sunnuntaina, toukokuuta 12, 2013

CHEGANDO AOS... 30. 


Dia das mãe o caralho, é meu aniversário!

Ok. São 36. Melhor assumir. Engraçado que muitos amigos mais velhos do que eu - alguns da minha idade -agora estão ficando mais novos na idade que consta no Facebook, na Wikipedia...

A idade está na cabeça. Você pode ter 40 com mentalidade de 20... se for um retardado mental. Não entendo essas pessoas que dizem que "não sentiram o tempo passar", se sentem jovens. Eu sinto cada segundo dos 36 anos. Manter a forma é um esforço, a cabeça já está mais do que lesada, o ânimo, a empolgação, a paciência já não são os mesmos... Tanta coisa muda. E a maioria para pior.

Mas nem tudo. Talvez ainda haja motivos para comemorar. Por isso comemorei ontem. 

Meu grande amigo Carlos Fortes ofereceu não apenas o apartamento dele em Higienópolis, mas comidinhas, bebidinhas, tudo impecável. Eu não queria abusar, e chamei só os mais chegados. Levei meu famoso sanduíche de pacotinho e fiz brigadeiros psicodélicos com sabores inusitados. Olha aí. 



O de "cristais de sal" é uma tendência europeia - sério, por lá se vê cada vez mais. No brigadeiro a dica é só colocar alguns grãozinhos pequenos de sal grosso junto ao granulado. O de wasabi foi invenção minha (inspirado no Kit Kat de wasabi que comi no Japão) e foi o  melhor de todos. 



Carlos e Gabriel. 

Festa animada. 



Carlos, o anfitrião, é amigo recente, mas para sempre. 


Meninos lindos. 

Meninas lindas. 



Laerte e Bruno. 

Gabriel e Juliana. 



Viu? Os brigadeiros foram sucesso. E fiz cinco latas de leite moça. 


A ideia era fazer "cara de Santiago", mas eu mesmo saí com cara de idiota. 

Núcleo do reveillon de Floripa.


É ele. 



Fim de festa.


perjantaina, toukokuuta 10, 2013

RUFUS! RUFUS!




Você é um cara simpático, bem apessoado, toca piano muito bem, domina o violão, compõe lindamente, escreve letras riquíssimas, sabe cantar como poucos e tem um belo alcance vocal. Ainda assim, as pessoas não estão interessadas no que você tem a dizer. As pessoas acham você meio chato. Elas se empolgam mais pelo novo single da Lady Gaga ou por uma nova banda com um som genérico. E os grandes prêmios - tipo Grammy - passam longe de você, claro. Você nunca vai estar nas paradas da Billboard.

Essa foi minha conclusão ao ver hoje o show do Rufus Wainwright em São Paulo, num HSBC praticamente vazio. Eu mesmo não iria ao show - confesso - já tinha visto o show de 2008, não queria gastar e não me empolgava em ver mais um show dele só de voz e piano. Mas me surpreendi.

Fabbie me ligou ontem dizendo que tinha ingressos, então me empolguei rapidamente. Fomos numa turma grande para o HSBC, sentamos todos juntos perto do palco (porque TODO MUNDO sentou perto do palco), pedimos garrafas de vinho e comemoramos.

O show foi perfeito. Mesmo.Apesar de ser no mesmo esquema de 2008 - voz e piano/violão - e de não ter o apoio da irmã e da mãe dele, como no anterior, o show foi superior, musicalmente impecável. Ele falou menos, tocou mais, foi o show de um artista mais maduro, e ainda assim simpático e flexível. No bis, ele distribuiu pandeiros e maracas para a plateia acompanhá-lo, e foi tudo lindo.

Quando ele tocou "Zebulon", sozinho no piano, perto do fim, confesso que deixei umas lágrimas escorrerem. Quase borrei minha maquiagem...

No show. 

Na metade do show, eu comentava com a Fabbie sobre como ele fazia tudo bem, cantava, tocava, compunha. Ainda assim... por que ele não é um sucesso?  Bem, comentava também como ele era "mais bom" do que "legal" e isso faz toda a diferença. E onde está a diferença, quando você sabe que um artista é ótimo, faz tudo bem, e até tem bastante carisma e simpatia, mas não é tão legal ou divertido como as pessoas gostariam. Bom, talvez o problema esteja aí. Por que o tão "bom" não é tão "legal"?

