26/11/2013

MUNDIN DAS LETRAS...



Entrevista recente minha com Daniella Zupo, no ótimo "Agenda", da Rede Minas, sobre a reedição do Mastigando Humanos. 

Final de ano sempre é movimentado no "mundin das letras", e acabei fazendo mais do que no resto do ano inteiro.

Depois da Fliporto, teve a "Balada Literária", em que mediei uma mesa e acompanhei alguns lançamentos. Acho que o maior mérito e grande diferencial da Balada é sua generosidade em mostrar as possibilidades da literatura. Que é Lygia Fagundes Telles, Luiz Schwarcz, Caetano Veloso e Raduan Nassar- mas também Dani Umpi, Hugo Guimarães, Mauro Nunes, Índigo e tantos e tantos outros. Não é um eventozinho alternativo, assim como não é um enventozão careta. É uma vitrine riquíssima das mais diversas expressões que passam pela literatura.

Ainda que, por falta de tempo, eu não tenha conseguido participar de muita coisa nessa edição, ouvi, li e participei de bate-papos riquíssimos, não só em mesas de livrarias como em mesas de bares, nas madrugadas. E não só com autores, mas com leitores, músicos, jornalistas.

De uma das discussões que ficou, lembro bem de discorrer sobre essa figura tão valorizada do "escritor discreto" - aquele ser humilde, silencioso, que é valorizado por fazer seu trabalho sem aparecer. Raramente se percebe que é esse também que só colhe elogios, prêmios, glórias, mas deixa de elogiar, divulgar, ajudar seus colegas autores. Está longe de ser o autor generoso. 

E generoso é o que não podemos deixar de dizer de Marcelino Freire, que organizou mais essa Balada Literária (e não só isso). Brinde a ele.

Hoje estive no Prêmio São Paulo. Havia vários queridos concorrendo - Evandro, Xico Sá, Luisa, Luize, Raphael, Zuenir. Achei merecidíssimo o Galera ganhar, já tinha falado do livro dele aqui. Os iniciantes premiados eu não conhecia, mas também acho bem positivo serem de editoras pequenas, e não tão integrados no meio. Também pude ter boas conversas - e uma certa esperança na profissionalização do meio literário brasileiro, embora eu ande bem pessimista no futuro do país como um todo. 

Mas afinal, sendo realista, é possível ser otimista na minha idade, quando os melhores anos provavelmente já ficaram para trás?

Oh!

Em outra discussão que tive, ouvi a ótima frase: "O sucesso só faz sentido quando se é jovem" (e só não credito aqui porque não sei se o autor quer assumir). Mas é verdade, é verdade. Sucesso! depois de um tempo não é mais aproveitado, não é recebido com o mesmo entusiasmo, a mesma euforia - não faz o mesmo sentido.

"Faça sucesso o quanto antes, ou vai acabar igual a mim."

(Essa é só mais uma boa frase de efeito.)

Resta ir ao México. Isso será novidade, no próximo final de semana. Ainda inédito - 25o país que vou conhecer. Para a Feira de Guadalajara. A minha programação oficial é essa:

estinaçao Brasil
03-Dic
Destinaçao Brasil
17:00 a 18:50Salón 3, planta baja, Expo Guadalajara
Latinoamérica Viva
04-Dic
Latinoamérica Viva
17:00 a 18:50Salón Juan José Arreola, planta alta, Expo Guadalajara
Ecos de la FIL
04-DicSantiago Nazarian
Ecos de la FIL
11:00Cumbres San Javier



22/11/2013

REFLEXÕES DO GATO MURR

Íntegra da minha resenha publicada na Folha, final de semana passado: 

