03/08/2019

O BLOG DE LITERATURA MAIS ANTIGO DO PAÍS!



"Tento garantir meu conteúdo" - minha primeira entrevista, no Jornal do Brasil (por Cristiane Costa), 2003. 

Quando comecei este blog, você nem tinha nascido.

Parte da instalação que fiz com Alexandre Matos no Sesc Pinheiros (2007)

Há quinze anos eu lançava meu segundo romance - "A Morte Sem Nome" - já tinha um prêmio literário, mais de uma dúzia de matérias, já tinha sido convidado para a Flip e resolvi criar meu primeiro blog. Era uma forma de entrar em contato com os leitores, deixar um cartão de visitas, anunciar o que eu estava fazendo, um mural antes de existir twitter, facebook, orkut...

Folha, 2003 (com Cuenca e Chico Matoso)


No blog, eu estava longe de ser pioneiro. Todo mundo já tinha. Era a geração dos blogs. Mas eu resistia - pagando de jovem escritor mal do século. No começo de carreira eu era assim, eu rejeitava a cultura pop, queria ser um romântico-gótico pós-moderno (ou o que seria um precursor dos emos?), e batizei o  blog de AMOR E HEMÁCIAS.

(Isso está longe de ser a maior das minhas vergonhas.)


Com Mary Moon, para a MTV, 2009. 


Por muito tempo o blog cumpriu a função que hoje cumprem outras redes: reflexões ligeiras, indicações de livros, filmes, ou um simples registro do dia-a-dia. Peguei gosto. Postava bastante. Postava muita merda. Ainda está tudo aí (ou quase). E muita gente acessava.

Hoje encontro muita gente que comenta: "Nossa, adorava o seu blog."

(Não adora mais? Ele ainda existe. O conteúdo é melhor. Mas é menos espontâneo.)

Minha primeira vez no Jô, em 2005 (depois teve 2006, 2009 e 2011). 

Lá por 2005, depois que fui na primeira vez no Jô, os acessos por aqui explodiram. O blog permitia comentários, e eu não dava conta de administrar as perguntas, os haters, os nudes... (mentira, nude é uma invenção desta década...). Acabei tirando os comentários e nunca senti falta. Nos livros a gente também nunca sabe quem está do outro lado.

A primeira imagem publicada no blog. 


Só em 2006 o blog deixou de ser "all-type"; em junho de 2006 eu publicava uma arte (que ainda amo) da capa do "Mastigando Humanos"  e foi um caminho sem volta. O blog flertou com o fotolog (que nunca tive) com fotos minhas de cuequinha (quando eu podia), trouxe artes alternativas dos meus livros, experiências artísticas bizarras, e claro, inúmeras capas de livros de que eu lia, meninos que eu comia, fotos de eventos, artistas, filmes, vídeos... Foi um registro de tantas viagens bacanas, Japão, Rússia, México, Venezuela, Atacama, os seis meses que passei na Finlândia,o ano em Florianópolis...

Em Kyoto, 2010. 

Em 2008 eu mudei o nome de "Amor e Hemácias" para "Jardim Bizarro" - faltava amor, sobrava bizarrice. E o "Jardim Bizarro" foi tirado de uma notícia da época, de uma casa que jorrava sangue, num bairro de mesmo nome em Jundiaí. Tinha mais a ver com meu projeto literário - (enquanto não largo o osso dessa história de "existencialismo bizarro.") O novo design foi feito pelo querido Alexandre Matos (que ilustrou tantos dos meus livros). Em 2014 fiz um novo design com o ex-cozinheiro (eu mesmo não entendo naaaaada de design, só palpito, mas não sei mexer)  e ele também refez em 2017 o design atual.

Achei o cabeçalho de 2008 por aí. 

O que nunca, nunca fiz questão, desde o início, foi de ser "inovador", pelo contrário, fiz o blog com resistência, pagando de maldito; nunca acompanhei as tendências - sempre me atualizei com atraso - e a contribuição que dei foi sendo eu mesmo.

Foto do Felipe Hellmeister. 

Também nunca, nunca ganhei dinheiro com isso. Nem tentei. Nunca coloquei AdSense nem procurei patrocínio, nunca nem divulguei o blog nas entrevistas. Para mim o blog sempre foi uma plataforma para trabalhos que eu faria fora - e não consigo avaliar o quanto ajudou/atrapalhou. O essencial foi manter a independência de poder dizer o que eu queria aqui.

Quando fui cartaz de metrô (com Garotos Malditos, 2012)

É claro que hoje é constrangedor para mim ler grande parte do que escrevi uma década atrás. Nem tento. Revirei agora arquivos para esse post, mas só consegui olhar por cima, pegar umas fotos; mas esse registro também é muito legal, talvez o mais legal, esse registro vivo de 15 anos da minha carreira e da minha vida. Um blog afinal, é um diário. E eu sou um ser tão nostálgico...

Na sarjeta, com João Gilberto Noll (Ouro Preto, 2012). 

E para que serve hoje, um blog?

Bem, para mim, continua servindo para o de sempre, um mural para meu trabalho. Claro que hoje publico muito menos - muito do dia-a-dia, as colocações ligeiras, é diluído em Facebook, Instagram -, muito menos gente visita também; mas aqui ainda é o espaço que eu tenho para compartilhar reflexões mais extensas, deixar registrado de maneira menos passageira.

Com Victor Heringer, Marcelo Reis de Mello e Ana Paula Maia (Nova Friburgo, 2017). 

Muitas vezes me arrependo. Não só pelo que disse, isso já ficou no passado, mas por não ter vendido. Escrevo esporadicamente para a Folha, também há quase quinze anos, e outro punhado de publicações. Então muita coisa que postei aqui depois pensei que poderia ter oferecido para a Folha, para o Suplemento Pernambuco. Mas o blog cumpre essa função, de eu poder publicar o que quero, sem esperas e sem restrições. A maioria das coisas que eu publico aqui é uma visão muito pessoal, de antologias que eu participo (como a última), ou análises de livros de amigos que eu não poderia fazer na imprensa tradicional, num tom que só faz sentido mesmo num blog.

