15/08/2017

LEVE NEVE

Com minha herdeira, a Trevosinha Valentina. 

Lançamento ontem em São Paulo. São Paulo é o que conta - é minha casa, minha base, daqui que espero que tudo saia. E lançamento depende sempre disso mesmo: base, família, amigos. Lançamento é feito disso. A gente sempre pode se arriscar em outras cidades ("a gente pode até penetrar uma moradora local"), mas dentro de outros eventos, festivais, lugares em que a gente esteja participando/ganhando como palestrante, e toda venda seja lucro. Para reservar uma livraria, sentar numa cadeira, ficar esperando para autografar, tem de ser lugar com uma bela base, como aqui. 

Xerxenesky e Tati Bernardi, gostosos pra cacete. 

Lançamento é um evento chato, vamos combinar. A gente vê uma porrada de gente, mas não tem tempo para conversar. Quem vai pega fila, paga pelo livro, e se consegue uma tacinha de vinho é muito. Eu não iria ao lançamento de um escritor que (admiro mas) não conheço. Talvez nesse mundo de escritores funcione como um networking, sei lá. Prefiro sentar para assistir a um debate. 

Ilana Casoy aqui é musa. 

Dito isso, o lançamento de ontem foi lindo. Cheio, mas não lotado, pude conversar brevemente com queridos que só conhecia virtualmente, e queridos que há muito não via. Também lindo contar com o prestígio de escritores que tanto admiro, das mais diversas estirpes: João Silvério Trevisan, Marçal Aquino, Tati Bernardi, Antônio Xerxenesky, Ilana Casoy, Marcelo Maluf, Reynaldo Damazio, Ricardo Ramos Filho, Cláudio Brittes, Santana Filho...


Trevisan é mito. 

Pra mim foi na medida. Porque senti o carinho genuíno de todo mundo que estava lá - já tive lançamentos bem mais concorridos, em que tudo era meio um deslumbre por um hype passageiro -, e também lançamentos às moscas, em períodos de baixas.

Assim, com minha alma nostálgica, fiquei pensando nos diversos modelos que experimentei, nos lançamentos aqui de São Paulo, onde tenho o maior público. E meu saldo é esse: 

Envergonhando a sociedade paulistana. 

Olívio (2003):
O lançamento foi dentro da cerimônia do Prêmio Fundação Conrado Wessel, que ganhei com o livro, no Museu da Casa Brasileira. Foi uma solenidade com um belo coquetel, a presença de convidados coxinhas de outros premiados, e uns moleques sujos que convidei. Comecei bem. 

A Morte Sem Nome (2004): Foi na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Arrisco dizer que foi meu menor público. Nem fotografei, mal me lembro... sério. 

Lancei com minha mãe (no centro) - e chocado mais do que tudo com o cabelo 90´s dela.

Feriado de Mim Mesmo (2005): Na Livraria da Vila da Casa do Saber. Minha mãe também estava publicando o primeiro livro dela, e fizemos um lançamento conjunto. O público rico dela garantiu a venda do meu. 

Foi um evento tão cheio e o fotógrafo tão lesado que só tenho fotos assim. 

Mastigando Humanos (2006): Esse foi um super lançamento, em que pude servir um coquetel de carne de jacaré com garçons modelos (sério) e presença de mega-super-sub-celebridades. Era o hype do Programa do Jô e derivados. Aconteceu na Livraria da Vila da Fradique e teve até protesto de gente surtada, por causa da carne de jacaré... Nada que parasse o fluxo, só um leve entupimento das vias. 

Dá um google que tem uma porrada de fotos desse dia. 

O Prédio, o Tédio e o Menino Cego (2009): Foi um lançamento-balada, no extinto Volt. Bombou. Saiu em TODAS as colunas sociais (digo Folha e Estado e Vogue RG e Glamurama). Quem comprava ganhava o drinque exclusivo do livro... Mas o livro foi meu maior fracasso... Quem bebeu teve a vida amaldiçoada.  


Com meu tio Eduardo Nazarian, e chapeuzinho de festa, no Porno.
Pornofantasma (2011): Fiz um lançamento convencional na Livraria da Vila da Lorena, e foi mais ou menos como o de ontem. Cheio, mas sem grandes acontecimentos. Era também meu aniversário, então coloquei um chapeuzinho e ganhei alguns presentes. Nada mal para um livro de contos.

Só lembro do Arthur no Garotos Malditos, e mais ninguém. 

Garotos Malditos (2012): O pior de todos, se é que posso chamar isso de um lançamento. Foi dentro da Bienal do Livro de São Paulo, numa manhã de domingo, aproveitando uma mesa que eu ia participar. Achei que não era justo eu fazer um evento exclusivo para obrigar os amigos a comprar um livro juvenil. Não obriguei, ninguém foi. Se vendi meia dúzia foi muito... (sério), mas, hey, só o patrocínio da Petrobrás que ganhei pra esse livro pagou minha viagem para o Japão. 

Voltando aos eixos. 

BIOFOBIA (2014): Foi ok. Lançamento novamente na Livraria da Vila da Lorena (único lugar em que fiz duas vezes...), teve bons amigos, presenças ilustres como a diva Marina Lima, mas para todo o empenho que tive de trailer, divulgação, foi meio que decepcionante. 

Sou fã. 


Assim, para completar a avaliação de hoje, digo que a Blooks tem um espaço bem bacana para lançamentos de médio porte. Quase certo que estavam servindo apenas não-alcoólicos - meio vergonhoso não servirem nem um vinho branco. Mas eu também não me empenhei em fazer um EVENTO, porque você vê pelo histórico que a espuma não compensa. 

Próximo lançamento é dia 06/09, na Bienal do Rio. Aqui em São Paulo, só daqui a uns três anos, no livro novo, se o universo se sustentar até lá. 

