21/03/2017

NOVO BLOG VELHO



"Na minha opinião, teu blog merece uma nova cara, mais clean. Acho meio brega. Não combina com tua idade e tua maturidade profissional." Quando a gente ouve isso de um antigo dealer, é hora de mudar. I trust my dealer, mas não tenho o menor talento para mexer nessas coisas. Então aproveitei uma passagem do Murilo por São Paulo para explorá-lo. Os jovens já aprendem isso no berço.

Também já ouvi muito: "Quem usa blogspot hoje em dia?" Ou mesmo "quem ainda tem blog?" Bem, sou escritor, não preciso ter compromisso com as tendências, nem mesmo com a atualidade. O blog já tem treze anos! Só por isso gosto de mantê-lo; sinto-me no direito de ser vintage. Serve antes de tudo como um registro da minha trajetória, para mim mesmo... ainda que eu sempre me constranja ao ler meus textos de uma década atrás. Comecei quando publicava meu segundo livro, como uma forma de me aproximar dos leitores, divulgar melhor o que eu estava fazendo. Chegou a ter um belo acesso lá por 2005, quando começou meu hype; chegou a atrair centenas de haters, quando eu permitia comentários...

Hoje em dia Facebook e Insta já cumprem muito das funções imediatas que o blog tinha antigamente: comentários ligeiros sobre livros e filmes, frases de efeito e fotos de ocasião. E as discussões mais acaloradas sobre literatura prefiro levar a veículos pagantes, como a Folha. Mas ainda valorizo esse espaço como um mural extremamente pessoal, de temas que talvez só interessem a mim.

Assim, aproveitando a recauchutada no visual, atualizei também as abas de "Obras", com o livro novo, e "Agenda", com os primeiros eventos que já estão marcados para este ano.  Em breve posto mais novidades, que também não são lá grande coisa.

12/03/2017

IT'S ALIVE!


Sai no próximo mês, pela coleção de clássicos da Zahar, uma edição de Frankenstein, de Mary Shelley, com tradução minha. O volume traz não apenas o texto integral (da edição final do livro, de 1831), mas dezenas de notas sobre a história e uma apresentação, também escrita por mim, analisando a influência do livro e suas adaptações na cultura pop.

Foi um trabalho difícil - na véspera de Natal ainda estava pesquisando sobre territórios turcos no século XIX -, mas gostei muito de fazer. Traduzo muita coisa ruim, muita coisa boa porém fácil, então sempre é bom encontrar novos desafios, que exigem mais de mim como tradutor.

Nesse caminho também acabou de sair "Eu Estou Pensando em Acabar com Tudo", primeiro romance de Iain Reid, canadense que já havia publicado livros de memórias e colabora na New Yorker.

É um thriller estranhíssimo de um jovem casal de namorados viajando por estradas do interior, para conhecer os pais do rapaz. Durante todo o caminho a menina "pensa em acabar com tudo" e o texto é recheado de imagens estranhas, arrepiantes, que deixam o leitor desconfortável, mas sem descambar de vez no horror. Tive de reler inteiro depois de terminar, para ver se havia entendido direito o plot twist. Recomendo bem.


A edição é da Fábrica 231, selo de entretenimento da Rocco (não sei exatamente por que, na verdade, é literatura e poderia ter saído pelo selo principal). A capa dura e o acabamento me fazem pensar que a Darkside está elevando o padrão nesse segmento - literatura de gênero, especialmente terror -; os livros deles são lindos (embora muitas vezes as traduções sejam sofríveis). Ainda quero trabalhar com eles, seja como tradutor, seja como autor.

E se ano passado as traduções foram poucas e boas, este ano está uma merda. Editoras todas falidas, ainda estou esperando meu ano começar...

E não se esqueçam, amiguinhos, em julho tem meu terror "Neve Negra", pela Companhia das Letras. Será que o ano não começa antes disso?







06/03/2017

NEVE NEGRA



Deu este final de semana na Folha, então finalmente posso divulgar: “Neve Negra” é meu novo romance, que sai no inverno pela Companhia das Letras, já com direitos para cinema vendidos para a RT Features - produtora fodástica que tem no currículo, entre outros, “A Bruxa” e “Love”, de Gaspar Noé.

No livro, após uma longa viagem, um renomado artista plástico volta para a casa, na noite mais fria do ano, na cidade mais fria do Brasil, na Serra Catarinense. Ao despertar de um sonho, seu filho de sete anos também desperta suas dúvidas sobre a paternidade, que se estenderão numa longa madrugada de pesadelos.

Há algo de errado com meu filho. E não posso dizer que me surpreendo. Esperei a vida toda por isso. Desde o primeiro dia, desde antes, espero algum sinal de anomalia. A mancha vermelha na testa desapareceu, então esperamos os primeiros passos. Ele engatinhou e se levantou, então esperamos as primeiras palavras. Alvinho falou – acho que foi algo previsível como mamá– e esperamos as convulsões. A cada frango servido, esperava o osso da sorte a travar-lhe a garganta. Sempre que eu voltava de uma viagem, sempre que, de longe, perguntava sobre ele, esperava, temia, ansiava pela má notícia que acreditava ser inevitável recair sobre meu filho.

