09/06/2016

LITERATURA EM FUGA

Novos narradores iberoamericanos (Madri, 2010): Nazarian (Brasil), Hasbún (Bolívia), Azpeitia (Espanha), Lahoz (Espanha), Schweblin (Argentina). 



Ler um livro uma única vez, para mim, é como não ler nenhuma. Na maioria das vezes fica a sensação, mas pouquíssimo do texto. Frequentemente me pego conversando com alguém que fala com entusiasmo sobre um livro, comenta passagens e frases e eu não consigo de me lembrar de nada específico para deixar claro que li. Memória zoada que eu tenho para essas coisas...

Crime e Castigo, de Dostoievski, eu havia lido na faculdade, e me dei conta que isso já deveria ter uns vinte anos. Reli agora, buscando uma fuga da contemporaneidade. E fez tanto efeito quanto na época.

É um romanção no melhor sentido da palavra, denso, detalhista, ainda que estruturado sobre uma ideia simples, brilhantemente resumida no título. Para mim é daquelas obras obrigatórias, (ainda que todos considerem obrigatórias), e que fluem facilmente, longe de ser uma leitura maçante. Acima de tudo, é um livro divertido. Bem, eu sempre tive um fraco pelos russos...

Ler um romance desses não é apenas uma aula para o escritor, como também um parâmetro... talvez inatingível. Daquelas leituras que faço com inveja, sabendo que nunca conseguirei chegar a esse requinte de estrutura.



Então em seguida emendo com Distância de Resgate, da querida autora argentina Samanta Schweblin, lançada aqui pela Record. O livro de Schweblin é uma daqueles antídotos para Dostoievski, oferece uma outra possibilidade de escrita, mais minimalista e hermética, que reafirma para mim como há infinitas formas de construção, e todas são válidas quanto têm consistência. Sensação parecida só tive recentemente ao ler o livro do Edyr Augusto, Pssica, no final do ano passado.  E sempre tenho quando leio Ana Paula Maia (que a meu ver tem um parentesco forte com a Samanta e, embora esteja conquistando belas traduções lá fora, ainda precisa ser melhor reconhecida no Brasil).

Distância de Resgate beira o romance de horror, com duas mães a um toque de perderem os filhos num povoado fictício assolado por contaminações químicas. O tema da paranoia da maternidade me foi imediatamente identificável, e é bem próximo do que eu mesmo estou tratando no meu próximo romance.

No de Schweblin:

“Minha mãe disse que alguma coisa ruim aconteceria. Minha mãe estava certa de que, cedo ou tarde, aconteceria, e agora podia ver isso com toda a clareza, podia sentir que aquilo avançava para nós com uma fatalidade tangível, irreversível. Já não há distância de resgate, o fio está tão curto que mal consigo me mover no quarto, mal posso me afastar de Nina para chegar até o armário e buscar as últimas coisas.”

E no meu próximo:

Há algo de errado com meu filho. E não posso dizer que me surpreendo. Esperei a vida toda por isso. Desde o primeiro dia, desde antes, espero algum sinal de anomalia. A mancha vermelha na testa desapareceu, então esperamos os primeiros passos. Alvinho engatinhou e se levantou, então esperamos as primeiras palavras. Alvinho falou – acho que foi algo previsível como mamá – e esperamos as convulsões. A cada frango servido, esperava o osso da sorte a travar-lhe a garganta. Sempre que eu voltava de uma viagem, sempre que, de longe, perguntava sobre ele, esperava, temia, ansiava pela má notícia que acreditava ser inevitável recair sobre meu filho.

Coincidência ou simplesmente um tema de nossa geração que se aproxima dos quarenta, e contempla o começo e o fim das possibilidades de ter um filho. Tive a honra de dividir mesas com a Samanta, Alejandro Zambra, Daniel Alarcón em encontros de “jovens escritores latino americanos” em Madri, Bogotá, Lima, Buenos Aires... Tenho orgulho de fazer parte dessa geração.

Com Samanta na casa dela em Buenos Aires (2011). 


Revolvendo assim influências literárias, semana passada pipocou no Facebook aquela lista de “15 autores que me influenciaram”, vários autores colocando os seus, muito Machado, muito Lobato, muitos obrigatórios previsíveis. Também tenho minhas previsibilidades, então aproveito aqui para estender os 20 que mais me influenciaram, com uma breve defesa de cada. Vale para eu mesmo reafirmar o que quero fazer, aonde quero chegar...

20 autores que mais me influenciaram:

1. Oscar Wilde: Ler O Retrato de Dorian Gray na adolescência foi meu mal. Pela primeira vez num livro tive a nítida convicção: “é isso que quero fazer.” O estilo dândi e o humor sarcástico de Wilde até hoje são referências fortes para mim.

