08/09/2019

LITERATURA PARANDO O TRÂNSITO


Pela estrada afora...


Está acabando uma das Bienais mais intensas dos últimos tempos. 

Para os amigos (paulistanos) que eu disse que estava indo ao Rio no fim de semana, todos mandaram eu tomar cuidado, "não vai ficar circulando muito", como se São Paulo estivesse uma maravilha...

... ainda assim, parece estar bem menos pior. 

Não circulei. O esquema em que fiquei nessas últimas Bienais (nesta e de 2017), com um bom hotel literalmente colado no evento, favorece que eu fique só no evento, e acabei esticando só mesmo pelos bares-restaurantes-piscina do hotel. 

Mas o mínimo que tive de desbravar a cidade, não foi nada fácil...

Cheguei na tarde de sábado, num vôo com João Silvério Trevisan, e fui com ele num translado para o hotel. Depois de duas horas no trânsito, o Waze dava mais 1:30 para chegar de carro, e 40 minutos a pé. Como a mesa dele estava em cima, descemos do carro e andamos. 

Com Trevisan, on the road. (Foto de Marcelo Ferroni.)

O trânsito absurdo foi devido não só a falta de um programa eficaz da prefeitura para a Bienal, mas também do fluxo anormal que seguiu para o evento, depois de o "prefeito" mandar agentes recolherem obras com "conteúdo impróprio" (ou demonstrações de afetos entre personagens do mesmo sexo). 


A imagem "imprópria para menores" que gerou todo o "escândalo", em pleno 2019. 

Tiro no pé do prefeito. O youtuber Felipe Neto contra-atacou comprando mais de dez mil livros de temática LGBT, de diversas editoras, e distribuindo gratuitamente na Bienal. Fez bonito. Nunca gostei dos vídeos do Felipe, mas é preciso reconhecer que ele sempre foi crítico e político - recentemente fez uma declaração que "o mundo só melhora quando aqueles que detém o poder econômico abrem mão de alguns lucros em prol do planeta", e parece que ele tem aplicado isso lindamente. Podem chamar de oportunismo, jogada de marketing, mas precisamos (todos) de mais jogadas como essa. 

Ainda na estrada, com Trevisan. 

Voltando à minha jornada pessoal, esse caos na cidade do Rio, na Bienal de sábado (que teve protesto, beijaço, agentes indo recolher obras), fez com que chegássemos atrasados pra mesa do Trevisan (e no caminho eu ainda escorreguei e caí no meio de um MANGUE...), mas ele teve tempo de falar linda e oportunamente sobre esse clima em que estamos vivendo.  

A mesa de Trevisan, com Tobias Carvalho e Jaqueline Gomes de Jesus. 
Depois, a noite se estendeu pelo bar do hotel, em que encontrei tantos autores queridos, jovens, novos, e velhos amigos. 

Os jovens escritores com o tio Naza. 

Neste domingo tive minha mesa, no setor infantil, com o querido Tiago de Melo Andrade. O espaço era uma floresta, em que as pessoas ficavam circulando - e achei que não ia dar nada certo. Deu mais ou menos, tinha público - o pessoal foi chegando, se amontoando, fazendo perguntas, e acabamos tendo uma conversa divertida e meio caótica. 

O espaço...

Se Tiago falava da importância de ter a leitura "como um bicho de estimação", os livros como uma companhia, eu acrescentava: "E mesmo para quem não gosta de ler, os livros amontoados trazem bichos de estimação: as traças!"


Foi bonitinho ver as perguntas da plateia - depois pais que foram comprar os livros para os filhos. É um público novo para mim, que não estou acostumado a encontrar. Mas senti que comecei a encontrar formas de comunicação.

Novos leitores. 


De resto, ainda deu para pegar piscina, e tive ótimos papos de bastidores (o melhor da Bienal sempre é o networking). Pessoal da Melhoramentos foi muito querido, cuidou de tudo direitinho, e o Tiago é sempre uma ótima companhia. 


Com a querida Carol, do marketing da Melhoramentos. 

Posto agora do hotel, depois de ver a última mesa do evento, sobre literatura trans - com Luisa Marilac, Amara Moira, Pepita e mais; com discursos tão importantes, surpreendentes, articulados. Um tapa na cara do prefeitinho de merda.


Literatura trans com Luisa Marilac, Nana Queiroz, Natalia Travassos, Tarso Brant, Amara Moira e Mulher Pepita. 


Falando no prefeito,  dei minha opinião para uma matéria no Terra, que ecoou em vários veículos por aí. Abaixo:





Então seguimos escrevendo. Essa é nossa voz. E não vão calar tão facilmente.


Gente, tenho 1,80m, juro! (Quer dizer, quase, 1,80m com essa bota). O Tiago é que é mesmo gigaaante. 

25/08/2019

YOUNG

Agosto do ano passado, em Extrema. 

Perdemos Fernanda Young - aparentemente de uma crise respiratória decorrente de asma. Não posso dizer que éramos amigos próximos, mas nos encontramos meia dúzia de vezes e ela sempre foi muito carinhosa, dizia que eu tinha "nariz de bichinho."

O começo foi meio turbulento. Há uns quinze anos a encontrei na Loca, com amigos em comum, e ela veio perguntar: "Quero drogaxxx, quem tem drogaxxx." Anos depois, eu, sem noção, coloquei isso aqui no blog. Poucas horas depois, recebi esse email:


Ao que ela finalmente respondeu.



Como ela autorizou eu manter a versão que preferir, deixo a versão completa. E mais divertida.

Depois disso, nos encontramos outras vezes, em bienais; eu sempre lembrei da história das drogaxxx, e ela sempre disse que eu estava louco. Agosto do ano passado mediei uma mesa com ela no Festival Literário de Extrema, depois almoçamos juntos.