Já flertei bem com o thriller e o suspense em livros como "BIOFOBIA" e "Feriado de Mim Mesmo" (os dois também vendidos para o cinema), e “Neve Negra” é um parente próximo desses, na estrutura minimalista de um cenário contido, com poucos personagens. Mas esse é assumidamente um livro de TERROR, ainda que um terror psicológico, mais onírico do que fantástico. Foi um convite do Joca Terron, de escrever um terror literário para ser lançado pelo selo principal da Companhia das Letras. E se há algo que entendo é de terror (bem, de terror e de coelhos... e há sim coelhos no livro novo).

A migração da Record, onde publiquei os últimos cinco livros, para a Companhia, se deu naturalmente, sem rusgas, por esse convite. O texto já está escrito, entregue, discutido; agora está sendo ilustrado – há um livro infantil dentro do romance, que o protagonista lê para o filho. O tema central é a paternidade e as paranoias que a rondam (estou perdendo a infância do meu filho. Há algo de errado com ele? O filho é mesmo meu?). Também foi a oportunidade de retratar o raro cenário de neve brasileira.

“Está caindo neve...”, meu filho diz de costas para mim, com a cara encostada no vidro.
“Viu que legal?” Tento me lembrar se ele já viu neve antes, se tivemos neve por aqui nos últimos anos, se eu estive aqui enquanto a neve estava. Mesmo na capital da neve no Brasil, é preciso foco; uma piscada e ela pode derreter. Capaz de ele ter perdido enquanto dormia. Perdeu a neve enquanto assistia TV. Perdeu a neve enquanto tomava banho, lia um livro, colava bolas de algodão numa cartolina da aula de artes da escolinha, reproduzindo um cenário imaginário de inverno.
[...]

Se a neve nunca derretesse, os passos de meu filho permaneceriam assim, congelados, infantis. Mas a neve derreterá e não sobrará nem rastro de por onde aquele menino passou. Piso exatamente sobre, alargando seus passos até minha maturidade. Será que um dia seus passos serão indistinguíveis dos meus? Será que sobreviveremos para não distinguir?

A Neve Negra deve cair por aqui em julho. 

02/03/2017

CARNAVAL DO CHEF


De volta, de novo, ao seco.


Com Kilo, Louise e Murilo, em almoço no Guató. 

Aproveitei o carnaval para dar um pulo novamente em Maresias, ficar um pouco com o marido, levar a coelha, curtir a companhia de um casal de amigos queridos.

Na primeira noite, com geladeira cheia de compras, encontramos tudo descongelando... A diaba da coelha tinha roído o FIO DA GELADEIRA. Resolvemos com um remendo, mas não sei como ela ainda não morreu de choque numa dessas.

Foi uma semana de praia, piscina, trilhas, drinques, jogatina, churrasco e os pratos do chef.

Casalzinho almoçando na nossa magnífica varanda. 

Trilhas...

Trilhas...

Murilo no resgate. 
Terminamos em Paúba, praia incrível onde nadamos com tartarugas e um retardad... digo, um deficiente mental fugiu com meu chinelo. 

É lindo ter essas duas casas - meu apartamento em São Paulo e a casa de Maresias, onde Murilo está trabalhando - mas na prática não é tão fácil, na prática não é tão prático. Se fosse um ano mais generoso, eu poderia aproveitar melhor o retiro e me exilar por lá, para trabalhar, mas para mim 2017 ainda não começou e preciso de São Paulo para lembrar ao mundo que ainda existo, respiro e insisto...

Enquanto isso, eu e Murilo vamos levando como dá. Desde que o restaurante abril em dezembro, ele mal conseguiu sair de lá, só deu uma passada rapidíssima em São Paulo há quinze dias. Mas tem sido uma grande experiência para ele e - por tabela - para mim também. Bom que esse relacionamento de quatro anos traga novas posições, novas configurações; para as novidades acontecerem em minha vida eu sempre tive que me esforçar tanto, me sacrificar, abrir mão da segurança. É revitalizante que agora aconteça naturalmente, como um fruto de um relacionamento, que não dependa apenas de mim...

Mas agora não há mais desculpa, carnaval passou, o ano começou mais do que oficialmente e ou as coisas andam ou (meu) mundo acaba.

Se o mundo acabar, não estarei só...


13/02/2017

ANIMAIS RAROS

Texto que publiquei na Ilustríssima da Folha desse domingo: 