2. Franz Kafka: Não só o absurdo da narrativa, mas o minimalismo de A Metamorfose foram uma influência forte para mim. Como é possível fazer um romance fantástico, em todos os sentidos, com tão pouco.

3. Thomas Mann: Embora seja o filme “Morte em Veneza”, de Luchino Visconti, que me levou à obra de Mann, está longe de ser meu texto favorito dele (acho que prefiro o filme, na verdade). Porém serviu para me apresentar coisas brilhantes do começo de carreira dele, como Tônio Kroeger e o livro de contos Os Famintos, que norteou muito meus temas. A Montanha Mágica, apesar de ser de uma fase posterior, e de ser daqueles “romanções obrigatórios” (em alguns trechos maçante), também ecoou em mim nas passagens melancólicas e platônicas típicas do autor.


Honra dividir mesas de debate (e de restaurante) com o gênio Noll. 

4. João Gilberto Noll: Falando em melancolia, poucas coisas me tocam tanto quanto os livros do Noll, sempre recheados também de uma ambiguidade sexual e nostalgia. Fácil aqui colocar vários dos meus favoritos: “Rastros do Verão”, “Hotel Atlântico”, “Acenos e Afagos”; “O Cego e a Dançarina” é facilmente meu livro de contos favorito, e “O Meu Amigo”, meu conto favorito da VIDA.


5. Dennis Cooper: Pouco conhecido (e nunca traduzido no Brasil; eu bem que tentei...) Cooper é um autor gay ultrahardcore, que mistura pornografia, pedofilia, tortura e necrofilia com um lirismo bem incomum nesses temas. É das coisas mais pesadas que se pode ler – ao meu ver muito mais eficiente que Sade. Mas ele também tem um livro menos gráfico, menos gay, com uma violência mais psicológica: God Jr. (talvez meu favorito). Meu Pornofantasma é filhote direto dele.

6. Clive Barker: Tem certo parentesco com Cooper (talvez pela influência dos beats), porém mais calcado num horror mais convencional. O universo dele, recheado de fetiches sadomasoquistas, é uma grande influência para mim, especialmente seus “Books of Blood” (volumes de contos).

7. Stephen King: Daqueles que li com maior prazer na adolescência, especialmente It e o livro de contos Night Shift, que foram dos primeiros livros que li em inglês. Como contador de histórias, poucos o superam.

8. Alberto Morávia: Autor italiano que herdei da biblioteca da minha mãe, que rejeitou a escatologia dele, presente principalmente em Desidéria. Mas além desse ele me encantou pelo retrato da adolescência nas duas novelas “Luca” e “Agostino”, (que apesar do original em italiano eu li em inglês, acho que nunca foram publicadas em português). O “Homem que Olha” foi outro romance dele que me fisgou, anos atrás... e do qual não me lembro quase nada.

9. Irmãos Grimm: Básico, né? Tenho belas versões ilustradas da minha infância, em especial uma edição portuguesa. E recentemente comprei as obras completas. Ainda me pego lendo de vez em quando.

10. Lúcio Cardoso: Tem certo parentesco com Noll e Caio, não só pela homossexualidade, mas talvez pelo universo ambíguo derivado dela. Crônica da Casa Assassinada é a obra mais exaltada (e conhecida) dele, apesar de uma leitura difícil. Fui fisgado particularmente pelo clima soturno de O Desconhecido (republicado há alguns anos num volume com a novela “Mãos Vazias”, pela Civilização Brasileira). Há alguns anos soube também que ele foi grande amigo do meu pai.  

11. Álvares de Azevedo: Acho que a única leitura obrigatória da escola que me cativou, pelo universo romântico (e gótico), principalmente em Noite na Taverna e Macário.

Não sei se algo da minha obra ficará, mas um lugarzinho para mim já está assegurado só por tantos grandes desta época que tenho o prazer de conhecer, conversar e ser amigo. 



12. Marcelino Freire: Aqui só estou puxando o saco... Haha. Nah, além de amigo (e grande influência como amigo), foi o primeiro autor dessa nova geração que eu li, e fique fascinado pela prosa poética, musical dele. Foi o autor que me deu licença para usar as rimas – e faz isso tão bem. Com certeza tem uma escrita inconfundível. Eu tive o prazer de escrever a apresentação de Rasif, mas meu favorito dele ainda é Balé Ralé.

13. Caio Fernando Abreu: Autor obrigatório da minha adolescência. A hiper-afetividade gay dele me encantou muito na época, hoje confesso que me cansa um pouco, muito “amorzinho”, falta uma maldade aí. Ainda assim, fica o carinho por Morangos Mofados, Os Dragões Não Conhecem o Paraíso e as cartas dele.

14. Herman Hesse: Demian e O Lobo da Estepe foram obras importantes na minha adolescência, pelos discursos filosóficos e também (como sempre) a ambiguidade. Hoje, pouco me lembro das tramas em si.

