27/05/2016

ODE À REDE DO ÓDIO

Num dia monotemático como o de ontem é que vejo como as coisas estão: bem.

Li dezenas de posts sobre o estupro coletivo da menina. Dezenas de pontos de vistas coincidentes. Um ou outro que tinha algo a acrescentar. Alguns que deveriam ter ficado calados.
A violência não é maior do que já foi. Mas a capacidade de discuti-la, condená-la, flagrá-la é. Antes não saberíamos desse caso. Antes não poderíamos debater. Teríamos de aceitar a versão oficial, jornal impresso, Jornal Nacional.

Não estamos mais na bolha em que a violência não existe. Nem na selva onde é cada um por si.

Hoje convivemos, ainda que virtualmente, com moleques que postam vídeos de estupro. Estamos sentados com os evangélicos vendo um vídeo do Porta dos Fundos, do Põe na Roda, da Ana Paula Valadão.

Se temos poucas razões para acreditar na raça humana, tenhamos esperança na sociedade que podemos criar. E, ao meu ver, as redes sociais são uma das ferramentas mais valiosas para isso.

Lembro de um post de um amigo, há algum tempo, que dizia: “triste dessa geração que se informa pelo Facebook.” Eu não acho. Triste era a geração que tinha de esperar todo sábado pela Veja. Hoje temos o link da matéria da Veja na timeline ao mesmo tempo que temos a visão do Pragmatismo Político ou podemos seguir Olavo de Carvalho, Eliane Brum, Leonardo Sakamoto ou deixá-los convivendo em nossa página de abertura. É isso que eu faço. Minha leitura diária dos jornais pela manhã se tornou a leitura da página inicial, links postados, diferentes pontos de vista, muitos deles independentes. E se suas redes não rendem nada, o problema são seus amigos.

Claro que a falta de filtro também tem seus dilemas. Cada um posta o que quer, então se posta muita merda – mas isso também faz parte da descoberta do que se pensa realmente. Compartilha-se muita notícia falsa. E muita gente reproduz o senso comum apenas para entrar na onda: “A cultura do estupro precisa acabar” – que pensamento original! (300 polegares positivos). Se a rede não tem filtro, precisamos criar nossos próprios. Quando não tenho nada a acrescentar, prefiro me manter em silêncio, só lendo, ainda que o silêncio passe muitas vezes por alienação.

E se eu fosse escrever sobre estupro... (como já escrevi sobre estupro), eu preferiria me colocar no lugar do outro tentar entender porque ocorre, como se pode praticá-lo. Porque condená-lo para mim é o mais senso comum, não vejo o que se pode discutir.


De BIOFOBIA


Mas talvez não seja a melhor tática... Porque as pessoas só querem ler o que elas já sabem. E meus livros mesmo (talvez por isso) sempre tiveram alcance limitado...


Voltando. Usamos exaustivamente as redes sociais e ainda assim só somos capazes de repercutir o lado negativo delas. Eu como “minoria”- homossexual começando a vida no final dos 90 - e como “diferentão”, que sempre teve gostos alternativos para literatura, música, cinema, não posso me esquecer do quanto a rede deu possibilidades de eu encontrar a mim mesmo.


16/05/2016

CAUBY! CAUBY!


1931-2016
Perdemos Cauby Peixoto. Para quem é fã do kistch, sempre foi um prato cheio. Se sua voz era indiscutível, o repertório e a interpretação passaram por todo tipo de coisa, a carreira teve seus altos e baixos. Mas não se pode esquecer de que, quando ele queria, também sabia ser delicado e sutil, inclusive em gravações mais recentes.

Assisti ao Cauby pela primeira vez em 2001, em Porto Alegre. Debilitado por uma ponte de safena, cantou o show todo sentado, e eu agradeci poder conhecer essa lenda que, imaginei, estava com os dias contados.