Os números são sempre desanimadores. Num país com 27% de analfabetos, nem os alfabetizados têm o costume de ler. Nesse contexto, o que sobra para o autor brasileiro contemporâneo, esse ser tão marginalizado?
 No meio literário, mantém-se o palpite nem tão sarcástico de que o número total de leitores de literatura brasileira contemporânea seja o mesmo da media das tiragens: três mil. Desses, a imensa maioria é formada pelos próprios autores, editores, jornalistas. Mesmo dentro do cenário acadêmico, nas faculdades de letras, não se conhece bem a literatura produzida hoje no país. Se é uma falácia dizer que escritores não são lidos por seus pares, por aqui é mais correto dizer que os escritores são lidos apenas por seus pares.
“Eu também escrevo.” Provavelmente é a frase que um autor mais ouve de seus leitores. Sendo uma arte de conhecimentos técnicos discutíveis, diferentemente da música, por exemplo, em teoria qualquer alfabetizado pode ser escritor. E como parece ser um consenso a ideia de que um grande escritor deve ser um grande leitor, qualquer apaixonado pela leitura se sente compelido a fazer o salto da autoria.                
“Conhece algum leitor de literatura brasileira contemporânea sem pretensões literárias?”, iniciando essa pesquisa, perguntei à minha amiga escritora Simone Campos, como décadas atrás perguntava “sabe quem está vendendo pó?” (O pó sempre foi mais fácil de se encontrar.) Procurando leitores anônimos, cheguei a abordar uma colega de academia (de ginástica, não se engane), que eu sempre via com um livro. “Quais autores brasileiros atuais você lê?” Ela pensou por um tempo, procurando nomes. “Comprei o livro do Julián Fuks... mas me roubaram”, foi tudo o que conseguiu achar (ou perder). Na ocasião, ela lia Elena Ferrante.
                Mas não haveria um pequeno percentual que lê avidamente a literatura brasileira contemporânea, não escreve, ou ao menos não trabalha (ainda) com isso? Uma boa resposta tem vindo das redes sociais. Hoje, um escritor ativo no Facebook já identifica meia dúzia de nomes que estão sempre lá, divulgando lançamentos, comentando as resenhas e discutindo com os próprios autores, mas que ainda não têm um papel definido dentro do meio. São os leitores perfeitos... ou quase.
                Estamos falando de ficção literária, literatura de densidade. Na literatura comercial brasileira já se tornou comum ver milhares e milhares de fãs joveníssimos que formam filas em bienais e acompanham seus autores favoritos como ídolos pop.
O estudante Iuri Keffer é um desses; aos vinte anos está fazendo a migração da literatura juvenil e comercial para obras mais densas. Começou a ler por ser fã de terror e através da literatura de gênero encontrou jovens autores que se promoviam nas redes sociais. Essa possibilidade de proximidade foi o que o seduziu à literatura brasileira. Morando em Vitória, no Espírito Santo, nunca encontrou uma cena local efervescente, então chegou a viajar para o Rio de Janeiro para estar presente no lançamento da autora de “Young Adult” Tammy Luciano, uma de suas favoritas. Querendo se desenvolver também como autor, atualmente mergulhas nas obras mais profundas de jovens autores como Luisa Geisler, Sheyla Smanioto e Rafael Gallo, todos vencedores do Prêmio Sesc. Tornou-se amigo de vários autores pelas redes sociais, e participa das discussões, mas mantém perante essa literatura ainda uma posição de humildade. “Às vezes pego passagens do livro da Luisa e não entendo nada. Mas deixo guardado para quando for um leitor mais experiente”, brinca.
                Pouco mais velho do que Iuri, o carioca Mateus Pinheiro, de 22 anos, estudante de jornalismo, já é quase onipresente nas discussões sobre literatura brasileira contemporânea nas redes sociais e figura carimbada nos lançamentos e debates do Rio de Janeiro. De passagem por São Paulo, conseguiu marcar encontros com alguns de seus autores favoritos, como Antonio Xerxenesky e Ricardo Lísias. Nessa ocasião, quando eu o encontrei no começo de dezembro passado, ele já havia lido 85 livros em 2016, “mas chego fácil aos 100 até o final do ano”, disse ele a três semanas da virada. Mateus tem uma opinião bem veemente sobre o que gosta e o que não gosta e a expressa apaixonadamente pela rede. Criou inclusive uma página de pequenas resenhas no Facebook, a “Resenha de Bolso” (facebook.com/resenhadebolso), em que analisa obras atuais em poucas linhas e dá sua nota.
Essa é, aliás, outra fronteira pouco delimitada da cena literária atual: a crítica e o leitor. Com a extinção progressiva dos suplementos literários (e da mídia impressa como um todo), a maior parte das resenhas está na mão de “amadores”, ou leitores apaixonados que criam blogs e vlogs ou usam a rede social de leitores Skoob para discutir sobre seus livros favoritos, muitas vezes de maneira absolutamente pessoal e pouco consistente.
Não parece ser o caso de Mateus, que conseguiu uma curiosa posição de destaque no meio literário, como leitor, por demonstrar entender tanto do que está lendo e do que está comentando. Não tendo vindo de uma família de leitores, passou a ler na adolescência por conta do bullying que sofria no colégio, o que o levou a se isolar. Começou pela literatura policial e, descobrindo Rubem Fonseca, migrou para a literatura brasileira contemporânea. Outros de seus autores favoritos hoje são Victor Heringer, Elvira Vigna e Vanessa Bárbara.
São nomes compartilhados por Arthur Tertuliano, 29 anos, nascido no Recife e residente há dois anos em São Paulo. Formado em Direito, fez mestrado em Estudos Literários, por sua paixão pela literatura. Na capital paulista, seu primeiro emprego foi de vendedor da Livraria Cultura, que poderia ser uma vaga feita para grandes leitores, mas que cada vez mais é preenchida por gente totalmente afastada da leitura. “Eu aproveitava as folgas, o horário de almoço para ler e outros vendedores todos estranhavam. Diziam que quando não estavam trabalhando não queriam nem ver livro.”
Arthur afirma ter lido “poucos” livros em 2016, foram 101 até o começo de dezembro. “Li 349 em 2015”, diz, contando juvenis e infantis, de leitura mais rápida. Mesmo sendo um ávido leitor, Arthur não tem nenhum romance na gaveta. Já pensou em ser escritor, publicou resenhas e escreve para o site Posfácio (www.posfacio.com.br), mas atualmente não tem grandes pretensões no meio. “É tão bom ser apenas leitor, sem precisar frequentar eventos literários.”
Já em Quatigá, no interior do Paraná, a professora de ensino médio Sandriele Bueno, de 27 anos, foi uma rara estudante de Letras seduzida pela literatura brasileira contemporânea. “Até começar a graduação eu nunca tinha lido um livro”, diz ela, que escolheu o curso de Letras pela facilidade com o inglês. Lá, conheceu “Contos Negreiros”, de Marcelino Freire, que a fisgou pela proximidade da língua. Aprofundando-se na obra de Marcelino, ela foi atrás dos “amigos” do escritor pernambucano, o que basicamente estendeu a ela todos os autores vivos do país. Entre seus favoritos encontram-se hoje Paulo Lins, Milton Hatoum e João Anzanello Carrascoza.
Personagem difícil de encontrar, totalmente fora do meio, é a paulista Viviane Wakuda, de 29 anos, grande revelação como confeiteira (inclusive capa da Ilustrada no final do ano). Fã de autores como Neil Gaiman, fez a migração para a literatura brasileira através de nomes como Ana Paula Maia e João Gilberto Noll. Ao prestigiar as noites de autógrafo, presenteia os autores não com originais de livros, mas com deliciosos bolos e macarons. “Não escrevo. Só tenho o hábito de ler mesmo. Se for para lançar um livro, será de receitas”, diz ela, a leitora ideal.
Na minha busca por esses “leitores perfeitos” encontrei mais um punhado de personagens... apenas um punhado. Pensei em muita gente que, pesquisando melhor, já publicou um livro de contos, uma coletânea de poemas. Muitos colegas escritores me indicaram bons nomes, que eram grandes leitores, mas que liam apenas um ou outro nome de literatura nacional. Quem dera encontrar um leitor pipoqueiro, um traficante, um pastor evangélico... Mas talvez isso seja tarefa para um jornalista mais hábil. Ou utópico.
De toda forma, esses perfis deixam claro que, de alguma forma, a literatura brasileira ainda resiste, e existe. Que grandes leitores se tornem autores não é algo a se queixar, haverá espaço para todos, se o meio continuar se lendo. Porém eu, pessoalmente, prefiro sempre que a literatura alcance novos meios, novos cenários.

