15/08/2018

ACONTECIMENTOS

Ilustração de Rogério Coelho. 

Neste final de semana estarei em Extrema, MG, no Flex, um festival literário sempre com muita gente bacana.

Grande time em 2016. 

Já estive lá duas vezes, com a curadoria original do querido Marcelo Spomberg, e agora volto para mediar mesas nos três dias, com Antônio Xerxenesky, Flávio Carneiro, Débora Garcia, Márcio Borges e Fernanda Young. O festival ainda terá Carola Saavedra, Luiz Ruffato e Antonio Torres, entre outros. Murilo também estará lá, coordenando a parte de gastronomia, com barraquinhas das escolas locais.

Programação completa aqui: https://www.flex2018.com.br

Conversando com leitores em 2015. 

Por enquanto é o ÚNICO evento que farei este ano fora de São Paulo. Talvez eu tenha esgotado com duas dúzias que fiz ano passado, talvez seja a crise pegando pesado, talvez já tenha passado minha época, eu tenha sido esquecido, desprezado, odiado, talvez tudo isso junto. Mas ao menos já tenho mais duas datas marcadas aqui mesmo na cidade, uma com Ivana Arruda Leite, em novembro, e outra com Marcos DeBrito, em outubro, (confira na aba "agenda", aqui do blog, que sempre atualizo por lá).

Há quinze dias, na Bienal.


Falando em DeBrito, estive com ele e Gabriel Tenyson há quinze dias, na Bienal, discutindo sobre literatura e cinema de horror e pós-horror, mediados por Antonio Sartini. Sempre é bom debater sobre o gênero - mesmo porque, eu consigo ser um outsider até nesse campo (meu destino é não pertencer); e se meu texto é reflexivo demais (ou "lento demais", "chato demais") para o terror convencional-comercial, agora tenho o pós-terror para chamar de meu.

No dia-a-dia, sigo com as traduções e na reta final de um novo romance, que seguirá uma linha mais histórica, e que ainda levará um tempo até a publicação.

Para os próximos meses tem meu primeiro livro infantil, um projetinho antigo com a Melhoramentos, que agora destravou. Deve sair ainda este ano. Será uma nova experiência, um novo público e uma nova parceria.

E que sobrevivamos a este ano funesto...Porque o próximo será pior.

25/07/2018

CINEMA NOVO

Do baixo augusta para o mundo. 


Ontem fui na pré-estreia do novo longa do Esmir Filho (do fantástico "Os Famosos e os Duendes da Morte") com Mariana Bastos. Temia que fosse uma comedia romântica indie, e começa um pouco nesse tom, mas o filme envereda por outros caminhos, encerra-se brilhantemente, e me despertou várias lembranças e reflexões.




A história segue um casal de amigos - ele (André Antunes), um garoto gay, e ela (Caroline Abras), a amiga louquinha - que começa no baixo augusta e se estende para Berlim. O longa foi filmado ao longo de doze anos (a la "Boyhood"), iniciando com um curta, que eu já tinha visto lá por 2006.

É um filme que diz muito sobre essa geração, a minha geração, e sobre essa camada paulistana, nossos percursos e nossa fase da vida.

Não por acaso, lá no começo dos 2000, conheci tantos, tantos desses novos cineastas - incluindo o Esmir, Daniel Ribeiro, Marco Dutra, Sergio Silva, Charly Braun, Juliana Rojas, Rafael Primot, Gustavo Vinagre, Felipe Sholl, Ismael Caneppele - literalmente nos cenários do filme, no baixo augusta. Nos botecos de esquina, no Vegas, n´Aloca, eu comemorava meus primeiros passos como autor e conferia os primeiros curtas deles, no Festival Mix Brasil, no Espaço Unibanco da Augusta.

Muitos de nós também seguiram para a Europa, para Berlim, e agora nos deparamos com a demolição da antiga vida de baladas, com novas responsabilidades, a vida ao redor dos 40, novas configurações de famílias e filhos.

Sintomático que, pouco antes de a sessão começar, encontrei o DJ Tutu Moraes (que na minha época era apenas Arthur), que trocou aquele "sumido, nunca mais te vi na noite, achei que estava morando na Europa", com o meu "já fui, já voltei, agora estou casado, não saio nunca." Daí o filme se desenrolou com essa história.

Acho lindo a rédea que os amigos estão tomando do cinema nacional. Tem muita coisa boa, novos temas, novos gêneros. Mereciam ser mais vistos, mas já é incrível que estejam conseguindo produzir tanto e tão bem. Dou aqui alguns dos meus favoritos:

O terror do Marco Dutra e da Juliana Rojas: 



O suspense polanskiano do Primot: 




O romance amoral do Sholl: 




Agora... se tenho uma crítica veemente a fazer para essa geração de cineastas é quanto a escolha dos "títulos. "Gata Velha Ainda Mia", "Trabalhar Cansa", "Os Famosos e os Duendes da Morte" e mesmo "Alguma Coisa Assim" são títulos de doer, que não condizem com o material e afastam o grande público.

Se não fossem meus amigos, eu não iria.


("Alguma Coisa Assim" estreia amanhã)

22/07/2018

LEIA QUEM QUISER

“Pode me dar uma opinião sobre um texto meu? É curto.”

Que pavor, que tensão, que responsabilidade terrível... Será que todo escritor passa por isso? Ler três, ou oitenta, ou duzentas páginas nunca é fácil . Sempre leva tempo. Sempre é um compromisso. Ao menos para mim. 

Não tenho fórmulas, não tenho respostas, mas preciso encontrá-las. É diferente de ler por lazer, por estudo, até por trabalho. Numa leitura crítica ou resenha para jornal, eu dou minhas impressões – numa leitura para um colega eu preciso dar soluções. Ou ao menos sugestões, isso nunca é fácil.

