12.18.2014

PASSIONAIS


A série que escrevi para o +Globosat, Passionais, agora está disponível inteira "on demand" no site, aqui: http://globosatplay.globo.com/globosat/passionais/

Apesar de não ter sido exatamente autoral - foi uma encomenda - gostei bem do resultado. A produtora Pródigo me procurou em meados de 2012, depois de terem lido meu Pornofantasma, e me convidou para desenvolver esse projeto de histórias de crimes passionais, livremente inspiradas em casos reais. Eu já havia trabalhado em alguns projetos de longa, colaborado em alguns roteiros, mas nada que tivesse dado muito resultado, então tinha pouca experiência. Me colocaram em dupla com a Paula Szutan, uma roteirista experiente que eu não conhecia, mas que acabou se revelando a melhor parceira. Criamos todas as tramas juntos. Ela deu muito da estrutura, do andamento, eu contribuí com o universo trevoso e o humor negro dos diálogos. No meio do processo entrou também a queridíssima Mirna Nogueira, que arredondou as versões finais dos roteiros. Os episódios foram dirigidos por Henrique Goldman (de "Jean Charles") e Marcela Lordy.


Com a Paula, no set do episódio da Betty Faria (2). 

A série tem núcleo central com uma história que segue em paralelo (o bar), mas os episódios podem ser vistos de forma independente. (Meus favoritos são o 4, 5 e o 10.) É muito louco você ver frases da sua vida, personagens imaginados por você ganharem vida na tela, às vezes de forma surpreendentemente positiva.


Micro-resenha na coluna da Patricia Kogut no Globo - "roteiros inteligentes", sabe como é.
Destaco algumas curiosidades.

- O título original da série era "Amor Mata", mas o produtor achava que criava um cacófago com "a marmota". Após várias discussões ("Entre Quatro Paredes", "Amor e Morte", "Cale-se Para Sempre"), eu sugeri o básico por se tratar de uma série de crimes passionais: "Passionais"; ganhou meu título.

- Procuramos variar o máximo no perfil de casais, novos, velhos, lésbicas, e nas formas de se matar. Havia também um roteiro centrado num casal gay masculino, mas ficou um pouco pesado para o canal e tivemos de adaptá-lo. Acabou se tornando um casal sadomasoquista (episódio 5, dos que mais gosto).

- Aliás, as obras de arte da dominatrix desse episódio (lindamente interpretada pela Rachel Ripani Rachi) são do meu irmãozinho Alexandre Matos, por indicação minha.

- Com uma judia no roteiro (a Paula) e outro na direção (o Henrique), tínhamos de ter um episódio da "colônia". Acabou sendo o do casal de lésbicas, que tem até uma rápida aparição do rabino Henry Sobel.

- Apesar de carregado no humor negro e no tom kitsch do roteiro, muito disso veio da direção, como as máscaras de bicho do primeiro episódio.

- Outro dos episódios de que mais gosto é o da lua de mel no navio (4). Por questões de produção, foi complicado definir o cenário, que passou de navio para resort, de resort para hotelzinho na serra e voltou para navio quando se saiu do realismo e se apostou num ar mais onírico e minimalista.

- Uma das histórias que criamos girava em torno de um casal incestuoso de pai e filha; mas também exageramos um pouco na dose e foi vetado.

- Eu só não participei efetivamente dos últimos dois roteiros, porque já tinha viagem marcada para Espanha para a turnê de lançamento de Masticando Humanos por lá.

Agora já comecei o trabalho no roteiro de BIOFOBIA (que será escrito por mim com supervisão do Marçal Aquino) e tenho outros dois projetos de série aguardando aprovação. Assim vai se abrindo uma carreira paralela que só me acrescenta como escritor.


 Assistindo a um episódio com parte da equipe. 




12.08.2014

O INCOLOR TSUKURU TAZAKI

Assinei mais uma resenha do Murakami, na Folha deste sábado:



Durante a adolescência, cinco amigos inseparáveis definem suas próprias

personalidades através do relacionamento entre eles. Com apelidos derivados de 

seus sobrenomes, Vermelho é o estudioso, Azul o esportista, Branca é a bela e 

Preta a extrovertida. Como uma quinta perna dispensável ao equilíbrio há 

Tsukuru Tazaki, o protagonista, que não tem o nome relacionado há nenhuma 

cor e nem consegue definir sua própria personalidade. É o elemento neutro, 

sobrando entre dois casais, que teme ser expulso do grupo a qualquer momento. 


