13/05/2019

4.2



42, corpinho de 46, espírito de 64. 


A sensação que eu tenho é que estou voltando de uma longa viagem, de uma terra estrangeira, de volta a São Paulo, cenários tão familiares, mas seis anos mais tarde.

Acabo de completar 42 anos – corpinho de 46, espírito de 64. Há anos que sinto que vivi mais do que o suficiente, mas insisto. Sem grandes vontades, é verdade; passei o último ano basicamente trancado em casa, só trabalhando para pagar as contas, deixando o tempo passar, os planetas se realinharem... Daí quando me dei conta estava tudo fora do lugar.

Estou solteiro de novo, depois de seis anos – a sensação que eu tenho é que estou voltando de uma longa viagem... O ex-cozinheiro soltou a mão e fugiu para o outro lado. Não era mais um relacionamento confiável; uma pessoa que só me colocava para baixo...

Mas o que não me deixa para baixo nos tempos em que vivemos?

Trevoso. 

Daí, estou tendo de me esforçar a sair mais de casa, voltar à academia, ver os amigos, conhecer pessoas. “Aproveite para se dedicar ao trabalho”, me disse uma. Eu só me dedico a isso - eu não saio, eu não transo, não vejo a família. Mas é uma fidelidade não-correspondida. O que eu tenho a oferecer as pessoas não valorizam... “A vida é muito maior do que a escrita”, dizem outros casados e com filhos. A minha vida não é maior do que nada.

É só a coelha que me faz levantar da cama todos os dias.



A sensação de retorno não é só pelo fim do relacionamento. O trabalho mais estável nos últimos meses me possibilitou ir colocando as coisas no lugar. O sofá destruído (pela coelha): vamos arrumar o sofá; as cuecas velhas de casado: troquei por novas da Calvin Klein; o celular... Passei um ano sem celular – e antes disso, pouco usava. Então com iPhone novo comecei a usar mais o Instagram, baixei Tinder, e Grindr, e Hornett, e Uber, e Whatsappp... nunca tive Whatsapp... Os aplicativos de pegação eu até já tive, 6 anos atrás, conheci o falecido assim, mas agora é um mundo novo, ou um mundo a que retorno, depois de uma longa viagem, ou de um coma, seis anos mais velho...

E que preguiça, meu deus...

Descamisado, bem padrãozinho, aos 33. 

Ao menos afastei a preguiça da academia. Quem me acompanha há tempos sabe como já fui rato, rato de tanquinho. O tempo passou e eu deixei passar. Já não sentia necessidade alguma de exercício físico. Tão bom poder ficar dias e dias sem ver ninguém, nem sair de casa... daí ir ao mercado e voltar. Mas o corpo cobra o preço. Voltei a malhar e fazer funcional há pouco mais de um mês, o peso vai diminuindo, e já consegui restaurar a vontade de malhar TODOS os dias – porque para mim as coisas só funcionam assim: se for para fazer, tem de ser para valer. Sou da escola da androginia, e sei que nunca mais serei um rapaz lânguido e esguio – até porque, nunca mais serei rapaz – mas com toda a MASSA que tenho, estou aprendendo a me aceitar como homão.

A foto atual padrãozinho na academia...

(Se eu posso dizer que há UMA coisa que eu gosto em mim hoje, uma ÚNICA coisa, deve ser exatamente o que você sugere que eu deva cortar: meu cabelo. Mesmo cada vez mais branco, é tudo o que me resta.)



 Então nesse aniversário de 42, resolvi chamar os amigos. Pensei primeiro nas amigas, as meninas – buscar um pouco de colo; passei Natal, reveillon e Páscoa sozinho, afinal. Agora, o dia das mães dificultou. “Aniversário não é importante”, “problemas todo mundo tem”, foi meio o que escutei ; “relacionamentos vêm e vão”, me disse uma quarentona que nunca teve um relacionamento estável. Lembrei porque nunca comemoro aniversário – parece um estorvo, que estou pedindo favor. Não é importante para mais ninguém  - mais ou menos como lançar livro. Nossa vida não é importante para ninguém. A gente morre e o pessoal corre para não perder o pilates.

Mas então os amigos, os meninos – que não tinham pilates – não me decepcionaram. Os meninos mais próximos toparam. Obrigado aos queridos que estiveram comigo nesse domingo.

No Badauê, o melhor restaurante de Maresias, agora em São Paulo. 

E que venham mais... 42? Não, 4.2 está de bom tamanho... Julho de 2023 já está mais do que bom.


(Enquanto isso, nos aplicativos...)










21/04/2019

O ÚLTIMO SOBREVIVENTE

A capa brasileira.

Finalmente saiu pela editora Autonomia Literária a edição brasileira de "A Um Fio da Morte", as memórias de Hampartzoum Chitjian, armênio sobrevivente direto do genocídio (da Primeira Guerra), que viveu até o começo dos anos 2000 para contar sua história.

