26/10/2023

O AUTOR NADA SABE



Ontem fui jantar com amigos professores, acadêmicos, aniversário de um amigo querido que fez mestrado na minha obra.

Depois das azeitonas, começaram a conversar sobre um conto meu. Havia sido trabalhado em sala de aula. Me falaram da reação dos alunos, das discussões, da indignação...

Uma das professoras não conhecia o conto, e o mestre em Nazarian foi narrando suas impressões, fez sua análise.

"Não sou capaz de opinar", fiz a Glória Pires. Não só porque eu era o autor, incapaz de enxergar minha própria obra, a meleca debaixo do meu nariz, mas porque eu mal me lembrava dos detalhes do conto. Lembro pouco do que eu mesmo escrevi (menos ainda do que eu já li); quando tenho de dar uma entrevista sobre um livro antigo, me lembro mais do que eu já falei sobre o livro do que de fato o que eu escrevi.

Mas a conversa, a discussão, me demonstrou como nós (autores) não temos noção aonde chegam nossos textos. Sempre falo isso: livro não tem aplauso. A gente não sabe como o livro ecoa nos leitores, onde eles riem, o que eles acham uma merda.

A experiência mais próxima que tive disso foi uma vez que lemos BIOFOBIA inteiro em voz alta - eu, Beto Brant, Marçal Aquino e Renato Ciasca, na época em que estávamos trabalhando na adaptação para cinema (que nunca foi filmada). Lá eu tive a experiência única de ver um público rindo de determinada frase no livro, às vezes apontando: "isso é ótimo", às vezes deixando de apontar inconsistências...

Aconteceu de forma parecida quando o Evandro Affonso Ferreira, que tinha um sebo, me presentou com meu próprio primeiro livro - Olívio - numa cópia que tinha sido lida pelo Bernardo Carvalho - toda anotada por ele. Tinha passagens marcadas com "lindo" outras com "péssimo" (e não sei por que o Bernardo acabou se desfazendo do livro, parece que ele faz isso sempre; de todo modo, ele fez uma bela resenha na Trip).

Então é essa sensação que eu procuro dar ao autor quando faço uma leitura crítica. Sublinho frases e coloco o "péssimo", o "cafona", mas também o "adorei". Sei bem como a gente, como autor, carece de público...

Voltando à mesa de ontem, me admirei em saber da repercussão do conto. Pra mim, não havia tido repercussão nenhuma... e era um conto pesado... sobre pedofilia... publicado no excelente jornal literário Cândido, há uns bons anos. (Será que seria publicado hoje em dia? Sempre lamento o quanto retrocedemos, o quanto encaretamos, o quanto os tabus se reimpuseram.) Fiquei surpreso quando o jornal decidiu publicar. Achei que podia dar merda. Achei que não tinha dado nada. Sempre acho que não deu em nada. O autor nada sabe.

(Reli o conto hoje e me lembrei. Ainda gosto. Pode ser lido na íntegra aqui: https://www.bpp.pr.gov.br/Candido/Pagina/Conto-Santiago-Nazarian )

14/10/2023

VISÃO CRÍTICA



Mais uma leitura crítica/parecer entregue.

Livro ÓTIMO.

Quando o livro é bom, é sempre mais difícil. Não tenho tanto o que dizer, não sei se estou à altura (mas a leitura crítica também é sobre isso, como o livro pode ser percebido por um leitor médio).

Paradoxalmente, este foi dos anos que mais li na vida. Só como jurado do Prêmio Sesc e Prêmio Oceanos, foram mais de DUZENTOS livros! (Claro, tem alguns que você lê as primeiras páginas e percebe que não tem a menor condição de indicar para a próxima fase. 
Mas, quando a leitura é parte do seu trabalho, você está recebendo para isso, você consegue dedicar muito mais tempo, porque não fica restrito aos momentos de lazer. Seu dia inteiro de trabalho é para isso.) Também fiz muita leitura crítica e teve vários, vários lançamento de amigos (que eu li "de graça", ou quase, na esperança de também ser lido...).