Talvez seja como eu falei naquele outro post, do tradutor/editor, talvez você precise ser um pouco pior para ser mais legal. Ou não necessariamente, mas talvez você possa ser reconhecidamente muito bom, e ainda assim não tocar tanto as pessoas, porque elas não se identificam tanto com você. Taí uma lição a ser aprendida. O artista alienígena - genial ou não - que tem um universo muito próprio e que não se comunica muito com o que as pessoas estão vivendo, sentindo, fazendo, acaba meio abandonado. Como Rufus Wainwright no HSBC Hall.

As pessoas que falam como Lady Gaga é revolucionária, blablablá, obviamente estão falando dela numa realidade muito restrita - estão falando como ela é revolucionária para quem escuta Madonna, para quem escuta lambada - se alguém escuta opera, música pop, MPB, Lady Gaga não tem nada de novo. Mas ainda pode ser boa por juntar uma ou duas coisas que não estavam combinadas...

Não acho que o Rufus seja "bom demais para ser apreciado", o som dele não é difícil assim. Mas acho que ele seguiu por uma direção elitista que poucas pessoas apreciam. É um som pop para quem já pode absorver o erudito, taí o dilema. Não basta fazer muito bem o que você sabe. Você também tem que mostrar muito bem o que AS PESSOAS QUEREM (ouvir/ver/ler), ao menos para fazer sucesso. Obviamente, eu estou fazendo minhas anotações pessoais.

Em tempo, o último disco dele "Out of the Game", eu acho dos mais fracos. Porque ele busca arranjos pop para o som sofisticado dele, mas acaba se contendo. Resultou num CD meio pasteurizado. Meus favoritos ainda são "Want One" e "Release the Stars", que talvez sejam de fato os mais pop.

Set list:

The Art Teacher

This Love Affair

Matinee Idol

Vibrate

Out of the Game

Jericho

Who Are You New York?

Martha

Memphis Skyline

Hallelujah

California

11:11

Going to a Town

Montauk

Zebulon

Cigarettes and Chocolate Milk


Millbrook

Candles

Poses




lauantaina, toukokuuta 04, 2013

ANIVERSARIANTE DO DIA


Minha sobrinha, Valentina.

Hoje foi a comemoração de aniversário de 1 ano da minha sobrinha. Minha irmã e cunhado reuniram amigos no Parque Vila Lobos para um piquenique. E tivemos comidinhas, vinho e sol - muito sol. Levei bexigas, bolhinhas de sabão, chapeuzinhos e sanduíches de pacotinho. Como não é motivo para grandes devaneios, reflexões e ficções, fico com as fotos. 



A pequena. 

O pequeno. (Levei meu estagíário para encher bexigas...)



Vó Elisa. 


Pai-cunhado e mãe-irmã. 

Tio vampiro.



Vampiro tem de morder. 


Os amigos. 


 Meus famosos sanduíches de pacotinho. Resolvi tirar a foto antes que acabassem. (Fiz 30, foram todos). A receita é segredo, mas vai frango, maionese, suco de laranja, curry, picles, cebola, maçã, cenoura, mostarda, gengibre e mais não digo. 


O parabéns.

Ele e eu.  

perjantaina, toukokuuta 03, 2013

TROLL FAIL


Como eu não tive infância - você sabe, enquanto você brincava de gato mia eu estava na labuta como Maroto, separando as carrerinhas a serem aspiradas pela chefa durante a exibição de "Cavalo de Fogo" -  tento resgatar o espírito lúdico no meu árido dia-a-dia.

Levei esse besourinho de borracha para a academia. Tenho uma colega, senhora mais velha, que sempre deixa sua garrafinha d'água marcando lugar na bicicleta ergométrica. Entrei na sala sorrateiramente, antes da aula, abri a garrafinha e coloquei o besouro dentro.

Enquanto esperávamos a aula começar, conversávamos:

ELA: Onde se meteu essa professora?

