03/06/2024

SOBRE A PARADA...


Sobre a parada...

Dei uma rápida passada. Sair de casa aqui já é praticamente participar. Mas acho importante estar presente, fazer número, marcar território, porque nada está ganho...

Eu sempre acabo observando meio como um observador externo, sem fazer parte, sozinho e quietinho, assistindo ao desfile de corpos. O mais legal da parada sempre foi a diversidade, que espelha a do país. A gente vê no noticiário só as drags, só os montados, mas a parada é um mar de manos, com tiozinhos, novinhos, bombados, trans, drags, de todas as classes; talvez o único lugar onde todas essas tribos se encontrem (dêem um beijo e percam o sapatinho).
 
De negativo, achei péssimo terem restringido os acessos à Paulista (não consegui chegar à Parada pela Frei Caneca, por exemplo, estava bloqueada). Isso criou gargalos sufocantes para entrada e, principalmente, para a saída, que quase me provocaram um surto. Achei tenso.
 
De mais positivo: terem recuperado a bandeira... em termos. Grande parte das bichas de verde e amarelo. Flagrei inclusive dois caras pintados inteiros de verde, dois gêmeos siameses (porque as relações homossexuais têm muito disso, do narcisismo, de se buscar um igual), pareciam dois Shreks; um deles se ajoelhou com uma aliança, para comemoração geral.

Encontrei só um amigo, voltando para casa, também vestido de verde e amarelo. Eu todo de preto, como sempre. “Que você tá de preto, Santiago? Virou bolsomion?” Só faltava essa. Agora sequestraram nosso luto.

01/06/2024

OS 40 MELHORES LIVROS GAYS (da minha biblioteca)




Aproveitando a trend, a parada, o pride, vai minha lista. Tive de revirar as estantes, a cabeça e antigas listas que já fiz para lembrar de tudo. Ia fazer uma lista de 24, mas ficou pouco. Subi pra 30, muitos ficaram de fora. Decidi parar em 40, ou não parava nunca. 

Obviamente só coloquei uma de cada autor (e alguns foi bem difícil de escolher...). A ordem é (quase) completamente aleatória.  

(Se esqueci do seu, é porque você nunca me amou.)


1. O Retrato de Dorian Gray – Oscar Wilde
A grande obra sobre o mito de narciso. Provavelmente o livro mais importante da minha vida.

2. Morte em Veneza – Thomas Mann
A novela disserta sobre beleza e platonismo (coisa que o filme deixa para o expectador, através apenas da idealização da figura de um menino).

3. Morangos Mofados – Caio Fernando Abreu:
Um clássico homoerótico dos anos 80, que ainda inspira muito do que se faz de literatura gay no Brasil.

4. Frisk – Dennis Cooper
Das coisas mais pesadas que se pode ler, disserta exatamente sobre isso: há coisas que só se pode fazer em livro... (Sem tradução no Brasil.)

5. O Quarto de Giovanni – James Baldwin
Neste clássico dos sebos, a homossexualidade é personificada pela fascinação com a beleza clássica do velho mundo europeu.

6. Sou Eu – João Gilberto Noll
Infantil do Noll (ilustrado por meu irmãozinho Alexandre Matos), tem muito da sua representação latente da homossexualidade através de dois meninos à beira da adolescência que vão nadar num rio.

7. Memórias de Adriano – Marguerite Yourcenar
Outro clássico dos sebos, uma autobiografia imaginária do Imperador Adriano, que revela muito da homossexualidade na antiguidade clássica.

8. Nossa Senhora das Flores – Jean Genet
Um clássico maldito, escrito em fluxo de pensamento, é uma viagem pelo underground de Paris nos anos 1940.

9. A Confissão de Lúcio – Mário de Sá Carneiro
Um triângulo amoroso com um “duplo feminino”, que termina em crime; revela muito da personalidade conturbada do jovem poeta (amigo de Fernando Pessoa) que se matou aos 25 anos.

10. Meu Irmão, Eu Mesmo – João Silvério Trevisan
Através da relação com o irmão, morto prematuramente nos anos 1990, Trevisan examina sua própria condição de soropositivo que sobreviveu à epidemia.

11. Solo te Quiero como Amigo – Dani Umpi
Romance de “sofrência gay” retratando a vida gay no Uruguai contemporâneo. (Sem tradução no Brasil.)