Isso de fato acontece pouco depois que ele ingressa na universidade. Os 

quatro amigos o rejeitam sem explicações e Tsukuru mergulha numa depressão 

de seis meses, que o leva quase até a morte, seguido de anos de vazio que se 

estenderão até que ele decida resolver seu relacionamento com os amigos, já 

chegando à meia-idade. Para isso, ele volta à sua cidade natal, redescobre quem 

seus amigos se tornaram depois de adultos e chega até uma cidade de veraneio 

na Finlândia, onde um deles reside atualmente.


“O Incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação” é o romance mais 

recente do escritor Haruki Murakami, um dos autores mais importantes do Japão 

atual, que vendeu um milhão de cópias só no mês de lançamento desta obra. 

Escrita numa prosa objetiva com diálogos didáticos, que a assemelha a um fábula 

realista, é digerida facilmente e parece bem menor do que suas trezentas e 

poucas páginas. 


Na história da literatura não faltam protagonistas apáticos – talvez uma 

projeção idealizada de tantos autores emocionalmente derramados – mas o 

“incolor” de Murakami cumpre o seu papel exatamente ao investigar seu lugar e 

sua responsabilidade no mundo. Ao longo da narrativa, nem todas as perguntas 

são respondidas, mas a chave para a conclusão parece estar no próprio título, 

fundamentando a existência do romance durante os anos de peregrinação de 

Tsukuru. Se seus personagens monocentrados só poderiam ter nascido no Japão, 

suas buscas não deixam de ecoar verdades universais. 


Avaliação: Ótimo.

12.01.2014

O ANO DO COELHO


Tirando coelho do chapéu. 

2014 foi um bom ano. Não foi incrível, o dinheiro foi apertado, não teve nada de sensacional, mas tive algumas conquistas importantes e consegui movimentar novamente minha vida profissional e literária.

Ascendendo sem entusiasmo. 


Demorou a começar, é verdade. Até maio praticamente nada aconteceu, eu segui nas traduções, resenhas para a Folha, nas preparações para o lançamento de meu oitavo livro.


Nas gravações do trailer, com Murilo, Marcelino e Mutarelli. 

BIOFOBIA saiu no começo de maio, sem grande alarde, repercussão limitada, mas boas críticas, muitas entrevistas, um lembrete do que faço de melhor, de que ainda estou no jogo, não entreguei os pontos nem fiquei relegado à literatura juvenil.


Gravando ótima entrevista no Metrópolis. 

Os lançamentos em São Paulo, Rio e Florianópolis foram os mais bacanas, pela quantidade de público e o carinho dos leitores. Consegui também viajar bastante para festivais literários, dos quais destaco o Fliaraxá, o Flu de Uberaba e o encontro com leitores no Festival de Extrema; Minas Gerais foi mesmo o palco mais frequente neste ano, por algum motivo aleatório.

Com Murilo, em Punta. 


Tive também duas viagenzinhas internacionais (mantendo minha média anual) e consegui cumprir a meta de conhecer um país novo por ano. O deste foi o Uruguai, que há tempos era uma carta na manga. Viajei com Murilo para Cabo Polônio, Punta e Montevidéu, que foi bem gostoso, ainda que não exatamente surpreendente.


Fervendo no México. 

Voltei ao México em outubro, convidado da Feira do Livro de Zócalo, na Cidade do México. Fui muito bem recebido, pude debater bem minha obra por lá com pesquisadores, tradutores e estudantes que já conheciam o que faço, e acho que mantive portas abertas para um futuro próximo. Mas também não foi uma viagem de grandes surpresas ou cenários.


A pré-equipe do filme de BIOFOBIA. 

Agora em novembro tive a melhor notícia do ano: a aprovação do projeto de BIOFOBIA para o cinema. Já começarei o ano fazendo o roteiro para o filme, com Marçal Aquino, Renato Ciasca e Beto Brant. A série de TV que escrevi ano passado - PASSIONAIS - foi finalmente ao ar no +Globosat e, ainda que com ressalvas, gostei bem do resultado. É muito louco você ver frases da sua vida, personagens da sua história transformados e reproduzidos no ar. Tem sido gostoso e importante me desenvolver como roteirista. Parece que é um caminho viável para minha sobrevivência como autor.