(Assim, acabei lendo praticamente só literatura brasileira contemporânea. Preciso voltar a ler mais em inglês, francês, espanhol...)

E digo "paradoxalmente" porque, no ano em que mais li, minha vista tá cada vez pior. AINDA estou adiando os óculos, nunca usei. Na tela do computador, os docs e pdfs, consigo ler/escrever perfeitamente. Em livro, já tá bem mais difícil. (Tenho aproveitado a luminosidade do Parque Augusta, assim já me brozeio, biscoiteio, contraio um câncer de pele. Com luz do sol consigo ler tranquilamente sem óculos - já de noite, na cama....)

(Mas é a ausência de óculos que me faz acreditar que ainda sou belo!)

De todas essas leituras, arrisco dar algumas tendências da literatura brasileira contemporânea:

- Volta forte do regionalismo
- Influência "torto-aradense"
- Flerte com o teatro
- Pauta identitária homossexual

(Acho que só vou ceder de vez aos óculos quando resolver ressuscitar meu Nintendo DS.)

21/09/2023

TRADUTORES TRAÍDOS


Já estamos nessa realidade: inteligência artificial traduzindo, tradutores só revisando.

Há alguns meses, uma amiga me indicou para uma empresa que trabalha assim, com literatura comercial. (Pois é, quando eu coloco aqui perrengues que estou de grana e/ou trabalho, muita gente vem só com conselhinhos de “vai fazer concurso público”, meio comemorando internamente: “não consigo viver de literatura, mas ele também não!”, mas tem gente que de fato me indica para trabalhos que me salvam o mês, o ano, a vida.) Essa amiga me indicou, eu passei por um processo seletivo, fiz testes, fui aprovado e agora reviso traduções feitas por Terminators.
 
Paga menos do que tradução em si, claro, mas também é um trabalho bem mais fácil e rápido. Tem sido um fixozinho razoável por mês (vamos ver até quando, com os artifícios cada vez mais inteligentes). Outros trabalhos também têm rolado - leitura crítica, ghostwriting... É triste ver para onde está indo a tradução – um trabalho que faço há mais de 20 anos -, mas não adianta fazer a Sarah Connor (nem a Sinéad...), é preciso se adaptar...

Como tradutor, os trabalhos que têm mais surgido para mim são versões para o inglês, porque isso, mesmo que seja jogado num Google Tradutor, precisa de alguém realmente especializado (ou nativo) no inglês para revisar o resultado final. E eu tenho feito muito trabalho que exige adaptação, livros infantojuvenis, com rimas, trocadilhos, precisa ter algo de escritor. É gostoso de fazer, dá para cobrar mais do que tradução para o português, mas, em geral, o volume de texto é bem menor (e também levo mais tempo).

A tradução para o inglês eu faço há menos tempo, mas agora também já tem lá uns dez anos. Fui começando aos poucos, meus próprios livros, algumas samples (fiz inclusive todo o “Bom Dia Verônica”, do Raphael Montes e da Ilana Casoy) e tem sido bacana ver as publicações saindo com meu nome lá fora. (Vamos ver o que acontece com o Veado...). É todo esse histórico, esse currículo, e esses momentos de bons ventos que me fazem continuar acreditando que dá para viver de literatura (de alguma forma); até outra massa de ar seco chegar...

(Aproveitando, acabou de sair também pela Todavia a tradução – para o português – que fiz do “Deslumbramento”, do Richard Powers. Faz jus ao título, no bom sentido.)

19/08/2023

COMO FAZER UM LANÇAMENTO DE SUCESSO!


Segundo semestre é um Inferno de lançamentos.

Eu tento, sempre tento fazer no primeiro. Insisto com a editora. Mas mesmo com o livro entregue um ano e meio antes, parece que fica sempre pro segundo tempo...

(Daí a gente faz lançamento no começo de agosto e ninguém da Editora consegue ir porque tem Flipelobrasiltodo.)