Acabo de ler um desses. Um belo livro de apenas 80 páginas. E foram dias para ler, reler, tentar entender a estrutura, pensar em alternativas, colocar isso em palavras. (E claro, sem receber nada). Quando o livro é bom, é uma responsabilidade – será que estou à altura de sugerir algo? Ajuda simplesmente elogiar? Quando o livro é ruim, coloca-se em jogo o respeito e amizade – “Quem ele é afinal para criticar?” Bem, sou a pessoa para quem você enviou o livro.

Já tive amizades abaladas por isso. Falei o que o autor não queria ouvir. Talvez ele só quisesse elogios. Provavelmente só queria que eu indicasse uma editora. Desconfio que muitos que me pedem leitura nem tem mesmo porque me respeitar, nunca nem leram nada que publiquei. Só sei que quando recebo aquela típica mensagem de “Primeiramente, gostaria de te parabenizar pelo seu livro...” já estremeço, “também escrevo”, suo frio, “gostaria de saber se poderia ler um conto /capítulo /romance que escrevi,” eu sangro...

(Geralmente já paro no "primeiramente". Pavor. Fica a dica: nunca comece com "primeiramente...")

Quando aceito, fico com aquele arquivo latejando no HD. Enquanto jogo videogame, vejo um filme bagaceiro, enquanto me masturbo, sinto que há um escritor iniciante sentado na minha sala de espera.

Como autor, eu mesmo nunca sei para quem mandar, nunca quero pedir, incomodar. Sempre me admiro com os "acknowledgements" dos autores que traduzo - com dúzias e dúzias de nomes de amigos, colegas, editores, agentes, que leram "incontáveis versões" dos manuscritos. Talvez seja porque lá fora tenha alguma grana para as publicações, para as leituras críticas. Por aqui, muitos dos meus livros nem tenho certeza se o EDITOR leu; não gosto de pedir nem para meu marido, para minha agente, para quem ENCOMENDOU o livro. Imagina se posso me dar ao luxo de ter várias leituras, de diversas versões em processo. Sempre sinto que estou incomodando. Quem afinal se importa com o que tenho a dizer?


03/07/2018

LEMBRANÇAS DA RÚSSIA


Rússia no filtro de 2011. 

O mundo só fala de futebol. E ainda me surpreendo que tantos escritores engrossem o coro. Na busca por uma voz, um universo, uma identidade literária, não deveríamos ter nossos temas exclusivos? Não. O escritor bem sucedido é aquele que fala o que todo mundo está falando, que escreve o que todo mundo quer ler, que gosta de futebol, de samba, de MPB; venera Machado, lê Chico Buarque, não tem nada de novo a dizer...

Quem faz diferente não faz diferença, já dizia eu em BIOFOBIA.

Então aqui estou eu, falando de futebol. Ou quase. Não assisti a jogo nenhum, não por protesto, apenas desinteresse. Na infância, adolescência, a gente ainda se obriga, assiste ao jogo para pertencer. Para mim, sempre foi um tédio. Hoje, sozinho aqui em casa, não tem mais por quê, não tem ninguém para deixar a TV ligada.

Mas ainda pego as rebarbas no jornal da noite, no feed dos amigos...

O que essa Copa despertou em mim foi saudades da bela Rússia, onde estive duas vezes, em outubro e dezembro de 2011, durante minha temporada na Finlândia.

O inverno de 2011 foi atípico na Rússia - demorou para começar. (nesta foto, em dezembro, estava cerca de 5 graus positivos, mas tirei o casaco para impressionar). 

São Petersburgo fica a apenas 3 horas de trem de Helsinque e é uma viagem bem curiosa. Segue-se por cenários bucólicos, nevados, casinhas no bosque, até sair da Finlândia. Daí o cenário muda completamente e parece que cruzamos vilas bombardeadas, casas em ruínas, anunciando que a vida por lá é mais dura.

O controle de passaporte é feito no próprio trem em movimento. Oficiais passam, verificam os documentos (uma vez reviraram minha mala) e carimbam. Se eu fosse recusado, não sei se me mandariam descer ou me colocariam num trem de volta...




A cidade é linda, com aquele ar imponente, cheia de monumentos, cortada por rios. Mais lindo ainda são os meninos  - o povo mais lindo que já vi no mundo! Todos com aqueles rostos angulosos, talhados, meio freaks... e eles te encaram. O povo anda na rua olhando feio; não se sabe se querem te matar ou te comer...



Em 2011, quando estive lá, ainda não tinha passado a lei "antipropaganda gay", que proibe qualquer manifestação LGBT em público. Então ainda havia boates gays bem divertidas. Uma delas era o Cabaré, que fazia jus ao nome: tinha pista de dança, karaokê, e shows de drag a noite toda; assisti inclusive a uma performance de "Tico-tico no Fubá" em Russo.

Na boate gay. 

Outra boate em que fui era a Central Station, com garçons (incríiiiiiiiveis) só de sunguinha e gravata borboleta, e também tinha shows e karaokê. Isso era uma coisa bem bacana das boates de lá, tinha muita coisa para fazer... Por sinal fiquei horas só vendo os meninos no karaokê, todos cantando hits locais, com aquele vozeirão típico, nenhuma música em inglês.

Na época eu estava solteiro, e fui feliz por lá... Não deixei de conferir por exemplo o Grindr - ainda no início dos aplicativos gays, ele chegava aos meninos da Rússia mesmo de Helsinque, em horários de pouco movimento. Em São Petersburgo, marquei de encontrar um menino que parecia bem simpático, embora não me apetecesse, trabalhava na ópera e se ofereceu a me mostrar um pouco da cidade.

A única foto que tenho do menino. 


Fomos jantar num restaurante típico, pedimos vodca e veio uma GARRAFA de vodca, que tomamos pura, gelada, em shots.

No final da noite ele já não estava tão gentil e tive literalmente de fugir para ele não abusar de minha pureza...