Entrevista com o Dr. Kurtzman, no Canal Brasil. 

Mas a grande novidade de 2014 com certeza foi a chegada de ASDA, minha coelhinha que adotei no final de abril.

Com Murilo, no dia em que chegou em casa, ainda bebê. 

Há anos não tinha um animal de estimação (o último tinha sido um iguana, que não é lá um bicho muito "companheiro"); Asda exigiu que eu reorganizasse minha vida, desorganizasse a casa, me adaptasse para cuidar dela. Coelho é um bicho muito carinhoso, limpo, apegado, mas dá trabalho. Eles roem tudo o que vêem pela frente. E ela roeu tudo o que encontrou no meu apartamento: livros, fios, móveis, rodapés... parede! Gastei bem mais do que havia previsto, mas não sei se poderia dizer que fiquei no prejuízo. Ter um bicho desses em casa realmente muda o clima, o ânimo, hoje já não posso mais pensar em ficar sem a Asda aqui.

Agora, já mocinha. 

Tenho boas expectativas para 2015. Não haverá livro novo (graças!), mas o trabalho no filme já está garantido, e tem também a peça de teatro e outras possibilidades para cinema e TV. Também já está certa uma grande viagem ainda no primeiro semestre, que fará parte da pesquisa para meu livro novo (que ficará para 2016... 2017...). Então está tudo certo. O importante é o movimento. E a vida segue.

Com jovens leitores em Extrema. 

11.19.2014

BIOFOBIA, O FILME

A pré-equipe do filme. 


Há alguns meses, numa festa na casa da Márcia Tiburi, conheci o Beto Brant. Já conhecia e admirava grande parte da produção dele no cinema - adoro "Cão Sem Dono", "Os Matadores", "Crime Delicado", "O Invasor" - e aditivado pela bebida "intimei-o": "Quando vai fazer um filme do meu livro?"

Mandei o BIOFOBIA para ele e um mês depois ele veio me sondar sobre os direitos. Ele me avisou sobre um edital para desenvolvimento de roteiro, fiz todo o projeto (argumento, sinopse, justificativa, objetivos), mandei para eles e semana passada tivemos o resultado. BIOFOBIA foi contemplado no Proac, com uma boa grana para ser roteirizado.

Renato Ciasca deverá ser o diretor. Beto Brant já está com um filme para dirigir e ficará na produção. E ainda teremos Marçal Aquino supervisionando o roteiro, que será escrito por mim, por ideia deles. Esta semana nos encontramos todos novamente para comemorar e começar a planejar o trabalho.

A ideia é terminar o roteiro no primeiro semestre de 2015 e tentar o financiamento para começar as filmagens em 2016. Eu que nunca tive muita sorte no cinema ("Feriado de Mim Mesmo" está rolando como projeto passando de produtora a produtora desde 2004) estou confiante que desta vez vai. Pelo menos já vou ter uma grana para o roteiro. E os direitos ficam com o Beto pelos próximos anos.

O livro teve boas críticas, saíram muitas entrevistas e pude voltar a circular pelo Brasil em lançamentos, debates e festivais. Então já cumpriu o seu papel. Vamos ver o que se desdobrará em 2015. Também estou adaptando para o teatro e já comecei a rascunhar um livro novo, mas será algo para daqui a dois, três anos. Minhas conquistas sempre foram relativas, nunca pude contar com grandes poderes por trás, mas aos poucos as coisas vão acontecendo. Tudo o que conquisto é por muita insistência, teimosia, parece que o acaso nunca me favorece. O importante é que continuo fazendo sempre só o que acredito.