Em quase 600 páginas, ele narra não apenas os anos difíceis de escravidão e fuga, mas também sua infância na vilazinha de Perri (leste da Turquia atual), sua migração para o México e posteriormente para os Estados Unidos. É um documento precioso dos costumes da época, das atrocidades cometidas pelos turcos e da criação da diáspora como um todo.



No terceiro dia, eu finalmente decidi correr o risco e me juntei a Kaspar nas nossas buscas para achar meu pai. Juntos fomos ao centro da cidade. Ficamos espantados em descobrir que todos os homens estavam atrás de portas fechadas das prisões improvisadas. Havia mais de cento e cinquenta lojas, todas convertidas – cada uma cheia até o máximo da capacidade. Os homens eram incessantemente espancados com placas grossas de madeira. Seus gritos penetrantes de dor e desespero filtravam-se nas ruas. Estavam sendo espancados quase até a morte.

Quando nos aproximávamos da oficina do ferreiro, ouvi uma súplica dolorosa, inesquecível. “Por favor, pelo amor de seu Deus, por favor não me bata mais!” Com uma pontada de horror, percebi que era meu pai chorando. Nós rapidamente nos aproximamos da porta do prédio, e eu disse ao guarda de plantão: Chitjeeneen Oghlee yehm. (“Sou filho de Chitjian”). Ele entrou e trouxe meu pai à porta, mas não a abriu. Não podíamos ver um ao outro. Que terrível! Que lembrança devastadora! Após todos esses anos, lembrar desse momento é agonizante e difícil de esquecer. A pessoa que rezava Havadov Khostovaneem diariamente era meu pai. A pessoa que plantava novas vinhas para o próximo ano era meu pai. Agora a pessoa que estava gemendo na cadeia era meu pai. 

[...]


Alguns dias depois, logo após o meio dia, ouvimos a familiar batida de meu pai na porta. Quando corremos para abri-la, ele não nos deixou tocá-lo. Ficamos todos confusos. Seu casaco estava coberto de sangue seco, seu rosto magro e seus olhos consumidos de desespero. Sua postura transmitia uma completa exaustão. Ele mal era capaz de ficar de pé. Nunca vou esquecer o que foi a última impressão de meu pai. Ele projetava uma insuportável dor pela tortura que passou por mais de uma semana, assim como a angústia do que estava acontecendo com sua vida, família e terra, e o medo do que ainda estava por vir. Eu não podia suportar ou compreender o que eles haviam feito com aquele belo homem encorpado, com belo cabelo castanho e compleição suave. Ele havia perdido toda a aparência de si mesmo. Por que isso aconteceu com um cristão inocente, bom e temente a Deus? Esse era meu pai! Por quê? Por quê?
Na minha frente havia um homem magro, frágil, de aparência esfarrapada, uma imagem de meu pai que iria me assombrar pelo resto da vida. Mesmo eu mal tendo catorze anos, eu era velho o suficiente para sentir a dor do que havia acontecido e também velho o suficiente para temer o que estava por vir!

Essa dor é eterna – nunca poderá deixar minha alma. Agora tenho 102 anos e ainda revivo aquele momento toda noite em meus pesadelos. Está refletido em todos meus pensamentos durante o dia. Como alguém pode esquecer essa imagem? Você poderia?


A tradução é minha, e também assino um texto de apresentação. O prefácio é de Heitor Loureiro e Carlos Antaramian Salas. Foi dos meus trabalhos mais importantes, um mergulho na história de meus antepassados - que começou em 2015 com minha visita à Armênia atual e segue em pesquisas e leituras (até passei esse feriado de Páscoa com novos amigos da colônia, veja só..). É uma causa que não deve ser esquecida, principalmente nos novos tempos de fascismo e perseguição em que vivemos.

E tenho mais sobre esse tema saindo em breve...


Dá para comprar o livro aqui: https://autonomialiteraria.com.br/loja/historia-nao-contadas/a-um-fio-da-morte-memorias-de-um-sobrevivente-do-genocidio-armenio/

E nesta quinta, 25/04, haverá um lançamento do livro, incluindo debate comigo, Carlos e Heitor, no Al Janiah - Rui Barbosa, 269, 19h. 





02/04/2019

OS MELHORES LIVROS INFANTIS DA VIDA




Hoje é Dia Internacional do Livro Infantil - e eu, que começo nesse mercado, pensei nas obras que fizeram minha infância. Algumas ainda estão na minha estante, outras eu puxo pela memória, mas todas permanecem de alguma forma. Tive sorte de vir de uma família de leitores, minha mãe também trabalhou muito tempo em livraria (meu tio-avô é fundador da Argumento e foi editor da Paz e Terra), então comprar livros sempre foi uma atividade rotineira. 