Foto de cuequinha para matar a saudade. 

O povo pau no cu gosta de falar que "blog já deu", "facebook já deu" e segue como gado no Instagram, que não permite compartilhamento de links, que inibe textos (e não há nada mais deprê que gente que usa instagram para postar FOTO de textão). Alguns me sugerem fazer um canal no Youtube (outros sugerem que o Youtube em si também já acabou). Mas acho que faço melhor por escrito. Não estou preocupado em ser "trendy", acompanhar as tendências. Sigo com o blog, no mesmo endereço, há quinze anos, até quando São Google permitir.

Com José Mindlin (2009?)


E isso... Bem, isso talvez tenha feito com que este seja O BLOG DE LITERATURA MAIS ANTIGO DO PAÍS, ainda em plena atividade, no mesmo endereço, com o mesmo histórico. (Haters podem dizer que não é um blog de literatura, é um blog pessoal de um escritor, mas blog não é isso mesmo, pessoal? E ninguém em blog tem discorrido mais sobre os livros dos outros, da cena literária nacional, registrado eventos, bienais, festivais, do que eu, nos últimos quinze anos.)

Mas até aí, quem dá a mínima?


E esse sou eu hoje. 

27/07/2019

LEITURAS DE JULHO

61 autores dá um peso.

A editora Nós acaba de publicar a antologia "A Resistência dos Vaga-lumes", com contos e poemas de 61 autores LGBTQ, organizada por Cristina Judar e Alexandre Rabelo. 

Lançamento importante, que já deveria ter sido feito antes, mas que chega em bom momento, e da forma como deveria.

Para quem não se lembra, há mais de uma década eu planejava lançar uma antologia de contos gays, com clássicos e novos; chamei para a parceria o Marcelino Freire, fechamos contrato com a Record, mas fiz a besteira de comentar com o Luiz Ruffato, que correu para lançar antes uma antologia com o mesmo tema - que, apesar de ter sido uma publicação irrelevante, acabou travando nossa publicação na época.

Em face dessa antologia que sai agora, vejo como meu projeto ficou velho, e que não faria mais sentido hoje.

"A Resistência" mistura gente demais, prosa com poesia, e confesso que desconfiava do saldo final - boas intenções não fazem boa literatura. Mas terminando o livro agora vejo como é importante para o projeto essa pluralidade de vozes; e tem mais coisa boa do que eu imaginava.

Há olhares muito literários e raros sobre a condição trans. Amara Amoira faz um conto inteiro no pajubá (linguagem do gueto), em fluxo oral, muito divertido e bem escrito. Juno Cipolla aborda o universo trans-masculino também com muito lirismo. E Laila Oliveira tem um ótimo conto de cross-dressing.

A charge do Laerte (na pagina interna), é bem bacana. Cidinha da Silva e Daniela Stoll têm contos lésbicos bem bonitos - a segunda com uma imagem belíssima da descoberta da homossexualidade num salto para a piscina "no caminho entre o ar e a água." Leonardo Tonus foca a expulsão de jovens gays num belo poema. Mike Sullivan faz bonito (como sempre) com um continho otimista (ainda que melancólico). E há outras coisas bem boas, algumas meio tolas-pretensiosas ou apenas panfletárias-imaturas, mas no geral, como eu disse, o saldo é bem positivo.

Talvez as duas maiores surpresas do livro sejam os contos de Jean Wyllys e de Raphael Montes. Wyllys faz um ótimo registro dos encontros nos tempos de "chat-uol" - fico surpreso de ele mergulhar (tão bem) na ficção, sem pretensões de fazer discurso; e Montes trata da cura gay de forma bem mais literária do que sua produção costumeira, no que talvez seja o melhor texto do livro.

(Ah, sim, e eu também estou lá com "Sonho de Uma Noite de Verão", quase um conto de terror, de um homem que levanta da insônia da madrugada para abusar do filho pré-adolescente.)

Trechinho do meu. (clica que aumenta)


Só senti falta de explicarem melhor a "proposta" na apresentação do livro. O projeto inicial seria uma revista literária e o tema era "Para Além do Azul e do Rosa". Esse tema foi apagado, mas ainda aparece em diversos contos e poemas - então pode parecer estranho por que essa expressão aparece tantas vezes.

Samir Machado de Machado (de Rosa) também está na antologia - e fui ontem ver o debate dele com David Ebershoff (autor de "A Garota Dinamarquesa") e a excelente Halley Kaas. Ótimo para ampliar a discussão sobre representatividade.

Continuando na editora Nós, recentemente eles também publicaram uma nova novela do queridíssimo Evandro Affonso Ferreira. O excelente título - "Moça Quase-Viva Enrondilhada numa Amoreira Quase-Morta" - dá uma boa amostra do que esperar, um texto dândi, quase das antigas, mas cheio de ironia e niilismo. Seria um ótimo livro para se vender pela noite para casaizinhos em botecos - sem o menor demérito- , com ótimas sacadas para declamar para a mulher amada, no estilo "As Mais Belas Cartas de Amor." Evandro sabe o que faz.


Só foderam na leitura do título. 
Voltando ao Raphael Montes, ele também lançou romance novo por esses tempos, que está estourando nas vendas. "Uma Mulher no Escuro" (seu quinto livro) é um thriller bem típico seu, de uma mulher que tenta viver com um trauma de infância, quando o passado volta a assombrá-la. Montes sabe arquitetar trama como ninguém, manter o leitor fisgado, tem uma pegada trash deliciosa. (E fico lisonjeado que o psicopata se chame Santiago.)


