31/03/2022

SOBRE A TECLA SAP


Esta semana de Oscar me fez repensar no valor da tradução, da dublagem, da legendagem...
“Só quem pode avaliar o trabalho de um tradutor é quem não precisa dele”, é uma máxima (não lembro de quem) não totalmente verdadeira, porque uma má tradução emperra, atravanca e soa estranha, mesmo para quem não domina a língua original.

Vi o Oscar com meu namorado, que tem um inglês mediano, mas desistimos da tradução simultânea, não tanto por imprecisões, mas pelo excesso de comentários desnecessários. No trecho de cada filme, nas homenagens, os comentaristas faziam questão de explicar, dar sua opinião. Me fartei durante a homenagem ao 007, que no original só mostrava cenas dos filmes, mas os comentaristas brasileiros (da TNT) faziam questão de pontuar cada cena. Um saco.

Porém o Oscar é um caso específico, dos raros casos de tradução simultânea hoje em dia. Mais problemático tenho achado toda essa defesa e essa campanha pela dublagem – inclusive de veículos e pessoas de peso. Não sei muito de onde isso vem, a quem interessa. “A dublagem do Brasil é a melhor do mundo, blábláblá”; pode ser, mas continua ainda sendo... dublagem. Pense num ator que ficou meses se preparando para o papel, dominou um sotaque, gravou a cena trocentas vezes, teve sua interpretação baseada no calor do momento, na interação com outros atores, com o ambiente. Como dá para comparar a performance vocal dessa pessoa com alguém que entrou num estúdio, gravou dúzias de falas num dia, sem contracenar com outros atores, sem cenário, e geralmente sem nem disfarçar seu sotaque (carioca, invariavelmente) carregado? Como comparar a entrega vocal de uma Meryl Streep com uma Maria das Couves?

Entendo que, num país tão desigual, a dublagem seja uma forma de inclusão, mas deve ser encarada como tal, uma muleta, por nosso ensino deficitário. O ideal era que o povo conseguisse ler legendas, conseguisse dominar outras línguas... Dublagem é uma gambiarra.
 
“Ah, mas tem coisa que é melhor dublada do que o original” – talvez, se o original for muito ruim ou se for originalmente dublado, como os desenhos animados. Daí acho que faz sentido. A merda maior dessa campanha atual pela dublagem é que mesmos nos streamings (principalmente Amazon Prime), já se encontra uma caralhada de filmes APENAS DUBLADOS (sinceramente não entendo por que se dão ao trabalho de dublar, mas não disponibilizam o áudio original, mesmo sem legendas). Parece os velhos tempos de televisão aberta, sem tecla SAP.
 
Dito isso, a legendagem também está longe de ser uma arte perfeita.

Já traduzi para legendas (para dublagem, nunca). É preciso sintetizar para caber na tela, no ritmo da fala e da leitura. Então já é uma simplificação. Mas para mim é muito mais válido do que a dublagem. Primeiro porque dá para cotejar, você tem o áudio original e pode pescar divergências, mesmo que não tenha um inglês perfeito. Depois, porque mesmo que você não entenda nada da língua original, você ainda tem o tom, o timbre, o ritmo, e toda a sonoridade da atuação original, que não fica comprometida.

Já ouvi argumentos de que a legenda tira a atenção do foco da tela, da imagem. Isso não consigo avaliar, porque leio legendas desde pequeno, e hoje preciso cada vez menos delas. Talvez seja mesmo uma questão de hábito. Para mim, dublagem me tira muito mais o foco da cena...

A merda das legendas.... e da tradução em geral, é que vem sendo cada vez mais sucateada, desprofissionalizada. Os filmes caem em torrents com legendas amadoras, de gente que traduz com inglês básico e Google tradutor. Dói de ler. E com tanta gente fazendo de graça, claro que o trabalho do tradutor profissional é desvalorizado. (Eu mesmo não traduzo legendas há aaaaanos).
 
Falando da tradução literária, que é minha principal atividade, também acho sempre melhor ler no original, claro. Mas muitos dos meus favoritos são de línguas que eu não domino: Thomas Mann, Kafka, Hesse, Moravia. De toda forma, o ritmo de trabalho da tradução literária é muito menos industrial do que a tradução audiovisual... ou era, também vem sendo sucateada, com prazos cada vez mais apertados, valores por lauda cada vez menores, gente recorrendo ao Google Tradutor.
 
É vergonhoso o que se ganha – pensando em toda a experiência, o estudo, a vivência que precisa se ter para se traduzir; não é só conhecimento das línguas, tem muito, muito de conhecimentos gerais, é preciso entender do que se está falando, ou pesquisar... Coisa que não se tem tempo em tradução de audiovisual, e cada vez menos na tradução literária.
 
Por essas, eu, como tradutor, sempre defendo: Leia, veja, escute o original.

Meu namorado está há um ano comigo. E nesse ano deu um salto e já consegue acompanhar numa boa filmes com legendas no inglês original ou em espanhol – próximo passo é sem legendas. Aprende-se a ler legenda lendo legenda. Aprende-se inglês ouvindo inglês, lendo em inglês, muito mais do que em curso na Cultura Inglesa. É preciso ir tirando aos poucos as muletas, não dar uma cadeira de rodas...

28/03/2022

GARIMPO DE MIM MESMO



Aproveitei a manhã de segunda no centro para garimpar meus próprios livros nos sebos. Nesses tempos de pobreza absoluta, tenho que vender o que posso, e tem sempre gente pedindo, perguntando pelos livros mais antigos.

Procurar a si mesmo num sebo sempre desperta sentimentos conflitantes. ‘Fui largado nessas prateleiras empoeiradas, sou leitura de segunda mão.” Mas também, quando não me encontro, sinto que não fiz história. Hoje teve de tudo.