Mas comi bem em São Petersburgo, as delícias típicas como blinis e ovas, pato com sorvete de trufas, e o straganoff que, apesar do que falam, achei idêntico ao nosso estrogonofe, só que servido com purê de batatas em vez de arroz e palha.

Caminhei muito pelas ruas, as longas avenidas, fui ao Hermitage, um museu absurdo de grande, que mistura arte, história e antropologia; fui também num museu meio freakshow, com fetos de sereia, bezerros de duas cabeças... E na segunda vez que estive lá foi para assistir ao show do Suede, numa casa de shows que me deixou bem próximo do palco.

Suede no Glavclub, 16 de dezembro de 2011. 

As lembranças que ficaram são as melhores - embora o povo não seja exatamente simpático e ninguém fale inglês. Nunca vou me esquecer da segunda vez que cheguei na cidade, que atravessei uma ponte a pé, a caminho do hotel, e dei com um pelotão de dezenas e dezenas de soldadinhos russos, nos seus 18, 19 anos, todos maravilhosos, todos me encarando feio...

A Armênia e sua herança soviética, na vista do meu hotel (2015). 

Desde 2011, não voltei mais, embora tenha passado perto na viagem para a Armênia (em 2015), terra dos meus antepassados, que também tem muito da cultura russa-soviética. Acho que hoje a experiência não seria tão divertida, com a homofobia cada vez mais institucionalizada por lá.

De toda forma, agora que todo mundo está indo, também não tem mais graça...




13/06/2018

AS LIVRARIAS DA VIDA

Na Biblioteca de Adamantina, ano passado. 


Nos últimos anos rodei por um circuito de bibliotecas públicas de São Paulo, do interior e do Paraná, em programas de aproximar escritores e comunidade (principalmente estudantes), estimular o hábito da leitura e desmitificar a literatura como algo aburrido e distante.

Espero que eu tenha cumprido minha parte.

Esse encontro com as bibliotecas não foi um “reencontro”, foi uma experiência nova, em cenários novos, onde passei algumas horas conversando com bibliotecárias nos bastidores, passeando por acervos muitas vezes constrangedores, vez ou outra surpreendentes, entendendo como funcionavam aqueles espaços.

Nunca frequentei bibliotecas. Nascido e criado na capital, filho de pais leitores, os livros para mim sempre estiveram ao alcance, da livraria para a casa. Na infância, visitar livrarias era um programa rotineiro, para escolher livros – de contos dos irmãos Grimm a Ruth Rocha, Eva Funari e livros de ciências sobre animais (principalmente répteis, eu era um geek nesse sentido). São Paulo era bem melhor em livrarias – livrarias pequenas, de bairro, que faziam toda a diferença pelos livreiros.

As livrarias dividiam essa função com as bibliotecas - incentivar o hábito de leitura, para quem podia pagar - assim como eram um ponto de encontro de escritores e intelectuais. O ponto de encontro talvez se mantenha em menor medida, em algumas, como a Vila da Fradique ou em sebos para um público específico. (O Clepsidra, por exemplo, na Cesário Mota Júnior é imbatível em literatura gótica. Também me lembro com saudades dos longos papos que eu tinha com o Evandro Affonso Ferreira em seu Sebo Avalovara - em que ele só vendia literatura e mandava embora quem vinha pedir Dan Brown).


O ótimo papo que tive ano passado, com o amigo de longa data, Cid Vale, no Sebo Clepsidra. 

Minha mãe trabalhou muito tempo em livraria. Desde a Argumento (que era de meu tio-avô, Fernando Gasparian, também editor da Paz e Terra), passando pela Vila e a “lendária” Antes do Baile Verde, na Gabriel Monteiro da Silva. Ela ocupou cargos diversos de vendedora, compradora, gerente, mas nunca foi dona. Semana passada me falava como esse era um grande sonho não-realizado:

“Sempre sonho com a possibilidade de a gente pegar um nicho de pessoas que gostam mesmo de ler, que odeiam as grandes redes, que não se sentem bem com a falta de livreiros. Uma coisa pequena, sem livros de arte, só literatura e infantil. Talvez cozinha, porque hoje cozinha vende. Menor que a Blooks. Eu acredito que as livrarias grandes estão quebrando porque todo mundo se perde lá dentro, não existem livreiros, e livro muitas vezes inibe. Além de não ser barato. "

Eu mesmo já trabalhei em livraria. Aos dezenove anos fui vendedor por um curto período na Vila (da Fradique), depois o dono me convidou para trabalhar no projeto e lançamento da primeira livraria gay do Brasil – a Livraria do Meio, na Oscar Freire, que durou pouco tempo e se transformou na Futuro Infinito.

Hoje tenho uma visão menos esperançosa do que minha mãe. Se as grandes quebram porque o povo se perde, as pequenas não conseguem concorrer nos descontos, no volume, com as vendas online. Sugeri a ela que talvez pudesse funcionar sendo mais um café com livros – mais café do que livraria – um lugar bacana para ser esse ponto de encontro, fazer lançamentos todas as noites, porque São Paulo não tem um lugar gostoso para fazer lançamentos, onde as pessoas possam se sentar, conversar, tomar algo. Em livraria é aquela coisa fria e transitória, ou então o povo faz em bar, em muquifo no centro...

“Não quero um café que funcione mais do que uma livraria. Além disso, lançamento todo dia é ceder para lançar porcarias, o que não seria a minha ideia”, disse dona Elisa.

Com André Fischer e os queridos do Põe na Roda, na Fnac, ainda ano passado. 

Esses dias a Livraria Cultura, que agora comanda as operações da Fnac no Brasil, anunciou o fechamento da Fnac de Pinheiro, a primeira loja da rede do país, ocupando o lugar do antigo Shopping Ática (que era quase todo só de livros, e no qual minha mãe foi gerente de literatura). Há muito que aquela loja andava capenga – mas curiosamente, foi a única livraria em que fiz uma mesa ano passado (com André Fischer), ainda recebendo cachê, talvez numa tentativa da rede de conseguir uma sobrevida.