Não por acaso, acabei me casando com um desses animais raros, o chef de cozinha Murilo de Oliveira, 28 anos, de Londrina, ávido leitor dos contemporâneos. Quando o conheci há quatro anos, ele mesmo nunca havia lido um dos meus, mas disse assim que descobriu que eu escrevia: “Sou fã do João Paulo Cuenca.” (Bem, ninguém é perfeito.) 

07/02/2017

MINHA MÚSICA






A banda Sasha Grey as Wife acaba de lançar disco novo, com o pomposo nome de “Ashtar Sherran I: Terra”. A banda é projeto de um homem só, Júlio Victor, de Volta Redonda, com participação de mais de trinta músicos e artistas, eu entre eles.

Júlio. 

Não conhecia o som dele, mas ano passado ele aparece na minha caixa de mensagens do Facebook me pedindo uns versos e uma locução para uma das faixas do disco a ser lançado, baseada em BIOFOBIA. Me mandou uma demo, gostei bem do que ouvi e sofri para escrever e gravar algo com minha voz sofrida.

Das cinzas ao pó
Do pó se brota
Sementes irrompendo da terra
Cogumelo rompendo da bosta
Se a natureza é mãe, é má
A natureza é madrasta
Para se adestrar a mata
É preciso poder, é preciso podar
Derramar sangue, suor e ter fé
Fé no Inferno

 “Biofobia – Freak Fiction” é apenas uma das onze faixas que fazem parte desse novo trabalho, que mistura pós-punk, shoegazer e metal com spoken Word. E o álbum é ÓTIMO.

Além de grande guitarrista e compositor, Júlio Victor é um poeta. Se pouco se pode compreender do que ele canta em inglês, as declamações em português são incríveis, como em “Iphone Simulator 97” em que ele despeja rajadas sobre uma ex-pretendente ou em "Trans Crux" em que ele faz uma crítica mordaz à religião em crônicas cotidianas. 

Fiquei orgulhoso de fazer parte do disco. Mais do que ser reconhecido pelos consagrados, é lindo ver que estou ecoando em novos talentos. Significa que a coisa permanece e pode ir além...