No começo, não estava encontrando nada. “Ninguém quer se desfazer de mim”, eu me consolava. Não é bem assim que funciona. Embora o destino do sebo pareça certo abandono, quanto mais um livro vende, mais fácil encontrá-lo revendido. Não à toa, logo comecei a encontrar vários “Mastigando Humanos”, em diversos níveis de conservação – que foi um livro que chegou até a ser leitura de vestibular (hoje em dia seria impensável...). Também encontrei “Feriado de Mim Mesmo”, que foi um livro que vendeu razoavelmente; BIOFOBIA; Pornofantasma; e nada dos dois primeiros (que sempre alguém me pede).

Nesse garimpo, é importante não olhar muito para os lados – porque o intuito é não gastar mais dinheiro do que se pode recuperar. Concentro-me no N, mas sempre encontro velhos amigos, colegas de alfabeto: Pedro Nava (que não cheguei a conhecer), Raduan Nassar; o saudoso e querido Noll; o Eric Novello; e até minha mãe, Elisa Nazarian, que publicou pouco, mas bonito.

Em alguns livros, reconheço meu próprio autógrafo: “Para João, grande leitor, espero que te assombre”, encontrei hoje num BIOFOBIA (não lembro que João seria, mas a assinatura com certeza é minha). Tenho histórias curiosas com autógrafos em sebo, por sinal.
Anos atrás, o grande Evandro Affonso Ferreira, que tinha um sebo em Pinheiros, me ligou porque tinha um presente para mim. Era o meu primeiro livro, “Olívio”, rabiscado e comentado pelo Bernardo Carvalho. Ele escreveu uma crítica bacana no lançamento (acho que na TRIP), mas o livro tinha trechos marcados com “PÉSSIMO!” (e um ou outro com “ÓTIMO”). Estou guardando o livro aqui, para algum dia leiloá-lo como raridade.

Também encontrei décadas atrás, num sebo, uma primeira edição de “Morangos Mofados”, assinada pelo próprio Caio, com coraçõezinhos, para um rapaz com nome incomum. Eu conhecia um homônimo e sondei com ele se ele teria perdido a edição – se fosse uma perda sentida, eu o presentearia de volta -; mas ele não parecia sentir falta. Fiquei com o livro para mim, assinado para ele.

Anos depois, numa palestra no Recife, uma leitora me traz meu primeiro livro para eu autografar. “Achei num sebo, já tem um autógrafo. Mas coloca também meu nome?”, ela pediu. Quando abri o livro, era autografado para quem? EXATAMENTE o mesmo leitor perdido do Caio. Histórica verídica, ainda que sem graça.

Já eu, nunca me desfaço. Tenho algo de acumulador. Não à toa os livros transbordam das prateleiras da minha casa. Alguém precisa alimentar as traças. Só vendo mesmo os meus... por absoluta necessidade.

Então fui colocar os novos-velhos livros à venda nas minhas redes. Tinha alguns lacrados, alguns mais antigos, edições estrangeiras, mas todos em excelente estado, porque os que estavam capengas (ou caros), obviamente não comprei. (Tinha por sinal um “O Prédio, o Tédio e o Menino Cego” que parecia até ter páginas grudadas... Fiquei de certa forma lisonjeado.)

Tinha colocado a lista aqui, abaixo. Mas em poucas horas vendi TODOS pelo Facebook e Instagram. Já são umas migalhas pro meu almoço. Valeu a todos. Volto no próximo garimpo. 





“FERIADO DE MIM MESMO” (2005): Um thriller minimalista em que um solitário tradutor acha que tem seu apartamento invadido. Tenho a primeiríssima edição e a segunda. (R$60).

“MASTIGANDO HUMANOS” (2006): Um improvável romance narrado por um jacaré de esgoto. Meu grande “hit”. Essa é a edição original da Nova Fronteira, com ilustrações. (R$60)

“BIOFOBIA” (2014): Um thriller de um decadente cantor de rock, um emo velho, em conflito com a natureza. R$60.

“PORNOFANTASMA” (2011): Meu único livro de contos. Histórias longas de morte e sexo. (R$60)

“NEVE NEGRA” (2017): Na noite mais fria do ano, na cidade mais fria do Brasil, um pai ausente começa a duvidar da identidade do filho. Pós-terror de criança do capeta. (R$60)

“FÉ NO INFERNO” (2020): Um romance sobre o Genocídio Armênio e os genocídios do Brasil atual. Finalista do Jabuti e do Oceanos. (R$80)

“A MORTE SEM NOME” (2017): A bela edição sérvia (que provavelmente ninguém vai conseguir ler, mas serve para colecionadores). (R$100)

“MASTICANDO UMANI” (2013): A edição italiana. (R$100).

“GERAÇÂO ZERO ZERO” (2011): A antologia organizada por Nelson de Oliveira, que mapeou os escritores surgidos no começo do milênio. Eu participo só com um conto, mas tem muita gente melhor por lá: Galera, del Fuego, Scott, Mutarelli, Stigger e por aí vai. (R$60).





04/03/2022

LEMBRANÇAS DA RÚSSIA (NOTAS SOBRE UM NOVO APOCALIPSE)


Rússia com os filtros de 2011. 

Esse poderia ser outro “notas sobre o apocalipse”, um novo apocalipse que se avizinha, enquanto o anterior nem acabou. Sempre há novas maneiras de morrer (e escrevo isso desde “A Morte Sem Nome”...), oportunidade é o que não falta. Mas tenho lido tanta gente comentando sobre a Rússia, condenando a Rússia, falando sobre a guerra, e eu não tenho nada a falar, porque estou longe de ser especialista. Só tenho lembranças... intensas das duas vezes que estive por lá, há dez anos.


Outubro de 2011. 

Acho a Rússia um país fascinante e assustador, seja na literatura, na música, nos costumes... e nos meninos. Os meninos mais lindos do mundo.

Lembro a segunda vez que cheguei em São Petersburgo, receoso de pegar táxi – porque lá eles te extorquem sem o sorriso do brasileiro – e resolvi ir a pé até o hotel, como eu já conhecia o caminho. Atravessando uma ponte cruzei com um pelotão imenso de soldadinhos, todos lindoooos, todos olhando feio para mim...