Dá até para desconfiar que ele está fazendo escola na Coreia. "O Bom Filho", da coreana You-Jeong Jeong, recém lançado pela Todavia, tem muito a ver com o livro dele. (Em ambos o protagonista acorda para encontrar a família morta.) Também é um page-turner, um thriller que mantém o leitor grudado, mas sem o humor e o apelo trash de Montes, o livro acaba se levando muito a sério e se torna falso. (A ideia de o narrador-protagonista ir se "lembrando" aos poucos das coisas que fez no dia anterior é de doer). Eu me diverti. Mas talvez por ter sido lançado pela Todavia (com uma capa fooooda) eu esperasse mais literatura. É bem descartável. 


19/07/2019

A FLIP É AQUI

Com Mariana Enriquez, Antonio Xerxenesky e Eric Novello.


 Tem sido um ano devagar. E a tendência é só piorar.

Tenho lido sobre o cancelamento de eventos literários por falta de recursos - Feira do Livro de Brasília, Jornada Literária de Passo Fundo -; mais grave tem sido o cancelamento de mesas por perseguição política. Miriam Leitão foi ameaçada de morte em Jaraguá do Sul e a coordenação da Feira do Livro achou por bem cancelar sua participação. Na Flip teve protestos contra Glen Greenwald. Tempos trevosos que vivemos... no pior sentido.

(E ainda vejo amigos "do bem" dizerem "bem feito" para Miriam Leitão, por ela ter apoiado o golpe. Assim não dá, amiguinho, não se pode apoiar ameaça de morte e censura, de nenhum lado. Mais nobre seria ir lá na Feira e confrontar a Miriam Leitão no debate.)

Eu participei só de duas mesas no primeiro semestre. Agora tem surgido uns convites interessantes para os próximos meses (que atualizo sempre na barra "agenda" aí em cima). Para a FLIP, como de costume, eu não fui; acho um clima pesado e é preciso uma disposição que eu não tenho - quem sabe ano que vem.

(Acho engraçado o tanto de gente que pergunta "vai na FLIP?"; gente que só segue o buchicho. Tem evento literário o ano todo, no Brasil todo, mas esse povo não dá as caras.)

Aproveitando o "pós-flip", acompanhei/participei de três mesas só esta semana.

(Esse registro roubei do colega trevoso Oscar Nestarez.)

Começando pela argentina Mariana Enriquez e a venezuelana Karina Sainz Borgo, mediadas por Antonio Xerxenesky na Livraria da Vila. Mariana é uma escritora que acompanho há um tempo - autora do excelente "As Coisas que Perdemos no Fogo" - uma querida e uma trevosa (no melhor sentido). Assim como sua conterrânea Samantha Schweblin (outra amiga querida), Mariana foi incensada pela crítica pelo flerte com o gênero do terror num contexto político. Em seu discurso, ela deixa claro seu compromisso com o gênero, sem ressalvas. "Quero que a história funcione antes de tudo como uma história de terror; se o leitor identificar também o aspecto político é um extra." Que bom que tem funcionado na Argentina - por aqui o (pós) terror ainda não encontrou seu respeito, e os autores do gênero também não têm histórico de se aprofundar no texto (não se aprofundam porque não têm publico ou não têm público porque não se aprofundam?)

Mas pouco a pouco vem surgindo um movimento... (O próprio Nestarez é um bom nome da nova safra). (Por acaso também acompanhei há algumas semanas uma tarde de debates sobre o Clive Barker no Sebo Clepsidra - um reduto de amigos trevosos das antigas, que têm se dedicado ao gênero com consistência, inclusive com edições de clássicos por um selo próprio.)

E tem mais debates sobre o gênero vindo em breve... do qual participarei inclusive como mediador.

Com Ilana Casoy e o mestre do terror brasileiro Dennison Ramalho. 

Ainda nessa toada, na terça participei de uma mesa de debates na premier do filme alemão "O Bar Luva Dourada", do Fatih Akin, com minha companheira Ilana Casoy, a maior autoridade sobre serial killers no Brasil. O filme não chega a ser um terror - é uma dramédia sórdida-kitsch baseada em fatos reais, a história de um assassino de Hamburgo dos anos 70. E no debate pude resgatar com ela nossa velha discussão de até que ponto se pode explorar o drama alheio, e quais são os limites no caso da ficção. (Para mim, na ficção, não deve haver limites; já na exploração dos fatos reais, tenho minhas ressalvas.)


O debate da AGBU Focus, de ontem. (queria colocar o nome dos palestrantes, mas esqueci de anotar e não consigo achar em lugar nenhum...)


E nessa quinta estive no AGBU Focus, um evento para jovens empreendedores armênios do mundo todo. Haviam me convidado para a mesa de abertura, mas eu não tinha certeza de como poderia contribuir (não sou mais jovem, não sou empreendedor, sou "mais ou menos armênio"...), mas fiz questão de estar presente para assistir. Levantou-se a velha questão de "o que é ser armênio", "o quanto somos armênios" (fazendo parte da diáspora), e o sentimento de "sentir-se armênio". Desde que estive na Armênia, em 2015, eu mergulhei na pesquisa sobre o tema, li muito, entrevistei personagens importantes da colônia, mas não tenho respostas claras ("Ninguém sabe quem são os armênios, nem eles mesmos", diz Michael Arlen em seu "Passagem para Ararat"). O que fica muito claro é que a armenidade é mais uma etnia do que uma nacionalidade. (Quando perguntam se meus avós nasceram na Armênia, gosto de lembrar: A Armênia como país só existe desde os anos 90.)