Eu e ele em 2007. 
Foi-se mais de uma década depois. E nesse tempo o assisti mais algumas vezes no Bar Brahma, sempre cantando sentado, com a voz grave afinadíssima - já não mais tão potente -; tive ainda o privilégio de entrevistá-lo para a Joyce Pascowitch em 2007 (de onde guardo essa foto).

A entrevista não rendeu tanto quanto eu esperava. Cauby soltava frases feitas, fugia das questões mais pessoais, com décadas de prática, parecia um personagem pré-programado. Tudo bem. Completei a matéria com depoimentos de amigos (entre eles o biógrafo Rodrigo Faour e meu querido amigo Arlindo Lopes, que fazia o musical dele no teatro).

Hoje acordei com a notícia de sua morte. Aos 85 anos e com tanta história, não se poderia pedir muito mais. Compartilho assim algumas de suas melhores (e piores) músicas, algumas das mais curiosas.



No começo dos 2000, debilitado, Cauby gravou um disco de canções suaves: "Cauby Canta as Mulheres", só com faixas com nomes femininos (incluindo Lígia, Carolina, Dindi e uma versão soft de Conceição). Tenho aqui em casa e, para mim, é uma prova de que ele não dependia dos excessos para brilhar.


"Meu Coração É um Pandeiro" é um álbum lançado mais ou menos na mesma época, onde ele revisitava grandes clássicos do samba. Os arranjos são de muito bom gosto. E tem a interpretação definitiva de "Retalhos de Cetim", na voz dele.



Indo aos antigos sucessos, a tarantela "Canção do Rouxinol" é das representações mais kitsch (e divertidas) da obra dele.


Dos álbuns mais recentes, o disco de sucessos de Roberto Carlos também é bem delicado. Ganhei de presente do querido Marcelino Freire, há um par de anos.


Cauby ressurgiu nos anos 80 puxado por esse sucesso que gravou com Ellis Regina, "Bolero de Satã". Ele entra apenas no final da música, mas arregaça com tudo.


Uma das parcerias mais bizonhas (e toscas) foi com a banda Tokyo, do Supla, nos anos 80.



Já a versão dele de "Cheek to Cheek", com Caetano, é deliciosa.



Sua parceira mais frequente era Angela Maria. O disco deles de 1982 é um clássico.


Um dos maiores sucessos da carreira dele é "Bastidores", escrita por Chico Buarque, que ele cantava mais contido nos últimos anos. Para você mesmo ver como não é fácil, experimente aí essa versão karaokê.



E não poderia encerrar sem… CONCEIÇAAAAAAAO… aqui no auge de sua potência vocal, com o mestre Sílvio.


 Ficam assim suas gravações, já que um substituto não será possível.

13/05/2016

OS 39


Enquanto o país desabava lá fora, passeávamos no zoológico.

Ontem fiz 39 anos e, como não fui viajar, decidi passar um dia de turista na minha própria cidade. Murilo estava livre e me acompanhou ao zoológico, que eu não visitava há quase trinta anos.

É um passeio um pouco triste, os bichos presos, um espaço absurdamente pequeno para jacarés, para grandes felinos. Só não chega a ser melancólico pelo grito incessante das excursões escolares. E as crianças ainda pararam o Murilo para fotos.

Na volta, fomos almoçar na Casa Garabed, lendário restaurante armênio em Santana, que devido à localização eu nunca tinha ido. É longe. E, para quem não mora na região, não sei se vale a viagem.

Brindando com arak. 

O carro chefe da casa são as esfihas, assadas na hora em forno à lenha, a preços salgados entre R$9 e R$13 (isso, a UNIDADE), que achei apenas ok. Pessoalmente eu prefiro as de massa macia às crocantes de lá. E os recheios de cordeiro e de bastrmá não se diferenciam muito das de carne convencional.

Já o homus e o kibe cru foram dos melhores que comi na vida, acompanhados de pães quentinhos também assados na  hora.