Isso é algo que me chamou muito a atenção. Todo mundo te encara na rua. De cara fechada.

As duas vezes eu fui de trem, quando estava morando na Finlândia, que dá pouco mais de três horas. No lado finlandês eu via os bosques, as casinhas, tudo parecendo contos de fadas. Ao atravessar para o lado russo dava com construções destruídas, muros pixados, arame farpado.

O controle de passaporte era dentro do próprio trem – lembro de duas oficiais carrancudas que abriram minhas malas, me revistaram, sem falar uma palavra de inglês; ninguém fala inglês, nem no guichê de informações turísticas da estação. (Me pergunto se não passasse pela imigração – me mandariam de volta no mesmo trem?)

Dezembro sem neve em São Petersburgo. 

São Petersburgo é uma cidade linda (e cara), dá para caminhar bem a pé. Peguei um frio bem razoável, tanto em outubro quanto em dezembro, um pouco acima de zero, o que é sempre imprevisível. Visitei o famoso museu Hermitage – que é incrível, mas um pouco excessivo demais pro meu gosto. E ainda vi um show do Suede, que estava preparando repertório para um disco novo e tocou 7 músicas novas, 5 das quais nunca foram lançadas.

Brett ainda estava com as letras na mão. 

Também conheci a cena gay – dez anos atrás ainda havia cena gay; a lei “antipropaganda” estava prestes a ser aprovada, e dava para encontrar um punhado de bares, saunas e boates gays em São Petersburgo. Uma delas, a Cabaré, era divertidíssima, tinha pista de dança, karaokê, show de drag (com uma versão russa de “Tico-Tico no Fubá”); lembro também da Central Station, com garçonzinhos delícia de cueca e gravata borboleta.  

Era um perigo fotografar nas boates. Um segurança quase confiscou minha máquina. 



Eu sentia como se tivesse viajado no tempo – para uma versão alternativa dos anos 80, numa Rússia capitalista. Todo mundo fumava em todo lugar, a gente pedia uma vodca num restaurante e te traziam uma garrafa inteira... Ah, e comi o estrogonofe. Tinha gosto de... estrogonofe. Isso de que é completamente diferente do daqui é lenda; só não tem arroz e batata palha (me serviram com purê de batata).

Hermitage. 

É triste pensar que um país tão rico culturalmente esteja sendo destruído por seu próprio governante, mas não é o mesmo que está acontecendo aqui? A gente pode culpar o Putin, o Bozo, mas no fim os governantes são reflexo do povo, mesmo governantes que se mantém no poder de maneiras não tão democráticas...

Para Ucrânia nunca fui; adoraria, em outros tempos; conheci Estônia e Armênia, da ex União Soviética; adoro aqueles lados, mas acho cada vez mais difícil viajar, não só pelos conflitos, pela guerra, também pela pandemia, pobreza, desânimo, por tudo isso... O mundo está acabando mesmo, pelo menos para mim.

10/02/2022

NOVOS VENTOS

 


Todos os sábados de março, das 10h às 12h, estarei com um curso online na Balada Literária. Não costumo dar cursos ou oficinas, porque não me sinto apto a ensinar ninguém a escrever, nem gosto de ficar alimentando as ilusões alheias; então, quando o querido Marcelino Freire me convidou, pensei num formato que tratasse disso, em que eu me sentisse mais à vontade.

Não é uma oficina de escrita, serão conversas sobre como funciona o mercado literário, para quem está pensando em publicar ou já está começando a carreira. Falaremos desde o processo da preparação do livro, a busca da editora, publicação, divulgação, vendas de direitos para audiovisual e exterior, prêmios, e todos os processos pelos quais passa um escritor profissional. 

Na bagagem, trago vinte anos de experiência como autor - com doze livros publicados, dezenas de traduções, direitos vendidos para teatro, cinema e exterior; além de todo o conhecimento da experiência de colegas e amigos. A conversa terá minha sinceridade costumeira, dando a realidade, valores e tudo mais. 

O valor do curso em si é R$600, e a inscrição pode ser feita no site da Balada Literária. Corra, que as vagas são limitadas e já estão acabando! (Mentira; na verdade não faço ideia se está acabando ou se ainda ninguém se inscreveu. Quem cuida disso é o pessoal da Balada.)

https://baladaliteraria.com.br/loja/curso-conversas-sobre-o-mercado-literario-escrever-publicar-divulgar-e-sobreviver-com-santiago-nazarian/


Estou saindo (espero) de uma fase muito complicada - que começou quando minha coelha morreu, em novembro. Não bastasse o luto, teve o rombo que o veterinário me deixou, daí teve a frustração dos prêmios que fiquei de finalista e não levei, em dezembro tive cartão clonado, os jobs pararam todos. Entrei numa dívida e numa deprê difíceis de contornar. 

A falta de trabalho mexe não só no lado financeiro, mas muito na autoestima - ficar esmolando trabalho, escrevendo para editor que não responde, cobrando quem te deve. Parece que ninguém te quer, que você (e seu trabalho) não vale nada.

A única coisa que dá para fazer é chorar. Mas chorar quietinho em casa não adianta nada. É uma merda ter que expor nossas penúrias e fraquezas - muita gente só vende sempre a imagem de sucesso -; muita gente também diz que eu só reclamo, mas já aprendi que é só quando reclamo é que as coisas acontecem. 

Muitos amigos nas redes vieram dar força com o costumeiro "vai melhorar" (vai, e vai piorar de novo, talvez bem mais), e alguns realmente me ajudaram me indicando frilas, jobs, o próprio Marcelino que me convidou para esse curso,

O foda é que os amigos das letras são tudo fodido também - então os jobs nunca pagam tão bem, os projetos são sempre de risco; um amigo querido me indicou uma editora para tradução, fiz um teste com eles, fui aprovado, daí me informaram que pagavam DEZ REAIS a página de tradução (a última tradução que fiz, pagava 40). Imagina você passar três meses para traduzir um livro de 400 páginas (um ritmo puxado) e receber 4 mil reais?