Animais protagonistas não são novidade na literatura. Em 1819, quando o alemão E.T.A. Hoffman publicou seu “Reflexões do Gato Murr”, já era bem conhecida a história do Gato de Botas, tanto na fábula original de Perrault, a versão dos irmãos Grimm e a sátira de Ludwig Tiek (citada com destaque no livro de Hoffman). Há uma longa tradição no terreno das fábulas, nas quais animais tomam características humanas, a serviço de uma lição sobre a moral. Porém a forma audaciosa como Hoffman apresentou seu gato, no auge do romantismo, e como ela permanece inteligente e atual é o grande mérito de seu romance.
                Murr é um gato doméstico, narcisista e burguês (ou “filisteu”) que, observando os papéis de seu mestre, resolve se tornar escritor. “Com a calma e a segurança peculiares ao autêntico gênio, passo ao mundo minha biografia para ensinar como é possível fazer de si um grande gato, registrar minha perfeição em todos os sentidos e que os outros me amem, me estimem, me reverenciem, me admirem, me idolatrem um pouco,” diz o personagem no prefácio “suprimido” (obviamente incluído). Esse é o tom delicioso do texto, que tem o narrador perfeito para satirizar os maneirismos da época, numa escrita dândi e hilária.  “Ocorreu-me, finalmente, haver lido que a indiferença e uma barba por fazer seriam marcas indiscutíveis do apaixonado!” coloca Murr ao conhecer a gatinha Miesmies. “Olhei-me ao espelho e... Céus, minha barba estava por fazer! Céus, sentia-me indiferente!”
                Murr é o típico anti-herói, carregado de defeitos e de caráter discutível, mas ainda charmoso e adorável. Sua relação com o poodle Ponto, suas tentativas de escapar da burguesia e a forma como seu dono o trata como um gato qualquer, sem desprezar suas características humanas - como se costuma fazer com os animais de estimação - são o ponto alto dessas reflexões literárias.

                Porém o maior problema do texto está em sua maior ousadia. Não satisfeito em criar uma fábula adulta, Hoffman mesclou no livro páginas da biografia de um compositor chamado Johannes Kresleir (personagem recorrente em sua obra). O gato teria misturado os dois textos ao usar as páginas da biografia como mata-borrão para seus textos. Dessa forma, a narrativa de Murr é constantemente interrompida pela história de Johannes, que ainda que bem-humorada e que se comunique aqui e ali com a história do gato, resvala a uma sátira convencional da época. Não deixa de ser sintomático que a obra seja conhecida como “o romance narrado por um gato”, mesmo com a biografia de Johannes ocupando mais da metade do volume. É comum ler relatos de leitores que simplesmente pulam essas páginas e se dedicam exclusivamente à obra do gato, uma leitura possível. (Avaliação: regular)

19/11/2013

SNUFF BOOK


Algumas coisas só podem ser feitas por escrito. Certos temas, imagens e mensagens só podem ser passados onde ninguém mais os encontraria: num livro. Literatura não tem consenso, não tem orçamento, não tem compromisso e não tem censura. Nessa arte de ninguém, tudo é possível, embora poucos se lembrem disso. Hugo Guimarães está aqui para lembrar. É um autor que vai além. E esta sua pequena pérola serve para mostrar o que ainda, o que apenas pode ser feito num livro. Seu estranho mundo é feito das paixões mais sombrias, grotescas e verdadeiras que fermentam em nós, mas que só encontram saída nas mãos dos loucos e dos artistas. São doze contos de estupro, orgia, tortura e assassinato em que o autor arma um arriscado jogo de desejos próprios e emprestados, fatos e ficção. É comum tentar-se definir jovens autores comparando-os com os já consagrados, encaixando-os em rótulos pré-estabelecidos. Nesse movimento, Hugo seria beat e maldito, pornográfico e surrealista. Literatura snuff? Torture porn escrito? Nada e ninguém ao que o compararmos fará jus à autenticidade de seu universo, a personalidade de sua escrita. Num meio e num mundo cada vez mais quadrados, “O Estranho” tem a força de um atentado terrorista. 



Orelha que assino para o grande livro de contos de Hugo Guimarães. Tem lançamento esta semana, na balada literária:



22/11 (sexta-feira), 19h30 – BALADA NO ESPAÇO PARLAPATÕES: Lançamento dos livros “Rachas”, de Andréa Moraes; “O Estranho Mundo de Hugo Guimarães”, de Hugo Guimarães;

Mauro Nunes. 

Na balada também haverá o lançamento do romance de estreia de Mauro Nunes - o caos do acaso - em que eu assino o prefácio e já coloquei aqui. Bem bacana.


23/11 (sábado), 22h – FESTA DA BALADA NO BAMBU BRASIL BAR: Lançamento do livro “O Caos do Acaso”, de Mauro Nunes; do projeto "Doritos", de Thiago Barbalho; e das antologias “Proibido Para” e “Edifício Marquês de Sade”

E ainda tem a mesa que eu vou mediar. Programação completa aqui: http://baladaliteraria.com.br



17/11/2013

OLINDA

Minha mesa na Fliporto - Eu sou do chapeu, claro. (Foto do querido Ney Anderson.)