12. Lucas e Nicolas – Gabriel Spits
Romance juvenil inocente e fofinho, uma espécie de precursor de Heart Stopper, num Brasil interiorano pré-bozo.

13. O Tripé do Tripúdio e Outros Contos Hediondos – Glauco Mattoso
Das melhores amostras da obra do poeta maldito fetichista.

14. O Templo – Stephen Spender
Um jovem inglês que vai para a Alemanha no final dos anos 1920 e se deslumbra com a beleza, com os corpos, com "o templo" dos alemães. Anos depois, volta ao país e descobre que todo aquele culto à beleza assumiu uma conotação política perigosa, com o emergente partido nazista.

15. Ricardo e Vânia – Chico Felitti
Através de uma longa reportagem investigativa sobre o “Fofão da Augusta”, Felitti conta muito sobre o universo gay e trans das últimas décadas.

16. Três Porcos – Marcelo Labes
Romance lindamente escrito, de um personagem (ou um autor?) com uma sexualidade muito mal resolvida, fruto de experiências homossexuais na pré-adolescência.

17. Maldito Coração – JT. LeRoy
A falsa biografia de um michê juvenil, que passa por diversos abusos e situações insólita durante a infância e a adolescência. (A tradução brasileira é minha.)

18. Correndo com Tesouras – Augusten Burroughs
Esse aparentemente é uma autobiografia real, de um menino que também teve uma vida insólita e repleta de abusos na adolescência. Pesado e engraçado.

19. Igor na Chuva – Hugo Guimarães
Romance de encontros fortuitos e sexo casual numa São Paulo apocalíptica, escrito num fluxo de consciência fascinante.

20. O Beijo da Mulher Aranha – Manuel Puig
Um longo diálogo (veja só), entre um prisoneiro político e um homossexual, presos na mesma cela.

21. Nunca Mais Voltei – Alexandre Willer
Contos afetivos e nostálgicos retratando muito dos dramas da homossexualidade contemporânea.

22. Mysterious Skin – Scott Heim
Dois meninos são abusados na infância. Dez anos depois, um deles transformou tudo numa fantasia de abdução e o outro idealizou a experiência. Não foi traduzido no Brasil, mas gerou um belo filme do Gregg Araki.

23. The Night Listener – Armistead Maupin
Um radialista se envolve com a história de um menino vítima de abuso, mas aos poucos vai percebendo que há algo mal contado. Também virou um belo filme com Robin Williams e Toni Collette.

24. Paris Brest – Alexandre Staut
Uma improvável bem sucedida mistura de romance, memórias e receitas, trazidas do período do autor trabalhando com o namorado como cozinheiro na França.

25. Babilônia de SP – Pedro Balciunas
Interessante livro reportagem sobre michês paulistanos.

26. The Man Who Fell in Love with the Moon – Tom Spanbauer
Um faroeste gay narrado por um michê indígena adolescente. (Sem tradução no Brasil.)

27. Confissões de uma Máscara – Yukio Mishima
Outro clássico dos sebos, traz muito da sexualidade conturbada do autor, num adolescente que se descobre gay no Japão da Segunda Guerra.

28. Ilusões Pesadas – Sacha Sperling
Publicado ainda na adolescência desse autor francês, é uma autoficção que retrata a vida louca dos parisienses bem-nascidos no início dos anos 2000.

29. Temporada de Caza para el León Negro – Tryno Maldonado
Uma declaração de amor em prosa poética para a um jovem artista cocainômano, anárquico e autista. (Também sem tradução no Brasil.)

30. E Se Eu Fosse Puta – Amara Moira
Um retrato autobiográfico da cena trans contemporânea, escrito com humor, poesia e acidez.

31. A Resistência dos Vagalumes – Vários Autores
Antologia brasileira contemporânea que tem no seu maior mérito o que poderia ser seu maior defeito: é um tanto quanto inchada. São 61 vozes, então acaba oferecendo um panorama bem amplo de toda a sigla LGBTQIAPN+; indispensável para quem estuda essa temática.

32. Uirapuru – Febraro de Oliveira
Prosa poética de um jovem autor sul-matogrossense; das vozes mais interessantes para se acompanhar atualmente.

33. Atire a Primeira Pedra – Mike Sullivan
Através de dois personagens, um réu e um psiquiatra encarregado de examiná-lo, o autor coloca em choque duas visões da homossexualidade: a doença que precisa ser curada e a possibilidade de se enquadrar num novo modelo de família. Dos melhores que li ano passado.