(Povo acha que sou de família rica, mas é uma família falida, não tenho renda nem ninguém a quem pedir ajuda.)

Teve também editora amiga que veio com: "Tinha um tradução para te dar, mas acabei passando pra outro." (Falei pra ela: "Tinha um brigadeiro pra te dar. Mas comi.")

Felizmente, surgiram outros trabalhos que já estão pagando; recebi enfim os direitos de uma venda para cinema (que eu estava negociando há aaaaanos) e agora as contas estão sob controle... a cabeça mais ou menos. 

A má notícia é que nessa angústia toda, avancei num livro novo, novo romance (ou mais para uma novela) que, se tudo der certo, sai ano que vem. É um tema espinhoso, arriscado, e um formato totalmente diferente de tudo o que já publiquei. Mas ainda pode ser enquadrado como "existencialismo bizarro" (ou seja, outro fracasso...). 

Tinha também outro infantil para sair - que foi vendido, pago, tinha até já sido preparado, mas a editora mudou de editor e acharam muito violento. Infanto-juvenil tem de ser tudo assim: fofinho e adotável. (Um milagre eu ter conseguido publicar um livro tão cínico como "A Festa do Dragão Morto", pela Melhoramentos). 

Enfim, as coisas voltaram a andar, vamos ver até quando. 


22/01/2022

APOCALIPSE DE MIM MESMO


Hoje em dia gosto muito mais de cozinhar do que de escrever, do que de ler...

 

Mas não tenho a menor vocação para fazer disso uma carreira.

 

Descobri cedo o que era prazer, o que era talento, o que era vocação. Eu tocava teclado numa banda, fazia fotos, escrevia – tudo de mais ou menos para péssimo. Abri mão de tudo para me dedicar a escrita. Não porque tivesse tanto talento, mas porque percebi que era essa minha vocação. Era uma atividade que eu sabia que podia me dedicar – trabalhar sozinho, em casa, criando histórias. Acho que é algo que muita gente quer (bom, como sou escritor, parece que ao meu redor existe APENAS gente que quer isso). E todo mundo tem o “talento inicial” – no caso, a alfabetização, porque existem outras artes-áreas com requisitos mais técnicos. Mas a vocação do escritor sempre me pareceu ser essa, de gostar de ficar sozinho, trabalhar sozinho, sem troca, e ainda assim conseguir cumprir prazos, ser criativo, ser produtivo. Muita gente diz que ficaria procrastinando...

 

Eu nunca tive uma crise criativa. Nunca furei um prazo de entrega – de livro, de tradução, de matéria, de roteiro. Sou obsessivo, eu entrego. E sinto sempre que tenho MENOS trabalho do que poderia. Atualmente, tenho bem menos trabalho do que preciso para sobreviver...

 

A gente vai criando uma carreira e acha que vai ser sempre uma crescente. Eu há muito acho que dou um passo para frente, dois para trás. Com 12 livros, quase uma centena de traduções, o blog de literatura há mais tempo em atividade no país (18 anos) - pelo qual nunca recebi um centavo – me sinto na pior fase profissional e financeira da vida. E não dá para culpar nem o presidente e a covid. A literatura deveria estar surfando na pandemia...

 

(Eu até que surfei, até o segundo semestre do ano passado. Depois, tudo desabou...)

 

Nessas horas, penso que entendi tudo errado. Porque nenhuma carreira é vocação para os solitários. Mesmo na escrita, as coisas só acontecem para os bem relacionados, gregários, que prefeririam estar formando uma banda de rock. Ninguém faz sucesso sozinho.

 

Mas a gente tem que descobrir tudo isso mesmo na marra, no murro. Não tem ninguém para perguntar, ninguém para dar conselhos, é um mercado em que rola pouca grana, então é muito pouco profissional. Em toda minha carreira, nem editor, nem agente, nunca consegui sentar para conversar, entender: o que estou fazendo de certo? O que estou fazendo de errado?

 

Hoje me autodiagnostico com dois erros principais. 1) Sempre preferi trabalhar sozinho, então nunca formei uma turma, nunca busquei trabalho em equipe. 2) Sempre busquei o diferente, então sempre evito os assuntos do momento; só comento se tem algo de diferente para acrescentar (o que gera a pecha de “polêmico”).

 

São erros... ou traços de que não me arrependo. Porque é o que sou e não poderia ter feito diferente. Sempre fiz o que acredito. Eu precisava encontrar outro caminho...

 

Agora me encontro no meio do Atlântico, sem pouso à vista. Voltar ao aeroporto de origem leva mais tempo do que chegar ao destino final. Mas me encontro sem combustível...

 

O que a gente faz, sem arrependimentos e sem conquistas? Sem rumo e sem perspectivas?

 

Também queria ter sido um escritor mais discreto, daqueles que não expõem tanto de si. Tipo agora. Bem, nos livros eu consigo... Mas ainda sou daqueles que tenta resolver tudo pela escrita. E que não tem nada a perder.

19/01/2022

REFLEXÕES DE ANO NOVO

 

Você pode ser bom no que faz, pode fazer por muito tempo, mas nada garante que vá ter sucesso.

 

As pessoas te admiram não pelo que você faz, mas pelo que você conquista.

 

Ser bem-relacionado é mais importante do que ser profissional, competente ou talentoso.

 

Quem faz diferente não faz diferença.

 

Trabalhe com o que você ama, que você passará a odiar.

13/12/2021

OUTRO ANO QUE NÃO ACONTECEU


Os passeios possíveis em 2021...

Se 2020 não tinha sido tão ruim para mim, 2021 fodeu de vez...

Já começou zoado - passei a virada aqui em casa, com um menino (que hoje é menina) louco de pó; eu mesmo não cheirava havia uns dez anos (e depois daquela virada posso ficar mais uns dez anos sem); então no começo de janeiro tive de mandá-lo de volta ao sul, ou eu acabava morto.