Além da ficção infantil listada abaixo, eu era fascinado por livros de história natural - répteis, dinossauros, animais em geral - e de filmes de terror (que já era mais difícil de me darem); e não posso esquecer também os quadrinhos - principalmente Marvel; era fã do Hulk mesmo antes de saber ler (e hoje não posso deixar de acompanhar o universo no cinema, como marvete confesso). 

Mas vamos nos ater à literatura, coitada, sempre tão humilde e desprezada. Seguem dez dos livros que mais me marcaram na infância (não, não tem Lobato, nem Ziraldo): 



O Pequeno Vampiro - Angela Sommer Boderburg: Foi o Harry Potter da minha infância (quando ainda não existia Harry Potter); uma série de livros sobre um menino que fica amigo de um vampirinho, sai voando com ele pela noite e tudo mais. Tem vários volumes, "O Amor do Pequeno Vampiro", "O Pequeno Vampiro no Sítio", "As Férias do Pequeno Vampiro". Eu li e gostei de quase todos, quando eu tinha uns 10 anos e já era uma criança gótica. (Gerou um filme, que é ruim, e um desenho, que eu não vi). 

Contos de Fadas dos irmãos Grimm: Sem dúvida uma das maiores influências na minha escrita (e não só  da minha escrita para crianças). Gosto de ler até hoje. Tenho aqui uma edição portuguesa com desenhos lindos (do Benvenuti) - uns príncipes que parecem uns bonequinhos, que foram meus primeiros crushes da infância.



Marcelo Marmelo Martelo - Ruth Rocha: É um volume de contos bem divertido, que me fez rir muito na infância, principalmente a história título, de um menino esquizofrênico que quer inventar novos nomes para as coisas. Ruth depois se tornou amiga da família. 




A Árvore Generosa
- Shel Silverstein: Vi esses dias que há uma edição atual nas livrarias. É um livro triiiiiiiiste, melancóooooolico, sobre uma árvore que ama um menino e que se doa inteira para ele, até restar só o toco. É para a gente aprender desde pequeno como o amor é cruel.


Os Desastres de Sofia - Condesa de Segür: Herdei esse da infância da minha mãe - e li na pré-adolescência já com certo cinismo e consciência do universo absurdamente burguês e moralista. Sofia é uma menina de cinco anos que vive numa casa enorme, cheia de criados, pagens, amas e babás, e apronta as maiores traquinagens - como cortar os peixes da mãe em pedacinhos e jogá-los de volta no aquário; comer o pão dos cavalos até ter dor de barriga; raspar as sobrancelhas para se parecer com a amiga. Todas suas estripulias terminam com uma cruel lição de moral da mãe. É uma delícia. 




Will You Be My Friend? - Chihiro Iwasaki :É um absurdo de lindo esse livro, com ilustrações que parecem feitas direto no livro, com giz de cera. A história de uma menina que tenta fazer amizade com um menino da casa vizinha. Acho que nunca foi editado em português e deve estar há muito esgotado em inglês.




Eu Sou Construtor - Parick Mayers: Outro livro com lição de moral: o valor da perseverança na história de um guri que sofre sabotagens deste mundo cruel que nos cerca. Mas ele é construtor! E nunca desiste de seus projetos!









Grimble - Clement Freud: Grimble é um garoto de dez anos que é criado por bilhetes. Os pais nunca estão em casa e só se comunicam com ele através de mensagens espalhadas pela casa. Ligeiramente surreal, bem terno, um pouquinho triste. Escrito pelo "neto do homem".



Anita - Gilbert Delahaye: Essa é para crianças bem pequenas; uma série de livros com a menina Anita (no original em francês "Martine"). As histórias são um açúcar só, mas o traço (também mega açucarado) do belga Marcel Marlier é uma lindeza.


Sangue Fresco - João Carlos Marinho: Só com a morte dele, há alguns dias, me toquei que nunca o encontrei nesse meio literário. Pena, porque foi um dos autores da minha pré-adolescência, com essa série de uma garotada paulistana que tem de enfrentar vilões do cotidiano. Tem momentos de puro "gore", como quando uma jibóia esmaga um garoto e o transforma em purê. Um autor que respeitava as crianças e extrapolava os limites da literatura infantil. 



29/03/2019

COMO PUBLICAR SEU LIVRO E GANHAR MILHÕES

Conti em aula. 


Terminou ontem o curso sobre publicação/edição que fiz com André Conti, na Escrevedeira. Achei interessante ver um pouco a visão do editor, os processos editoriais - até porque, trabalho há mais de 15 anos com editoras, mas sempre de casa, nunca peguei o "dia-a-dia da empresa".

Conti é editor de primeira, ficou mais de dez anos na Companhia (saiu bem quando eu entrava) e hoje é um dos sócios da Todavia, que tem publicado só coisa fina. Muito das visões que ele aplicou nessa nova editora bate com o que eu acredito, de não domesticar as traduções, de fazer o livro já pensando que o leitor tem hoje a internet à disposição, não transformar aspas de diálogo em travessões (argh!). Sensacional também a ideia que tiveram de fazer edições que "mantivessem as páginas abertas" (fisicamente) - toda a parte prática da publicação do livro (que foi a primeira aula) foi a mais interessante (ou inédita) para mim.