Os palestrantes de ontem também lutavam para responder essa questão. Levantou-se a questão da "porcentagem" (somos armênios, meio armênios, 1/4 armênios?) e a possibilidade de se seguir como uma família armênia casando fora da colônia. "Ser armênio é sentir-se armênio" é uma resposta que vejo com frequência - mas o que seria isso? Achei interessante que os palestrantes de ontem falaram muito em se "sentir uma família em qualquer lugar do mundo", ao encontrar outros armênios. Eu nunca tive essa sensação; talvez passe a sentir mais ao me reconhecer mais armênio - mas essa é a sensação que sempre tive em ser... gay. Essa sensação de fazer parte de uma comunidade internacional, e que em qualquer país que eu vá eu encontro iguais, com quem rola uma identificação imediata, porque passamos por coisas parecidas, somos segregados de forma igual. (Foi assim que formei amizades nas cidades em que morei, cidades em que não conhecia quase ninguém - Porto Alegre, Londres, Florianópolis, Helsinque. Onde havia uma boate gay eu era acolhido.)

Sou mais gay do que armênio.

Eram perguntas que eu poderia ter lançado no debate ontem: é possível ser armênio sendo gay? É possível ser armênio sendo ateu? Na dúvida se seria vaiado ou acolhido por meus "irmãos", achei por bem ficar quieto (e acho que fiz bem em declinar do convite para participar da mesa.)

Mas ainda vou discorrer muito sobre esse assunto... Ano que vem vocês se cansarão de me ouvir discorrer sobre isso...









14/07/2019

CRISE NA FICÇÃO, FICÇÃO NA CRISE

Eu, num raro registro como "escritor de sarau". Nevermore.

Há mais de um mês a Folha me pediu uma análise do momento atual da ficção no Brasil. Conversei com muita gente bacana, escritores, editores, curadores, mas a falta de espaço para literatura no jornal foi adiando a publicação, diminuindo o texto, e enfim corremos para publicar a tempo na Flip, este fim de semana.

Pelo tom que o texto tomou, achei que não convinha colocar minha visão pessoal, embora eu não concorde com muito o que foi dito por lá. Aproveito então para discorrer um pouco aqui.

Segue o texto original, sem os cortes, com minhas colocações abaixo:



O mercado editorial brasileiro vive o pior momento do século. Se no início dos 2000 o cenário era promissor – com a onda de “jovens escritores”, a proliferação dos eventos literários (como a Flip, que estreou em 2003 e inspirou uma série de festivais pelo Brasil) e as compras governamentais – hoje as livrarias decretam falência, os festivais perdem patrocínio é os artistas são vistos como vagabundos, perseguidos pelo atual governo e sua “gente de bem.”  Os cachês para os autores (quando existem) são os mesmos desde o início do milênio, o espaço para literatura na mídia tradicional se espreme, e até para ser resenhado hoje é preciso “investir” (visto a prática nefasta dos booktubers de cobrar diretamente dos autores por “resenhas”). “A mamata acabou”, mas, de alguma forma, os escritores sobrevivem.

            Falar em “crise na ficção brasileira” é como um pleonasmo, se a priori a ficção nasce da crise (ou de algum tipo de crise). Entretanto, ao mesmo tempo em que se dificultam os mecanismos para criar, comercializar e promover a literatura, os escritores brasileiros também se encontram numa crise ideológica: como fazer ficção pura no momento político em que vivemos? Até onde vai a necessidade de retratar uma realidade, e levantar bandeiras, até onde o ficcionista tem o dever de criar algo novo e próprio?
            O argentino-paulistano Julián Fuks, autor de “A Resistência” e vencedor do Prêmio Saramago, defende há tempos o que ele chama de “literatura ocupada”, que aborde as questões mais importantes do momento. “Tenho pensado numa literatura que não apenas responda às circunstâncias, mas aja sobre elas. E então não se trata só de deixar que o presente emerja na literatura, e sim que a literatura se deixe ativamente ocupar pelo presente, pela política, pela luta. O ato de ocupar tem sido central no exercício político: ocupar praças, ruas, escolas, edifícios públicos. O que nos impediria de pensar numa literatura ocupada?”


Fuks

            Fuks reconhece que, com esse pensamento, a ficção pura não lhe basta. “O conceito de ficção se fez um tanto problemático para mim. Há tempos tenho sofrido com a arbitrariedade de inventar histórias, inventar personagens, dotá-los de nomes e biografias. Nem por isso vou parar na não-ficção. O que tenho feito é algo como uma ficção sem fabulação, uma ficção como tentativa de aproximação ao real.”
            Preocupação semelhante tem o escritor e agitador cultural pernambucano Marcelino Freire, que há tempos se aproxima de uma literatura engajada. Ano passado ele foi um dos organizadores da antologia independente “Lula Livre, Lula Livro”. “Reunimos 90 escritoras e escritores brasileiros em textos inéditos. É um livro político, para eu não me sentir um escritor bundão, que só vive sentado, olhando a paisagem pegar fogo. É preciso dizer de que lado se está, comprometer-se. Boa parte da literatura brasileira é frígida. Vive na redoma faz tempo.”  


Marcelino. 

            Esse caráter político da literatura, que tem tomado o protagonismo, dá a impressão de a ficção estar cada vez mais na retaguarda. "Talvez seja possível dizer que vivemos em um momento onde a não-ficção vai bem comercialmente, um fenômeno que se observa em vários mercados, e que tem a ver com o estado atual das coisas: uma necessidade em entender o que se passa no mundo em meio ao caos em que vivemos", aponta André Conti, editor da Todavia.
           Mesmo no maior festival literário do país, a Flip, a ficção parece ter uma importância menor - com os debates focados mais no aspecto político do que criativo. Fernanda Diamant, curadora da edição deste ano, discorda: “Sempre achei a programação equilibrada nesse sentido. E acho que muito da não ficção tem valor literário, como é o caso de Euclides da Cunha. Este ano a programação tem 15 autores de ficção, dois de crítica literária, além de vários multiartistas.” Diamant também não desassocia o ato artístico do político: “Acho que atualmente no Brasil, simplesmente trabalhar com cultura e arte já é inevitavelmente um ato político porque é contrário às ‘diretrizes’ ideológicas que estamos testemunhando no atual governo.”
André Conti complementa: "O fato de um livro se passar durante as passeatas de 2013 ou de tentar dar conta dos nossos tempos atuais, por exemplo, não significa que ele será bom ou que trará qualquer reflexão surpreendente sobre o Brasil. Ao mesmo tempo, um romance histórico aparentemente descolado da realidade pode trazer um comentário político sobre o Brasil muito mais poderoso do que um romance-tese sobre a autodeterminação dos povos. O que é dizer: todo romance, queira ou não, está cravado no seu tempo. Todo romance, por ação direta do autor, olhar de canto ou plena negação, diz algo sobre o seu tempo e sobre a visão de mundo do autor. Então não há necessidade de a ficção refletir o momento atual: ela já vai fazer isso. Isso posto, a ficção é sim um campo importante de recriação das tensões contemporâneas e, num momento sombrio como o que vivemos, um livro de ficção pode ser fundamental para que essas tensões venham à tona.”
Se os autores têm sentido a necessidade de tratar da crise, como a crise vem tratando os autores? Como esse momento de instabilidade política e econômica se reflete não apenas na produção, mas na publicação, nos investimentos?