EU: Parece que está conversando com a fiscalização sanitária. O pessoal tem encontrado baratas, besouros aqui na academia.

ELA: Credo. Ainda bem que trago minha aguinha de casa.

E ela bebia sua garrafinha roxa-transparente, sem notar o besouro lá dentro.

A aula começou, avançou, e ela virava a garrafinha sem perceber o bicho lá dentro.

EU: Dá um gole dessa água?

ELA: Não, essa daqui é aditivada, não é pra criança.

EU: Mas tô com seeeede...

ELA: Azar o seu.

EU: Quero descobrir o que tem nessa água aí..

A aula foi passando, a água acabando, e nada de ela gritar por causa do besouro.

Na hora de ir embora, comecei a me preocupar dela jogar o bicho fora sem notar, de ter um ataque cardíaco. Se não deu certo o troll, pelo menos queria meu besouro de volta.

EU: Er... Preciso te dizer... Tentei te tollar mas não deu muito certo...

E sacudi a garrafinha contra a luz, mostrando a ela o conteúdo.

ELA: Acha que não vi, seu retardado? E não adianta que não vou devolver essa porcaria, não.

QUAC!

lauantaina, huhtikuuta 27, 2013

EU, EDITOR. EU, TRADUTOR. 


Estou terminando a tradução de um livro ótimo, literatura, coisa e tal. Daí fiquei pensando que se eu fosse o editor eu recomendaria deixar os personagens um pouco menos reais, mais representativos. E aumentar um pouco o (melo) drama para deixar mais emocionante. Enfim, acho que eu sugeriria tornar o livro pior para que ficasse mais legal. Faz sentido?

Me fez pensar nas minhas escolhas - como autor e como tradutor. Recentemente o produtor da série de TV que estou escrevendo (que ainda não posso dar detalhes - estreia próximo ao fim do ano) me pediu para tornar alguns diálogos menos caricatos. Eu alterei, porque estou escrevendo sob encomenda. Mas se a escolha fosse minha eu obviamente preferiria a caricatura. Sempre tive consciência do limite do mau gosto na minha escrita. Sou partidário do excesso, do exagero, da repetição, gosto do kitsch, do trash, e prefiro personagens representativos do que reais. Acho que o livro em que isso fica mais claro (que é o livro que tem mais minha cara) é O Prédio, o Tédio e o Menino Cego. Enfim, o livro que a crítica e os leitores menos gostaram. 

Como tradutor, minha escrita também é limitada, claro. Eu preciso seguir o que o autor pretendeu. Mas o tradutor também tem suas escolhas, e pode melhorar (ou piorar) o texto, sim. 

Estava comentando agora há pouco no FB sobre O Mágico de Oz, que eu traduzi para a Leya/Barba Negra. É um livro bastante infantil, e não digo isso como crítica. Mas esse tom que direcionou toda minha tradução, como se eu estivesse contando a história para uma criança. A técnica é escolher as palavras mais fáceis em português, usar diminutivos que não existem no original em inglês ("Dorothy se sentou no cantinho da cama") e outras construções próprias do português que não teriam como estar no original, mas que podem ser usadas para dar o mesmo efeito (ou um efeito próximo ao) que o texto tem em inglês. 

Essa questão do tradutor "melhorar" o texto é muito discutida. Muitos dizem que isso não deve ser feito, mas às vezes é inevitável. Quando me deparo com um texto que peca pela repetição de uma determinada palavra, eu procuro sinônimos. Vez ou outra eu ELIMINO a palavra, confesso. Não acho que isso seja uma atitude errada do tradutor.

Por exemplo, traduzi um livro que tinha tanto a palavra sudden (repentino) que eu simplesmente a limei. Era tod hora uma "sudden explosion" uma "explosão repentina". Porra, que explosão NÃO É repentina? Só se você estiver trabalhando numa pedreira.  Não se precisa desse sudden. Cortei. 

