8.30.2015

FLIARAXÁ

Debate com Marçal Aquino, Antônia Pellegrino e eu, mediados por Carlos Herculano Lopes. (Foto: Rubens Weil/Infinito)

Acabo de voltar de mais um Fliaraxá, festival literário dos mais bacanas, no triângulo mineiro. A organização do pessoal do Sempre um Papo é sempre impecável e a estadia no mítico Tauá Grande Hotel já faz parte da identidade do evento.

Com as querida Laura Conrado e Antônia Pellegrino, e o organizador Afonso Borges.

Minha mesa foi na tarde de sábado, discutindo cinema e literatura novamente com o Marçal Aquino e a estreia da participação da Antônia Pellegrino, que é bem conhecida como roteirista de filmes, séries e novelas, mas está começando na literatura. Começou cheio e terminou lotado. Os debates só têm uma hora e, com três pessoas, achei que podia ficar um pouco raso, mas deu para discutir razoavelmente e responder perguntas da plateia. Bacana ouvir a experiência deles não só na mesa, mas estendendo pela noite nos bares. 

A mesa do Xico Sá com o Sergio Abranches estava concorrida, mas privilégio é poder conversar tranquilamente com eles
depois, no bar do hotel.


Essa para mim é a parte mais legal dos eventos literários, poder estender para conversas de bastidores no café da manhã, na piscina, na madrugada. Bebi ontem no bar do hotel com o querido Xico Sá, jantei com o Fernando Bonassi, conversei com Marina Colasanti na piscina. (Ela reclamando da música alta: "O Brasil não gosta de silêncio - sabe por quê? Porque não quer que a gente pense..."). 

A mesa do argentino Leopoldo Brizuela com o Bernardo Carvalho.

Como fiquei quatro dias, também tive tempo para trabalhar durante as manhãs. Finalmente encontrei meu próximo romance - ainda no começo, mas já tenho um ótimo caminho - então estou mergulhando para terminar daqui a um ano, publicar, quem sabe, em 2017. 

Saindo do hotel com Marçal, Bonassi e Antônia. 

Setembro será um mês tranquilo, sem eventos para mim, mas em outubro já tenho dois debates marcados e uma bela viagem internacional... Aviso tudo por aqui. 

Escritor sofre...


8.24.2015

O VILAREJO


Numa época incerta, num vilarejo indefinido do leste europeu, o frio e a fome desolam a população. Confrontados com a escassez, os piores instintos humanos vêm à tona, evocando horrores dignos de demônios. É esse o mote do novo "romance episódico" de Raphael Montes, querido amigo e irmãozinho.

Estruturalmente pode ser visto como um livro de contos, no entanto o universo comum e a recorrência de personagens faz com que as histórias se relacionem e se complementem, ganhando um significado maior se lidas em conjunto.

Li já há alguns meses e me impressionei novamente com o talento de Raphael como contador de histórias. Para mim também é sempre um alívio, por eu incensá-lo desde o início (a primeira resenha do primeiro livro dele - Suicidas - foi daqui deste blog), poder confirmar que eu estava certo, não foi apenas uma aposta ou uma promessa; Raphael faz bonito.

Emulando autores clássicos de terror pulp, como Lovecraft e Poe, com algo dos contos de fadas mais sombrios de Andersen, O Vilarejo diferencia-se bastante da produção autoral de Raphael, afastando-o da realidade burguesa carioca. Talvez não seja o melhor livro dele (por não ter identidade tão própria), mas é meu favorito.Tudo é muito bem amarrado, as histórias têm algo de arquetípico, o universo é fabulesco (e fabuloso).  E com cenas chocantes de tortura, estupro e canibalismo, Raphael faz jus ao título de "príncipe dos horrores".

O lançamento em São Paulo é amanhã, terça dia 25, na Livraria Cultura da Companhia das Letras, no Conjunto Nacional. Sai pelo Suma das Letras, o selo pop da Companhia.