Lúcia Riff

“Acho que temos sim uma crise de mercado que está atrapalhando momentaneamente os autores (não se pode negar)”, aponta a agente literária Lúcia Riff. “As grandes Editoras encolheram suas programações a um mínimo e os cortes acabaram afetando, mais diretamente, as obras de ficção. Mas isto não quer dizer que haja uma crise na ficção uma vez que os autores de ficção continuam escrevendo bastante, e muito bem, continuam publicando, o público continua lendo. Novas Editoras continuam surgindo e novas formas de leitura também (vide o grande sucesso dos audiobooks).”
            Uma Editora que vem ganhando espaço e relevância no mercado da ficção nacional é a paulistana Nós, de Simone Paulino, que chegou a trabalhar de empregada doméstica na adolescência e hoje entende como ninguém o papel transformador da cultura. “O catálogo da Nós é composto por 90% de ficção. Temos pouquíssimos títulos de não-ficção. E criamos um linha de poesia. Estamos remando contra a maré por uma crença quase insana na literatura como instrumento de transformação existencial e social. Fundei a editora baseada na premissa do professor Antonio Candido, no célebre ensaio ‘O Direito à Literatura’. Ela está e sempre estará em primeiro lugar na minha vida e na minha editora. Precisamos de ficção para aguentar a realidade”, diz Paulino. Ela reforça o papel político do escritor:


Paulino. 

            “Não consigo compreender um artista que não reflita o seu tempo. Sei que temos grandes autores que passaram ao largo da política - ou acharam que passaram - como o Borges. Mas penso que a construção ou a desconstrução de um país e de uma sociedade está vivamente ligada à construção da literatura e das artes em geral. A mim, como editora, não interessa a alienação. O que me interessa, inclusive como leitora, é a vida presente, o homem presente, para usar uma expressão do Drummmond. E isso inclui a política. Aquela máxima de que o pessoal é político e o político é pessoal nunca fez tanto sentido. E um escritor que não perceba a sua implicação histórica não me interessa muito.”
 “A ficção atual é a mais vigorosa de que eu tenho notícia”, continua Marcelino Freire. “Há quem viva lamentando o fechamento da Livraria Cultura e só discute sobre prêmios literários. Enquanto isto, muitos poetas e prosadores têm surgido, vendendo seus próprios livros, circulando pelo Brasil, soltando o verbo. Já há, faz tempo, uma geração sem livrarias. Eu chamo de ‘Geração da Maquininha’. Eles são a própria livraria. Puxam a maquininha e vendem os exemplares ali, na hora, sem atravessadores. As grandes editoras querem saber o segredo desta ‘circulação’, desta literatura que nunca dependeu das grandes editoras e das estantes altas das livrarias. Na crise, tem quem entre em crise. Há autores e autoras que sempre viveram na crise, por isso se reinventam. E reinventam a literatura brasileira.”
Um exemplo vigoroso dessa nova geração que surge às margens da crise é Marlon Souza, 26 anos, negro e homossexual de São João de Meriti (RJ). Filho de mãe solteira e criado pela avó, cresceu numa família de não-leitores e hoje é uma figura atuante na cena literária da Baixada Fluminense. Aos 22 anos publicou seu primeiro romance de forma independente – “Às Vezes”, sobre um jovem infectado com HIV -, e hoje tem mais dois romances, além de participar de diversas antologias. Marlon também organiza o LiteraCaixias, evento literário que se iniciou em Duque de Caixas e se desdobrou por outras cidade do Rio e São Paulo, e edita a revista “Publiquei”, focada em autores independentes. Atualmente prepara um romance para a editora Malê, especializada em autores negros.


Marlon. 

            “Para mim é incrível ver escritores negros e/ou LGBT’s conseguindo acender profissionalmente, suas narrativas ganhando espaço. Algo que não tive na minha adolescência e estou tento oportunidade de experimentar hoje. O acesso está mais fácil, o debate está em maior evidência e apesar de ainda existir um forte preconceito e esquecimento da vasta produção feita por esses grupos, acredito que esteja havendo uma crescente significativa”, diz Marlon.
Porém, se o autor de ficção adulta se vê impelido a debater sobre a realidade político-social do momento, autores de literatura infanto-juvenil sentem uma pressão contrária. “Não me preocupo tanto com crise econômica”, acrescenta Lúcia Riff. “O que me assusta é essa crise ideológica, autor de livro infantil que tem medo de abordar certos assuntos por causa da patrulha, porque depois o livro não vai ser adotado em escolas.”
Simone Paulino completa: “Literatura é resistência. Sempre foi. Sempre será. A ficção escrita por mulheres nunca foi tão pulsante. Nunca as mulheres escreveram tanto e tão bem. E nunca foram tão lidas! Como disse o Fernando Haddad dia desses: Os livros sempre vencem. Eu preciso acreditar nisso para continuar existindo, como leitora, como escritora, como editora.”