Também confesso que já alterei levemente o tom de uma tradução. Um juvenil de fantasia chaaaaato pra dedéu, que só tinha drama, só acontecia desgraça, sem humor algum. Eu optei por traduzir palavras e expressões usando gírias que tornaram o texto mais leve e mais divertido. É errado? Não acho. Você só está escolhendo palavras para dizer o que de fato está escrito no original. "She's ugly as hell" pode ser "ela é feia como o diabo" ou "ela é feia para danar" ou "ela é o cão chupando manga" (neste caso, para um livro juvenil, eu escolheria a última.) 

Essas são algumas técnicas que uso como tradutor (e como autor). Na verdade, são intuitivas. Eu tive de desenvolver sozinho, na raça. Sou formado em Publicidade e Propaganda (pela FAAP). Apesar de ter entrado em Letras na USP, nunca cursei. Nunca frequentei oficinas literárias. Não fiz curso de tradução. Aprendi inglês morando fora (e jogando videogame, lendo, vendo filme, ouvindo música...). Então admito que tenho muito, muito, muito medo das minhas primeiras traduções. Jamais releria esses livros. Mas hoje já são mais de TRINTA livros traduzidos (alguns filmes e algumas peças), dez anos dessa carreira (que começou junto à minha carreira de escritor), acho que deu para aprender algumas coisas. 

Claro, minhas escolhas são discutíveis (e é preciso discutir com o editor). Mas é um trabalho que faço com prazer e - ainda que seja muito difícil viver só de tradução - que paga minhas contas.

Ps - Obviamente só dou nomes e divulgo os livros que traduzi e gostei. Não seria ético com a editora eu  espinafrar publicamente um livro que eles me pagaram para traduzir. 





tiistaina, huhtikuuta 23, 2013

LOS MUERTOS MALOS



O novo "A Morte do Demônio".


Eu tinha esperanças, mas não me surpreendi com a merda que é o remake de Evil Dead - A Morte do Demônio. O original (de Sam Raimi, 1981) tinha um roteiro capenga, um elenco canastrão e um clima de filme amador, mas tinha o principal: clima. A história era aquela: um grupo de jovens vai para uma cabana isolada no mato, encontram um antigo livro amaldiçoado, e passam uma longa noite, sendo possuídos um a um por demônios. Básico. Mas era feito de uma forma tão alucinada que garantia o tom de pesadelo, como se o expectador estivesse assistindo a um longo delírio. Para mim, essa é das qualidades principais que um bom filme de terror deve ter. E por isso Evil Dead se tornou um clássico. 

Agora fazem um remake com verba muito maior, um roteiro mais trabalhado, doses cavalares de violência e melhores efeitos especiais, mas cagam com tudo fazendo um filme genérico. Talvez fosse um projeto inviável a priori - se as qualidades principais do original estão no amadorismo e na tosquice. Refazer um roteiro básico como aqueles, apenas com mais dinheiro, não tinha por que dar certo, mesmo com a produção do próprio Raimi por trás. Eu só não esperava algo tão chato. 

É o primeiro longa dirigido pelo uruguaio Fede Alvarez - o que é visível. O filme não tem ritmo nenhum, é repetitivo, parece mais longo do que é, e o elenco não tem o menor carisma. Mesmo o (piteuzinho do) Lou Taylor Pucci, que é ótimo ator, tem um papel chato, moroso, um tédio. Eles não economizaram na violência, mas sem clima algum ela não serve de nada - e a caracterização dos possuídos em si ainda consegue ser mais assustadora no original, dá uma comparada: 





O original. 

Assim como não acho que filme de terror precisa de gore para ser assustador, também não acho que não possa ser gore e assustador ao mesmo tempo. O original era. E recentemente vi filmes extremamente sangrentos, com uma carga psicológica muito mais densa, por isso mesmo mais assustadores - os franceses Mártires e A Invasora. O novo A Morte do Demônio não é assustador, só nojento. Dele só se consegue extrair sangue, muito sangue.

Uma pena, porque não sou contra essa onda de remakes dos clássicos de horror. Alguns considero melhores até do que os originais ("Viagem Maldita"e "Piranha"). Outros ficaram aquém, mas ao menos trouxeram novas visões interessantes ("O Massacre da Serra Elétrica", "A Hora do Pesadelo" e "Halloween") e outros foderam de vez com o original ("Sexta-Feira 13" e... "A Morte do Demônio"). Então se fosse para recomendar uma nova versão de Evil Dead, ainda mais assustadora do que a original, eu recomendaria Antricristo, do Lars Von Trier.