Mas sempre é curioso ver grandes editores falando (e eu só sento para ouvir grandes editores), porque eles sempre passam uma visão bastante... idealizada do trabalho; o editor que lê e relê a obra, sugere mudanças, toma "oito cafés com o autor" (como Conti colocou ontem). Fiquei observando os outros alunos, que pareciam ter menos experiência na área; eu tinha vontade de dizer: "Gente, isso é exceção. Não é assim que (não) funciona o meio editorial; os editores mal leem seu livro." Com dez livros publicados, conto nos dedos (de meia mão) quais tiveram leituras-sugestões de editores. Nunca nenhum editor tomou OITO cafés comigo. E isso que comecei a publicar razoavelmente cedo - eu era iniciante e os editores eram mais velhos-experientes do que eu, podiam ter me direcionado. Só fui ter um trabalho maior de edição nos livros mais recentes... (que fizeram menos sucesso - rá!)

Mas também sinto mais falta hoje do que antes. No começo, não queria que ninguém mexesse nos meus livros. O primeiro livro que senti falta de um trabalho de edição foi "O Prédio, o Tédio e o Menino Cego" (e deu no que deu). Hoje, acho fundamental a leitura da editora - até porque, não mostro os originais para quase ninguém. (Não por protecionismo, mas porque acho chato incomodar colegas escritores que têm tanta coisa [melhor] para ler.)

Todavia, é lindo ver que ainda há editores apaixonados, como o Conti, o trabalho dele com Joyce e, principalmente, alguém disposto a trabalhar com literatura, sem pretensão de se tornar escritor.

No mais, o curso serviu também para eu me familiarizar com o formato, ou formatos possíveis. Nunca fui aluno de oficinas de escrita literária. Já ministrei uma ou outra, com resultados sofríveis. (A pior delas foi em 2009, na Venezuela, uma oficina de uma semana em portunhol... Me convidaram e pensei: "bem, o que acontece na Venezuela fica na Venezuela". Serviu realmente para eu entender que eu não sabia fazer a coisa. E ficou por lá. [Bem, os alunos, se ainda estão vivos, nem devem ter mais acesso à internet...])

(Acho curioso os amigos que vivem de oficinas de escrita, mas não conseguem escrever seus próprios-próximos romances. Escrever para mim não é problema; ensinar já não me atrevo.)

Para mim, funciona melhor quando é algo pontual, de um dia (como há quinze dias, em Jacareí), daí eu dou a real do meio literário: "As formas de publicar são essas, você ganha isso, as tiragens são essas, as formas de divulgação são essas, desista de escrever." Na verdade, acho que escrever tem de ser inevitável. Se você não consegue, é difícil, doloroso, vai fazer outra coisa, que você ganha mais. Não quero estimular ninguém a se foder.



25/03/2019

SCOTT BRIGHT




Acordo com a notícia da morte do Scott Walker - um dos cantores que mais influenciou meus cantores favoritos. David Bowie, Brett Anderson, Susanne Sundfor sempre o tiveram como uma referência; Pulp chegou a ter um álbum produzido por ele. Walker (nascido Engel) começou a carreira ainda adolescente, nos anos 50, fez sucesso nos 60 com a boy band Walker Brothers, depois seguiu numa carreira solo cada vez mais cabeçuda. Nas últimas décadas, vivia recluso e fazia álbuns estranhíssimos. 

Aqui um documentário bacaninha sobre sua vida, com depoimento de vários fodões:




E deixo minha homenagem com minha playlist de favoritas, de todas as fases de sua carreira.

17/03/2019

PLIJ - PRÊMIO LITERÁRIO DE JACAREÍ



Na solenidade. 

Entregamos ontem o Prêmio Literário de Jacareí, uma iniciativa do jornal Semanário, da cidade, da qual tive a honra de ser curador, junto a Caroline Rodrigues e Ana Laura Estaregui.

Com Inez Valezi, dona do jornal que promoveu o prêmio. 

O trabalho de curadoria envolveu não apenas a seleção dos inscritos (como jurado), mas todo o processo, da criação do edital à entrega do prêmio. E foi um trabalho bem gratificante, tanto pela relação com o pessoal (as colegas da curadoria, o pessoal da organização), quanto pelo resultado das inscrições. Chegamos num consenso fácil de três ótimos representantes em romance, poesia e conto.

Os livros.
O romance vencedor foi "Quem tem Medo dos Lobos do Mal", de Giorgio Cappelli, voltado ao público juvenil.  Conta a história de três lobisomens adolescentes no Pantanal, com um humor rápido, inteligente e uma prosa muito bem estruturada.

Na categoria poemas, Rafael Quintiniano levou com "Elétrons no Céu de Netuno", uma escrita psicodélica, originalíssima, sem rédeas. Foi um autor que impressionou nós três.