O disco pode ser ouvido na íntegra aqui: Sasha Grey


Não é a primeira vez que participo de uma dessas. Minhas parcerias com amigos queridos da MPB (Arthur Nogueira, Thiago Pethit, Filipe Catto), nunca saíram do papel, mas já tive boas experiências no meio alternativo, como letra e locução no disco da extinta banda de metal Last Pain (“Drama Queen”) e, claro, a letra de “Mastigando Humanos”, para o primeiro disco solo do pós-emo Daniel Peixoto, que acabou sendo batizado por mim.

Engolindo o underground
de Artur Alvim a Ana Rosa
se a morte é inevitável
que então seja saborosa

Lipídios, glicídios, suicídios na minha janta
Mendigos, meninos, bem-vindos à garganta.

Mastigando Humanos
Mastigando, hermanos
Mastigando, manos
Mastigando

Se o crime é arriscado,
mesmo pra forrar despensa
Abra a boca e feche os olhos
no fim, o creme compensa

Já dizia titio Freud,
tudo é sexo, tudo é oral
Para um réptil como eu
rastejar não é tão mal

Lipídios, glicídios, suicídios na lancheira
Carpaccio, cachaça, canudos na carreira.

Mastigando Humanos
Mastigando, hermanos
Mastigando, manos
Mastigando




Minha relação com a música é mais profunda do que meu talento musical, infelizmente. Estudei piano na adolescência, e cheguei a tocar teclado numa banda de glam rock no final dos 90, entre os 19 e os 21 anos. Lá eu só compunha melodias – mas a banda estava longe de ser boa, é claro. Depois segui num projeto solo, uma espécie de proto-Tetine, que era pior ainda. Mas me orgulho das gambiarras que fazia na época. Com um teclado Yamaha, vários cabos e um gravador analógico em K7, eu conseguia gravar músicas com vários canais vocais... bem, se é que se podia chamar aquilo de “músicas”.

Eu, pianinho. 

Minha experiência mais profissional na música foi como compositor de jingles. Ao menos, fui pago por isso e as músicas foram ao ar nas maiores rádios do Rio Grande do Sul. Quando trabalhava como redator publicitário em Porto Alegre (entre 2000 e 2002) criei algumas dezenas de letras de jingles para Zero Hora, Telefônica Celular, Leite Elegê. Era o que me dava mais prazer naquele trabalho, apesar de todas as limitações do formato. Ainda tenho os jingles em MP3.  Eles entram como merchans no shuffle do meu iPod.

O mundo não para quando você está de férias
Cultura, economia, diversão e coisas sérias
No carro, na praia ou na beira da piscina
No litoral gaúcho ou de Santa Catarina

O mundo gira, não dá pra ficar de fora
O mundo viaja com a sua Zero Hora
O mundo gira, não dá pra ficar de fora
O mundo viaja coma sua Zero Hora

Locução: Neste verão, receba Zero Hora também no Litoral.
Ligue XXXXXXXX e assine.

Ou

Não se sinta só se está sozinho
Se estou longe estou a caminho
Perto, estou bem acompanhado
Sempre caminhando ao seu lado

Nunca é tarde se há um segundo
Temos todo o tempo e todo o mundo
Conversando mesmo sem assunto
Divertindo ou trabalhando juntos

Olha pra mim, se não me vê
Estou a um alô de estar com você
Olha pra mim, se não me vê
Estou a um alô de estar com você

Locução: Telefônica Celular, a sua melhor companhia.

E tem o melhor de todos... que acho que encerrou minha carreira:

O bezerro pasta, mas é o pardal que voa triste
Por não poder mamar e viver comendo alpiste
O caranguejo tem desejo de viver como um cão
Pra tomar leite contente mas não é cachorro não

O peixinho dourado não quer ser só enfeite
Quer ser livre como um gato e poder tomar seu leite
Quem não chora não mama, quem não mama quer beber
Um copo, dois copos, três copos de leite Elegê.


Locução: Leite Elegê, até quem não é mamífero gosta. 


Tenho vontade de trabalhar mais com música. Comprar um teclado novo só para brincar. Escrever algumas letras. Mas nos tempos atuais a gente se concentra mais no que vai pagar o almoço de amanhã...

Sim, isso é real. Sim, isso foi publicado. 

02/02/2017

MINHA VIDA COM SAMARA


Em 2002, logo após assistir ao primeiro “O Chamado” no cinema, fui pesquisar mais pela internet. Os tempos eram outros, e muitas das informações sobre o filme vinham de blogs falsos, que diziam que a trama era baseada numa história real (ou numa lenda urbana). Um dos blogs dizia ter as imagens originais da fita que inspirou o filme – e alertava para o risco de assistir.

Eu naturalmente assisti. Era um vídeo parecido, mas diferente do que tinha visto no cinema, mais curto, com uma pegada mais oriental. E quando o vídeo acabou, o telefone tocou.

Eram três horas da madrugada.



Eu estava na casa da minha mãe, ela atendeu no quarto dela. No dia seguinte, perguntei se o telefone tinha mesmo tocado. Ela confirmou, e disse que ninguém falou nada do outro lado.

Mais do que uma crença na maldição, na época fiquei me perguntando se haveria possibilidade de o próprio site fazer uma coisa dessas, hackear o número de quem havia dado play. Por via das dúvidas, passei o vídeo para frente, claro.