Anticristo.

Uma pena também ser tão difícil assistir a filmes de terror por aqui. Eu moro em pleno baixo augusta, há TRINTA E TRÊS salas de cinema num raio de vinte minutos da minha casa e NENHUMA passa filmes como Evil Dead, só os cultões. Às vezes, muito raramente, eu consigo ver no Center 3 (na Paulista), mas geralmente os cinemas mais próximos com esse tipo de filme são no Shopping Paulista (que é horrível e fica a uns 45 minutos a pé) ou no Metro Santa Cruz.

 O Frei Caneca Unibanco é do ladinho, mas só passa a programação de bom-gosto (incluindo alguns mais comerciais). Ao menos de vez em quando consigo ver umas pérolas, como Dentro da Casa, do Ozon, a experiência mais literária que tive este ano.



lauantaina, huhtikuuta 13, 2013


Com lama até os joelhos, Vinícius revira galhos, gravetos, pedras e raízes que momentaneamente se fazem passar por caranguejos. Ele não costumava se enganar. Mas a camada ocre que tudo cobre faz com que tudo seja partículas da mesma coisa. Partículas de nada. Vinícius permanece ajoelhado, buscando um movimento, o animal reptício que escapou-lhe entre os dedos, e o movimento que capta são galhos estalando, raízes voltando ao lugar, o lodo borbulhando após a investida do próprio Vinícius. O caranguejo não, o caranguejo não se move. Mais imóvel do que os galhos, as folhas, o vento e a respiração, nas mesmas formas, coberto do mesmo lodo, a mesma cor, afinal em mimetismo é no que esses animais se especializaram, e Vinícius não se especializou em nada. Vinícius não é especialista em nada.
                Vinícius é um retardado. Ou quase. Vinícius é um pouco lerdo, e em circunstâncias normais seria chamado de retardado. Talvez em nossa sociedade atual seja apenas diagnosticado com um leve distúrbio, um leve autismo, DDA, monomania, síndrome de asperger.  Na realidade, nessa cidade, Vinícius é apenas um pouco lerdo. Tão integrado em suas limitações como todos os outros em seus desinteresses. Filho mais velho, aos vinte e oito anos, já deveria ser capaz de catar caranguejos sozinho. Vinícius é capaz.  E tantas vezes foi com o pai, com os irmãos, na saída da lagoinha, catar caranguejos para vender para os vizinhos, para os turistas. Vinícius foi campeão. Os bichos rastejando no quintal de casa, a mãe contando, e dando o veredicto a Vinícius, aquele que mais conseguiu catar. Ele sabe, sabe sim, embora tenha escutado a própria mãe, atrás de si, enquanto ele deixava a casa com rede e balde na mão. “Você vai deixar o Vinícius ir sozinho lá no mangue? Juarez, isso não vai dar certo, eu já te falei que...” E a conversa morrendo atrás como o cheiro de churrasco, enquanto partia para a caça o filho retardado.
Agora Vinícius examina os pés descalços. Um corte que acho que sangra, misturando à lama, é difícil identificar o vermelho de um possível fluxo que escorre. Identificando um aracnídeo que corre, Vinícius reexamina entre os dedos, e agora encontra uma aranha esmagada. Os pés doem. Entre calos, frieiras, rachaduras, talvez uma picada. Começa a ficar mais difícil saber o que é lama, o que são aranhas, o que são caranguejos imóveis e dedos do pé rachados, raízes pneumatóforas. Vinícius olha o balde. E os caranguejos já colocados parecem ainda mais imóveis, talvez já mortos. Talvez ele devesse voltar. Mas ainda não há nem uma dúzia. E seu pai fora incisivo: “Entre vinte e trinta, hein? Entre vinte e trinta.”
Vinícius levanta o olhar, a cabeça, o nariz ao vento e tenta farejar os vinte e trinta caranguejos que podem estar espalhados ao seu redor. Fecha os olhos. Fareja o ar. O ar cheira à mesma lama, raízes, húmus que cobre tudo mais, cobre a ele, cobre os caranguejos. Vinícius abaixa o nariz e sorri. Enfia os dedos (das mãos) entre o barro denso e sente-se tão parte daquilo... como jamais se sentiu. Sorri. Então para de sorrir, sentindo-se idiota, retardado, como todos os outros o sentiriam.Vinícius olha o balde logo atrás de si e o imagina preenchendo com uma dúzia, duas dúzias, quantas dúzias são mais de trinta? Transbordando de caranguejos que voltam ao mangue.