Em janeiro também passei uma semana com minha irmã internada no hospital, com um problema grave no pâncreas. Foi um ano de saúde ameaçada para toda minha família, minha irmã, minha mãe, eu...

Primeira dose.

Além da velhice progressiva, a cegueira, tive covid logo após tomar a primeira dose. Até que foi suave, só febre fraca e tosse, não cheguei a ser hospitalizado. Mas fiquei três semanas trancado sozinho em casa e já tava pronto para morrer...

Quem acabou indo mesmo foi a Gaia, minha amada coelhinha de seis anos. Ela estava normal até mês passado, mas de um dia para o outro parou de comer e mandei fazer exames. Gastei os tubos, paguei uma operação no útero, mas ela não resistiu. Morreu no começo de novembro e deixou uma solidão imensa neste apartamento.

Com ela ainda mês passado...

O ano não foi de total solidão porque comecei um novo namoro, com um menino bem bacana, o Nicklauz. Coisa de Tinder, que já dura 9 meses. Foi mesmo a melhor coisa do ano.

Passei meu aniversário com ele, numa pousada lindinha em Juquehy, litoral norte de SP. E foi a ÚNICA viagem do ano (tirando as viagens pra casa da minha mãe, no interior).  


Na pousada Tupinambá. 

Como não viajei nada, não saí nada, costumava aproveitar os fins de semana para pedir bons deliveries. Virou uma tradição de sexta postar a dica de um bom restaurante. Mas nem isso pude manter. 


Acho que o melhor delivery do ano foi o cordeiro com aligot do Sal Gastronomia. 

Se o trabalho tinha sido ok durante a pandemia, até o primeiro semestre, no segundo tudo estacionou e minhas economias foram se esvaindo. A veterinária levou uma parte, um calote levou outra, também tive cartão clonado. Termino o ano totalmente quebrado.

De novidade, teve a final dos prêmios - Jabuti, Oceanos, e o segundo lugar no Machado de Assis da Biblioteca Nacional - mas isso gerou mais ansiedade e frustração do que qualquer coisa. Já falei muito sobre isso. 

Agora não tenho mais plano nenhum, nem pra virada, nem pro ano novo, pra nada. Não tenho vontades, não tenho sonhos, não tenho nada a esperar. Ano passado não morri, mas quem sabe este ano ainda eu não morro?

09/12/2021

MEGA SPOILER

 

Começa assim. 


A Editora me pediu uma sinopse/argumento do livro todo, para o material de divulgação lá fora. Achei que valia colocar aqui também, para quem não vai ler, para quem já leu, para quem não se importa com mega spoilers (porque a história toda do livro taí, a grosso modo.) Serve também para estudo do vestibular... se o livro fosse cair no vestibular. Segue: 


FÉ NO INFERNO – Argumento completo

 

Cláudio é um jovem cuidador de idosos, homossexual, de ascendência indígena, passado traumático e passagem pela polícia. Ele é entrevistado por Dona Beatriz, uma senhora de idade, numa mansão nos Jardins, região nobre de São Paulo, Brasil. Ela precisa de alguém para fazer companhia para seu tio-avô, seu Domingos, um armênio de mais de 90 anos, ainda razoavelmente lúcido e independente, mas que, pela idade, inspira cuidados.

Cláudio começa a trabalhar na casa, em jornadas que às vezes passam de 24 horas seguidas, mas não tem muito o que fazer, já que o velho se locomove sozinho e passa a maior parte do tempo lendo e escrevendo. Cláudio aproveita o tempo para jogar um videogame portátil.

Um dia seu Domingos sugere a Cláudio que ele leia um livro, o que o jovem reluta um pouco. Acaba pegando um volume da biblioteca encadernada da casa, que conta a história de um menino armênio anônimo, de oito anos, fugindo da perseguição dos turcos durante a Primeira Guerra Mundial.

O romance dentro do romance começa com a vila do menino sendo incendiada. Ele marcha com seu irmão e outras mulheres e crianças, sendo conduzido por soldados turcos, para um destino incerto. No caminho, são atacados por bárbaros curdos (tchétes), a maior parte da caravana é morta e o menino e seu irmão fogem pelas montanhas.

Encontram abrigo na casa de um cego, que toma o irmão mais velho como servo. O menino menor permanece por perto, sem ser visto, se alimentando das sobras do irmão, dormindo com uma cabra num coberto fora da casa. Um dia ele se farta disso e decide seguir sozinho. Encontra alguns personagens pelo caminho – um garoto ruivo que parece alheio à guerra - é perseguido por turcos e curdos, e às vezes até mesmo é morto, mas continua vivo para seguir em frente.

Cláudio acompanha essa história enquanto pensa em sua própria vida como cidadão de segunda classe num Brasil preconceituoso, às vésperas da eleição de Jair Bolsonaro, de extrema direita. Ao deixar a mansão de seu Domingos nos Jardins, ele é parado pela polícia, simplesmente por ser “pardo e com cara de pobre.” Cláudio e seu namorado também sofrem ataques homofóbicos num bairro boêmio de São Paulo. Parece que Cláudio só encontra conforto quando trabalha com seu Domingos, que o trata como um filho.

Entretanto a saúde do velho vai deteriorando progressivamente. Ele começa a usar fraldas, tem lapsos de memória, até sua mobilidade piora. Dona Beatriz, sobrinha-neta de Domingos, começa a desconfiar de Cláudio.

Avançando na narrativa histórica, o menino armênio encontra abrigo na casa de uma viúva turca, que é coabitada por dezenas de crianças órfãs e comandada por Armin, um garoto andrógino que desperta os primeiros sentimentos sexuais no menino – que já avança para a pré-adolescência. Certa noite, ao avistar Armin se banhando escondido num lago, o menino percebe que Armin é na verdade uma garota, que se veste de homem para sobreviver em tempos de guerra. A partir daí, sua convivência na casa se torna tensa, e ele decide novamente seguir em viagem.  

