidades de diversão envolvem comer, beber ou se drogar. Não existe coisa mais deprê do que ir correr no Ibirapuera, sábado de manhã, em fila com a multidão, talvez só pedalar na ciclovia da paulista. Deprê. O paulistano é condenado à academia.

E elas abusam. Dei um giro procurando academia com piscina. Uma grande rede me ofereceu um plano anual de mais de SETE MIL reais, com horário marcado, duas vezes por semana. "E se você precisar de toalha a gente tem pra alugar." (Mercenários da porra. Pagando seiscentos reais por mês o mínimo que eles deviam ter era uma toalhinha cortesia!)

Acabei voltando pra minha antiga, por menos da metade. (E eu daria o nome aqui, se fosse um plano de cortesia...). Foi bonitinho a festa que a instrutora da natação fez. Colocou o CD de músicas kitsch que eu tinha gravado pra ela...

Nadei ontem com palmares, paraquedas, todos os acessórios que criam resistência e exigem mais dos músculos. Achei que estaria destruído no dia seguinte. Não estou. Não sinto dor alguma. Novembro passado, de visita em Florianópolis, peguei a bicicleta para girar pela ilha; achei que eu estaria totalmente enferrujado. Também não estava. Pedalei mais de cinquenta quilômetros num dia. Tranquilo. Acho que o corpo não se esquece tão facilmente de uma vida dedicada.

O mundo literário é um mundo sedentário. Não se leva a sério um escritor com tanquinho. Já o mundo gay é um mundo cruel, beleza é questão de sobrevivência. Volto a buscar um equilíbrio. E acima de tudo,me sentir bem comigo mesmo. Os quarenta estão chegando, nunca serei um imortal, mas ao menos já consegui uma academia com piscina. Não é pouco nesses tempos de seca.


Água tem, mas tá salgada.