34. Outono de Carne Estranha – Airton Souza
O polêmico romance que balançou o Prêmio Sesc retrata relações gays no universo ultra masculino do garimpo da Serra Pelada.

35. Balé Ralé – Marcelino Freire
Dos melhores exemplos da prosa oral e musical do autor, uma visão lírica da homossexualidade contemporânea.

36. Sodomita – Alexandre Vidal Porto
Divertidíssimo romance histórico passado no Brasil colonial, baseado num personagem real condenado por sodomia.

37. Homens Elegantes – Samir Machado de Machado
Romance de capa-escapa gay, divertido e debochado.

38. Quarto Aberto – Tobias Carvalho:
Um retrato desse geração “poligâmica”, dos relacionamentos gays abertos, numa Porto Alegre pré-diluviana.

39. O Dia que Não Matei o Presidente – Celso Suarana
Recém lançado volume de contos sobre vingança, violência, amor e superação num Brasil dominado pela extrema-direita.

40. Veado Assassino – Santiago Nazarian
Um retrato da geração atual: tão fluída quanto indecisa, não binária e assexuada.

23/05/2024

LEMBRANÇAS DE PORTO ALEGRE

 


Saudades de Porto Alegre...

Tenho acompanhado as notícias como todo mundo, compartilhado, doado, ajudado como dá, com medo de falar algo mais e me transformar na Juliana Didone no chuveiro. Não tem como todo mundo ter algo a acrescentar. Não tem como todo mundo ter a solução. Mas fico pensando naqueles cenários, como foram, como estavam, como ficarão...

Foi em Porto Alegre que comecei minha vida adulta, na virada do milênio. Morei dois anos, fiz grandes amigos (bem, AMIGAS, principalmente, que as gaúchas sempre foram bem melhores). Apesar de todo o inegável bairrismo, me receberam muito bem, me levaram para conhecer a cidade, as praias, Gramado. Tornou-se uma parte do que eu sou.

Lembro como era uma cidade boa para caminhar. Com uma vida ao ar livre muito mais forte do que São Paulo, por causa do rio, dos parques. A gente saía domingo na Redenção e encontrava todo mundo...

Para além da minha vida pessoal, é inegável a influência, a consistência e a força da produção gaúcha na nossa música, na literatura, vários de nosso maiores nomes, muitos dos meus favoritos.

Eu não vou a Porto Alegre há um bom tempo (talvez uns DEZ anos?!), estava planejando uma visita. Agora nem sei o que iria reconhecer. Queria só ver se os amigos estão bem.

Uma grande amiga, que mora perto de onde eu morei, no Floresta, disse que saiu assim que a casa começou a alagar. Foi para a praia. Não sabia como ficou a casa. Os amigos todos parecem estar em segurança, se é que se pode chamar assim. Mas como fica uma cidade em trauma? Como evitar que aconteça de novo?

Tava agora revendo um álbum inteiro de fotos que fiz por lá; tantas lembranças. Eu tinha isso, de fazer álbum de fotos (físicas, impressas). Sempre achei a forma mais segura de preservar: as fotos digitais se perdem, HDs se vão, redes sociais são desativadas. Mas imagino agora todas as fotos e as lembranças que ficaram debaixo d’água...

#tbt #portoalegre

14/05/2024

SEMANA NA SERRA



High na Cachu. 


Das minhas lembranças mais bucólicas de infância estão os córregos da Serra da Mantiqueira, as cachoeiras, os cogumelos explosivos dos bosques de araucárias...

Um esquilo fotogênico. 

E recorri a essas lembranças para escrever um novo romance. Mais um. Apenas porque não posso evitar (e ainda tenho tanto prazer no processo...). Um romance sobre as dores e as delícias da infância...


Inspiração é isso. 

Aproveitei a semana do dia das mães, meu aniversário e uma folga nos trabalhos para revisitar esses cenários que eu não via desde a pré-adolescência. Muita coisa mudou, mas nem tanto. Se não sou exatamente o mesmo, aquela criança continua aprisionada aqui dentro, ocupando um terço da minha coxa esquerda, ou o testículo direito...


Praças psicodélicas...

Comecei por uma cidade que não ouso colocar o nome, porque dizem que é a cidade mais segura do Brasil, lindinha-lindinha e, se vocês descobrirem, estraga. Mas é uma cidadezinha de 6 mil habitantes em que penso em terminar a vida... (a questão é saber quando vai terminar; talvez eu devesse me apressar...)