Com o querido Rodrigo Rosner, em Extrema. 
Pouco depois disso nos falamos ao telefone, para uma matéria sobre literatura pop que fiz para o jornal Cândido. A matéria completa está aqui:

http://www.candido.bpp.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=1563


Triste perder uma colega que ainda tinha tanto a oferecer. Como escritora, Fernanda Young foi importantíssima abrindo uma literatura mais pop e uma imagem mais pop do escritor, que depois se estabeleceu na minha geração. Temos amigos em comum que devem estar devastados: o Rodrigo, nossas agentes Lúcia e Eugênia...

Para mim ficam essas boas lembranças (inclusive das drogaxxx) e os livros.


Na Bienal de 2017, ela estava gata, eu estava um buchinho. 

22/08/2019

COMEÇANDO O ANO...

Vianco, Fernandes, Nazarian e DeBrito.



Está acontecendo no Sesc Santo Amaro o festival "Tocando o Terror", com filmes, espetáculos e palestras sobre o gênero. Tem muita coisa legal. E tudo gratuito.

Eu estarei lá domingo agora, 25/08, 16h, como mediador, para discutir a produção de terror no Brasil com André Vianco, Raphael Fernandes e Marcos DeBrito. Gosto muito de mediar mesas; é a oportunidade de perguntar aos pares questões que me assolam - e acho que vai ser especialmente produtivo discutir sobre a produção de horror, com grandes nomes do gênero, num momento em que a "ficção pura" parece tão sem sentido.

Programação completa do festival está aqui:

https://www.sescsp.org.br/programacao/198913_TOCANDO+O+TERROR?fbclid=IwAR3dtPXjaSM8O2B7HaQ8UofzrEZ3-tPDYW_msfoFBNzy47n13Ymaazd48cM#/content=programacao

E isso é só o começo de um segundo semestre que, como sempre, parece bem mais movimentado do que o primeiro.

No fim de semana de 7 de setembro estarei na Bienal do Rio, lançando meu infantil "A Festa do Dragão Morto", pela Melhoramentos.

Domingo, dia 08, estarei às 13:45 no Pavilhão Laranja, num bate-papo com o querido Tiago de Melo Andrade. Aproveite, que é das minhas raras passagens pelo Rio. (A última foi exatamente há dois anos, na última bienal.)

E dia 11 de setembro, de volta a São Paulo, darei um workshop no Cinefantasy, "Narrativas Terríveis", sobre literatura de terror/suspense/thriller. Também é gratuito, mas tem que se inscrever antes, aqui:

https://poiesis.education1.com.br/publico/inscricao/cb9c528565c30d49b548831022bc9b32

Fora isso, o Cinefantasy vai ter muita coisa legal, como a mostra de curtas e longas (da qual fui jurado ano passado). Programação completa aqui: https://www.cinefantasy.com.br/

E vem mais coisa aí; conforme for confirmando vou atualizando a aba "Agenda" aí em cima.







14/08/2019

SOLO ÉS MÃE GENTIL



A Companhia das Letras está lançando em ebook a coleção "Contém um Conto",  com muita gente bacana. Eu estou lá com um conto avulso, inédito e indispensável.

"Solo És Mãe Gentil" é um almoço de família no Natal, em que os os irmãos discutem quem cuidará de um pai inválido. Tem muito a ver com os tempos atuais...

Dou um trecho aqui: 

Com três adultos discutindo como crianças ao redor da mesa, pensava em como minha mãe fazia toda a diferença. Família é mesmo isso, seres tão distintos unidos pelo respeito a uma autoridade em comum. E mesmo que ela fosse tão apagada, mesmo que não soubesse cozinhar, minha mãe era a peça que faltava para que nós nos encaixássemos numa unidade familiar. Meu pai nunca serviu de nada. E agora como um chefe inválido só servia para insistir, impedir cada um de nós de liderar.
Olhando agora meu irmão ao lado do namorado, não podia deixar de vê-lo tão frágil. Meu irmão caçula, o afeminado, como diria meu pai. Alguns diriam que ele precisava de uma dura, de uma surra, mas eu pensava que ele precisava exatamente do contrário. Uma mãe que o acolhesse. Uma mulher que fizesse esse papel. Como um menino tão delicado como ele foi jogado nesse mundo sem amparo, agarrando a mão de outro menino, um menino negro, ampliando o alvo? Meu irmão deveria ter sido protegido, camuflado, não exposto em meio à guerra. Um menino só precisa de uma mulher. Um homem tão delicado nunca deveria se relacionar com outro homem.
Olhei então meu irmão mais velho, que sempre tomei como exemplo. Eu agora como uma mulher adulta, uma mãe de família, o ultrapassava em maturidade. Se ele conquistou algo antes de mim, foi apenas o fracasso. Nunca terminou os estudos, saltou de trabalho em trabalho. Imaturo, manteve apenas a masculinidade, apenas para diminuir o irmão mais novo. Mas não foi capaz nem mesmo de dar netos à minha mãe. Perguntava-me o que ele deixava de exemplo. Não podia nem dar lição de moral.
Pensei no meu filho mais novo. Uma criança já nascida nesses tempos apocalípticos. Um menino tão bonito. Um pouco parecido com o tio... De que serve a beleza num menino? Um menino vegano, incapaz de matar uma vaca. De que serve um menino incapaz de matar? Um herbívoro, intoxicado por todos esses pesticidas. Pensei em qual seria o exemplo de meu pai.  Um capitão de exército, inválido. Serviria de exemplo aos netos como combatente ou derrotado?