15. Lionel Shriver: Das poucas autoras mulheres aqui, e a mais recente da lista. Li “Precisamos Falar Sobre Kevin” naquele meu inverno tenebroso na Finlândia, em que quase me matei. Tenho várias ressalvas sobre esse livro, mas a forma como ela apresenta o lado mais sórdido das relações familiares me inspira muito, principalmente em Grande Irmão, que resenhei para a Folha há alguns anos.

16: Yan Martel: Canadense famoso por A Vida de Pi (que gerou o filme, polêmica com Scliar... além do meu conto “As Vidas de Max), constrói alegorias fantásticas para tratar de temas filosóficos. Outro dos meus favoritos dele é Beatriz e Virgílio, que mistura ensaio e romance com um clima bizarríssimo que beira o terror. Tive o prazer de ler em primeira mão, antes da publicação, como parecerista de uma editora. Parecer obviamente positivo.

17. William Shakespeare: Ok, daqueles obrigatórios obrigatórios, que acabam sendo influência mesmo que a gente não queira. Eu ainda tive o privilégio de trabalhar na tradução/legenda de duas montagens de peças dele por companhias estrangeiras aqui em São Paulo: Cimbeline e Hamlet, então não tinha como não ter uma relação pessoal com as obras dele. Como texto teatral, nunca houve nada melhor.

18. Vladimir Nabokov: Lolita é obra obrigatória e mergulho profundo no universo masculino, mas o volume de contos Perfeição estende esse universo em histórias bem divertidas e talvez mais acessíveis. Sempre gosto de ler as obras da juventude desses “autorzões”, que tratam dos temas que os tornaram celebres, mas com uma certa ingenuidade e romantismo que se perde com o tempo.  

19. Angela Sommer Bodenburg: Harry Potter chegou tarde para mim, já era marmanjo lendo Wilde e Caio, então na minha infância a série de livros que acompanhei com mais entusiasmo foi “O Pequeno Vampiro”, dessa autora alemã. É a história de um menino nerd solitário, fã de filmes de terror, que fica amigo de um vampirinho. Não tinha como não conquistar uma criança gótica como eu.


20. João Carlos Marinho: Esse está na lista de vários amigos e me lembrei de quanto acompanhei também a série de O Gênio do Crime, em vários livros. É daqueles de que hoje pouco lembro, mas que na infância acompanhava com ansiedade. O que mais ficou para mim é o humor absurdo de O Caneco de Prata, que parecia uma obra mais surrealista, dentro da série. “O professor Giovani tinha sete filhos e comeu um macarrão” é uma das frases de que ainda me lembro... Ok, a única de que me lembro.  

27/05/2016

ODE À REDE DO ÓDIO

Num dia monotemático como o de ontem é que vejo como as coisas estão: bem.

Li dezenas de posts sobre o estupro coletivo da menina. Dezenas de pontos de vistas coincidentes. Um ou outro que tinha algo a acrescentar. Alguns que deveriam ter ficado calados.
A violência não é maior do que já foi. Mas a capacidade de discuti-la, condená-la, flagrá-la é. Antes não saberíamos desse caso. Antes não poderíamos debater. Teríamos de aceitar a versão oficial, jornal impresso, Jornal Nacional.

Não estamos mais na bolha em que a violência não existe. Nem na selva onde é cada um por si.

Hoje convivemos, ainda que virtualmente, com moleques que postam vídeos de estupro. Estamos sentados com os evangélicos vendo um vídeo do Porta dos Fundos, do Põe na Roda, da Ana Paula Valadão.

Se temos poucas razões para acreditar na raça humana, tenhamos esperança na sociedade que podemos criar. E, ao meu ver, as redes sociais são uma das ferramentas mais valiosas para isso.

Lembro de um post de um amigo, há algum tempo, que dizia: “triste dessa geração que se informa pelo Facebook.” Eu não acho. Triste era a geração que tinha de esperar todo sábado pela Veja. Hoje temos o link da matéria da Veja na timeline ao mesmo tempo que temos a visão do Pragmatismo Político ou podemos seguir Olavo de Carvalho, Eliane Brum, Leonardo Sakamoto ou deixá-los convivendo em nossa página de abertura. É isso que eu faço. Minha leitura diária dos jornais pela manhã se tornou a leitura da página inicial, links postados, diferentes pontos de vista, muitos deles independentes. E se suas redes não rendem nada, o problema são seus amigos.