Santo Antônio do Pinhal (ops!) está cheia de restaurantezinhos gostosos, lojinhas, tem até livraria, córregos, os bosques, a mata. Daria para eu ser feliz... por seis meses. Caminhei uma hora e meia para encontrar uma cachoeira, estava FECHADA. Não sabia que cachoeira tem horário de funcionamento, mas aparentemente, atualmente, tem. Inconformado de caminhar 3 horas (ida e volta) para dar com um portão trancado, TIVE de encontrar uma forma... Caminhando um pouco mais de volta, vi uma cerquinha, com acesso ao córrego, nenhuma placa de proibido... Caminhei de volta pela água até encontrar umas quedas d’água. Vontade de banho de cachoeira saciada. Foi o ponto alto da minha viagem.  

Quando Santiago caminhou pelas águas. 

Não resisto a uma piscininha.

   

Também deu para trabalhar bem no livro, teve pousadas com piscina, ótimos cafés da manhã, longas caminhadas... Numa noite, caminhava em Santo Antônio, a cidade mais segura do Brasil, com uma menina adolescente logo à frente, voltando para casa. Fiquei pensando se acontecesse alguma coisa com ela, se ela sumisse, se ela morresse, se fosse encontrada morta. Provavelmente o maior suspeito seria eu! (“Vi ela lá pelas 9 da noite, na estrada do Lajeado; tinha um senhor estranho, cabeludo, caminhando logo atrás...”).


Cachoeiras com dona Elisa. 

Antes de ser preso, fui para Campos do Jordão no fim de semana. Dizem que é a Suíça brasileira, porque é tudo muito burguês, mas, com vontade, dá para se embrenhar um pouco no mato. Lá reencontrei os cogumelos que soltam fumaça. Minha mãe veio no sábado passar aniversário e dia das mães comigo. Aos 75 anos, e com o pulmão debilitado, aguentou bem as longas caminhadas. Devo partir antes.


Brindando com dona Elisa. 

De especial, meu aniversário no domingo teve novos cenários, belos cenários, os passeios e os pratos caros dos restaurantes, servidos por twinks a serviço. Não tive presentes ou bolinho, mas estou naquela idade em que já não posso mais esperar ser feliz. E até que fui. Por 6 dias.


Dona Elisa ainda encontra motivos para sorrir. 

09/04/2024

MESA



Neste sábado, 15h, na Martins Fontes da Consolação, tenho uma mesa com o querido Ricardo Lisias. Debateremos (e relançaremos) os livros lançados na pandemia - ele com seu excelente "Uma Dor Perfeita" e eu com meu "Fé no Inferno".

Será também minha PRIMEIRA MESA EM QUASE DOIS ANOS, e a primeira tarde de autógrafos do Fé no Inferno que faço numa livraria, veja só. Agradeço ao convite do Lísias.
Quem já tem os livros, quem não quer os livros, pode ir lá só pra nos bulinar.

Data: 13/04/2024
Horário: 15h às 18h
Local: Livraria Martins Fontes Consolação - Rua Dr. Vila Nova, 309 - Mezanino
Evento: Encontro com Autores que Publicaram na Pandemia com mediação de Rita Couto (podcaster) e Fernando Ferrone (escritor e tradutor).

Participantes: Ricardo Lísias e Santiago Nazarian (autores)

06/04/2024

ZIRALDO

Ziraldo em Búzios, 2015.


Acabei de saber do Ziraldo.

Falava esses dias, com meus alunos de Caminhos da Publicação, sobre os escritores lendários com que cruzei nesses vinte e pouquinhos anos de carreira – Millôr, Noll, Lygia, Scliar, Márcia Denser, Victor Heringer...

E teve também o Ziraldo.

Confesso que Ziraldo não foi um autor importante na minha infância. Minha mãe, livreira, achava suas lições de moral de uma pieguice só, então nunca tivemos os livros em casa. Fui ter contato bem mais tarde, cruzando pelo cena literária, em hotéis, festivais, e numa noite em que ele morreu, em Búzios.

Era um festival da Melhoramentos, eu tive uma mesa com o Tiago de Melo Andrade e o Raphael Montes; Ziraldo teve a sua logo em seguida. Depois saímos todos para jantar, Ziraldo, editoras, namorados; bebemos pouco, comemos sushi, testemunhamos o bom papo dele (e sua mão carinhosa passeando pelas pernas das jovens...). Voltei cedo para o hotel, com meu ex, e quase morremos naquela noite.