O conto tem 30 páginas, custa R$3,90 e pode ser comprado aqui:

"Solo És Mãe Gentil" - Amazon

10/08/2019

"TRABALHA NA EMPRESA ESCRITOR"

Quando comecei minha carreira, no começo do milênio, a coisa que me dava mais orgulho era dizer que eu era ESCRITOR. Mesmo antes de publicar o primeiro livro, eu já dizia, e depois quando tinha um, dois, três romances por grandes casas. Hoje em dia o orgulho se intercala com certo... constrangimento. Primeiro porque não faço mais do que obrigação; se antes minha imagem de jovenzinho tatuado causava estranhamento no meio, hoje sou praticamente um estereótipo do escritor tiozão. Depois, porque escritor me parece que qualquer um é, qualquer um pode ser, qualquer alfabetizado (ainda mais hoje com a facilidade da auto-publicação); o conhecimento técnico é difícil de se precisar. Ser escritor é meio não saber fazer nada... (E acho mesmo que QUALQUER UM pode ser escritor – já se é um escritor bom ou ruim, é outra conversa).
Nos aplicativos de “paquera” (porque não uso mesmo para “pegação”), eu digo que sou tradutor; não é mentira, é meu trabalho diário, e dizer que sou escritor não apenas soa meio “poser”, como também abre a possibilidade de a pessoa descobrir imediatamente TUDO sobre minha vida. (Ela invariavelmente vai perguntar: “Escreveu o quê?” Ou pode simplesmente dar um Google em “Santiago” e “escritor” que vai acabar achando meu blog, minhas entrevistas, com quem fui casado... )
De toda forma, acho bonitinho esses jovens que se intitulam e continuam levantando a bandeira de “eu sou escritor”. O tradutor Ivo Barroso diz que “quando escrevemos versos aos vinte anos é porque temos vinte anos; quando escrevemos aos sessenta é porque somos poetas” (e ele coloca isso numa edição do Rimbaud, veja só); mas acho que o mundo não precisa de MAIS escritores tiozões. Eu só insisto porque não aprendi a fazer mais nada na vida. E tenho contas a pagar.

03/08/2019

O BLOG DE LITERATURA MAIS ANTIGO DO PAÍS!



"Tento garantir meu conteúdo" - minha primeira entrevista, no Jornal do Brasil (por Cristiane Costa), 2003. 

Quando comecei este blog, você nem tinha nascido.

Parte da instalação que fiz com Alexandre Matos no Sesc Pinheiros (2007)

Há quinze anos eu lançava meu segundo romance - "A Morte Sem Nome" - já tinha um prêmio literário, mais de uma dúzia de matérias, já tinha sido convidado para a Flip e resolvi criar meu primeiro blog. Era uma forma de entrar em contato com os leitores, deixar um cartão de visitas, anunciar o que eu estava fazendo, um mural antes de existir twitter, facebook, orkut...

Folha, 2003 (com Cuenca e Chico Matoso)


No blog, eu estava longe de ser pioneiro. Todo mundo já tinha. Era a geração dos blogs. Mas eu resistia - pagando de jovem escritor mal do século. No começo de carreira eu era assim, eu rejeitava a cultura pop, queria ser um romântico-gótico pós-moderno (ou o que seria um precursor dos emos?), e batizei o  blog de AMOR E HEMÁCIAS.

(Isso está longe de ser a maior das minhas vergonhas.)


Com Mary Moon, para a MTV, 2009. 


Por muito tempo o blog cumpriu a função que hoje cumprem outras redes: reflexões ligeiras, indicações de livros, filmes, ou um simples registro do dia-a-dia. Peguei gosto. Postava bastante. Postava muita merda. Ainda está tudo aí (ou quase). E muita gente acessava.

Hoje encontro muita gente que comenta: "Nossa, adorava o seu blog."

(Não adora mais? Ele ainda existe. O conteúdo é melhor. Mas é menos espontâneo.)

Minha primeira vez no Jô, em 2005 (depois teve 2006, 2009 e 2011). 

Lá por 2005, depois que fui na primeira vez no Jô, os acessos por aqui explodiram. O blog permitia comentários, e eu não dava conta de administrar as perguntas, os haters, os nudes... (mentira, nude é uma invenção desta década...). Acabei tirando os comentários e nunca senti falta. Nos livros a gente também nunca sabe quem está do outro lado.

A primeira imagem publicada no blog. 


Só em 2006 o blog deixou de ser "all-type"; em junho de 2006 eu publicava uma arte (que ainda amo) da capa do "Mastigando Humanos"  e foi um caminho sem volta. O blog flertou com o fotolog (que nunca tive) com fotos minhas de cuequinha (quando eu podia), trouxe artes alternativas dos meus livros, experiências artísticas bizarras, e claro, inúmeras capas de livros de que eu lia, meninos que eu comia, fotos de eventos, artistas, filmes, vídeos... Foi um registro de tantas viagens bacanas, Japão, Rússia, México, Venezuela, Atacama, os seis meses que passei na Finlândia,o ano em Florianópolis...

Em Kyoto, 2010. 

Em 2008 eu mudei o nome de "Amor e Hemácias" para "Jardim Bizarro" - faltava amor, sobrava bizarrice. E o "Jardim Bizarro" foi tirado de uma notícia da época, de uma casa que jorrava sangue, num bairro de mesmo nome em Jundiaí. Tinha mais a ver com meu projeto literário - (enquanto não largo o osso dessa história de "existencialismo bizarro.") O novo design foi feito pelo querido Alexandre Matos (que ilustrou tantos dos meus livros). Em 2014 fiz um novo design com o ex-cozinheiro (eu mesmo não entendo naaaaada de design, só palpito, mas não sei mexer)  e ele também refez em 2017 o design atual.