Sete dias depois, ninguém morreu.



Não só por isso, “O Chamado” permaneceu para sempre como um dos meus filmes de terror favoritos. Cheguei a comprar a versão original japonesa, mas, talvez por ter assistido depois, não teve o mesmo impacto (ao menos descobri que dela é que havia sido tirado o estranho vídeo que assisti naquela madrugada). A versão americana tem suas falhas, claro; acho a maior delas mostrar o rosto infantil da Samara, que deveria ter sido guardado apenas para a cena demoníaca final. Mas o clima, a fotografia, a fita e a investigação são imbatíveis.

Comprei também o romance que deu origem a tudo (traduzido para o inglês), de Koji Suzuki. É mais uma ficção científica metafísica do que terror; tem toda uma explicação sobre as ondas de vídeo, os males que causam. Além disso Sadako (a Samara japonesa) é uma ADOLESCENTE HERMAFRODITA, não uma criança demoníaca. É ler para crer. 
Minha edição americana de "Ring", de Koji Suzuki.

A continuação de 2005 não me empolgou em nada. Detestei que abandonaram a premissa da fita e a ideia de que “Samara só precisa de uma mãe”. As sequências orientais eu nunca assisti.



Agora chegamos ao terceiro filme americano, que está sendo adiado há quase dois anos. “Rings” (que foi anunciado aqui como “Chamados” e depois virou “O Chamado 3”) é uma bagunça. Faz jus ao seu título brasileiro final, porque parece três filmes em um. Começa com uma espécie de culto cyber de seguidores de Samara (que vão passando a maldição de um para o outro) – uma ideia interessante, que derivou de um curta lançado entre o primeiro e o segundo filme, chamado justamente de “Rings”. (Ele pode ser encontrado com o nome “Círculos” no box em DVD com os dois primeiros filmes, lançado no Brasil.)

Entretanto essa seita é apenas um ponto inicial; dela o filme migra para mais uma investigação sobre o passado de Samara, com um casalzinho totalmente sem carisma, que não descobre nada de interessante, com um roteiro tosco de doer. No terceiro ato, o filme desanda de vez com um novo vilão. Sem dar muitos spoilers, parece cópia de outro filme de terror recente e perde totalmente o rumo.

Enfim, só não é uma grande decepção porque eu já esperava algo assim... Mas acho que esse consegue ser pior do que o segundo.

Alguns até eu me recuso...

Falta agora uma nova grande franquia para o terror americano. Nunca consegui me entusiasmar por “Atividade Paranormal” e menos ainda por “The Conjuring” e seus derivados. “A Entidade” era um que prometia, mas que também desandou na sequência. Quanto à Samara, parece que as sucessivas cópias desgastaram de vez sua imagem. 

Volta pro fundo do poço, menina...

22/01/2017

DE VOLTA AO SECO



Na piscina da minha nova casinha.

Estou de volta a São Paulo depois de um mês de praia, casa com piscina, almoços e jantares sofisticados num restaurante de primeira linha. Até parece que não há crise. 

Recebidos pelo chef Murilo de Oliveira no Guató. 

Mas não é bem assim... Este ano não pude esquiar em Aspen e tivemos de vender um dos barcos de papai...

Meu lindo namorado. 

Delírios à parte, a temporada de praia passou longe de um período de opulência. Murilo foi para lá a trabalho e eu segui simplesmente por não ter mais nada a fazer. Surfei na crise e aproveitei a falta de trabalho como férias estendidas, sabendo que uma hora teria de voltar à dura realidade. 

Camarões a dorê do Murilo, os melhores do litoral norte. 

Com a crise editorial, crise nacional, diminuíram muito as traduções, os frilas, e nesse mês inteiro só revisei os comentários da editora sobre meu livro novo e fiz algumas notas de rodapé a mais para minha tradução de Frankenstein (que sai nos próximos meses na coleção de clássicos da Zahar). 


Gaia também aproveitou a casa nova. 

O resto do tempo oscilei entre o tédio, a tranquilidade e a diversão. Melhorou muito depois que saímos do puxadinho ordinário em que estávamos e Murilo conseguiu alugar uma casa incrível num condomínio no meio da mata. Pude enfim convidar amigos de férias (que deram o cano) e receber a família. Veio minha mãe, minha irmã e sobrinha. 

Café da manhã na varanda de casa. 

Nos últimos dias foi só chuva, o que foi bom para aplacar o calor, mas passou um pouco da conta. Com quase uma semana seguida de chuva, numa casa no meio da mata, estava tudo permanentemente úmido, roupas mofadas, chão molhado. Minha sobrinha só conseguiu aproveitar um pouco a praia porque é garota destemida, foi com minha irmã no temporal mesmo, e passaram horas lá. Para mim já incomodava dormir em lençóis permanentemente pegajosos. 

Aqui em São Paulo, a realidade já é mais árida. 

Voltei para cuidar das coisas (e das contas) do apartamento, resgatar contatos, tentar iniciar 2017. As perspectivas não são nada animadoras para quem trabalha com cultura. Fico pensando o que mais eu poderia fazer, agora que prostituição não é mais uma opção. (E prostituição também é cultura) Poderia ficar cuidando de casa, se meu namorado bancasse. O problema é que ele gosta de ler...