O ambiente é aquela coisa, basicamente um salão de espera de uma pizzaria. Já esperava algo "rústico", mas como o restaurante armênio mais conhecido de São Paulo não dava para ao menos colocar um retratinho do monte Ararat na parede? Tocar músicas típicas? Colocar um retrato das KARDASHIAN que fosse? É uma parede de azulejos sem referência alguma ao país dos meus antepassados.

(Vale lembrar que o que se come hoje na Armênia tem pouco a ver com essa culinária libanesa - que remete mais à antiga Armênia Ocidental. A culinária que encontrei ano passado em Erevan remete mais à herança soviética e do Cáucaso.)

O serviço também. Eu ainda esperava algo romântico com um velho proprietário armênio nos recebendo, perguntando de quem eu era neto, mas nada. Fomos atendidos pelos funcionários jovenzinhos-nordestinos num serviço eficiente e nada intimista.

Enfim, valeu pelo passeio, a comida, mas, pela distância, o ambiente e o preço, não compensa. E preciso dizer que Murilo… vomitou ao chegar em casa. Não sei do que foi, porque eu comi as mesmas coisas e não tive nada. De repente foi uma virose.

(Murilo voltou antes para casa, enquanto eu estava no mercado. Quando cheguei, toquei, toquei campainha e ele pedindo para eu esperar. Estava crente que ele estava decorando a casa, preparando a festa, mas era vômito mesmo.)

Meu aniversário terminou aqui em casa, só eu a coelha e o Murilo. Ele mesmo preparou um bolo lindo para mim, fizemos drinques de Stolichnaya e vimos filmes de terror de gosto discutível.


O bolo do Murilo. 


Daí acordei na sexta-feira 13 com os horrores desse novo país...






05/05/2016

CHRISTIAN

A vida se vai mesmo num sopro. Esta semana se foi o querido Christian Petermann, que estava internado há alguns dias por complicações de uma séria crise de asma. Grande crítico de cinema, fui a algumas sessões com ele, nos encontrávamos com frequência pelas ruas, eu o interrogava sobre lançamentos, sobre apostas para o Oscar. A última vez que nos falamos foi há poucas semanas; ele me entrevistou para uma matéria que ainda está por sair. Era um cara muito inteligente e carinhoso. Pensei muito nele esses dias. Força à família e amigos. Assim é a vida.

01/05/2016

PARAÍSO ASTRAL


Apesar da conjuntura, tem sido um ano tranquilo, no bom e no mau sentido. 

Nesse período entrelivros, parece que tudo fica em stand-by, sem viagens, sem eventos, sem grandes novidades desmotivadas pela crise. 

Mas não tem me faltado trabalho, traduções, a encomenda de um texto ou outro. É bom poder apenas abrir a caixa de email e ver que de tempos em tempos alguém se lembrou de mim. Assim pago as contas, sem grandes sobras ou entusiasmos. 

Então, aproveitando o marasmo, peguei esse final de mês para visitar minha amada ilha, às vésperas do meu aniversário. 

Galheta, ontem. 


Florianópolis é meu lugar favorito no mundo desde antes de eu morar lá, entre 2010 e 2011. Não tenho conseguido ir tanto quanto queria, mas sempre está a um pulo, principalmente com a recepção da pousada da Ida e da familinha que formei por lá. 

Também foi das últimas oportunidades que eu e Murilo teremos de viajar juntos por um bom tempo, agora ele que está se preparando para comandar um restaurante. 

Os indispensáveis camarões. 

Tivemos cinco dias daquelas longas caminhadas, pedaladas, remadas, muito camarão e papos regados a vodca. Ainda que à beira dos 40, e longe da minha melhor forma, ainda estou muito bem de resistência - a academia diária às vezes se paga. Na quarta pedalamos 40km da Barra até o Campeche e de volta, e eu praticamente nem senti. Murilo, sedentário aos 27, já está com dificuldade de me acompanhar. 

Mal das pernas, Murilo sugeriu irmos remar de caiaque. 
Não deu muito certo. 