Tivemos algum tipo de infecção alimentar. E havíamos todos partilhado da mesma bandeja de sushi. Enquanto eu vomitava copiosamente no banheiro, só conseguia pensar: “Caralho, se a gente tá assim, o Ziraldo morreu...”

No dia seguinte, descobri que só eu e meu ex havíamos sido premiados; ninguém mais passou mal.

Isso foi em 2015, mas acho que nunca mais vi o Ziraldo. Há poucos anos, cheguei a traduzir alguns livros dele para o inglês – O Menino Marrom, O Menino de Júpiter –, foi um trabalho delicioso, complicado com as rimas, mas discutido todo com a Editora; nunca cheguei a saber o que ele achou (ou mesmo se chegou a ler). Pude então me debruçar e entender melhor a sua obra.

Ficam então boas lembranças, lembranças divertidas, lembranças controversas, mas sem dúvida o reconhecimento do privilégio de ter conhecido essa figura lendária da nossa cultura, dono de um traço inconfundível e de lições de moral questionáveis...

(na foto: a única imagem que tirei de Ziraldo naquela noite.)




17/03/2024

TIREM AS CRIANÇAS DA SALA

(Publicado na Ilustríssima da Folha deste domingo)


Do que devemos proteger nossas crianças? Como não ofender quem acredita no pecado? Que gatilhos evitar para quem cresce em um país traumático como o Brasil? Você só descobriu o sexo depois que mamãe e papai autorizaram?

As polêmicas atuais em torno da censura de livros pretensamente passam muito pela proteção das crianças e dos adolescentes. Mas é mais fácil assustar uma criança ou ofender um evangélico? Quem realmente está se incomodando com o quê? Escolas, editoras, curadores e os próprios autores parecem estar tentando prever tudo isso. Como fazer para que nossos livros passem pela censura?

Nas últimas semanas, foi pedido o recolhimento do romance "O Avesso da Pele" (Companhia das Letras), do gaúcho Jeferson Tenório, em escolas do Paraná, de Goiás e do Mato Grosso do Sul, sob o pretexto de que a história contém palavras de baixo calão, de cunho sexual.

Marçal Aquino sofreu ataques semelhantes no ano passado, com seu romance "Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios" (Companhia das Letras) sendo retirado da lista de leituras do vestibular de uma universidade de Goiás.

Censura ainda mais grave vem sofrendo o livro "Outono de Carne Estranha" (Record), de Airton Souza, vencedor do prêmio Sesc, por parte da diretoria da própria instituição.

O romance, que narra encontros homossexuais no garimpo de Serra Pelada, teve circulação restrita dentro do circuito do Sesc e levou a demissões, atrasos e mudanças no edital do prêmio, que ameaçam a independência do júri com uma censura prévia, do que pode ou não ser premiado em futuras edições.

Alguns observam esses movimentos como atos reacionários da direita, mas é importante notar também os ataques e as "readequações" que obras como as de Monteiro Lobato vêm sofrendo por representar realidades que já não estão de acordo com pautas progressistas. José Roberto Torero e Marcus Aurélio Pimenta tiveram seu livro infantil "Abecê da Liberdade" recolhido pela própria editora, a Companhia das Letras, em 2021, por mostrar cenas de crianças negras brincando em um navio negreiro.

A literatura é a arte do indivíduo, a materialização de universos particulares, independentes e subjetivos, em palavras. O grande mérito da literatura sempre foi não buscar consenso, e a grande literatura é aquela que traz algo novo, ainda não discutido, que pode surpreender, maravilhar e incomodar.

Há muito os autores brasileiros se acostumaram com a ideia de que o livro é uma obra limitada, de nicho, que não vai atingir grandes públicos, não vai mudar o país.

O problema talvez esteja na ambição de um livro de inegável qualidade, como o de Tenório, de furar a bolha da literatura e querer conquistar um público gigantesco no Brasil de hoje. Alguém sempre vai se incomodar. As crianças não estão preparadas para ler porque os pais não foram preparados para ler, para discutir, refletir.

