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| Devidamente trajado para conversar de casa com meu editor... |
Fiquei pensando que vocês
estão todos há quase um ano trabalhando de casa...
E eu que trabalho há
quase vinte ainda não compartilhei com vocês dicas essenciais, conselhos
preciosos, táticas infalíveis para sobreviver trabalhando direto do sofá...
Então estou lançando meu
curso de “frila por quilo” nas principais plataformas digitais...
Mentira.
Eu não sei ganhar
dinheiro, senão lançaria...
Eu trabalho em casa, sim,
desde 2002, com alguns breves períodos em que fiz uns frilas in-loco. Antes
disso, trabalhei em agência de publicidade por quatro anos, em livraria por
alguns meses. Mas quase toda minha vida profissional foi mesmo moldada em casa.
Eu costumava dizer que é preciso
ter temperamento para isso, eu tenho, gosto de trabalhar sozinho; mas hoje em dia isso não faz muita
diferença, não é? Já ouvi tanta gente dizendo que nunca conseguiria trabalhar
de casa, porque ficaria enrolando o dia todo. Bem, imagino que muitas dessas
pessoas tiveram de aprender.
Eu sentia bem o contrário – quando trabalhava
em agência de publicidade (ou quando trabalhei no marketing da Abril) sentia
que ter de cumprir horário era um grande desperdício de tempo. Eu passava HORAS
sem fazer nada, na internet, como um plantão infinito, e às vezes quando estava
prestes a ir embora no final do dia, chegava um “job” urgente que me deixava até
tarde da noite.
Trabalhar em casa
propicia esse luxo de fazer seus horários, desde que você cumpra prazos (e eu
NUNCA, JAMAIS, furo um prazo, tenho orgulho de dizer sempre isso), mas também
apresenta questões bem problemáticas:
Se você tem um fluxo-fila
constante de trabalho, é tentador trabalhar demais, porque diferentemente de um
trabalho fixo, quanto mais você trabalha, mais você recebe. Daí tem o perigo
não apenas de minar sua vida pessoal, mas de comprometer a qualidade do seu
serviço. Como tradutor, recebo tantos prazos indecorosos de tradução: “300
páginas num mês” – e se eu traduzir 300 páginas num mês obviamente vou receber
mais nesse mês do que se traduzir 200, 150, mas qual será a qualidade do trabalho?
E se estabeleci que faço 200 páginas por mês, mas minha filha de oito anos
precisa de aparelho nos dentes?
(Se quer saber, 300 laudas
por mês de tradução literária dá por volta de 10 mil reais – é o dobro de 5 mil
reais sem sair de casa, mas também sem ter muita vida. E é impossível que você traduza
isso com qualidade ou mantenha esse ritmo todos os meses do ano.)
(Felizmente não tenho uma
filha. Ainda mais precisando de aparelho.)
O problema mais normal é
que você, como frila (e ainda mais como frila em literatura como eu) não
consegue um fluxo tão constante de trabalho assim. Há momentos em que TODOS se
lembram de você (para mim, parece sempre que é entre julho e novembro) e momentos em que nada aparece. Então o que
você ganha num mês tem de ser diluído em vários. Tem muitas editoras bacanas
que te passam livros sempre, mas de repente elas fazem um intervalo de um, dois
meses, até te mandar o próximo, coisa normal, então são DOIS MESES que você não
recebeu nada, se não conseguiu manobrar com outras editoras ou outros frilas. (Nem
sempre é fácil manobrar. Muita editora quer o trabalho para ontem – então se
você já está com algo, perde o job; e tem editora que se você recusa uma vez te
coloca na geladeira por meeeeeses.)
Daí tem os pagamentos....
Porque por mais que a
gente trabalhe mês inteiro naquele job-livro-tradução, parece que o pagamento é
um favor. A data é flutuável (eu, por exemplo, estava esperando um pagamento
grande que atrasou mais de uma semana, e
ouvi que atrasou “por causa do feriado bancário do carnaval” – “Oi, vou atrasar
meu aluguel este mês, sem multa, por causa do carnaval, tá?”)
Eu sempre tenho essa
sensação, de que o pessoal que nos paga nas empresas, que tem de
enfrentar o duro dia-a-dia corporativo, acha que a gente que faz frilas pra eles,
de casa, está sempre recebendo um extra. Não parece que eles estão
pagando por algo que a gente ficou um mês inteiro (ou mais) fazendo – TODOS OS
DIAS.
E essa é outra merda de ser
frila, claro, ter de cobrar, conferir, mandar nota, o dinheiro nunca cai
naturalmente. É sempre um parto...
Ah, e tem ainda outra
merda: você trabalha meses, anos, com um contato (editora, assistente) numa
empresa. Ele é demitido. Você também é, sem aviso prévio nem nada. Claro, a empresa
pode continuar usando seus serviços, mas o mais natural é que a nova pessoa que
ocupe o cargo use seus próprios contatos.
Mas se você já está nessa
merd... nessa vida, digo, devido à pandemia, a vida de frila também em suas benesses.