E no conto/crônica tivemos uma prodígio de 16 anos, Larissa Bueno, com um texto fluído e gostoso, que se comunica muito bem com sua geração: "A Mudança que Eu não Vi."

Os três vencedores. 

Ficamos bem felizes com a escolha dos três, que além de vozes muito próprias são uns queridos. Cada um ganhou uma pequena tiragem de seus livros + 2 mil reais. Na solenidade, batemos um papo rápido com os três.

O queridíssimo Gustavo Valezi, que organizou tudo desde o início. 

Aproveitamos também a passagem pela cidade para dar um workshop de uma tarde. Eu dei uma geral-real sobre o meio literário (primeiros passos, formas de publicação, relação com as editoras, valores, etc) e Caroline deu exercícios para soltar o pessoal. Dia cheio. (Ana Laura não pode estar com a gente, porque acabou de ter bebê.)

O pessoal da oficina. 


Volto agora para casa, para as traduções, sem nenhum evento em vista. Para mim está um ano bem devagar de viagens e eventos literários, mas ao menos não falta trabalho (de tradução).
Todo evento literário tem um senhorzinho com livros debaixo do braço. Pois este teve um dos melhores: Carlos Bueno Guedes é um patrimônio da cidade, que não só trouxe livro meu para eu autografar, como me presenteou com essas duas pérolas. 





11/03/2019

A FESTA DO DRAGÃO MORTO




ENFIM saiu projetinho antigoooo, uma das minhas fábulas cínicas, que adaptei para a criançada. “A Festa do Dragão Morto” é meu primeiro primeiro livro para o público infantil, ilustrado pelo Rogério Coelho, saindo pela Melhoramentos. Ficou bem bonito. 



 Agradeço aos queridos da Melhoramentos, Leila Bortolazzi, o Tiago de Melo Andrade que me levou para lá, e minhas agentes Lúcia Riff e Eugênia Ribas Vieira, que cuidaram de tudo. (Não vou fazer noite de autógrafos, não, mas já tá chegando nas livrarias. E tem mais coisa vindo aí – inclusive romance novo, novamente pela Companhia.)

Conto com a força de quem tem filho pequeno, quem trabalha com escolas, etc. 



Aproveitei e atualizei também aqui a aba “obras”. Já passei de uma dezena (isso sem contar o que publiquei com pseudônimo...). Por enquanto, só os três primeiros estão fora de catálogo.

São meu maior orgulho, projetos tão pessoais, que sempre consegui viabilizar por grandes editoras. É o que sempre falo, já trabalhei em tantos projetos de cinema, TV, teatro, mas poucos vêem a luz do dia – quando depende de outras pessoas, de patrocínio, a coisa não anda. É frustrante fazer tantos projetos que são engavetados. Mas, em livro, é eu sentar para escrever que a coisa sai. 


 "Se não há santo que me salve, 
salve Jorge meu Dragão
Que em meus sonhos ele acorde,
e que coma na minha mão..."

- de uma letra minha... que nunca saiu. 

Meu dragãozinho, o Araki (que morreu em 2011), com minha tattoo de dragão (que permanece)





03/03/2019

LEMBRANÇAS DE CARNAVAIS PASSADOS


Com Renatinha Simões e Cris Lisboa, Jurerê 2011. 

Estou pulando o carnaval. Tenho de agradecer que este ano começou com muito trabalho, as contas em dia, então sigo como todos os dias, trancado em casa, alimentando a coelha, trabalhando numa tradução, me esforçando para manter a cabeça no lugar.  

Aproveitei também para fazer uma faxina, assisti a "Beautiful Boy" (bacaninha) e li "A Vegetariana" da Han Kang (começa bem, depois fica um pouco... "vulgar"... tsssss). Fiz uma tatuagem nova também, a vigésima: o escudo do brasão armênio com o Monte Ararat (sem a arca), uma marca de minhas raízes e de toda a pesquisa que tenho feito, começando com minha viagem para lá em 2015. 




Voltando ao carnaval, nunca gostei. Nunca soube sambar. Samba para mim, só de fossa, samba-canção, ou então aquelas marchinhas antigas. Afinal, sou mau sujeito, ruim da cabeça e doente do pé. Mas não me faltaram carnavais alternativos...

Dia desses, voltando do banco, encontrei o Thy, um querido amigo de "folias passadas", que mora há muito tempo na Europa e veio trabalhar como DJ no carnaval. Eu costumava virar noites com ele - e ele continua, porque trabalha com isso. Eu não teria sobrevivido...


Me trouxe lembranças de carnavais passados - impossível ser brasileiro e não ter histórias para contar. Pensei que poderia dar um bom post (este); pensei que já tinha escrito algo assim. E revirando os arquivos (por isso é bom ter um blog tão antigo), encontrei lembranças de carnavais passados, em 2013. Bom que reaviva minha memória e me dá menos trabalho. Requento essas lembranças com minha visão de hoje: 
 
Em 2013 (com Paulinho), a fantasia era de gripe suína. 