                                                              *

Gosto muito da visão de todos (especialmente da honestidade da Lúcia Riff, que por acaso também é minha agente ;) , mas não concordo totalmente. Eu, como partidário do existencialismo (ainda que existencialismo bizarro), sempre me interessei mais pelas narrativas com questões atemporais-universais. Então o "não consigo compreender um artista que não reflita o seu tempo", da Simone Paulino não faz sentido para mim. Eu consigo. Longe de pertencer a uma "elite" - eu sofro para pagar as contas; e estou longe até de pertencer a uma elite intelectual - eu trabalho em casa, não uso transporte público, mal saio de casa, então a minha visão da realidade atual é muito parcial, e não é isso que me interessa registrar em livro (talvez seja o que me interessa registrar neste blog, e por isso ando postando tão pouco). 


Para mim, o livro-romance sempre existiu para tratar de questões subjetivas, intrínsecas ao ser humano (a utopia da paternidade de "Neve Negra", a crise de meia idade de BIOFOBIA, o limite do individualismo de "Feriado de Mim Mesmo", e por aí vai.). São questões elitistas? Talvez. Talvez as grandes questões existenciais sejam elitistas, reflexões de gente entediada que não tem de pegar ônibus... (Talvez por isso eu tenha me tornado um autor irrelevante...)

Marcelino também sempre levanta essa bandeira da "literatura-maquininha", dos autores que estão aí, declamando seus poemas, vendendo seus livros. Mas esse povo que está toda noite bebendo em sarau, não está sentado em casa lendo, escrevendo; é um povo que junta um punhado de frases "lacradoras" e lança como livro. Tem seu valor, mas é triste de se exaltar como única literatura possível hoje em dia. Esse povo não tem fôlego nem para duzentas páginas. E como ficam os introspectivos, os esquizos e reclusos, que sempre tiveram na literatura seu abrigo? Só o showman pode ser hoje escritor? As colocações de Marcelino me fazem lembrar da frase do Temer: "Não pense em crise, trabalhe"...

(Não por acaso, os autores favoritos da minha geração são dos mais retirados, e que lançam romances consistentes a cada punhado de anos: Daniel Galera, Ana Paula Maia, Antonio Xerxenesky.)

Para encerrar, o professor da Sorbonne Leonardo Tonus também está trazendo muitas dessas questões em seu blog. Eu fui o primeiro a participar, semana passada, aqui: "O Desafio é a Liberdade"

27/05/2019

MANUAL DA MALDIÇÃO



Eu detesto oficinas. Acho uma enganação. O escritor não consegue sobreviver escrevendo livros, então decide ganhar a vida ensinando outros a morrer escrevendo livros.  

Mas eu também preciso sobreviver...

Cinismos à parte, sempre falei aqui, repeti aqui sobre isso: como não gosto de oficinas, como não dou oficinas, sendo que já dei uma ou outra oficina, quando não pude escapar (e me senti uma fraude). Eu queria mudar minha opinião. O escritor precisa recorrer a tudo para sobreviver. Mas o que sempre disse, o que sempre acredito, é que se escrever não é algo inevitável para você, se a escrita não vem como algo natural, uma punção (ou “punição”, maldição), e um prazer, então para quê? Se é algo difícil, doloroso, vá fazer algo que dê mais retorno! Por que ensinar algo que não serve para nada?

Mas eu ainda preciso aprender...

Estou com dez livros publicados (além de um ou outro com pseudônimo). Sem contar mais de 60 traduções. Escrever hoje para mim é algo muito, muito fácil. Eu não tenho, nunca tive crise criativa. Se alguém me encomenda um livro hoje para entregar daqui a três meses eu entrego em dois meses e meio. Isso não quer dizer que escrevo bem. Isso eu não tenho como avaliar. Escrevo fácil, mas queria escrever melhor. E isso passa também por tentar dificultar as coisas – procuro sempre fazer o que não fiz; não por acaso este ano publiquei meu primeiro infantil e ano que vem lanço um romance histórico. Busco desafios. Mas como evoluir se não há de fato ninguém avaliando? As críticas são poucas e ligeiras (o que mais sai hoje é entrevista, release, o autor falando do próprio livro). Nos prêmios literários eu não estou... (significa?) A publicação em si, a aceitação por uma grande editora também é um termômetro. Mas é pouco.

O único modo de evoluir é seguir lendo, seguir fazendo.

Ou participando de oficinas literárias...

Então resolvi ler o manual da MAIS CELEBRE oficina literária do Brasil: “Escrever Ficção – Um Manual de Criação Literária”, do Luiz Antonio de Assis Brasil. Há mais de 30 anos ele ministra essa oficina em Porto Alegre, e por ela já passaram inúmeros autores de renome, amigos e queridos, que só têm elogios a lhe fazer. Eu, que sempre vi oficinas com cinismo, tinha suspeitas e curiosidade. E o livro as esclareceu.

O livro é exatamente o que eu esperava, para o bem e para o mal. Não que eu discorde dele, pelo contrário. Ele sabe do que está falando. Mas a maior parte do livro me pareceu puro... senso comum.  Pareceu. Talvez não seja senso comum para o público em geral; e talvez eu não seja o público. Mas quem é? (Aparentemente muita gente, porque o livro é um sucesso – assim como as oficinas.) Então volto à pergunta: por que esse povo quer tanto escrever?

(Me pergunto se a escrita pode ser levada como tocar violão, tocar piano, que se aprende sem pretensões de se tornar profissional... Tenho minhas dúvidas.)

O livro parece trazer consciência da utopia de sua missão de ensinar a escrever. Então, embora se declare (na capa) como um manual, não traz tantas respostas definitivas. Melhor assim. Para mim, trouxe algumas questões interessantes de terminologia, como a diferença entre cena e sumário – mas dessa parte técnica eu esperava mais, queria mais. Também traz bons (e bem poucos) exercícios de escrita. 