A Fliporto foi insana. Já começou com um pouso de emergência em Salvador. Descobriram um quati escondido no meu avião vindo de São Paulo e tivemos de parar para evacuar o bicho, que ficou louco. 

A piscinha da Pousada do Amparo. 


 A vista pro centro histórico era linda - o problema era o forró na rua de noite...


Aqui em Olinda, fui hospedado na Pousada do Amparo, uma pousada butique lindinha, com ótima comida e linda piscina, mas que infelizmente não abrigava grande parte dos escritores. Acabei aproveitando as amizades e passei mais tempo na piscina do Hotel Sete Colinas, com a querida Mona Dorf, Del Fuego e família. 


Família del Fuego. 


Apontando para Mona Dorf os saguis que avistava no hotel. 

E o festival em si: Fliporto é um festival... estranho. Uma mega estrutura montada numa praça de Olinda, com muita gente circulando, barracas de comida, artesanato, mas uma programação de debates que poderia render bem mais. Acho meio estranho, por exemplo, que a grande mesa do evento (noite de sábado) tenha sido com a Maitê Proença (que também escreve, claro, mas...) ou que a grande mesa juvenil tenha sido com uma atriz da novela Rebelde (?!). Entendo esse tipo de evento numa Bienal, mas a Fliporto ainda não se decidiu se é comercial, se é literária, o que toda aquela criançada faz lá comendo algodão-doce... (O espaço de "venda" de livros também é bem restrito. Não há estandes de editoras, etc.) 
Christiano Aguiar, Andrea del Fuego, Andres Neuman. 


Vi a mesa da Maitê - por uns quinze minutos. Também acompanhei outros debates mais literários e proveitosos. O da Andrea del Fuego, Andres Neuman (que conheço do Bogota 39) e Luiz Rufato mediado pelo fofo do Cristhiano Aguiar foi bem bacana e bastante literário. O do Valter Hugo Mãe com Sidney Rocha (que fechou o evento, agora há pouco) me decepcionou deveras. Explico: nunca li o Hugo Mãe (my bad), mas tenho ótimas referências dele, claro. Porém o que pareceu é que eu estava vendo o debate com um padre. Um padre divertido, carismático, bossa nova, mas um padre. Certinho, bonzinho, fala o que as pessoas querem ouvir: 

Valter Hugo Mãe com Sidney Rocha. 


- Falou de sua raiz católica, de sua devoção por São Bento. De como já foi considerado um menino santo. 
- "Eu era uma criança ingênua e pura, como todas as crianças."
- "As mulheres estão longe de serem respeitadas", fez vários discursos femininistas.
- Emocionou-se e chorou em algumas ocasiões.
- Soltou a frase "Vou dizer uma coisa muito feia" e explicou o amor que sente ao cachorro, desculpando-se por  achar o ser humano menos digno. [Pra mim, esse é o equivalente literário pau no cu do "Vou falar uma coisa meio pesada: já transei na balada."]

A cada discurso desses, a plateia interrompia com aplausos. Não me leve a mal, não tenho nada contra o Hugo Mãe. E tenho fontes confiáveis de que é um grande escritor. Mas o discurso... É muito "bonzinho", muito cristãozinho. Numa só mesa conseguiu vender São Bento, a pureza das crianças, a injustiça com as mulheres, o amor pelos cães e a esperança no ser humano - porra! E fiquei pensando se é isso que é necessário para se tornar GRANDE, para ser respeitado e ser divulgado e lido pelo maior número de pessoas. É preciso ser um SANTO. Eu - que não posso deixar de emitir uma opinião incisivamente negativa, descrente, ateia e sombria sobre o ser-humano-deus-cachorro-são-bento - estou condenado?

De toda forma, poder ter essas reflexões é a grande riqueza desses eventos. 

E minha mesa?


Com Márcia Dementshuk e Andrea del Fuego, que abduzi pra minha mesa. 


Minha mesa foi uma zona. A Record queria muito que eu estivesse presente no evento. Eu queria estar presente no evento. E a Fliporto - acho que sem saber o que fazer comigo - me encaixou numa tenda para adolescentes (que era mais uma tenda para PRÉ-adolescentes). 

Estava lotado. Mas grande maioria não sabia quem eu era e o que eu fazia ali. O que eu fazia ali? Achei que aquilo não ia dar certo. Crianças com balões, pais com filhos, muita gente falando. A querida Marcia Dementshuk, que fazia a minha apresentação, tentando levar para um tom mais "lúdico". Ficou uma guerra entre entreter a criançada, falar sério de literatura, tentar vender o livro "do jacaré", que nunca foi escrito como um livro juvenil. 