Valeu a todos que foram, que mandaram mensagem, todo o carinho. Agora leiam, gostem, divulguem. 





13/08/2017

NOVOS RITMOS

Flipelô (foto de Leto Carvalho).

Já estive na Flip, Frankfurt, Guadalajara, Madri, Bienais e dezenas de outras mesas em festivais por aí. Mas esta foi uma das semanas mais importantes para minha carreira. Foram seis mesas em seis dias, seis cidades, em debates que exigiram muito de mim e apontaram para novas direções... todas as direções.

Segunda feira embarquei na Viagem Literária, um programa da Secretaria de Cultura do Governo do Estado que existe há dez anos, sempre convocando uma dúzia de autores para circularem por bibliotecas públicas de cidades do interior. Alguns autores já participaram diversas vezes, eu nunca havia sido chamado, e participando agora consigo entender possíveis motivos.

Parte do público de Adamantina. 

Meu roteiro foi Anhumas, Santo Anastácio, Mirante do Paranapanema, Dracena e Andradina, cidades a cerca de 600km a oeste de São Paulo, com populações entre 4 mil e 50 mil habitante. Em todas fui muito bem recebido nas bibliotecas, com um público que variou entre 20 e 80 pessoas.  A maioria das conversas não teve mediação nenhuma e o público era o mais heterogêneo possível: universitários, adolescentes, escritores locais, idosos em processo de alfabetização.

Em Mirante do Paranapanema: fofo. 

É um programa que exige muito jogo de cintura e improviso, para chegar lá e começar a falar com gente das mais diversas origens e formações. Nessa hora, entendo a dificuldade de seleção da curadoria. Um escritor mais tímido, travado ou inexperiente não rende. Alguém sem filtros pode escandalizar o povoado. Natural que chamem autores com perfil mais convencional, “fofinho”, gente de literatura juvenil e "contadores de histórias". Eu mesmo teria ressalva em ME chamar - olhava aquele público e pensava: "O que tenho a dizer pra esse povo, meu deus?" Achei bom que o convite tenha acontecido só agora, que sou um senhor de 40, calejado, adestrado, que consigo me conter para apresentar uma versão mais soft de discurso. Sabe-se lá o que teria rolado com minha versão despirocada do passado.

Ainda assim, foi preciso de fato um esforço para eu me conter. Mais do que “polêmico”, mais do que “tretoso”, meu ponto de vista sobre sexo, drogas, religião e conservadorismo é apenas sincero. Meus temas passam por isso, vivo numa bolha elitista, e é preciso muito tato para eu falar de literatura com um público evangélico, por exemplo.

Foi um exercício importante e acho que o resultado foi bem positivo. Pude falar de forma mais ampla como funciona a literatura no Brasil, e mostrar a eles outra visão de escritor. Surgiram muitas perguntas interessantes, e algumas totalmente aleatórias como uma senhorinha em Mirante do Paranapanema, que perguntou: “É verdade que o Didi (Renato Aragão) morreu?” A imensa maioria do público não me conhecia, e espero ter conquistado alguns leitores. Uma senhora disse emocionada que "aos 65 anos era a primeira vez que conhecia um escritor." Ganhei o apelido de “Menino Maluquinho” e as mesas terminavam com longas sessões de selfies com a plateia.

Com os adolescentes lindinhos de Dracena. 

Tirando as mesas, teve a viagem em si, saindo de São Paulo de carro com um motorista (o típico tiozão taxista homofóbico), dirigindo horas e horas por estradas vazias, presídios, pastos de gado, paisagens bucólicas. Não consegui conhecer muito das cidadezinhas, fiz apenas uma ou outra caminhada gostosa de manhã, e péssimas refeições em restaurantes de beira de estrada. Foi um encontro com outro lado de São Paulo. Uma experiência nem sempre prazerosa ou divertida, mas importante. E eu adoraria repetir.


Na Flipelô.
Terminando essa, já embarquei para Salvador, também minha primeira vez na cidade, primeira vez na Bahia, para participar da Flipelô, a primeira Festa Literária do Pelourinho, organizada pelo Sesc. Minha mesa foi em horário nobre, sábado 18:30, no teatro do Sesc no Pelourinho, com Mário Rodrigues e ótima mediação de Milena Britto. Ela deixou claro que gostou muito de Neve Negra e pude tratar em profundidade de algumas ideias do livro, o que foi revigorante depois de tantas mesas de apresentação básica que fiz esta semana. Pena que o tempo de debates da Flipelô era tão curto, menos de uma hora, porque a plateia lotada pôde participar pouco e quando começava a esquentar tivemos de encerrar. Em seguida, autografei o livro novo e encontrei gente queridíssima que só conhecia das redes e que estuda minha obra na Bahia. De lá esticamos para a noite em Santo Antonio, também na companhia de Ana Bárbara, uma das minhas leitoras mais queridas e fiéis.

Sol em Salvador. 

Salvador ainda teve caminhadas pela orla de Itapoã, uma piscininha básica no hotel na manhã de domingo e muita comida. Consegui provar acarajé, abará, moqueca, sarapatel e espetinho de bode em apenas dois dias. E acho que está decidido que a comida baiana é minha comida favorita do Brasil – mas também, qual é a concorrência?

Primeiríssima coisa que fiz na Bahia foi comer uma moqueca de camarão. 


Agora o resto de agosto está mais tranquilo – em setembro terá Bienal do Rio, debates no Paraná e na Colômbia. Mas antes tem o lançamento em São Paulo, finalmente, nesta segunda 19h, na Blooks do Shopping Frei Caneca. A Folha já deu uma matéria grande sobre o livro neste sábado. Dá para ler aqui:  



Folha de sábado. 


05/08/2017

FRENTE QUENTE

Lançamento aqui em SP é segunda- 14/08 - na Blooks do Frei Caneca. 