Fez bastante frio durante a noite, dias frescos de céu claro. Para mim, o clima perfeito. O mar estava quente e as praias vazias. Voltamos num vôo de manhãzinha este domingo, para o aniversário de 4 anos de minha sobrinha.


O meu aniversário de 39 é na próxima semana. Não devo fazer nada. Para mim, já está muito bem comemorado.
O jantar com tainha grelhada na brasa de ontem na pousada.


Sigo agora na reta final de um novo romance (meu... NONO livro), que tenho de entregar até julho. Provavelmente sai no começo de 2017, como se o mundo precisasse disso.




18/04/2016

CAVIAR CONSCIENTE



O inimigo de meu inimigo meu amigo é? 

Não votei na Dilma.

No primeiro turno, votei PV. No segundo, estava fora do país.

Como a maioria, acho o governo dela catastrófico. Há muito antevia a crise econômica; costumava prever que, se o Brasil perdesse a Copa, a crise começaria no dia seguinte. Não levei em conta as eleições, que camuflaram o estrago por mais um tempo.

Ainda assim, se eu não entendia que incompetência e impopularidade eram motivo para impeachment, a forma como tudo foi conduzido me forçou ainda mais a apoiar o governo.

Sou um belo exemplo da esquerda caviar. Branco, nascido e criado nos Jardins, em São Paulo, só fui trabalhar depois dos 18.  Nunca passei fome, nunca estudei em colégio público, sou formado em Publicidade e Propaganda pela FAAP!, veja só!

E como tive acesso à educação, li bons livros, aprendi línguas, viajei, conheci outras culturas, não tive a cabeça formada pelo pastor da esquina. Ao meu ver, não há contradição nenhuma no termo "esquerda caviar". Exatamente pelas oportunidades e experiências que tive na vida que não posso apoiar a direita fascista que aí está .

Já fui um imigrante latino, num sub-emprego como barman, em Londres, onde dependia exclusivamente do meu salário para comer e pagar o aluguel. Já vivi na Escandinávia, "o verdadeiro primeiro mundo", para saber como pode funcionar bem um governo de esquerda à beira do socialismo. Posso jantar num restaurante caro, e também me enxergar no lugar do garçom. Sou homossexual, e sei como a defesa dos direitos dessa e de outras minorias não é uma pauta da direita.

Por essas e outras que a vida foi me levando conscientemente para a esquerda, sem dogmas, sem tradicionalismos, sem uma "fé desenfreada", simplesmente experiência de vida.

Há muito a se questionar sobre o quanto o PT de fato cumpre suas promessas, porém isso não é o suficiente para eu apoiar quem promete o que eu não quero para o país.

Ontem, acompanhando a votação do impeachment pela televisão, fiquei horrorizado. Por um breve discurso já se podia ver como é baixo o nível de quem está lá. Um povo limitado, despreparado, sem noção. "Pela minha família, por Deus, por meu neto Gabriel", era o tom frequente dos discursos pró golpe. Exaltado pela vodca (faltou o caviar), eu me peguei gritando aqui na sala: "Ninguém dá a mínima pra porra da sua família!" São uns valores tortos, que dão a entender que eles não têm ideia do que estão fazendo. Estão defendendo sua religião, protegendo os seus. Salve-se quem puder.

Não votei em Dilma. Não votei em Temer. Mas principalmente não votei em Eduardo Cunha - que não só representa todo tradicionalismo e burrice que abomino, mas carrega nas costas todas as acusações de bandido sem vergonha.

Sou branco, privilegiado, até um tanto elitista. E se não apoio a direita é porque não tem condições mesmo...


01/04/2016

SOBRE A VIDA

Ontem acordei com a notícia de que a filha de oito anos de conhecidos havia morrido de gripe. O pai dela postou no Facebook, ao que se seguiu centenas de comentários solidários, de pêsames, emoticons de tristeza, alguns polegares positivos...