Mas até que foi divertido.

Em determinado ponto, avistei Andrea del Fuego na plateia e a puxei para a mesa. Queria dividir a carga com ela. Mas passei a ser sabatinado pelas duas mulheres e, aos trancos, a coisa foi. No final, foi aquela coisa, de tirar mais fotos com a petizada do que vender/assinar livros. Mas foi lindo, lindo ver leitores e leitoras fieis que levaram pilhas com todos meus livros para assinar. Passei um bom tempo autografando. 

Ney Anderson.

A linda Mitzy Garcia me escrevia há tempos. Adorei conhecer. 

A Rebeka Gomes já é de casa, leitora fiel de tempos...


Ao ponto de ter a capa de "A Morte sem Nome" tatuada nas costas. Não dá para ser mais fiel do que isso. A ilustração, por sinal, é do meu pai. 


Enfim, valeu bem. Também saiu uma mega matéria de página inteira no Folha de Pernambuco, assinada pelo Talles Colatino, com uma ótima entrevista e o título "O Pop Maldito de Nazarian" (uh-hu!), gravei entrevista pra Globo e pra Record. E é isso aí. 



Acho que a estrutura da Fliporto podia render bem mais literariamente, mas a estrutura está lá. E o importante é termos todas essas iniciativas em diversos pontos do país.


Na Globo, no brejo. (Flagrante da Rebeka Gomes.)

Aproveitando: 

Na próxima quinta estou na Balada Literária, em São Paulo. Mediando uma mesa sobre famílias de escritores com minha mãe, entre outros: 

21/11- 16h – LIVRARIA DA VILA (Fradique):
  • PIRATAS DO TIETÊ – Famílias literárias
    SANTIAGO NAZARIAN conversa com ELISA NAZARIAN, ESTRELA RUIZ LEMINSKI e RICARDO RAMOS FILHO

Prometo levar outro chapeu. 


13/11/2013

O REI DA BALADA (LITERÁRIA)


Marcelino Freire. 


Pensei que se eu tivesse de escrever, na vida, uma outra peça de teatro, escreveria esta, a de um dramaturgo de sucesso que atravessa o Brasil em um carro funerário, levando, para seu último descanso, o corpo de um garoto de programa com quem ele havia trepado, uma história, digamos, de amizade, ao que parece, também daria um bom filme, essa viagem, se não fosse ela, em vez de ficção, a mais pura verdade. 

Há alguns meses discuti aqui (e com alunos de oficina) as fronteiras entre romance, novela, conto, crônica. Como grande parte dos romances brasileiros contemporâneos se aproximam mais de novelas, como a novela pode não ser um gênero menor; agora Marcelino Freire surgiu para embaralhar esses conceitos.

Nossos Ossos é seu primeiro romance, ou novela, ou como ele chama "prosa longa", o certo é que não é um livro de contos. Mas quem já está familiarizado com sua obra vai se surpreender em como ele manteve a mesma identidade, oralidade e o ritmo de sua escrita numa única história que se estende por 120 páginas. 

As imagens emblemáticas e as situações insólitas são narradas por ele de maneira telegráfica, palavra puxando palavra, no mesmo fôlego que ele usava para a "prosa curta", que funciona incrivelmente bem também aqui. É um "romance" como nenhum outro e como só ele poderia fazer. 

Um dramaturgo recebe a notícia da morte de seu "boy" (ou michê) e decide levar o corpo de volta à família, viajando de São Paulo até o sertão do Recife. Assim o livro é dividido, metade em drama urbano, metade em roadbook. Como é espertamente sugerido no parágrafo selecionado, daria um belo filme, ou peça, mas acima de tudo daria um belo audiobook, com o próprio Marcelino na leitura, como faz tão bem. 

Estendendo as fronteiras da literatura, não só no papel, semana que vem começa a sua Balada Literária, evento que ele organiza há sete anos, e que mistura literatura, música, teatro e artes plásticas. 

Eu também estarei lá, mediando uma mesa. Vocês podem ver a programação completa aqui: 


Mas antes, neste final de semana, estarei na Fliporto, no braço "Nova Geração", dedicado aos jovens, lançando a nova edição de Mastigando Humanos e Garotos Malditos. Sempre sou recebido com muito carinho em Pernambuco. E vai ser ótimo estar lá pela terceira vez. 