Tem sido uma merda de ano para mim, como tem sido para você, não se engane. No financeiro passei os primeiros 4 meses sem receber um tostão; no profissional se congelaram as traduções e os direitos autorais; no pessoal tenho um marido em outra cidade, que mal vejo. Felizmente, por os todos meus esforços, consegui emplacar uma série de viagens que podem fazer inveja a quem vê de longe - e o objetivo das redes sociais não é esse, fazer inveja? Mas tenho vivido basicamente disso, e de vez em quando dá para ser feliz. 

Página inteira em BH. 

Esta semana estive em BH, meu quarto lançamento aqui, graças ao Sempre um Papo do querido Afonso Borges. Eles sempre têm uma organização e assessoria impecáveis. Fiz mais uma mesa com Ana Paula Maia, que trouxe a maior parte do público, então saímos de lá para comer javalis em homenagem a seu livro. (te digo, meu jacaré é mais saboroso)

O porco selvagem da Namaia. 

Agora começo mais uma turnezinha de debates, como fiz pelo interior do RJ, mas sozinho e pelo interior de SP, pela Viagem Literária, do Governo do Estado de SP. O roteiro é o seguinte: 

Anhumas -7 de agosto - 19h
Mirante do Paranapanema - 8 de agosto - 19h
Santo Anastácio - 9 de agosto - 19h
Dracena - 10 de agosto - 14h
Adamantina - 10 de agosto - 19h

Todos acontecem gratuitamente, em bibliotecas públicas de cada cidade. É um programa que já está em seu décimo ano, eu tenho quinze anos de carreira, sou um autor legitimamente paulistano e já era hora de me chamarem. Primeira vez que faço, com muito orgulho. Para saber mais, veja aqui: 



De lá, sigo direto para a FLIPELO, a primeira Festa Literária do Pelourinho, em Salvador, Bahia. Assim como em 2003 abri a Flip de Parati - participei da primeira mesa, da primeira edição - agora estarei nessa; se não como primeiríssimo, com muito orgulho de estar em horário nobre, num sábado. Será minha primeira vez em Salvador, primeira vez na Bahia, que há tanto tempo eu queria conhecer. Pena que, espremido entre esses eventos, ficarei apenas 30 horas na cidade. Bem, dá tempo de comer um acarajé, uma moqueca e um soteropo... Er, nevermind. Aqui: 

Literatura Escuridão Adentro: 
Teatro Sesc-Senac Pelourinho
12/08 - Sábado - 18:30
Mário Rodrigues e Santiago Nazarian
Mediação de Milena Britto   

De lá, volto direto para o lançamento em SP, que será na livraria Blooks do Shopping Frei Caneca, que é das melhores livrarias da cidade e eu literalmente consigo ver da janela do meu apartamento. Duvida?
Olha a Blooks fotografando AGORA. 


Aqui, a Blooks. (É que meu fone é zoado.)
(Ficarei em casa espiando pela janela e só sairei quando estiver lotado.)

E pode parecer muito, mas por enquanto é tudo para agosto. Entrarei em coma até setembro, quando haverá minha mesa e lançamento na Bienal do Rio, dai uma mini turnê pelo Paraná, daí uma mesa na Fil da Colômbia, que é um país a que já fui algumas vezes e é sempre incrível. 

Com Afonso e Ana Paula em Minas. 









30/07/2017

NEVE DE CARVÃO



Acabou essa Flip? Podemos voltar à programação normal?

Quinta agora farei o primeiro lançamento de Neve Negra, em Belo Horizonte, em companhia de Ana Paula Maia, que também estará lançando seu Assim na Terra como Embaixo da Terra. Teremos um bate-papo, seguido do autógrafo nos livros.

O evento faz parte do Sempre um Papo, de que já participei diversas vezes, organizado pelo queridíssimo Afonso Borges. Não à toa, Afonso é uma das pessoas para quem dedico o livro, por toda a força que me dá na carreira, como curador e amigo. E agora se torna uma inspiração também como autor.


Lançou no mês passado Olhos de Carvão, seu primeiro livro de contos, pela Editora Record, que tive o prazer de ler no começo do ano, ainda nos originais. Como bom mineiro, traz causos que flertam com a crônica - como bom jornalista -, e mergulham na prosa poética. É um olhar bem sensível e externo de casos de amor, de decepção, com uma nostalgia do outro; fico curioso para saber o que ele fará em romance.

"No sinal, parado no olhar da modelo do outdoor. Veio a Igreja de Lourdes, o juramento. Ambos com dezessete anos, um casal lindo de dar inveja. Mãos dadas, rezaram e pediram que Deus desse forças para que aquele amor se consolidasse. Promessas de amor eterno, os santos ao redor, as abóbadas, a luz roxa atrás da Nossa Senhora. O primeiro amor dos dois. Prevendo sofrimento, choraram. Mas não faziam ideia do que estava por vir."

Com os dois Borges, no Fliaraxá. 

Falando de lançamentos alheios, recebi esta semana O Inferno É Logo Ali, do Mike Sullivan (que não, não é o parceiro do Paulo Massadas, e imagino quantas vezes ele ouviu essa piada na vida...). Daqueles que se pega para dar uma espiada e se acaba lendo inteiro numa sentada. São contos em prosa poética, ou poemas narrativos, que me impressionaram mais pelo lirismo do que pelo universo de michês, drogas e bebedeira. Não é um universo nada novo, mas (para mim) é sempre bem-vindo. E se já li coisas parecidas, raramente são escritas com tanta propriedade ou paixão. Gostei bem.

"Gostar de dar o cu até posso entender. Agora insistir nessa porra de ser escritor também, aí já é demais. Vai morrer de fome! Seja só viado, meu filho. Dos males, o menor."

Bela capa. 


23/07/2017

COMEMORAÇÕES


Fim de semana em Maresias. 