Achei o cabeçalho de 2008 por aí. 

O que nunca, nunca fiz questão, desde o início, foi de ser "inovador", pelo contrário, fiz o blog com resistência, pagando de maldito; nunca acompanhei as tendências - sempre me atualizei com atraso - e a contribuição que dei foi sendo eu mesmo.

Foto do Felipe Hellmeister. 

Também nunca, nunca ganhei dinheiro com isso. Nem tentei. Nunca coloquei AdSense nem procurei patrocínio, nunca nem divulguei o blog nas entrevistas. Para mim o blog sempre foi uma plataforma para trabalhos que eu faria fora - e não consigo avaliar o quanto ajudou/atrapalhou. O essencial foi manter a independência de poder dizer o que eu queria aqui.

Quando fui cartaz de metrô (com Garotos Malditos, 2012)

É claro que hoje é constrangedor para mim ler grande parte do que escrevi uma década atrás. Nem tento. Revirei agora arquivos para esse post, mas só consegui olhar por cima, pegar umas fotos; mas esse registro também é muito legal, talvez o mais legal, esse registro vivo de 15 anos da minha carreira e da minha vida. Um blog afinal, é um diário. E eu sou um ser tão nostálgico...

Na sarjeta, com João Gilberto Noll (Ouro Preto, 2012). 

E para que serve hoje, um blog?

Bem, para mim, continua servindo para o de sempre, um mural para meu trabalho. Claro que hoje publico muito menos - muito do dia-a-dia, as colocações ligeiras, é diluído em Facebook, Instagram -, muito menos gente visita também; mas aqui ainda é o espaço que eu tenho para compartilhar reflexões mais extensas, deixar registrado de maneira menos passageira.

Com Victor Heringer, Marcelo Reis de Mello e Ana Paula Maia (Nova Friburgo, 2017). 

Muitas vezes me arrependo. Não só pelo que disse, isso já ficou no passado, mas por não ter vendido. Escrevo esporadicamente para a Folha, também há quase quinze anos, e outro punhado de publicações. Então muita coisa que postei aqui depois pensei que poderia ter oferecido para a Folha, para o Suplemento Pernambuco. Mas o blog cumpre essa função, de eu poder publicar o que quero, sem esperas e sem restrições. A maioria das coisas que eu publico aqui é uma visão muito pessoal, de antologias que eu participo (como a última), ou análises de livros de amigos que eu não poderia fazer na imprensa tradicional, num tom que só faz sentido mesmo num blog.

Foto de cuequinha para matar a saudade. 

O povo pau no cu gosta de falar que "blog já deu", "facebook já deu" e segue como gado no Instagram, que não permite compartilhamento de links, que inibe textos (e não há nada mais deprê que gente que usa instagram para postar FOTO de textão). Alguns me sugerem fazer um canal no Youtube (outros sugerem que o Youtube em si também já acabou). Mas acho que faço melhor por escrito. Não estou preocupado em ser "trendy", acompanhar as tendências. Sigo com o blog, no mesmo endereço, há quinze anos, até quando São Google permitir.

Com José Mindlin (2009?)


E isso... Bem, isso talvez tenha feito com que este seja O BLOG DE LITERATURA MAIS ANTIGO DO PAÍS, ainda em plena atividade, no mesmo endereço, com o mesmo histórico. (Haters podem dizer que não é um blog de literatura, é um blog pessoal de um escritor, mas blog não é isso mesmo, pessoal? E ninguém em blog tem discorrido mais sobre os livros dos outros, da cena literária nacional, registrado eventos, bienais, festivais, do que eu, nos últimos quinze anos.)

Mas até aí, quem dá a mínima?


E esse sou eu hoje. 

27/07/2019

LEITURAS DE JULHO

61 autores dá um peso.

A editora Nós acaba de publicar a antologia "A Resistência dos Vaga-lumes", com contos e poemas de 61 autores LGBTQ, organizada por Cristina Judar e Alexandre Rabelo. 

Lançamento importante, que já deveria ter sido feito antes, mas que chega em bom momento, e da forma como deveria.

Para quem não se lembra, há mais de uma década eu planejava lançar uma antologia de contos gays, com clássicos e novos; chamei para a parceria o Marcelino Freire, fechamos contrato com a Record, mas fiz a besteira de comentar com o Luiz Ruffato, que correu para lançar antes uma antologia com o mesmo tema - que, apesar de ter sido uma publicação irrelevante, acabou travando nossa publicação na época.

Em face dessa antologia que sai agora, vejo como meu projeto ficou velho, e que não faria mais sentido hoje.

"A Resistência" mistura gente demais, prosa com poesia, e confesso que desconfiava do saldo final - boas intenções não fazem boa literatura. Mas terminando o livro agora vejo como é importante para o projeto essa pluralidade de vozes; e tem mais coisa boa do que eu imaginava.

Há olhares muito literários e raros sobre a condição trans. Amara Amoira faz um conto inteiro no pajubá (linguagem do gueto), em fluxo oral, muito divertido e bem escrito. Juno Cipolla aborda o universo trans-masculino também com muito lirismo. E Laila Oliveira tem um ótimo conto de cross-dressing.

A charge do Laerte (na pagina interna), é bem bacana. Cidinha da Silva e Daniela Stoll têm contos lésbicos bem bonitos - a segunda com uma imagem belíssima da descoberta da homossexualidade num salto para a piscina "no caminho entre o ar e a água." Leonardo Tonus foca a expulsão de jovens gays num belo poema. Mike Sullivan faz bonito (como sempre) com um continho otimista (ainda que melancólico). E há outras coisas bem boas, algumas meio tolas-pretensiosas ou apenas panfletárias-imaturas, mas no geral, como eu disse, o saldo é bem positivo.