Não conhecia a menina, mal conheço os pais, achei melhor não mandar recado algum. Dificilmente terei filhos, nunca tive uma perda pesada dessas, não sei o que dizer, nem sei o que sentir. Ainda assim, não tinha como não me colocar no lugar do pai, do outro lado da tela. Ele abria a timeline para postar sobre a morte da filha e via a foto do café da manhã de um amigo, outro postando um meme sobre o pato da FIESP, escritores aproveitando uma viagem a Paris. Sua filha morre e o mundo continua sorrindo.

Passei o dia com uma sensação incômoda. Apenas uma sensação incômoda. Não consegui postar sobre uma estreia teatral, o lançamento do livro de um amigo, cada postagem que surgia na minha timeline parecia um desrespeito com o sofrimento daquela família.

Pessoas morrem todos os dias. E o mundo continua rindo.

Tenho cinco mil amigos no Facebook. Sabe-se lá quais estão perdendo diariamente entes queridos, quais morrem eles mesmos, enquanto escrevo este post, enquanto compartilho uma crítica ao meu livro.

 Outra conhecida compartilhou a notícia da morte. Com uma legenda que até agora não entendi o sentido:

“Quantos mais irão morrer?” ela perguntava. Não entendi. 

Sem querer ser sarcástico, tive de responder com obviedade:


“Todos.”

28/03/2016

MARVEL VS DC


Sou fã da Marvel. Na infância, Hulk era meu personagem favorito. Entrando na adolescência, comecei a ler Homem-aranha e X-Men. Para mim a DC sempre pareceu mais quadradinha e sorumbática... e agora no cinema essa impressão permanece.

Fui assistir ao inflado Batman vs Superman. Foi pior do que eu pensava. Consigo curtir cinema comercial numa boa, mas aqui pareceu que eu estava vendo um trailer por duas horas e meia. Uma sucessão de cenas de efeito, clipadas, diálogos construídos como bordões, efeitos especiais toscos entre o Playstation 3 e o 4...

A crítica de cinema detonou. Os fãs gostaram. Muitos dizem que é a adaptação mais fiel dos quadrinhos para as telas. Pode ser, e pode funcionar mais como quadrinhos, para fãs, porque como cinema é um desastre. As motivações dos personagens (para lutarem entre si, entre outras) são risíveis, as soluções encontradas são apressadas e didáticas.

Assumo a alcunha de marvelete, porque fica impossível não comparar os dois universos. A Marvel gastou anos apresentando personagens, construindo um cenário para chegar aos Vingadores (e ainda assim, não gosto tanto, porque acho que são muitos personagens mal aproveitados). A DC parece que agora quer recuperar o tempo perdido da noite para o dia. Num único filme joga meia dúzias de personagens para formar a Liga da Justiça. E isso está longe de ser o maior problema do filme.

Por mais que os filmes da Marvel sejam leves e descartáveis, sempre são divertidos. Há bons diálogos, humor, são personagens muito bem construídos. Eu mesmo nunca liguei para o Homem de Ferro nos quadrinhos, mas o personagem de Robert Downey Jr. nos cinemas, para mim, é o melhor super herói de todos os tempos. Se a Marvel não exige demais de seus expectadores, também não insulta sua inteligência.

(Posso ter perdido essa informação; mas uma perguntinha básica para os fãs da DC: o fato de o Superman ser IDÊNTICO ao Clark Kent sem óculos nunca é questionado? Vão fazer o mesmo com a Mulher Maravilha? No filme isso não fica claro. e é um dos menores exemplos de como a DC exige um coração de fã para se acreditar nos filmes...)

Para concluir, o maior defeito de Batman vs Superman é que é um filme chato, cansativo. Murilo (que não gosta nada de quadrinhos) foi comigo e queria sair no meio. Aguentamos até o fim.



Coloco então meu ranking dos dez favoritos de super herói. (Sei que o Batman do Tim Burton tem pouco a ver com o dos quadrinhos. Talvez por isso que eu goste tanto).