A neve enfim chegou. Semana mais fria do ano no Brasil coincidiu com a publicação de meu nono livro, Neve Negra, pela Companhia das Letras. Nove livros é muita coisa, mas nunca é apenas “mais um”; cada livro é uma história dentro e fora das páginas, é uma conquista diferente, é um espaço físico que minhas ideias ocupam no mundo.


O romance nasceu de um convite do Joca Terron e da RT Features, que pediu uma história de terror e já comprou os direitos para cinema. Tive o privilégio de publicar sempre por grandes editoras, mas é um orgulho especial ser recebido com tanto carinho pela Companhia das Letras, fazendo o que faço, sem concessões....

...bem, talvez só a concessão do título. O título original era “Trevoso”, que se justifica bem para quem lê o livro, mas talvez não tivesse tanto apelo literário e comercial. A editora pediu outras opções. Eu mesmo vim com o “Neve Negra”, embora num Google básico já tivesse descoberto que havia um filme com esse título. Ninguém viu problema. Assim temos a minha Neve Negra.

O livro tem muito de neve, afinal. É um “raro registro ficcional da neve no Brasil” (na Serra Catarinense). Temos pouca neve no país, e menos narrativas que foquem esse contraste com o “sonho tropical”. Achei que essa noite tão única – anunciada por meteorologistas, esperada por turistas – gerava um bom cenário de terror.

O texto completo de orelha:

Na noite mais fria do ano, na cidade mais fria do Brasil, um pai de família volta para casa. Pintor de sucesso com uma arte de gosto discutível, passa boa parte do seu tempo em feiras e exposições no exterior. E ao chegar à sua cidade natal, na Serra Catarinense, tem início uma sequência de eventos que porão em xeque suas certezas.

Enquanto a neve cai lá fora e sua família dorme, um estranho ronda a casa e sua pastora-belga agoniza sangrando no quintal. Mas só quando seu filho de sete anos desperta é que de fato começa o pesadelo que acabará com o aconchego do lar.

Ambientado num raro cenário de neve no Brasil, este habilidoso misto de terror psicológico e drama familiar expõe paranoias ancestrais da paternidade: Não reconheço mais meu filho. O filho é mesmo meu? Há algo de errado com ele?

Nona obra de Santiago Nazarian, um dos autores mais originais da cena brasileira contemporânea, Neve Negra retrata a perturbadora luta de um pai contra os próprios demônios, num romance que mescla questões existenciais com o humor nego de que só Nazarian é capaz.

Para quem quiser um gostinho, as 20 primeiras páginas já estão no site da Companhia:



As noites de autógrafo começam em agosto. Dê uma olhada na aba “agenda”, aí de cima, que coloco tudo lá. Antes disso, já fui comemorar com marido, amigos e coelha.

Menu degustação de quarta passada. 

Quarta jantamos no Dom – Murilo ganhou de presente de onde trabalha; só tivemos de vender um rim para pagar as bebidas. Já comi em ótimos restaurantes pelo mundo, e consigo entender porque o Dom está lá no topo. É uma experiência gastronômica essencialmente brasileira, que gourmets e críticos internacionais não teriam em restaurantes estrelados em outros países. Pessoalmente, se eu fosse pagar aquele valor exorbitante, preferia estar comendo caviar, lagosta e foie gras a pirarucu, beiju e cumarú, mas vale como uma experiência para se ter uma vez na vida (tirando o pão de queijo; o pão de queijo é horrível-vergonhoso; colocaria a codorna como ponto alto).

Masterchefs na praia.  

Quinta já viemos para Maresias, onde Murilo participou com o Guató do Arraial  beneficente do Projeto Buscapé, junto a grandes chefs e Masterchefs. Recebemos um casal de amigos em casa e tivemos um ótimo fim de semana de solzinho de inverno.

Bárbara e Ambooleg, amigos das antigas. 

Passo a próxima semana aqui no litoral, já que temos uma casa grande e Murilo fica aqui por causa do restaurante. Como de costume não estarei na Flip, mas logo volto à estrada. 



17/07/2017

A QUEM POSSA INTERESSAR...

Eu e Raphael, apocalípticos e integrados. 

É aquele velho ranço: o autor que vende ressente não ser levado a sério, o autor que é levado a sério não vende. Meu querido amigo Raphael Montes tem tratado do tema há um bom tempo, e mais recentemente martelou nessa tecla em seu programa na TV Brasil, em entrevista com o editor da Record, Carlos Andreaza, e hoje em sua coluna no Globo (aqui: https://oglobo.globo.com/cultura/raphael-montes/).


Raphael é um autor comercial que vende bem, e tem um bom trânsito entre meios mais literários – seu programa talvez seja uma forma de manter esses laços -, mas levanta sempre a bandeira da literatura de entretenimento, que realmente precisa de vozes mais inteligentes e consistentes, como a dele. Entretanto, entra aí um ataque, muitas vezes velado, elegante, à literatura mais densa, propriamente literária.

“Autores que falam para meia dúzia de pessoas” ou “que escrevem apenas para outros autores” ou “chatos e herméticos” (como ele colocou na boca de editores estrangeiros em seu último texto). Esses seriam os que escrevem sem se preocupar com o leitor, mas que são destaque nos prêmios e cadernos literários. E eu me pergunto: não está cada um em seu lugar?

Poderia-deveria haver prêmios específicos para livros mais comerciais, categorias para livros de gênero, deveria afinal haver mais espaço para a literatura como um todo, mas não é de se estranhar que veículos literários divulguem as obras literárias, que veículos que falam para o meio apresentem o que há de mais sofisticado no meio, que o Prêmio São Paulo reconheça autores que talvez não sejam reconhecidos por milhares de leitores. Para os autores comerciais, há o sucesso comercial; para os adolescentes e consumidores de literatura comercial, já há uma infinidade de blogs, vlogs e canais de youtube (ou acha que esse povo vai ler a Quatro Cinco Um?)