8.20.2015

O ESCARAVELHO DO DIABO

Resenhei este clássico juvenil, que está ganhando nova edição, para o Suplemento Pernambuco de agosto. 

“Hipnotizando leitores desde o tempo do bonde”, é a chamada na primeira página de uma das edições mais recentes (de quase trinta) de O escaravelho do diabo, de Lúcia Machado de Almeida. Parece ser o alerta de que se trata de uma narrativa de “época”, embora quando tenha sido publicada originalmente, em fascículos da extinta revista O cruzeiro, em meados da década de 1950, fosse uma trama contemporânea, talvez até bem avançada. Também não buscou originalmente um público juvenil, dados os leitores da revista. Porém, a obra foi definitivamente eternizada em livro a partir do início da década de 1970, na clássica coleção Vaga-lume da Editora Ática, voltada ao público infanto-juvenil, especialmente pré-adolescentes. 
 
Cultuada pela nostálgica geração que hoje usa a internet e redes sociais para compartilhar memórias de décadas anteriores, a coleção é sempre citada com especial carinho como um primeiro incentivo à leitura. Meninos – que geralmente são menos chegados aos livros do que as meninas – eram um alvo especial, com histórias de suspense com protagonistas masculinos, frequentemente adolescentes. Dentre os clássicos estão obras de Marcos Rey (como O mistério do Cinco Estrelas), Maria José Dupré (Éramos seis) e as primeiras obras de Marçal Aquino. 
Lúcia Machado de Almeida escreveu diversas obras  para a Vaga-lume, entre elas a série Xisto e O caso da borboleta Atíria. Mineira de uma família de escritores – inclusive tia de Maria Clara Machado - nasceu em 1910 e faleceu em 2005. 
 
O escaravelho do diabo (R$ 33,90) é um dos maiores sucessos da autora e da coleção, e está no pacote de relançamentos que a editora promete para agosto – agora com capas que brilham no escuro, em alusão ao seu inseto mascote. É uma trama de mistério detetivesco que faz jus a seu formato original de folhetim. Na fictícia  cidadezinha de Vista Alegre assassinatos são cometidos em série. As vítimas têm em comum o fato de serem todas ruivas e receberem pelo correio alguma espécie de besouro alguns dias antes, como um aviso. Após o assassinato de seu irmão, Alberto, um jovem estudante de medicina, passa a investigar os crimes em parceria com um inspetor de polícia. Encontram vários suspeitos na pousada de uma senhora irlandesa, ao mesmo tempo em que tentam proteger os últimos ruivos da cidade. Não falta a Alberto um interesse romântico: Verônica, uma bela pianista, que também parece ter algo a esconder. 
 
O argumento, ainda que longe de brilhante, é instigante. A ideia do assassino de ruivos é divertida. Porém a trama se desdobra da maneira mais protocolar possível, talvez procurando representar um protótipo de romance policial, para leitores bem iniciantes. Isso faz com que adultos que se encantaram pela obra na infância hoje possam se decepcionar bastante ao revisitá-la. Não há nada além de nostalgia para um leitor adulto que foi “formado” pelo livro. O caráter datado da obra até pode ser um charme, mas não deixa de, por vezes, soar ingênuo e bastante machista – temos ou as donzelas em perigo que desmaiam ou as interesseiras fúteis. Ainda assim, a maior questão parece ser se a obra ainda tem força para conquistar os joveníssimos leitores de hoje, que já têm à sua disposição tramas bem mais sofisticadas, de Paula Pimenta a J. K. Rowling. 
 
O escaravelho do diabo também está sendo adaptado para o cinema, dirigido por Carlos Milani, com estreia prometida ainda para este ano. Aproveitando-se as ideias originais do argumento e repaginando toda a história pode gerar uma boa diversão para as crianças. Não por acaso a idade do protagonista no filme foi alterada para se ter um herói juvenil.

8.16.2015

LITERATURA EXTREMA

Com os grandes, em Extrema.
 Acabo de voltar de Extrema, cidadezinha na divisa de São Paulo e Minas, onde aconteceu pela segunda vez um festival literário dos mais divertidos.