Arruma emprego como pastor de ovelhas para um senhor curdo, mas é castigado severamente quando algumas ovelhas se perdem. As três esposas do senhor se alternam cuidando dele, à beira da morte. Ele se recupera apenas para ser castigado novamente, quando uma das mulheres se engraça com ele.

Fugindo novamente pelas montanhas, a fronteira entre vida e morte, realidade e fantasia já é bem mais tênue. Ele vê uma procissão de armênios mortos seguindo pela estrada; conversa com animais selvagens, lobos e raposas que querem seduzi-lo e se alimentar dele; encontra uma senhora turca moribunda que tenta sugar seu sangue.

Exausto, com fome, perseguido por todos, o menino acaba num hospital. Lá recebe a visita do garoto ruivo, que o questiona sobre seu estado. Lá ele também reencontra seu irmão, que arrumou um novo senhor turco e o leva para trabalhar com ele, mas enfatiza que ele precisa se converter ao islamismo. O menino reluta, e teme ter de fugir mais uma vez.

Surgem então notícias de que a guerra acabou, assim como a perseguição aos armênios. Sobreviventes de todos os cantos saem de seus esconderijos e se reúnem numa igreja cristã ortodoxa. Mas era apenas uma armadilha. Soldados turcos trancam todos lá dentro e incendeiam o local. Para o menino, é apenas mais uma forma de morrer.

Nos tempos de hoje, seu Domingos sobre um AVC e Cláudio é dispensado por dona Beatriz. Ela investiga o passado dele e descobre que ele matou o próprio irmão mais velho, quando tinha dezesseis anos de idade. Desde os oito, Cláudio era abusado física e sexualmente, até que não suportou mais e esfaqueou o irmão na frente da mãe. Ele foi mandado para uma instituição para menores infratores (Fundação Casa), e lá que começou sua carreira de cuidador de idosos, num programa que aproximava os jovens internos de velhos abandonados.

Agora, Cláudio é visto com desconfiança por dona Beatriz, que o culpa pela deterioração no estado de saúde de seu Domingos. Ela não quer mais que ele se aproxime do velho. Cláudio deixa o emprego, mas fica com o livro, como uma última lembrança. Suspeitando que seja um relato ficcional da própria vida de seu Domingos, ele deixa de ler os últimos capítulos, não querendo que a história acabe.

Passam-se dois anos, Cláudio consegue entrar na faculdade de Antropologia, ainda trabalha como cuidador de um menino autista, mas se prepara para deixar esse serviço. Não teve mais notícias de seu Domingos e teve medo de ligar, pelas ameaças de dona Beatriz. Até que recebe uma ligação do velho, que quer vê-lo numa manhã de sábado.

Cláudio volta à casa dos Jardins e encontra seu Domingos razoavelmente saudável – um milagre para um senhor na casa dos 100 anos de idade. Dona Beatriz morreu antes, e agora seu Domingos quer contratar de volta os serviços de Cláudio. Cláudio lamenta, diz estar com seu último paciente, começando uma formação de antropólogo. Domingos fica feliz por seu jovem amigo.

Cláudio o questiona sobre o livro - se é a história de um irmão mais velho de seu Domingos, o quanto a história pode ser verídica; eles discutem sobre as possibilidades de retratar uma tragédia como aquela, como manter a memória de sobreviventes, e o poder da literatura e da ficção em representar e sublimar fatos históricos.

Domingos então pergunta o que Cláudio achou do livro como um todo, da conclusão. Envergonhado, Cláudio admite que não leu até o fim, tinha medo de que, quando terminasse, seu Domingos “deixasse de existir.” Seu Domingos acha aquilo uma bobagem e pede para que Cláudio leia o último capítulo.

Nele, o menino se encontra perdido entre campos e montanhas, com um incêndio destruindo tudo, como se estivesse de fato no Inferno. A salvação lhe surge ao longe, ao avistar o monte Ararat, montanha símbolo do povo armênio, além da qual fica a Armênia russa, livre da perseguição dos turcos.

Quando se prepara para seguir para lá, é abordado pelo misterioso garoto ruivo, com quem cruzou algumas vezes em sua jornada. O garoto pede para que ele permaneça com ele, e lhe oferece uma fruta fresca e rara. O menino percebe então quem a figura realmente é, e o ataca com fogo, revelando estar diante do próprio Diabo.

O menino armênio deixa o Diabo Ruivo entre o fogo e segue em direção ao Ararat. Mas, ao olhar para trás, não vê uma expressão de ódio nem de derrota. Com quase um milhão e meio de armênios mortos, o Diabo está satisfeito.  

(Fé no Inferno, de Santiago Nazarian, Companhia das Letras, 2020, 376 páginas.)



08/12/2021

OS PRÊMIOS (QUE NÃO GANHEI)



Não tenho mais Fé...


Passada a temporada dos prêmios, fica a lição: nunca tenha esperança.


Não, não é bem isso. Foi uma experiência nova para mim - e é sempre bacana ter experiências novas numa carreira que já chega a vinte anos. Com doze livros publicados, foi a primeira vez que fui finalista do Jabuti, do Oceanos (Prêmio SP ainda nunca), e levei segundo no Machado de Assis, da Biblioteca Nacional. Não é pouca coisa, mas não foi o bastante. (O que eu precisava mesmo era de um premiozinho em grana, para me tirar do sufoco. Estou muito, muito, MUITO quebrado.) 

Vejo a postura blasé - normalmente de quem já foi finalista, de quem já ganhou - de que os prêmios não significam tanto, que o importante é ser lido, blábláblá, mas os prêmios ajudam a ser lido, o livro a repercutir. Mesmo que seja só para a "classe", como dizem alguns, é a classe que vai te chamar para eventos, debates, para trabalhos que pagam as contas - e "a classe" se pauta muito pela lista de nomes. (Não só ela, minha irmã mesmo, que é do meio teatral, disse que costumava pautar suas leituras pela lista de finalistas do Prêmio SP.) 