As pulsões que levam autores a escrever são diversas. Vejo muito a molecadinha de hoje, que publica no Wattpad, que planeja sagas, preocupados com essa comunicação com o leitor – não só na escrita, como também na interação pelas redes sociais. Pode se dizer que são esses que formam o público leitor? – talvez formem um público leitor apenas para esse tipo de literatura. Mas há também aqueles que não se comunicam com seu tempo, que têm uma visão particular de mundo, que encontram na individualidade da escrita um canal para expor verdades pessoais... e discutíveis. Esses estão fazendo literatura. E talvez atinjam só meia dúzia de pessoas, talvez só se comuniquem com um meio restrito, mas estão se comunicando profundamente, e estão fazendo a diferença.

Em seu texto no Globo, Raphael sabiamente aponta Machado de Assis, como um autor que foi popular no seu tempo. Bem, temos autores literários populares hoje em dia. Mas Kafka, para citar um grande, não foi. E talvez esses autores que falem com meia dúzia de leitores hoje, que ficam satisfeitos apenas de terem conseguido imprimir sua voz, atinjam centenas de milhares no futuro, fazendo realmente a diferença. Talvez para se atingir milhares no futuro, para permanecer (a grande pulsão de tantos grandes autores), seja preciso mesmo não dar ouvidos as ondas do presente ou “ao mercado”, ou “ao público leitor”.  

Seria ingenuidade colocar que todos os literários são motivados apenas por suas pulsões internas. Se os premiados hoje não estão preocupados com o grande público, muitos estão preocupados com o meio, formatam livros para o Jabuti, para o Prêmio São Paulo. Muitos fazem isso até inconscientemente, contaminados pelos vícios acadêmicos de seus mestrados, doutorados. Essa formatação envolve alto nível de qualidade, sim, por isso tem seu valor, mas também restringe os temas, as fórmulas...

Tenho feito muitas mesas e conversado muito com poetas – autores que não só não têm expectativa de atingir um grande público, muitas vezes produzem de forma a não atingir um grande público. Há a poesia oral, que só é transmitida ao vivo no evento, há as diversas edições artesanais, cartoneras, de poucas dezenas de exemplares, que são feitos para aquela ocasião e nunca mais. São como os atores de teatro que não têm interesse em migrar para televisão.

Felizmente hoje os autores que “vendem meia dúzia de exemplares” têm encontrado formas de sobreviver da escrita – com os eventos literários, as oficinas, as traduções. Em Feiras e Bienais, leitores da literatura comercial se deparam com “aquele velhinho muito louco”, que fala coisas estranhas, que os faz pensar; podem não comprar o livro dele, ou podem comprar o livro e não gostar, mas, no palco, esses “autores de meia dúzia” ainda fazem a diferença, por isso muitas vezes circulam mais pelo Brasil do que os autores que vendem, e que têm menos a dizer. As Flips e Fests são encabeçados por autores cabeçudões porque esses têm o que dizer. 

E há ainda os acidentes... as surpresas... tantos autores que escrevem para “meia dúzia de seus pares” e que, por algum feliz acaso, acabam rompendo a barreira, conquistando algumas dezenas de milhares, sem concessões. Conquistas assim não têm mais sabor?

Onde eu me encaixo nessa? Sempre me pergunto. Sinceramente, nunca esperei ser sucesso de vendas, nem formatei livros para o Jabuti. Talvez eu esteja velho para ser tão idealista, mas ainda acredito que tenho algo diferente  a dizer, isso é o que move, fazer algo diferente. Ganhei um prêmio ou outro de valor relativo, tive apenas um livro que vendeu algumas dezenas de milhares (o do jacaré). Mais do que literato, mais do que comercial, me vejo como um autor alternativo (termo que considero mais exato do que “underground” ou “maldito”, afinal sou rapaz branco dos Jardins). Me formei em publicidade na FAAP, trabalhei até os 24 como publicitário, e se larguei a segurança financeira dessa vida, não foi para me comunicar com o povão. Quero leitores, quero prêmios, mas isso só faz sentido para mim se for nos meus termos. Meus ídolos na literatura, na música, no cinema, nunca foram do primeiro time. Para mim a literatura será sempre o trunfo do individuo, onde posso comunicar um universo particular, a quem possa interessar.



  

10/07/2017

CONTRAPEDAL

A mesa de ontem. 

Há algumas semanas me pediram indicações de escritores brasileiros com alguma relação interessante com a América Latina. Apenas de cabeça fui dizendo meia dúzia de nomes e qual era a relação; então me convidaram para mediar uma mesa no Fest Contrapedal, tradicional festival de cultura latina do Uruguai que chegou nesse fim de semana pela primeira vez a São Paulo.

Os autores eram Carola Saavedra - premiada escritora nascida no Chile -, Joca Terron – que organizou uma coleção de livros hispano-americanos -, Douglas Diegues – o grande nome da poesia em portugnol selvage -, Ronaldo Bressane – que lança um romance que passeia pela América Latina -, e o onipresente Marcelino Freire – que já trouxe tantos autores latinos para cá. Tivemos um debate na tarde do último domingo, no Centro Cultural São Paulo, dentro da programação do Contrapedal.

Lindo ver a plateia cheia e um bate-papo tão fluído, mesmo com tanta gente participando. Estou longe de ser especialista no tema, pesquisei bem sobre os autores, e uma boa mesa é construída assim, dando as deixas para que quem sabe possa discorrer. Esse é o lado fácil e gostoso de estar há quinze anos no meio, participando de mesas e acompanhando discussões. É uma pós-graduação em si. A gente aprende naturalmente. Eu, que “também escrevo”, tanto traduzo e escrevi dezenas de textos para Folha, Bravo, Estado, Suplemento Pernambuco poderia mediar mais mesas. Mas, ao menos este ano, não posso reclamar dos eventos literários – que abundam!