Eu mesmo tenho tentado acompanhar, prestigiar, divulgar e comparecer aos lançamentos de amigos-colegas, gente de quem eu gosto. Tá difícil.

Mas tenho um ódio mortal quando vejo aquela fila imensa com gente dizendo: “Ai, não consegui ir no seu, mas vou ler...”

Tenho intimado: “Então compra!” Estamos numa livraria afinal, meu livro exposto. “Vai lá comprar que guardo seu lugar aqui na fila.” O povo nunca compra.. (“Não posso estalar os dedos e fazer as pessoas gostarem de mim.” – digo parafraseando meu Veado, que tava parafraseando o Thanos dos Vingadores, para quem não pegou).

Hoje encontrei o Mansur Bassit no supermercado. Ele veio com aquela: “Ai, não consegui ir... Mas vou ler.”

“Então compra! Tá vendendo aqui!” (Não resisti.)

“Teu livro tá vendendo no supermercado?”

“Não... Mas me compra um quilo de arroz, pra compensar...”

Ele riu constrangido, tentando fugir. A classe média paulistana pressionando a fila para comprar sua linguiça Seara Gourmet...

Deixo então aqui as dicas para quem está lançando livro. Tenho experiência. Tenho experiência em fracassos. Aprendam com o tio:

- Lancem no PRIMEIRO SEMESTRE. Segundo semestre é um Inferno de lançamentos, eventos. Pós-carnaval geralmente não tem NADA (mas parece que as editoras ainda não entenderam isso).

- PAREM COM ESSA HISTÓRIA DE LEITURA, bate-papo em lançamento. Eu sei, eu mesmo QUASE fiz, mas me toquei depois que fui no lançamento badalado, lotado, divertido do Joca Reiners Terron. Todo mundo bebendo, conversando, uma fila enorme para ele autografar. Daí: “Vamos desfazer a fila, fazer silêncio, ficar bonzinho que o autor vai ler por uma hora.” Em lançamento o povo quer passar, pegar o livro e ir embora. Ou então conversar com os amigos-colegas-pares. O livro a gente lê em casa.

- Se querem que o povo fique, ofereçam bebida.

- Tentem fazer dedicatórias personalizadas, que digam respeito à pessoa que está levando o livro, não a você ou ao seu livro. (Nem sempre eu consigo...) Assim a pessoa se sente mais valorizada por ter ido.

- E COMPAREÇAM aos lançamentos dos colegas-amigos-queridos, para depois poderem reclamar se não forem no seu.

(O meu foi bacaninha, sim, os amigos fizeram a diferença, mas poderia ter sido melhor; sempre poderia ser melhor...)

13/08/2023

HOJE EU TÔ FELIZ, MATEI O PRESIDENTE

Foto por Ambooleg

Valeu meeeeesmo a todo mundo que foi no lançamento ontem, no Hitch. Acho que a ideia deu super certo, fazer num bar gostosinho, que o pessoal pudesse ficar, beber, sentar, conversar (e comprar o livro).  João e todo o pessoal do Hitch (e da Dois Pontos) foram super acolhedores; acho que o povo se sentiu em casa. 

Ambooleg é amigo de décadas e fez minhas primeiras fotos de orelha/divulgação, lá em 2003
Casalzinho lindo. 

Leila foi minha querida editora na Melhoramentos (fizemos o infantil do Dragão juntos)

O grande Scott. 

Outro casalzinho lindo. 
Staut, Mário e André estavam em casa. 

Familinha. 

Muita gente bacana, muita gente bonita, gente que fazia tempo que eu não via, gente que eu nunca tinha visto, gente que eu só conhecia das redes sociais. Não consegui tirar muitas fotos, porque tava na função de autografar e receber o pessoal (e geralmente quem faz as fotos nos meus lançamentos são meus namorades, mas como agora não tem...). Mas peguei muita foto de gente que tirou, compartilhou, me mandou. Fiz um reels bacana no Insta. 

Lindo ter a Márcia Tiburi de volta. 


Só gente fina: Daniela Pinotti, Marcelo Maluf, Andrea del Fuego, Natália Timerman e Hanaide Kalaigian. 