Homem de Ferro
Homem Aranha
Batman Returns
Homem Aranha 2
O Incrível Hulk
Dead Pool
Homem de Ferro 2
Batman
Batman o Cavaleiro das Trevas
Vingadores: A Era de Ultron





15/03/2016

VESTINDO A CAMISA


"O Brasil não é um país sério"

“Estou farto de tanta corrupção” (obviedades de um comentarista de timeline: 400 curtidas)

Há dias que não falo nada. Só observo. Quietinho acompanho (de casa) as manifestações, cobertura sobre as manifestações, comentários sobre a cobertura. Faço a Glória e não me considero apto a opinar.

Política não é meu campo. As minhas opiniões são óbvias. Não fazem diferença e não tenho nada a acrescentar. Mas permanecer calado observando, em tempos de manifestação política, é mostrar-se alienado.

Nunca torci para time nenhum. Nunca entendi a razão para se ter um time. É pelo hino? É pelas cores? Gosto da camisa preta, gosto da camisa azul. O time tem uma personalidade em si? O jogador para quem você torce hoje não pode amanhã estar no time adversário ? Essa questão segue atualmente comigo em relação aos partidos políticos.

Me parece uma escolha aleatória e irracional. Me parece óbvio. Gosto da estrelinha. Sou do clube dos tucaninhos. Minha prefeita petista é do PMDB. “O cachorro é um lobo mais manso.”

Num cenário de corrupção institucionalizada, culpar o PT, defender o PT me parece tão ingênuo, tão fantasioso, tão óbvio, que tenho medo de estar fazendo papel de idiota. Não fui à manifestação porque me pareceu dirigida a um bode expiatório. Escolhe-se o governo como personificação da corrupção, lavam-se as mãos, e com um golpe o resto do bando assume. (Quem sabe Dilma não volta numa próxima como ministra do Aécio?)

Mas isso não é dizer o óbvio?

Domingo saí para almoçar e vi o povo de amarelo, camisa da CBF, grife de corrupção, ir protestar contra sei lá o quê, passear na Paulista, levar o cachorrinho, babá empurrando o carrinho das crianças...

O que importa é a mensagem. 

A imagem emblemática inflamou as discussões dos últimos dias. É apenas uma imagem, mas são apenas discussões. Pessoalmente acho estranho alguém precisar de babá quando os dois pais estão presentes. Acho estranho precisar de uma babá para empurrar o carro dos filhos num domingo à tarde. Acho mais estranho levar a babá uniformizada de branco numa manifestação política. Mas cada um faz o que quer; estão gerando emprego, pagando impostos, não estão fazendo nada de ilegal...

E cada um comenta o que quer. Se estão numa manifestação política, estão lá para passar uma mensagem, mostrar publicamente o que pensam. Estão sujeitos à crítica dos que não concordam.  

Eu acho que a primeira mensagem que eles me passam é: “Precisamos dos pobres para empurrar o carrinho dos nossos filhos.” E o casal ir dessa forma numa manifestação e nem compreender o que a imagem poderia transmitir me parece mais um agravante de alienação, como o casal que vestiu o filho de macaco no carnaval.

Você também pode dizer: “A patrulha da esquerda está demais. Não se pode nem sair de casa com a babá.”

Pode. E quem acha essas manifestações incongruentes também pode se expressar. Essa é a beleza da democracia que ainda temos...

A mim parece óbvio.

Por isso fico quietinho.

Ops...