Com Dani Umpi. 


O Contrapedal também teve cinema, gastronomia e música. Aproveitei meu domingo no CCSP para conferir. Encontrei meu querido amigo Dani Umpi – escritor e cantor uruguaio, com quem sempre cruzo nas andanças mundo a fora -, e assistimos ao show de encerramento, do incrível (cantor paraense) Jaloo. Eu já gostava do som, mas o menino tem uma puta presença de palco; trouxe o CCSP abaixo, com uma petizada que cantava junto, dançava, tirava selfies, menino com menino, menina com menina, uma energia que depois deixava difícil acreditar que no mundo lá fora os tiozões ainda falam que “órgão excretor não reproduz”, ou mesmo que a molecada está matando travestis a pedradas...

Jaloo em casa lotada. 

Jaloo foi especialmente “refrescante” ´por um discurso que ouvi de alguns músicos e escritores no festival: da velha bandeira da latinoamerica contra o “Imperialismo” ou contra o “comercial”. Ele é um autor paraense mergulhado na música pop americana, nas divas gays, mas recicla isso com suas próprias referências, do techno brega, do urbano e do carimbó, canta (parte do repertório) em inglês (macarrônico) e com tudo isso cria uma identidade mais viva, de onde vive, do que se ficasse preso a purismos, regionalismos e tradicionalismos.


E essa foi uma ótima viagem que fiz em julho, a 40 minutos a pé de casa, cruzando a Paulista fechada.

O segundo semestre trará outras – já tem lançamento marcado em BH, RJ e SALVADOR, que nunca fui e tanto queria – e viagens pelo interior de SP e do Paraná. Vou atualizando tudo na aba “agenda.”

27/06/2017

OS MELHORES LIVROS DE TERROR DE TODOS OS TEMPOS



Dia desses rolava aquelas listas de “melhores filmes de terror” no FB. Já coloquei meus 20 aqui e poderia facilmente listar 30, 50... Então joguei o desafio dos dez LIVROS de TERROR - pouca gente conseguiu listar meia dúzia,. Muitos colocaram coisas como “A Metamorfose” do Kafka, “A Crônica da Casa Assassinada” do Lúcio Cardoso, e outros títulos discutíveis no gênero, indiscutíveis na qualidade...

Entendo bem. Embora eu seja fã de terror, principalmente no cinema, concordo que na literatura é difícil encontrar obras que tratem do gênero com consistência, ou com a profundidade que um bom livro pede – por isso essa confusão, de querer forçar para dentro do gênero obras que pendem mais para o surrealismo ou o thriller. Ainda assim, puxando pela memória, percebi que poderia facilmente listar 20, talvez 30 grandes livros de terror de todos os tempos.

O título de MELHORES LIVROS DE TERROR DE TODOS OS TEMPOS é certo clickbait. Não li de tudo, e obviamente é uma seleção pessoal. Talvez faltem obrigatórios como “O Bebê de Rosemary” do Ira Levin, ou “Tubarão”, mas só vi mesmo os filmes. De outros autores até que li bastante, mas não consegui gostar – então NADA de Lovecraft, Anne Rice e Dean Koontz. (Ok, do Koontz eu até gostava na adolescência, mas é trasheira, vai?). Também não coloquei esse horror mais juvenil – no qual o Brasil tem bons autores - mas coloquei bons autores brasileiros com um terror mais alternativo – e estou sempre atrás de novos/bons nomes. Tem aí vários que traduzi – mas muitos de terror que traduzi deixei de fora (não gosto de tudo o que traduzo nem traduzo tudo do que gosto). Há na lista alguns que podem não ser considerados terror no sentido clássico, mas entram pela perversidade e o efeito que provocam. Acho que o terror é mais potente quando associado à sexualidade – ou às perversões sexuais.

Mas chega de justificativas. Essa é apenas uma lista possível, em ordem mais ou menos aleatória, com pequenas sinopses ou observações:

"Die, monster!"

Drácula - Bram Stoker:
Clássico obrigatório, é dos meus favoritos pessoais – li pela primeira vez ainda na pré-adolescência. Apesar de tantas adaptações cinematográficas, para mim nenhuma supera o romance, principalmente a primeira parte no castelo. Dispensa qualquer sinopse, né?


O Retrato de Dorian Gray – Oscar Wilde: Novela sobre as armadilhas da beleza – um rapaz que vende a alma pela juventude eterna. Daquelas histórias que faz muito mais sentido em livro, porque cada um tem sua visão de beleza idealizada, cada um deve imaginar seu próprio Dorian Gray. E o humor dândi sarcástico de Wilde é imbatível. "Beauty is a kind of genius" ou "youth is the only thing worth having". Foi a obra que me fez querer ser escritor na adolescência.



O Exorcista – William Peter Blatty:
Uma alegoria de despertar sexual, através de uma menina à beira da puberdade, que é possuída pelo demônio. Também funciona bem melhor em livro, apesar da caracterização assustadora do filme.

Frisk – Dennis Cooper: Um dos meus autores prediletos, herdeiro direto dos beats e de Sade. O universo de Cooper é habitado por garotos pré-pós-púberes drogados, estuprados e assassinados. Difícil escolher um livro dele, mas esse é das coisas mais hardcores que se pode ler: pedofilia necrófila gay. Infelizmente, nunca foi traduzido no Brasil. (Eu bem que tentei com “God Jr., que é dos melhores e mais “leves”, pelo menos em termos de violência gráfica – mas é um que não daria mesmo para ser qualificado como “terror”.)

A edição da Zahar com tradução minha saiu em abril.

Frankenstein – Mary Shelley: outro clássico obrigatório, que eu li na adolescência, e que traduzi recentemente para a coleção de clássicos da Zahar; também fiz um texto de apresentação e as notas de rodapé. Fica entre um precursor da ficção científica e o terror gótico. Obrigatório.