Grandes cineastas

O querido Clayton
Julián Fuks e Natália

Valentina Nazarian foi a sensação da festa. 

Tati é amiga há quase 30 anos e tá cada vez mais linda.

Agora não tem mais NADA marcado, evento nenhum. Mas tem saído muita matéria, entrevista e a divulgação continua. Quem não foi e quiser comprar o livro autografado comigo, é só me mandar mensagem, que eu envio para todo o Brasil. (Posso vender os três mais recentes, da Companhia: Veado Assassino, Fé no Inferno e Neve Negra). 

(Só que não vai com drinque... O drinque exclusivo era só ontem. O povo disse que gostou: era vodca, Coca Cola sabor café e limão - basicamente o que o personagem bebe no livro antes de matar o presidente - não é lá grande spoiler.) 

O querido Moacyr comprou os três ontem. 

As queridas da Dois Pontos chegaram antes das 4 e ficamos até depois das 8 autografando. 
Drinques com o grande Marçal. 


E terminei a noite num boteco com o Marcelino e amigos. 

       



07/08/2023

TARDE DE AUTÓGRAFOS




No próximo sábado faço minha tarde de autógrafos do Veado Assassino. É a primeira sessão de autógrafo que faço em... SEIS ANOS e, por enquanto, meu único evento presencial este ano (vai ser difícil rolar algo, com um livro com esse título/tema). Escolhi um bar bacana, de um amigo, para o pessoal poder sentar, conversar, beber, ter mais tempo – começa às 16h e vai até umas 20h. É na Cardeal quase com a Fradique. Espero todos lá.

O livro tem tido uma ótima repercussão - vantagem de ter feito um livro curto, rápido de ler, além do tema-título de impacto. A Folha deu uma matéria meio maldosinha, mas que vende bem o livro. Também gravei entrevistas com o Metrópoles, Entrelinhas, Revista Fórum, Podcast Histórias Diversas e o Globo. Mas o mais bacana tem sido como o livro está ecoando bem com os colegas escritores. Já temos aspas bem boas de gente que admiro: 

"Santiago Nazarian coloca em colisão duas vozes, a de um adolescente que fetichiza o ódio e a de uma instância que perscruta os seus atos, ambas as vozes tão trepidantes e incertas quanto a história recente do país." – Andrea del Fuego

“Um livro selvagem. Não dá para imaginar para onde está indo até os segundos finais.” – Antonio Xerxenesky

 

“Hilário, engraçadíssimo, mas me pegou de um jeito...” – Chico Felitti

 

“Sempre gostei da sua prosa ácida e sem concessões. Mas o que ele faz nesse novíssimo Veado Assassino vai além, é um absurdo, um atrevimento, até pra ele. Santiago escreve nosso tempo como poucos.” - Marcela Dantés.

 

“A literatura de Santiago sempre teve um pé na anarquia, mas também nos mostrou um autor capaz de tecer uma narrativa nos moldes clássicos com grande domínio, como em Fé no Inferno. Com Veado Assassino, ele apenas cimenta a sua posição como um dos mais originais escritores brasileiros.” – Marcelo Nunes

 

“Nazarian atirou pedras para todos os lados e foi certeiro em todos os arremessos, de modo a que não há aqui nenhuma vítima que não seja também um algoz. O mais legal é a leitura precisa e assustadora que o livro traz sobre como a realidade não assistida de toda uma nação afeta exatamente aqueles que são a base dessa mesma nação no futuro. Para ler num tiro só. E na testa.” – Alessandro Thomé

 

“Este Veado Assassino é um Nazarian completo, ainda mais por ser escrito somente como um diálogo, do começo ao fim. É algo difícil, que fazem bem somente grandes escritores. Um romance muito atual, de leitura rápida, contundente como um golpe de esquerda e com um certo sabor de vingança - ou uma cusparada na cara da história recente do Brasil.” – Thales Guaracy

 

“Veado Assassino é muito mais do que apenas a história de um adolescente revoltado. É sobre o Brasil de agora, totalmente corroído, machucado e com as cicatrizes totalmente expostas.” – Ney Anderson

 

“Esse romance-diálogo do Santiago já pede pra subir no palco, com uma dramaturgia irada.” – Reynaldo Damazio

Se você está interessado por esse livro, tenho duas coisas iniciais a dizer: 1) fuja das resenhas, dos textos preliminares, dos posts nas redes sociais, quaisquer textos sobre ele; 2) não perca tempo, comece logo.” – Luiz Biajoni. 