Tem tanto escritor que escreve UM livro, ganha UM prêmio importante e passa a vida vivendo disso, sendo reconhecido pelos pares. Eu lancei uma dúzia e ainda estou camelando, ainda visto com desconfiança. Talvez eu não devesse escrever tanto...

Tenho uma carreira bem estranha, como tudo em minha vida. Tive um hype muito cedo, mas que nunca se refletiu em vendas, nem em prêmios, nem em respeito. Construí um nome que está longe de ser unanimidade, e tenho uma base forte de haters - mesmo nunca fazendo nenhuma grande merda... acho. Sempre cumpri prazos, sempre fui profissional, sempre fui gente boa e dei força para os colegas, mas até hoje é difícil me chamarem para trabalhos, eventos, orgias... 

"Fé no Inferno" foi um livro muito pouco lido, repercutiu pouco, foi pouquíssimo resenhado... e a gente se pergunta por quê. Com meu histórico de tantos "semi-fracassos", é inevitável eu questionar a qualidade da minha própria escrita. Eu mesmo não tenho como avaliar (e se quem é pago para isso não está avaliando positivamente...)

Sei que há muito o "perfil de livro premiável", que trate de questões relevantes do momento, que esteja inserido num contexto, e eu raramente escrevo coisas assim. Então não é surpreendente ter entrado agora nos finalistas, e menos ainda um livro como o do Jeferson Tenório ter ganho o Jabuti. 


Torcida, só de mãe.


(Eu até comentei brincando que, se eu ganhasse, as manchetes nos jornais seriam "Jeferson Tenório não ganha o Jabuti". Nas matérias dos finalistas, ele era sempre o destaque, meu nome mal aparecia...) 

O livro do Tenório não vai se beneficiar tanto, porque é um livro que já aconteceu, já vendeu horrores, já repercutiu, já foi lançado lá fora. Nesse sentido o Prêmio SP (para Morgana Kretzman e Edimilson de Almeida Pereira, que também levou segundo no Oceanos) e o primeiro lugar do Machado de Assis (para Marcelo Labes), todos autores pouco badalados, de editoras pequenas, cumpre mais uma função de revelar obras (do que premiar obras consagradas do ano).

Existe toda essa bandeira de premiar mulheres, negros, LGBTQ (bem, aí nem tanto) e editoras pequenas, mas acho que a questão daí não passa tanto por cotas e sim por esses grupos tratarem das questões mais em pauta atualmente, questões que historicamente ficaram à margem. 

Foi isso o que tentei fazer com o lugar de fala que me cabe - como gay, armênio e brasileiro. E foi um livro de quase 400 páginas, que exigiu um trabalho gigante de pesquisa. Agora, depois disso, não sei muito mais o que dizer, o que escrever, o que tenho de relevante para acrescentar... 

Sempre escrevi principalmente porque me dá prazer. Mas o prazer vai sendo minado pelos resultados (ou falta de resultados). Principalmente porque para continuar tendo tempo para escrever, para conseguir continuar publicando, e pagando as contas, eu preciso pensar em algo relevante para me dedicar. A impressão é que nunca sou bom o bastante. 

É muito por isso que nunca dou oficinas literárias. Primeiro que não me considero uma autoridade, segundo que acho que é alimentar sonhos terríveis no outro - eu não recomendo a ninguém ser escritor. 



Resta dizer que a posição de estar em "editora grande" é discutível. Sem dúvida a grife da Companhia das Letras gera uma atenção maior ao título, mas os lançamentos da casa não recebem todos o mesmo tratamento. Meu livro saiu em plena pandemia, não foi mandado a nenhum jornalista, não teve noite de autógrafos, eu mesmo tive de comprar e vender pelas minhas redes sociais, porque as livrarias estavam fechadas (e o livro saiu caaaaaro). Acho que a editora poderia ter trabalhado mais o livro depois com a reabertura... (Mas daí estavam lançando o livro do Jeferson, do Laub...). Eu fiz tudo o que podia, como um autor independente. 

A presença do livro nas finais dos prêmios fortaleceu um pouco meu laço com a Editora - que agora vai tentar publicações lá fora; uma segunda edição também está saindo. Mesmo assim, acho que foi uma obra desperdiçada... Não vejo muito mais o que pode alcançar, um ano e meio depois do lançamento.  

De resto, fica aquela merda que falei para a Tatiana Salem Levy, meio na brincadeira... mas não muito: agora não posso dizer nem que sou totalmente ignorado, nem que sou premiado. É mesmo uma maldição. 


Só me resta rir...


06/11/2021

GAIA



Perdemos a Gaia. Minha coelhinha de 6 anos morreu ontem de noite, depois de uma cirurgia.

Até quarta ela estava completamente normal (ou aparentemente normal). Na quinta não estava comendo. Notei um inchaço nas tetinhas. Levei ao veterinário.

Esqueleto fresco. 

Fizemos exame de sangue, raio-X, ultrassom, constatou uma infecção no útero. Deixei ontem (sexta) no veterinário para operar. Ela teve paradas respiratórias. Não voltou da anestesia. Perto da meia noite me ligaram para avisar.

Querendo colo...


Coelho é um bicho frágil – antes dela tive a Asda, comprada em petshop, que veio com diversos problemas, estava sempre doente, e morreu com um ano e meio. A Gaia eu peguei da cria de uma menina que estava doando (Victoria Gaia, uma adolescente lindinha, na época prestando vestibular para veterinária; tirei o nome da minha coelha daí). Em 6 anos nunca teve problema nenhum. (A expectativa de vida é de 8 a 10 anos...)

Ratinha, pouco depois de chegar aqui. 