Talvez as duas maiores surpresas do livro sejam os contos de Jean Wyllys e de Raphael Montes. Wyllys faz um ótimo registro dos encontros nos tempos de "chat-uol" - fico surpreso de ele mergulhar (tão bem) na ficção, sem pretensões de fazer discurso; e Montes trata da cura gay de forma bem mais literária do que sua produção costumeira, no que talvez seja o melhor texto do livro.

(Ah, sim, e eu também estou lá com "Sonho de Uma Noite de Verão", quase um conto de terror, de um homem que levanta da insônia da madrugada para abusar do filho pré-adolescente.)

Trechinho do meu. (clica que aumenta)


Só senti falta de explicarem melhor a "proposta" na apresentação do livro. O projeto inicial seria uma revista literária e o tema era "Para Além do Azul e do Rosa". Esse tema foi apagado, mas ainda aparece em diversos contos e poemas - então pode parecer estranho por que essa expressão aparece tantas vezes.

Samir Machado de Machado (de Rosa) também está na antologia - e fui ontem ver o debate dele com David Ebershoff (autor de "A Garota Dinamarquesa") e a excelente Halley Kaas. Ótimo para ampliar a discussão sobre representatividade.

Continuando na editora Nós, recentemente eles também publicaram uma nova novela do queridíssimo Evandro Affonso Ferreira. O excelente título - "Moça Quase-Viva Enrondilhada numa Amoreira Quase-Morta" - dá uma boa amostra do que esperar, um texto dândi, quase das antigas, mas cheio de ironia e niilismo. Seria um ótimo livro para se vender pela noite para casaizinhos em botecos - sem o menor demérito- , com ótimas sacadas para declamar para a mulher amada, no estilo "As Mais Belas Cartas de Amor." Evandro sabe o que faz.


Só foderam na leitura do título. 
Voltando ao Raphael Montes, ele também lançou romance novo por esses tempos, que está estourando nas vendas. "Uma Mulher no Escuro" (seu quinto livro) é um thriller bem típico seu, de uma mulher que tenta viver com um trauma de infância, quando o passado volta a assombrá-la. Montes sabe arquitetar trama como ninguém, manter o leitor fisgado, tem uma pegada trash deliciosa. (E fico lisonjeado que o psicopata se chame Santiago.)


Dá até para desconfiar que ele está fazendo escola na Coreia. "O Bom Filho", da coreana You-Jeong Jeong, recém lançado pela Todavia, tem muito a ver com o livro dele. (Em ambos o protagonista acorda para encontrar a família morta.) Também é um page-turner, um thriller que mantém o leitor grudado, mas sem o humor e o apelo trash de Montes, o livro acaba se levando muito a sério e se torna falso. (A ideia de o narrador-protagonista ir se "lembrando" aos poucos das coisas que fez no dia anterior é de doer). Eu me diverti. Mas talvez por ter sido lançado pela Todavia (com uma capa fooooda) eu esperasse mais literatura. É bem descartável. 


19/07/2019

A FLIP É AQUI

Com Mariana Enriquez, Antonio Xerxenesky e Eric Novello.


 Tem sido um ano devagar. E a tendência é só piorar.

Tenho lido sobre o cancelamento de eventos literários por falta de recursos - Feira do Livro de Brasília, Jornada Literária de Passo Fundo -; mais grave tem sido o cancelamento de mesas por perseguição política. Miriam Leitão foi ameaçada de morte em Jaraguá do Sul e a coordenação da Feira do Livro achou por bem cancelar sua participação. Na Flip teve protestos contra Glen Greenwald. Tempos trevosos que vivemos... no pior sentido.

(E ainda vejo amigos "do bem" dizerem "bem feito" para Miriam Leitão, por ela ter apoiado o golpe. Assim não dá, amiguinho, não se pode apoiar ameaça de morte e censura, de nenhum lado. Mais nobre seria ir lá na Feira e confrontar a Miriam Leitão no debate.)

Eu participei só de duas mesas no primeiro semestre. Agora tem surgido uns convites interessantes para os próximos meses (que atualizo sempre na barra "agenda" aí em cima). Para a FLIP, como de costume, eu não fui; acho um clima pesado e é preciso uma disposição que eu não tenho - quem sabe ano que vem.

(Acho engraçado o tanto de gente que pergunta "vai na FLIP?"; gente que só segue o buchicho. Tem evento literário o ano todo, no Brasil todo, mas esse povo não dá as caras.)

Aproveitando o "pós-flip", acompanhei/participei de três mesas só esta semana.

(Esse registro roubei do colega trevoso Oscar Nestarez.)

Começando pela argentina Mariana Enriquez e a venezuelana Karina Sainz Borgo, mediadas por Antonio Xerxenesky na Livraria da Vila. Mariana é uma escritora que acompanho há um tempo - autora do excelente "As Coisas que Perdemos no Fogo" - uma querida e uma trevosa (no melhor sentido). Assim como sua conterrânea Samantha Schweblin (outra amiga querida), Mariana foi incensada pela crítica pelo flerte com o gênero do terror num contexto político. Em seu discurso, ela deixa claro seu compromisso com o gênero, sem ressalvas. "Quero que a história funcione antes de tudo como uma história de terror; se o leitor identificar também o aspecto político é um extra." Que bom que tem funcionado na Argentina - por aqui o (pós) terror ainda não encontrou seu respeito, e os autores do gênero também não têm histórico de se aprofundar no texto (não se aprofundam porque não têm publico ou não têm público porque não se aprofundam?)