Acho que ajudei a enterrar o lugar...


Responda rápido: Cultura ou Mercado?

O que resta de livrarias em São Paulo é deprimente – biboquinhas vendendo papelaria ou grandes redes com brinquedos, eletrodomésticos, rodas tomadas por livros de youtubbers e de minecraft. E infelizmente é uma realidade mundial. Se ainda podemos nos impressionar visitando as livrarias de Buenos Aires, Paris, Londres e Nova York, não se pode comparar com o que essas cidades tinham no passado.

Mas, se as livrarias, se os os livros estão ameaçados, tento manter o otimismo em relação aos escritores. Como produtores de conteúdo, talvez consigamos sobreviver com as palestras, os roteiros. O mercado das séries só cresce – o de games também. De uma forma ou de outra, se não nos prendermos a um único formato, um formato falido, o livro, talvez sobrevivamos como contadores de histórias. Mas tá difícil. Tá bem difícil.

06/06/2018

CRÍTICA NEGATIVA

Publiquei ontem na Folha mais uma crítica negativa, de mais um romance de "mulher alcoólatra de meia idade abandonada pelo marido", aparentemente uma onda atual.

Ronaldo Bressane comentou abrindo uma discussão interessante, questionando por que se perdia tempo com crítica negativa, com livro que "não merecia espaço".

"O que eu não entendo mesmo é por que motivo você resenhou de novo mais um livro ruim. não tem realmente nenhum lançamento bom para você nos apresentar? Não vejo o menor sentido em dar espaço pra livro merda. mesmo que se fale mal, está ocupando espaço que poderia ser dado para uma obra relevante."

Obviamente que a resenha em questão foi uma encomenda; a Folha me enviou, eu li e registrei minhas impressões sinceras. E crítica tem de ser assim mesmo. Não faria sentido eu só poder elogiar, ou o texto apenas ser publicado se a crítica fosse positiva. É um trabalho, pelo qual estou recebendo.

A crítica negativa também tem sua função. Esse, no caso, é um livro campeão de vendas, traduzido para diversas línguas, está sendo adaptado para o cinema, tem sua relevância para ser resenhado - nem que seja para observar uma tendência atual.

Como autor, prefiro uma resenha negativa a não sair nada. Muitas vezes a gente fica com uma impressão equivocada da própria obra por causa disso - todo mundo só fala bem, não porque o livro é uma unanimidade, mas porque quem não gostou fica quieto.

Nas vezes em que eu proponho para o jornal, ou coloco aqui no blog ou no Facebook, foco em livros que gostei. E não se pode dizer que deixo de apresentar novos talentos: Ana Paula Maia, Raphael Montes, Hugo Guimarães, Fernando de Abreu Barreto, Kiko Rieser, Mauro Nunes, Victoria Saramago, Daniel Lisboa e Gabriel Spits são alguns dos nomes de quem eu fui o primeiro a falar, seja aqui no blog, na Folha, no Facebook ou assinando orelha.

Anos atrás, num texto para o Suplemento Pernambuco, discorri um pouco sobre isso, sobre a importância da crítica, com depoimentos de autores como Andrea del Fuego, Evandro Affonso Ferreira, Veronica Stigger e Paula Fábrio.

“Já não há muito espaço. Por que ocupar com resenha negativa?” - disse Veronica Stigger

“Na hora [em que se lê a resenha negativa] a dor é física. Mas depois eu prefiro [a não sair nada]. Gera uma discussão sobre o livro.” - disse Del Fuego

O texto integral pode ser lido aqui: 

http://www.suplementopernambuco.com.br/edi%C3%A7%C3%B5es-anteriores/85-cronica/1427-a-quem-interessa-a-cr%C3%ADtica-liter%C3%A1ria.html

Segue então a crítica de ontem na Folha:

Abandonada pelo marido, uma mulher alcoólatra e solitária cria uma obsessão pela vizinha, que vive um relacionamento abusivo. Temos aqui as linhas gerais de A Mulher na Janela, mais um “romance de sororidade”, com premissa idêntica a sucessos como A Garota do trem, de Paula Hawkins, e A Mulher entre nós, de Greer Hendricks e Sarah Pekkanen (que resenhei há poucas semanas para a Folha). Desta vez a autoria é de um homem, A. J. Finn, pseudônimo do editor americano Daniel Mallory, que teve um sucesso instantâneo com essa sua primeira obra, primeiro lugar na lista do The New York Times, vendida para quase quarenta países e direitos para cinema adquiridos pela 20th Century Fox.
Em A Mulher na Janela a protagonista é Anna Fox, um psicóloga de meia idade, que desenvolveu agorafobia  (pavor de espaços abertos) depois de um acidente de carro. Trancada em sua enorme casa no Harlem, ela passa os dias espiando os vizinhos pela janela, misturando medicamentos tarja preta com vinho, até que testemunha uma agressão – ou um possível assassinato – de sua vizinha na casa logo em frente. Obviamente, ninguém acreditará no que ela viu.
Composto por cem capítulos curtos, em parágrafos também curtos e objetivos, o romance parece ter sido feito de encomenda para o cinema, incluindo dezenas de referência a filmes noir, favoritos da protagonista, que ditam muito do estilo da narrativa (sendo Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock, uma das referências mais óbvias). Em termos literários, é uma nulidade, não comunicando nada além da trama, não trazendo nenhuma reflexão mais densa ou inovação no estilo.
Se nada se extrai do texto, a elegância da prosa e a sofisticação do universo narrativo afastam um possível tom cafona, tão comum em literatura de massa; é uma leitura bastante fácil, prazerosa, que não ofende a inteligência. Entretanto, a revelação final do livro, em longos diálogos expositivos (em meio a uma tempestade de relâmpagos, para piorar), é preguiçosa e decepcionante, fechando o livro em baixa. A impressão que fica é de um roteiro mal acabado. Melhor esperar pelo filme.
Avaliação: Regular

15/05/2018

TREVOSA ENTREVISTA



O Arte 1 exibiu há algumas semanas a entrevista que dei ano passado para o Manuel da Costa Pinto. Conversar com o Manuel é sempre um prazer - uma pessoa que conhece bem minha obra e respeita meu universo. Falamos bem sobre Neve Negra, BIOFOBIA e Mastigando Humanos. Dá para ver na íntegra nesses dois links.

https://tvuol.uol.com.br/video/arte1-comtexto-com-santiago-nazarian--bloco-2-04024E983770C8A16326

23/04/2018

A MULHER ENTRE NÓS

Assinei resenha este fim de semana na Folha:

A MULHER ENTRE NÓS

· Preço R$ 34,90 (352 págs.)