01/03/2016

PEDAÇOS DE VIDA

Resenha que publiquei na Folha do último final de semana: 

O formato de observação do cotidiano da crônica requer não só um olhar atento do autor, mas um pertencimento a uma realidade comum. O talento de um cronista, mais do que causar estranheza ou incômodo, está em gerar identificação. Assim, o grande escritor do gênero é o que consegue dizer o que todos já sabem, de uma maneira absolutamente própria.
Fabrício Carpinejar cumpre esses requisitos em parte. Os volumes que trazem suas memórias como filho e como pai são fragmentos imediatamente identificáveis de infância, com um lirismo suave que gera um sorriso de canto de boca. São oito títulos divididos em duas coleções. Na “Vida em Pedaços”, com ilustrações de Eloar Guazzelli, Carpinejar narra uma infância praticamente arquetípica: futebol na rua, avó no fogão, maçãs para professora, fruta comida do pé. Mesmo a estranheza do personagem parece obedecer à rígida cartilha de infância. Não há nada de original no menino Fabrício. Já na coleção “Pedaços de Vida”, ilustrada por Ana Pez, Carpinejar conta sobre as inseguranças e certezas da paternidade, e sua relação com os dois filhos, um menino retraído e uma adolescente típica.
São relatos coloridos pelo talento de Carpinejar como poeta. Excelente frasista, consegue sintetizar verdades e senso comum de maneira precisa: “Amar é não ter paz.” “O caçula é dos filhos o que não se acostumou a nascer.”Quando criança, errar é poesia. Quando adulto, errar é malandragem.” “As olheiras são sonhos que se repetiram”. “Praça é quando duas ruas se casam.” “Uma mãe acabou de ser mãe. Frase engraçada. Mãe é nunca acabar de ser.” Porém em oito volumes (ainda que curtos e que possam ser comprados separadamente), alguns relatos mais tocantes acabam se perdendo numa coleção inchada. (Talvez funcione melhor numa leitura mais preguiçosa e despretensiosa do que a exigida para uma resenha de jornal).
O projeto gráfico em si, e a tradição da editora no segmento infanto-juvenil, geram certa confusão sobre a que público os livros se destinam. Apesar de se tratar da infância, não são de forma alguma livros para crianças; é literatura infantil para adultos, que pode também seduzir adolescentes mais sensíveis. Acertando em cheio nesse tom, as ilustrações da espanhola Ana Pez se sobressaem.
Como um todo, os oito volumes de memórias de Fabrício Carpinejar formam uma leitura prazerosa e inofensiva. E se o texto nunca chega a alcançar a genialidade, tem o mérito de jamais resvalar na pieguice.

Avaliação: Bom

19/02/2016

LEITORES BETA

Click do Felipe Helmeister


O escritor é um caçador solitário, mas este livro não estaria aqui se não fosse por um bando de gente tão louca (ou obcecada) quanto eu. Por isso agradeço primeiramente à minha agente, Siobhan Mitchell e sua assistente Sarah O'Connor pelas incontáveis leituras, correções e apontamentos nas dúzias de versões pelas quais o texto passou. Agradeço também à meu editor Robert Sullivan e todos na Evergreen Press - especialmente a Margareth Talbot, Clare Davis e Susan Montague (te devo aquele crumble) -  pelo cuidado, paciência e carinho com que trabalharam este livro desde sua primeira ideia, há cinco anos. Não poderia esquecer de minhas talentosas amigas, a escritora Viola Corman, Deborah Sanders e Lupita Ramirez pelos valiosos conselhos durante a leitura - vocês detonam! Por fim não poderia deixar de agradecer ao meu marido, Bob Burns, que me deu todo apoio estrutura (e ouviu atentamente incontáveis leituras deste livro madrugada adentro) para que eu pudesse realizar este sonho. Você é o protagonista masculino da minha vida. 
- Estes são agradecimentos fictícios (de uma mulherzinha...), uma versão condensada que criei, baseadas em tantos e tantos "acknowledgements" reais que encontro por aí.



Estou terminando a primeira versão de meu novo romance. Mandando para alguns "leitores beta", me perguntando quem poderia me auxiliar em questões específicas.