Os cenobitas de Barker. 

Books of Blood – Clive Barker: Esse é um autor que acerta e erra feio. Criou um universo incrível, que mistura o terror metafísico de Lovecraft (de que não gosto) com uma sexualidade sadomasoquista (que acho mais bacana). “The Hellbound Heart”, uma de suas novelas mais famosas, é vergonhosa de mal escrita, mas gerou toda a franquia Hellraiser, incluindo os quadrinhos, que são melhores do que o livro. Porém a melhor amostra de sua potência está em Books of Blood, coletânea de contos publicados originalmente em seis volumes, que hoje podem ser encontrados reunidos.

It – Stephen King: Difícil escolher uma obra de King, mas It – A Coisa é uma ótima amostra. Romanção de mais de mil páginas, fascina não só pelo terror do palhaço Pennywise, como pela nostalgia da amizade entre os sete protagonistas mirins – que remete a “Conta Comigo”, filme que também é derivado de um texto de King. (E sim, meu “O Prédio, o Tédio e o Menino Cego” também bebe muito daí.)

Obras Completas – Edgar Allan Poe: Sei que colocar “obras completas” é meio roubar no jogo, mas é o volume que tenho aqui em casa, então não saberia identificar as obras separadamente. Gosto especialmente dos contos minimalistas como “O Poço e o Pêndulo” e “O Barril de Amontilado”. Porém não seria exagero dizer que a obra completa é uma aula sobre literatura noir.

A Volta do Parafuso – Henry James: Uma novela gótica de fantasmas, que também inspirou inúmeras adaptações – incluindo o filme “Os Outros” de Amenabar, que pega muito de seu clima: um casal de crianças isoladas numa propriedade rural, visitada por assombrações. Elegante, profundo, é a melhor amostra desse tipo de coisa.

Os 120 Dias de Sodoma – Marquês de Sade: Escrito na prisão, narra as torturas cometidas por quatro nobres a crianças, velhos, bebês, grávidas... É mais um manual de perversão do que um romance, com a última parte inacabada e publicada como uma espécie de “escaleta”. É tão absurdo que toma certo humor – não é a toa que o substantivo “sadismo” nasceu com o autor. Dele também li "Justine" em francês, na biblioteca da minha faculdade, que funciona melhor como história, mas se for para ler só um, certamente 120 Dias é o mais emblemático.

A edição da Leya com tradução minha (mas não é grosso assim, não, é fininho)

A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça – Washington Irving: Novela passada na Nova York do século XVIII, baseada em lendas locais de assombração. O Cavaleiro sem Cabeça da história é uma espécie de Mula sem Cabeça do folclore americano. O livro rendeu não apenas o (fraco) filme de Tim Burton, mas um desenho da Disney dos anos 50, narrado por Bing Crosby, que é bem mais divertido e fiel ao livro. A bela edição ilustrada publicada no Brasil pela Leya em 2011 tem tradução minha.

Carmilla – Sheridan le Fannu: Uma das primeiras novelas de vampiro – no caso, de uma vampira – tem um lesbianismo latente e foi uma grande inspiração para o Drácula de Stoker. Na trama, uma jovem abriga em seu castelo uma desconhecida vítima de um acidente e as duas desenvolvem uma estranha relação... O texto pode ser encontrado em português em algumas antologias, como a “13 dos Melhores Contos de Vampiros”, publicada pela Ediouro.

Obras Completas – Saki: Filhote de Oscar Wilde, Saki é pseudônimo de Hector Hugh Munro, escritor dândi do final do século XIX. Sua obra não se limita ao horror, mas tem belos contos do gênero, especialmente de lobisomens, com uma (homo)sexualidade latente. Coloquei as obras completas aqui porque também é o volume que tenho e não seria capaz de isolar os contos. Ainda que esteja em domínio público, e eu sempre proponha a editoras, infelizmente tem poucos textos traduzidos ao português, presentes apenas em antologias – incluindo dois na ótima “Homens, Lobos e Lobisomens” publicada pela Marco Zero em 2003. Foi por lá que comecei a conhecer a obra dele.

O Senhor das Moscas - William Golding: Romance do britânico vencedor de prêmio nobel, "O Senhor das Moscas" é um estudo sobre a teoria do bom selvagem. Sobreviventes da queda de um avião, um grupo de pré-adolescentes isolados numa ilha tenta organizar uma democracia, que acaba revelando seu lado perverso da dominação pelo mais forte. A edição comemorativa da Nova Fronteira, de 2006, tem texto de apresentação meu.
Com o verdadeiro JT LeRoy, a querida Laura Albert.

Maldito Coração – JT LeRoy:
Outra das minhas traduções. Pretensa coletânea de memórias de um garoto de rua, que passou por todo tipo de abuso na infância, acabou se descobrindo tratar-se inteiramente de ficção, escrita por uma americana de meia-idade. Para mim não importa, o universo de sexo, drogas e androginia criado por Laura Albert (a verdadeira autora) é assustador e fascinante.

O Estranho Misterioso – Mark Twain:
Recebi recentemente de presente de um leitor querido. No romance, uma aldeia da idade média acolhe um jovem “gracioso e sedutor”, que conquista a todos, mas se revela um anjo amoral, de nome “Satã”, causando desgraça por onde passa. Um divertido conto de fadas de terror.

Tripé do Tripúdio e Outros Contos Hediondos – Glauco Mattoso: Poeta cego, vítima de glaucoma, Glauco tem um olhar afiado para perversões, podolatria e fetiches em geral. Podemos considerá-lo pai da literatura snuff brasileira ou torture porn. Difícil escolher uma obra, e eu tenho uma dúzia aqui, que orgulhosamente recebi de presente do próprio autor. Mas esse volume de contos publicado numa bela edição pela Tordesilhas é uma ótima amostra. 