É domingo, 17h, em Olinda. 

Programação completa aqui: 



 No lançamento de Marcelino, semana passada. 

10/11/2013

A VIDA SELVAGEM


Nessa vida sem destino, não há segurança de nada, a não ser de liberdade. Resolvi abrir um feriado esta semana e visitar Floripa, minha segunda casa, que há um bom tempo estava abandonada. 


Na trilha do farol.

Tive a companhia mais do que parceira do Murilo - que se provou pau (ops!) para toda obra. Quem mais poderia me acompanhar por mais de 40km seguidos de bike (da Barra ao Santinho, e de volta), além de trilhas, nados e refeições fartas. Fique com a fotos. 

O farol. 


O Chamado. 

Subir no Farol dá um medinho...


Murilo no alto. 

Vista. 

A Barra. Minha segunda casa. 

Na estrada da reserva florestal do Rio Vermelho. 




Murilho no Santinho. 


A imprescindível sequência de camarão. 



Cachoeira na Costa da Lagoa. 







Rockstar decadente flagrado pelos paparazzi. 


Rockstar se afogando. 




Com a Pira, na Joaca. 



Comercial de Margarina. 


Desta vez não rolou kite, nem mergulho, e faltou matar a saudades de vários lugares (e poucas pessoas), mas fica para uma próxima... se eu tiver forças pra isso. 

As caminhadas, trilhas e bike já foram bom gostosas, intensas e exaustivas (ou gostosas exatamente por serem exaustivas). A vida em São Paulo me parece tão restrita, tediosa e insuficiente, mas é a vida possível. O importante é poder dar escapadas como essa. Preciso mantê-las frequentes.


Amanhã voltamos ao dióxido de carbono. 

28/10/2013

A MORTE DO IRMÃO DO MÁRIO


Acordei numa casa vazia, num colchão no chão, nos subúrbios de Londres. Morava lá em 2002, trabalhando de barman, me intoxicando nas horas vagas. O menino que conheci na noite anterior, no Popstarz, já estava vestido e de pé. Disse que estava de mudança, saindo daquela casa, ou chegando naquela casa, ou que a casa seria demolida no instante em que puséssemos os pés para fora. Botou um vinil para tocar na vitrola que restava. "Lisa Says", do Velvet Underground, sob agulha e estalos, foi a trilha perfeita para aquela manhã e eternizou uma noitada que de outra forma teria sido apagada definitivamente em neurônios perdidos, garotos perdidos.


*

Aos 16, no ensino médio, emprestei para um colega o "Parallel Lines" do Blondie. Ele me emprestou uma coletânea de um cantor que eu não conhecia. Tinha "Walk on the Wild Side", "Vicious", uma versão ao vivo de "Sweet Jane". Os dois CDs ainda estão aqui em casa.


*


Em 2010, uma editora pediu para revisar a tradução e fazer a preparação de texto de um romance entregue com vários problemas. Entre outros assassinatos, me deparei com esse parágrafo:

So I clean and I prepare and I buy scented candles and I put on some Velvet Underground, trying to make everything perfect. It’s as if I’ve forgotten I’m immortal.

Que foi traduzido como:

Então está tudo limpo, preparado e comprei velas aromáticas e também aspergi um pouco do perfume Velvet Underground, tentando deixar tudo perfeito. É como se eu esquecesse que sou imortal.

O qual alterei para:

Então eu limpo, preparo, compro velas aromáticas e boto um som do Velvet Underground, tentando deixar tudo perfeito. É como se eu esquecesse que sou imortal.

(Não vou citar o nome do livro e da tradutora, para não destruir uma carreira.)


*

Ontem estou no computador. Murilo na sala, lendo Clive Barker.

Eu: Nossa, morreu o Lou Reed.
Ele: Quem?
Eu: O Lou Reed.
Ele: Irmão do Mario?
Eu: Que Mario?
Ele: Irmão do Luigi! O que você está jogando?



Lou Reed se vai. As músicas e as histórias ficam. 

23/10/2013

A VOLTA DA VACA LOUCA 
Ana Paula Maia Minotaura, com todo respeito. 


Sou suspeito. Ana Paula Maia sempre foi das minhas preferidas, minha protegida quando eu podia proteger alguém - acabei até assinando a orelha de duas de suas publicações. Agora ela acaba de lançar pela Record seu quinto e melhor romance De Gados e Homens. 