O grosso do livro é a análise de trechos literários de grandes autores. Daí para mim é como se explicasse a piada, revelasse o truque de mágica, como se tentasse entender a personalidade de um cachorro através de uma autopsia. Tira muito da magia de textos que eu já li, estraga o interesse por textos que ainda não. Sei que é uma visão pessoal, que eu prefiro ter uma relação mais afetiva com a leitura e mais intuitiva na escrita. Não à toa sempre fugi da vida acadêmica. (Eu cheguei a entrar em letras na USP, inclusive, em 2000, mas já estava me formando em comunicação na FAAP e desisti do curso...[Para fazer doutorado em Harvard, é o que dizem.])

Com essa missão de “manual”, Assis Brasil mira num grande público e cria uma moldura um tanto quanto... burguesa (que poderia assumir um tom dândi mais divertido, se investisse um pouco mais na afetação). A narrativa que permeia o livro, de um estudante tentando escrever seu primeiro romance, dá a impressão de que estamos lendo um texto “médio”, aprendendo a escrever um livro “médio”, porque o livro fala com um público médio.

Assim, acho que mais do que “aprender a escrever”, tirará proveito do livro quem curtir análise literária. Não é meu caso. (Não consigo nem ler as teses de mestrado feitas a partir da minha obra...).

(Oh, pensando agora.... Que visão tão negativa é essa? Por que ainda insisto? Eu deveria ter buscado outra carreira... Ainda há tempo de voltar atrás?)

Acho bonito quando vejo autores com origens humildes declarando como a arte/literatura foi uma forma de ascensão social/cultural (Ferrez, Marcelino, Henrique Rodrigues). Na minha família foi exatamente o contrário; tanto o lado do meu pai quanto o da minha mãe trazem histórias de decadência financeira ao se envolver com as artes. Eu devia ter aprendido e não cometer os mesmos erros. Talvez por isso eu veja a literatura como uma maldição...

(E hoje os livros proliferam pela minha casa como fungos, tomam todas as superfícies planas. Se quero trazer alguém para cá preciso perguntar antes: "Tem rinite, TOC?" Se tiver os dois a pessoa MORRE ao entrar aqui...)


Por fim, quando postei a foto desse livro, há algumas semanas, tive o comentário de um jovem escritor: “Queria [ler], mas resolveram vender essa coisa por um preço absurdo de 80 reais. Deixo pra outra encarnação.” Não acho que o preço chegue a ser absurdo, por um manual de 400 páginas, mas respondi com puro cinismo: “É um investimento. Depois de ler o livro você vai ganhar horrooooores como escritor.”

13/05/2019

4.2



42, corpinho de 46, espírito de 64. 


A sensação que eu tenho é que estou voltando de uma longa viagem, de uma terra estrangeira, de volta a São Paulo, cenários tão familiares, mas seis anos mais tarde.

Acabo de completar 42 anos – corpinho de 46, espírito de 64. Há anos que sinto que vivi mais do que o suficiente, mas insisto. Sem grandes vontades, é verdade; passei o último ano basicamente trancado em casa, só trabalhando para pagar as contas, deixando o tempo passar, os planetas se realinharem... Daí quando me dei conta estava tudo fora do lugar.

Estou solteiro de novo, depois de seis anos – a sensação que eu tenho é que estou voltando de uma longa viagem... O ex-cozinheiro soltou a mão e fugiu para o outro lado. Não era mais um relacionamento confiável; uma pessoa que só me colocava para baixo...

Mas o que não me deixa para baixo nos tempos em que vivemos?

Trevoso. 

Daí, estou tendo de me esforçar a sair mais de casa, voltar à academia, ver os amigos, conhecer pessoas. “Aproveite para se dedicar ao trabalho”, me disse uma. Eu só me dedico a isso - eu não saio, eu não transo, não vejo a família. Mas é uma fidelidade não-correspondida. O que eu tenho a oferecer as pessoas não valorizam... “A vida é muito maior do que a escrita”, dizem outros casados e com filhos. A minha vida não é maior do que nada.

É só a coelha que me faz levantar da cama todos os dias.



A sensação de retorno não é só pelo fim do relacionamento. O trabalho mais estável nos últimos meses me possibilitou ir colocando as coisas no lugar. O sofá destruído (pela coelha): vamos arrumar o sofá; as cuecas velhas de casado: troquei por novas da Calvin Klein; o celular... Passei um ano sem celular – e antes disso, pouco usava. Então com iPhone novo comecei a usar mais o Instagram, baixei Tinder, e Grindr, e Hornett, e Uber, e Whatsappp... nunca tive Whatsapp... Os aplicativos de pegação eu até já tive, 6 anos atrás, conheci o falecido assim, mas agora é um mundo novo, ou um mundo a que retorno, depois de uma longa viagem, ou de um coma, seis anos mais velho...

E que preguiça, meu deus...

Descamisado, bem padrãozinho, aos 33. 

Ao menos afastei a preguiça da academia. Quem me acompanha há tempos sabe como já fui rato, rato de tanquinho. O tempo passou e eu deixei passar. Já não sentia necessidade alguma de exercício físico. Tão bom poder ficar dias e dias sem ver ninguém, nem sair de casa... daí ir ao mercado e voltar. Mas o corpo cobra o preço. Voltei a malhar e fazer funcional há pouco mais de um mês, o peso vai diminuindo, e já consegui restaurar a vontade de malhar TODOS os dias – porque para mim as coisas só funcionam assim: se for para fazer, tem de ser para valer. Sou da escola da androginia, e sei que nunca mais serei um rapaz lânguido e esguio – até porque, nunca mais serei rapaz – mas com toda a MASSA que tenho, estou aprendendo a me aceitar como homão.

A foto atual padrãozinho na academia...

(Se eu posso dizer que há UMA coisa que eu gosto em mim hoje, uma ÚNICA coisa, deve ser exatamente o que você sugere que eu deva cortar: meu cabelo. Mesmo cada vez mais branco, é tudo o que me resta.)