Tenho talentos para o crime, que também não são lucrativos.

Seguimos num novo ano onde ao menos (para mim) haverá livro novo. Seguremos o fôlego. Em 2020 voltaremos a sorrir. 

Fechando livro novo com grande vista.

01/01/2017

VIRADAS



2016 já deu faz tempo...

Então vim há dez dias para Maresias, litoral norte de São Paulo, onde Murilo está trabalhando.

Trilhas. 

Ele veio há um mês comandar o Guató, restaurante do recém inaugurado hotel-butique Maui. Os donos há tempos o estavam sondando e o convidaram para o desafio. Murilo teve carta branca para criar o cardápio, contratar o pessoal; é um restaurante contemporâneo sofisticado, também com serviço de bar e de praia.

O cardápio dele de reveillon. 
(Mais do hotel e do restaurante aqui: http://www.mauimaresias.com.br/)


Apesar de todo o glamur, na prática ele está ralando todos os dias, de manhã até de madrugada, não só comandando os cozinheiros, mas na maioria das vezes pondo a mão na massa. Para ele tem sido uma grande experiência.

Com o restaurante fechado, fez nossa ceia de Natal. 

No Natal,  o movimento estava tranquilo então ficamos dois dias com o hotel literalmente só para nós, hospedados numa suíte master(chef). Com Murilo de plantão para os funcionários tirarem folga, ficamos na piscina tomando bons drinques e (o melhor de tudo) ouvindo minhas próprias playlists. Acho que nunca mais terei a experiência de ter uma piscina de hotel só para mim, tomando gin tônica e ouvindo Scott Walker.

"Se isso é estar na pior..."

Na última sexta, a querida gerente, filha do dono, também deu folga para o Murilo e nos convidou para passear de barco com alguns hóspedes, por ilhas próximas. Deu até para mergulhar e ver tartarugas (bem, uma tartaruga).


Reveillon Murilo passou trabalhando e eu participei da ceia do hotel como convidado, com os donos. Prestes a dar meia noite conseguimos todos sair para a praia.

Virada. 
O resto dos dias foram menos felizes. A praia é linda, a água é transparente, mas está quente demais e não tem muito o que fazer sozinho, enquanto ele trabalha. Murilo alugou temporariamente um puxadinho num lugar um pouco afastado, que parece a vila do Chaves, mas menos divertida. É lá onde estou ficando; é só um quarto e sala/cozinha, então não dá para convidar os amigos, infelizmente. E quando os vizinhos não estão ouvindo um eletrônico bagaceiro no último volume, o proprietário está martelando, serrando, lixando, seja 7h da manhã, seja 11h da noite. Não tem internet, ar-condicionado, televisão, nem dignidade. Murilo não está dormindo muito, pobrecito, mas acho que quem mais está sofrendo é nossa coelha, com o calor e o barulho.

Eu aproveitei para ler – quase um livro por dia, de Julián Fuks e Elvira Vigna às biografias da Rita Lee e João Gordo – e terminar de revisar meu livro novo.


Se conseguirmos um lugar mais tranquilo, fico mais umas semaninhas. Senão, volto para São Paulo na próxima semana. Não sei o que me espera por lá,  não sei o que me espera em 2017, mas temo. Temo que nada espere por mim.

Encarando 2017. 


16/12/2016

BEIJOS DO GORDO





Termina hoje o já "lendário" Programa do Jô, um talk show que estabeleceu um novo formato aqui no Brasil. Desde o final dos anos 80, quando estreou no SBT, mudou pouco, mas despertou todo tipo de reação, de cultuado a ridicularizado, de entretenimento cabeça a besteirol descartável. Apesar da produção requintada, os méritos todos sempre estiveram com Jô Soares. O programa era dele e era ele. Ele que conduziu milhares de conversas. Levantou centenas de carreiras, e também foi muito criticado por sua vaidade; constantemente parecia querer usar o entrevistado de escada para suas (requentadas) piadas. Porém não se pode negar o mérito de alguém que fazia três entrevistas por dia, trazendo desde personagens do povão até a alta intelectualidade.

Se a soberba intelectual do Jô por vezes gritava, hoje os talk shows são entregues à celebração da ignorância. Não temos ninguém com a gama de repertório para substitui-lo (nem parece mais haver espaço para isso). Bem ou mal, era o espaço mais democrático para a literatura (e as artes em geral) na TV aberta.

Hoje pipocaram entre meus amigos do Facebook fotos, lembranças e histórias de suas entrevistas no Programa do Jô. Foi um divisor na carreira de muitos e não posso negar que tenha sido na minha. Estive lá quatro vezes, além de uma reprise. E agora me pego lembrando de tantas histórias de bastidores…

VAMOS AOS PODRES!!!


- Quando estreou, no final dos anos 80, minha mãe era uma grande fã. Chegou a comprar uma televisãozinha PB de dial (eternizada em BIOFOBIA) para assistir as entrevistas na cama. Lá por 2011, 2012, quando ela tinha publicado seus primeiros livros, ela foi convidada, mas recusou. Dona Elisa é uma escritora reservada.