Edgar Wilson - personagem recorrente da autora - agora trabalha num abatedouro de animais. Sensível e de poucas palavras, tenta poupar o sofrimento com golpes misericordiosos. Até que se depara com estranho desaparecimentos de gado, que o coloca de vigília junto aos colegas de trabalho.

O que Edgar Wilson faz é encomendar a alma de cada animal que abate e fazê-lo dormir antes de ser degolado. Não sente orgulho do trabalho que executa, mas se alguém deve fazê-lo que seja ele, que tem piedade dos irracionais.

Mais do que nunca, Ana Paula investe em frases diretas, em imagens telegráficas, num estilo de prosa intimamente ligado ao universo dos retratados: masculino, objetivo, com uma delicadeza muito sutil enxergada mais no não-dito Se em Carvão Animal ela investia numa pseudofilosofia sobre o fogo, aqui ela deixa para o leitor o dilema moral do abate e consumo de carne. 

Ainda há momentos deliciosos de humor - como "a guerra entre vacas libanesas e israelenses", que precisam ser separadas - e sou mais suspeito de dizer que grande graça está no personagem Santiago - tatuado, de cabelos compridos, junkie e hiperativo, que morou um tempo na Finlândia e abatia renas por lá. Acho que posso aceitar a homenagem. 


Li o livro numa sentada. Numa noite. E se posso dizer que o maior defeito do livro é sua pouca extensão (126 páginas magras), é um bom defeito, porque se cumpre perfeitamente como uma breve novela, com um ritmo adequado à sua trama, de forma alguma apressado ou inconsistente. 

Assim fico feliz de constatar realmente que esse é o melhor livro de Ana Paula Maia. O mais maduro - e meu favorito. Espero ansioso pela adaptação para o cinema. 

Santiago abatendo renas na Finlândia. 


17/10/2013

E OS JOVENS CONTINUAM ESCREVENDO...


Prefácio meu para "O Caos do Acaso", de Mauro Nunes, editora Kazua. Recém lançado: 


Este é um romance de estreia. E geralmente se associa os romances de estreia com a ingenuidade, imaturidade; quando se elogia um autor iniciante geralmente é com a palavra “promissor”, como se ele prometesse fazer melhor no futuro, como se ainda estivesse por fazer. Mauro Nunes já está fazendo.
O Caos do Acaso é um romance de estreia, com o melhor que pode haver nisso: paixão, espontaneidade, uma liberdade criativa delirante e um universo literário muito próprio, ainda não contaminado pelas formas académicas. Este não é “só” um romance  de estreia, é uma enxurrada de narrativas fragmentadas que se cruzam, se chocam e se destroem. A criança trancada num porão, o tetraplégico à espera da eutanásia, a enfermeira que realiza abortos, o gay enrustido de violência escancarada. Seus diversos protagonistas espelham o caos de um mundo esquecido por Deus – ou seria um mundo que torce demais por uma solução divina?
“Limpeza urbana, salvação da família, preservação do amor. Deve estar louco. Os valores estão falidos. Os valores não servem de nada. A sociedade se alimenta de si mesma. Se consome em miséria. Não há deus que salve.”
É uma escrita cruel, visceral, mas que a mim parece uma benção, trazendo esperança quanto ao futuro da literatura, em meio a tanto textinho pau no cu (no pior sentido), tanto autor “coxinha”.
A literatura é uma arte de senhores. E tanto se valoriza os “senhores escritores”, que muitas vezes se negligencia o talento que só um moleque de vinte e poucos pode ter. (Não é toa que todo o Romantismo foi feito por moleques que morreram cedo.) O Caos do Acaso é uma prova da importância de se escrever (e publicar) cedo. Provavelmente daqui a 50 anos Mauro Nunes ainda estará escrevendo – mas certamente não será mais capaz de escrever uma coisa dessas .
“Você não me conhece...” se apresentou ele para mim há algum tempo no Facebook, perguntando se eu poderia escrever esse prefácio. E hoje me sinto honrado de ele ter pedido. E feliz de poder dizer: não conhecia, felizmente, nunca tinha lido nada igual. E isso é só o começo.

Santiago Nazarian

11/10/2013


FRANKFURT

Tava bem quietinho para não passar por ressentido e invejoso - coisa que assumo que sou, como tantos; não sou é hipócrita. Mas não me aguentei lendo as notícias sobre a Feira de Frankfurt...