 Então nesse aniversário de 42, resolvi chamar os amigos. Pensei primeiro nas amigas, as meninas – buscar um pouco de colo; passei Natal, reveillon e Páscoa sozinho, afinal. Agora, o dia das mães dificultou. “Aniversário não é importante”, “problemas todo mundo tem”, foi meio o que escutei ; “relacionamentos vêm e vão”, me disse uma quarentona que nunca teve um relacionamento estável. Lembrei porque nunca comemoro aniversário – parece um estorvo, que estou pedindo favor. Não é importante para mais ninguém  - mais ou menos como lançar livro. Nossa vida não é importante para ninguém. A gente morre e o pessoal corre para não perder o pilates.

Mas então os amigos, os meninos – que não tinham pilates – não me decepcionaram. Os meninos mais próximos toparam. Obrigado aos queridos que estiveram comigo nesse domingo.

No Badauê, o melhor restaurante de Maresias, agora em São Paulo. 

E que venham mais... 42? Não, 4.2 está de bom tamanho... Julho de 2023 já está mais do que bom.


(Enquanto isso, nos aplicativos...)










21/04/2019

O ÚLTIMO SOBREVIVENTE

A capa brasileira.

Finalmente saiu pela editora Autonomia Literária a edição brasileira de "A Um Fio da Morte", as memórias de Hampartzoum Chitjian, armênio sobrevivente direto do genocídio (da Primeira Guerra), que viveu até o começo dos anos 2000 para contar sua história.

Em quase 600 páginas, ele narra não apenas os anos difíceis de escravidão e fuga, mas também sua infância na vilazinha de Perri (leste da Turquia atual), sua migração para o México e posteriormente para os Estados Unidos. É um documento precioso dos costumes da época, das atrocidades cometidas pelos turcos e da criação da diáspora como um todo.



No terceiro dia, eu finalmente decidi correr o risco e me juntei a Kaspar nas nossas buscas para achar meu pai. Juntos fomos ao centro da cidade. Ficamos espantados em descobrir que todos os homens estavam atrás de portas fechadas das prisões improvisadas. Havia mais de cento e cinquenta lojas, todas convertidas – cada uma cheia até o máximo da capacidade. Os homens eram incessantemente espancados com placas grossas de madeira. Seus gritos penetrantes de dor e desespero filtravam-se nas ruas. Estavam sendo espancados quase até a morte.

Quando nos aproximávamos da oficina do ferreiro, ouvi uma súplica dolorosa, inesquecível. “Por favor, pelo amor de seu Deus, por favor não me bata mais!” Com uma pontada de horror, percebi que era meu pai chorando. Nós rapidamente nos aproximamos da porta do prédio, e eu disse ao guarda de plantão: Chitjeeneen Oghlee yehm. (“Sou filho de Chitjian”). Ele entrou e trouxe meu pai à porta, mas não a abriu. Não podíamos ver um ao outro. Que terrível! Que lembrança devastadora! Após todos esses anos, lembrar desse momento é agonizante e difícil de esquecer. A pessoa que rezava Havadov Khostovaneem diariamente era meu pai. A pessoa que plantava novas vinhas para o próximo ano era meu pai. Agora a pessoa que estava gemendo na cadeia era meu pai. 

[...]


Alguns dias depois, logo após o meio dia, ouvimos a familiar batida de meu pai na porta. Quando corremos para abri-la, ele não nos deixou tocá-lo. Ficamos todos confusos. Seu casaco estava coberto de sangue seco, seu rosto magro e seus olhos consumidos de desespero. Sua postura transmitia uma completa exaustão. Ele mal era capaz de ficar de pé. Nunca vou esquecer o que foi a última impressão de meu pai. Ele projetava uma insuportável dor pela tortura que passou por mais de uma semana, assim como a angústia do que estava acontecendo com sua vida, família e terra, e o medo do que ainda estava por vir. Eu não podia suportar ou compreender o que eles haviam feito com aquele belo homem encorpado, com belo cabelo castanho e compleição suave. Ele havia perdido toda a aparência de si mesmo. Por que isso aconteceu com um cristão inocente, bom e temente a Deus? Esse era meu pai! Por quê? Por quê?
Na minha frente havia um homem magro, frágil, de aparência esfarrapada, uma imagem de meu pai que iria me assombrar pelo resto da vida. Mesmo eu mal tendo catorze anos, eu era velho o suficiente para sentir a dor do que havia acontecido e também velho o suficiente para temer o que estava por vir!

Essa dor é eterna – nunca poderá deixar minha alma. Agora tenho 102 anos e ainda revivo aquele momento toda noite em meus pesadelos. Está refletido em todos meus pensamentos durante o dia. Como alguém pode esquecer essa imagem? Você poderia?


A tradução é minha, e também assino um texto de apresentação. O prefácio é de Heitor Loureiro e Carlos Antaramian Salas. Foi dos meus trabalhos mais importantes, um mergulho na história de meus antepassados - que começou em 2015 com minha visita à Armênia atual e segue em pesquisas e leituras (até passei esse feriado de Páscoa com novos amigos da colônia, veja só..). É uma causa que não deve ser esquecida, principalmente nos novos tempos de fascismo e perseguição em que vivemos.

E tenho mais sobre esse tema saindo em breve...


Dá para comprar o livro aqui: https://autonomialiteraria.com.br/loja/historia-nao-contadas/a-um-fio-da-morte-memorias-de-um-sobrevivente-do-genocidio-armenio/

E nesta quinta, 25/04, haverá um lançamento do livro, incluindo debate comigo, Carlos e Heitor, no Al Janiah - Rui Barbosa, 269, 19h. 





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 Tem sido difícil atualizar o blog com a concorrência de todas as outras redes sociais. Eu acabo usando como um apanhado de momentos especia...