Claro que a falta de filtro também tem seus dilemas. Cada um posta o que quer, então se posta muita merda – mas isso também faz parte da descoberta do que se pensa realmente. Compartilha-se muita notícia falsa. E muita gente reproduz o senso comum apenas para entrar na onda: “A cultura do estupro precisa acabar” – que pensamento original! (300 polegares positivos). Se a rede não tem filtro, precisamos criar nossos próprios. Quando não tenho nada a acrescentar, prefiro me manter em silêncio, só lendo, ainda que o silêncio passe muitas vezes por alienação.

E se eu fosse escrever sobre estupro... (como já escrevi sobre estupro), eu preferiria me colocar no lugar do outro tentar entender porque ocorre, como se pode praticá-lo. Porque condená-lo para mim é o mais senso comum, não vejo o que se pode discutir.


De BIOFOBIA


Mas talvez não seja a melhor tática... Porque as pessoas só querem ler o que elas já sabem. E meus livros mesmo (talvez por isso) sempre tiveram alcance limitado...


Voltando. Usamos exaustivamente as redes sociais e ainda assim só somos capazes de repercutir o lado negativo delas. Eu como “minoria”- homossexual começando a vida no final dos 90 - e como “diferentão”, que sempre teve gostos alternativos para literatura, música, cinema, não posso me esquecer do quanto a rede deu possibilidades de eu encontrar a mim mesmo.


16/05/2016

CAUBY! CAUBY!


1931-2016
Perdemos Cauby Peixoto. Para quem é fã do kistch, sempre foi um prato cheio. Se sua voz era indiscutível, o repertório e a interpretação passaram por todo tipo de coisa, a carreira teve seus altos e baixos. Mas não se pode esquecer de que, quando ele queria, também sabia ser delicado e sutil, inclusive em gravações mais recentes.

Assisti ao Cauby pela primeira vez em 2001, em Porto Alegre. Debilitado por uma ponte de safena, cantou o show todo sentado, e eu agradeci poder conhecer essa lenda que, imaginei, estava com os dias contados.

Eu e ele em 2007. 
Foi-se mais de uma década depois. E nesse tempo o assisti mais algumas vezes no Bar Brahma, sempre cantando sentado, com a voz grave afinadíssima - já não mais tão potente -; tive ainda o privilégio de entrevistá-lo para a Joyce Pascowitch em 2007 (de onde guardo essa foto).

A entrevista não rendeu tanto quanto eu esperava. Cauby soltava frases feitas, fugia das questões mais pessoais, com décadas de prática, parecia um personagem pré-programado. Tudo bem. Completei a matéria com depoimentos de amigos (entre eles o biógrafo Rodrigo Faour e meu querido amigo Arlindo Lopes, que fazia o musical dele no teatro).

Hoje acordei com a notícia de sua morte. Aos 85 anos e com tanta história, não se poderia pedir muito mais. Compartilho assim algumas de suas melhores (e piores) músicas, algumas das mais curiosas.



No começo dos 2000, debilitado, Cauby gravou um disco de canções suaves: "Cauby Canta as Mulheres", só com faixas com nomes femininos (incluindo Lígia, Carolina, Dindi e uma versão soft de Conceição). Tenho aqui em casa e, para mim, é uma prova de que ele não dependia dos excessos para brilhar.


"Meu Coração É um Pandeiro" é um álbum lançado mais ou menos na mesma época, onde ele revisitava grandes clássicos do samba. Os arranjos são de muito bom gosto. E tem a interpretação definitiva de "Retalhos de Cetim", na voz dele.



Indo aos antigos sucessos, a tarantela "Canção do Rouxinol" é das representações mais kitsch (e divertidas) da obra dele.


Dos álbuns mais recentes, o disco de sucessos de Roberto Carlos também é bem delicado. Ganhei de presente do querido Marcelino Freire, há um par de anos.


Cauby ressurgiu nos anos 80 puxado por esse sucesso que gravou com Ellis Regina, "Bolero de Satã". Ele entra apenas no final da música, mas arregaça com tudo.


Uma das parcerias mais bizonhas (e toscas) foi com a banda Tokyo, do Supla, nos anos 80.



Já a versão dele de "Cheek to Cheek", com Caetano, é deliciosa.



Sua parceira mais frequente era Angela Maria. O disco deles de 1982 é um clássico.


Um dos maiores sucessos da carreira dele é "Bastidores", escrita por Chico Buarque, que ele cantava mais contido nos últimos anos. Para você mesmo ver como não é fácil, experimente aí essa versão karaokê.



E não poderia encerrar sem… CONCEIÇAAAAAAAO… aqui no auge de sua potência vocal, com o mestre Sílvio.


 Ficam assim suas gravações, já que um substituto não será possível.

13/05/2016

OS 39


Enquanto o país desabava lá fora, passeávamos no zoológico.

Ontem fiz 39 anos e, como não fui viajar, decidi passar um dia de turista na minha própria cidade. Murilo estava livre e me acompanhou ao zoológico, que eu não visitava há quase trinta anos.