Primeiro se questionou muito a seleção dos autores. A organização da feira se queixou da falta de negros. Paulo Coelho se queixou da panelinha - dizendo que conhecia só uns 20 (!) autores e listando uma série de escritores nitidamente comerciais (Raphael Dracon, André Vianco, Thalita Rebouças, Felipe Neto!) que deveriam ter sido convidados. Assim, ele cancelou sua participação - e muitos apontam que foi questão de ego, por ele não ter recebido papel de destaque. 

Eu, sinceramente, achei boa a seleção oficial de autores. Havia um bom equilíbrio de autores comerciais (como o próprio Paulo Coelho), autores premiados e novos nomes importantes. Claro que lamento não estar no bolo - mas achei uma seleção mais válida do que a da Granta, por exemplo, que foi assumidamente cartas marcadas. (O que ficou claro quando a publicação pediu que autores selecionados trocassem seus textos). De todo modo, eu próprio estive em Frankfurt a convite em 2011, nas preparações do Brasil por lá, apresentei minha obra, e talvez não tenha tido o resultado que se esperava. (Na Alemanha, participo apenas de antologias, não tive nenhum dos meus romances publicados). Racionalmente eu poderia até me auto-questionar por que viajo mais do que muitos autores. Só este ano lancei livro na Espanha e estive na Feira de Madri, Zaragoza, Valladolid e Salamanca. Em dezembro estou na Feira de Guadalajara, no México - nunca publiquei por lá. 

Mas o que me atravessou mesmo foi o discurso de Luiz Ruffato, na abertura. Apesar de verdadeiro, é absurdamente sem propósito, não trata da literatura nacional, existe apenas para se relacionar com a literatura e a biografia DELE, que repete como sempre que "nasci pobre, filho de pipoqueiro, blablablá." 
Ele trata da literatura na primeira pessoa do singular, "Para me contrapor a isso escrevo", quando deveria estar representando todos os autores que estão lá e aqui. 

De toda forma, não me surpreendo. Apesar de ele ser um autor respeitado, pessoalmente sempre se mostrou duvidoso comigo. Não esqueço e não perdoo o fato de teu ter conversado pessoalmente com ele, uma década atrás, na época em que eu mesmo o admirava, e ter comentado que organizava em parceria com o Marcelino Freite uma antologia de contos sobre homossexualidade. Ruffato elogiou a ideia e me incentivou - apenas para meses depois lançar ele mesmo uma antologia com esse tema. Quando o questionamos sobre isso e expusemos publicamente o fato, ele lançou mão de sofismas, dizendo que antologias como essas existiam aos montes, não era uma ideia inédita e não poderíamos acusá-lo de plágio. Nunca expusemos a questão como plágio, mas sim como anti-ética. Se ele tivera a mesma ideia, por que não me disse nada? Por que apenas me elogiou e seguiu em silêncio realizando o MESMO projeto em menor tempo?

 Na época, Ruffato covardemente virou a imprensa contra nós, em especial contra mim, autor em início de carreira, que não poderia competir com o respeito e prestígio que nutria um autor como ele, premiado, com cara de escritor de respeito, engajamentos pretensamente políticos, de origem humilde, filho de pipoqueiro, blablablá. Sou rancoroso e não vou esquecer. Hoje, quando o encontro, nem o cumprimento.

E é curioso que Ruffato - por sua biografia, aparência física, discurso, obra e orientação (hetero) sexual - se encaixe no modelo perfeito que se espera de um escritor. Já eu, nesse meio, é que tenho de vencer resistências e preconceitos.

Agora está se discutindo ele manchar a imagem do Brasil em Frankfurt. Que ele deveria ter passado uma imagem mais positiva. Para mim não é esse o ponto. Ele aproveitou o momento para expor novamente o engajamento DELE com as minorias, e os outros, como sempre, é que se danem. Espero que AGORA as pessoas comecem a perceber isso. (Texto integral, tirem suas conclusões:

Enfim, eu não vejo é a hora que essa feira acabe, porque só se fala nisso, e está impossível de trabalhar com editores, agentes, traduções e publicações todas só voltadas para a Alemanha. 

Aqui, a vida continua. Medonha como sempre. 


09/10/2013

DAS POSSIBILIDADES ESCRITAS

"Qual dos seus livros, ou contos, você acha que daria uma série de TV?" Me perguntou um produtor há alguns meses. Eu pensei, revi meus livros, respondi: "Hum... nenhum?"