- Aos sete, oito anos, eu passava o carnaval com a família em Campos do Jordão, criancinha gótica, vestida de preto, fantasiada de vampiro. Naquela época já me incomodava a música "Cabeleira do Zezé", porque eu tinha um cabelo compridinho, achava que a música me denunciava, que todos olhariam para mim...

- Minha primeira paixão de carnaval aconteceu aos treze anos, num cruzeiro de navio para a Argentina. Conheci à bordo uma gaúchinha de Passo Fundo e ficamos juntos num namorico infantil em alto mar, muito antes do Titanic (do filme, né?). Mal sabia eu que NUNCA mais teria uma história de amor à altura...

Carnaval em Floripa lá por 2001...

- Quando eu morava em Porto Alegre, com uns 23 anos, decidi em pleno sábado de carnaval pegar um ônibus para Florianópolis. Achei um hotelzinho muquifo no centro, segui pra Praia Mole, e lá conheci um menino que me hospedou nos próximos dias. Os pais dele tinham uma cadeia de lojas de móveis, e a gente ficou numa das lojas. (Sim, nós usamos algumas camas de mostruário.)


- A maioria dos carnavais da década passada eu passei em São Paulo mesmo, me drogando loucamente, pulando de clube em clube, de menino em menino... Tenho flashes, mais do que lembranças...

No Glória, em 2003. 

- O único carnaval que passei no Rio foi em 2003, como se deve. Meu ex chefe de Londres (onde trabalhei como barman em 2002), resolveu conhecer o carnaval carioca e fez questão de que eu fosse com ele, como guia e intérprete, com tudo pago. Fomos nas festas, bloquinhos e ficamos hospedado no Hotel Glória (que já estava decadente, mas um decadente bacana, meio kitsch). 



- Falando em hotel decadente, também passei um carnaval no C'adoro, do baixo augusta, pouco antes de fechar, em 2009. Meu namorado da época trabalhava com a Cris Lisbôa na revista Simples, e eles armaram um ensaio fotográfico no hotel, que já estava fechado. Foi um carnaval meio surreal, tomando champagne na piscina de um hotel fantasma, aqui do lado de casa.


- Passei outro carnaval com a Cris em 2011 (de onde vem a foto que abre este post), em Florianópolis. Eu estava de rolo com um surfistinha ordinário que desapareceu durante o feriado, mas não deixei por menos. Eu morava numa casa ao lado da praia, com uma varanda ótima com vista para a folia da rua; então recebi a Cris, recebi o Paulinho; foi uma maratona de festas, drinques, champagne e ecstasy. Peguei de lá muito do clima para meu conto "Água Viva", que saiu na antologia "Um Ótimo Dia para Morrer", que fiz com Raphael Montes, Ilana Casoy e os alunos de nosso workshop sobre literatura de horror (de 2017). 




(Sim, não parece, mas é um conto de terror... ou "pós-terror", de umas trinta páginas. Dá para comprar a antologia em ebook aqui: https://www.amazon.com.br/%C3%93timo-Dia-para-Morrer-hist%C3%B3rias-ebook/dp/B07L9CYBBX)


Carnaval frígido na Lapônia. 


- Teve o carnaval de 2012, que estava morando na Finlãndia, e aproveitei para rodar pela Lapônia, para poder postar fotos gélidas e fazer inveja aos foliões daqui, que sofriam com o calor. 




Carnaletras com Rodrigo Lacerda, Joca Terron, Ivam Marques, Mutarelli, Ivana, Tati Bernardi, Bressane, Marcelino, Noemi, del Fuego, Xico Sá e mais uma porrada. 

- Num dos últimos anos, a Ivana Arruda Leite recebeu uma porrada de escritores em sua casa, para um carnaval literário. Eu postei essa foto, com uma  legenda de brincadeira, algo como "toda a cena literária contemporânea",e vieram os escritores desaplaudidos protestar...


- Desde então, tenho me comportado direitinho. Ano passado, eu estava em Maresias com o Murilo, e ele até saiu para as "baladas" - Deus me livre. Eu fiquei em casa, como boa esposa, esperando ele voltar, até o sol raiar ... 


Este ano, o mais perto que passei de um bloquinho foi com o Marcelino. Nos encontramos depois de aaaaanos para colocar o papo em dia; e saindo do restaurante fomos alcançados por um desses blocos do baixo-augusta, cheio dessa gente paulistana pálida, torso nu, uns pelos purpurinados, uma magreza desencaixada. Deu certa nostalgia, certa repulsa, certa vontade. Mas não tenho mais idade para ser feliz. 

Semana passada, folia só no copo. 

13/02/2019

UMA FÁBULA TRANS-PAULISTANA



Virei a madrugada lendo o livro-reportagem de Chico Felitti, "Ricardo e Vânia", recém lançado pela Todavia.