É um passeio um pouco triste, os bichos presos, um espaço absurdamente pequeno para jacarés, para grandes felinos. Só não chega a ser melancólico pelo grito incessante das excursões escolares. E as crianças ainda pararam o Murilo para fotos.

Na volta, fomos almoçar na Casa Garabed, lendário restaurante armênio em Santana, que devido à localização eu nunca tinha ido. É longe. E, para quem não mora na região, não sei se vale a viagem.

Brindando com arak. 

O carro chefe da casa são as esfihas, assadas na hora em forno à lenha, a preços salgados entre R$9 e R$13 (isso, a UNIDADE), que achei apenas ok. Pessoalmente eu prefiro as de massa macia às crocantes de lá. E os recheios de cordeiro e de bastrmá não se diferenciam muito das de carne convencional.

Já o homus e o kibe cru foram dos melhores que comi na vida, acompanhados de pães quentinhos também assados na  hora.

O ambiente é aquela coisa, basicamente um salão de espera de uma pizzaria. Já esperava algo "rústico", mas como o restaurante armênio mais conhecido de São Paulo não dava para ao menos colocar um retratinho do monte Ararat na parede? Tocar músicas típicas? Colocar um retrato das KARDASHIAN que fosse? É uma parede de azulejos sem referência alguma ao país dos meus antepassados.

(Vale lembrar que o que se come hoje na Armênia tem pouco a ver com essa culinária libanesa - que remete mais à antiga Armênia Ocidental. A culinária que encontrei ano passado em Erevan remete mais à herança soviética e do Cáucaso.)

O serviço também. Eu ainda esperava algo romântico com um velho proprietário armênio nos recebendo, perguntando de quem eu era neto, mas nada. Fomos atendidos pelos funcionários jovenzinhos-nordestinos num serviço eficiente e nada intimista.

Enfim, valeu pelo passeio, a comida, mas, pela distância, o ambiente e o preço, não compensa. E preciso dizer que Murilo… vomitou ao chegar em casa. Não sei do que foi, porque eu comi as mesmas coisas e não tive nada. De repente foi uma virose.

(Murilo voltou antes para casa, enquanto eu estava no mercado. Quando cheguei, toquei, toquei campainha e ele pedindo para eu esperar. Estava crente que ele estava decorando a casa, preparando a festa, mas era vômito mesmo.)

Meu aniversário terminou aqui em casa, só eu a coelha e o Murilo. Ele mesmo preparou um bolo lindo para mim, fizemos drinques de Stolichnaya e vimos filmes de terror de gosto discutível.


O bolo do Murilo. 


Daí acordei na sexta-feira 13 com os horrores desse novo país...






05/05/2016

CHRISTIAN

A vida se vai mesmo num sopro. Esta semana se foi o querido Christian Petermann, que estava internado há alguns dias por complicações de uma séria crise de asma. Grande crítico de cinema, fui a algumas sessões com ele, nos encontrávamos com frequência pelas ruas, eu o interrogava sobre lançamentos, sobre apostas para o Oscar. A última vez que nos falamos foi há poucas semanas; ele me entrevistou para uma matéria que ainda está por sair. Era um cara muito inteligente e carinhoso. Pensei muito nele esses dias. Força à família e amigos. Assim é a vida.

01/05/2016

PARAÍSO ASTRAL


Apesar da conjuntura, tem sido um ano tranquilo, no bom e no mau sentido. 

Nesse período entrelivros, parece que tudo fica em stand-by, sem viagens, sem eventos, sem grandes novidades desmotivadas pela crise. 

Mas não tem me faltado trabalho, traduções, a encomenda de um texto ou outro. É bom poder apenas abrir a caixa de email e ver que de tempos em tempos alguém se lembrou de mim. Assim pago as contas, sem grandes sobras ou entusiasmos. 

Então, aproveitando o marasmo, peguei esse final de mês para visitar minha amada ilha, às vésperas do meu aniversário. 

Galheta, ontem. 


Florianópolis é meu lugar favorito no mundo desde antes de eu morar lá, entre 2010 e 2011. Não tenho conseguido ir tanto quanto queria, mas sempre está a um pulo, principalmente com a recepção da pousada da Ida e da familinha que formei por lá. 

Também foi das últimas oportunidades que eu e Murilo teremos de viajar juntos por um bom tempo, agora ele que está se preparando para comandar um restaurante. 

Os indispensáveis camarões. 

Tivemos cinco dias daquelas longas caminhadas, pedaladas, remadas, muito camarão e papos regados a vodca. Ainda que à beira dos 40, e longe da minha melhor forma, ainda estou muito bem de resistência - a academia diária às vezes se paga. Na quarta pedalamos 40km da Barra até o Campeche e de volta, e eu praticamente nem senti. Murilo, sedentário aos 27, já está com dificuldade de me acompanhar. 