Mais do que negativar, isso reforçou em mim as possibilidades únicas da literatura. E porque eu escrevo. É para poder fazer o que não está sendo feito aí, na TV, no cinema, na literatura. E para poder fazer sozinho.

A literatura é a arte mais individual que existe, sempre digo isso; não requer consenso, bom-senso, censura ou pudor. O escritor tem todas as fichas na mão - não tem sua visão alterada por produtor, diretor, ator; mesmo o editor, que poderia ter um papel mais participativo, hoje em dia, no Brasil, raramente interfere substancialmente na obra. Editores querem livros prontos, para terem o mínimo trabalho possível, apenas diagramar e distribuir. Isso faz com que a visão expressa nos livros seja a mais particular, o que pode trazer muito mais riqueza do que uma visão coletiva.

Além disso, é uma arte relativamente barata. Não há grandes investimentos - nem por parte do próprio autor, nem por parte da editora - o que faz com que haja menores riscos. Pode-se fazer muito mais, sem medo do dinheiro perdido. Não há afinal muito dinheiro a se ganhar, ninguém está prestando muita atenção. Pode-se dizer disparates, não é preciso ser politicamente correto, você não está lidando com massas, nem com analfabetos. É possível ter mais inteligência, ironia, sarcasmo, perversidade...

A história em si já não tem custo. Não há limite de personagens, cenários, ações, explosões, efeitos especiais. Não há limite de espaço, páginas, você não precisa se encaixar numa grade de programação, num horário de sessão nem mesmo nos espaços abertos nas prateleiras. O livro tem quantas páginas o autor quer que tenha - embora algumas grossuras possam ser mais atraentes do que outras.

Se eu escrevo por tudo isso, como canalizar minha obra para o formato pré-estabelecido da televisão? Para a caretice da indústria cultural brasileira?

A história de uma mulher que se mata a cada capítulo de uma forma; sete meninos que se apaixonam por uma infanticida; memórias de animais urbanos; um colégio para monstros, só lembrando alguns dos meus livros, poderiam render séries de TV nos Estados Unidos, talvez. O Brasil ainda está impregnado de realismo, de conservadorismo, e por isso mesmo que eu preciso fazer diferente.

Produtores, curadores, o público em geral acredita que o escritor precisa ser salvo da literatura. O livro como um trampolim para uma vida melhor. O livro como um degrau para escapar dele mesmo. "Não sei  o que você planeja da sua vida como escritor, mas o mercado de roteiros no Brasil é muito promissor," me disse aquele mesmo produtor, como se dissesse: "Se ficar só nos livros, vai morrer de fome." E talvez ele tenha razão. Já colaborei com alguns roteiros de cinema, escrevi este ano minha primeira série de TV (Passionais, que deve estrear no GNT no começo do ano) e sempre é ótimo exercitar novos formatos. Mas das possibilidades únicas da literatura eu não me esqueço. O livro será sempre meu veículo.

Ainda assim, para meu próximo romance, pensei numa estrutura que facilitasse a adaptação para o teatro, para o cinema. Se a mensagem deve ser a minha, sem concessões, a estrutura poderia ser mais stage friendly. É sempre um desafio importante, afinal, tentar canalizar meu universo pessoal num formato que possa atingir o maior número de pessoas possível. Marshmallow sobre cacos de vidro.

A versão para os palcos eu já estou fazendo. Já estava na hora de eu escrever algo para teatro (apesar de - ou principalmente por - ter gostado tanto da adaptação que fizeram de Feriado de Mim Mesmo). Se há algo que eu aprendi nesses dez anos de carreira foi isso - que tenho de fazer sozinho-eu-mesmo; não posso esperar a benção de produtores, editores, manuéis da costa pinto.

Não há palco, não há aplauso, o escritor tem de se contentar com parcas resenhas, palavras de encorajamento, pouco dinheiro. Mas o importante é que ele não precisa de ninguém, eu não preciso de ninguém. E é lindo ver que eu ainda posso, eu ainda consigo, eu ainda penetro com meus dedos os seus olhos.

E enquanto eu tiver esses dedos, enquanto eu tiver vontades, você vai ter de me ouvir.


ÚLTIMA AULA DO ANO

Vou dar minha última aula este ano, em cima dos textos de vocês. Me mande as dez primeiras páginas ou o projeto de um romance em que esteja ...