                Vinícius se vê sentado afundado na lama. Vinícius pode enxergar a si mesmo, caído no lodo – claro, ele é apenas lerdinho – sorrindo, e sabe o quão idiota, o quão retardado aparenta ser. Ele não deveria estar ali. O que ele está fazendo ali? Ele não costumava ir tão fundo. Durante o verão, só a saída da lagoinha, a entrada do mangue, já rendia uma cambada de caranguejos. Não era preciso muito esforço, não era preciso tanto esforço. Agora ele estava fundo demais no mangue – afundado- longe demais da lagoinha, os pés picados e o balde ainda vazio.
                Vinícius não é um retardado. Não, Vinícius não é um retardado. Ele tem plena consciência de suas limitações. Ele sabe que não pode muito e ainda tem certo rancor por sua família que pode e não tenta nada mais. Mas agora, caído na lama, perdido entre crustáceos saprófagos ele se questiona se não é esse se lugar. E ele chora, ele geme em meio ao mangue, sem lágrimas reais. Então percebe que não há lágrimas e volta a rir. E volta a se concentrar. Volta a buscar entre as raízes o movimento dos caranguejos. E agarra um galho que se retorce. E agarra uma raiz que respira. E sufoca um grito. E se pergunta se todos esses sufocos não o fazem parecer um retardado, lá, caído em meio à lama, caranguejos escapando entre as pernas.
                “Você é um rapaz muito sensível, Vinícius, você é especial,” ele escuta a voz rouca da jovem professora que tenta aumentar sua auto-estima com adjetivos que só sublinham suas deficiências. Ela lhe aponta um destino diferente, diz que ele pode ir mais longe, quando Vinícius gostaria de ser só mais um na sala de aula. Ele é o aluno retardado. Ela tenta ajudá-lo, redescobri-lo, afastá-lo ainda mais das possibilidades da cidadezinha, indicando que, num outro contexto, outro cenário, ele poderia agarrar novas oportunidades.
                Agarrou! Vinícius afunda a mão no mangue esmagando um caranguejo que fugia. Merda. Vinícius levanta a mão e vê que o interior do exoesqueleto escorre mais amarelado do que qualquer coisa que há por lá. Não há dúvidas de que é um líquido estranho, externo, interno, que não se camufla como o sangue, o lodo, o mangue e tudo o que há por lá. Vinícius observa o crustáceo quebrado no chão, e sabe que não pode colocá-lo no balde. Ainda estamos no menos de meia dúzia, ele balança a cabeça. Então vê que há outro caranguejo, pequeno, movendo-se por lá. Claro que há, sempre há, encontrar caranguejos no mangue é como encontrar baratas num bueiro, uma praga. Os turistas comem, nós comemos, todos comem, mas como considerar isso uma iguaria para a qual é preciso certo sacrifício, certo esforço? Vinícius pondera.
                Cata o caranguejo pequeno e o joga no balde. Ainda vivo. Muito bem, mais um, mas ainda é pouco, e tão pequeno...  Vinícius escuta um trovão e vê o céu carregado, com nuvens prestes a despencar. Levanta-se com o balde. Melhor andar com isso, melhor correr com isso. Com as nuvens se fechando, sua família deve estar olhando preocupada para o relógio e em breve um deles irá chegar lá. Um deles, de seus irmãos mais novos, irá lhe buscar e todos terão de admitir, ele admitir a si mesmo, que ele é mesmo um incapaz. Voltar com aquele balde vazio ele não vai, de jeito nenhum. Voltar com aquele balde com meia dúzia de cinco, para ouvir de chacota dos irmãos: “Você não sabe contar?” Vinícius conta melhor do que os irmãos, ele sabe muito bem disso. Mas os irmãos se aproveitam de cada uma de suas deficiências para ressaltar sua inferioridade.
                Vinícius lava os pés numa poça. Seus pés não ficam lá muito limpos. A poça já é turva como tudo mais, e Vinícius mete os pés nela novamente. É turva, mas mais profunda do que Vinícius esperava. Sente a lama penetrando entre os dedos dos pés, então algo fugidio, deslizante, perfurando seu tornozelo e escapando em debatidas - um peixe? Um galho? Uma serpente? Assustado, Vinícius perde o equilíbrio, recuando com os pés ainda metidos na lama. Cai com as nádegas na terra, e antes que possa inspecionar a poça em busca do que o atacou percebe alguém atrás de si, então uma mão estendendo-lhe , ajudando-o a ficar de  pé. Vinícius a toma....