Mas a ambição talvez faça sentido, porque, em muitos casos, as editoras se adiantam não para "abafar o caso", mas para expor nacionalmente a censura, fazendo com que o livro repercuta e venda ainda mais. Foi noticiado que "O Avesso da Pele" aumentou suas vendas em 400% depois da "censura provinciana". Seu alcance está longe de ser limitado, e o autor merece mais nossa admiração do que nossa solidariedade.

A grande censura, porém, é bem mais silenciosa. No meio da literatura infanto-juvenil, temas, palavras e ideias são previamente vetados há muito tempo. Livros tidos como controversos não são nem mais considerados pelas editoras, porque podem causar atritos com pais e professores e dificultar a aprovação em editais de compra do governo, o que inviabiliza a edição comercialmente.

Essa controvérsia se dá tanto com conteúdos sensíveis a grupos religiosos (que podem barrar até figuras clássicas da literatura infantil, como bruxas e dragões) quanto com temas que ferem a sensibilidade progressista, como a violência ou a representação exclusiva do modelo familiar clássico.

Editoras do segmento infanto-juvenil contam com conselhos de pais e professores para analisar o livro antes de sua contratação ou durante sua edição, orientando sobre o que pode ou não ser dito às crianças (um papel que deveria ser reservado a cada família). Desses livros impedidos de circular, nós nem ficamos sabendo.

Agora essa mesma prática está sendo adotada pelas editoras na literatura adulta, com a contratação dos "leitores sensíveis", responsáveis por analisar se certa palavra pode soar ofensiva a homossexuais, se uma ideia pode ecoar mal no movimento negro, se as mulheres vão se incomodar com certa cena, se o livro contém "gatilhos" (conceito tão amplo e tão odioso que, na prática, significa qualquer coisa que possa despertar algo de negativo).

Alguns livros controversos ainda são publicados, pois, no fim das contas, o investimento é relativamente baixo. Mas esses livros não são inscritos em editais como o Programa Nacional do Livro e do Material Didático, circulam pouco, e seus autores não são convidados para grandes eventos, para grandes festivais, não têm colunas em jornais, pois podem tanto inflamar a ira de bolsonaristas quanto de movimentos de minorias e, principalmente, afastar patrocinadores.

A verdadeira censura, afinal, não é ideológica, restrita à direita ou à esquerda, é uma censura de mercado. O que pode limitar o potencial mercadológico do livro vem sendo vetado.

Alguns podem dizer que sempre foi assim —o livro, afinal, é um produto; se não tem viabilidade comercial, é rejeitado. Isso, porém, vem se intensificando e penetrando cada vez mais em um meio em que eram permitidos o conflito, o debate, a reflexão.

A literatura sempre foi o último meio de resistência, no qual se podia dizer tudo o que não se pode dizer em nenhum outro lugar. Se não for mais assim, algumas ideias permanecerão apenas em nossas cabeças. Eu me pergunto: o que acontecerá quando essas ideias não encontrarem mais meio de escape?

A censura mercadológica se intensifica também na literatura porque o mercado penetra em todas as áreas da existência contemporânea. As redes sociais promoveram a mercantilização de nossas vidas. Buscamos não apenas sermos valorizados, "curtidos", mas monetizados.

Os criadores de conteúdo —hoje, qualquer um que tenha conta no Facebook, Instagram, YouTube, TikTok e afins— estão sujeitos a uma censura sobre seu próprio dia a dia. Ideias, palavras, momentos não podem ser compartilhados porque ameaçam o alcance de suas postagens e o eventual lucro (financeiro, inclusive) que se pode obter.

Nesse contexto, não há espaço para o sarcasmo, o cinismo (como o parágrafo de abertura deste texto); a ironia foi assassinada, tendo de vir sucedida do odioso SQN ("só que não") para deixar claro que o texto contém contradições.

A questão das palavras proibidas tornou-se tão patética que canais do YouTube sobre crimes reais, dedicados a analisar a violência, precisam alterar algumas grafias ("v1olência", "est*pro", "m4t4r"), ou então perdem a chance de serem monetizados. Não é uma questão de não assustar as criancinhas, é não assustar os anunciantes.

A subjetividade da literatura vem sendo ameaçada não por bolsonaristas, não pela "cultura woke", mas porque os meios de comunicação atuais buscam o consenso, a unanimidade, atingir todos os públicos, não ofender ninguém. As redes sociais, que cresceram promovendo a diversidade e a comunicação de nicho, agora têm de agradar a todo o mundo ao mesmo tempo.