· Autor Greer Hendricks e Sarah Pekkanen

· Editora Paralela

· Tradução Alexandre Boide

Largada pelo marido por uma mulher mais nova, alcoólatra de meia idade revê sua responsabilidade no fim do relacionamento e avalia o caráter abusivo do ex. Se a sinopse de "A Mulher Entre Nós" soa familiar, não é apenas por seu caráter genérico: é idêntica à do best-seller "A Garota no Trem", de Paula Hawkins.

Na obra de Sarah Pekkanen e Greer Hendricks, segue-se a onda do romance de sororidade, atualização com pitadas feministas de novelões à la Sidney Sheldon, nos quais mulheres pobres vencem na vida e se vingam dos homens que as maltrataram no passado.

Aqui, a mulher é Vanessa, professora da Flórida que foi casada com Richard, um príncipe do mercado financeiro de Nova York, que tem muito de controlador e manipulador.

O texto traz suas surpresas —a primeira no terço inicial, levando o leitor a rever o que tinha lido—, que seguem até o epílogo. Mas, apesar dos truques, a trama não traz nada de muito impactante, pois em seu cerne o livro trata dos dramas de uma menina rica.

Se um bom romance expande nosso universo, oferecendo um vislumbre de outras profissões e culturas, neste só deslizamos por nomes de grifes, de restaurantes e rótulos de vinho —mesmo as poucas observações sobre música clássica, para demonstrar a erudição do marido, são rasas. É um universo de dondoquice tremenda.

De positivo, o texto é bastante coeso, mesmo se escrito a quatro mãos, e oferece uma leitura instigante, principalmente pelos ganchos deixados no final de cada capítulo:  “Ela não faz ideia do que vai acontecer” ; “estou energizada pela perspectiva do que vou fazer”; “só havia um jeito de me livrar de meu marido”. 

No fim, pode ser um bom passatempo para donas de casa entediadas, mas a frase na quarta capa não ajuda: "Prepare-se para a leitura de sua vida." Menos, né? Bem menos.

19/02/2018

PÉROLAS ENTRE AS PILHAS




No final dos anos 60, quatro irmãos entre oito e treze anos visitam uma cartomante que é capaz de dar a data de sua morte. Após previsões não muito agradáveis, cada um seguirá um rumo na vida, com o fantasma da data fatídica se aproximando.

Esta é a genial premissa de “The Immortalists”, segundo romance da americana Chloe Benjamin, que acabou de ser lançado lá fora e acabei de traduzir para a Harper Collins (sai em breve). Foi minha “tradução de férias” e uma aula de literatura – como as melhores traduções são. Tem aquela estrutura de romanção americano, um excesso de atenção aos detalhes e as descrições (que eu particularmente não gosto – não me interessa saber a cor do sapato do personagem, o tipo do tecido do sofá em que ele se senta), uma pesquisa muito bem fundamentada e, acima de tudo, uma alma.

O romance de Benjamin é dividido em quatro partes, uma para o destino de cada irmão, cada uma com um universo totalmente diferente – num domínio impressionante de temas diversos. O primeiro dos irmãos, por exemplo, é homossexual e se muda para São Francisco no final dos anos 70 (então já dá para imaginar do que ele irá morrer). O retrato da época, com a liberdade sexual desenfreada, o assassinato de Harvey Milk, e o surgimento do “câncer gay” é incrível, e é apenas um quarto do livro, que ainda traz grandes surpresas.

É como eu digo, a vida fica muito mais fácil quando traduzo um bom livro. Mas é raro. Já são mais de SESSENTA livros traduzidos, muita merda, muito livro vagabundo, descartável, mal escrito. Trabalho é trabalho e aceito o que vem. (Obviamente não apontaria de quais títulos não gosto, não seria ético. Mas é a grande maioria.)

Frustrante é ver como se paga cada vez pior por traduções. Algumas editoras congelaram o mesmo valor por lauda de cinco anos atrás, algumas BAIXARAM o valor. Quem vive de frila não pode fazer greve – os boletos chegam com uma pontualidade que nunca temos nos pagamentos – então é aquele equilíbrio para tentar fazer mais em menos tempo, e ainda fazer um trabalho decente.

De vez em quando, como em “The Immortalists”, o trabalho compensa.

Prefiro então lembrar dos grandes livros que traduzi. Também preciso ter auto crítica e assumir que cometi diversas barbeiragens, principalmente no início de carreira – para sobreviver, peguei coisas além da minha capacidade, mas também foi assim que fui aprendendo e me aprimorando como tradutor. Tenho medo de ler coisas que traduzi dez, quinze anos atrás...

Vamos lá então com minhas dez traduções favoritas, que já foram publicadas (não necessariamente meus dez melhores trabalhos como tradutor), em ordem cronológica:


MALDITO CORAÇÃO – J.T. LeRoy (Geração Editorial, 2006): Já contei dezenas de vezes aqui. São as memórias de um michê adolescente, um garoto andrógino total vidaloka – que depois se descobriu ser tudo ficção, escrito por uma mulher bem mais velha. Foi dos trabalhos que mais me envolvi pessoalmente – conheci o “autor” que interpretava o personagem, depois conheci a verdadeira autora; até hoje mantemos contato. Acho uma história fantástica, tanto a do livro quanto a trama por trás.