lauantaina, huhtikuuta 06, 2013

Mandando hoje um torpedo para a Adrienne Myrtes


Eu: Querida, queria te ligar para te perguntar coisinhas da Petrobras. Me dá um ok quando puder falar?
Ela: ??
Eu: ???
Ela: Quem é?
Eu: Jesus.
Ela: Como você pode ser Jesus?
Eu: É preciso ter fé, Adrienne. A resposta está em seu coração.
Ela: Adrienne? Mas o meu nome não é Adriene!
Eu: Er... É sim, este é seu verdadeiro nome... Você foi trocada na maternidade... Era uma noite chuvosa... Sua mãe era muito jovem...
Ela: Ah, mas eu tenho uma família.
Eu: Sua mãe biológica se chama Zuleide.
Ela: Aham. E minha vida, como fica?
Eu: Com Jesus, não tem erro.
Ela: ...
Eu: BTW, aqui é o Jesus LUZ.

perjantaina, huhtikuuta 05, 2013


SOBRE O AMOR...


Sobre o amor. Sobre Feliciano. Sobre casamentos. E o ônibus tombado no Rio. Cantoras de Axê. Cadeias de hotel. Novelas da Globo. Reality Show. Feira de Frankfurt. A Lei Carolina Dieckmann. Receita de carne de porco. Sobre o trânsito. Matança das onças... (não, matança das onças não). Os shows do Rock in Rio. Lolapalooza. Chorão. Papa Francisco. São Paulo Fashion Week.  As chuvas em Petrópolis. O Viaduto do Chá. A cura da calvície. E as manchetes do dia. Não tenho nada de novo a dizer, apesar de ser escritor. Por isso sou escritor. Faço ficção.






keskiviikkona, huhtikuuta 03, 2013



0.        
A escrita é uma ocupação nociva. Escrever é uma profissão de risco. Não se pode fazer uma obra consistente sem remoer rancores, frustrações, essas coisas que provocam câncer, tendinite e impotência. Além disso, o escritor é um caçador solitário, sempre sujeito a se perder na floresta. A endorfina do orgasmo, ou apenas o prazer de um abraço são concorrentes de uma escrita produtiva. Não se pode escrever com as mãos ocupadas. Assim, todas as atividades, experiências e sensações que levam a uma vida saudável e positiva estão distantes do escritor. Para ele, os prazeres são apenas orais. O cigarro, a bebida, o café – muito café – enquanto as mãos trabalham. Apenas a boca vaga, a língua a vagar, procurando substitutos para o que não se pode alcançar...
Livros e mais livros, acumulam mais poeira do que sabedoria. Ácaros, mais ácaros do que poesia. Bloqueiam a luz solar, absorvem a luz do sol, provocam sombra, carência de vitamina D. Não que um escritor precise de livros para escrever... Livros acumulam dor nas costas, lombadas, afundam o apartamento piso abaixo, escada abaixo, abrigam parasitas e escondem problemas de encanamento. É só dar uma rápida olhada neste apartamento que fica claro que a escrita não é uma ocupação saudável, não tenho uma ocupação saudável. Não estou fazendo bem em escrever mais um parágrafo já com tantos livros povoando essa casa, nossa casa, planeta terra, com acres devastados...