A obra é derivada da reportagem originalmente publicada no Buzzfeed, em 2017, em que Felitti investigou a história de Ricardo Correa da Silva, que ficou conhecido pelas ruas de São Paulo como "Fofão da Augusta", por causa de suas bochechas deformadas pelo uso de silicone.

O texto era um primor, não só por revelar a identidade de um personagem paulistano tão conhecido, que tomava contornos de "lenda urbana", como pela garra do autor em investigar essa história e por sua empatia pelo personagem.

Na época, comentei com alguns amigos editores que aquilo renderia um belo livro. Uma editora querida me desacreditou: "Mas agora a história já foi contada." Fiquei feliz quando soube que o texto havia encontrado uma bela casa na Todavia. Há poucos meses, quando a matéria foi premiada, comentei também com Rodrigo Teixeira que poderia render um filme. E mais uma vez fiquei feliz quando soube que ele havia comprado os direitos de adaptação.

Restava conferir como a matéria se desdobraria em livro - se seria apenas uma edição estendida da matéria, o que já seria justificável como único registro impresso; ou se havia algo mais a contar.

E o livro é uma bela, bela surpresa.

 Após a publicação no Buzzfeed, Felitti passou a receber através das redes sociais constantes "avistamentos" pela cidade, de leitores que o avisavam sobre o paradeiro de Ricardo nas ruas, além de histórias sobre o passado do personagem, sua fama como cabeleireiro e seus anos de decadência.

Felitti continuou seguindo essas histórias, e chegou a Vânia, grande amor da vida de Ricardo, uma mulher transexual que se mudou há 30 anos para Paris. Ela não apenas se tornou a segunda metade/personagem do livro, como foi a chave para se desvendar o resto do passado do "Fofão", e além.

Através dessa história de amor (e silicone), tem-se um panorama maior da cena LGBTQ+ paulistana/brasileira/trans-nacional, que me lembrou o (ótimo) documentário de Dácio Pinheiro, "Meu Amigo Cláudia" (de 2013), sobre a vida da (saudosa) artista trans Claudia Wonder.

O texto é jornalismo investigativo de primeira - incisivo, por vezes invasivo (como admite o próprio autor), mas sempre respeitoso e, acima de tudo, empático. E é impressionante como Felitti consegue transmitir isso sem nunca se colocar como personagem (dele, quase nada se sabe pelo livro). Eu, que não sou jornalista, e levo tudo sempre para o pessoal (como agora), só posso invejá-lo.

Se há um ligeiro desequilíbrio, está na figura da mãe (do autor), que participa ativamente da história, não é oculta como ele, mas não é desenvolvida como todos os outros personagens, ficando num meio-termo que talvez carecesse de mais contexto; mas é sempre complicado colocar a mãe no meio...

A matéria original do Buzzfeed não chega a um terço do livro, e quando parece que  o texto vai se arrastar (entrando em bastidores da publicação), ele mergulha na história de Vânia, amplia as fronteiras até Paris e amarra todas as pontas soltas.

O maior problema do livro? A capa. A capa é um horror (e há fotos bem melhores dos dois dentro do volume).

Taí uma foto bem melhor. 

Como leitura pessoal, me tocou de diversas formas. É estranhamente raro e muito prazeroso encontrar em livro esses cenários que habito, como paulistano e homossexual, e ter uma dimensão maior de uma comunidade da qual faço parte. Ser gay pode ter me fechado algumas portas, mas abriu outras tantas, me deu uma outra visão de mundo e me aproximou de gente que não faria parte do meu universo "paulistano-branco-dos-jardins".

O livro permite ainda questionamentos sobre o famigerado "lugar de fala", com um foco majoritário na transexualidade, escrito por um autor "cis" (que nem se coloca explicitamente como homossexual no texto, por se colocar tão pouco no texto). É de se questionar se a história poderia ser contada por um heterossexual (talvez um heterossexual apenas não tivesse tanta empatia para realizar um projeto desses), entretanto me parece um exemplo claro de como a escrita pode servir para dar voz ao outro. Felitti pode fazer isso não (apenas) por ser gay, mas por ser um grande jornalista.


E amigo meu, não, ele não é. Na verdade, acho que só o encontrei uma vez, exatamente no baixo-augusta, cenário tão presente no livro. Foi numa manhã em que eu e meu marido andávamos com o corpo da nossa primeira coelha morta, dentro de uma caixa de sapatos, a procura de uma clínica veterinária para cremá-la. Felitti nos interpelou pedindo uma entrevista com o Murilo (que havia acabado de sair do MasterChef); e, com nós dois em lágrimas, percebeu que não era boa hora. Lembrando agora, vejo como se encaixaria com as histórias dele. E minhas. Como fazemos parte de um mesmo universo.