Mas pouco a pouco vem surgindo um movimento... (O próprio Nestarez é um bom nome da nova safra). (Por acaso também acompanhei há algumas semanas uma tarde de debates sobre o Clive Barker no Sebo Clepsidra - um reduto de amigos trevosos das antigas, que têm se dedicado ao gênero com consistência, inclusive com edições de clássicos por um selo próprio.)

E tem mais debates sobre o gênero vindo em breve... do qual participarei inclusive como mediador.

Com Ilana Casoy e o mestre do terror brasileiro Dennison Ramalho. 

Ainda nessa toada, na terça participei de uma mesa de debates na premier do filme alemão "O Bar Luva Dourada", do Fatih Akin, com minha companheira Ilana Casoy, a maior autoridade sobre serial killers no Brasil. O filme não chega a ser um terror - é uma dramédia sórdida-kitsch baseada em fatos reais, a história de um assassino de Hamburgo dos anos 70. E no debate pude resgatar com ela nossa velha discussão de até que ponto se pode explorar o drama alheio, e quais são os limites no caso da ficção. (Para mim, na ficção, não deve haver limites; já na exploração dos fatos reais, tenho minhas ressalvas.)


O debate da AGBU Focus, de ontem. (queria colocar o nome dos palestrantes, mas esqueci de anotar e não consigo achar em lugar nenhum...)


E nessa quinta estive no AGBU Focus, um evento para jovens empreendedores armênios do mundo todo. Haviam me convidado para a mesa de abertura, mas eu não tinha certeza de como poderia contribuir (não sou mais jovem, não sou empreendedor, sou "mais ou menos armênio"...), mas fiz questão de estar presente para assistir. Levantou-se a velha questão de "o que é ser armênio", "o quanto somos armênios" (fazendo parte da diáspora), e o sentimento de "sentir-se armênio". Desde que estive na Armênia, em 2015, eu mergulhei na pesquisa sobre o tema, li muito, entrevistei personagens importantes da colônia, mas não tenho respostas claras ("Ninguém sabe quem são os armênios, nem eles mesmos", diz Michael Arlen em seu "Passagem para Ararat"). O que fica muito claro é que a armenidade é mais uma etnia do que uma nacionalidade. (Quando perguntam se meus avós nasceram na Armênia, gosto de lembrar: A Armênia como país só existe desde os anos 90.)

Os palestrantes de ontem também lutavam para responder essa questão. Levantou-se a questão da "porcentagem" (somos armênios, meio armênios, 1/4 armênios?) e a possibilidade de se seguir como uma família armênia casando fora da colônia. "Ser armênio é sentir-se armênio" é uma resposta que vejo com frequência - mas o que seria isso? Achei interessante que os palestrantes de ontem falaram muito em se "sentir uma família em qualquer lugar do mundo", ao encontrar outros armênios. Eu nunca tive essa sensação; talvez passe a sentir mais ao me reconhecer mais armênio - mas essa é a sensação que sempre tive em ser... gay. Essa sensação de fazer parte de uma comunidade internacional, e que em qualquer país que eu vá eu encontro iguais, com quem rola uma identificação imediata, porque passamos por coisas parecidas, somos segregados de forma igual. (Foi assim que formei amizades nas cidades em que morei, cidades em que não conhecia quase ninguém - Porto Alegre, Londres, Florianópolis, Helsinque. Onde havia uma boate gay eu era acolhido.)

Sou mais gay do que armênio.

Eram perguntas que eu poderia ter lançado no debate ontem: é possível ser armênio sendo gay? É possível ser armênio sendo ateu? Na dúvida se seria vaiado ou acolhido por meus "irmãos", achei por bem ficar quieto (e acho que fiz bem em declinar do convite para participar da mesa.)

Mas ainda vou discorrer muito sobre esse assunto... Ano que vem vocês se cansarão de me ouvir discorrer sobre isso...









14/07/2019

CRISE NA FICÇÃO, FICÇÃO NA CRISE

Eu, num raro registro como "escritor de sarau". Nevermore.

Há mais de um mês a Folha me pediu uma análise do momento atual da ficção no Brasil. Conversei com muita gente bacana, escritores, editores, curadores, mas a falta de espaço para literatura no jornal foi adiando a publicação, diminuindo o texto, e enfim corremos para publicar a tempo na Flip, este fim de semana.

Pelo tom que o texto tomou, achei que não convinha colocar minha visão pessoal, embora eu não concorde com muito o que foi dito por lá. Aproveito então para discorrer um pouco aqui.

Segue o texto original, sem os cortes, com minhas colocações abaixo:



O mercado editorial brasileiro vive o pior momento do século. Se no início dos 2000 o cenário era promissor – com a onda de “jovens escritores”, a proliferação dos eventos literários (como a Flip, que estreou em 2003 e inspirou uma série de festivais pelo Brasil) e as compras governamentais – hoje as livrarias decretam falência, os festivais perdem patrocínio é os artistas são vistos como vagabundos, perseguidos pelo atual governo e sua “gente de bem.”  Os cachês para os autores (quando existem) são os mesmos desde o início do milênio, o espaço para literatura na mídia tradicional se espreme, e até para ser resenhado hoje é preciso “investir” (visto a prática nefasta dos booktubers de cobrar diretamente dos autores por “resenhas”). “A mamata acabou”, mas, de alguma forma, os escritores sobrevivem.