26/07/2023

SINÉAD



Podem me chamar de colonizado. Mas pra mim, antes de Gal, de Bethânia, antes mesmo de Rita, tinha a Sinéad...

Comecei a ouvir Sinéad O'Connor na adolescência. Eu já era fã de Annie Lennox, Debbie Harry e conhecia aquela "careca maluca" pelo hit meloso, Nothing Compares 2U. É um bom hit, mas ela tinha tantas, tantas coisas melhores, escritas por ela mesma. Uma voz absurda. Um talento imenso como compositora. Uma mulher linda, com um visual único. Tornou-se uma das minhas. Parte do que eu sou.
 
Abusou da minha paciência, é verdade. Declarou-se lésbica, depois voltou atrás. Sacerdote, Rastafari, Muçulmana. Ameaçou se matar dezenas de vezes, tantas vezes quanto disse que ia se aposentar dos palcos. Não dava para levar a sério. Mas ela NUNCA se queimou no que interessava: sua música.

Tem coisas absurdas de boas, outras nem tanto, mas ela nunca lançou um disco realmente ruim. Mesmo o último de estúdio - "I´m Not Bossy, I´m the Boss", de 2015, compensa a voz comprometida com várias camadas vocais e ótimas composições.
 
Nunca consegui ver ao vivo. Comprei ingresso pra show dela em 2016 já sabendo que ela ia cancelar. Há muitos anos já esperava por uma notícias dessas. Era uma mulher surtada - mas parte da genialidade dela estava nisso aí.
 
Tristeza. Mas que sirva para ela ser mais ouvida. Infelizmente algumas das melhores dela não estão no Spotify, mas deixo o link de uma playlist das minhas favoritas: 



11/07/2023

MINHAS FÉRIAS


De volta de uma viagenzinha delícia de 5 dias em Ubatuba. Um amigo me convidou, coincidiu de minha mãe e minha sobrinha estarem numa praia ao lado, então me dividi entre duas casas, duas praias e duas piscinas...
Com o anfitrião, Abílio. 


Ando viajado bem pouco. Mas felizmente o trabalho melhorou bem nos últimos meses e tá dando para dar umas breves fugas (ainda que eu tenha tido de trabalhar um pouco, mesmo na praia). Antigamente, quando entrava uma bolada de dinheiro eu ia pra RÚSSIA! ARMÊNIA! JAPÃO! Literalmente... Agora não tenho mais essa coragem, depois do sufoco financeiro dos últimos anos.

A que pena seria.


 
Mas é bom que também não tenho mais tantas vontades... (“No tengo ganas.”) Tem gente que trabalha a vida toda, constrói uma carreira, para enfim poder viajar. Mas daí não tem mais tanta graça. Melhor aproveitar enquanto se é jovem... (e COMO eu aproveitei... quando eu podia trepar-beber-comer sem remorso...)


Volto agora pra SP, trabalhando nas prés do Veado (sim, AINDA tá em pré. O livro sai oficialmente em 27 de julho), tem ainda umas traduçõezinhas, o júri de um prêmio e as leituras críticas, que andam bem frequentes. Que não falte mais trabalho.

Abrindo as comemorações...
  

(Lembrando, a noite de autógrafos em SP será dia 12 de agosto, sábado, no Bar Hitch, na Cardeal).



Com a velha na praia. 






29/06/2023

5 conselhos para o escritor iniciante


(Não é indireta/shade pra ninguém específico, é um monte de coisas que observo há tempos, lembretes para mim mesmo, muita coisa que eu mesmo já fiz nesses 20 anos de carreira, que às vezes ainda não resisto, mas de que não me orgulho...)
 