17/01/2019

REVOLUÇÕES DE ANO NOVO


Este ano prometo não desejar nada, esperar nada, não prometer nada, apenas sobreviver. (Mas se não der também, tô de boa.)


Passei todas as festas em branco, sozinho em casa. Não tinha estômago para Natal em família, nem energia para me locomover até Maresias, tentar ser feliz. Passei metade do ano na praia, de todo modo, então decidi aproveitar que estava cheio de trabalho nesse final para me trancar aqui na Frei Caneca.

Nas vésperas das vésperas confesso que pesou um pouco...


Lembranças de natais passados. 


Acho fim do ano sempre deprimente, aquele saldo da vida, todo mundo comparando conquistas. Eu há tanto tempo que nada de novo conquisto, só posso me reapresentar avançado na velhice. Melhor ficar sozinho.

Mas viver sozinho também é difícil. Queria um homem para trocar meu chuveiro, uma mulher para lavar minha louça... E isso porque sou um homem casado - você vê como o casamento gay não vale de nada. Nas vésperas das ceias, só via todo o povo que reclamou da nova família fascista brasileira postando fotos com o tio do pavê. Mas eu não! Eu fui íntegro!




Fiz um peru só para mim, no Natal. Fiz um tender só para mim, no ano novo. Comi peru toda a semana do 24. Comi tender toda a semana do 31. (O tender estava dos melhores, mas o peru não estava grande coisa, já fiz melhores, desconfio que é porque era peru Sadia; o peru Seara é bem melhor - aguardo patrocínio. Pensei em comprar outro peru pós Natal para tirar a prova, mas comi tanto peru sozinho que acho que só aguento na próxima virada...)

(E ainda que tenha feito só para mim, fiz no capricho, meu tradicional peru marinado na laranja e vinho, com farofa de castanhas portuguesas; e o tender corroído na coca-cola.)

Até expus meu drama sutilmente nas redes sociais; compartilhei uma (bela) playlist natalina, mas não tive nenhum convite. Também fiquei com medo de que terminasse um agregado como aquele conto do Paulo Henriques Britto ("Coisa de Família"); melhor passar sozinho.

Quem acompanha aqui há tempos há de lembrar o Natal que passei com uma família finlandesa...

Não deixei de comprar presentes, pro Murilo, pra minha mãe, para uma amiga. Para minha sobrinha de 6 anos dei um teclado (musical), num anseio de que ela pudesse encarnar Mozart (em uma hora com ela percebi que na verdade eu queria castigar minha irmã).


Amaldiçoando a menina. 


Eu mesmo não recebi nem um panetone bauducco. Às 18h do dia 24 tocou o interfone com uma encomenda e achei que alguém havia se lembrado de que eu existia... Era um calendário da Melhoramentos.

(Valeu, Leila, foi meu único presente.)



Mas quem se importa! Que terminei o ano com trabalho! Dinheiro! Podia comprar o panetone que quisesse! (E digo que o convencional com frutas da Ofner é imbatível; comprei também um "exagerado" da Kopenhagen, mas era tanto chocolate, tanta calda, nesse calor horrível, nem dava para sentir o gosto da massa e acabei jogando metade fora.)



Daí dia 31 eu terminava o ano com as contas pagas, o trabalho adiantado, pensava no que eu queria fazer, aonde queria ir, com quem queria estar...

Passei a virada aqui na frente do computador, trabalhando no livro novo, bebendo uma vodca russa, enquanto a coelha expressava seu ódio pelos fogos destruindo um dos sofás.

Peguei ela no colo e olhei pela janela aqui da frei-caneca-herculano-baixo-augusta. Em todos os prédios da vizinhança eu via a mesma coisa: as pessoas olhando para fora. Podiam estar comemorando entre amigos, em festas de família, em orgias, mas em todas as janelas o pessoal olhava para fora - mesmo que não houvesse fogos, mar, uma grande vista. Cada um em sua festa, buscava na janela algo além do que tinha...

Essa é minha vista em São Paulo - nada mal, considerando que muita gente dá para direto para outro apartamento de frente. O bloco grande é o Shopping Frei Caneca, e descendo os três quadradinhos iluminados é a livraria Blooks, das mais bacanas da cidade; da minha janela dá até para ver as prateleiras. 

Voltei ao computador e terminei a virada mexendo no meu livro, que é a única coisa que me faz sentido.

O ano começou como terminou. Muitas traduções, uma ou outra encomenda de texto, livro novo nos arremates. Na vida lá fora é melhor não pensar, não há vista dos prédios desta cidade. Mas estou me esforçando, me empenhando, nem tanto, pretendendo, sair mais de casa, voltar para a academia, rever os amigos - nos últimos dias tenho conseguido marcar almocinhos, reatar contatos; não me falta uma perna, penso tanto, e ainda tanto me imobiliza a seguir em frente... Para onde?


4.2

42, corpinho de 46, espírito de 64.  A sensação que eu tenho é que estou voltando de uma longa viagem, de uma terra estrangeira, d...