A VIDA SECRETA DOS APAIXONADOS – Simon Van Booy (Saraiva, 2009): Traduzi dois livros de contos dele para a Saraiva – não me lembro exatamente de qual gosto mais, ambos são delicados, emotivos, sem serem piegas, um equilíbrio difícil de conseguir. “Minha esposa é surda. Um dia ela me perguntou se a neve faz algum barulho quando cai e eu menti”, é uma passagem bem bonita, que destaquei na orelha e que dá bem o tom do autor. Ele merecia ser mais conhecido por aqui.

HATER – David Moody (Saraiva, 2009): Do início daquela onda de livros de zumbis. Neste a epidemia se dá por um ódio irracional que vai surgindo em indivíduos espalhados por uma cidade da Inglaterra. É bem divertido. Cheguei a traduzir a sequência – mas não sei se chegou a sair.  

A GAROTA DOS PÉS DE VIDRO – Ali Shaw (Leya, 2010): Como eu amo este livro. Outro que é muito delicado e emotivo, sem ser piegas – um romance romântico de fantasia, de um fotógrafo que se apaixona por uma garota que tem o corpo pouco a pouco se transformando em vidro. Ele vai em busca da cura para ela, numa ilha tomada de pântanos e animais fantásticos. Daria um filme foda.

O MÁGICO DE OZ – Frank L. Baum (Leya, 2010): Foi bem bacana pegar esse clássico para traduzir. É um texto bem infantil, então busquei fazer uma versão delicada, como se contasse a história para uma criança.

A NOIVA DO TIGRE – Tea Obrecht (Leya, 2011): Ao receber a notícia da morte do avô, uma jovem médica se lembra das histórias fantásticas contadas por ele – como a época durante a Segunda Guerra em que seu vilarejo ficou isolado pela neve, e assombrado por um tigre. Tem algo de "Peixe Grande", com um texto bem literário. Ganhou o Orange em 2011. E tivemos crítica positiva até do Alcir Pécora.

OLHAR MORTAL – Fergus McNeil (Nacional, 2014): Thrillerzão bem divertido. Um assassino que deixa uma pista de sua vítima anterior na próxima, ligando assim os crimes. Contado do ponto de vista do assassino e do investigador, é muito bem arquitetado.

VIDAS REINVENTADAS – Boris Fishman (Rocco, 2014): Um jovem jornalista neto de imigrantes russos usa seu talento como contador de histórias, criando passados falsos para membros da comunidade judaica, que buscam indenizações do governo alemão pelas atrocidades da Segunda Guerra. Foi uma tradução difícil, mas é outro dos que adoro.

FRANKENSTEIN – Mary Shelley (Zahar, 2017): Outro clássico bacana de fazer, não só pela tradução, mas por toda a pesquisa que me exigiu para a apresentação e notas, também minhas. Trabalho difícil, editora rigorosa – literalmente na véspera de Natal estavam pedindo para eu pesquisar territórios do império turco no inicio do século XIX - mas que pagou de acordo.

TERÇAS À NOITE EM 1980 – Molly Prentiss (Rocco, 2017): Um belo retrato da cena de artes plásticas de Nova York, no começo dos anos 80, mostrado através de um crítico de arte, um artista plástico argentino e uma jovem caipira. Tem algo a ver com "The Immortalists", talvez a tendência literária atual de jovens escritoras norte-americanas. Mas é uma boa tendência. 

Segue a lista completa das traduções
(tem uma meia dúzia ainda a ser publicada ou que nunca saiu, que não coloquei aí):

- Metrossexual, Guia de estilo - Michael Flocker (Planeta)
- Quando Eu Era o Tal - Sam Kashner (Planeta)
- Fan Tan - Marlon Brandon, Donald Cammel (Nova Fronteira)
- Maldito Coração - J.T. Leroy (Geração Editorial)
- Alguma Coisa Invisível - Siobhan Parkinson (Nova Fronteira)
- O Violino Voador - Siobhan Parkinson (Nova Fronteira)
- Este Livro Vai Salvar Sua vida - A. M. Homes (Nova Fronteira)
- Os Filhos do Imperador - Claire Messud (Nova Fronteira)
- Pão de Mel - Rachel Cohn (Record)
- Siri - Rachel Cohn (Record)
- O Sonâmbulo - Jonathan Barnes (Mercuryo)
-Moby Dick/Oliver Twist/ Raptado/ O Corcunda de Notre Dame/ Viagem ao Centro da Terra (série de quadrinhos para a Ibep)
- Dizem que Sou Louco - George Haar (Ática)
- Cacos de Vida - Sally Grindley (Ática)
- A Vida Secreta dos Apaixonados - Simon Van Booy (Saraiva/Arx)
- Príncipe de Histórias, Os Vários Mundos de Neil Gaiman - (Geração Editorial)
- Você Sabe Onde me Achar - Rachel Cohn (Record)
- O Amor Começa no Inverno - Simon Van Booy (Saraiva/Arx)
- Hater - David Moody (Saraiva/Arx)
- Noturno de Havana - T. J. English (Cultrix)
- Emily, a Estranha - (anônimo) (Record)
- Bowie - Uma Biografia (Saraiva/Arx)
- A Garota dos Pés de Vidro - Ali Shaw (Leya)
- O Mágico de Oz - Frank L. Baum (Leya)
- A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça - Washington Irving (Leya)
- O Ladrão de Crianças - Brom (Saraiva/Arx)
- A Noiva do Tigre - Tea Obrecht  (Leya)
- Ladrão de Almas - Jana Oliver (Farol)
- A Filha do Caçador de Demônios - Jana Oliver (Farol)
- Quentin Tarantino - Paul A. Woods (Leya)
- Aurora - Julie Bertagna (Farol)
- Condenada - Chuck Palahniuk (Leya)
- Academia Knightley - Violet Haberdasher (ID)
- Guia de Estilo Squire (Ibep)
- O Príncipe Desencantado - Tony Ross (Record)
- Magra Para Sempre - Jilliam Michaels (Nacional)
- Guia para Dona de Casas Desesperadas - Caroline Jones (Nacional)
- O Teste - Joelle Charboneau (Gente)
- Emily the Strange - Os Dias Perdidos (Record)
- Olhar Mortal - Fergus McNeil (Nacional)
- Os Escolhidos de Gaia - Marcela Mariz (Autêntica)
- O Universo Contra Alex Woods - Gavin Extence (Rocco)
- Dark House - Karina Halle (Gente)
- O Amor em Jogo - Simone Elkeles (Globo)
- Maldita - Chuck Palahniuk (Leya)
- O Misterioso Lar Cavendish - Claire Legrand (Autêntica)
- Para Onde Ela Foi - Gayle Forman (Globo)
- Os Filhos de Odin - Padraic Colum (Gente)
- A Torre - Daniel O Malley (Leya)
- Meu Romeu - Leisa Rayven (Globo)
- Os Dois Mundos de Astrid Jones - A.S. King (Autentica)
- Vidas Reinventadas - Boris Fishman (Rocco)
- Otto, Etta, Russel e James - Emma Hooper (Rocco)
- Os Marvels - Brian Selznick (SM)
- A Busca Sofrida de Martha Perdida - Caroline Wallace (Rocco)
- Frankenstein – Mary Shelley (Zahar)
- Noites de Terça em 1980 – (Rocco)