Mal das pernas, Murilo sugeriu irmos remar de caiaque. 
Não deu muito certo. 


Fez bastante frio durante a noite, dias frescos de céu claro. Para mim, o clima perfeito. O mar estava quente e as praias vazias. Voltamos num vôo de manhãzinha este domingo, para o aniversário de 4 anos de minha sobrinha.


O meu aniversário de 39 é na próxima semana. Não devo fazer nada. Para mim, já está muito bem comemorado.
O jantar com tainha grelhada na brasa de ontem na pousada.


Sigo agora na reta final de um novo romance (meu... NONO livro), que tenho de entregar até julho. Provavelmente sai no começo de 2017, como se o mundo precisasse disso.




18/04/2016

CAVIAR CONSCIENTE



O inimigo de meu inimigo meu amigo é? 

Não votei na Dilma.

No primeiro turno, votei PV. No segundo, estava fora do país.

Como a maioria, acho o governo dela catastrófico. Há muito antevia a crise econômica; costumava prever que, se o Brasil perdesse a Copa, a crise começaria no dia seguinte. Não levei em conta as eleições, que camuflaram o estrago por mais um tempo.

Ainda assim, se eu não entendia que incompetência e impopularidade eram motivo para impeachment, a forma como tudo foi conduzido me forçou ainda mais a apoiar o governo.

Sou um belo exemplo da esquerda caviar. Branco, nascido e criado nos Jardins, em São Paulo, só fui trabalhar depois dos 18.  Nunca passei fome, nunca estudei em colégio público, sou formado em Publicidade e Propaganda pela FAAP!, veja só!

E como tive acesso à educação, li bons livros, aprendi línguas, viajei, conheci outras culturas, não tive a cabeça formada pelo pastor da esquina. Ao meu ver, não há contradição nenhuma no termo "esquerda caviar". Exatamente pelas oportunidades e experiências que tive na vida que não posso apoiar a direita fascista que aí está .

Já fui um imigrante latino, num sub-emprego como barman, em Londres, onde dependia exclusivamente do meu salário para comer e pagar o aluguel. Já vivi na Escandinávia, "o verdadeiro primeiro mundo", para saber como pode funcionar bem um governo de esquerda à beira do socialismo. Posso jantar num restaurante caro, e também me enxergar no lugar do garçom. Sou homossexual, e sei como a defesa dos direitos dessa e de outras minorias não é uma pauta da direita.

Por essas e outras que a vida foi me levando conscientemente para a esquerda, sem dogmas, sem tradicionalismos, sem uma "fé desenfreada", simplesmente experiência de vida.

Há muito a se questionar sobre o quanto o PT de fato cumpre suas promessas, porém isso não é o suficiente para eu apoiar quem promete o que eu não quero para o país.

Ontem, acompanhando a votação do impeachment pela televisão, fiquei horrorizado. Por um breve discurso já se podia ver como é baixo o nível de quem está lá. Um povo limitado, despreparado, sem noção. "Pela minha família, por Deus, por meu neto Gabriel", era o tom frequente dos discursos pró golpe. Exaltado pela vodca (faltou o caviar), eu me peguei gritando aqui na sala: "Ninguém dá a mínima pra porra da sua família!" São uns valores tortos, que dão a entender que eles não têm ideia do que estão fazendo. Estão defendendo sua religião, protegendo os seus. Salve-se quem puder.

Não votei em Dilma. Não votei em Temer. Mas principalmente não votei em Eduardo Cunha - que não só representa todo tradicionalismo e burrice que abomino, mas carrega nas costas todas as acusações de bandido sem vergonha.

Sou branco, privilegiado, até um tanto elitista. E se não apoio a direita é porque não tem condições mesmo...


01/04/2016

SOBRE A VIDA

Ontem acordei com a notícia de que a filha de oito anos de conhecidos havia morrido de gripe. O pai dela postou no Facebook, ao que se seguiu centenas de comentários solidários, de pêsames, emoticons de tristeza, alguns polegares positivos...

Não conhecia a menina, mal conheço os pais, achei melhor não mandar recado algum. Dificilmente terei filhos, nunca tive uma perda pesada dessas, não sei o que dizer, nem sei o que sentir. Ainda assim, não tinha como não me colocar no lugar do pai, do outro lado da tela. Ele abria a timeline para postar sobre a morte da filha e via a foto do café da manhã de um amigo, outro postando um meme sobre o pato da FIESP, escritores aproveitando uma viagem a Paris. Sua filha morre e o mundo continua sorrindo.

Passei o dia com uma sensação incômoda. Apenas uma sensação incômoda. Não consegui postar sobre uma estreia teatral, o lançamento do livro de um amigo, cada postagem que surgia na minha timeline parecia um desrespeito com o sofrimento daquela família.