Ano passado, falando com leitores adolescentes de "Garotos Malditos".

Enquanto a maioria dos eventos literários tem motes "carinhosos" como "a literatura é uma viagem", "ler faz um mundo melhor" e "a leitura transforma o mundo", o festival de Extrema parece estar se consolidando em explorar o lado negro da força, que ao meu ver tem uma força transformadora ainda maior.

Dessa forma, a programação toda girou em torno da violência, desde o registro documental (com Ilana Casoy e Marcelo Resende - esse mesmo, do Cidade Alerta), até a ficção, com Raphael Montes, Marcelino Freire e Ana Paula Maia.

Eu mesmo estive lá, mas não estava lá. Participei ano passado de duas mesas (uma delas sobre literatura de horror) e este ano me convidaram novamente apenas para conferir as mesas. Eu sempre gosto de assistir, ver o que os outros autores têm a dizer, além de encontrar os amigos e estender nos bares e na noite, então foi ótimo.

Tietando Ilana Casoy. 

Estava especialmente curioso para encontrar Ilana Casoy, criminologista autora de alguns dos livros mais impactantes que já li (reportagens sobre crimes reais como o "Serial Killers Made in Brazil"). E pessoalmente ela é das pessoas mais queridas e divertidas - entramos pela noite bebendo e conversando.

Guido Palomba e Ilana Casoy mediados por Cadão Volpato. Só faltou o gel para o ringue. 

Mas a mesa dela com o lendário psiquiatra forense Guido Palomba não ficou para trás. Já começou com os dois discutindo inflamadamente sobre o caso "Marcelinho" (o menino carioca que supostamente matou os pais PMs e se suicidou) e seguiu para discussão de outros casos e métodos forenses, em discordâncias apaixonadas que deixaram a plateia fascinada e o mediador Cadão Volpato numa sinuca. Das mesas mais intensas que já vi.

(Terminada a mesa, Dr. Guido veio correndo falar com... Murilo, e se revelou fã e torcedor do Masterchef Brasil. Você vê o poder dos realities.)


Mutarelli e Beto Brant. 
Se as outras mesas não foram tão "intensas", foram mais literárias, com Reinaldo Moraes narrando suas "pornopopéias" (com acento), Beto Brant contando sobre adaptações literárias, Mutarelli sendo sempre tão Mutarelli. Lindo.

Irmãzinho Raphael e Reinaldo. 

O organizador, Marcelo Spomberg, faz todo mundo se sentir em casa, é de uma atenção e carinho ímpares e está aí criando algo muito especial. É um festival realmente diferente, já com uma identidade própria, que precisa continuar e crescer.

Ontem o povo entrou noite a dentro bebendo, Murilo ficou me representando, mas eu mesmo fui dormir cedo, que sou um escritor cansado de meia idade. 

Hoje com Marcelo e nosso motorista Rufo, piloto de Fórmula Truck, que é um personagem à parte.

Eu ainda terei eventos bem bacanas este ano, sendo o próximo também em Minas, na Fliaraxá, com Marçal Aquino. Acompanhe na aba "agenda" aqui do blog, que vou atualizando por lá.


Ana Paula Maia é das favoritas, sempre.

8.12.2015

NÓS

Resenhei o romance de David Nicholls na Folha deste sábado.

É preciso muita autoconfiança para lançar uma obra com um título tão genérico como "Nós" (publicada no Brasil pela Intrínseca em tradução literal). É ter certeza de que venderá apenas pelo nome do autor.David Nicholls, britânico de 48 anos, conquistou sucesso mundial com "Um dia", de 2009. O romance vendeu mais de 400 exemplares só no Brasil e ganhou adaptação para os cinemas, estrelada por Anne Hathaway.