06/02/2018

MEIO DESLIGADO

Trilhas

Há dois meses morando (novamente) na praia, desligado de tudo, reflito sobre meu lugar no mundo...




Estou com acesso restrito à internet, sem wifi aqui na casa, sem celular – no fim da bateria, carrega no máximo 10% e morre - é um IPhone já com mais de seis anos, afinal, nunca deu problema, talvez porque eu use tão pouco... (Se tiver um leitor-amigo rico, aceito um novo.)

Ainda assim, por enquanto tenho conseguido fazer tudo por aqui, mas devo ir para São Paulo depois do carnaval. Dependendo do trabalho fico por lá, dependendo, volto para a praia...

Minha rotina tem sido traduzir, escrever, ler, jogar o PSP, mais ou menos nessa ordem cronológica do dia, nem sempre nessa ordem de importância. Sento-me numa mesa de frente para o jardim onde consigo ver a coelha correr, os passarinhos se alimentarem, e faço o trabalho do dia. Dia desses vi uma cobra. Pequena, filhote, não-peçonhenta, permanece em algum lugar do jardim. Ainda não interagiu com a coelha. Mais preocupado fiquei uma manhã que acordei com barulhos na churrasqueira e havia uma ÁGUIA de tamanho suficiente para levar a coelha embora. Os gambás também fazem visitas frequentes.

Minhas leituras têm rodado quase que exclusivamente em torno da pesquisa do livro novo, então não vou comentar por enquanto. Encaixei no meio o Nutshell, do Ian McEwan, que estava na prateleiras há tempos – uma besteira muito bem escrita.  E um par de romances de amigos, que deixaram a desejar, então também não comentarei...

Sobre os games, sou oldschool.  Superei meu vício no Monster Hunter, agora sigo com a série “Ghosts n’ Goblins” – com emuladores, dá para jogar praticamente todos no PSP. Têm aquela dificuldade insana, e fico com remorso de pensar quanto devo ter gasto na infância, jogando “Ghosts n’ Goblins” no “fliperama”. (Aliás, me fez pensar também em como fliperamas eram – ou são – jogos de azar. Não sei porque escapam da proibição dos caça-níqueis.)

Murilo chega toda noite-madrugada com filmes que baixou do hotel. Assim temos visto os comentados da temporada – e eu tenho visto mais A-list de Hollywood do que de costume. Comento ligeiramente sobre os filmes no Facebook, que acabou assumindo essa função que tinha o blog, o blog perdeu a maior parte de suas funções (quem me visita exclusivamente aqui além de minha mãe?)

Curioso um post da Tatiana Salem Levy há algumas semanas, sobre isso de filmes, que ela não sabia/ não queria baixar, e perguntava quais eram as opções além de Netflix, para filmes mais antigos e tais. Bem, os filmes foram feitos para não se ter opção, né? Você via no cinema e depois nunca mais, de repente só numa mostra ou outra. O VHS inaugurou o conceito de rever seguidamente e o DVD criou o conceito de TER os filmes – agora com o streaming está tudo mais volátil. Seria curioso entender como isso alterou a maneira de se FAZER cinema, os roteiros, a estrutura em si. Sou daqueles que gosta de rever, de ter – o primeiro contato com o filme pode ser o mais prazeroso, mas é revendo que se entende como a história foi contada, a estrutura, que se aprende mais sobre cinema e storitelling em geralBem, mas talvez os filmes devessem apenas passar e sumir, como as peças de teatro, os livros...

Eu ainda estou vivo. Estou produzindo. Publico regularmente. Me interessa mais que leiam meus novos livros. Mas sempre me perguntam onde encontram aqueles que estão esgotados, que ficaram anos encalhados. Daí só resta os sebos. Penso se não deveria ser assim mesmo. Será que o livro, como os filmes, como as peças, não deveria ter seu tempo e depois só para os colecionadores? Embora a (boa) literatura devesse ser eterna, não é possível manter todos os livros de todos os autores em catálogo. De repente o livro digital é um meio termo. De repente a impressão por demanda...

Por sinal, o novo romance está se encaminhando, agora já peguei aquele ritmo de ao menos uma página por dia, já estou fazendo com prazer; deve levar ainda alguns anos, mas os últimos meses têm sido ótimos para isso.