“Santiago escreve com a liberdade e irreverência de costume. (...) Suas virtudes como escritor nunca estiveram tão à tona, da bem dosada morbidez pop ao simbolismo potente de certas cenas.” Daniel Galera, O Globo

“Biofobia é o melhor livro de Santiago Nazarian. O título, uma única palavra que já leva o leitor para um claustro, vai se concretizando como medo da natureza, mas da natureza humana que mesmo tentando domesticar a selva mais densa, é o animal que ainda escolhe o inimigo.” – Andrea del Fuego

“Com narrativa ágil, cinemato­gráfica em imagens sutis e bem resolvidas e reivindicando outro lugar para o “existencialismo bizarro” ao qual o autor é enredado, Biofobia confirma a força do discurso de Nazarian. Nada é excessivamente estranho no oitavo livro do escritor, mas enormemente inquietante. – Mauro Morais, Tribuna de Minas

“Biofobia: livrão do Santiago Nazarian. O estilo dele está todo lá, mas mais depurado: as associações originais de ideias, as alfinetadas na vida real, o gore. Pense em "A morte sem nome" com um protagonista masculino e mais focado. (..) Tudo no livro é muito convincente, de maneira mais emocional que racional. Recomendadíssimo.” – Simone Campos

“Um romance a ser lido em diversas camadas: diverte na superfície, mas reafirma sua força em reflexões pertinentes ao leitor mais atento.” – Raphael Montes


“O autor fez um tipo e exorcismo. Mas sem perder a ironia. Além do pop e do trash, não falta humor.” – Cadão Volpato, Folha de S. Paulo

“Um thriller pop que lança mão de tantas referências externas e traz um retrato tão existencial e crítico.” – Fernando Albuquerque, Revista O Grito

“Esse é um dos grandes trunfos do livro – a incerteza. (...) Eu, como leitora, aprecio demais e, como escritora, invejo.” – Cafeína Literária

“Nazarian arma um mergulho com muitas referências musicais e literárias, que ajudam a definir a ambientação geral. O leitor é levado a uma (por vezes incômoda) intimidade com a sanidade.” – Christian Peterman, Rolling Stone

“Alguns podem classificar Biofobia de alternativo ou underground, mas isso desmerece uma das vozes mais originais da literatura brasileira contemporânea. No entanto, se Santiago Nazarian continuar com essa mesma pegada e qualidade indiscutíveis, que continue sempre sendo adjetivado dessa maneira. “ - Ney Anderson, Angústia Criadora

“BIOFOBIA parece ser um marco de guinada na carreira de Santiago. A morte, tradicional argumento de seus livros, aparece agora de forma melancólica produzindo sentimentos de isolamento, reflexão, exibindo a finitude humana como limitação presente. Nazarian nunca esteve tão Nazarian.” – Liandro Lindner

“Um livro para ser lido com calma, desfrutando as palavras e buscando nas situações vividas pelo personagem principal, reflexões sobre nossas próprias vidas e existências. Recomendo a todos que gostem de uma leitura um pouco mais profunda e reflexiva.” – Capa e Título

“Biofobia nos deixa tenso, nos arranca risadas, deixa a boca amarga com certas reflexões, nos dá esperança e nos tira, nos deixa loucos” – Rafael Noris, Coisas Horrorosas

“Daqueles livros que sequestram o leitor, você não vê mais nada, o mundo todo desaparece... incrível!” – Cléo de Páris. 


"Biofobia é um livro denso. Mistura existencialismo, humor, ironia e ainda traz a natureza como espelho para o medo e questões internas do personagem. É literatura rica, construída em períodos curtos e certeiros. E, como se não bastasse, tem um compasso que instiga até a última página." - Anita Deak. 


"Santiago volta com tudo naquilo que ele faz de melhor. Personagens solitários, nesse limite entre morte e vida. Entre a lucidez e a loucura. A natureza quando mete medo. Os personagens estão longe das cidades, mas o urbano pulsa no livro. O rock está lá. Vai virar filme, vai ser do caralho." - Ismael Caneppele, Melhores Livros do Ano no Ornitorrinco. 


“Com "Biofobia" Santiago Nazarian retoma, com toda a força narrativa, os aspectos ficcionais que marcaram seus romances anteriores. E com algumas novidades. O aprofundamento nas neuroses, nas psicoses, na solidão, no "existencialismo bizarro" que promove a desorientação social e os pequenos e grandes vícios humanos - tudo isso está lá - com o plus de uma dose generosa de ironia cáustica” – Rodrigo Lopes da Fonte

“Suspense psicológico do autor paulistano que depurou seu estilo reiterativo estruturado em frases curtas enoveladas em ritmo hipnótico. Avaliação: Ótimo.” – Ronaldo Bressane, Guia da Folha