E a literatura não é isso, nunca foi isso. Não tem espaço nessa realidade. Como venho dizendo, querem que vivamos em um mundo de censura livre, quando deveríamos buscar um mundo livre de censura.


11/03/2024

VEADO VENDIDO



MEU LIVRO VAI VIRAR FILME!

(não sabe de nada... inocente...)

Mas saiu hoje na coluna de Ancelmo Gois em O Globo. Veado Assassino foi vendido para o cinema ARGENTINO (acho que eu fui o único brasileiro a se beneficiar da eleição do Milei...)

Já vendi horrores de livros para o cinema, para saber que esse é só um primeiro passo. Ter os direitos vendidos não significa necessariamente que MEU LIVRO VAI VIRAR FILME! As produtoras geralmente pagam um adiantamento e, se conseguirem viabilizar, o filme acontece (daí a grana é melhor...)

Mas é sempre bacana ver esse interesse, ainda mais um livro com esse título, com esse tema. Chegou a ser sondado por produtoras importantes no Brasil, mas não deu em nada (que surpresa). Agora já assinei (e recebi) com os argentinos, que parecem estar bem empenhados em viabilizar logo, vamos ver...

A peça com Pedro Goifman no papel título também está sendo adaptada por mim, com direção da Fernanda D'Umbra. Mas também nada certo ainda; estamos atrás de viabilizar a produção, editais, parcerias, produtores... Quem quiser entrar nesse barco..

08/03/2024

Os filmes do Oscar (que eu vi




- American Fiction: adorei, achei divertidíssimo, mas o final acho muito facilitado.
- Anatomia de uma queda: Achei bonzinho, mas nada de novo.
- Barbie: Puta blábláblá chato. Uma merda.
- Assassinos da Lua das Flores: Filmão ok, meio sem graça.
- Pobres Criaturas: Esse eu ameeei. (Mas não chega perto de concorrentes do ano passado, tipo Tár e Triângulo da Tristeza).
- Segredos de um Escândalo: Moralistinha, mas bacaninha.
- Dias Perfeitos: O livro do Raphael Montes é melhor.
- O Menino e a Garça: Detestei com todas as forças.
- Homem-Aranha Através do Aranhaverso: Fui ver com preguiça, porque tava todo mundo falando, e não pude deixar de me impressionar. Dava pra esse o Oscar de animação.
- Godzilla Minus One: Uma injustiça estar só no efeitos visuais. (E não vai leva
r).

06/03/2024

A CENSURA AOS LIVROS...



Saiu no Estadão... Então AGORA temos um caso grave de censura na literatura brasileira, com demissões, restrição à circulação de um livro e mudanças num dos principais prêmios para novos escritores.

Eu já sabia dessa história do Prêmio Sesc há uns dias – que o romance vencedor estava sendo boicotado, que funcionários foram demitidos, cogitavam MUDAR O REGULAMENTO para que “obras assim” não pudessem mais vencer. Isso sim é muito grave.
 
O romance premiado – Outono da Carne Estranha, do Airton Souza – retrata relações homossexuais na Serra Pelada, foi mal visto pela chefia do Sesc, que baixou o sarrafo. E assim, todo o edital, o futuro e o legado do prêmio é ameaçado.
 
É sintomático, porque expõe aquilo de CENSURA PRÉVIA  – livros com essa temática não conseguem circular, não conseguem ganhar prêmios, não são nem inscritos em editais. O Prêmio Sesc ainda era um prêmio sério, uma zona rara em que os livros ganhavam exclusivamente pela qualidade literária (até porque, são inscritos com pseudônimo). Mas agora também querem impor barreiras extra-literárias. Ouvi dizer sobre “classificação indicativa” (que nunca existiu em livro), livros “censura livre”. E ASSIM é que nossa literatura vai se tornando cada vez mais pau no cu... no mau sentido.
 
Eu sempre falo isso, como um livro como Mastigando Humanos (narrador por um jacaré, que vive nos esgotos, se alimenta de travestis, garotos de programa) foi ADOTADO EM ENSINO MÉDIO, COMPRADO PELO GOVERNO, foi LEITURA DE VESTIBULAR, no começo do milênio. E nunca foi polêmica... (Pelo menos, nunca chegou a mim. Nunca fui chorar que eu estava sendo censurado...) Hoje em dia... jamais. O quanto encaretamos? Hoje EU sou um autor muito mais transgressor, com convites muito mais restritos, circulação muito mais restrita, do que quando eu tinha 25, 30 anos...
(Bom, talvez seja só uma questão de colágeno...)