Tem sido ótimo também para os churrascos. Sei que é um clichê de tiozão, mas já vivi lindamente a fase gatinho de praia aos 32-33 em Floripa, agora a fase é outra. Até tenho experimentado diversas carnes e técnicas, mas o principal é esse processo primitivo. Sentado aqui no jardim, escrevendo, acendo a churrasqueira nem que seja para grelhar um hambúrguer. E me decepciona o quanto agora o carvão acende rápido, quão rápido a comida fica pronta. O melhor de tudo é o ritual, o fogo acendendo, a brasa queimando....

Meu talento para churrasqueiro é tal que dia desses consegui convencer uma vaca que pastava aqui do lado a me acompanhar. Acendi a churrasqueira e a fui conduzindo: “Agora a pata direita. Agora a pata esquerda. Agora os glúteos...” (Que Marcelo Maluf não leia isso.)

Para queimar (de leve) os churrascos, temos um instrutor de funcional três vezes por semana. No painel de horários dele estão marcados os grupos: “highlanders”, “ladies”, “monsters”, freaks” – não precisa perguntar em que grupo estamos. Completamos os treinos semanalmente com trilhas para praias próximas ou cachoeiras. E dia desses fizemos uma aula de crossfit, que talvez seja uma nova opção. De toda forma, não espero mais um corpo perfeito, só não quero morrer antes dos 46.  Mas se não der também, tô de boas...

De boa. 

08/01/2018

DONA DE CASA LITERÁRIA

Virada: ele de doma, eu de trevoso. 

 Há meses tenho pesquisado um tema importante, histórico, para meu próximo romance. Tenho lido pilhas de livros, rascunhado capítulos, mas ainda não encontrei uma trama redonda, o personagem perfeito, uma voz viva.

Para que, né? Deveria apenas assumir minhas incapacidades, escrever sobre essa busca em si e minha relação com o tema, que o romance contemporâneo de respeito não é feito assim?

Ironias à parte, acho essa uma discussão bem válida, que eu gostaria de estender para as mesas, para as entrevistas, mas as perguntas que chegam a mim acabam sendo sempre as mesmas: uma longa apresentação de currículo e de influências. 

Julián Fuks, por exemplo, é um autor que respeito, estimo e admiro, com quem vira e mexe discuto (e discordo) sobre essa questão, em posts ou mesas de restaurante, e com quem gostaria de me aprofundar publicamente. Recentemente, comentando um post meu, ele defendeu a necessidade do romance se aproximar o máximo possível do real; para ele, isso faz parte do engajamento da boa literatura. Já eu, sou eterno defensor da diferença, que ainda vê a literatura como uma resistência a qualquer tendência ou corrente vigentes, mesmo tendências ou correntes literárias. Bem, deve ser por isso que ele tem um Prêmio Saramago e eu nunca apareço em nenhuma seleção de respeito, hum? Ou é simples falta de talento?

“Não tenho talento, mas tenho marido” - tem sido meu mote. Estou aqui em Maresias há mais de um mês, morando na bela casa que Murilo alugou. Nesse período de entressafra literária, final-começo de ano, quando não acontece evento nenhum, onde não aparece muito trabalho, ele está em alta temporada comandando o restaurante, num ritmo de trabalho que nenhum escritor jamais terá. Não tem como eu ajuda-lo – até porque ele é chef  do restaurante, mas funcionário do hotel, não é dono. Eu cuido da casa, da coelha, leio e escrevo, e felizmente também estou com a tradução de um romance foda para a Harper Collins. Coisa rara. A vida fica muito mais fácil quando traduzo um livro bom. (Valeu por mais essa, Mariana Rolier)

Família. 

Meu talento para dona de casa se estende à cozinha (ok, talvez eu devesse dizer que meu talento se restringe à cozinha). Então aqui em casa basicamente quem cozinha sou eu. Natal mesmo, cozinhei peru, farofa de miúdos, cuscuz marroquino, esperando sozinho Murilo para a ceia, que aconteceu depois da uma da manhã, quando ele chegou cansado do restaurante. Sem modéstia digo que minha comida favorita é a minha e a dele (embora não façamos meu prato favorito: sushi). Também nunca tive comida de família. Na minha casa de infância quem cozinhava eram as empregadas. Minha mãe dia desses disse uma frase sensacional: “Sua avó não sabe nem tirar uma maçã da geladeira.”

No reveillon, recebemos meu querido amigo Luis Fernando Scutari com o namorado, e o sol se abriu um pouco para eu torrar. Não recebemos muita gente aqui. Primeiro porque temos pouquíssimos amigos íntimos, então quem mais vem é minha irmã com marido e filha. Depois porque Murilo está sempre trabalhando demais e eu nunca estou inteiramente de férias, então é preciso que os hóspedes sejam independentes, vão para a praia sozinhos, sintam-se em casa e não encham o saco. Eu trabalho em casa e preciso de horas diárias de silêncio e sossego para ler e escrever (bem, silêncio relativo, o som está sempre ligado...).

Com LF. 
Por sinal, a casa é especialmente prodigiosa por isso. Estamos do lado da praia e ainda não tivemos UM vizinho invasivo, barulhento, som alto. O jardim cheio de bromélias traz passarinhos de cores psicodélicas (e pererecas de todos os calibres). O ar condicionado potente garante noites bem dormidas.

Ficarei aqui até... sei lá quando. Março, abril, até ter motivo para voltar para São Paulo ou sair de lá. A falta de wifi tem sido muito produtiva – menos tempo no Facebook , mais tempo em páginas de papel – embora eu relativize o caráter imbecilizante das redes sociais. Sempre me alimento bem disso, do que estão dizendo, do que está acontecendo, das notícias que estão compartilhando. Bem ou mal, é uma fonte de informação importante, de contato com as opiniões vigentes, em meio a vídeos de coelhinhos fofos e boy bands russas.



            

ACONTECIMENTOS

Ilustração de Rogério Coelho.  Neste final de semana estarei em Extrema, MG, no Flex, um festival literário sempre com muita gente ba...