Hugo tá no título, na foto e na autoria. 

O Estranho Mundo de Hugo Guimarães – Hugo Guimarães:
Herdeiro de Glauco Mattoso e de Dennis Cooper, Hugo Guimarães é um jovem narcisista que pratica uma literatura extrema, ou “snuff”, de sequestro, tortura, morte. Onde mais se poderia ver o estupro de Bento Ribeiro? Apenas num livro. “Algumas coisas só podem ser feitas por escrito”, está na orelha, que não à toa foi escrita por mim. Foi publicado pela Edith.
A bela edição da Suma de Letras, selo da Companhia. 

O Vilarejo – Raphael Montes: Ele já se consagrou como o grande nome do policial brasileiro atual, mas esse seu romance de terror – ou uma coleção de contos interligados – é, ao meu ver, o mais divertido que ele já escreveu. No começo do século XX, os habitantes de um vila anônima, isolada pela guerra, pela fome e pela neve, sofrem a influência direta de demônios – ou seria apenas a natureza humana se revelando em extremos?

Com Samanta, na casa dela em Buenos Aires. 

Distância de Resgate – Samanta Schweblin:
Essa jovem escritora argentina conquistou o mérito raro de ser sucesso mundial de crítica, fazendo alta literatura, com uma novela que flerta com o terror e com o sobrenatural. Cavalos mortos, crianças do mal e um clima permanente de incerteza permeia a história de uma mãe e sua filha pequena, de férias numa casa de campo. Foi publicado em português pela Record.
Darkside sempre arrasa na parte gráfica. 

Onde Cantam os Pássaros – Evie Wyld: Tem certo parentesco com o livro de Schweblin, pela tensão, a trama fragmentada, a feminilidade e a ambientação rural. Nesse romance de uma jovem autora anglo-australiana, a protagonista vive sozinha numa ilha com seu cão, e se depara com mortes misteriosas de suas ovelhas, que remetem a traumas de seu passado. Foi publicado por aqui pela Darkside. 

Bela estreia.

A Forma da Sombra – Fernando de Abreu Barreto: Romance de estreia de um autor carioca, foi uma bela surpresa que chegou aqui em casa, e acabei resenhando para a Folha. O protagonista é um antissocial condutor de trens de metrô no Rio, que passa os dias sem ver a luz do sol, e questiona sua humanidade. Uma história moderna e brasileira de vampiro, inteligente e bem escrita.


Eu Estou Pensando em Acabar com Tudo – Iain Reid:
Uma jovem viaja com o namorado para conhecer os pais dele, que moram numa fazenda. Durante todo o percurso de carro ela pensa em “acabar com tudo”, com o relacionamento, mas há um clima permanente de tensão e incerteza no ar, que deixam o leitor em dúvida se o texto se trata de um drama existencialista ou uma história de terror, até o esquizofrênico desfecho. Publicado pela Rocco, é outro com tradução minha.

Os Cantos de Maldoror – Conde de Lautreamont: Prosa poética do romântico maldito franco-uruguaio, que a escreveu aos vinte e dois anos e morreu aos vinte e quatro. Maldoror é um ser amoral e niilisa, que conduz cenas que flertam com o fantástico e o surrealista. Difícil de se compreender, mas ainda fascinante de se ler. 

American Psycho – Bret Easton Ellis: um slasher irônico sobre a geração yuppie novaiorquina. Hoje parece um pouco datado, mas parte de seu charme está aí, se tornando um romance de época recente. E a ambiguidade da trama ao meu ver funciona melhor no livro do que no filme.

Hater – David Moody:
Ótimo romance de zumbis – ou quase isso; um surto mundial que faz com que algumas pessoas criem um ódio mortal de quem vêem pela frente; uma espécie de alegoria da histeria urbana de hoje. Primeiro de uma trilogia, funciona sozinho (ainda que com final aberto). Foi publicado no Brasil pela Saraiva, e a tradução também é minha.

Assombro – Chuck Palahniuk: Traduzi alguns do autor, mas não esse, de que gosto mais. É um romance sobre dezessete escritores que são reunidos numa casa para escrever, num estranho retiro, cada um trazendo histórias escabrosas do passado. Palahniuk consegue ser trash, imoral e insano. E, quando acerta, acerta bonito (ou acerta feio?).
Minha bela edição do "Ringu".

Ring – Koji Suzuki: o romance que deu origem a Samara! (Ou Sadako). Começa arrepiante, como o filme, mas segue para uma loucura que mistura ondas televisivas e hermafroditismo, mais próximas de uma ficção científica metafísica. Não deixa de ser uma mitologia interessante... (Que eu saiba, não tem edição em português - Fica a dica para a Darkside.)

As Perguntas – Antonio Xerxenesky: Aqui um romance ainda inédito, mas por pouco tempo. O novo título do jovem autor gaúcho é um terror assumido, com momentos arrepiantes, centrado na investigação de uma paulistana sobre uma seita satânica. Foi fruto de uma encomenda da RT Features, assim como o meu, ambos com os direitos já vendidos para o cinema, com a publicação pela Companhia das Letras. O dele sai em setembro. Já li e já adorei.

Neve Negra – Santiago Nazarian: Ai, me deixa? Só unzinho? Por último? Na noite mais fria do ano, na cidade mais fria do Brasil, um renomado artista plástico enfrenta dúvidas sobre a identidade de seu filho de sete anos. É um romance sobre as paranóias da paternidade, um raro registro ficcional da neve no Brasil e é terror – sim, dessa vez fiz um terror pra valer.

Sai daqui a um mês exatinho - já em pré-venda.

LEVE NEVE

Com minha herdeira, a Trevosinha Valentina.  Lançamento ontem em São Paulo. São Paulo é o que conta - é minha casa, minha base, daqui...