E isso, infelizmente, não é só reflexo dos últimos anos de um governo fascista. É fruto de uma sociedade reacionária, de direita e de esquerda, que não está aberta ao conflito e ao diálogo, está sempre pronta ao cancelamento.

É uma censura de MERCADO, que veta palavras, temas controversos. As redes sociais quiseram tornar tudo acessível a todos, então não podem incomodar ninguém, não podem assustar as crianças. Querem que a gente viva num mundo censura livre, quando a gente deveria estar vivendo num mundo livre de censura. 
 
Nesse contexto, o “boicote” ao livro do Jeferson Tenório é só um detalhe (que foi inflado de maneira que me pareceu promocional), mas que deve ser observado como algo maior, respingo de uma cultura que vem refreando o potencial da nossa literatura. Está chegando aos poderosos. Agora eles se doem. Mas a gente já tá sentindo há um tempo...

Toda a minha solidariedade ao Airton Souza, que merecia estar colhendo só os louros, que outros autores menos talentosos do Prêmio já colheram, e ao Henrique Rodrigues, que sempre batalhou como ninguém pelos autores do Sesc.



14/02/2024

EU NÃO PRECISO SER ALEGRE O TEMPO INTEIRO




Jack Sparrow da Shopee. 



O carnaval foi inevitável...

Ano passado, fui atrás. Não estava bebendo, mas ainda tinha esperanças de ser feliz. Este ano estava com muito trabalho, patrão de mim mesmo, não me permiti o luxo de um feriado.

Mas os batuques, os tambores, as batidas tribais pulsavam até mim. Vindos da Augusta e filtrados pelas carcaças de prédios em construção, soavam como Suede, Eurythmics, Steklovata...

Tentei ignorar colocando um Bowiezinho no talo. Fugi para o cinema para me trancar 3 horas vendo a Anatomia de uma Queda, (tinha sido cancelada). Consegui ver Segredos de Um Escândalo, que é um filme muito silencioso. Entre os soluços de Julianne Moore, eu ainda podia ouvir uma marchinha...

Quando vi, estava na Augusta, com foliões mijando no meu pé.

Com o querido Lucas na Avenida. 


Eu até que gosto, na verdade... Dos foliões, da anarquia. Gosto de observar o desfile de corpos, os personagens, os meninos seminus... Mas pouco consigo fazer parte.
Uma coisa que acho que nunca contei, é que tenho essa deficiência, que é minha incapacidade de sorrir. Não é só por minha herança armênia, a incapacidade do nosso povo de ser feliz, é mesmo uma condição clínica.

No início da adolescência, eu disse o nome de Jesus em vão, fiz uma careta e abri a porta do congelador, tudo ao mesmo tempo. O pote de sorvete era feijão. E o sopro frio contraiu os músculos dos meus lábios, me conferindo um bico perpétuo. Vez ou outra eu até sorrio, um sorriso involuntário, quando não consigo conter. Mas daí me provoca contrações terríveis nos músculos da face, repuxam meu olho, arrebitam (ainda mais) meu nariz. Sorrir para mim é uma tristeza. (Escrevi sobre isso no meu Veado Assassino, por sinal.)

E isso também dificulta muito minha interação, no dia a dia, no meio literário, no carnaval. Acham que sou antipático. Sempre passo por carão. E incapaz de suavizar essa imagem eu só posso fazer por merecer...

Então nunca, NUNCA ninguém chega em mim, nem no carnaval, nem na vida. Ontem ainda teve um destemido que disse que eu parecia o Jack Sparrow, tomei como um elogio. “Me dá um beijo, então, por favor”, implorei. Ele disse que era mais fã de Harry Potter.

Felizmente o carnaval acabou. Acabou a necessidade de ser feliz. A chuva trouxe o silêncio e meus olhos pintados voltam a causar mais estranhamento do que sorrisos involuntários em corpos que me desdenham.

Mas o ano está só começando. No Halloween quem sabe eu consigo.

Com os queridos Kizzy e Igor, que tentaram imitar meu carão, em vão. 

FLIP 2026

Literatura em Desacordo: Eliana Alves Cruz e eu, mediados por Diogo Borges.  Foi-se mais uma Flip. Para mim, foi só a terceira. Estive na pr...