- A primeira vez que eu estive lá, na verdade, foi provavelmente 96 ou 97, como plateia, assistindo com minha faculdade.

- Fui gongado duas vezes antes de participar. A primeira vez foi em 2003, logo após lançar meu primeiro livro, a segunda foi em 2005, lançando Feriado de Mim Mesmo. Funcionava assim: a produção ligava e fazia uma pré-entrevista para ver se rendia para o programa. Duas vezes disseram sem rodeios: não rende, não tem graça - a produção nunca foi das mais simpáticas comigo. Uma semana depois dessa segunda dispensa, em 2005, ligaram de volta dizendo que o Jô havia insistido para fazer. Foi assim que rolou da primeira vez.

- Essa primeira entrevista, talvez por eu ser novidade, talvez por ser um belo jovem varão, talvez pelo programa estar mais em alta na época, foi um verdadeiro divisor de águas para mim. No dia seguinte eu estava recebendo ligações, convites e xingamentos. Na série de reprises do programa que a Globo exibia no ano seguinte, fui a primeira entrevista reprisada.



- Voltei em 2006, com o lançamento de Mastigando Humanos. Foi minha pior entrevista lá. Entrei depois de dois blocos loooooooongos da Suzana Vieira apresentando seu novo marido, que na época era aquele policial cafajeste que já morreu. Entrei tarde pra caralho, a conversa foi curta e o Jô basicamente queria repetir a entrevista que havia feito comigo no ano anterior. Por sorte, essa é a única das minhas participações no programa que não pode ser encontrada no Youtube. (Eu mesmo também não tenho nenhum registro).

Isso é tudo o que tenho de registro dessa segunda entrevista. 

- Falando em Suzana Vieira, os 5 minutos que estive nos bastidores com ela, destratando toda a produção, foram suficientes para considerá-la a pior pessoa do mundo.

Com Ale Matos, esperando para entrar. 

- Minha terceira entrevista foi para o lançamento de O Prédio, o Tédio e o Menino Cego , em 2009. Foi uma entrevista suave, sem grandes percalços, mas sem grandes repercussões.

Mas eu tava bonitinho, né?

- A última vez que estive lá foi em 2011, no lançamento de Pornofantasma. A entrevista estava marcada para semanas na frente, mas anteciparam num dia de tempestade e alagamento em São Paulo, com aeroporto fechado e muitos convidados não conseguindo chegar ao estúdio. Me ligaram em cima da hora, não pude nem me depilar... Talvez por isso senti o Jô meio despreparado, talvez um pouco velhinho, meio pescando. Mas quando terminou a entrevista ele disse: "Você sabe que gosto muito de você, né?" Fiquei enternecido.



- Sem dúvida o programa lançou meu nome para um grande público, mas não sei se refletiu muito na venda dos livros. As entrevistas também me venderam mais como um personagem bizarro - ex-escritor de disk sexo, performer de auto-mutilação, barman de "prostíbulo gay"- do que como escritor. Ainda assim, tenho de reconhecer que sempre deram espaço para eu falar dos livros, ainda que não tenha sido o que mais atraiu a audiência...


- Nunca houve nenhum corte em nenhuma das entrevistas. O que eu falei foi integralmente no ar, como se fosse ao vivo (embora as entrevistas todas fossem gravadas durantes as tardes de segunda, terça, quarta e quinta).



- Meu contato com o Jô também foi quase integralmente só o que foi ao ar, tirando alguns segundos pós-entrevista de "obrigado, volte sempre". Ele não costumava receber convidados no camarim, você só o vê quando vai ao estúdio. Fora isso, eu o encontrei uma vez numa galeria de arte e uma vez no show do Rufus, mas foram só rápidos cumprimentos.

- Os acompanhantes que foram comigo nessas quatro entrevistas foram: 1a) Daniel Luciancencov, meu namorado na época e fotógrafo da capa do Feriado de Mim Mesmo. 2a) Marco Túlio, ilustrador do Mastigando Humanos, e minha amiga escritora Cris Lisbôa. 3a) Alexandre Matos, ilustrador de vários dos meus livros. Na 4a vez fui sozinho.


- Participei de  vários outros programas (Galisteu, Monique Evans, Peréio, Metrópolis, Edney Silvestre, Dr. Kurtzman), mas nunca foi um EVENTO como esses e nunca teve um décimo da repercussão.

- E não, nunca paguei nada para participar do programa, obviamente. Muito menos as editoras, que mal investem nos convites das noites de autógrafo.

- Claro que não consigo assistir aos vídeos das entrevistas. Não me arrependo de nada, mas é outro eu lá, fico constrangido.

Termino orgulhoso de ter feito parte, agradecido ao querido Jô, melancólico por saber que ficou no passado... O que será hoje dos belos jovens novos existencialistas bizarros?

Bem, provavelmente é a vez do Youtube.

Beijo no gordo. 



NOVO BLOG VELHO

"Na minha opinião, teu blog merece uma nova cara, mais clean. Acho meio brega. Não combina com tua idade e tua maturidade profissiona...