Você faz seus horários, suas férias,
acorda a hora que quer, pode trabalhar ouvindo sua música; e só de não ter um
patrão a quem responder já faz toda a diferença. Precisa ter certo temperamento,
sim, precisa ser caxias. Eu costumo dizer que “quem tem a si mesmo como
patrão, tem como empregado um escravo.” Sou bem rígido com meus prazos, procuro
sempre me antecipar. Tem vários dias que estou sem pique, cansado, de ressaca,
com problemas pessoais, e me obrigo a cumprir a cota diária de laudas. No
final, acabo sempre entregando antes do prazo. Mas acho que isso é o mínimo que
a gente tem de fazer se quiser sobreviver num mercado tão difícil. (como na
tradução literária).
Então vão aí dicas
rápidas para quem quer trabalhar em casa...
... não, primeiro vou
desmistificar mitos:
- Não pode trabalhar de
pijama:
Acho bobagem, essa coisa
de ritual de que “tem de se vestir pro trabalho para fazer ‘home office’. Tem é
de se sentir à vontade. Eu trabalho de regata e bermuda todos os dias. Claro,
se tiver reuniões por vídeo, melhor se ajeitar um pouquinho.
- Desligue as redes
sociais:
Também acho bobagem.
Redes sociais para mim é como o colega trabalhando na baia do lado. Te distrai
um pouco, e faz parte para você não se sentir tão sozinho. E é uma forma de se
manter antenado no que está acontecendo no mundo - isso é importante de manter, se está trabalhando sozinho. Eu acho que se você deixa as redes sociais ligadas TODOS os dias, você não tem necessidade de ficar olhando TODA a hora.
- Monte uma super área de
trabalho:
Depende da sua área de
atuação. Se você trabalha com texto, como eu, não precisa de um super
investimento-computador-área. Dá para se virar com o que você tem. Mas é importante
ter uma área separada (já explico nas dicas).
- Acorde cedo para
trabalhar:
O melhor de trabalhar em
casa é poder acordar quando quiser. Não se obrigue a acordar cedo (a não ser
que haja outros compromissos pessoais que te obriguem a isso), desde que você
consiga cumprir as horas diárias para realizar suas tarefas. Eu passei anos
acordando perto da hora do almoço. Nos últimos anos, tenho acordado cedo, por
volta das 7h, mas geralmente vou malhar, cuido das coisas da casa, e só começo
a trabalhar lá pelas 11h.
Então vamos ao que você
DEVE fazer:
- Seja solitário:
Trabalhar em casa é ideal
para quem não tem vida, não tem família, não tem ninguém no mundo como eu...
Sofrências à parte, muitas das dicas que dou aqui ficam mesmo prejudicadas para
quem mora com marido e filhos. Porém o ESSENCIAL para trabalhar em casa é ter
um espaço reservado, em que você possa ficar sozinho, fechar a porta. (Ou se
mora com alguém, que esse alguém passe o dia todo fora). Já tive períodos com
namorado aqui em casa (como os dois meses do Tadzio aqui no final do ano) e é
muito complicado, porque meu escritório é na sala. Ter um ser vivo circulando
pela casa desconcentra muito mais do que as redes sociais, te digo.
(Especialmente se o ser circula só de cueca...)
- Não beba:
Não ter horários, não ter
patrão, para muitos é um convite ao alcoolismo. Para algumas atividades criativas
(como escrever livros) a bebida até pode ajudar. Mas torna-se insustentável
como prática diária. Então se está trabalhando em casa, não pode pegar nem
aquela cervejinha. Deixe para o dia da folga. E tenha dia da folga.
- Não viaje:
E não estou falando de dorgas
- isso entraria na mesma categoria
do “não beba.” Se você quer trabalhar de casa, esteja em casa. Tem essa
ideia de que “quem trabalha de casa pode trabalhar de qualquer lugar”, e é
verdade, mas não no ritmo e comprometimento que é exigido. Se você está sempre
viajando, conhecendo lugares novos, não vai ter tanto tempo para dedicar à sua
rotina de trabalho – a não ser que seu trabalho envolva turismo/viajar. Eu já
passei períodos trabalhando de outros lugares, em Florianópolis, na Finlândia,
Maresias, mas foram períodos de meses em que aluguei uma casa, criei uma
rotina, e isso sempre envolve um tempo de adaptação. Se você quer VIVER viajando,
é bom que tenha um trabalho que envolva isso; e se vai só tirar férias, tire
férias, esqueça o trabalho, por mais que dê para fazer no laptop.
- Respeite a semana:
Não é porque você está
trabalhando de casa que a semana deixou de existir. Tente respeitar o ritmo de
segunda a sexta, porque isso fará sentido para seus contatos, seus pagamentos,
seu banco. Isso também te deixará mais em sintonia com o mundo. Eu geralmente
trabalho de segunda a sexta, avançando quase sempre na manhã, às vezes tarde do
sábado (domingo praticamente nunca). Infelizmente eu não consigo nunca respeitar
feriados (trabalho nos feriados da semana, mas eventualmente me permito me
fazer um “feriado de mim mesmo” numa brecha de trabalho). E nesse respeite a semana: Não é porque você
está trabalhando no FDS que deve mandar emails de trabalho aos outros (ou de
cobrança). Deixe para a fatídica manhã de segunda. (Anote isso, dona Elisa
Nazarian).
Por fim, e mais
importante:
- Não deixe a coelha roer
os fios do seu computador.
(Para quem gostou do curso, pode depositar por pix: santiagonazarian@gmail.com )