1. As redes sociais estão aí para você divulgar seu livro e seus leitores saberem do que você está fazendo. Quem quiser saber que te siga. Então não é preciso mandar mensagens privadas ou emails contando tudo o que você está fazendo, o que disseram sobre seu livro, pedindo para as pessoas comprarem. Reserve isso a uma mensagem pessoal ou outra, para convidar para um lançamento ou algo assim. Da mesma forma, JAMAIS marque outros escritores numa publicação sobre seu livro, a não ser que eles tenham trabalhado ativamente nele.
 
2. Mensagens privadas de leitores deveriam permanecer privadas. Se o leitor te manda uma DM elogiando o seu livro, ele quer que só você saiba. Se ele quisesse tornar isso público, ele postaria nas redes dele (e ele DEVERIA postar nas redes dele, se ele quer ajudar o autor).
 
3. Direitos vendidos para cinema/TV não significam que “MEU LIVRO VAI VIRAR FILME!” (Sempre que leio alguém postar isso abro um sorrisinho melancólico: “Não sabe de nada, inocente”. Já vendi tantos livros, tantas vezes, já vi tantos amigos vendendo – às vezes por uma boa grana, às vezes só com promessas -, mas para o filme ser produzido mesmo é ooooutra batalha.)
 
4. Seu livro nunca vai ser tão importante para NINGUÉM quanto é para você, nem para a editora. Então é VOCÊ que tem que fazer o máximo e esperar o mínimo (é difícil, eu sei, sei bem...).
 
5. SORRIA nas fotos de divulgação, ou vai acabar igual a mim... (agora é tarde demais para mim, mas você ainda pode sorrir, meu jovem...)

12/06/2023

LIVRO NOVO



Meu Veado está saindo do forno...

Recebi aqui os primeiros exemplares de Veado Assassino, meu novo livro pela Companhia das Letras. É uma novela especulativa, de um adolescente não binário que mata um presidente fascista...

Sempre é emocionante receber o livro físico, parece que minhas ideias ocupam um lugar no mundo. E bem ou mal eu sempre consegui viabilizar as ideias mais esdrúxulas, pelas maiores editoras do país. O Veado segue nessa linha -  depois de lançar um livro "maduro", finalista de prêmios, como o Fé no Inferno, acho que era importante mostrar que ainda posso ser transgressor, fazer algo diferente e ousado.

É um livro muito minimalista, escrevi rápido, mostrei para pouca gente, mas não posso deixar de agradecer a quem ajudou. Começando pela Taliyah Dias, que foi muito da inspiração e fez a primeira leitura comigo. O Taiya Löcherbach, amigo catarinense que fez a revisão do "sotaque" do protagonista (e também foi fotógrafo da capa fodona do BIOFOBIA, anos atrás). A Luara França, que começou a edição do livro na Editora e o Antonio Xerxenesky, que assumiu o processo na reta final. A Andrea del Fuego, que deu toda a força e um "blurb" bacana para a quarta capa. E o Renato Parada, que fez a foto de orelha. 

Vou começar a vender autografado pelas minhas redes (me segue lá, para saber mais. No instagram: @nazarians). O livro já está em pré venda há um mês, já está impresso, mas só sai em 27 de julho - confesso que não entendo muito essa estratégia da editora, mas espero que faça sentido. Eu publico regularmente, sempre a cada 2, 3 anos, mas cada vez encontro um cenário novo, uma lógica de divulgaçao nova. 

Mando de novo a sinopse: 

Um presidente de extrema direita é morto por um adolescente não binário. Por meio de uma longa entrevista, conhecemos a história do jovem e as decisões que o levaram a cometer o ato. Seria ele uma vítima, um terrorista ou um violento incel — um celibatário involuntário? Numa narrativa estruturada apenas em diálogos, Santiago Nazarian apresenta o retrato de uma geração tão engajada quanto individualista, que sabe o que precisa combater, mas não o que defender. Questões raciais, sexuais e de gênero são colocadas numa balança sempre desequilibrada, e a visão parcial de um personagem pode revelar mais do que suas palavras. Com o cinismo e o sarcasmo típicos de Nazarian, Veado assassino é uma louca novela especulativa, divertida e reflexiva.