            Falar em “crise na ficção brasileira” é como um pleonasmo, se a priori a ficção nasce da crise (ou de algum tipo de crise). Entretanto, ao mesmo tempo em que se dificultam os mecanismos para criar, comercializar e promover a literatura, os escritores brasileiros também se encontram numa crise ideológica: como fazer ficção pura no momento político em que vivemos? Até onde vai a necessidade de retratar uma realidade, e levantar bandeiras, até onde o ficcionista tem o dever de criar algo novo e próprio?
            O argentino-paulistano Julián Fuks, autor de “A Resistência” e vencedor do Prêmio Saramago, defende há tempos o que ele chama de “literatura ocupada”, que aborde as questões mais importantes do momento. “Tenho pensado numa literatura que não apenas responda às circunstâncias, mas aja sobre elas. E então não se trata só de deixar que o presente emerja na literatura, e sim que a literatura se deixe ativamente ocupar pelo presente, pela política, pela luta. O ato de ocupar tem sido central no exercício político: ocupar praças, ruas, escolas, edifícios públicos. O que nos impediria de pensar numa literatura ocupada?”


Fuks

            Fuks reconhece que, com esse pensamento, a ficção pura não lhe basta. “O conceito de ficção se fez um tanto problemático para mim. Há tempos tenho sofrido com a arbitrariedade de inventar histórias, inventar personagens, dotá-los de nomes e biografias. Nem por isso vou parar na não-ficção. O que tenho feito é algo como uma ficção sem fabulação, uma ficção como tentativa de aproximação ao real.”
            Preocupação semelhante tem o escritor e agitador cultural pernambucano Marcelino Freire, que há tempos se aproxima de uma literatura engajada. Ano passado ele foi um dos organizadores da antologia independente “Lula Livre, Lula Livro”. “Reunimos 90 escritoras e escritores brasileiros em textos inéditos. É um livro político, para eu não me sentir um escritor bundão, que só vive sentado, olhando a paisagem pegar fogo. É preciso dizer de que lado se está, comprometer-se. Boa parte da literatura brasileira é frígida. Vive na redoma faz tempo.”  


Marcelino. 

            Esse caráter político da literatura, que tem tomado o protagonismo, dá a impressão de a ficção estar cada vez mais na retaguarda. "Talvez seja possível dizer que vivemos em um momento onde a não-ficção vai bem comercialmente, um fenômeno que se observa em vários mercados, e que tem a ver com o estado atual das coisas: uma necessidade em entender o que se passa no mundo em meio ao caos em que vivemos", aponta André Conti, editor da Todavia.
           Mesmo no maior festival literário do país, a Flip, a ficção parece ter uma importância menor - com os debates focados mais no aspecto político do que criativo. Fernanda Diamant, curadora da edição deste ano, discorda: “Sempre achei a programação equilibrada nesse sentido. E acho que muito da não ficção tem valor literário, como é o caso de Euclides da Cunha. Este ano a programação tem 15 autores de ficção, dois de crítica literária, além de vários multiartistas.” Diamant também não desassocia o ato artístico do político: “Acho que atualmente no Brasil, simplesmente trabalhar com cultura e arte já é inevitavelmente um ato político porque é contrário às ‘diretrizes’ ideológicas que estamos testemunhando no atual governo.”
André Conti complementa: "O fato de um livro se passar durante as passeatas de 2013 ou de tentar dar conta dos nossos tempos atuais, por exemplo, não significa que ele será bom ou que trará qualquer reflexão surpreendente sobre o Brasil. Ao mesmo tempo, um romance histórico aparentemente descolado da realidade pode trazer um comentário político sobre o Brasil muito mais poderoso do que um romance-tese sobre a autodeterminação dos povos. O que é dizer: todo romance, queira ou não, está cravado no seu tempo. Todo romance, por ação direta do autor, olhar de canto ou plena negação, diz algo sobre o seu tempo e sobre a visão de mundo do autor. Então não há necessidade de a ficção refletir o momento atual: ela já vai fazer isso. Isso posto, a ficção é sim um campo importante de recriação das tensões contemporâneas e, num momento sombrio como o que vivemos, um livro de ficção pode ser fundamental para que essas tensões venham à tona.”
Se os autores têm sentido a necessidade de tratar da crise, como a crise vem tratando os autores? Como esse momento de instabilidade política e econômica se reflete não apenas na produção, mas na publicação, nos investimentos?


Lúcia Riff

“Acho que temos sim uma crise de mercado que está atrapalhando momentaneamente os autores (não se pode negar)”, aponta a agente literária Lúcia Riff. “As grandes Editoras encolheram suas programações a um mínimo e os cortes acabaram afetando, mais diretamente, as obras de ficção. Mas isto não quer dizer que haja uma crise na ficção uma vez que os autores de ficção continuam escrevendo bastante, e muito bem, continuam publicando, o público continua lendo. Novas Editoras continuam surgindo e novas formas de leitura também (vide o grande sucesso dos audiobooks).”
            Uma Editora que vem ganhando espaço e relevância no mercado da ficção nacional é a paulistana Nós, de Simone Paulino, que chegou a trabalhar de empregada doméstica na adolescência e hoje entende como ninguém o papel transformador da cultura. “O catálogo da Nós é composto por 90% de ficção. Temos pouquíssimos títulos de não-ficção. E criamos um linha de poesia. Estamos remando contra a maré por uma crença quase insana na literatura como instrumento de transformação existencial e social. Fundei a editora baseada na premissa do professor Antonio Candido, no célebre ensaio ‘O Direito à Literatura’. Ela está e sempre estará em primeiro lugar na minha vida e na minha editora. Precisamos de ficção para aguentar a realidade”, diz Paulino. Ela reforça o papel político do escritor:


Paulino. 