Pessoas morrem todos os dias. E o mundo continua rindo.

Tenho cinco mil amigos no Facebook. Sabe-se lá quais estão perdendo diariamente entes queridos, quais morrem eles mesmos, enquanto escrevo este post, enquanto compartilho uma crítica ao meu livro.

 Outra conhecida compartilhou a notícia da morte. Com uma legenda que até agora não entendi o sentido:

“Quantos mais irão morrer?” ela perguntava. Não entendi. 

Sem querer ser sarcástico, tive de responder com obviedade:


“Todos.”

28/03/2016

MARVEL VS DC


Sou fã da Marvel. Na infância, Hulk era meu personagem favorito. Entrando na adolescência, comecei a ler Homem-aranha e X-Men. Para mim a DC sempre pareceu mais quadradinha e sorumbática... e agora no cinema essa impressão permanece.

Fui assistir ao inflado Batman vs Superman. Foi pior do que eu pensava. Consigo curtir cinema comercial numa boa, mas aqui pareceu que eu estava vendo um trailer por duas horas e meia. Uma sucessão de cenas de efeito, clipadas, diálogos construídos como bordões, efeitos especiais toscos entre o Playstation 3 e o 4...

A crítica de cinema detonou. Os fãs gostaram. Muitos dizem que é a adaptação mais fiel dos quadrinhos para as telas. Pode ser, e pode funcionar mais como quadrinhos, para fãs, porque como cinema é um desastre. As motivações dos personagens (para lutarem entre si, entre outras) são risíveis, as soluções encontradas são apressadas e didáticas.

Assumo a alcunha de marvelete, porque fica impossível não comparar os dois universos. A Marvel gastou anos apresentando personagens, construindo um cenário para chegar aos Vingadores (e ainda assim, não gosto tanto, porque acho que são muitos personagens mal aproveitados). A DC parece que agora quer recuperar o tempo perdido da noite para o dia. Num único filme joga meia dúzias de personagens para formar a Liga da Justiça. E isso está longe de ser o maior problema do filme.

Por mais que os filmes da Marvel sejam leves e descartáveis, sempre são divertidos. Há bons diálogos, humor, são personagens muito bem construídos. Eu mesmo nunca liguei para o Homem de Ferro nos quadrinhos, mas o personagem de Robert Downey Jr. nos cinemas, para mim, é o melhor super herói de todos os tempos. Se a Marvel não exige demais de seus expectadores, também não insulta sua inteligência.

(Posso ter perdido essa informação; mas uma perguntinha básica para os fãs da DC: o fato de o Superman ser IDÊNTICO ao Clark Kent sem óculos nunca é questionado? Vão fazer o mesmo com a Mulher Maravilha? No filme isso não fica claro. e é um dos menores exemplos de como a DC exige um coração de fã para se acreditar nos filmes...)

Para concluir, o maior defeito de Batman vs Superman é que é um filme chato, cansativo. Murilo (que não gosta nada de quadrinhos) foi comigo e queria sair no meio. Aguentamos até o fim.



Coloco então meu ranking dos dez favoritos de super herói. (Sei que o Batman do Tim Burton tem pouco a ver com o dos quadrinhos. Talvez por isso que eu goste tanto).

Homem de Ferro
Homem Aranha
Batman Returns
Homem Aranha 2
O Incrível Hulk
Dead Pool
Homem de Ferro 2
Batman
Batman o Cavaleiro das Trevas
Vingadores: A Era de Ultron





15/03/2016

VESTINDO A CAMISA


"O Brasil não é um país sério"

“Estou farto de tanta corrupção” (obviedades de um comentarista de timeline: 400 curtidas)

Há dias que não falo nada. Só observo. Quietinho acompanho (de casa) as manifestações, cobertura sobre as manifestações, comentários sobre a cobertura. Faço a Glória e não me considero apto a opinar.

Política não é meu campo. As minhas opiniões são óbvias. Não fazem diferença e não tenho nada a acrescentar. Mas permanecer calado observando, em tempos de manifestação política, é mostrar-se alienado.

Nunca torci para time nenhum. Nunca entendi a razão para se ter um time. É pelo hino? É pelas cores? Gosto da camisa preta, gosto da camisa azul. O time tem uma personalidade em si? O jogador para quem você torce hoje não pode amanhã estar no time adversário ? Essa questão segue atualmente comigo em relação aos partidos políticos.

Me parece uma escolha aleatória e irracional. Me parece óbvio. Gosto da estrelinha. Sou do clube dos tucaninhos. Minha prefeita petista é do PMDB. “O cachorro é um lobo mais manso.”