 

10/06/2023

ORGULHO



Estamos no mês, na semana, na véspera da Parada do Orgulho LGBTQIAPN+, e sempre me perguntei de onde vem essa palavra orgulho? Toda sexualidade em si não é uma fraqueza? Um determinismo biológico? Mais forte não é aquele que não tem vontades?

Sempre penso o quanto a homossexualidade me condenou, o quanto me salvou...

Tenho uma origem privilegiada. Sou filho e irmão de artistas. Nasci e cresci numa bolha paulistana em que a homossexualidade é (ou deveria ser) tida como natural. A vida toda sofri muito menos preconceito do que quase qualquer outro homossexual da minha geração. Mas não deixei de sofrer. Mesmo em colégios alternativos, particulares, havia o bullying. Mesmo com uma mãe compreensiva, escutei o “pode ser gay, só não pode ser afetado.” E o maior choque de realidade que tive na vida, quanto a minha não-aceitação no mundo, foi a eleição de um presidente declaradamente homofóbico.

Sempre penso o quanto a homossexualidade prejudicou, o quanto beneficiou minha carreira. O meio literário não é especialmente homofóbico – você pode ser gay... só não pode ser afetado. Vi recentemente uma mesa com o João Silvério Trevisan e pensei muito sobre isso. Meu discurso, os olhos pintados (os chifrinhos de veado), toda minha postura mais performática com certeza fecharam algumas portas, abriram outras. Considero o saldo mais positivo em momentos mais positivos, mais negativo em momentos mais negativos da minha carreira.

Mas hoje sendo um homem branco, cis, dos Jardins, vejo também o quanto a homossexualidade me salvou... O rótulo que tenho de “maldito” vem muito disso, não só da homossexualidade em si, mas de todas as escolhas e caminhos a que a homossexualidade me levou. Eu poderia ter crescido como um playboyzinho, mas foi a homossexualidade que me levou a experimentar coisas diferentes, me relacionar com pessoas diferentes, ampliar muito meus horizontes.

A sigla LGBTQIAPN+ já está virando meio piada (e acho que deve ser resolvida em breve), mas compreendo a intenção. Cada sexualidade é única, é difícil se colocar numa caixinha. Eu mesmo vivi um tempo como bissexual, porque não conseguia me encaixar na “homossexualidade oficial”; a hiper masculinidade não me atrai em nada (não consigo entender, por exemplo, qual é o apelo de um Henry Cavill, tenho até certo asco). Minha atração sempre foi por meninos mais femininos, andróginos; nos últimos 4 anos, só me relacionei com meninas trans – não tanto por um fetiche, mas por um traço geracional: os andróginos estão todos transicionando.

Então acho que, mais do que orgulho, estamos num momento de renovar as esperanças. O pior já passou (espero), as novas gerações já estão vindo desbloqueadas de fábrica. Minha sobrinha de onze anos é fã de Heartstopper, teve uma professora trans e aceita isso como natural.

Sempre gosto de lembrar de um episódio que aconteceu quando ela tinha uns seis anos, eu estava casado há 5 com um homem, era o tio provedor, com casa na praia, e me ocorreu perguntar à minha irmã se minha sobrinha não estranhava. “Não, porque ela já nasceu num mundo onde isso é natural, tem os amigos dos pais casais de homens, de mulheres. Ela ainda vai descobrir que isso é uma questão.”

Os 4 anos de governo bolsonaro devem ter ensinado isso a ela. Mas também devem tê-la tornado uma aliada mais forte.

FLIRECÊ

Mais que colegas, friends.  Ainda tô chapado. A luz da Bahia é ofuscante – cegou meus olhos, queimou minha pele, transformou minha paulistan...