Nessas horas, sempre me lembro de "agradecimentos" como os acima, que encontro no fim das traduções de livros, com dezenas e dezenas de nomes de leitores, editores, agentes, gente envolvida na produção do livro. Talvez lá fora a coisa seja mais profissional. Talvez os livros que cheguem aqui para eu traduzir sejam o que tenham passado por um processo maior, mas sempre me impressiona a QUANTIDADE de gente que se dispõe a ler (mais de uma vez) os originais antes de o livro ser publicado.

Eu sempre tenho a sensação de que estou esmolando - "eu... queria pedir uma coisa... se não fosse incômodo... poderia... poderia dar uma lida no meu livro novo... por favor... me dizer o que acha...?" Mesmo quando me encomendam o livro, sinto um incômodo de pedir uma leitura de quem encomendou. Talvez seja um caso particular, porque o que eu escrevo não presta.

Ou talvez seja por conhecer o outro lado. Diariamente chegam na minha caixa postal, no meu Facebook mensagens de leitores-autores pedindo uma leitura, uma opinião, uma orelha. Não tem como dar conta. Além dos livros que leio para resenha na Folha, que faço leitura crítica para editoras, há o fluxo interminável de lançamentos de amigos, colegas, conhecidos. Eu procuro ler, tenho prazer e acho importante, mas se não me policio acabo só lendo literatura brasileira contemporânea. E quase só literatura brasileira contemporânea RUIM.

Esta semana me dei ao luxo de virar uma noite lendo Tolstoy ("Polikuchka", delicioso, e apenas 140 páginas). Depois me peguei culpado porque emendei num Chuck Palahniuk maiorzinho ("Haunted" - "Por que você perde tempo lendo mais um Palahniuk, Santiago? Tem uma dúzia de amigos que você ainda não leu. Tem aquele menino que te pediu uma frase pra contracapa. Que seja então Graciliano! Se é para ler estrangeiros que sejam os clássicos!")

(Isso quando não viro a madrugada jogando videogame...)

Verdade que muita gente que pede leitura/opinião quer na verdade elogio/editora. Suspeito que a maioria nunca tenha de fato lido um livro meu - "Adorei o Biofobia", vem na mensagem como para dizer "li o seu, agora leia o meu" - que acredite que eu possa ter algum tipo de influência em editora. Ano passado mesmo, escrevi para o material de trabalho de um jovem autor, dono de um conhecido blog de literatura, e depois que me dei conta: o blog dele nunca deu uma linha sobre meu trabalho.

Mas tudo bem. Às vezes compensa.

No final do ano recebi de um amigo (autor inédito) os originais de um romance, e quando me preparava para me retorcer em arrependimento por ter me oferecido, tive a surpresa de encontrar um grande texto. É raro.

Quando o texto não é lá grande coisa, a amizade fica comprometida. Dois bons amigos se tornaram amigos mais distantes depois que critiquei (em particular) seus originais. Ou acharam que falei merda ou se convenceram de "quem é ele para me criticar?"

Nunca é fácil. "Dar uma lida" para opinar exige dar duas ou três lidas, sublinhar passagens, anotar, depois escrever opiniões e sugestões (nesse meu último caso, deu três páginas de texto). E eu próprio não me considero apto a ensinar ninguém a escrever - não dou oficinas, não serei picareta de faturar com a ilusão alheia.

Esse talento de leitor - de parecerista, de orientador - deveria ser mais valorizado. Por aqui raramente se encontra isso, mesmo dentro da editora - raramente tive um trabalho de edição nos meus livros; alguns não tenho nem certeza se alguém lá leu, além do revisor/diagramador. Talvez seja essa a diferença lá de fora. Leitores beta são valorizados porque são pagos. As editoras pagam por as editoras ganham. Ou o autor mesmo tenha condições de bancar. É o autor quem mais ganha com isso.  O autor e seus leitores gama, que pegam um livro mais bem cozido.

Esta foto ilustrará eternamente nosso ofício. 

ÚLTIMA AULA DO ANO

Vou dar minha última aula este ano, em cima dos textos de vocês. Me mande as dez primeiras páginas ou o projeto de um romance em que esteja ...