            “Não consigo compreender um artista que não reflita o seu tempo. Sei que temos grandes autores que passaram ao largo da política - ou acharam que passaram - como o Borges. Mas penso que a construção ou a desconstrução de um país e de uma sociedade está vivamente ligada à construção da literatura e das artes em geral. A mim, como editora, não interessa a alienação. O que me interessa, inclusive como leitora, é a vida presente, o homem presente, para usar uma expressão do Drummmond. E isso inclui a política. Aquela máxima de que o pessoal é político e o político é pessoal nunca fez tanto sentido. E um escritor que não perceba a sua implicação histórica não me interessa muito.”
 “A ficção atual é a mais vigorosa de que eu tenho notícia”, continua Marcelino Freire. “Há quem viva lamentando o fechamento da Livraria Cultura e só discute sobre prêmios literários. Enquanto isto, muitos poetas e prosadores têm surgido, vendendo seus próprios livros, circulando pelo Brasil, soltando o verbo. Já há, faz tempo, uma geração sem livrarias. Eu chamo de ‘Geração da Maquininha’. Eles são a própria livraria. Puxam a maquininha e vendem os exemplares ali, na hora, sem atravessadores. As grandes editoras querem saber o segredo desta ‘circulação’, desta literatura que nunca dependeu das grandes editoras e das estantes altas das livrarias. Na crise, tem quem entre em crise. Há autores e autoras que sempre viveram na crise, por isso se reinventam. E reinventam a literatura brasileira.”
Um exemplo vigoroso dessa nova geração que surge às margens da crise é Marlon Souza, 26 anos, negro e homossexual de São João de Meriti (RJ). Filho de mãe solteira e criado pela avó, cresceu numa família de não-leitores e hoje é uma figura atuante na cena literária da Baixada Fluminense. Aos 22 anos publicou seu primeiro romance de forma independente – “Às Vezes”, sobre um jovem infectado com HIV -, e hoje tem mais dois romances, além de participar de diversas antologias. Marlon também organiza o LiteraCaixias, evento literário que se iniciou em Duque de Caixas e se desdobrou por outras cidade do Rio e São Paulo, e edita a revista “Publiquei”, focada em autores independentes. Atualmente prepara um romance para a editora Malê, especializada em autores negros.


Marlon. 

            “Para mim é incrível ver escritores negros e/ou LGBT’s conseguindo acender profissionalmente, suas narrativas ganhando espaço. Algo que não tive na minha adolescência e estou tento oportunidade de experimentar hoje. O acesso está mais fácil, o debate está em maior evidência e apesar de ainda existir um forte preconceito e esquecimento da vasta produção feita por esses grupos, acredito que esteja havendo uma crescente significativa”, diz Marlon.
Porém, se o autor de ficção adulta se vê impelido a debater sobre a realidade político-social do momento, autores de literatura infanto-juvenil sentem uma pressão contrária. “Não me preocupo tanto com crise econômica”, acrescenta Lúcia Riff. “O que me assusta é essa crise ideológica, autor de livro infantil que tem medo de abordar certos assuntos por causa da patrulha, porque depois o livro não vai ser adotado em escolas.”
Simone Paulino completa: “Literatura é resistência. Sempre foi. Sempre será. A ficção escrita por mulheres nunca foi tão pulsante. Nunca as mulheres escreveram tanto e tão bem. E nunca foram tão lidas! Como disse o Fernando Haddad dia desses: Os livros sempre vencem. Eu preciso acreditar nisso para continuar existindo, como leitora, como escritora, como editora.”


                                                              *

Gosto muito da visão de todos (especialmente da honestidade da Lúcia Riff, que por acaso também é minha agente ;) , mas não concordo totalmente. Eu, como partidário do existencialismo (ainda que existencialismo bizarro), sempre me interessei mais pelas narrativas com questões atemporais-universais. Então o "não consigo compreender um artista que não reflita o seu tempo", da Simone Paulino não faz sentido para mim. Eu consigo. Longe de pertencer a uma "elite" - eu sofro para pagar as contas; e estou longe até de pertencer a uma elite intelectual - eu trabalho em casa, não uso transporte público, mal saio de casa, então a minha visão da realidade atual é muito parcial, e não é isso que me interessa registrar em livro (talvez seja o que me interessa registrar neste blog, e por isso ando postando tão pouco). 


Para mim, o livro-romance sempre existiu para tratar de questões subjetivas, intrínsecas ao ser humano (a utopia da paternidade de "Neve Negra", a crise de meia idade de BIOFOBIA, o limite do individualismo de "Feriado de Mim Mesmo", e por aí vai.). São questões elitistas? Talvez. Talvez as grandes questões existenciais sejam elitistas, reflexões de gente entediada que não tem de pegar ônibus... (Talvez por isso eu tenha me tornado um autor irrelevante...)

Marcelino também sempre levanta essa bandeira da "literatura-maquininha", dos autores que estão aí, declamando seus poemas, vendendo seus livros. Mas esse povo que está toda noite bebendo em sarau, não está sentado em casa lendo, escrevendo; é um povo que junta um punhado de frases "lacradoras" e lança como livro. Tem seu valor, mas é triste de se exaltar como única literatura possível hoje em dia. Esse povo não tem fôlego nem para duzentas páginas. E como ficam os introspectivos, os esquizos e reclusos, que sempre tiveram na literatura seu abrigo? Só o showman pode ser hoje escritor? As colocações de Marcelino me fazem lembrar da frase do Temer: "Não pense em crise, trabalhe"...

(Não por acaso, os autores favoritos da minha geração são dos mais retirados, e que lançam romances consistentes a cada punhado de anos: Daniel Galera, Ana Paula Maia, Antonio Xerxenesky.)

Para encerrar, o professor da Sorbonne Leonardo Tonus também está trazendo muitas dessas questões em seu blog. Eu fui o primeiro a participar, semana passada, aqui: "O Desafio é a Liberdade"

LITERATURA PARANDO O TRÂNSITO

Pela estrada afora... Está acabando uma das Bienais mais intensas dos últimos tempos.  Para os amigos (paulistanos) que eu di...