Era um animal extremamente carinhoso, carente, destruía a casa, roía os fios, rasgava o sofá, estava sempre pedindo carinho (e petiscos), sempre dando lambidas; limpinha, não fazia um cocozinho fora da bandeja (como gato). Viveu a maior parte da vida aqui no apartamento comigo. Mas teve um ano feliz em Maresias (quando eu era casado com o ex-cozinheiro). Tinha um jardim enorme para correr, cavar, fazia tocas imensaaaas e desaparecia dentro. Eu tinha um pouco de medo, que era uma região de mata atlântica, com cobras, sarauês, aves de rapina. Mas ela viveu feliz por lá. Aqui no apartamento, ela tinha uma vida mais limitada, porém mais segura, e vivia solta comigo. Apesar de ser já "idosa", era extremamente ativa e arteira. 

Cavando tocas no litoral norte. 


Fez toda a diferença nesses 6 anos. Foi a alegria do meu dia-a-dia. Um motivo para levantar toda manhã; durante a pandemia, trancado aqui sozinho, se não fosse por ela não sei se teria aguentado...


Na bandejinha. 

Agora estou com o Klauz, meu namorado há 8 meses, que também se apaixonou por ela, e tem sido meu conforto nesse momento de luto. Bicho de estimação morre mesmo, quando não é o nosso a gente não acha grande coisa, mas quem tem sabe como é, a dor que é, a falta que faz. Minha rotina toda está alterada, não tenho mais o ritual de acordar para dar comida; vai demorar para acostumar que não preciso fechar a porta do quarto para ela não destruir minha cama...

 

Geralmente só deixava ela na cama mesmo para tirar foto, porque ela rasgou lençóis novinhos. 

Os procedimentos foram todos feitos pela Exoticare – clínica especializada em silvestres e exóticos, no Sumaré. Acho que fizeram o melhor possível, o que era possível, não havia mais o que fazer. Os exames e procedimento todos me foderam financeiramente, num momento difícil em que o trabalho está lento, recebi calotes, e TUDO resolveu dar defeito (de coelha a Macbook). Mas agora é tentar correr atrás do rombo financeiro, sabe-se lá o que vou fazer, porque no coração só com o tempo...

Para quem quiser saber mais sobre o que é ter um coelho de pet, escrevi algumas vezes aqui no blog. Acho que tem muito do que ainda penso – com exceção da castração, que é arriscada em fêmeas, mas sinto que é fundamental. Deixo um link do ano passado: 

https://santiagonazarian.blogspot.com/2020/02/como-criar-um-coelho.html


(No meu instagram tem uma pasta de "Stories" com fotos e vídeos. Quem quiser, segue lá: @nazarians)

Nossa última foto juntos, há quinze dias. 

03/11/2021

NOTAS PÓS-APOCALÍPTICAS

Meu deus, as pessoas estão voltando à vida...


600 mil mortes depois, entrei no shopping sem nem medirem minha temperatura. Como se eu não tivesse mais chances de morrer. Como se eu não tivesse mais chances de matar. Mas eu não tinha mais dinheiro para comprar nada...

Me lembra aquela canção do Assis Valente (ou um esquete do Porta dos Fundos). Investi no apocalipse e agora não tenho mais o que vestir.

O apocalipse só tinha igualado as realidades, para mim: todo mundo bonzinho, trancadinho, trabalhando em casa, fazendo tudo por delivery, pelas redes sociais. A vida como uma ideia virtual. Agora a vida volta a ser presencial; vejo os amigos se encontrando, viajando, os eventos literários... A vida como uma festa a qual eu não fui convidado...

Não é que eu não tinha planos pós-apocalipse, para o futuro, o ano que vem... É que não tinha expectativas, desejos, nem sonhos. O que faço agora que a gente tem de tirar a máscara? Não tenho vocação para sorrir.

Fui ao shopping não para comprar roupa nova, na verdade. Fui reativar meu celular. Uso tão pouco – a vida toda – que tinha perdido meu número. Ninguém NUNCA me liga. Até porque mantenho em modo avião. Permanente. Não recebo notificações. O atendente perguntou meu número e eu não tinha certeza.

“Não tem um nove a mais?”

“Pera, onde vê?”

(Se nesse tempo você recebeu mensagens minhas pedindo dinheiro, desconsidere. Mande por pix para o meu email: santiagonazarian(arroba)gmail.com)

Mas quem usa celular nessa vida em que não saímos, não saíamos de casa? Trabalho na frente do computador. Troco mensagens por email, Messenger, instagram... até Whatsapp, quando inevitável. (Mas Whatsapp checo uma vez a cada dois dias... Não, meu celular nunca recebe notificações).

“Que bonitinho, você troca e-mails com sua mãe?” Me perguntou esses dias meu namorado.

Sim, com minha mãe eu SÓ troco e-mails, porque ela não mora em São Paulo, não tem celular, nunca teve (eu já dei, ela repassou – detesta, e o sinal na casa dela é péssimo; e eu mesmo já fiquei tantos períodos sem celular...) e tenho fobia de fixo, esse zumbido invasivo. (Tenho um fixo, também, mas deixo fora da tomada.)

Isso não quer dizer que eu esteja desligado do mundo, veja só... Isso está longe de dizer que estou desconectado e “é por isso que você ainda não alcançou o sucesso, a felicidade, a fortuna, o Prêmio São Paulo.” JAMAIS furei um prazo. Eu trabalho o dia inteiro conectado (na frente de um PC de mesa). Também tenho um Macbook (prestes a falecer). E tenho um celular... Sou antenado acompanho a dancinha dos meninos bonitos seminus no Tik-tok, pelamordedeus!

O problema é a vida lá fora...


O professor Thomas Schmidt ao ser entrevistado pela Globonews sobre os maiores desafios nessa realidade pós-pandemia, colocou: “Uma única morte nunca terá o mesmo peso de antes; e uma simples tosse nunca mais será vista como inocente.”  Isso, obviamente, é frase minha.

FLIRECÊ

Mais que colegas, friends.  Ainda tô chapado. A luz da Bahia é ofuscante – cegou meus olhos, queimou minha pele, transformou minha paulistan...