Num cenário de corrupção institucionalizada, culpar o PT, defender o PT me parece tão ingênuo, tão fantasioso, tão óbvio, que tenho medo de estar fazendo papel de idiota. Não fui à manifestação porque me pareceu dirigida a um bode expiatório. Escolhe-se o governo como personificação da corrupção, lavam-se as mãos, e com um golpe o resto do bando assume. (Quem sabe Dilma não volta numa próxima como ministra do Aécio?)

Mas isso não é dizer o óbvio?

Domingo saí para almoçar e vi o povo de amarelo, camisa da CBF, grife de corrupção, ir protestar contra sei lá o quê, passear na Paulista, levar o cachorrinho, babá empurrando o carrinho das crianças...

O que importa é a mensagem. 

A imagem emblemática inflamou as discussões dos últimos dias. É apenas uma imagem, mas são apenas discussões. Pessoalmente acho estranho alguém precisar de babá quando os dois pais estão presentes. Acho estranho precisar de uma babá para empurrar o carro dos filhos num domingo à tarde. Acho mais estranho levar a babá uniformizada de branco numa manifestação política. Mas cada um faz o que quer; estão gerando emprego, pagando impostos, não estão fazendo nada de ilegal...

E cada um comenta o que quer. Se estão numa manifestação política, estão lá para passar uma mensagem, mostrar publicamente o que pensam. Estão sujeitos à crítica dos que não concordam.  

Eu acho que a primeira mensagem que eles me passam é: “Precisamos dos pobres para empurrar o carrinho dos nossos filhos.” E o casal ir dessa forma numa manifestação e nem compreender o que a imagem poderia transmitir me parece mais um agravante de alienação, como o casal que vestiu o filho de macaco no carnaval.

Você também pode dizer: “A patrulha da esquerda está demais. Não se pode nem sair de casa com a babá.”

Pode. E quem acha essas manifestações incongruentes também pode se expressar. Essa é a beleza da democracia que ainda temos...

A mim parece óbvio.

Por isso fico quietinho.

Ops...

01/03/2016

PEDAÇOS DE VIDA

Resenha que publiquei na Folha do último final de semana: 

O formato de observação do cotidiano da crônica requer não só um olhar atento do autor, mas um pertencimento a uma realidade comum. O talento de um cronista, mais do que causar estranheza ou incômodo, está em gerar identificação. Assim, o grande escritor do gênero é o que consegue dizer o que todos já sabem, de uma maneira absolutamente própria.
Fabrício Carpinejar cumpre esses requisitos em parte. Os volumes que trazem suas memórias como filho e como pai são fragmentos imediatamente identificáveis de infância, com um lirismo suave que gera um sorriso de canto de boca. São oito títulos divididos em duas coleções. Na “Vida em Pedaços”, com ilustrações de Eloar Guazzelli, Carpinejar narra uma infância praticamente arquetípica: futebol na rua, avó no fogão, maçãs para professora, fruta comida do pé. Mesmo a estranheza do personagem parece obedecer à rígida cartilha de infância. Não há nada de original no menino Fabrício. Já na coleção “Pedaços de Vida”, ilustrada por Ana Pez, Carpinejar conta sobre as inseguranças e certezas da paternidade, e sua relação com os dois filhos, um menino retraído e uma adolescente típica.
São relatos coloridos pelo talento de Carpinejar como poeta. Excelente frasista, consegue sintetizar verdades e senso comum de maneira precisa: “Amar é não ter paz.” “O caçula é dos filhos o que não se acostumou a nascer.”Quando criança, errar é poesia. Quando adulto, errar é malandragem.” “As olheiras são sonhos que se repetiram”. “Praça é quando duas ruas se casam.” “Uma mãe acabou de ser mãe. Frase engraçada. Mãe é nunca acabar de ser.” Porém em oito volumes (ainda que curtos e que possam ser comprados separadamente), alguns relatos mais tocantes acabam se perdendo numa coleção inchada. (Talvez funcione melhor numa leitura mais preguiçosa e despretensiosa do que a exigida para uma resenha de jornal).
O projeto gráfico em si, e a tradição da editora no segmento infanto-juvenil, geram certa confusão sobre a que público os livros se destinam. Apesar de se tratar da infância, não são de forma alguma livros para crianças; é literatura infantil para adultos, que pode também seduzir adolescentes mais sensíveis. Acertando em cheio nesse tom, as ilustrações da espanhola Ana Pez se sobressaem.
Como um todo, os oito volumes de memórias de Fabrício Carpinejar formam uma leitura prazerosa e inofensiva. E se o texto nunca chega a alcançar a genialidade, tem o mérito de jamais resvalar na pieguice.

Avaliação: Bom

VIAGENS DE AGOSTO

Eu e meu jerimum. Depois de BH, Flip, Bahia, teve Minas de novo: FLIF, um festival do Instituto Federal do Sul de Minas em que EU fui o auto...