Assim como o título, a trama de "Nós" é bastante genérica. Douglas, um bioquímico metódico, depara-se aos 54 anos com o desabamento dos alicerces que compõem sua vida familiar. O filho adolescente está saindo de casa para a faculdade, e a mulher quer se separar. Antes disso, planejam uma grande viagem pela Europa. Douglas terá a chance de reconquistar a mulher e oferecer ao filho uma rica bagagem cultural. O planejamento rigoroso do itinerário, feito pelo protagonista, é frustrado por brigas constantes dos três, que levam o garoto a viajar pelo continente por conta própria.
Seguindo pistas para descobrir o paradeiro do filho, Douglas cruza Alemanha, Itália e Espanha. A viagem é entremeada por lembranças do início do casamento, a conquista e a solidificação da família. Uma estrutura de capítulos curtos e texto objetivo, que tem se tornado uma tendência atual.

Não há nada de inédito ou espetacular, mas a visão aguda de Nicholls para os dramas cotidianos é o que torna o romance especialmente envolvente. O protagonista parece personificar o pai mais padrão possível, e seus atritos com o filho seguem esse tom. Acaba se tornando uma boa representação da "utopia da paternidade", com Douglas constatando que nunca terá com o filho a proximidade que esse tem com a mãe. Nesse ponto, o romance lembra "Precisamos Falar Sobre Kevin", de Lionel Shriver (também adaptado para o cinema), ao questionar as noções de "amor incondicional" de uma família, mas sem o mesmo peso e estranheza.

"Nós" se revela uma leitura prazerosa, mas totalmente esquecível. Romance de viagem tragicômico, sobre um protagonista em crise de meia-idade. Por sinal, o humor é um ponto positivo da obra, que foi preservado (se não "ressaltado") pela competente tradução.


NÓS

AUTOR David Nicholls

EDITORA Intrínseca

TRADUÇÃO Alexandre Raposo

QUANTO R$ 39,90 (384 págs.)

Avaliação: bom

8.10.2015

LÁ VEM A NOIVA

Jiang estava maravilhosa. 

Nossa querida amiga, vizinha e participante do Masterchef Jiang se casou com Ricardo, namorado de longa data, neste sábado num sítio em São Bernardo, 

Masterchefs e seus cônjuges.
Particularmente, acho cerimônias de casamento algo de gosto duvidoso, solenidade demais para algo que diz respeito a duas pessoas. Mas dentro do contexto foi uma festa de muito bom gosto, humor e despojamento, com ótimo almoço e serviço de buffet, tudo na medida certa. As trilhas de Star Wars, desenhos da Disney e até dos jogos de Super Mario na entrada de noivos e padrinhos deixaram claro que era um evento de orgulho geek, como tinha de ser. 

O enfeite do bolo: orgulho geek. 
Grande parte dos Masterchefs estava lá, e grande parte já é nossos amigos, então foi bem divertido, ainda que Murilo tenha passado a maior parte do tempo tirando fotos com os convidados, garçons, crianças e todo mundo que estava por lá. Faz parte do louco mundo dos realities - acho engraçado, até bonitinho, mas nessas horas agradeço ter uma carreira de reconhecimento restrito. Não aguentaria eu mesmo passar por isso todos os dias. Murilo é bem paciente e querido com os fãs que se aproximam. 

Com Marcos, só no papinho...
Nesses eventos é inevitável pensar também quando será o nosso... se haverá o nosso. Com um longo relacionamento estável é natural pensar em morar junto - e para mim isso já equivale a um casamento. Na minha família mesmo, sempre foi assim, então é esse o exemplo que tenho. Meus pais foram "casados" por dez anos, nunca no papel. Minha irmã segue pelo mesmo caminho, já com filha. Entendo e apoio a luta pelo casamento gay, mas não vejo necessidade de o estado reconhecer a minha união. Passa um pouco também pela minha visão individualista do ser - por mais que duas pessoas estejam juntas, acho que devem sempre manter um grau de individualidade. 

Murilo intimando...
Quanto ao casamento religioso, sou ateu. Então se fosse hétero também não me casaria. E se não fosse ateu... não seria eu. 

Felicidades aos noivos!